segunda-feira, janeiro 31, 2011

O possível faz-se todos os dias

Voz da Lusofonia é, ou pretende ser, um cruzamento que dá acesso a todos os pontos de vista. No entanto, se a minha liberdade termina onde começa a dos outros, também a dos outros termina onde começa a minha. Além de tudo, importa dizê-lo, é um desafio para quem faz da escrita uma forma de vida. Tarefa impossível? Não. Mas mesmo que o fosse eu estaria na primeira linha. É que o possível faço eu todos os dias.

Sugestão de leitura

Enquanto houver um angolano com fome
a luta deve continuar, custe o que custar!

Se não for possível deixar às gerações vindouras, nomeadamente às que têm no corpo e na alma a utopia eterna da angolanidade (seja, ou não no contexto da Lusofonia), algum património, ao menos lutemos para lhes deixar algo mais do que a expressão exacta da nossa cobardia que serve para alimentar os poucos que têm milhões e deixar morrer à fome os milhões que têm pouco, ou nada.

Porque não há comparação entre o que se perde por fracassar e o que se perde por não tentar, permito-me a ousadia (que espero compartilhada por todos os que responderam a esta chamada) de tentar o impossível já que - reconheçamos - o possível fazemos nós todos os dias.

Como jornalista, como angolano, como ser humano, entendo que a situação angolana ultrapassa todos os limites, mau grado a indiferença criminosa de quem, em Angola ou no Mundo, nada faz para acabar com a morte viva que nove anos depois da paz total caracteriza um povo que morre mesmo antes de nascer.

E morre todos os dias, a todas as horas, a todos os minutos. E morre enquanto em Portugal o pessoal com responsabilidades vai cantando e rindo (como no tempo anterior ao 25 de Abril). E morre enquanto outros, em Luanda, comem lagosta. E morre enquanto outros, no interior do território, nem sabem o que é comer.

É que, quer o MPLA queira ou não, como na guerra, a vitória é uma ilusão quando o povo morre à fome. Tal como está a Angola profunda, a Angola real, ninguém sairá vencedor, mesmo que haja eleições. Todos perdem. Todos perdemos.

Creio, aliás, que o próprio José Eduardo dos Santos terá de vez em quando consciência de que a sua ditadura não é uma solução para o problema angolano, sendo antes um problema para a solução.

Creio que é, ou pode ser, pequeno o passo que é preciso dar para que os angolanos, irmãos de sangue, se entendam para ajudar Angola a ser um país onde os angolanos sejam todos iguais e não, como agora acontece, uns mais iguais do que outros.

Se se entenderam para que Angola deixasse de ser uma gigantesca vala comum, não será difícil que entendam agora que a força da razão pode e deve substituir a razão da força.

Durante 27 anos de guerra, os angolanos mataram-se uns aos outros. Acabada essa fase, os angolanos continuaram a matar-se uns aos outros. Não directamente pela força das armas, mas pelo poder que as armas dão aos que querem subjugar os seus irmãos que consideram de espécie inferior.

Mais do que julgar e incriminar importa, nesta altura, parar. Parar definitivamente. Não se trata de fazer um intervalo para, no meio de palavras simpáticas e conciliadoras, ganhar tempo para amorçar o povo, ganhar tempo para formar novos generais, ganhar tempo para sabotar eleições, ganhar tempo para enganar o Povo.

Angola tem militares a mais e angolanos a menos. Angola tem minas que chegam para encher durante um século os cemitérios. Angola tem feridas suficientes para ocupar os médicos (que não tem) durante décadas.

Convém, por isso, que a democracia, a igualdade de oportunidades, a justiça, o Estado de Direito cheguem antes de morrer o último angolano. Espero que disso se convença José Eduardo dos Santos, um angolano que certamente não se orgulha de ser presidente de um país onde os angolanos são gerados com fome, nascem com fome e morrem pouco depois com fome.

Nota: Na próxima sexta-feira, Angola comemora o 50º aniversário do ataque às cadeias da Luanda. Foi o tiro de partida para a “independência” do país.

Quanto mais cobarde... melhores tachos

A melhor forma de abater os cartéis de drogas e organizações criminosas é atingi-las no “bolso”, defendeu em tempos a administradora da agência antidrogas dos EUA (DEA, Drug Enforcement Administration), Michele Leonhart.

Por outras palavras, é fazer o mesmo que os donos dos jornalistas portugueses, e os donos dos donos (e não só), têm feito nos últimos anos. Obrigarem o pessoal a pensar com a barriga.

Ora aí está. Pôr ao serviço das nobres causas das castas superiores que, em Portugal, são sobretudo as famílias Joaquim e José, os métodos que a globalização quer aplicar aos traficantes. Bater onde dói mais, o bolso.

“Isso tem um grande impacto”, enfatizou a representante do DEA ao ser questionada durante a maior conferência mundial anti-drogas, a International Drug Enforcement Conference (IDEC), que decorreu em Abril do ano passado no Rio de Janeiro.

E tem mesmo grande impacto, não sei se nos narcotraficantes, mas de certeza nos jornalistas, entre outros. Reconheça-se, contudo, que estes tiverem e têm alternativas: ou comem e calam e podem pagar a conta ao merceeiro e o empréstimo da cubata, ou não comem nem calam e vão para o desemprego e começam a sentir as dores dos bolsos vazios.

Isto já para não falar de uma outra forma de atingir os portugueses lá no sítio onde dói mais (o bolso), através dos impostos cobrados às castas inferiores: a grande maioria dos cidadãos.

Michele Leonhart deveria, aliás, pagar direitos de autor aos que em Portugal são donos do país e que, desde há muito, aplicam a regra agora defendida pela DEA.

E como o reino, não o dos céus mas o das ocidentais praias lusitanas, está na mão de cobardes, a única solução entendida (pela barriga) como viável é mesmo comer e calar, apostar numa coluna vertebral amovível e numa cabeça subordinada à barriga.

Tão simples quanto isso.

Ser cobarde foi, nos últimos anos, a mais válida forma de (sobre)viver na sociedade portuguesa em geral e, em particular, no comércio e indústria de textos de linha branca a que, por manifesta ignorância, se chama em Portugal "jornalismo".

São esses cobardes poli-partidários (às segundas, quartas e sextas são do PS, às terças, quintas e sábados do PSD e ao domingo piscam o olho aos outros) que, por regra, comandam (mal, mas comandam) este país ou, para ser mais correcto, algumas das partes que no seu conjunto formam o país.

Por isso os cobardes apostam tudo, sobretudo o que é dos outros, na razão da força que é alimentada pela impunidade do reino. Com a cobertura, mesmo que involuntária, de muito boa gente, levam a que a força da razão perca batalhas e mais batalhas.

Ao contrário do que cheguei a pensar, esses cobardes não só estão a ganhar batalhas como poderão vencer a própria guerra. Não lhes falta apoio de quem, ao seu estilo, se está nas tintas para a liberdade de expressão, para a democracia, para as regras de um Estado de Direito, um pouco à “mexiânica” imagem e semelhança dos cartéis de drogas e organizações criminosas.

Tal como os cartéis de drogas e organizações criminosas, esse polvo político-partidário vai continuar a calar as vozes que tentam dar voz a quem a não tem. Assim aconteceu, assim irá acontecer com certeza por muitas que sejam, e são mesmo, as faces ocultas do poder.

Se os políticos portugueses preferem ser assassinados pelo elogio do que salvos pela crítica, preferem ter correligionários néscios do que adversários inteligentes, é bem possível que a própria a democracia esteja em perigo.

Mesmo que esteja, o que é que isso interessa desde que os cobardes continuem com os seus tachos?

Proliferam os abutres no reino lusitano

Os abutres são aves de rapina que se alimentam quase exclusivamente da carne putrefacta dos animais mortos. Ora, para que eles proliferem na sociedade portuguesa é preciso que exista a tal carne putrefacta. Se esta não existir, os abutres também não existem. Ou seja, estas aves dependem da existência de animais mortos… ou em vias disso.

Os abutres são normalmente vistos como aves que se alimentam de cadáveres em decomposição (aves necrófagas). De entre os abutres que ocorrem entre nós, o Grifo (Gyps fulvus) e o Abutre negro (Aegypius monachus) são verdadeiros especialistas na necrofagia, enquanto o Abutre do Egipto (Neophron percnopterus) explora principalmente os restos disponíveis.

Ou seja, estas aves dependem da existência de animais mortos… ou em vias disso.

Segundo Nuno Leitão, a exploração dos cadáveres com o consumo da carne putrefacta por parte destas aves, acompanhado da sua fisionomia e do seu grande porte, faz com que os humanos as sintam como verdadeiros símbolos da morte. Principalmente, quando nos deparamos com o Grifo e com o Abutre negro, aves impressionantes, com envergaduras superiores a 2,5 metros e com as suas cabeças e seus compridos pescoços, desprovidos de penas para melhor explorarem as carcaças dos animais mortos.

Ou seja, estas aves dependem da existência de animais mortos… ou em vias disso.

O Grifo alimenta-se da carne de cadáveres de médios e grandes mamíferos e, em certos casos, da carne das aves maiores e dos peixes mortos. O Abutre negro tem uma dieta praticamente constituída por carne de animais mortos, mas prefere cadáveres de animais mais pequenos e, à falta destes, pode mesmo caçar pequenos animais, como coelhos com mixomatose e pequenos cordeiros.

O Abutre do Egipto apresenta uma dieta mais diversificada, mas alimenta-se frequentemente de cadáveres de pequenos animais, como ratos, cobras e coelhos. Quanto à exploração da carne dos animais de maior porte, devido ao seu bico menos forte, apenas explora certas partes do cadáver, como sejam os olhos, a língua e as vísceras (após abertura da carcaça por outros necrófagos).

Ou seja, estas aves dependem da existência de animais mortos… ou em vias disso.

Passe a tétrica constatação, tal como fazem com outros despojos, os abutres podem incluir naturalmente na sua dieta os cadáveres humanos. Na verdade, a biomassa média do Homem, do ponto de vista nutritivo, é relativamente vantajosa para os abutres.

Desde a antiguidade, que este facto, tornou as relações do Homem com os abutres pouco amistosas, tendo sido os abutres alvos de perseguição pelo Homem ao longo dos tempos. Os locais mais frequentes de interacção do Homem com os abutres eram os campos de batalha, onde chegava a haver grupos de homens para afastar os abutres, de forma a impedir danos nos soldados feridos. Mesmo hoje em dia, estas situações de aproveitamento dos cadáveres humanos por parte dos abutres sucedem quando ocorrem catástrofes naturais.

Ou seja, estas aves dependem da existência de animais mortos… ou em vias disso.

Esta relação Homem/Abutre deu azo também a inúmeras práticas culturais onde estas aves desempenham o papel principal. Determinadas culturas aplicavam sentenças de morte, onde os homens condenados eram amarrados e deixados para morrer, ficando à mercê dos abutres. Há também práticas funerárias, que subsistem até hoje, e que levam a que os cadáveres sejam expostos aos abutres. Os Parsis de Bombaim depositam os corpos dos defuntos nas chamadas "Torres do Silêncio", quase como que em oferta aos abutres, e alguns monges tibetanos oferecem aos abutres, pedaços dos corpos dos falecidos.

Ou seja, estas aves dependem da existência de animais mortos… ou em vias disso.

Hoje em dia, pelo menos na civilização ocidental, os abutres têm outro valor para o Homem ao funcionarem como indicador da saúde de alguns ecossistemas. Os abutres são um dos símbolos mais importantes da Natureza. Desta forma, estas aves, a par de outras grandes aves de rapina, são alvo de admiração, com a vantagem de serem facilmente observadas comparativamente a outros animais. A constatação do declínio generalizado das espécies de abutres, nos finais dos anos sessenta, deu origem a acções de grupos conservacionistas e a numerosos trabalhos de investigação, o que contribuiu grandemente para o conhecimento e valorização destas aves.

Ou seja, estas aves dependem da existência de animais mortos… ou em vias disso.

domingo, janeiro 30, 2011

A UE, com é hábito, está sempre com quem está no poder, seja ditador ou... ditador!

A União Europeia vai tentar amanhã, numa demonstração da sua mais típica hipocrisia, virar a página de Ben Ali na Tunísia, congelando os bens do clã do deposto Presidente, mas há hesitações quanto à atitude a tomar face à vaga de protestos no mundo árabe.

Com a facilidade típica da cobardia internacional, que pretende ser um paradigma para o restante mundo, a UE mostra toda a “coragem” de passar os ditadores de bestiais a bestas depois de eles serem depostos pelo povo, embora nada tenha feito para a alterar as coisas antes de o povo sair à rua.

Quanto à preocupação com outras ditaduras, não só do mundo árabe, a União Europeia vai tentar que elas se aguentem no poder de modo a que, como até aqui, continuem a ser uma mina para o dito mundo ocidental.

A UE sabe bem que é mais fácil negociar com ditadores do que com regimes democráticos. É por isso que aposta em ditaduras que tenham uns tantos palhaços na corte e que, dessa forma, possam dar um ar democrático aos regimes.

Os ministros dos Negócios Estrangeiros da UE reúnem-se amanhã, em Bruxelas, para adoptarem um acordo de princípio com vista a confiscar os bens do clã Ben Ali, consultando o novo Governo de transição tunisino.

Ainda recentemente, e é só um exemplo, Portugal beijava a mão de Ben Ali, procurando dessa forma garantir negócios. José Sócrates enalteceu até a estabilidade política da Tunísia. No entanto, amanhã, Luís Amado vai com certeza dizer que que Ben Ali era um ditador da pior espécie e que, como sempre, Lisboa está ao lado de quem estiver no poder, seja ou não um ditador.

Criticada por ter reagido tarde à revolta de 17 de Dezembro de Sidi Bouzidi, no centro da Tunísia, quando um jovem se imolou, levando um mês depois à queda de Zine El Abidine Ben Ali, a UE tenta agora não perder o comboio da História.

E não vai perder esse comboio, mesmo que não seja propriamente um TGV. Aliás, os cobardes, os vira-casacas, nunca perdem nenhum comboio. Estão sempre com quem manda.

As grandes apostas de José Sócrates

"Este é um país que aposta tudo na educação. Este é um projecto de muita ambição para o país e é a aposta maior na educação de que há memória", afirma o primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates, sublinhando que é "uma aposta de conjunto, que vai do pré-escolar ao ensino secundário".

sábado, janeiro 29, 2011

Chafurdar na merda é para muita gentalha
uma importante questão de sobrevivência!

Portugal cimenta todos os dias a sua imagem de um país “feio, porco e mau”. Será que os portugueses acreditam que vai haver justiça em casos como a Casa Pia, Free Port, BPN, BPP, Face Oculta etc. etc. etc. onde são cada vez mais notórias as certezas de que os protagonistas são todos farinha do mesmo saco?

Não. Não acreditam. E não acreitam porque cada vez mais se comprova que os protagonistas são uma corja de gente feia, suína e má. E isso aplica-se quer aos que em tempo útil se calaram, quer aos que, hoje, se deixaram comprar.

Serem feios, porcos e maus parece algo que está no sangue, salvo algumas (muito poucas) excepções. Tão poucas que até os Jornalistas que agora falam vão, como o foram os que no início da década de 80 avançaram no caso Casa Pia, ficar calados.

E esse silêncio será recompensado. É só uma questão de tempo. Não tardará muito e estarão como directores ou administradores de um qualquer órgão da comunicação social... Os Jornalistas mais teimosos (que também os há, é verdade) poderão, a todo o momento, entrar - ou já entrararam - para novas listas de dispensáveis...

Seja qual for o caso, tenha acontecido há um ano ou há dez, ninguém se lembra de ter ouvido falar em indícios, em avisos, em alertas. Governador do Banco de Portugal, Presidentes da República, ministros, secretários de Estado, deputados, procuradores gerais da República, magistrados, polícias etc. ninguém dá fé.

E, se calhar, não ter dado fé, continuar a não dar fé, é tão conveniente que, creio, até poderá um dia destes dar direito a uma comenda pelos altos serviços prestados à Nação...

Convenhamos, contudo, que os silêncios continuam a ser comprados. Tal como foram outros, tal como serão outros. Portugal começa a deixar de ser um país (Nação há muito que o deixou de ser) para passar a ser, apenas e tão só, um lugar muito mal (muito mal, mesmo) frequentado.

Na minha opinião todos os casos mediáticos vão ficar, salvo uma ou outra punição cosmética, em águas de bacalhau. Pelo cheiro, a água já está a ficar putrefacta. Mas, apesar disso, há sempre alguns (ao que parece são muitos) para quem chafurdar na merda é uma questão de vida.

Mostra-me o teu cartão do PS e dir-te-ei em que empresa pública (claro) vais ter emprego

O primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates, disse hoje, em Braga, que "o grande projecto" para Portugal é a aposta na educação, "porque é o investimento mais importante na afirmação de um país".

Tem, mais uma vez e como sempre, razão. Razão que, aliás, é corroborada pelos 700 mil portugueses que estão desempregados mas que são (bem) educados, pelos 20 por cento que estão de forma muito (bem) educada na miséria, bem como pelos outros 20 por cento que já olham, mas sempre de forma muito (bem) educada, para os pratos vazios.

Eu sei que para José Sócrates, e mais uma vez bem, ter um diploma não significa ser educado e ter direito a fazer parte desse nobre espírito socialista que representa a grande aposta.

A taxa de desemprego entre as pessoas com habilitações superiores mais do que duplicou desde 2002 e hoje são bem mais do que 60 mil os que não conseguem um lugar no mercado... de trabalho.

Não admira por isso que, fartos de esperar por um emprego de acordo com as suas habilitações, os jovens façam o mesmo que Mário Soares fez em tempos com o socialismo. Ou seja, metam o diploma numa gaveta e procurem sobreviver como motoristas de táxi, como “embrulhadores” de compras numa loja de um quaquer centro comercial ou como autómatos nos call-centers.

"Aqui está o grande projecto nacional. Esta época vai ficar marcada pela aposta na educação", afirmou hoje José Sócrates a propósito do projecto de modernização das escolas secundárias que prevê a requalificação 313 estabelecimentos, num investimento global de 2,9 mil milhões de euros.

Até parece que a solução está na requalificação física das escolas e não na requalificação do país e, é claro, dos que têm responsabilidade políticas na gestão da coisa pública.

"Este é um país que aposta tudo na educação. Este é um projecto de muita ambição para o país e é a aposta maior na educação de que há memória", reafirmou o primeiro-ministro, sublinhando que é "uma aposta de conjunto, que vai do pré-escolar ao ensino secundário".

Pois é. A tradução do que o primeiro-ministro disse, com ou sem acordo ortográfico, é que Portugal aposta em formar analfabetos funcionais (sabem ler e escrever mas não lêem nem escrevem) para que, daqui a uns poucos anos, estejam a frequentar as Novas Oportunidades.

José Sócrates frisou que o país tinha de fazer este investimento na reconversão do parque escolar, ao nível do secundário, porque "essas escolas eram espaços que tinham ficado para trás no processo de desenvolvimento do país".

Não creio que as escolas tenham ficado assim tão para trás. Para trás ficou o país e, como era de esperar, tudo o resto acompanhou o ritmo em que o primado da competência foi substituído pelo da subserviência.

Os grandes investimentos na educação, segundo o primeiro-ministro, significam que "o país "apostou na igualdade de oportunidades" e que por isso "vai ter sucesso no futuro”.

Igualdade de oportunidades? Onde? Em Portugal? Treta. As oportunidades no país de José Sócrates só são dadas apenas aos que, por manifesta incapacidade profissional mas sublime capacidade invertebrada, gravitam em redor das empresas e organizações ligadas ao poder.

"Mostra-me a tua escola, dir-te-ei que nível de desenvolvimento tens", vincou o sumo pontífice socialista, moldando o provérbio que hoje é mais: Mostra-me o teu cartão do PS e dir-te-ei para que empresa vais trabalhar.

Muangai, a UNITA , a crítica e o elogio

A 13 de Março de 1966, um grupo de nacionalistas liderado por Jonas Malheiro Savimbi, começou a escrever uma importante parte da história de Angola. Será que a UNITA não enterrou, depois da morte de Savimbi, o espírito que deu corpo ao que se decidiu no Muangai?

Creio que pouco, ou nada, adianta hoje continuar a defender que a UNITA deve ser salva pela crítica e não assassinada pelo elogio. Apesar disso, tenho um comprimisso moral com o que Jonas Savimbi me disse, em 1975, no Huambo: “a UNITA, tal como Angola, não se define – sente-se”. Por isso...

Foi no Muangai, Província do Moxico. Daí saíram pilares como a luta pela liberdade e independência total da Pátria; Democracia assegurada pelo voto do povo através dos partidos; Soberania expressa e impregnada na vontade do povo de ter amigos e aliados primando sempre os interesses dos angolanos.

Resultaram também a defesa da igualdade de todos os angolanos na Pátria do seu nascimento; a busca de soluções económicas, priorização do campo para beneficiar a cidade; a liberdade, a democracia, a justiça social, a solidariedade e a ética na condução da política.

Alguém, na UNITA, se lembra de quem disse: ”Eu assumo esta responsabilidade e quando chegar a hora da morte, não sou eu que vou dizer não sabia, estou preparado"?

Alguém se lembra de que, como estão as coisas, nunca será resgatado o compromisso de Muangai firmado em 13 de Março de 1966?

A UNITA mostrou até agora, é verdade, que sabe o que é a democracia e adoptou-a definitivamente. Tê-lo-á feito de forma consciente? Tenho algumas dúvidas, sobretudo depois das manipulações e vigarices eleitorais de que foi vítima, que já não esteja arrependida.

Isaías Samakuva mostrou ao mundo que as democracias ocidentais estão a sustentar um regime corrupto e um partido que quer perpetuar-se no poder. E de que lhe valeu isso?

Depois da hecatombe eleitoral, provocada também pela ingenuidade da UNITA acreditar que Angola caminha para a democracia, Samakuva alterou os jogadores, a forma de jogar e promete, continua a prometer, melhores resultados.

Creio, contudo, que o líder da UNITA conseguiu juntar alguns bons jogadores mas esqueceu-se que não bastam bons jogadores para fazer uma boa equipa.

Muitos desses craques não conseguem olhar para além do umbigo, do próprio umbigo, e passaram os últimos anos a bloquear iniciativas válidas só porque partiam de outras pessoas. Ou seja, olharam para o mensageiro e não para a mensagem. Habituram-se à lagosta e esqueceram a mandioca.

O mundo ocidental esteve, mais uma vez, de olhos fechados para o enorme exemplo que a UNITA deu. Em 2003, abriu bem os olhos porque esperava o fim do partido. Isso não aconteceu.

Agora estamos a ver que ao Ocidente basta uma UNITA com 10% dos votos para dar um ar democrático à ditadura do MPLA. Aliás, por alguma razão o Ocidente não reagiu às vigarices, às fraudes protagonizadas pelo MPLA. E não reagiu porque não lhe interessa que a democracia funcione em Angola. É sempre mais fácil negociar com as ditaduras.

Alguém se lembra de que, como estão as coisas, nunca será resgatado o compromisso de Muangai firmado em 13 de Março de 1966?

E a regra foi, é e continuará a ser: De bestial a besta consoante se está, ou não, no poder

O grupo Irmãos Muçulmanos afirmou que o discurso de ontem do Presidente egípcio, Hosni Mubarak, em que anunciou a demissão do Governo, "é apenas um passo" antes de aceitar as reivindicações da oposição e do povo.

Por outro lado, o oposicionista e Prémio Nobel da Paz, Mohamed El Badaradei, considera que o discurso foi "praticamente um insulto à inteligência das pessoas". Baradei, que é presidente da Assembleia Nacional para a Mudança, disse ainda que as palavras do Presidente "foram insultuosas e uma verdadeira provocação".

"A mudança de Governo não é o objectivo fundamental, já que há um conjunto de reivindicações que exigem as forças políticas, como a revogação da Lei de Emergência, a dissolução do Parlamento e eleições livres e limpas", disse à Efe Walid Shalabi, assessor de imprensa do "guia supremo" dos Irmãos Muçulmanos, Ezzat el Badia.

Na sede do movimento, ilegalizado mas semi-tolerado pelo regime de Mubarak, Shalabi afirmou que outros dos pedidos da oposição e do povo são "alcançar liberdades públicas e julgar os corruptos".

Perante a criminosa conivência da comunidade internacional, para quem negociar com ditadores é bem mais fácil do que negociar com regimes democráticos, é o povo que vai saindo à rua para dizer “basta”.

E como sempre acontece quando um ditador tomba, a comunidade internacional (ver o caso da Tunísia) é célere a transformá-lo em besta, mesmo que no segundo antes o considerasse bestial. Ou seja, o mundo dito democrático está sempre, mas sempre, com quem está no poder, seja ele um ditador ou um candidato a... ditador.

Os mais recentes exemplos mostram exactamente isso. Tal como mostram que o mais importante é razão da força e não a força da razão. Há muito que os povos, sejam da Tunísia, do Egipto, da Líbia, da Guiné-Equatorial ou de Angola (entre muitos outros exemplos), mostram ao mundo que a força da razão está do seu lado.

Mas como isso não chega... a violência é a solução.

Cabinda é Angola?

sexta-feira, janeiro 28, 2011

E por falar em ditadores...

Angola é o único Estado da CPLP - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, à qual aliás preside, que têm há 31 anos o mesmo presidente e que nunca foi eleito. Isto para além de ser (des)governado pelo mesmo partido, o MPLA, desde 1975.

Não está mal. Angola é uma ditadura? Formalmente não, de facto sim. Mas o que é que isso importa à CPLP, à UA, à ONU, se tem petróleo, que é um bem muito – mas muito - superior aos direitos humanos, à democracia, à liberdade, à cidadania?

Reconheça-se, contudo, que a hipocrisia não é uma característica específica de Portugal, se bem que nas ocidentais praias lusitanas tenha alguns dos seus mais latos expotentes. O Brasil afina pelo mesmo diapasão e os restantes membros da CPLP nem voto têm na matéria.

A hipocrisia internacional é de tal ordem que a própria UNESCO, por exemplo, projectou atribuir um prémio patrocinado pelo Presidente da Guiné-Equatorial, Teodoro Obiang Nguema, mais um dos grandes ditadores da actualidade.

Vê-se, por aqui, que a própria agência das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura chegou a equacionar dar cobertura a um dos mais infames ditadores mundiais, apesar de só estar no poder há... 31 anos. Mas tem petróleo, acrescente-se.

E como Angola tem petróleo (grande parte roubado na sua colónia de Cabinda), ninguém se atreve a perguntar a José Sócrates e a Cavaco Silva se acham que Angola respeita os direitos humanos ou se é possível que a presidência da CPLP seja ocupada por um país cujo presidente está no poder há 31 anos, sem ter sido eleito.

Reconheça-se, contudo, que tomando como exemplo Angola, a Guiné-Equatorial preenche todas as regras para entrar de pleno e total direito na CPLP. Não sabe o que é democracia mas, por outro lado, tem fartura de petróleo, o que é condição “sine qua non” para comprar o que bem entender.

Portugal, como não poderia deixar de ser, não vê o que se passa mas amplia o que gostava que se passasse. Vai daí, quando fez o balanço da sua presidência da CPLP, o Governo de José Sócrates destacou o compromisso assumido por todos os Estados membros para a promoção internacional da língua portuguesa.

E o resultado foi, continua a ser, tão positivo que – para além do analfabetismo na Guiné-Bissau (mais de 50%) ou a falta de livros em Timor-Leste – a CPLP vai abrir as portas a todas as ditaduras amigas. Tão amigas que, recentemente, José Sócrates elogiou a estabilidade política da Tunísia...

É claro que na lusofonia existem muitos seres humanos que continuam a ser gerados com fome, nascem com fome e morrem, pouco depois, com fome. Mas, é claro, morrem em... português... o que significa um êxito para a língua.

Sócrates, tal como Luís Amado, têm razão. O importante é mesmo os famintos e miseráveis da lusofonia saberem dizer, em bom português, “não conseguimos viver sem comer”. Continuarão, como até aqui, sem comida, sem medicamentos, sem aulas, sem casas, mas as organizações internacionais vão perceber o que eles dizem.

Tal como perceberam que Portugal transferiu a presidência da CPLP, com todo o brilhantismo e à volta de uma mesa farta, para um país que, por exemplo, mantém forte presença militar e policial na sua colónia de Cabinda, que não respeita os direitos humanos e que é dos mais corruptos do mundo.

Mas o que é que isso importa? O importante é que Angola fala português, com ou sem acordo ortográfico, tem petróleo que nunca mais acaba (embora a partir de uma colónia) e, mais importante do que tudo, está em vias de resolver os problemas económicos de Portugal.

Problemas que acabarão quando a Oferta Pública de Aquisição, parcial ou total, lançada pelo regime do MPLA sobre Portugal se concretizar.

Mas, se a Tunísia, tal como a Argélia, o Egipto, a Líbia, a Venezuela ou a China, podem ser os grandes parceiros do socialismo lusitano, porque carga de chuva não se poderá dar o mesmo estatuto a Angola?

Recordam-se que, no dia 6 de Maio de 2008, o músico e activista Bob Geldof afirmou, em Lisboa, que Angola é um país "gerido por criminosos"?

Geldof disse apenas o que, aqui no Alto Hama como noutros blogues, tem sido dito e repetido até à exaustão sem que, contudo, tenha merecido alguma atenção.

Nessa altura, Bob Geldof falava na conferência sobre Desenvolvimento Sustentável, organizada pelo Banco Espírito Santo e jornal Expresso, dedicando uma intervenção de cerca de vinte minutos ao tema "Fazer a diferença", no fim da qual o então embaixador angolano, Assunção dos Anjos, abandonou a sala.

As verdades são duras e o então embaixador não tinha outra solução. Não porque não soubesse que é verdade, mas porque o capataz do reino angolano, Eduardo dos Santos, lhe paga para dizer que é mentira. E paga bem.

Quando se referia às relações históricas e culturais de Portugal com o continente africano - "vocês serão uma voz importante no século XXI", Bob Geldof fez uma pausa e virou o discurso para Angola.

"Angola é gerida por criminosos", acusou o organizador do Live Aid e Live 8.

"As casas mais ricas do mundo estão a ser construídas na baía de Luanda, são mais caras do que em Chelsea e Park Lane", apontou, estabelecendo como comparação estes dois bairros luxuosos da capital inglesa.

quinta-feira, janeiro 27, 2011

Livro sobre a Guerra Colonial em Angola

Um tacho para mim, outro para ti

O CDS-PP vai questionar hoje o Governo sobre a situação das empresas do Sector Empresarial do Estado (SEE). Os centristas consideram que as empresas públicas são "uma doença da economia portuguesa".

Pelos exemplos das últimas décadas são uma doença crónica que, de facto, ninguém quer tratar. E não quer porque ele serva para encher os bolsos de muita gente, sobretudo daqueles que gravitam na esfera do poder.

Diz o CDS-PP que quer apresentar soluções para resolver o problema. Ou seja, quer participar também nos cuidados paliativos de modo a mascarar a enfermidade que, com jeitinho, ainda os poderá voltar a beneficiar.

O CDS-PP considera ainda que o sector empresarial do Estado "cresceu de uma forma absolutamente desproporcionada". É verdade. Mas se não fosse assim, onde seriam colocados os homens do sistema que, para além de fraca política, nada mais sabem fazer?

É verdade que o Governo de José Sócrates está, como sempre esteve, com as empresas (públicas, privadas ou assim-assim) ligadas ao PS, às dos amigos do PS, às que empregam os amigos do PS, às que financiam os amigos do PS, às que fazem propaganda ao PS, às que albergam militantes do PS, às que dão empregos milionários a ex-dirigentes do PS.

Mas se hoje é assim, ontem também foi assim. É certo que quase sempre quem mamou na gamela foi o PSD e o PS. Mas o CDS também por lá andou. Daí que ninguém com perspectivas de chegar aos tachos esteja verdadeiramente interessado em resolver a questão.

Hoje, PSD e CDS podem acusar o PS. Mas não podem esquecer que têm muitos, mas muitos, telhados de vidro. Ainda não há muitos anos se poderia dizer que o PSD esteva com as empresas (públicas, privadas ou assim assim) ligadas ao PSD, às dos amigos do PSD, às que empregam os amigos do PSD, às que financiam os amigos do PSD, às que fazem propaganda ao PSD, às que albergam militantes do PSD, às que dão empregos milionários a ex-dirigentes do PSD.

Em bom português poder-se-á dizer que, no fim de contas, as moscas podem mudar, mas a merda continua a ser a mesma.

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Afinal, em democracia, o presidente não ganha sempre? Pergunta Laurent Gbagbo

A comunidade internacional é a principal responsável pelo que se passa na Costa do Marfim, entre muitos outros exemplos. Esqueceu-se de dizer que, para além de haver (uma espécie de) eleições, quando as há, quem perde tem de sair.

Laurent Gbagbo lá pôs o povo a votar, mas como não explicaram tudo, ele esqueceu-se (como fez em Angola o seu grande amigo José Eduardo dos Santos) de pôr os mortos a votar. Vai daí, perdeu. Perdeu mas não sai.

Um dos últimos episódios diz que Laurent Gbagbo ordenou a "requisição" das agências no país do Banco Central dos Estados da África Ocidental (BCEAO), ao que o presidente eleito, Alassane Ouattara, respondeu ordenando o seu "encerramento".

O pessoal das agências do BCEAO foi requisitado para "assegurar os serviços ordinários" dos estabelecimentos, lê-se num decreto presidencial assinado por Gbagbo, que se autoproclamou presidente.

Acrescente-se que Laurent Gbagbo não só se autoproclamou presidente como recebeu o apoio, sobretudo militar, dos seus amigos mais democratas, casos de Eduardo dos Santos e Robert Mugabe.

Alassane Ouattara, o presidente que é reconhecido pela comunidade internacional mas que se arrisca a ser presidente de coisa nenhuma, reagiu a esta medida qualificando-a de "ilegítima, ilegal e, como tal, sem efeito" e anunciou "o encerramento" das agências do banco regional no país a partir de hoje, segundo um comunicado igualmente... presidencial.

E, para que não restem dúvidas, hoje de manhã forças fiéis a Gbagbo guardavam a sede do BCEAO em Abidjan, referindo alguns jornalista no local que entre os militares que apoiam o ex-actual presidente alguns falavam português.

O decreto de Laurent Gbagbo foi conhecido depois de, no sábado, Philippe-Henry Dacoury-Tabley, governador costa-marfinense do BCEAO, considerado um próximo do presidente cessante, ter sido forçado a demitir-se. O governador foi acusado de ter desrespeitado as ordens da União Económica e Monetária da África Ocidental, que considera Ouattara o presidente legítimo, e ter autorizado o levantamento de cerca de 90 milhões de euros para o regime de Gbagbo.

O BCEAO, sedeado em Dacar, reúne as finanças de oito países da África Ocidental: Benim, Burkina Faso, Costa do Marfim, Guiné-Bissau, Mali, Níger, Senegal e Togo. Além de emitir moeda, o banco reúne as reservas de divisas dos oito países.

Laurent Gbagbo e Alassane Ouattara reclamam ambos a vitória na segunda volta das presidenciais, realizada a 28 de Novembro. Ouattara foi reconhecido pela ONU e pela quase totalidade da comunidade internacional como presidente legítimo, mas Gbagbo recusa abandonar o poder.

O acesso de Gbagbo aos fundos estatais foi revogado em Dezembro, mas Ouattara afirma que Gbagbo tem conseguido aceder aos fundos no banco central, o que lhe permite continuar a pagar às forças policiais e militares, seu principal apoio para se manter no poder.

Missão Europeia no Sahara Ocidental

"Uma delegação de sindicatos europeus composta pelas centrais sindicais de Espanha (CCOO, Confederación Intersindical, USO), Euskadi (ELA-STV), Galiza (CIG), França (CGT), Itália (CGIL) e Portugal (CGTP-IN), tendo por base os acordos alcançados na 36ª Conferência Internacional de Solidariedade com o Sahara Ocidental realizada em Novembro de 2010 em Le Mans, deslocou-se a El Aiun de 23 e 25 do actual mês de Janeiro.

Os objectivos desta missão internacional visaram mostrar a solidariedade com os trabalhadores e as trabalhadoras do Sahara Ocidental e o Povo Saharaui, e conhecer no terreno a actual situação nos territórios ocupados por Marrocos.

Durante estes dias tiveram lugar reuniões com a Confederação Sindical de Trabalhadores Saharauis (CSTS) — organização sindical não reconhecida pelo governo marroquino —, com trabalhadores da empresa OCP de fosfatos Fosbucraa e com várias associações saharauis defensoras dos direitos humanos.

Também se realizaram reuniões com o Governador de El Aiun, e com o Vice-Presidente do Conselho Municipal, o Presidente do Conselho Regional (Parlamento) e do Conselho Provincial de El Aiun.

Durante a visita, a Delegação sindical constatou a falta de liberdades políticas, sociais e sindicais da população e dos trabalhadores e trabalhadoras saharauis, a quem não se permite a criação de organizações, associações e sindicatos que não estejam submetidos às directrizes governamentais marroquinas. Recebemos testemunhos de que permanecem detidos mais de cem saharauis por terem participado no protesto do Acampamento de Gdeim Izik. Constatámos igualmente que a exploração dos recursos naturais saharauis tão pouco revertem em benefícios para a sua população (em criação de postos de trabalho, etc.). Queremos denunciar também o controlo policial a que fomos submetidos. A polícia marroquina seguiu-nos em todas as nossas deslocações, gravando e fotografando todas as nossas actividades.

A delegação sindical mostrou a sua solidariedade com os trabalhadores de Fosbucraa, que se manifestam desde há meses diante da sede da Direcção da Empresa, exigindo que lhes seja reconhecido os seus direitos resultantes dos contratos de trabalho firmados então com a empresa Fosbucraa, e que sejam indemnizados adequadamente pelos incumprimentos e discriminações que sofreram pelo facto de serem Saharauis.

Os sindicatos participantes nesta missão internacional expressam uma vez mais a sua solidariedade com o Povo Saharaui e exigem que se respeite o seu direito à autodeterminação através da realização do referendo reconhecido em inúmeras resoluções das Nações Unidas e reiteradamente não cumpridas pelo reino de Marrocos. Instamos a União Europeia a que tenha em conta estes princípios nas suas relações com Marrocos, suspendendo o Estatuto Avançado que com esse Estado mantém. Exigimos ao governo espanhol, potência administradora do território, segundo a legislação internacional, que exerça uma política de neutralidade activa, posta sistematicamente em causa pelas declarações favoráveis às teses marroquinas da Ministra de Negócios Estrangeiros e do Ministro da Presidência."

Nota: Texto divulgado pela Associação de Amizade Portugal-Sahara Ocidental (AAPSO)

“Estigmas do Poder” apresentado na Biblioteca Municipal de Valongo

No próximo domingo, dia 30, pelas 16h00, na Biblioteca Municipal de Valongo, será apresentado o livro «Estigmas do Poder» (Histórias de Portugal no âmbito das relações internacionais no contexto sócio-político das crises mundiais) de Joaquim Morais.

«Numa altura em que os arautos da subserviência enclausuraram o primado da competência nas Ocidentais Praias Lusitanas, é gratificante constatar que, afinal, ainda há – embora sejam cada vez menos – gente, boa gente, capaz de recordar que de facto a história de Portugal não começou (como querem fazer crer) apenas no dia 25 de Abril de 1974», escrevo no prefácio do livro.

E acrescento: «Embora saiba que a sociedade portuguesa está agora rendida a todos aqueles que para contarem até 12 têm de se descalçar, Joaquim Morais continua a luta, desde logo porque é daqueles que sabe que só é derrotado quem deixa de lutar. E deixar de lutar não é com ele. Tal como não foi pelos seus antepassados que deram luz ao mundo».

Encontro Gerações JN (Jornal de Notícias)

Nesta primeira edição do “Jornal” sobre o “Primeiro Encontro de Geraçõs JN” podem ser lidos textos de: A. Sérgio de Matos, António José, António Magalhães, António Ribeiro dos Santos, António Silva, Armando Miro, Arnaldo Silva, Artur Miranda, Aurélio Cunha, Bé Sousa Pinto, Carlos Naia, Carlos Roso, César Príncipe, Costa Carvalho, Dias Costa, Eduardo Monteiro, Ermelinda Osório, Fernando Seixas, Fernando Mendes, Frederico Martins Mendes, Gomes da Rocha, Joaquim Fidalgo, Joaquim Queirós, Jorge Castilho, Jorge Cruz, Jorge Monteiro Alves, José de Azevedo, José Fontes, Luís Alberto Ferreira, Magalhães Costa, Manuel Gomes de Almeida, Manuel Neto, Miguel Reis, Murillo Lopes, Onofre Varela, Orlando Castro, Orlando Inocentes, Pimpão dos Santos, Rui Osório e Soares Novais.

O texto que assino é o que a seguir se reproduz:

Fernando Mendes tinha 60 anos de idade. Foi Jornalista do Jornal de Notícias durante mais de três décadas. Morreu de doença súbita, diz o jornal ao qual deu tudo o que tinha.

Profissionalmente partilhei com ele 18 desses trinta e tal anos no JN. Tempo suficiente para saber que se consumou ontem o que já começara há alguns meses. Pelo menos desde o início do ano, altura em que anunciaram o despedimento colectivo que, entre outros e numa acção inédita, também atingiu alguns dos melhores jornalistas do JN.

Foi aí que o Fernando começou a morrer. De nada valeu o facto de ter dado trinta e tal dos melhores anos da sua vida ao JN. De nada valeu ter sido dos que ajudaram a fazer do JN o primeiro de todos e não, como agora acontece, o primeiro... dos últimos. De nada valeu ser um Jornalista que metia num bolso os algozes que decretaram a sua morte, que o apunhalaram pelas costas.

O Fernando era um Homem, exactamnte o oposto dos algozes que a troco de um prato de lentilhas não se importam de sacrificar os melhores para serem criados de luxo do poder.

O Fernando era um Jornalista, exactamente o oposto dos algozes que, porque para contarem até 12 têm de se descalçar, fazem uso de uma coluna vertebral amovível.

Fica contudo, meu caro Fernando, a certeza de que se o teu valor se medisse pelo nível (humano, intelectual, moral ou profissional) desses algozes, nunca eu te chamaria camarada, companheiro e amigo.

Adeus Fernando!

Pelo sim e pelo não, ditadores põem as barbas de molho e os dedos nos gatilhos

Na Tunísia, país que o primeiro-ministro português, José Sócrates, aconselhou aos empresários do seu país devido, entre outras razões, à estabilidade política, foi o que se viu e o que se vê. Agora a semente da revolta chegou também ao Egipto.

Centenas de manifestantes ocuparam esta madrugada a praça Tahrir, no Cairo, tendo a polícia voltado a usar gás lacrimogéneo e canhões de água, o que resultou num saldo de cerca de 150 feridos.

Os manifestantes exigem reformas políticas e económicas, bem como a renúncia do presidente Hosni Mubarak, no poder há 30 anos. Ontem três pessoas morreram nos protestos.

A polícia conseguiu tomar o controlo da praça até ao amanhecer, depois dos confrontos da madrugada. Os manifestantes tomaram ainda as principais estradas da capital.

«Sai, sai Hosni Mubarak», gritavam os manifestantes, depois de fugir da praça. Alguns lançaram pedras à polícia, que não poupou cassetetes para evitar que o local fosse retomado pelos manifestantes depois de dispersá-los com gás lacrimogéneo.

Ontem, milhares de pessoas manifestaram-se em diferentes pontos do Cairo para exigir a queda de Mubarak, no poder desde 1981, o fim da lei de emergência e a realização de eleições limpas. No centro da capital realizou-se uma concentração sem precedentes no país.

O grupo de oposição Juventude Seis de Abril convocou na sua página na rede social Facebook novos protestos «até à saída de Mubarak».

Embora o efeito de contágio a sul seja reduzido, alguns dos ditadores estão já a pôr as barbas de molho e, pelo sim e pelo não, a cortar as ideias de protesto pela raiz.

Angola, o único país da Lusofonia cujo presidente, José Eduardo dos Santos, nunca foi eleito e já está no poder há 31 anos, aparenta calma nesta matéria de uma eventual contestação social, mas os serviços secretos do regime receberam ordens para radiografar ao pormenor todos os possíveis focos de incêndio.

Também a polícia e os militares receberam instruções para proibir e impedir qualquer tipo de manifestação, por mais inocente e inofensiva que pareça.

Sabendo que a juventude é, por regra, o motor dos protestos, o MPLA está a montar um ainda mais apertado controlo das organizações juvenis dos outros partidos, bem como dos jovens em geral.

Há poucos dias, por exemplo, o porta-voz da Polícia Provincial de Luanda, superintendente Jorge Bengui, disseque os agentes da Polícia não prenderam o secretário-geral da JURA (organização da juventude da UNITA), Mfuka Fuacaca Muzemba e os seus acompanhantes, explicando que os levaram até à esquadra para lhes ensinarem algumas leis e procedimentos legais.

Na altura, os jovens encontravam-se concentrados junto da Assembleia Nacional, para uma manifestação pacífica, que previa a distribuição de panfletos que protestavam contra o dia 14 de Abril, que consagra o dia da juventude do MPLA, em memória de Hoji Ya Henda, o patrono da JMPLA.

Eduardo dos Santos sabe que, muitas vezes, um só fósforo é suficiente para atear um incêndio em todo o país. E como não brinca em serviço, resolveu fazer pedagogia também junto de líderes políticos, religiosos e sociais, dizendo-lhes (ou mandando dizer) que, para o regime, a razão da força é mais importante do que a força da razão.

O Alto Hama no Club-K

terça-feira, janeiro 25, 2011

Sindicato dos Jornalistas manifesta-se sobre cortes salariais no reino lusitano e socialista

O Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português vão requerer conjuntamente a apreciação da constitucionalidade das normas do Orçamento de Estado que instituem cortes salariais na Administração Pública e empresas do Sector Público, em que se incluem a RTP, Lusa e “Jornal da Madeira”.

A decisão dos dois partidos vai ao encontro da posição defendida pelo Sindicato dos Jornalistas (SJ) nos encontros realizados com os respectivos grupos parlamentares, informa a organização sindical em comunicado e que a seguir se transcreve na íntegra e sem comentários.

«1. O Sindicato dos Jornalistas pediu audiências a todos os grupos parlamentares para lhes apresentar a sua posição face aos cortes salariais e solicitar que requeiram a apreciação da constitucionalidade dos artigos da Lei do OE que regulam esta matéria.

2. Desses contactos, resulta a informação de que o Bloco de Esquerda (BE) e o Partido Comunista Português (PCP) vão requerer conjuntamente a apreciação da constitucionalidade das normas do Orçamento de Estado (OE) que instituem cortes salariais na Administração Pública e empresas do Sector Público, em que se incluem a RTP, Lusa e Jornal da Madeira.

3. A Direcção do Sindicato dos Jornalistas foi recebida pelos grupos parlamentares do CDS/PP, BE e PCP. Os do PS e do PSD ainda não deram, até hoje, resposta ao pedido de audiência.

4. Nos encontros com os grupos parlamentares do CDS/PP, BE e PCP, a Direcção do SJ considerou que há uma clara inconstitucionalidade em todos os cortes salariais, mas que há razões acrescidas de inconstitucionalidade no caso das empresas com a totalidade ou maioria de capital do Estado.

5. Os cortes salariais e o restante clausulado previsto no Orçamento de Estado põem em causa não apenas direitos constitucionais no plano da retribuição do trabalho, mas também o próprio direito à negociação colectiva, consagrado na Constituição da República.

6. Além disso, não é possível invocar que esses cortes salariais nas empresas de maioria de capital público se destinam a reduzir o défice orçamental. Desde logo porque as indemnizações compensatórias para a RTP e Lusa se mantêm, no cumprimento de contratos plurianuais em vigor, como não podia deixar de ser. Pelo que não há sequer poupança para o Orçamento de Estado.

7. No caso de empresas com a participação de capital privado, um aumento de dividendos decorrente da poupança de salários significaria descontar a quem trabalha para dar a accionistas privados. Que no caso da Lusa representam quase 50% do capital.

8. É dificilmente compreensível que, tendo o Estado contratos com as mais diversas entidades, apenas queira poupar nos contratos de trabalho.

9. Por todas estas razões, o Sindicato apelou aos grupos parlamentares por quem foi recebido que suscitassem a questão da inconstitucionalidade das normas em causa.

10. O SJ dispõe da informação, recebida nas audiências, de que Bloco de Esquerda e Partido Comunista Português vão conjuntamente pedir a apreciação da constitucionalidade das normas em causa.»

Cavaco Silva e Eduardo dos Santos
- Amigos (pois claro!) para sempre

José Eduardo dos Santos, presidente não eleito de Angola há 31 anos, felicitou Aníbal Cavaco Silva pela sua reeleição para a Presidência da República portuguesa, considerando que esta vai contribuir para aprofundar as relações entre Luanda e Lisboa. Vai com certeza.

Na mensagem enviada a Cavaco Silva, Eduardo dos Santos deseja que o Presidente reeleito «alcance maiores êxitos neste seu segundo mandato à frente da chefia do Estado português».

José Eduardo dos Santos disse ainda ao seu homólogo português que a sua vitória eleitoral «há de contribuir para o aprofundamento dos laços de amizade e cooperação entre os dois povos».

Entre os dois povos não diria. Mas certamente que contribuirá para reforçar os laços entre os poucos que, tanto em Portugal como em Angola, têm milhões.

Recorde-se, por exemplo, que em Março de 2009, no Palácio de Belém, só dois jornalistas de cada país tiveram direito a colocar perguntas a Cavaco Silva e a Eduardo dos Santos.

Um deles, certamente no cumprimento da sua profissão mas, é claro, à revelia das regras dos donos dos jornalistas e dos donos dos donos dos jornalistas, questionou Cavaco Silva sobre esse eufemismo a que se chama democracia em Angola, e perguntou a Eduardo dos Santos quando haveria eleições presidenciais no seu país.

Cavaco Silva limitou-se a... não responder e Eduardo dos Santos disse que não sentia falta de legitimidade, acrescentando que um dia haveria eleições presidenciais em Angola.

Quando, no dia 3 de Setembro de 2008, o mesmo Cavaco Silva falava na Polónia a propósito das eleições em Angola, disse o óbvio (uma das suas espeicalidades): “Desejo que as eleiçõess ocorram com toda a paz, sem qualquer perturbação, justas e livres como costumam dizer as Nações Unidas nos processos eleitorais".

Nessa altura, como sempre, Cavaco Silva nada disse sobre o facto de quatro órgãos de comunicação social portuguesa - SIC, Expresso, Público e Visão – terem sido impedidos de entrar em Angola para cobrir as eleições que foram tudo menos justas e livres.

Afrinal, hoje, Cavaco Silva, embora mais comedido, continua a pensar da mesma forma que José Sócrates, para quem Angola nunca esteve tão bem, mesmo tendo 68% dos angolanos na miséria.

De facto, como há já alguns anos dizia o Rafael Marques, os portugueses só estão mal informados porque querem, ou porque têm interesses eventualmente legítimos mas pouco ortodoxos e muito menos humanitários.

Custa a crer, mas é verdade que os políticos, os empresários e os (supostos) jornalistas portugueses (há, é claro, excepções) fazem um esforço tremendo (se calhar bem remunerado) para procurar legitimar o que se passa de mais errado com as autoridades angolanas, as tais que estão no poder desde 1975.

Alguém, pergunto eu, ouviu Cavaco Silva recordar que 68% da população angolana é afectada pela pobreza, que a taxa de mortalidade infantil é a terceira mais alta do mundo, com 250 mortes por cada 1.000 crianças? Não, ninguém pergunta até porque ele não responde.

Alguém o ouviu recordar que apenas 38% da população tem acesso a água potável e somente 44% dispõe de saneamento básico?

Alguém o ouviu recordar que apenas um quarto da população angolana tem acesso a serviços de saúde, que, na maior parte dos casos, são de fraca qualidade?

Alguém o ouviu recordar que 12% dos hospitais, 11% dos centros de saúde e 85% dos postos de saúde existentes no país apresentam problemas ao nível das instalações, da falta de pessoal e de carência de medicamentos?

Alguém o ouviu recordar que a taxa de analfabetos é bastante elevada, especialmente entre as mulheres, uma situação é agravada pelo grande número de crianças e jovens que todos os anos ficam fora do sistema de ensino?

Alguém alguma vez o ouvirá dizer que 45% das crianças angolanas sofrerem de má nutrição crónica, sendo que uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos?

Alguém alguma vez o ouvirá dizer que a dependência sócio-económica a favores, privilégios e bens, ou seja, o cabritismo, é o método utilizado pelo MPLA para amordaçar os angolanos?

Alguém alguma vez o ouvirá dizer que 80% do Produto Interno Bruto angolano é produzido por estrangeiros; que mais de 90% da riqueza nacional privada é subtraída do erário público e está concentrada em menos de 0,5% de uma população; que 70% das exportações angolanas de petróleo tem origem na sua colónia de Cabinda?

Alguém alguma vez o ouvirá dizer que o acesso à boa educação, aos condomínios, ao capital accionista dos bancos e das seguradoras, aos grandes negócios, às licitações dos blocos petrolíferos, está limitado a um grupo muito restrito de famílias ligadas ao regime no poder?

Não. O silêncio (ou cobardia) são de ouro para todos aqueles que existem para se servir e não para servir.

segunda-feira, janeiro 24, 2011

HRW volta a denunciar prisões arbitrárias
e tortura na colónia angolana de Cabinda

A organização Human Rights Watch (HRW) denuncia a existência de prisões arbitrárias, tortura e outras violações graves dos direitos humanos por parte das Forças Armadas angolanas em Cabinda, no seu relatório anual apresentado hoje em Bruxelas.

A HRW dá conta da «prisão arbitrária» de mais de 40 independentistas desde 2007, a maioria dos quais alegam ter sido sujeitos a tortura e maus-tratos durante longos períodos de detenção, com o objetivo de extrair confissões.

Se calhar o reeleito presidente da República de Portugal (país que assinou acordos de protectorado com Cabinda), Cavaco Silva, ainda não teve tempo para ler, mesmo que na diagonal, o relatório da Human Rights Watch.

Durante a campanha eleitoral, Cavaco Silva parecia ter acordado e, com isso, voltado a ter memória. Será que isso fará Portugal alterar a sua posição em relação a Cabinda? Claro que não. Nem José Eduardo dos Santos permitiria tal leviandade ou traição.

Seja como for, e por muito que queiram os novos protagonistas (entre eles Cavaco Silva), a História de Portugal (bem como o próprio país) não começa em 1974. E no que às ex-colónias de África respeita, começou antes dos Acordos do Alvor. Antes com honra, depois com uma aviltante subserviência perante os novos donos desses países.

No caso de Cabinda, Portugal honrou desde 1885 e até 1974, o compromisso que incluiu constitucionalmente Cabinda na Nação portuguesa de forma autónoma. Depois disso, rendido à cobardia nacional, varreu a honra e a dignidade para debaixo do tapete, seguindo as instruções dos novos e ignorantes donos do país.

Assim, no artigo da Constituição Portuguesa referente à Nação Portuguesa sempre constava que o território de Portugal era, na África Ocidental, constituído pelo Arquipélago de Cabo Verde, Arquipélago de S. Tomé e Príncipe, Forte de S. João Baptista de Ajuda, Guiné, Cabinda e Angola.

Ao contrário do que têm dito os donos da verdade portuguesa, quase todos paridos a partir de 1974 nas latrinas da ignorância e da ignominia, estava bem expresso (mesmo para os que para contarem até 12 têm de se descalçar) que Cabinda e Angola eram situações diferentes.

Pouco antes de 1974, a Lei Orgânica do Ultramar (1972) dizia de forma clara que os territórios ultramarinos se compunham das províncias com a extensão e limites que constarem da lei e dos tratados ou convenções internacionais aplicáveis.

Várias gerações de estudantes portugueses anteriores a 1974, certamente não será o caso do secretário de Estado de Cooperação, João Gomes Cravinho, mas é com certeza o de Aníbal Cavaco Silva, leram que existia uma completa separação jurídica e administrativa que a Constituição indicava para o território de Cabinda.

Se o reeleito presidente da República de Portugal não renegar o passado, como fez enquanto foi primeiro-ministro e durante o primeiro mandato em Belém, poderá, incluive, consultar os livros escolares dessa altura.

Creio que ao nível dos principais políticos portugueses ainda haverá no activo quem se recorde que, a nível alfandegário – por exemplo, Cabinda e Angola funcionavam também como territórios distintos.

Também haverá quem tenha tesmunhado, in loco, que no aniversário da assinatura do Tratado de Simulambuco havia cerimónias específicas.

Em 1955, apenas para facilitar a administração do Enclave e alguma economia de meios, Cabinda foi considerada como um distrito de Angola. Apenas por isso já que em termos constitucionais tudo continuava na mesma.

Segundo o general Silvino Silvério Marques, que foi Governador Geral de Angola, entre 1962 e 1965, o ministro Silva Cunha escreveu que, aquando a preparação do Estatuto Político-administrativo da Província de Angola de 1963, Salazar mandou perguntar ao Governador Geral de Angola se concordava que Cabinda, administrada nessa altura como distrito de Angola, passasse a usufruir de um estatuto especial de autonomia.

Recorde-se que ouvido o Conselho Económico-Social de Angola, foi respondido negativamente depois de ponderadas as razões que lhe eram apresentadas, situação que se manteve durante os 13 anos de luta.

Assim, fazendo fé de que a História de Portugal não começou só a ser escrita a partir de 1974, a situação de Cabinda relativamente a Angola era, em 1974, idêntica à dos protectorados belgas do Ruanda e do Burundi em relação ao Congo Belga.

Isto significa que se tornaram independentes, separados do Congo ex-belga, depois de, em 1960, a grande colónia belga se ter tornado independente.

Na recente campanha eleitoral para as presidenciais em Portugal, Cavaco Silva afirmou que muitos dos que o acusam, "para serem mais honestos do que eu, têm que nascer duas vezes".

No caso de Cabinda, não sei se nascer duas vezes seria suficiente para Cavaco Silva deixar de varrer o lixo do seu país para debaixo do tapete. É que, por muitas que sejam as vezes que nasça, o lixo continua lá.

Os militares angolanos vencem sempre, seja no Congo, Zimbabué ou... Costa do Marfim!

De acordo com o jornal “The Sunday Times”, um avião de carga Antonov An-22, com matrícula de Angola, transportou toneladas de armas de Harare para Laurent Gbagbo, o presidente derrotado pelo voto popular na Costa do Marfim.

De acordo com o jornal, o transporte do armamento para as forças fiéis ao amigo do presidente angolano, José Eduardo dos Santos, terá sido feito durante o Natal e a passagem de ano.

Fontes em Harare disseram ao “The Sunday Times” que o presidente do Zimbabué, e também amigo do regime angolano, Robert Mugabe, autorizou a remessa de armas após um apelo de Gbagbo que oferece petróleo em troca de ajuda militar.

As fontes citam como líder da operação um empresário chinês, identificado apenas como Sam Pa, que terá garantido a Mugabe que não deixaria pontas soltas que pudessem implicar o presidente do Zimbabué.

A aeronave descolou da base aérea Manyame fora de Harare, desconhecndo-se a quantidade exacta de armas, apenas se sabendo que o Antonov, de fabrico russo, pode transportar até cerca de 80 toneladas de carga.

Ainda de acordo com o jornal, militares do Zimbabué e oficiais dos serviços secretos acompanharam o transporte até bases na Costa do Marfim e foram entregues aos militares fiéis a Laurent Gbagbo.

A entrega clandestina coloca Mugabe contra as Nações Unidas, e contra os líderes do oeste africano e da União Africana, que pressionam Gbagbo a ceder o poder a Alassane Ouattara, vencedor da segunda volta das eleições de Novembro, segundo os resultados verificados pelas Nações Unidas.

Recorde-se, como muito bem disse o Jornalista Carlos Narciso no seu blogue (
http://www.blogda-se.blogspot.com/), em Março de 2007, “foi Angola quem pôs Joseph e Laurent Kabila no poder, no Congo Democrático (que raio de designação para um país daqueles…) e que sustentou esse regime “dinástico” durante a guerra civil”.

“Angola fez o mesmo no outro Congo plus petite, idem para o Zimbabwe. Angola não se inibe de provocar quedas de regimes que não lhe convenham. Foi o que fez com todos os que apoiavam Savimbi, só falhando o golpe de estado que preparou na Zâmbia”, escreveu Carlos Narciso, acrescentando que “nos países onde a pressão da comunidade internacional consegue a realização de um simulacro de democracia, com eleições gerais mais ou menos livres e justas, os “cavalos” angolanos vencem sempre”.

domingo, janeiro 23, 2011

Fernando Nobre, Sócrates e Cavaco Silva

Fernando Nobre, candidato às eleições presidenciais em Portugal, afirmou que a sua candidatura sai "ganhadora" das eleições de hoje, afirmando que obteve um "resultado histórico". É verdade, mas sabe a pouco.

Fernando Nobre, que falava a cerca de uma centena de apoiantes no hotel onde montou o seu quartel-general para acompanhar a noite eleitoral, destacou que mais de "500 mil votantes e cerca de 14 por cento dos votos" significou um "resultado histórico, tremendo".

"Se houve um ganhador foi a candidatura da cidadania", disse o candidato, salientando que "a cidadania está viva, recomenda-se e o futuro do nosso país vai ter que ter isso em conta".

Engana-se. O país dos mesmos para os mesmos não vai querer saber, e vai amordaçar quem queira saber, da cidadania e do que – tal como a abstenção e os votos brancos – isso quer significar.

Apostaram e bem, reconheça-se, na velha tese de que os portugueses são um povo de brancos costumes. E são mesmo. Apesar dos 700 mil desempregados, 20% de pobres e outros tantos com os pratos vazios, vão continuar a cantar e a rir... mesmo que com a barriga vazia.

Entretanto, o secretário-geral do PS, José Sócrates, considerou hoje que os portugueses optaram nas eleições presidenciais pela continuidade e pela estabilidade política em Portugal ao reelegerem Cavaco Silva.

Com amigos assim, Manuel Alegre não precisa de inimigos. Se. No dizer do sumo pontífice socialista, Cavaco Silva representa – para além da continuidade – a estabilidade política, o que representa Manuel Alegre?

Seja como for, a verdade é que os portugueses quiseram continuar a ser, como dizia Guerra Junqueiro, “um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas”.

Seja, por isso, feita a vontade da maioria... dos que votaram.

Foi lá que tudo começou...

Tudo começou em Angola, mais exactamente na então cidade de Nova Lisboa, Huambo, onde nasci em 1954. Foi lá que aprendi que devo ser o que sou e não o que os outros querem que eu seja. Tarefa fácil lá e na altura, inexequível desde 1975 e até hoje.

Tem sido de facto uma tarefa complicada, tão forte é a pressão dos que nos querem acéfalos, autómatos e, como se isso não bastasse, invertebrados também.

É claro que entre as ruas do Bairro de Benfica (foi aí, por trás da Escola Primária, que a parteira Maria de Lupes me deu uma mão) e a cidade Alta (a terceira rua à direita a seguir ao Colégio das Madres, a caminho do aeroporto, foi a última etapa de um sonho) fui aprendendo outras coisas.

Aprendi, por exemplo, que importantes são todos aqueles (e serão certamente alguns) que nos estendem a mão se um dia tropeçarmos numa pedra. Hoje descobri que não são alguns... são menos ainda.

Mas também aprendi que mais importantes são todos aqueles (e serão certamente poucos) que tiram a pedra antes de passarmos e que dificilmente saberemos quem são.

No então Liceu Nacional General Norton de Matos (que saudades Professora Dorinda Agualusa, que saudades!) aprendi coisas que estão arquivadas no disco duro da memória e outras que estão on line. Todas me ajudam a compreender que o possível se faz sem esforço.

Infelizmente muitos de nós (já para não falar de muitos dos outros) continuam a preferir ser assassinados pelo elogio do que salvos pela crítica.

Foi também lá longe (lá longe onde a saudade castiga mais) que aprendi que não basta ter a faca e o queijo na mão... é preciso ainda tê-los no sítio.

Voltemos ao “defeito” de fabrico. Dizem-me os meus pais que na altura, e ao contrário do que hoje é prática corrente, não era possível fazer filhos com coluna vertebral amovível...

Foto: A casa, construída por administração directa pelos meus pais, com sangue, suor e lágrimas, onde vivi durante muitos anos e onde terminou, no final de 1975, o meu sonho de ser feliz... na minha terra.

“O Desportivo” – uma pedrada no charco

É um novo projecto de comunicação social da região do Vale do Sousa (Portugal). “O Desportivo.net” pretende vir colmatar um vazio que existe no mercado local dos media, ao nível do jornalismo vocacionado para o desporto.

O jornal desportivo, em plataforma online, vai promover toda a actividade desportiva das diferentes associações, clubes e grupos recreativos e amadores, cobrindo eventos de futebol assim com de várias modalidades.

Segundo uma auscultação do mercado de audiências dos órgãos de comunicação social com presença na net, o nosso objectivo é, durante o primeiro ano, atingir uma audiência média mensal de 25 mil visitas, com crescimento de 50 por cento, nos dois anos seguintes.

A redacção ficará a cargo do jornalista Arménio Santos, que é responsável por recrutar repórteres e garantir a colaboração periódica de diversos comentadores, com ligação umbilical às diferentes modalidades.

“O Desportivo.net” terá uma actualização permanente e em constante diálogo com os agentes desportivos a região. A criação de uma newsletter periódica, a abertura total e sem qualquer restrição a comentários, assim como a presença em força nas redes sociais visam cultivar o apetite dos leitores e a sua fidelização.

A urgência de um espaço que dê ênfase a uma região com campeões em modalidades como o atletismo, patinagem artística, desportos motorizados, BTT e muito mais, poderá ter agora resposta.

sábado, janeiro 22, 2011

ERC vai ensinar o padre nosso ao vigário

O presidente e vice-presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) de Portugal serão os oradores internacionais do seminário sobre comunicação e cidadania, que irá decorrer na terça e quarta-feira, no Centro de Formação de Jornalistas (Cefojor), em Angola.

"Insere-se no quadro de relações de cooperação técnica que tem a ver com a criação de mecanismos de regulação. Angola tem uma nova Constituição e está gradualmente a dotar-se de mecanismos mais modernos de regulação e justifica-se até pela proximidade dos nossos textos jurídicos", afirmou à Lusa o presidente da ERC.

Azeredo Lopes explicou que «a comunicação social evoluiu muito [em Angola], o que exige mecanismos técnicos mais específicos».

Essa coisa que em Portugal se chama ERC (que é uma entidade que ajuda – e agora vai sugerir o mesmo a Angola - a fingir que Portugal é um Estado de Direito) resolveu em tempos enviar um questionário para as principais empresas de media para saber quem são os proprietários dos órgãos de informação.

Será que vai sugerir o mesmo em Luanda? Não creio. Mas isso nem sequer é importante.

Para a ERC é, ou era, importante saber quem são os donos dos jornalistas. Acho bem. Impossível será, com certeza, saber quem são os donos dos donos dos jornalistas, embora seja aí que reside o cerne da questão. Mas como em Portugal o que conta é o supérfluo e não o essencial, lá vamos continuar na velha estratégia de todos a monte e fé em Deus.

Em caso de falta de resposta, a ERC pode, ou podia, aplicar uma contra-ordenação, já que a actualização desta informação é obrigatória por lei. Então se é obrigatória... há necessidade de fazer um inquérito?

Pois. Já sabemos. É obrigatório por lei mas, como em muitas outras coisas, a lei só vale para os pilha-galinha e não para os que roubam os próprios aviários.

É, ou era, a primeira vez que a ERC vai exercer esta competência, no momento em que os socialistas insistentemente perguntam quem são os proprietários do semanário Sol. Proprietários do ponto de vista legal já que, na verdade, os donos poderão ser outros.

Supostamente os grupos de comunicação social teriam de prestar informações sobre a estrutura accionista e os meios que detêm. Como se isso fosse, de facto, resolver alguma coisa.

Segundo um comunicado da ERC de 22 de Fevereiro de 2010, a informação destinava-se a "completar e a actualizar a base de dados de registos" da entidade reguladora. É à ERC que compete fazer o registo dos órgãos de informação quando estes são criados e, nesse processo, é pedida a identificação dos órgãos sociais e a relação nominativa dos accionistas com indicação do número de acções que possuem.

À luz dos estatutos da ERC, é permitido realizar auditorias e exames nos órgãos de informação e aplicar uma contra-ordenação em caso de recusa de informação. O que até hoje não aconteceu, como reconhece Estrela Serrano, membro do Conselho Regulador da ERC.

Creio que nenhuma empresa se vai recusar a dizer quem são os donos. Desde logo porque não são obrigadas a dizer o que realmente importaria, ou seja, quem são os donos dos donos. Ao prestarem a informação vão sossegar as almas famintas dos que apenas querem mostrar serviço, não mostrando coisa alguma.

O essencial da questão está no facto de em Portugal o Estatuto do Jornalista, aprovado exclusivamente por este PS, representar a página mais negra na história do Jornalismo do pós-25 de Abril de 1974. Um Estatuto que não criou condições para uma efectiva autonomia editorial e independência dos Jornalistas (e o Governo sabe muito bem quais são as suas razões…), antes as agrava, assassinando a posição destes profissionais face ao poder das empresas.

O essencial da questão está no facto de em Portugal a concentração da propriedade dos meios de informação estar na origem de um clube restrito de grupos económicos que controla todas as grandes publicações, as televisões e as principais rádios e que não representa apenas o domínio da capacidade de recolher, tratar e difundir informação e um enorme poder de intervenção no espaço público.

O essencial da questão está no facto de em Portugal tal concentração representar o controlo do mercado do trabalho dos jornalistas e outros trabalhadores, estabelecendo e impondo as regras sobre quem entra, quem permanece e quem sai das empresas, que é como quem diz da profissão.

Mas, é claro, a ERC e organismos similares existem para transformar o essencial em supérfluo e o supérfluo no essencial. Este deverá ser, de facto, o grande ensinamento que vão levar a Angola. Por outras palavras, vão ensinar o padre nosso ao vigário.

Angola festeja prisão de Rodrigues Mingas

Diz o órgão oficial do regime angolano, o Jornal de Angola (JA), que “o embaixador angolano em França, Miguel da Costa, recordou, em Paris, aos diplomatas, que o Governo angolano mantém vivas as expectativas de ser feita justiça às vítimas do atentado de Massabi (Cabinda), perpetrado a 8 de Janeiro de 2010 contra a selecção de futebol do Togo, que iria participar no CAN 2010.

O JA, como manda a cartilha do MPLA (em muitos aspectos ainda é a mesma do tempo do partido único), mistura meias verdades e mentiras para tentar dar credibilidade a quem a não tem.

É admissível que o regime louve todos aquele que lhe vão comer à mão e que ataquem os seus adversários. Esquece-se, no entanto, de dizer que o ataque não foi feito contra a selecção do Togo mas, isso sim, contra a escolta militar e policial angolana à comitiva togolesa.

Além disso, importa não esquecer, as autoridades coloniais angolanas aproveitaram o incidente com a equipa de futebol do Togo para tentar arrasar, de uma vez por todas, todos aqueles que em Cabinda (e não só) entendem que devem lutar pacificamente pela sua causa.

Relembre-se ainda que, apesar de a colónia ter quase tantos militares da força ocupante como população, Angola vangloriou-se antes do CAN 2010, que tinha blindado o território e que nada iria acontecer.

José Eduardo dos Santos, presidente do MPLA (partido que governa Angola desde 1975) e da República há 31 anos sem ter sido eleito, mandou para Cabinda todos os meios militares considerados suficientes para que nem uma mosca perturbasse o êxito do CAN 2010.

Luanda, segundo o JA, ficou por isso satisfeita com a prisão do cidadão francês de origem cabinda, Rodrigues Mingas, que reivindicou o ataque em nome da FLEC-PM.

“De facto, uma decisão do Tribunal de Apelação de Paris, datada do passado dia 18, ordenou a colocação de Rodrigues Mingas sob prisão preventiva, até ao julgamento final. Tanto o Procurador-Geral da República quanto o juiz de instrução concordam que há matéria criminal bastante que indicia a sua ligação ao terrorismo”, escreve o JA.

Terrorismo mau, acrescente-se. Isto porque há terrorismo bom, que é – por exemplo – aquele que Angola pratica em Cabinda, onde pensar de forma diferente do regime ocupante é à partida um crime contra a segurança do Estado.

Aliás, tal como em Angola, quem em Cabinda não for do MPLA é considerado criminoso até prova em contrário. Que o digam, entre outros, Francisco Luemba ou Raúl Tati.

Escreve o JA que “o assumido mentor do atentado (...) tinha sido indiciado em Dezembro passado pela justiça francesa por associação de malfeitores com relação a uma organização terrorista e encontrava-se em regime de supervisão judiciária”.

Assim, a FLEC é uma organização terrorista tal como, durante muito tempo, durante a guerra colonial, foi considerado o MPLA. Não está mal.

“A justiça francesa está, neste caso concreto, a colaborar na procura da aplicação do direito aos factos decorrentes dos crimes cometidos no dia 8 de Janeiro em Cabinda”, concluiu Miguel da Costa.

Ou seja, porque a comunidade internacional (Portugal, CPLP, ONU etc.) atribui mais valor à razão da força do que à força da razão, a FLEC teve de mostrar (embora de forma débil) que também sabe usar a força pura e dura.

Se, como acontece no caso de Cabinda, o regime angolano só aceita dialogar com aqueles que estão de acordo, que outra solução haverá que não passe pela linguagem das armas?

Olhar para o umbigo não garante vitórias

Entre ataques a Cavaco Silva e críticas à comunicação social, o candidato Fernando Nobre fez o último discurso da sua campanha eleitoral para as presidenciais de amanhã, lembrando ainda «os que podiam ter apoiado e não apoiaram», uma mensagem aparentemente dirigida a Mário Soares.

«A minha querida mulher Luísa tinha razão, como sempre. Quase sempre as mulheres têm razão. Ela disse que eu iria passar de bestial a besta. E começaram por atacar, ridicularizar, silenciar, mas não sabiam uma coisa: eu sou teimoso, obstinado e, quando tomo uma decisão, vou até ao fim, nunca desisto», sublinhou Fernando Nobre.

«Disseram que eu não tenho uma única ideia, mas nós apresentámos mais ideias do que todas as outras candidaturas juntas», reagiu o fundador da AMI aos «opinadores e comentaristas», enumerando as propostas de criação de um conselho informal de jovens, de redução do número de deputados e de apresentação de um plano estratégico para os sectores primário e secundário.

Fernando Nobre acusou o adversário Manuel Alegre de «trocar de ideias como outros trocam de camisa», mas fixou Cavaco Silva como o maior alvo: «ele não terá um segundo mandato». O candidato acredita numa segunda volta e reagiu às declarações de Cavaco Silva sobre os custos que essa segunda volta traria.«Não tentem matar esta democracia, porque nós não deixamos», salientou.

Fernando Nobre deixou ainda uma mensagem em aberto, que poderia ter como alvo Mário Soares, apontado como impulsionador da sua campanha, apesar da ausência pública do seu apoio. «Continuam a ser meus amigos, aqueles que podiam ter apoiado e não apoiaram continuam a ser meus amigos».

Em matéria de comunicação social, Fernando Nobre só tem alguma razão. Os seus serviços de Imprensa, por exemplo, começaram por separar os filhos dos enteados, mostrando que ali estavam mais para se servir do que para servir.

No fim de Março do ano passado, segundo esses serviços, só a SIC, o Expresso e o Jornal i teriam entrevistado, ou dado notícias, sobre o candidato. Mentiam. E quem nasce torto, tarde ou nunca se endireita.

Para além de ser falso (foram mais os meios de comunicação social a dar voz a Fernando Nobre), revelaram um mau princípio ao separar os que merecem ser referenciados (são os filhos?) e os outros que nem a uma linha têm direito (os enteados?).

Acresce que muitos outros meios, nomeadamente blogues, de há muito ue publicaram referências ao candidato sem que isso tenha merecido qualquer apontamento. Foi pena. Desde logo porque não será pelos poucos que têm milhões que Fernando Nobre será eleito. Se o for, será com certeza pelos milhões que têm pouco.

E era a este portugueses que a candidatura de Fernando Nobre deveria dar voz. Desde logo porque tanto o umbigo do candidato, mas sobretudo o dos seus mais próximos colaboradores, não são suficientes para vencer.

Fernando Nobre sabe que, enquanto candidato, está em cima de um tapete rolante que anda para trás. Demorou tempo a perceber que se se limitar a andar não sairá do sítio. Só tarde percebeu que tinha de correr.

Pena foi que os seus colaboradores pensassem (se calhar ainda pensam) que devem andar no mesmo sentido do tapete rolante...