quarta-feira, junho 30, 2010

As explicações(?) de Fernando Nobre

Fernando Nobre, candidato à Presidência da República de Portugal, em resposta a um comentário meu publicado no seu blogue a propósito de Cabinda, escreveu o que se segue:

«Apesar de reconhecer que todas as críticas e opiniões devem ser feitas, até para estimular o debate construtivo, não posso deixar de lamentar a agressividade da linguagem utilizada.

Para que saiba, nunca ninguém me ouviu defender a independência de Cabinda. Pese embora os meus laços familiares com Cabinda, profundos e antigos, sempre defendi uma autonomia de Cabinda no quadro institucional angolano, como não poderia deixar de ser, tendo em conta a situação vigente.

A instituição “Associação do Tratado de Simulambuco”, de que sou um dos fundadores (tendo sido um trisavô meu que negociou o Tratado de Simulambuco), é uma instituição humanitária. Nesse quadro, tenho prestado toda a ajuda possível, a título pessoal e em nome da Fundação AMI.»

Diz Fernando Nobre que nunca defendeu a independência de Cabinda. Então, o que significa a sua frase que diz: “Que o povo português nunca esqueça, apoiando-os, os povos irmãos angolano e cabinda com o qual partilha tantos laços de sangue e de História. Eles merecem”?

Será que quando fala dos Açores, Fernando Nobre dirá “os povos irmãos português e açoriano”? Ou “os povos irmãos português e madeirense”? Ou, ainda, “os povos irmãos português e alentejano”?

Mas se calhar, ao falar da Guiné-Bissau dirá “os povos irmãos português e guineense”.

Aceito que a Associação do Tratado de Simulambuco – Casa de Cabinda seja uma instituição humanitária. Talvez por isso nos seus estatutos a palavra Cabinda apareça 13 vezes e a palavra Angola nem uma.

Talvez por isso os estatutos falem, quanto aos objectivos, de “reforçar os laços históricos, culturais entre Portugal, Cabinda”, “preservar e desenvolver a Língua Portuguesa em Cabinda”, “promover o desenvolvimento social de Cabinda”, “encorajar o convívio e a troca de experiência dos Cidadãos Cabindeses”, “juntar os amigos, filhos, quadros e todos os interessados no desenvolvimento de Cabinda e de Portugal”, “comemorar datas históricas para o Povo de Cabinda”, “divulgar a realidade sobre Cabinda e sobre Portugal”, “promover o interesse da sociedade Portuguesa e Cabindesa sobre as relações históricas entre os Povos”, “criar condições para promover a alfabetização dos Cidadãos residentes em Cabinda”.

A ser verdade que Fernando Nobre “sempre defendeu uma autonomia de Cabinda no quadro institucional angolano, como não poderia deixar de ser, tendo em conta a situação vigente”, estanha-se – no mínimo – que as autoridades angolanas tenham, em Novembro de 2007, manifestado um vivo e agressivo protesto contra diversas personalidades portuguesas como Maria Antónia Palla, Fernando Nobre, João Soares, Maria Barroso e Maria João Sande Lemos.

Tudo porque, a conferência "Caminhos para a paz" teve o apoio da "Associação Tratado de Simulambuco" e contou também com a presença do então líder parlamentar da UNITA, Alcides Sakala, bem como com os deputados Filomeno Vieira Lopes e Luís Araújo, ambos do partido Frente Para a Democracia, FPD, e do economista Justino Pinto de Andrade.

A ser verdade que Fernando Nobre “sempre defendeu uma autonomia de Cabinda no quadro institucional angolano, como não poderia deixar de ser, tendo em conta a situação vigente”, estranha-se (estanho eu) que o regime angolano tenha dito que os organizadores "pretenderam apagar ou ignorar muitos factos que demonstram a atitude dialogante e reconciliadora desde há muito assumida pelo Governo angolano, incluindo no tratamento da questão de Cabinda".

Mercenários 24 horas por dia? Sim!
- Jornalistas 24 horas por dia? Não!

Num comentário ao texto anterior (E assim se vê a força de quem (não) sabe!), César Ramos diz que “lamenta muito esta situação da Imprensa”, acrescentando que ela “irá repercutir-se cada vez mais no analfabetismo da informação do nosso País”. Pensemos no assunto.

O Bispo de Viseu (Portugal), D. Ilídio Leandro, afirmou em Maio do ano passado, a propósito do Dia Mundial das Comunicações Sociais, que «há muitos jornalistas que estão ao serviço do director e não da verdade». Mas será mesmo assim?

É mesmo assim em muitos casos, embora existam importantes excepções. O bispo deveria ter acrescentado que, por sua vez, os directores estão ao serviço dos patrões (políticos e ou económicos) e não da verdade.

As declarações do Bispo de Viseu são graves. Haverá consequências?

São graves mas tudo vai ficar, vai continuar, na santa paz de... Deus. O “jornalismo” em Portugal atingiu em alguns casos um tal estado de descrédito que já ninguém se preocupa. Num sistema de vale tudo, pouco importa se o jornalismo virou propaganda e apenas é mais uma linha de enchimento comercial.

Mas em Portugal existem organismos com responsabilidade no sector...

Existem do ponto de vista formal que mais não é do que uma forma de fingir que Portugal é um Estado de Direito. Aliás, basta esperar para ver que tanto o Sindicato dos Jonalistas como a Entidade Reguladora para a Comunicação Social fecharam-se em copas, como se nada se passasse.

A situação descrita pelo Bispo é nova?

Não. Não é nova embora se tenha agravado com o advento da “ditadura” democrática do governo socialista de José Sócrates. Em alguns círculos, nomeadamente em blogues de jornalistas, o assunto tem sido passado a pente fino, embora – reconheço – sem resultados práticos.

Subentende-se então que é uma situação que assim vai continuar?

Exactamente. Vai continuar a agravar-se e até mesmo algumas vozes sonantes, como a do Bispo de Viseu, tenderão a calar-se porque ninguém gosta de pregar no deserto. Além disso, mesmo dentro da classe dos jornalistas, a tendência é passar a pensar com a barriga, o que significa que para sobreviver o melhor é comer e calar.

A ser assim, é a própria liberdade de imprensa que está em risco...

Na maioria dos casos a liberdade de imprensa já foi à vida, dir-se-ia que a bem da Nação. E, ao que parece, ninguém repara que a própria democracia está inquinada e pode finar-se a qualquer momento.

Então o próprio jornalismo está condenado?

Está condenado. Para além de terem de comer o que lhe querem dar e calar para manter o emprego, os jornalistas estão a ser transformados em meros produtores de textos de linha branca aos quais as empresas apenas colam o rótulo que mais conveniente for.

Isso significa vender gato por lebre?

Mais do que isso. Significa vender gato por qualquer coisa que dê dinheiro, seja lebre, canguru, preguiça ou até mesmo frango. É, aliás, uma forma de pôr os jornalistas ao serviço da “verdade” oficial ditada nas “offshores” da manipulação das massas.

Os órgãos de soberania, nomeadamente o governo, não podem fazer nada?

Poder, podiam... mas não era a mesma coisa. Nada fazem porque este é o modelo de “informação” que querem. É o modelo que em vez de dar voz a quem a não tem, amplia a voz dos que têm acesso a tudo. É o modelo que em vez de lutar pelos milhões que têm pouco ou nada, luta pelos poucos que têm milhões. É, portanto, um modelo feito à medida e por medida.

Então não há mesmo solução?

Há. Não creio que a solução passe por Portugal mudar de povo. Mas tenho a certeza de que passa por Portugal mudar de políticos. Assim os portugueses tenham, como noutros tempos, tomates para o fazer.

Mudar só os políticos?

Não. Há também muitos “empresários” que deveriam ser apenas trolhas (sem ofensa para estes) e muitos supostos “jornalistas” que ocupam cargos de direcção e chefia que deveriam aprender a contar até 12 sem terem de se descalçar.

terça-feira, junho 29, 2010

E assim se vê a força de quem (não) sabe!

Os jornais da Controlinveste mostram a sua garra. O 24 Horas registou uma queda, de Janeiro a Abril, de 51%. O Diário de Notícias perdeu 28% das vendas. O Jornal de Notícias teve uma queda de 16%. O Jogo registou uma queda de 3%. É caso para dizer: quem sabe... sabe!

O Correio da Manhã foi o único diário generalista português a aumentar as vendas nos primeiros quatro meses do ano, com um crescimento de oito por cento face igual período de 2009, segundo dados hoje divulgados.

De acordo com os dados divulgados hoje pela Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragens e Circulação (APCT), entre as descidas, a maior em termos relativos foi apresentada pelo 24 Horas - que tem hoje nas bancas a última edição - do grupo Controlinveste, cuja circulação paga caiu 51 por cento, o que quer dizer que o diário vendeu menos 16.844 exemplares por edição.

A circulação paga do 24 Horas foi de 16.069 exemplares nos primeiros quatro meses do ano.

A segunda maior queda registou-se no Diário de Notícias, também da Controlinveste, que perdeu 28 por cento das vendas, ou seja, cerca de 11.119 números por dia. Entre Janeiro e Abril de 2010, o DN vendeu uma média de 29.255 jornais por dia.

Também entre os títulos que caíram nas vendas está o Jornal de Notícias, outra publicação da Controlinveste, cuja circulação média paga diminuiu 16 por cento, passando para os 83.381 exemplares.

O Público regista a quarta maior queda, tendo a circulação paga do diário da Sonae diminuído 15 por cento, passando para os 32.981 exemplares.

O diário do grupo Lena, que surgiu em Maio de 2009, o i, vendeu, segundo a associação, entre Janeiro e Abril de 2010 uma média de 12.890 exemplares por dia.

O Correio da Manhã manteve a liderança entre os diários mais vendidos no país, com vendas médias de 123.352 exemplares por edição entre os meses de Janeiro e Abril deste ano, o que representa uma subida de oito por cento face ao período homólogo.

Também o desportivo Record registou uma subida nas vendas, na ordem os três por cento, para os 69.204 exemplares por dia.

O outro diário desportivo cujas vendas são analisadas pela APCT, O Jogo, registou uma queda de três por cento, passando para uma média de 26.297 exemplares.

De golpe em golpe até ao golpe final,
a sangrenta história dos guineenses

A nomeação de António Indjai como líder das Forças Armadas da Guiné-Bissau surpreendeu a ONU e a União Europeia (não a CPLP que está sempre de acordo com quem manda) e veio levantar dúvidas sobre a independência do Governo face ao poder militar.

Surpreendeu? Levantou dúvidas? Ora essa! Alguém tem dúvidas de quem manda, de facto que não de jure, na Guiné-Bissau? Basta ver o percurso do país, nomeadamente os golpes e os assassinatos, para se saber que a lei está nas Kalashnikov.

Tudo o resto, como por exemplo a subordinação do poder militar ao político, existe apenas para contentar os exportadores de democracias, estejam eles na Europa ou nos EUA.

Duas semanas depois da intervenção militar de 1 de Abril, a dita comunidade internacional disse aos órgãos políticos de Bissau (Presidência e Governo) que o novo chefe de Estado Maior das Forças Armadas deveria ser alguém que não tivesse estado envolvido.

O resultado está à vista. Foi escolhido o principal protagonista do golpe. Diga-se, contudo, que seria impossível escolher alguém que nunca tivesse estado envolvido nos sucessivos golpes. Aliás, o lema da Guiné-Bissau parece ser: de golpe em golpe até ao golpe final.

A comunidade internacional pensa, por exemplo, que Malam Bacai Sanhá é Carlos Gomes Júnior são dirigentes políticos de uma democracia estabilizada e de um Estado de Direito. Infelizmente para todos, mas sobretudo para os guineenses, não é assim.

Recordo-me de, no início de Janeiro, o presidente da Guiné-Bissau ter convocado o Governo, o procurador-geral da República e o chefe das Forças Armadas para explicarem a razão pela qual o ex-chefe da Armada, Bubo Na Tchuto, se refugiara na sede da ONU em Bissau.

O contra-almirante Bubo Na Tchuto esteve refugiado na sede das Nações Unidas em Bissau após entrar no país de forma oficialmente clandestina, vindo da Gâmbia, onde se encontrava exilado desde Agosto de 2008, após ter sido acusado pelo Estado-Maior das Forças Armadas de ser o líder de uma alegada tentativa de golpe de Estado.

O governo da Guiné-Bissau exigiu então à ONU a entrega imediata e incondicional do oficial, invocando a necessidade de este ser apresentado à justiça para ser julgado pelos crimes de que era supostamente suspeito: tentativa de golpe de Estado, tentativa de alteração de Estado de Direito e deserção.

A ONU pediu calma ao Executivo guineense, argumentando com a necessidade de se encontrar uma solução pacífica (coisa com a qual a Guiné-Bissau parece não saber conviver) e legal para o caso, mas sempre salvaguardando as normas do direito internacional (outra das regras quase desconhecida em Bissau).

Tudo isto é, afinal, a reedição de um filme já gasto de tanto ser usado. Vão mudando os protagonistas principais, mas o argumento é sempre o mesmo. Também a assistência (CPLP e companhia) é sempre a mesma.

Recordam-se de um outro filme em que o director-geral dos Serviços de Informação do Estado (SIE) da Guiné-Bissau, coronel Antero João Correia, foi detido em Bissau por, ao que parece, se ter recusado a dar cobertura à alegada intentona golpista de 5 de Junho do ano passado?

Recordam-se que a morte de Hélder Proença e Baciro Dabó teria resultado dum tiroteio que se seguiu à resistência demonstrada por eles quando as forças da ordem, alegadamente, pretendiam detê-los pela sua suposta implicação na intentona?

Recordam-se que Kumba Ialá disse que "o senhor primeiro-ministro vai ter de explicar ao povo da Guiné-Bissau quem matou Hélder Proença, Baciro Dabó, Tagmé Na Waié e o general João Bernardo Nino Vieira. Catorze pessoas que morreram durante o seu mandato"?

Recordam-se que na Guiné-Bissau nenhum candidato, nenhum presidente acabou o seu mandato e em 15 anos o país já teve seis presidentes?

Recordam-se que o coronel Antero João Correia, antigo comandante-geral da Polícia, teria sido detido por ordens do então interino chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, Zamora Induta, depois de se recusar a assinar o comunicado do SIE que anunciava a neutralização da alegada tentativa de golpe de Estado?

Recordam-se que esta recusa teria obrigado os mentores do plano a confiar a assinatura do documento ao director-geral adjunto dos SIE, coronel Samba Djaló, que foi apontado como uma pessoa "muito próxima" (pudera!) de Zamora Induta e seu representante a nível do Ministério do Interior que tutela os SIE?

E assim se vai escrevendo a história do princípio daquilo que pode ser o fim da Guiné-Bissau. Realidade que não preocupa todos aqueles que vão continuando a cantar e a rir.

Assim vai o reino lusitano, cantando e rindo

De acordo com a ONG Artigo 19, organização, com sede em Londres, de defesa e promoção da liberdade de expressão e da liberdade de informação em todo o mundo, os tópicos das dez principais ameaças à liberdade de expressão/liberdade de imprensa são:

«1. Aumento do controlo governamental sobre os media através de uma série de mecanismos, incluindo influência política sobre os média, registos punitivos e requerimento de licenças, propriedade política, e recurso a regras antiquadas.»

Não é, mas poderia ser, tirada a papel químico do que se passa em Portugal, mesmo quando esse controlo não é feito formalmente mas, como mandam as regras de atirar a pedra e esconder a mão, através de mercenários e outras espécies de chefes de posto colocados em locais estratégicos (administrações, direcções, chefias).

«2. Leis cíveis e criminais sobre difamação, injúria e ofensa, as quais penalizam declarações factuais ou opiniões, ou as quais protegem a reputação de símbolos, instituições estatais ou religiosas, ou contam com duras penalidades.»

Isto é, fazendo fé no que se passa nas ocidentais praias lusitanas, a liberdade dos jornalistas termina (e bem) onde começa a dos políticos, por exemplo. No entanto, a dos políticos – por exemplo – nunca termina. O importante não é o interesse público mas, antes, o público que interessa aos interesses privados de quem manda, de quem se julga dono da verdade.

«3. Violência contra jornalistas e fracasso na prevenção e investigação de tais ataques, e em levar perante a justiça os seus responsáveis.»

Mais uma cópia tirada milimetricamente do que se passa a norte, embora cada vez mais a sul, de Marrocos. No recato dos areópagos do poder, os poíticos puxam da pistola sempre que ouvem falar em jornalistas (sobretudo dos que não são seus assalariados). Quando na praça pública, são defensores desde pequeninos da liberdade de Imprensa.

«4. A falha por parte de uma maioria de estados em adoptar leis que garantam o direito de acesso à informação, e a fraca concretização de tais leis em muitos estados.»

Neste caso, digo eu, Portugal é diferente. Todos os jornalistas têm acesso livre à informação... oficial. É claro que, na maioria dos casos, esse material não é informação mas, isso sim, propaganda. Mas também é verdade que os donos do país não têm culpa de considerarem informação o que os jornalistas (alguns e cada vez menos) dizem ser propaganda...

«5. Discriminação contra os grupos historicamente desfavorecidos, os quais lutam pelo exercício do seu direito à liberdade de expressão.»

Nada disso. Em Portugal não há grupos desfavorecidos. Os que existem são-no de livre vontade. Se todos quiserem ser deste Partido Socialista... passam a ser cidadãos de primeira e dessa forma entram na classe dos favorecidos.

«6. Pressões comerciais, incluindo o acréscimo da concentração da propriedade dos média e o risco de que os emissores de rádio públicos percam posição no decurso do processo de conversão digital em muitos países.»

A concentração dos media é, apenas, a parte visível do controlo por parte do poder económico e político. É muito mais fácil controlar, ou comprar, ou subordinar, meia dúzia de empresas do que dezenas de meios. Além disso, tem a clara vantagem de ser mais fácil, e Portugal está no top, transformar jornalistas em operários das linhas de enchimento de conteúdos de linha branca.

«7. Desafios para a capitalização de fundos públicos que suportem o serviço público e comunitário de rádio.»

Não se aplica, julgo, ao reino lusitano.

«8. Utilização dos interesses de segurança nacional para justificar limitações excessivas à liberdade de expressão.»

Também não se aplica ao reino. As limitações à liberdade de imprensa, não de expressão, têm por base exclusivamente a segurança dos interesses político-partidários de quem está no poder.

«9. Restrições governamentais à Internet, através da imposição de paredes de fogo e filtros, ou bloqueando websites e domínios web.»

Felizmente, e por enquanto, tal não se aplica. Não há restrições directas à Internet. As indirectas, essas existem e aumentam de volume. São do tipo, “enquanto escreveres no teu blogue o que escreves está fodido”.

«10. Acesso limitado à Internet por parte de camadas da população vulneráveis, tais como pobres, populações rurais e envelhecidas.»

Não se aplica, se bem que sejam cada vez mais os pobres (40 por cento da população portuguesa) e os desempregados (700 mil).

O artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos estabelece: «Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias por qualquer meio de expressão.»

segunda-feira, junho 28, 2010

Lello (português de primeira = PS) elogia
Paulo Jorge (angolano de primeira = MPLA)

Os partidos irmãos, no caso o MPLA (Angola) e o PS (Portugal), servem exactamente para isto. O secretário Internacional do PS, José Lello, lamentou hoje a morte do secretário para as Relações Exteriores do MPLA, Paulo Jorge, considerando-a “uma grande perda para Angola”.

Creio que, mais uma vez, este PS não só não sabe o que diz como, obviamente, não diz o que sabe (se é que sabe alguma coisa mais do que lixar os portugueses).

Por alguma razão, segundo um estudo divulgado hoje na capital do reino lusitano, 70% dos portugueses confiam pouco ou não confiam nas instituições de governo.

Numa mensagem de condolências enviada ao presidente do MPLA (partido que governa Angola desde 11 de Novembro de 1975) e ao Presidente angolano (no cargo há 31 anos), José Lello lamentou, "em nome do PS, do seu secretário-geral, José Sócrates, e do Departamento Internacional do Partido Socialista", a morte de Paulo Jorge.

“Paulo Teixeira Jorge era um lutador e um resistente mas, acima de tudo, era alguém que amava profundamente Angola. Era um bom amigo com quem me cruzava frequentemente nas reuniões internacionais e com quem concertava estratégias de afirmação comum”, escreve o secretário Internacional do PS, na carta enviada aos donos do reino angolano.

“Paulo Jorge foi fundador do MPLA, foi um combatente reconhecido pelo seu país e conduziu as conversações sobre a independência de Angola. Foi diplomata, ministro e deputado”, lembra José Lello.

É claro que também poderia lembrar algo mais sobre essas supostas conversações sobre a independência, nomeadamente quanto ao facto de as conversações terem sido uma cortina de fumo para enganar Holden Roberto (FNLA) e Jonas Savimbi (UNITA), sabido que era que o poder seria entregue apenas e só ao MPLA.

Lello poderia igualmente recordar que, em 2001, Paulo Teixeira Jorge disse que o Governo português não deveria permitir que "portugueses de ocasião" interferissem nos assuntos internos de Angola, tal como os “angolanos de ocasião” deveriam também ser impedidos de falar sobre Angola.

Lello poderia explicar também as razões que levam, mais ou menos de forma velada, as autoridades de Lisboa a aconselhar que se moderem as críticas ao regime angolano.

Dessas questões não fala José Lello porque, ao contrário do seu soba, sabe que todos aqueles que catalogam os angolanos e os portugueses em duas classes, os de primeira (afectos ao MPLA ou ao PS, ou a ambos) e os de segunda (afectos aos outros partidos ou simplesmente apartidários) nem mesmo pela barriga conseguirão calar os que são livres.

"... Eles são portugueses de ocasião, fundamentalmente são angolanos que se tornaram portugueses depois da evolução da situação em Angola", afirmou na altura Paulo Teixeira Jorge, para quem o Governo português também deveria "chamar a atenção" dos elementos da Frente de Libertação do Enclave de Cabinda (FLEC) que se encontravam em Portugal.

De ocasião ou não, angolano ou português, recuso-me a deixar de dizer o que penso ser a verdade ou, por conveniência de um discurso politicamente correcto mas que castra a liberdade, a só recordar o que interessa aos donos da verdade oficial.

Fecham-se jornais e despedem-se jornalistas
- "É assim que eu quero e é assim que vai ser"

O Grupo Controlinveste comunicou hoje o encerramento dos jornais “24 Horas” e “Global Notícias” e o despedimento colectivo dos jornalistas e outros trabalhadores que não forem integrados noutras publicações, encetando assim uma nova operação de redução dos efectivos ao seu serviço.

Em Portugal, ao contrário de outros países, os Jornalistas são assassinados de forma subtil. Uns são comprados (viram assessores, consultores etc.), outros silenciados (prateleiras) e outros vão para o desemprego. Não morrem fisicamente (pelo menos por enquanto) mas vêem a dignidade ir desta para melhor. Mas a sociedade continua a cantar e a rir.

Ou como diz o presidente da Lusa, ex-administrador da Controlinveste, Afonso Camões, “é assim que eu quero e é assim que vai ser”.

O Governo português (do Partido Socialista de José Sócrates) lidera a guerra aos Jornalistas, nem que seja por interpostas pessoas, entidades, empresas. Depois de ter comprado os que achou necessários, de ter dado cobertura aos negócios que entendeu vitais para eliminar qualquer tipo de contestação, entrou agora (nem que seja por interpostas pessoas, entidades, empresas) na fase de arrumar os que (ainda) não se renderam.

Ou como diz o presidente da Lusa, ex-administrador da Controlinveste, Afonso Camões, “é assim que eu quero e é assim que vai ser”.

Assim, pelas bandas do reino das ocidentais praias lusitanas, há meios mais sofisticados para atingir os mesmos fins. Não é preciso dar um, ou quantos forem precisos, tiro no Jornalista. Basta fazer uma reestruturação empresarial (sinónimo óbvio de despedimentos).

Quando o Jornalista descobrir que não tem dinheiro para pagar o empréstimo da casa ou os estudos dos filhos... dá um tiro na cabeça.

Por outras palavras, como diz o presidente da Lusa, ex-administrador da Controlinveste, Afonso Camões, “é assim que eu quero e é assim que vai ser”.

Porquê os Jornalistas? Porque a verdade é incómoda, seja na Rússia, em Angola ou em Portugal. O que varia são os métodos para calar o mensageiro.

Em Portugal, apesar da guerra que o Governo move aos Jornalistas (nem que seja por interpostas pessoas, entidades, empresas), não faltam ministros, deputados e políticos em geral (todos de pistola no bolso) a dizer que a liberdade de Imprensa é um valor sagrado.

Sagrado sim desde que não toque nos interesses instalados, desde que só diga a verdade oficial.

E, enquanto isso, fecham-se jornais, despedem-se jornalistas, contratam-se administradores, nomeiam-se gestores. Tudo isto porque, no reino, como diz o presidente da Lusa, ex-administrador da Controlinveste, Afonso Camões, “é assim que eu quero e é assim que vai ser”.

No reino do “play-back” da competência

De há muito (e por isso estou na fase de aprender a viver sem comer) que considero que qualquer um pode ser chefe, seja do que for. Tal como entendo que para ser líder o processo é diferente.

É que pensar que se é bom chefe só porque se usa gravata ou porque alguém lhe deu o título, é, mais ou menos, como pensar que se é pintor só porque se conhecem as cores do arco-íris. Um chefe dá ordens, um líder dá o exemplo.


Em entrevista hoje ao Público, Narciso Miranda diz que “o PS tem um chefe e não um líder”, acrescentando que “quando assumimos o poder, houve uma prática de muita arrogância e autismo”, e que foi “a partir desse momento que apareceram muitos cristãos-novos, que não conheciam bem, ou não tiveram o cuidado de conhecer, o projecto ideológico do PS e estamos agora a pagar uma factura pesada dessa arrogância...”

É por isso que para mim é, hoje como ontem, confrangedor o culto ao chefe por parte dos socialistas. Eu sei que já há muitos a dar sinais de que a todo o momento (basta o chefe deixar de o ser) podem mudar de barricada. Mas, mesmo assim, tenho alguma dificuldade em entender como é que socialistas inteligentes continuam de cócoras e, parafraseando Renato Sampaio, tem “falta coragem para escreverem o que pensam”.

É bem verdade, no entanto, que mudam-se os tempos... mudam-se as vontades. Num artigo de opinião do jornal Público há para aí três anos, intitulado "Contra o medo", Manuel Alegre criticava "a confusão entre lealdade e subserviência" que, segundo o socialista, se verificam no Governo de José Sócrates. Recordam-se?

"Há um clima propício a comportamentos com raízes profundas na nossa História, desde os esbirros do Santo Ofício até aos bufos da PIDE", escreveu Manuel Alegre, acusando o Partido Socialista de "auto-amordaçar-se". Recordam-se?

Mas a vida é mesmo assim, sobretudo nas ocidentais praias lusitanas a norte, embora cada vez mais a sul, de Marrocos. O presente (e se calhar o futuro) está para os sabem assinar apenas o que lhe mandam, para os que têm coluna vertebral amovível e que quase sempre a deixam em casa, para os que pensam com a cabeça do chefe.

Estas são, aliás, características que podem abrir a qualquer cidadão lugares bem remunerados na Assembleia da República portuguesa, nos partidos, no governo, nas empresas públicas etc..

Pelo contrário, os que são daquela espécie profissional que acha que dizer a verdade é a melhor qualidade, que pensa que deve dar voz a quem a não tem, o melhor é ir pregar para outra freguesia ou deixar-se estar no desemprego.

Se, pelo contrário, considera que a única verdade é a verdade do chefe, se para si o importante é ajudar os poucos que têm milhões a ter mais uns milhões, pouco importando os milhões que têm pouco ou nada, se não consegue assinar (porque não sabe assinar) a ficha de candidatura, mas consegue pôr o dedo, ou já é ou será um grande político, autarca, deputado, ministro, gestor, director e por aí fora.

Durante anos (muitos, é certo) Portugal parecia um país sério, mas não era. Agora não parece nem é. São cada vez mais os exemplos (políticos, empresariais etc.) dos que se julgam pianistas só porque compraram um piano. Aliás, continuam a ter em cima do piano a foto em que aparecem a cumprimentar José Sócrates (o cartão do partido, esse está na carteira).

Por outras palavras, se se medir o nível intelectual deste Portugal “made in Largo do Rato” pelo número de pianos, obras de arte etc. é certo que o país está bem colocado.

Numa sociedade onde o que importa é o que se aparenta, onde o relevante é o deslumbrante “play-back” de Luciano Pavaroti quando se tem voz de Zé Cabra, são cada vez mais os que estão na ribalta embrulhados em etiquetas sociais de renome, talvez até importadas de Paris. O presente é, ou parece, ser deles. Se o futuro também o for, então Portugal estará cada vez mais perto de Marrocos.

São como os frutos de plástico que ornamentam as exposições de mobiliário. Lindos, gostosos e sedutores quando vistos à distância… Pena é, contudo, que como a fome é negra, qualquer prato de lentilhas chega para comprar consciências.

Não deixa, contudo, de ser elucidativo ver como o acessório é mais relevante do que o essencial, como o embrulho é mais importante do que o produto, como a capa é mais vital do que o conteúdo, como o cargo é mais paradigmático do que tudo o resto.

É uma sociedade de faz de conta, onde o que importa é dizer-se que se tem um stradivarius por que se sabe que ninguém vai querer saber que o instrumento é, afinal, feito com latas de sardinha e foi comprado na Feira da Vandoma, no Porto.

E assim não vamos lá. Portugal precisa de uma estratégia (ou desígnio) que valorize quem tem ideias e não quem diz que as tem. Que institua o primado da competência independentemente da filiação partidária e das cunhas.

No entanto, para os especialiats em “play-back” de competência, e no caso de ainda o não terem feito, aconselho que garantam, antes que seja tarde, um tacho.

domingo, junho 27, 2010

O que é feito do centro de emergência médica no Porto, o primeiro a existir em Portugal?

O secretário de Estado da Saúde de Portugal, Manuel Pizarro, anunciou no dia 24 de Março do ano passado, a criação, no Porto, do primeiro Centro de Emergência Médica no país que irá melhorar a operacionalidade dos meios de socorro pré-hospitalar na região Norte.

Manuel Pizarro avançou que as obras para a construção do espaço deveriam arrancar no início de 2010, estando a sua conclusão prevista para o final desse mesmo ano.

Porque não encontrei (certamente por falha minha) nenhuma notícia sobre a evolução deste projecto, cujo início e conclusão estavam previstos - repito - para este ano, solicito aos leitores cá da casa o favor de me ajudarem.

Recordo que o memorando de entendimento para a criação desta infra-estrutura, que reunirá a delegação regional do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) do Norte, os meios operacionais e o heliporto, foi assinado nesse dia entre o INEM e a Santa Casa da Misericórdia do Porto.

“O Centro de Emergência Médica permitirá agrupar meios dispersos que o INEM tem instalado na Área Metropolitana do Porto e melhorar as suas condições de operacionalidade”, salientou o secretário de Estado da Saúde.

O novo espaço, que ficará localizado nas traseiras do hospital psiquiátrico Conde Ferreira, reunirá a sede do INEM de Avaliação Regional do Norte, onde está o CODU Norte e um conjunto de meios operacionais, o sistema de apoio logístico do INEM Norte e o heliporto, que está localizado actualmente no Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, adiantou.

Manuel Pizarro salientou que a reunião destes meios no mesmo local, preparado expressamente para o efeito, a “localização privilegiada” e os acessos directos à Via de Cintura Interna, à A3 e à A4 permitirá “melhorar a operacionalidade dos meios de socorro pré-hospitalar na Área Metropolitana do Porto e em toda a região Norte”.

O investimento aplicado é, numa primeira fase, de 7,5 milhões de euros.

“Este investimento tem de ser contrabalançado com o facto do INEM deixar de suportar o pagamento do arrendamento dos espaços que agora utiliza na Área Metropolitana do Porto e com o facto da concentração de meios permitir gerir melhor os recursos humanos que neste momento estão afectos às diversas modalidades de apoio de que o INEM dispõe”, justificou.

Num prazo de três meses, até Julho de 2009, deveriam ser estabelecidos os aconselhamentos técnicos necessários à implementação do projecto que precisa do parecer favorável das Estradas de Portugal para a criação do acesso directo à Via de Cintura Interna, do Instituto Nacional de Aviação Civil com vista à operacionalização do heliporto e da Câmara do Porto.

Haverá uma segunda fase que passará pela criação no Porto de uma escola nacional de emergência médica, que implicará um investimento de oito milhões de euros.

No entanto, a criação desta escola ainda estava a ser programada e exige o estabelecimento de um acordo entre o INEM e uma ou mais instituições universitárias com quem se estabelecer parcerias.

MPLA reabilita Fernando Nobre

Em Novembro de 2007, e de acordo com a Angop, uma agência de propaganda afecta e paga pelo MPLA, o regime angolano insurgiu-se contra os que, em Lisboa, promoveram uma conferência sobre Cabinda.

Sem meias palavras, o protesto do regime angolano citou diversas personalidades portuguesas como Maria Antónia Palla, Fernando Nobre, João Soares, Maria Barroso e Maria João Sande Lemos.

A conferência "Caminhos para a paz" teve o apoio da "Associação Tratado de Simulambuco", contou também com a presença do então líder parlamentar da UNITA, Alcides Sakala, bem como com os deputados Filomeno Vieira Lopes e Luís Araújo, ambos do partido Frente Para a Democracia, FPD, e do economista Justino Pinto de Andrade.

De acordo com a Angop, que o mesmo é dizer de acordo com o regime angolano do MPLA, a reunião foi – como tudo o que contrarie a ditadura de José Eduardo dos Santos - "uma vergonha nacional", que visava comprometer o Governo angolano na véspera da cimeira EU/África.


Segundo o MPLA, os organizadores "pretenderam apagar ou ignorar muitos factos que demonstram a atitude dialogante e reconciliadora desde há muito assumida pelo Governo angolano, incluindo no tratamento da questão de Cabinda".

Boa! Atitude dialogante? Diálogo, segundo o meu dicionário que é, creio, bem diferente do da Angop, significa a conversação entre duas ou mais pessoas. O que o MPLA faz é monólogo: impõe a razão da força e depois compra meia dúzia de fantoches para dizer que “democraticamente” impôs a força da razão.

"Esta atitude deplorável que já se mostrou negativa no passado para a necessária concórdia entre os angolanos, surge numa altura em que o país tem estabilidade política e possui um enorme sucesso económico", referia a Angop.

Seja como for, a partir de ontem o MPLA pode retirar da lista negra um dos nomes que apontou como principal instigador da luta contra o regime de Angola, no que à sua colónia de Cabinda respeita: Fernando Nobre.

De facto, Fernando Nobre mudou de barricada, mudou de causas, passou de Homem livre a mais um acólito das “verdades” construídas a partir do petróleo, das “verdades”que mudam a História consoante os interesses de momento.

Desde ontem, que o MPLA passou a ter em Fernando Nobre mais um aliado da sua causa. Assim, Fernando Nobre deixou de estar preocupado com os que não têm voz e ajudou a ampliar a mentira de que “Angola vai de Cabinda ao Cunene”.

Afinal, parece-me, há cirurgias que permitem que a coluna vertebral se torne amovível...

sábado, junho 26, 2010

Que vergonha, Dr. Fernando Nobre

“É evidente que hoje não passa pela cabeça de ninguém que Angola não vá de Cabinda ao Cunene. Assim ficou definido no momento da independência”, disse hoje Fernando Nobre, relegando para as calendas os legítimos direitos dos cabindas que, pelo menos até hoje, acreditavam na força da razão.

Agora ficou claro que, também para Fernando Nobre, o que conta é a razão da força. Mesmo assim, os cabindas vão continuar a sua luta. Eles, como até há pouco Fernando Nobre, sabem que só é derrotado quem deixa de lutar.

Fernando Nobre deixou de lutar por esta causa. Foi derrotado. E, pela aragem, esta será apenas a primeira de muitas outras derrotas. Isto porque, na minha opinião, é cada vez menor a fronteira entre Manuel Alegre, Cavaco Silva e Fernando Nobre.

Essa de que Angola vai de Cabinda ao Cunene devido à independência não lembraria ao Diabo.

Ainda quero ver o que dirá Fernando Nobre quando, um dia destes, na altura em que a cobardia internacional, com Portugal à cabeça, deixar de ser moeda de troca com o petróleo, chegar a vez de Cabinda ter voz e direitos não como território ocupado, ou como colónia de Angola.

E eu penso o mesmo que até agora pensava Fernando Nobre. Ou seja, que desde há muito tempo que Cabinda não faz parte de Angola e que, por isso, deve ser um país independente. Dir-me-ão alguns (presumo que desde hoje também Fernando Nobre), sobretudo os que se julgam donos de uma verdade adquirida nos areópagos da baixa política angolana ou portuguesa, que isso é uma utopia.

Mais coisa menos coisa, são os mesmos que há umas dezenas de anos diziam o mesmo a propósito da independência de Angola, de Moçambique, da Guiné-Bissau, de Cabo Verde, de Timor-Leste. São os mesmos que há pouco tempo diziam algo semelhante a propósito do Kosovo. São os mesmos que nesta altura dizem o mesmo quanto ao País Basco.

Mas, tal como se disse em relação a Angola e ao Kosovo, um dia destes estará por aqui alguém a falar da efectiva independência de Cabinda, por muito que isso custe às serôdias ideias de Fernando Nobre.

Até que esse dia chegue continuará a indiferença (comprada com o petróleo de Cabinda), seja de Portugal, da Comunidade de Países de Língua Portuguesa ou até mesmo da comunidade internacional.

Portugal continua, como vem sendo hábito recente e agora também com o apoio de Fernando Nobre, de cócoras porque – com razão – teme que qualquer hostilidade em relação ao soba de Luanda possa fazer com que Angola retire a Oferta Pública de Aquisição (OPA) sobre Portugal. E se isso acontecer será uma chatice.

É por isso que Cabinda nunca consta oficialmente da agenda de encontros oficiais entre o consórcio que lidera a OPA e as entidades que gerem Portugal, caso do Governo e do presidente da República.

Eu sei que, no contexto africano, Portugal é do ponto de vista prático uma carta fora do baralho. Cada vez mais o poder do MPLA entende que as autoridades portuguesas fazem tudo o que ele quiser. Até agora tem sido assim. Até conseguem que Anibal Cavaco Silva, enquanto presidente da República, quando fala de Angola sinta necessidade de esclarecer que o país vai de Cabinda ao Cunene, até conseguiram ter Fernando Nobre do seu lado.

Mas, como dizia o Mais Velho, ainda é a dor que nos faz andar, ainda é a angústia que nos faz correr, ainda são as lamúrias e as lamentações, que de vários cantos do país nos chegam, que nos fazem trabalhar; ainda é a razão dos mais fracos contra os mais fortes que nos faz marchar.

Pena é que Fernando Nobre tenha desistido dessa luta...

Fernando Nobre já não é um Homem livre:
pôs as causas não só à venda como em saldo

Ao contrário do actual presidente da República portuguesa, Cavaco Silva, e do outro candidato ao cargo, Manuel Alegre, o presidente da AMI (Assistência Médica Internacional), Fernando Nobre, sabe o que é Cabinda, conhece os acordos assinados por Portugal. Apesar disso dá o dito por não dito.

Fernando Nobre afirmou hoje que gostaria de ver garantido o respeito pelos direitos humanos de todos os angolanos, independentemente do que acontecer em Cabinda.

“Desejo sinceramente que em todo o território de Angola, como em todos os países, inclusive o nosso, a Amnistia Internacional não tenha que fazer críticas ao comportamento que é, por vezes, aplicado a opositores do regime, porque é isso que define um regime democrático”, disse o candidato à Presidência da República.

“Desejo também que não se avance para o combate armado [em Cabinda), porque a partir do momento em que há conflitos armados as regras mudam de figura”, acrescentou Fernando Nobre nas comemorações do primeiro aniversário da Associação de Angolanos e Amigos de Angola, que decorreu hoje em Setúbal.

Natural de Angola e fundador da Associação Tratado de Simulambuco, que reconhecia Cabinda como um protectorado português, Fernando Nobre admite, no entanto, que aquele território é hoje parte integrante de Angola.

“É evidente que hoje não passa pela cabeça de ninguém que Angola não vá de Cabinda ao Cunene. Assim ficou definido no momento da independência”, disse.

Questionado pela agência Lusa sobre o diálogo que poderia manter com as autoridades angolanas sobre estas questões, caso fosse eleito Presidente da República, Fernando Nobre prometeu ser frontal em privado, mas comedido em público.

Os argumentos para a mudança de posição de Fernando Nobre sobre Cabinda são falaciosos e vergonhosos. Basta ver que a Associação Tratado de Simulambuco foi formada já depois da independência de Angola, em 2003, o que contraria a sua recente tese de que as fronteiras angolanas ficaram estabelecidas nessa altura, 11 de Novembro de 1975.

“Que o povo português nunca esqueça, apoiando-os, os povos irmãos angolano e cabinda com o qual partilha tantos laços de sangue e de História. Eles merecem.”

Quem é que disse isto? Quem é que escreveu “os povos irmãos angolano e cabinda“? Não, não foi Cavaco Silva. O presidente da República de Portugal, embora consciente de que está a aviltar a História e os factos do seu país, nunca faria a distinção entre angolanos e cabindas.

Todos devem “pugnar verdadeiramente pela tolerância e concórdia nacional (estou a pensar especificamente em Cabinda, atropelada pela História da descolonização e sempre sofredora)”.

Quem disse isto tudo, recentemente, foi Fernando Nobre. Disse-o quando, obviamente, era o que afinal deixou agora de ser: um Homem livre.

Ao contrário do que continuam a dizer os donos da verdade, paridos a partir de 1974 nas latrinas da ignorância e da ignominia, Cabinda e Angola foram, são e serão (queira ou não também Fernando Nobre) situações diferentes.

Assim, fazendo fé de que a História de Portugal não começou só a ser escrita a partir de 1974, a situação de Cabinda relativamente a Angola era, em 1974, idêntica à dos protectorados belgas do Ruanda e do Burundi em relação ao Congo Belga.

Isto significa que se tornaram independentes, separados do Congo ex-belga, depois de, em 1960, a grande colónia belga se ter tornado independente.

Proíbam-se os blogues... a bem da Nação

Os membros do Exército Popular de Libertação (EPL) da China estão proibidos de ter blogues ou páginas na Internet, noticiou hoje a agência oficial Xinhua.

Ora aqui está um bom exemplo que o governo português certamente estará tentado a copiar, embora em versão melhorada e alargada.

Já terão os socialistas vassalos do líder supremo, José Sócrates, pensado nas vantagens para a democracia e para o Estado de Direito (socialistas) que traria a proibição de, entre muitos outros, os jornalistas terem blogues e páginas na Internet?

Seria, creio, um sossego total. Não haveria, com certeza, campanhas negras contra o líder supremo, nem necessidade de os políticos falarem de “espionagem política”, “sujeira”, “coscuvilhice” e “política de fechadura”...


As regras chineses entraram em vigor no passado dia 15 e baseiam-se na confidencialidade que deve rodear a vida de um membro do exército.

O mesmo princípio, democrático e socialista, poderia ser aplicado em Portugal, desde logo porque o importante não é o que o Governo pode fazer pelos cidadãos mas, isso sim, o que os cidadãos podem fazer pelo Governo.

“Não poderão ter portáteis ou blogues na Internet”, disse Wan Long, comissário político do regimento militar de Cantão ao jornal do ELP. As novas regras também proíbem os membros do exército de publicar anúncios nos meios de comunicação social.

Segundo o comandante do sub comando militar na cidade tibetana de Xigaze, se a informação de oficias ou soldados atraem a atenção isto “representará uma ameaça à confidencialidade das Forças Armadas”.

Bom argumento. Quando adaptado, daria que se a informação dos jornalistas e similares atraem a atenção, isto “representará uma ameaça à capacidade dos Governo” lusitano.

sexta-feira, junho 25, 2010

Anómalas anomalias, anomalias anómalas

Em Portugal (onde mais poderia ser?), a Procuradoria Geral da República (PGR) anunciou hoje que "vai ser aberto um inquérito para apuramento de responsabilidades" relativamente ao facto de o processo de difamação aberto por Manuela Moura Guedes contra o primeiro-ministro ter estado oito meses parado.

Oito meses? Mas o que é que são oito meses? Tanto escarcéu por uma bagatela de tempo?

Se fosse tanto tempo parado por o processo ter sido contra um pilha-galinhas, ainda seria de espantar. Desde logo porque na democracia portuguesa e no Estado de Direito que Portugal diz ser, o tempo de paragem dos processos varia em função da relevância política dos donos do poder.

O Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa já tinha classificado hoje, diz a Lusa, como "anómalo" o facto de o processo de difamação aberto pela jornalista da TVI, Manuela Moura Guedes, contra o primeiro-ministro, José Sócrates, ter estado parado oito meses.

Bem vistas as coisas, o processo foi vítima da grande afluência processual que, como em tudo na vida, foi acumulando processos por cima dos que já existiam. Nada mais do que isso. O facto de estar envolvido o primeiro-ministro é mera coincidência. Ele não tem culpa, sejamos razoáveis, que tenham posto toneladas de outros processo sobre aquele que o envolvia...

Também numa resposta enviada à Lusa, o DIAP reconhece que não é “habitual” os processos estarem parados naquele departamento do Ministério Público, considerando que a situação que envolve a queixa interposta a 20 de Outubro de 2009 pela jornalista contra o primeiro ministro é “anómala”.

Numa nota enviada no dia 23 deste mês às redações, a PGR referia que “não há qualquer diligência realizada, nem, obviamente, constituição de arguido" neste caso. A queixa apresentada por Manuela Moura Guedes imputa a José Sócrates crimes de difamação, injúria e calúnia.

Enquanto se tenta descobrir se é o país que é anómalo, e depois de a Assembleia da República considerar não ter competência para analisar o pedido de levantamento da imunidade parlamentar ao primeiro-ministro, o processo foi entregue a um procurador geral adjunto do Supremo Tribunal de Justiça.

“Estando o processo na fase de inquérito, a competência é do Ministério Público", cabendo "ao procurador geral adjunto junto do Supremo Tribunal de Justiça, como representante do procurador geral da República, a direcção das diligências a realizar”, refere a mesma nota.

Entretanto, daqui a mais uns... oito meses alguém acabará por fazer contas e, à boa maneira portuguesa, concluir que o processo está parado há 16 meses.

“As pessoas têm direito a ter expectativas, mas não têm direito a ter opinião"

No dia 28 de Novembro de 2009 descrevi aqui algumas experiências directas que tive no Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa (Portugal), Unidade Hospital Padre Américo (Penafiel). Delas dei, aliás, conhecimento directo à Administração liderada por José Alberto Marques.

Como é óbvio, não tive resposta. E o silêncio, para não dizer a sobranceria típica dos donos da verdade, faz-me lembrar que em Janeiro de 2008, quando confrontado com a insatisfação manifestada pela população de Felgueiras com o encerramento do SAP (Serviço de Atendimento Permanente) local, Alcindo Salgado Maciel Barbosa, então presidente da Administração Regional de Saúde do Norte, foi lapidar: “As pessoas têm direito a ter expectativas, mas não têm direito a ter opinião".

E a regra deve ser essa: não ter opinião. Mas, como sempre, as regras ditatoriais não se aplicam aqui no Alto Hama.

Recordo o que se passou em Penafiel. Por necessidade de pessoa da família, com 84 anos de idade, tive de estar na Unidade Hospital Padre Américo várias vezes no espaço de 15 dias.

Num desses dias, a pessoa em questão deu entrada às 14 horas e foi vista pelo médico às 18,45 horas. Esteve, portanto, quase cinco horas numa cadeira de rodas à espera da sua vez. E depois de vista pelo médico ainda aguardou mais duas horas e meia pelo resultado da análise ao sangue e à urina.

Tendo estado três vezes em 15 dias na urgência do Hospital Padre Américo pelo mesmo problema, dá para comparar a forma, a metodologia, a eficácia, a funcionalidade e o profissionalismo dos três médicos diferentes que a consultaram.

O primeiro fez o diagnóstico que certamente achou mais correcto, tendo para isso prescrito os medicamentos que entendeu necessários. Como não se viam melhoras, a doente volta à urgência e, é claro, é vista por outro médico. Este indigna-se com os medicamentos receitados pelo colega, dasabafa alguns impropérios, e receita nova medicação.

Dias depois a doente continua igual, ou seja mal, e volta à urgência. Novo médico, novas censuras aos colegas e, como é óbvio, nova medicação.

Caricato? Se calhar não. Mas que alguma coisa vai mal, isso vai. Apesar disso, reconheço, Portugal deve estar melhor do que, por exemplo, a Guiné-Bissau (isto para não estar sempre a falar do Burkina Faso).

Já agora, volto ao brilhantismo socialista de Alcindo Salgado Maciel Barbosa para quem – repita-se – os portugueses “não têm direito a ter opinião".

De facto, os portugueses, sobretudo os que frequentam como utentes os SAP, já desconfiavam que os seus direitos estavam a ser ultrajados. Passaram a ter a certeza. É-lhes mantido, por enquanto e segundo Maciel Barbosa, o “direito a ter expectativas” mas não - é claro – o direito a ter opinião.

Opinião podem ter, calculo eu, os donos da verdade da política portuguesa, começando pelo primeiro-ministro e acabando no primeiro-ministro, com algumas excepções devidamente autorizadas pelo primeiro-ministro.

Bem vai dizendo, enquanto tiver direito a ter opinião, António Barreto que José Sócrates “não tolera ser contrariado, nem admite que se pense de modo diferente daquele que organizou com as suas poderosas agências de intoxicação a que chama de comunicação”.

E enquanto José Sócrates, com a ajuda de todos os Macieis Barbosas deste deserto, não me impedir de ter opinião, fiquem sabendo que na minha opinião este primeiro-ministro português é, de facto, “a mais séria ameaça contra a liberdade, contra autonomia das iniciativas privadas e contra a independência pessoal que Portugal conheceu nas últimas três décadas”.

Enquanto espera por novo golpe de Estado,
Indjai chefia as Força Armadas guineenses

Os EUA, que de África só sabem que tem petróleo e negros, avisaram as autoridades da Guiné-Bissau que o novo chefe das Forças Armadas não poderia estar implicado nos acontecimentos de 1 de Abril, como era o caso do major-general António Indjai.

Perante este aviso, o governo de Carlos Gomes Júnior escolheu (e o presidente Balam Bacai Sanhá aceitou) para chefiar as Forças Armadas, nem mais nem menos do que... António Indjai.

Posição idêntica à dos EUA tem sido defendida pela União Europeia, cujos representantes em Bissau, por exemplo, boicotaram ontem uma conferência de sensibilização para a reforma do sector da defesa e da segurança organizada pela ONU e pelo governo guineense.

De acordo com a escolha de António Indjai está, é claro, a Comunidade de Países de Língua Portuguesa. Está de acordo com esta escolha, como estaria com qualquer outra. Para a CPLP o importante é estar de acordo, seja com Deus ou com o Diabo e até, se possível, com ambos ao mesmo tempo.


A escolha de António Indjai é, aliás, uma vitória para a CPLP. Desde logo porque o chefe Estado Maior das Forças Armadas de Guiné-Bissau (país da CPLP, recorde-se), nem uma palavrinha sabe dizer, com ou sem Acordo Ortográfico, em... português.

No entanto, reconheço, António Indjai - entre muitos outros - fala uma outra língua internacionalmente, mas sobretudo em África, bem conhecida e de grande poder: o kalashnikovês.

Recorde-se, enquanto não chega o próximo golpe de Estado, que Indjai foi o protagonista dos acontecimentos militares de 1 de Abril e que chegou (embora depois tenha pedido desculpa) a ameaçar de morte o primeiro-ministro, Carlos Gomes Júnior.

“Peço desculpa pelas palavras que proferi contra o primeiro-ministro. Tinha muita pressão sobre mim, devido à aglomeração de pessoas nas ruas, por isso disse que se o povo não abandonasse as ruas vou mandar matá-lo”, afirmou então o general Indjai.

Na mesma altura, instado sobre se passaria a ser ele o chefe do Estado-Maior, António Indjai disse que não, mas que as Forças Armadas iam aguardar pela indicação “pelos políticos” de um novo responsável.

E então hoje, sob propostas de Carlos Gomes Júnior, ficou a saber-se que é mesmo ele o Chefe... até que um outro militar resolva pôr o seu kalashnikovês a funcionar.

quinta-feira, junho 24, 2010

Verdades dos EUA e UE sobre a Guiné-Bissau
aterrorizam donos da Comunidade Lusófona

Os EUA avisaram hoje, em comunicado, que poderão não vir a apoiar a processo de reforma do sector da segurança na Guiné-Bissau, enquanto não ficar claro que as Forças Armadas se submetem ao poder político.

De uma forma geral, os EUA sabem que a força da razão dos políticos (de alguns, pelo menos) nunca conseguirá vencer a razão da força dos militares. E por isso vão avisando. Mesmo assim, os avisos vão resvalando na petrificada couraça dos militares para quem a lei só tem um nome: Kalashnikov.

“É impossível para os EUA contribuir para o processo de reforma da segurança e da defesa se essas pessoas, ou outros implicados no tráfico de estupefacientes, forem nomeados ou permanecerem em postos de responsabilidade nas Forças Armadas”, refere em comunicado a embaixada dos EUA em Dacar, Senegal.

Washington vai mais longe, ao sublinhar que é “imperativo” que o chefe das Forças Armadas – que deve ser nomeado em breve pelo Presidente da República, Malam Bacai Sanhá, – não esteja “implicado nos acontecimentos de 1 de Abril”, evocando implicitamente o major-general António Indjai.

Posição idêntica à dos EUA tem sido defendida pela União Europeia, cujos representantes em Bissau boicotaram hoje uma conferência de sensibilização para a reforma daquele sector organizada pela ONU e pelo governo guineense.

Quanto à CPLP (Comunidade de Países de... Língua Portuguesa), cuja presidência portuguesa passará em breve para as mãos do “democrata” José Eduardo dos Santos, continua de bico calado para ver se ninguém dá por ela.

Tudo isto é, afinal, a reedição de um filme já gasto de tanto ser usado. Vão mudando, por fuga, morte ou prisão, os protagonistas principais, mas o argumento é sempre o mesmo. Também a assistência (CPLP e companhia) é sempre a mesma.

Recordam-se que o director-geral dos Serviços de Informação do Estado (SIE) da Guiné-Bissau, coronel Antero João Correia, foi detido em Bissau por, ao que parece, se ter recusado a dar cobertura à alegada intentona golpista de 5 de Junho do ano passado?

Recordam-se que a morte de Hélder Proença e Baciro Dabó teria resultado dum tiroteio que se seguiu à resistência demonstrada por eles quando as forças da ordem, alegadamente, pretendiam detê-los pela sua suposta implicação na intentona?

Recordam-se que Kumba Ialá disse que "o senhor primeiro-ministro vai ter de explicar ao povo da Guiné-Bissau quem matou Hélder Proença, Baciro Dabó, Tagmé Na Waié e o general João Bernardo Nino Vieira. Catorze pessoas que morreram durante o seu mandato"?

Recordam-se que na Guiné-Bissau nenhum candidato, nenhum presidente acabou o seu mandato e em 15 anos o país já teve seis presidentes?

A democracia que faz brilhar os olhos dos bem nutridos dirigentes da CPLP tem destas coisas. Ou se é favor de quem está no poder ou, é claro, vai-se para a choldra. Ou se é a favor ou choca-se com uma bala perdida.

Recordam-se que o coronel Antero João Correia, antigo comandante-geral da Polícia, teria sido detido por ordens do então interino chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, Zamora Induta, depois de se recusar a assinar o comunicado do SIE que anunciava a neutralização da alegada tentativa de golpe de Estado?

Recordam-se que esta recusa teria obrigado os mentores do plano a confiar a assinatura do documento ao director-geral adjunto dos SIE, coronel Samba Djaló, que foi apontado como uma pessoa "muito próxima" (pudera!) de Zamora Induta e seu representante a nível do Ministério do Interior que tutela os SIE?

Ao que parece, tanto os políticos guineenses como os donos do poder na comunidade internacional, continuam pouco ou nada preocupados com o facto de os pobres guineenses (a esmagadora maioria) só conhecerem uma forma de deixarem de o ser.

E essa forma é usar, não um enxada, uma colher de pedreiro ou um computador, mas antes uma AK-47. E enquanto assim for...

É que dois em cada três guineenses vivem na pobreza absoluta e uma em cada quatro crianças morre antes dos cinco anos de idade. A esperança de vida à nascença para um guineense é de "apenas" de 45 anos, atendendo à fragilidade humana, sobretudo por causa da fraca cobertura dos serviços sociais.

Será que os dirigentes da Guiné-Bissau, bem como essa coisa que dá pelo nome de CPLP, alguém se lembre que enquanto saboreiam várias refeições por dia, ali ao lado nas ruas há gente que foi gerada com fome, nasceu com fome e morreu com fome?

Será que os dirigentes da Guiné-Bissau, bem como essa coisa que dá pelo nome de CPLP, se lembram que não é possível enganar toda a gente durante todo o tempo?

E, mesmo famintos, ainda sobra força aos guineenses para, ontem como hoje e certamente amanhã, fazerem o que já começa a ser um hábito: puxar o gatilho.

E assim se vai escrevendo a história do princípio daquilo que pode ser o fim da Guiné-Bissau. Realidade que não preocupa todos aqueles que vão continuando a cantar e a rir, levados, levados sim por interesses pouco claros, sejam do narcotráfico propriamente dito ou não.

“Eu vou-te cá mandar um jornalista”

“Não te tratam mal. Eu vou-te cá mandar um jornalista da televisão para te fazer uma entrevista e tu dás essa entrevista na véspera da viagem e metes os portugueses no coração. E assim foi, fez uma entrevista belíssima. Quando cá chegou não houve nem uma manifestação de protesto”, conta o socialista Almeida Santos.

Este episódio refere-se à visita a Portugal de Samora Machel, líder da FRELIMO, partido que – tal como o MPLA em Angola – comanda os destinos do país desde a independência, há 35 anos.

“Eu vou-te cá mandar um jornalista”. A frase, verdadeira, mostra como os socialistas sempre gostaram de mandar na comunicação social. Desde 1974 que, com um outro pequeno e irrevante interregno, o PS sempre foi dono e senhor dos donos dos jornalistas e dos donos dos donos dos jornalistas.

José Sócrates, por exemplo, limita-se a seguir as lições dos seus anteriores mestres. Por alguma razão, no passado dia 18, na Guarda, o primeiro-ministro considerou que António de Almeida Santos é “um dos príncipes da democracia”, enaltecendo “as suas qualidades políticas”.

“Digo com emoção que nunca conheci um político com tão bom coração, tão bom companheiro, tão bom amigo, como Almeida Santos”, afirmou José Sócrates.

São, aliás, qualidades que até eu reconheço. Começando, desde logo, no Acordo de Alvor, que permitiu a (in)dependência de Angola e a anexação por esta de Cabinda, e que é – segundo disse o próprio Almeida Santos, um dos signatários - apenas "um pedaço de papel" que "não valeu nada".

Este político socialista, presidente do PS e flutuador nato da política portuguesa, “um dos príncipes da democracia” segundo Sócrates, que defende ideais de Esquerda mas prefere viver à Direita, tem razão. O Acordo de Alvor só valeria se o MPLA não ficasse no Poder. Como ficou...

Desde os tempos em que, entre outros, Melo Antunes, Rosa Coutinho, Costa Gomes, Mário Soares e Almeida Santos decidiram gozar com a chipala dos portugueses e dos angolanos quando assinaram o Acordo de Alvor, que acho que o actual presidente do PS (também) nunca tem dúvidas e raramente se engana.

Recordo, por exemplo, que Almeida Santos, afirmou no dia 17 de Fevereiro, com toda a convicção típica de quem há muito é impoluto dono da verdade nas ocidentais praias lusitanas, que o primeiro-ministro nada tem a explicar, entre outros casos, sobre a tentativa de compra da Media Capital pela PT e considerou que este caso "acabará em nada", como outros que envolveram Sócrates.

Ora aí está. Se Almeida Santos disse que mandava a Moçambique um jornalistas fazer propaganda a Samora Machel e cumpriu, e agora diz que todos os processos contra aquele que o considera “um dos príncipes da democracia” acabarão em nada, é isso mesmo que vai acontecer.

"O primeiro-ministro dá as explicações que ele próprio entende que deve dar. Neste caso, penso que não precisa, porque não foi acusado de nada que precise de ser explicado", sustentou o presidente do PS.

É isso aí. Desde quando é que quem está acima da lei tem de dar explicações? Sim, desde quando? Onde é que os portugueses julgam que estão? No Burkina Faso?

Tal como no tempo de Almeida Santos e companhia, José Sócrates, enquanto primeiro-ministro, chegou tão cedo ao sector da comunicação social que conseguiu, sem grande esforço e em muitos casos apenas por um prato de lentilhas, fazer com que os seus mercenários, chefes de posto ou sipaios, titulares, ou não, de Carteira Profissional de Jornalista, fizessem da imprensa o tapete do poder.

Mercenários, chefes de posto ou sipaios que – exactamente por isso – nunca se importaram de às segundas, quartas e sextas ser do PS; às terças, quintas e sábados do PSD e ao domingo de outra coisa qualquer.

José Sócrates, enquanto primeiro-ministro, chegou tão cedo – tal como no seu tempo fez “um dos príncipes da democracia” - que conseguiu, sem grande esforço e em muitos casos apenas por um prato de lentilhas, transformar jornalistas em criados de luxo do poder vigente.

quarta-feira, junho 23, 2010

A Human Rights Watch e Cabinda

A Human Rights Watch defendeu hoje, em comunicado, que o governo de Angola “deve retirar as acusações criminais” contra activistas cívicos de Cabinda por alegados crimes contra a segurança de Estado.

“O governo de Angola deve concentrar-se nos responsáveis pelo ataque de 8 de Janeiro, em vez de acusar os seus críticos ao abrigo de leis abusivas de segurança do Estado”, afirmou Rona Peligal, directora interina da divisão de África da Human Rights Watch.

“O resultado deste julgamento vai revelar se a liberdade de expressão e de reunião pacífica está efectivamente protegida em Angola”, acrescentou.

Recorde-se que como referiram alguns, poucos, muito poucos, quase nenhuns, meios de comunicação social de Portugal, o padre Jorge Casimiro Congo foi ao Parlamento Europeu (Bruxelas), a convite da eurodeputada socialista Ana Gomes, partir a loiça sobre Cabinda.

Dizendo o que aprendeu com o falecido bispo do Porto, D. António (“diante de Deus, de joelhos; diante dos homens, de pé”) o padre Jorge Casimiro Congo lamentou a posição do Governo português de condenar apenas o que classificou como um ataque terrorista durante a Taça das nações Africanas (CAN), afirmando que “Portugal é o último a falar, não deve ser o primeiro a falar” sobre Cabinda.

Se as verdades ajudassem a reduzir o défice português, as que foram ditas pelo padre Congo, não só por serem históricas mas sobretudo actuais, o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, estaria bem da vida e não haveria necessidade de nenhum Programa de Estabilidade e Crescimento.

Mas não ajudam. Desde logo porque, da Presidência de República portuguesa ao governo, passando pelo Parlamento e pelos partidos, ninguém sabe o que é, da facto e de jure, Cabinda. Para quase todos, a história de Portugal só começou a ser escrita em Abril de 1974, ou até mais tarde, pelo que – como diz Cavaco Silva – Angola vai de Cabinda ao Cunene.

“Portugal é que é o culpado do que acontece em Cabinda. Não nos aceitou, traiu-nos”, disse o padre Congo, referindo-se ao processo de descolonização de Angola que deu de mão beijada e de cócoras o poder ao MPLA e, como se isso não fosse suficiente, rasgou os acordos que tinha asumido com o povo de Cabinda.

Optimista quanto ao futuro, sobretudo porque sabe que o seu povo nunca será derrotado porque nunca deixará de lutar, o padre Congo disse ainda ter esperança de que no futuro haja “governos portugueses com mais calma para ver este problema”, porque acredita “que há partidos que começam a levantar a cabeça” e surgirão figuras que fiquem “acima de quaisquer negociatas, de petróleo, ou de mão-de-obra que tem de ir para Angola”.

É claro que não houve nenhuma reacção oficial de Portugal às acusações do padre Congo. Uns porque entendem (e talvez bem) que quem manda no país é cada vez mais o clã Eduardo dos Santos; outros porque entendem que se o MPLA virar a rota e passar a investir noutro lado lá vão ao charco alguns grandes negócios; outros ainda porque se estão nas tintas para a honorabilidade de um Estado de Direito.

Estado de Direito que Angola não é e que Portugal é cada vez menos.

Façam o favor de estar calados e quietinhos!

O Conselho Superior da Magistratura disse hoje que o pedido de levantamento da imunidade parlamentar ao primeiro-ministro de Portugal foi formulado pelo Ministério Público ao Parlamento por entender “ser esse o mecanismo que permitirá, eventualmente, a sua constituição como arguido”.

Em comunicado, o Conselho Superior da Magistratura (CSM) adianta que o processo levantado pela jornalista da TVI Manuela Moura Guedes e que envolve José Sócrates se encontra em fase de inquérito.

O Tribunal de Instrução Criminal (TIC) de Lisboa, nesta fase processual, “não tem poderes para valorar a matéria em discussão, limitando-se a assegurar a legalidade processual (não aprecia os fundamentos da queixa, apenas que o processo respeita os termos da lei)”, refere o comunicado.

O TIC considerou que o pedido à Comissão Parlamentar de Ética de levantamento da imunidade a José Sócrates não competia ao Supremo Tribunal de Justiça, porque “não estava em causa qualquer matéria relativa a prova ou meios de prova”.

Pelo que, adianta o CSM, o mesmo TIC encaminhou o pedido formulado pelo Ministério Público para aquela comissão parlamentar.

O CSM sublinha também que o tribunal entendeu que “apenas” a Comissão de Ética “poderá decidir se autoriza, ou não, a constituição como arguido” de José Sócrates.

No entanto, a Comissão Parlamentar de Ética deliberou hoje que o tribunal terá de pedir directamente ao primeiro-ministro o levantamento da sua imunidade na sequência do processo crime interposto pela jornalista Manuela Moura Guedes.

A posição foi transmitida aos jornalistas pelo presidente da Comissão Parlamentar de Ética, o social democrata Marques Guedes, e foi tomada com o acordo de todos os deputados presentes na reunião, que decorreu à porta fechada.

“Pelos documentos enviados pelo tribunal à Assembleia da República, estamos ainda numa fase de inquérito, não há nenhuma acusação definitiva e não é solicitada minimamente a detenção do senhor engenheiro José Sócrates. Como tal, nesta fase, a Assembleia da República não tem de se pronunciar sobre este processo”, frisou Marques Guedes.

Em síntese, mais do que se dizer que ninguém se entende, o importante é que todos fiquem quietos e caladinhos, a bem da democracia “made in Portugal” ou, também, de um Estado de Direito “made in PS”.

Sobejam os exemplos neste Portugal dos pequeninos dos que se põem em bicos de pés para mandar calar os outros, retirando-lhes um dos mais elementar direitos – o de opinião. Quanto menos opinião, melhor. Quantos mais “sins” melhor ainda.

Por vias indirectas, mas quase todas com o rabo de fora, o poder em Portugal (de que outro país poderia ser?) está a criar verdadeiros arautos da verdade absoluta, autómatos da subsistência a qualquer preço. Alguns vão acrescentando, seguindo o espírito criativo do chefe, “esteja calado e ouça... se quer comer”.

Em Portugal (de que outro país poderia ser?) esta praga domina de tal forma os diferentes poderes que, sinceramente, começo a pensar que mesmo não ouvindo o melhor é estar calado.

Aliás, como diz o meu merceeiro recordando-me uma história já velha deste Portugal (de que outro país poderia ser?), nada melhor para não errar do que nada fazer. Ou seja, estar calado e ouvir, comer e calar porque, afinal, “eles querem, podem e mandam”.

E que querem, querem. E que podem, podem. E que mandam, mandam. Não admira, por isso que em Portugal (de que outro país poderia ser?) sejam cada vez menos os que se acham no direito de ter e de manifestar uma opinião diferente da do chefe.

Até eu que tenho um grave “defeito” de fabrico, o de ser o que sou e não o que os outros querem que eu seja, moldado nas terras de gente boa (Angola), fui ao arquivo recuperar a tese de que entre um néscio bem cunhado e um génio, a escolha é inequívoca: os néscio é que mandam.

Complexos que rendem milhões... a alguns

Tal como em Portugal a culpa é sempre dos outros, apesar de (in)dependentes há décadas, alguns dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa continuam a mascarar muita da sua incompetência com o recurso a todo o tipo de acusações, seja aos inimigos internos seja, ainda, à antiga potência colonial.

Terão legitimidade para isso? Têm com certeza! O «pai» é sempre responsável, pelo menos do ponto de vista moral, pelas acções dos «filhos», até mesmo quando estes renegam as origens. É um complexo que acompanhará sempre os progenitores, sobretudo aqueles que se esqueceram de dar uns tabefes aos filhos quando eles precisavam.

A Angola de José Eduardo dos Santos (que não dos angolanos) é um (in)digno exemplo do «filho» que cospe no prato que lhes deu comida mas, ao mesmo tempo, revela que o «pai» em vez de o mandar trabalhar para ter o que comer, aceita lavar os pratos cuspidos e voltar a servir nova refeição.

O estratagema (felizmente não adoptado por outros PALOP, pelo menos com a mesma grandeza) revela-se fácil, barato e - é claro! - dá milhões. E é assim porque Portugal (e tanto faz que seja em tons rosa ou alaranjados) continua a achar conveniente lamber as botas aos poucos que têm milhões (José Eduardo dos Santos e companhia), esquecendo os milhões que têm (e continuarão a ter) pouco, muito pouco... ou nada.

É que, e não faltam exemplos, Portugal não pode (nem deve) continuar a dar peixe aos parasitas que, a troco de tudo e de nada, o insultam e o tratam a baixo de cão. Portugal ensinou-os a pescar e, por isso, não tem que lhes dar o peixe. Poderá, e deverá, dá-lo aos angolanos que não sejam pobres e mal agradecidos. Apenas a esses.

Por outras palavras, e apesar de a psicologia explicar o complexo do colonizador, importa cortar de uma vez por todas o cordão umbilical com as ex-colónias. Eles já são bem crescidinhos. Desde logo porque o cordão umbilical só tem um sentido, só serve para alimentar uma das partes.

Se eles quiserem substituir o cordão de sentido único por um sistema de vasos comunicantes, de dois sentidos, então estarei de acordo. De outra forma, o melhor é esquecer até que o este tipo de «filho» acorde... ou desapareça de uma vez por todas.

Recordo que um dos presidentes da República da Guiné-Bissau, Kumba Ialá, fez-se homem em Portugal. Não tão homem como seria de esperar mas, mesmo assim, aqui aprendeu a pescar.

Apesar disso, disse à Rádio Bombolom FM que o seu país poderia cortar relações com Portugal, caso o Governo português venha a "desencadear" uma resposta a uma eventual "acção" da Guiné-Bissau contra alguns políticos guineenses "que andam a ladrar em Portugal".

Parafraseando o próprio Kumba Ialá, quem diz isso não fala... ladra.

"Há políticos que andam a ladrar em Portugal, pensando que estão nos céus, mas nós podemos agarrá-los mesmo aí e, se Portugal "mermerí" (palavra crioula que significa em português algo como piar ou tugir), cortamos as relações", disse Kumba Ialá.

Algo semelhante defendeu em 2001, o então secretário para as relações exteriores do MPLA, Paulo Teixeira Jorge, quando disse que o Governo português não deveria permitir que "portugueses de ocasião" interferissem nos assuntos internos de Angola, tal como os “angolanos de ocasião” deveriam também ser impedidos de falar sobre Angola.


Noutro passo da sua criminosa e complexada intervenção, Kumba Ialá, disse que "há políticos teleguiados a partir de Portugal", acrescentando que "Portugal pode ficar ciente que nunca mais um português voltará a mandar num guineense".

E, a fazer fé no muito que se vai lendo, as teses de Paulo Teixeira Jorge fizeram escola. Ao Portugal de hoje, muito mais do que em 2001, convirá que todos o entendam de uma vez por todas, é um país rendido ao petróleo (e não só) da família Eduardo dos Santos.

E é por issso que, mais ou menos de forma velada, as autoridades de Lisboa vão aconselhando a que se moderem as críticas ao regime angolano. Acrescentam, aliás, que se não houver moderação... outras medidas terão de ser tomadas.

Seja como for, todos aqueles que catalogam os angolanos e os portugueses em duas classes, os de primeira (afectos ao MPLA ou ao PS, ou a ambos) e os de segunda (afectos aos outros partidos ou simplesmente apartidários), devem perceber que nem mesmo pela barriga conseguirão calar os que são livres.

"... Eles são portugueses de ocasião, fundamentalmente são angolanos que se tornaram portugueses depois da evolução da situação em Angola", afirmou na altura Paulo Teixeira Jorge, para quem o Governo português também deveria "chamar a atenção" dos elementos da Frente de Libertação do Enclave de Cabinda (FLEC) que se encontravam em Portugal.

De ocasião ou não, angolano ou português, recuso-me a deixar de dizer o que penso ser a verdade. Ainda mais agora que, por acção directa do PS e indirecta do MPLA, estou quase a saber viver sem comer...

terça-feira, junho 22, 2010

Não adianta dizer aos portugueses que para
serem bons camelos só lhes falta as... penas

O bispo do Porto (Portugal), D. Manuel Clemente, considerou hoje (o que certamente é mais uma medalha para o primeiro-ministro, José Sócrates) que só as redes sociais e de vizinhança têm impedido que a situação social portuguesa “expluda” e pediu soluções “em termos de futuro”.

“Todo este mundo sócio caritativo”, constituído por redes sociais e de vizinhança, “vai respondendo e isso vai adiando o problema ou impedindo que ele expluda”, disse D. Manuel Clemente.

É claro que as razões do bispo D. Manuel Clemente desconhecem, o que é grave, que em Portugal só uma pessoa tem razão. E essa sabe muito bem o que faz, sobretudo em prol dos portugueses de primeira (os que são deste PS).

E para haver, em diferentes escalas, tantos “mexiânicos” socialistas, é preciso que a sociedade portuguesa tenha 700 mil desempregados, 20% de cidadãos quase a saber viver sem comer e outros 20% a estagiar para essa realidade.

“Mas temos de pensar não apenas em termos imediatos. Portanto, tenhamos cuidado, abramos os olhos e sejamos mais solidários, porque é da nossa própria sobrevivência que se trata”, sublinhou o prelado, que falava aos jornalistas na Faculdade de Economia do Porto, à margem da apresentação do livro “O que sabemos sobre a pobreza em Portugal?”.

Quando o bispo diz que “é da nossa própria sobrevivência que se trata” não está, creio, a ser muito rigoroso. Isto porque grande parte da superior casta socialista não equaciona a sobrevivência, tal é o elevado patamar material em que se encontra.

Nas suas declarações, o bispo do Porto pediu também que as respostas sociais imediatas se concentrem nos desempregados de meia idade sem formação para um mercado de trabalho que exige crescente especialização.

Mas, afinal, o que esperaria a Igreja Católica portuguesa de um país que, desde há muito mas com assinalável relevância e partir da chegada ao poder de José Sócrates, valoriza a subserviência em detrimento da competência, a embalagem em vez do produto, o acessório em vez do essencial?

Considerando que “ainda se vão encontrando” ofertas de emprego especializado, absorvidas pelos mais novos e mais qualificados, D. Manuel Clemente disse que o “mais complicado” é o regresso ao trabalho de pessoas que “estão a meio da vida e já não tem a disponibilidade para aprender que tinham na juventude”, na altura sem resposta.

A realidade não é bem esta. Há muita gente a “meio da vida” que mete num bolso (neste caso não é nenhuma alusão ao deputado socialista Ricardo Rodrigues), seja pela experiência profissional ou pelo conhecimento acumulado, muitos dos supostos donos da verdade do país.

O problema está em que, na sua grande maioria, esses portugueses têm um grave defeito de fabrico. Nascerem com coluna vertebral, coisa que hoje é impedimento imediato para arranjar trabalho.

Creio que o bispo do Porto deveria pedir aos portugueses um favor patriótico, dizendo-lhes que se quiserem deixar de ser portugueses de segunda devem tornar-se amigos de quem está no governo. Só assim serão bestiais, só assim serão ouvidos. Como bem pratica o Governo, para quê ouvir os que são contra, os que têm opiniões diferentes? Sim para quê? Esse é um luxo só utilizado nos Estados de Direito dos quais, cada vez mais, Portugal se afasta, se é que alguma vez esteve lá.

Ao contrário do que parece pensar D. Manuel Clemente, José Sócrates sabe que a sua equipa é dona da verdade e por isso não vê necessidade democrática de auscultar seja quem for. E faz muito bem. Só assim Portugal conseguirá aproximar-se cada vez mais dos mais evoluídos países do norte de... África.

José Sócrates sabe, como sabe a maioria dos políticos lusos, que em Portugal existe – citando Guerra Junqueiro – “um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País”.

E é por tudo isto que, como bem sabe o bispo do Porto, são cada vez mais os portugueses que não conseguem, ou não querem, comer gato por lebre e dizem que na política há cada vez mais criminosos a viver à custa dos imbecis dos portugueses.

Talvez porque deles será o Reino dos Céus...

Continua a farsa na colónia de Cabinda

O julgamento, que é apontado por observadores internacionais como mais uma farsa, de quatro dos seis activistas de direitos humanos de Cabinda, que estão detidos desde Janeiro, acusados de crime contra a segurança de Estado, vai ter início na quarta-feira na colónia angolana de Cabinda.

O início do julgamento do padre Raul Tati, do advogado Francisco Luemba, do economista Belchior Tati e do engenheiro Barnabé Paca Peso está marcado para as 9 horas da manhã, no Tribunal Colonial de Cabinda.

Na semana passada, André Zeferino Puati, antigo funcionário da petrolífera norte-americana Chevron, foi condenado a três anos de prisão efectiva, depois de detido cinco meses, também acusado de crime contra a segurança de Estado.

A detenção destes activistas ocorreu na sequência de um ataque armado contra a estrutura militar e policial de Angola que prestava segurança à selecção de futebol do Togo, em Janeiro deste ano, na colónia de Cabinda, onde ia disputar o Campeonato Africano das Nações de futebol.

Do ataque resultou a morte de duas pessoas tendo pelo facto as autoridades angolanas (depois de uma primeira fase em que desmentiram o ataque) detido vários suspeitos de envolvimento, usando para isso uma verdadeira caça ao homem, consubstanciada pela prisão das principais figuras que defendem os direitos humanos em Cabinda.

Por ir a julgamento ficam o economista António Panzo e um ex-polícia, José Benjamin Fuca.

Martinho Nomba, advogado do activista António Panzo, disse que o seu cliente, que se encontra detido desde 11 de Abril, não foi ainda acusado, tendo já sido feita reclamação, mas sem resposta até ao momento.

A Rádio Eclesia, emissora católica angolana, noticiou na semana passada que o bispo de Cabinda, D. Filomeno Vieira Dias, enviou uma carta ao Procurador-Geral da República, João Maria de Sousa, para mostrar preocupação em relação ao excesso de prisão preventiva de activistas e deplorar o adiamento indefinido do julgamento dos acusados.

O Tribunal que o regime angolano instalou na sua colónia de Cabinda condenou o activista de direitos humanos André Zeferino Puati, dizendo as autoridades do Estado ocupante que ficou provado que Puati cometeu um crime contra a segurança de Estado por, repare-se, ter sido encontrado em sua posse documentos “com conteúdos políticos” com o intuito de serem espalhados na via pública de Cabinda.

Na altura, em declarações à Agência Lusa, Martinho Nomba considerou injusta a sentença, afirmando que a justiça em Cabinda está a “caminhar para o abismo”.

Martinho Nomba classificou de “medonho” o ambiente vivido em Cabinda, onde urge a necessidade de “desprendimento” da justiça do poder político.

Se de uma forma geral Angola está longe de ser uma democracia e um Estado de Direito, em Cabinda essa realidade é ainda mais evidente. Nesta colónia angolana, até prova em contrário todos são culpados. Do ponto de vista do Direito, o regime decreta primeiro a sentaça e só depois faz o julgamento.

André Zeferino Puati foi julgado por alegadamente terem sido encontrados em sua posse documentos retirados da internet com informações sobre os movimentos da sociedade civil na colónia de Cabinda.

Segundo Martinho Nomba, o acórdão referia que os documentos encontrados na posse de André Puati foram submetidos para análise a peritos, que confirmaram a intenção política dos mesmos.

Ou seja, os peritos conseguem descobrir que a Declaração Universal dos Direitos Humanos é um instrumento contra a segurança do Estado desde que, obviamente, esteja nas mãos de quem o regime considera inimigo.

“André Puati é um intelectual, formado em relações internacionais e tinha em seu arquivo pessoal vários documentos retirados da internet sobre Nzita Tiago, sobre estratégias apresentadas numa reunião do bureau político do MPLA, com mais de 10 anos, para o caso de Cabinda, não sei qual é o crime cometido com isso”, questionou Martinho Nomba.

De facto, apoiadas no silêncio internacional, as autoridades coloniais angolanas não estão com meias medidas e, na colónia de Cabinda, prendem e até matam todos os que pensam de forma diferente do poder instituído em Luanda pelo MPLA.

A propósito de uma recente marcha em defesa dos direitos humanos, um fortíssimo dispositivo repressor (militares e polícias) de Angola cercou e invadiu as casas dos principais activistas dos direitos humanos, procurando provas que sustentem a sentença há muito tomada pelo regime de José Eduardo dos Santos.

Até os locais de culto foram cercados. Muitas das pessoas que apenas se limitaram a sair à rua para ver o que se passava foram detidas. A razão da força do MPLA volta a valer mais do que a força da razão dos que lutam pelos direitos humanos.

A manifestação visava, recorde-se, contestar a “detenção arbitrária” de activistas dos direitos humanos. Detenção arbitrária à luz de qualquer Estado de Direito o que, convenhamos, não se aplica a Angola e muitos menos à sua colónia de Cabinda.

Recorde-se que o padre Jorge Casimiro Congo foi ao Parlamento Europeu (Bruxelas), a convite da eurodeputada socialista Ana Gomes, e partiu a loiça sobre Cabinda.

Dizendo o que aprendeu com o falecido bispo do Porto (Portugal), D. António (“diante de Deus, de joelhos; diante dos homens, de pé”) o padre Jorge Casimiro Congo lamentou a posição do Governo português.

“Portugal é que é o culpado do que acontece em Cabinda. Não nos aceitou, traiu-nos”, disse o padre Congo, referindo-se ao processo de descolonização de Angola que deu de mão beijada e de cócoras o poder ao MPLA e, como se isso não fosse suficiente, rasgou os acordos que tinha asumido com o povo de Cabinda.