quinta-feira, março 31, 2011

"Está para nascer [é verdade, sim senhor!] um primeiro-ministro que faça melhor do que eu"

O socialista Henrique Neto, embora de forma suave, diz que José Sócrates vive num "estado de negação da realidade" que o "obriga a mentir e a criar um mundo irreal".

Há quem seja mais drástico. Eu, por exemplo, penso que Sócrates mente tantas vezes porque acredita que, pela insistência, a mentira se tornará verdade.

Vem isto a propósito de hoje o INE ter revisto em alta o défice para 2010, passando-o de 6,8% para 8,6%. Mas será que vai ficar por aqui?

Tenho dúvidas. Aliás, em Portugal ninguém tem certezas nas coisas que envolvem o governo. Dizem os analistas que, para além da descredibilização externa, Portugal enfrenta o risco de ser “colado” à Grécia e de passar a ser visto como um país que mentiu.

Importa, contudo, dizer que Portugal, ou melhor, o seu governo, não só mentiu, como mente e mentirá enquanto estiver em funções. Todos, portugueses ou não, já deveriam saber (o homem está lá há seis anos) que José Sócrates diz às segundas, quartas e sextas o contrário do que afirma às terças, quintas e sábados.

E quando assim é, o país vive numa situação favorável a que exista – cito Manuel Alegre a propósito de José Sócrates - "um clima propício a comportamentos com raízes profundas na nossa História, desde os esbirros do Santo Ofício até aos bufos da PIDE".

Como exímio ilusionista, José Sócrates conseguiu esconder de todos (muitos não foram na cantiga mas mantiveram-se calados) a verdade quer sobre o défice quer sobre a dívida pública.

Cometeu, como agora se vai vendo às prestações, um crime que – contudo – não é punido. Aliás, se este tipo de crime de “lesa pátria” desse penas de cadeia, Portugal não teria prisões suficientes.

Reconheça-se, no entanto, que mentir sobre estas questões já se tornou um direito dos diferentes governos a ponto de, creio, um dias destes aparecer uma lei para punir quem fale verdade sobre o défice.

Muita gente, boa gente, está agora preocupada com uma coisa que Portugal já há muito deixou de ter: credibilidade. Quando, se calhar até no Burkina Faso, se sabe que os portugueses têm a chefiar um governo alguém que diz que "está para nascer um primeiro-ministro que faça melhor do que eu", nada mais é preciso.

O próprio José Sócrates afirma que um líder não pode ter vergonha de ter ideias, programa e plano. Eis porque, mesmo em relação ao défice, ele pode e deve voltar a dizer: “Está para nascer um primeiro-ministro que faça melhor do que eu".

"Quem se apresenta ao escrutínio popular, em primeiro lugar, tem de ter ideias e não ter vergonha delas; é preciso ter um programa e não ter vergonha dele; é preciso ter um plano e não ter vergonha dele", declarou José Sócrates, em Julho de 2009, no final de um Fórum Novas Fronteiras com empresários e gestores.

José Sócrates disse também que os líderes políticos "têm a obrigação de apontar qual o caminho que o país deve seguir". "É preciso uma atitude de confiança nos portugueses e no futuro do país - confiança que tem ver com acção e não com a atitude de nos entregarmos à descrença ou ao pessimismo", disse.

É exactamente isso. E José Sócrates há muito que apontou o caminho do irreal e da mentira como a única saída. "Isto não vai lá de braços cruzados. Isto vai lá com acção e com aqueles que gostam de correr riscos e aceitam corrê-los. Não agir representa um preço que não podemos pagar", advertiu o primeiro-ministro, indicando aos portugueses o caminho, ou não fosse ele uma reedição (um bocado fracota e a tombar para o pirata) do homem do leme...

É preciso ter um galo do caraças...

Em Novembro de 2006, a propósito das intenções do Governo português querer extinguir a Caixa dos Jornalistas, meditei no facto de os assessores de imprensa do Governo socialista de José Sócrates ganharem entre 2400 e 4500 euros... por mês.

E de tanto meditar, aceitei a sugestão de um amigo e fui filiar-me no PS.

Entre os que tinham ordenados-base mais altos estavam os responsáveis da comunicação dos ministros das Finanças, dos Negócios Estrangeiros, da Administração Interna e da Justiça, que recebiam mais do que os do primeiro-ministro.

Era, pensei, a altura exacta para me filiar no PS.

De acordo com o jornal Público (18.06.2006), o elevado valor dos ordenados justificava-se com o facto dos salários não serem obrigatoriamente tabelados, podendo ser negociados entre as partes desde que se abdique das despesas de representação.

Assim, e de acordo com o despacho de nomeação de responsável pela pasta das Finanças, Teixeira dos Santos, a assessora Fernanda Pargana tinha na altura um ordenado-base 4500 euros.

Numa altura em que tudo é «simplex», sobretudo se for mais «PSimplex», o Governo mostrava que, afinal, a tradição continuava a ser o que era e que, como ontem, os "jobs" são para os "boys", os génios são menos importantes do que os néscios desde que estes tenham cartão do partido.

Néscio ou não, o importante era mesmo ser filiado no PS.

O Governo simulou que queria alterar o (mau) estado das coisas mas, mais uma vez, era mais a parra do que a uva. Mais o acessório do que o essencial. Bastava ver que 70% do total de rendimentos brutos declarados em sede de IRS pertenciam a trabalhadores dependentes.

Tudo como dantes. Ou seja, era mesmo a altura para fazer a filiação no PS.

José Sócrates sabia, e continua a saber, como ninguém que a comunicação social é vital para vender gato por lebre, e para além de recrutar jornalistas para assessorar os seus ministros colocou os jornalistas do partido nos locais certos.

Mais uma razão para enviar, em correio registado, a filiação para o Largo do Rato.

Sócrates sabia bem que os jornalistas também sabem que mais vale ser um propagandista de barriga cheia do que um ilustre Jornalista com ela vazia. E como é duro ter a barriga vazia...

Este Governo (tal como os outros) está-se nas tintas para os portugueses em geral e para os Jornalistas em particular. Mas isso nem sequer é relevante, pensei.

E não é relevante porque, regra geral, os Jornalistas sabem contar até 12 sem terem de se descalçar. Assim sendo, fazem contas e chegam à conclusão de que o melhor é estar de acordo, é dizer sempre que sim, é ter o cartão do partido que está no poder.

É que, se não for nos jornais haverá sempre um lugar como assessor que, mais volta menos volta, abre as portas para se ser director de um jornal.

Por alguma razão Inês Pedrosa dizia que "temos cada vez mais jornalistas que saltam das redacções para se tornarem criados de luxo do poder vigente".

A palavra criado não me agradava. Mas entre criado a ganhar bem e jornalista de prato vazio... a escolha pareceu-me simples. Além disso, depois dessa rodagem há sempre a possibilidade de ver criados saltarem do poder para serem directores de jornais.

Apesar de tudo isto, a verdade é que nunca saí da cepa torta. O tempo passou e nada. Nem para criado do poder me chamaram.

Foi então que decidi saber o que se passava com a minha filiação.

Não é que, ao fim de muita procura, descobriram que os serviços tinham metido a minha ficha de inscrição no mesmo sítio onde José Sócrates meteu a maioria dos portugueses: no caixote do lixo.

Digam lá que não é preciso ter um galo do caraças...

Se recordar é viver (mesmo sem comer...), recordemos o ministro Teixeira dos Santos

O ministro das Finanças holandês, Jan de Jager, afirmou hoje que está tudo pronto para um resgate de Portugal, caso o país decida pedir apoio financeiro externo, e que actualmente não vê risco de contágio a Espanha.

Mas para quê tanta pressa? Em 6 de Julho de 2009, o ministro das Fiananças português, Fernando Teixeira dos Santos, afirmou que a sua prioridade seria superar a situação de crise que o país enfrentava.

"A minha principal preocupação será com a Economia e com o superarmos esta situação de crise que nos tem vindo a afectar", afirmou aos jornalistas, acrescentando que o Governo ía continuar a apoiar as empresas, "tendo em vista a superação das dificuldades em tempo de crise"; e as Pequenas e Médias Empresas, "como temos vindo a fazer e de forma acrescida".

E se já em Julho de 2009 se diazia isto, os resultados devem estar a aparecer por aí ao dobrar da esquina...

Continuemos com Teixeira dos Santos, agora recordando o que disse em 13 de Maio de 2009.

O ministro das Finanças defendeu nesse dia que Portugal estava numa situação "mais vantajosa" para reduzir o endividamento depois da crise, considerando que faltava apenas melhorar a competitividade da economia depois das reformas na Segurança Social e da Administração Pública.

Por outras palavras, e tal como os portugueses já desconfiavam, todos estão em situação “mais vantajosa” para reagir depois de aprenderem a viver sem comer. Isto se, entretanto, não morreram.

"O actual aumento do endividamento é um problema que todos os países vão ter de enfrentar", disse Teixeira dos Santos, defendendo que "acabando a crise torna-se muito claro a necessidade de os países retomarem o mais rapidamente possível a estratégia de consolidação orçamental".

Ou seja, afinal os portugueses não têm nada a temer. Se, por um lado, há muita gente que vive pior (o que parece, segundo o Governo de José Sócrates, uma boa consolação), por outro, quando a crise passar, uma só refeição já será uma dádiva divina para os que não tinham nenhuma.

O governante - que nessa altura falava na apresentação do Relatório de Orientação da Política Orçamental, onde o Executivo reviu em alta o défice deste ano para 5,9 por cento do Produto Interno Bruto e a dívida pública para 74,6 por cento - adiantou que o caminho para o equilíbrio orçamental implica reformas.

Para isso, atente-se, será necessário reduzir despesas, "normalmente despesas com envelhecimento", precisou.

"Portugal está numa situação vantajosa porque já fez a reforma da Segurança Social e da Administração Pública, que permite conter e disciplinar a despesa", considerou o ministro.

Porém, "uma coisa é certa: o facto de termos estes níveis de dívida (e Portugal está na média da União Europeia) vai exigir uma política que reforce o potencial de crescimento da economia", disse. Descoberta, diga-se, digna de ter um Nobel.

Isso implica uma política económica "que aumente a competitividade e reforce o sector exportador", defendeu como se estivesse a descobrir a pólvora.

A reacção no pós-crise "coloca na agenda um conjunto de políticas de valorização dos recursos humanos, melhoria de infraestruturas e mais ciência", disse Teixeira dos Santos.

Disse, ao estilo do olhai para o que dizemos e não para o que fazemos, e não para o que permitimos que outros façam. Sim, que essa da valorização dos recursos humanos cheira, a léguas, a banha da cobra de fraca qualidade cosmética.

O ministro das Finanças avisou também que não se devem criar ilusões porque "a crise não acabou", embora exista "a sensação" de a economia mundial estar a chegar a um ponto de viragem.

E se está num ponto de viragem, e apesar dos maus polítios existentes, se calhar é chegada a altura de os portugueses virarem também, e do avesso, quem os (des)governa.

quarta-feira, março 30, 2011

Se a hipocrisia e a cobardia matassem, certamente nada restaria a esta Europa!

A União Europeia mostra-se disposta a retomar a cooperação política e económica normal com a Guiné-Bissau. Mas impõe condições. Exige respeito pelos direitos humanos, democracia e Estado de Direito.

Na Guiné-Bissau respeita-se os direitos humanos tanto como em Angola. Existem partidos, tal como em Angola. É um Estado de Direito similar ao angolano. Mas há, contudo, duas substanciais e relevantes diferenças. O presidente da Guiné-Bissau foi eleito, ao contrário do seu homólogo angolano que está no poder há 32 anos. Angola é um país muito rico, a Guiné-Bissau é um país muito pobre.

É, com certeza, por estas duas diferenças que a União Europeia enche o peito contra os fracos, Bissau, e põe-se de cócoras perante os fortes, Luanda.

A UE "insta" a Guiné-Bissau a proceder à investigação judicial dos contecimentos ocorridos em 1 de Abril do ano passado e a "reforçar os esforços para resolver o problema da impunidade".

Mas será que há maior estado impune do que Angola? Será que na Europa ninguém vê que o regime de Eduardo dos Santos é dono e senhor do país, do povo? Será que ninguém vê que Angola é um dos países mais corruptos do mundo? Será que ninguém se preocupa com o facto de o clã do presidente ser dono de quase 100% do Porduto Interno Bruto de Angola?

Bruxelas congratula-se por a delegação de Bissau se ter comprometido a investigar, de forma independente, os assassinatos de Março e Junho de 2009, a reformar o sector da segurança do país e a combater o tráfico de droga.

E em Angola não há assassinatos? Quem se preocupa, entre outros, em esclarecer a morte de Nfulumpinga Landu Victor, líder do PDP-ANA?

Tudo isto que tem como palco a Guiné-Bissau é, afinal, a reedição de um filme já gasto de tanto ser usado. Vão mudando os protagonistas principais, agora é Bacai Sanhá e antes fora “Nino” Vieira, mas o argumento é sempre o mesmo. E se o argumento é o mesmo, o fim será idêntico: mais uns tiros e mais uns dirigentes mortos.

Exagero? Talvez. Deus queira que sim. Mas a verdade é que na Guiné-Bissau nenhum candidato, nenhum presidente, acabou o seu mandato e em 16 anos o país já teve seis presidentes.

Por alguma razão, o ex-chefe do Governo guineense, Francisco Fadul, considerava que, face ao estado em que se encontra a Guiné-Bissau, as Nações Unidas deveriam assegurar a governação do país, instituindo um protectorado pelo período mínimo de 10 anos, "para que não haja recidivas, não haja retrocessos".

Quanto a Angola, a Europa do camarada Durão, como lhe chama o MPLA, continua a fingir que tudo está bem. Tal como fingiu com a Tunísia, com o Egipto e com a Líbia. E tal como com estes países, ainda vamos ver os líderes europeus dizer que o dono de Angola é um ditador.

Levaram mais de 40 anos a descobrir isso no caso de Muammar Kadhafi. Mas como José Eduardo dos Santos já lá está há 32...

Bem pregava Frei Augusto (Santos Silva)!

A agência de notação financeira Fitch, uma das mais ilustres donas das finanças mundiais, alertou hoje que o 'rating' de Portugal poderá voltar a descer no curto prazo, na ausência de auxílio financeiro de Bruxelas e do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Trata-se, aliás, de uma questão que já não é nova nos meandros da política lusitana. Já no dia 10 de Janeiro, o dirigente socialista e educador das massas operárias, mas também ministro, Augusto Santos Silva, acusava as forças de direita de "salivarem" perante a hipótese de o FMI entrar em Portugal e de colocarem os interesses partidários acima dos nacionais.

Falando de barriga cheia (estava na altura num almoço de apoio a Manuel Alegre), Santos Silva avançou – nunca é demais recordá-lo – com as suas habituais eruditas pérolas, fazendo lembrar o tempo em que tinha a pasta, entre outras, de dono da comunicação social portuguesa.

Talvez por saber disso, de vez em quando ele aparece – mesmo sendo ministro da Defesa - para malhar em todos aqueles que têm a ousadia de pensar de forma diferente da dele que, aliás, é sempre igual (neste caso) à do sumo pontífice do PS, José Sócrates.

Recordam-se de Augusto Santos Silva ter considerado, ainda não há muito tempo (21 de Julho do ano passado), que o ante-projecto de revisão constitucional do PSD era “um manifesto extremista contra a Constituição”, que revelava “irresponsabilidade” e colocava “radicalmente em causa um equilíbrio de poderes que a democracia portuguesa laboriosamente construiu”?

O Governo do PS e o PS do Governo, seguindo a metodologia de Augusto Santos Silva, continua a malhar forte e feio nos enteados a quem acusa de "inacção" e de "cegueira ideológica".

Só escapam, esses escapam sempre, os que gravitam em volta deste PS. Se calhar o actual PS até tem razão. Cada povo tem os políticos que merece.

Dizia Augusto Santos Silva, certamente respaldado na cartilha do perito dos peritos, José Sócrates, que a oposição "sucumbe à demagogia". Demagogia que, como todos sabem, é uma característica atávica de todos os portugueses de segunda, ou seja, de todos aqueles que não são deste PS. Embora possam ser do PS de António Guterres, por exemplo.

"A direita falha em critérios essenciais na resposta à actual crise, começando logo por falhar no requisito da iniciativa", sustenta o maior (a seguir a José Sócrates) perito dos peritos portugueses, considerando que a oposição não assume uma defesa do princípio da "equidade social".

Será com certeza por isso que os poucos que têm milhões mais milhões continuam a ter, e que os milhões que têm pouco ou nada... ainda têm menos, se é que isso é possível.

Quando se vira para a esquerda, este PS também bate forte e feio, ou não fosse o único dono da verdade. Em relação ao PCP atira a matar, tal como fizera quanto ao Bloco de Esquerda, isto – diga-se em abono da verdade - antes de terem selado uma união de facto a três, via Manuel Alegre.

Nessa altura, Santos Silva evitou dizer que o BE pertencem "à esquerda extremista" que "propõe o regresso ao paradigma colectivista".

"Estão cegos por preconceitos ideológicos que os impediram de perceber o quanto foi essencial estabilizar o sistema financeiro para responder à crise", disse em tempos, entre outras sábias alusões, Augusto Santos Silva.

Ora aí está. Bons só mesmo os socialistas. Nem todos, mas sobretudo os que, por terem coluna vertebral amovível, veneram o líder. Todos os outros são uma escumalha que não merece sequer ser considerada como portuguesa.

"O PS é portador de uma liderança e de uma plataforma política para mobilizar o conjunto da sociedade", sustenta o PS, mostrando sempre que, na Terra, só Sócrates pode representar Deus como único detentor da verdade.

Sustenta e bem, e isto já para não falar da sua própria sustentação e luta para manter e doar tachos aos mais inéptos titulares do cartão de cidadão... socialista.

Embora os tais portugueses de segunda já saibam há muito que este PS não é uma solução para o problema, mas, isso sim, um problema para a solução, sempre foram percebendo que ou eram do PS ou estavam lixados e mal pagos.

"Na nossa opinião, depois deste episódio (que conduziu à demissão do primeiro-ministro, José Sócrates), um programa económico da União Europeia e do FMI reforçaria a credibilidade dos esforços das reformas orçamental e estrutural e reduziria as preocupações de financiamento no curto prazo", lê-se no relatório da Fitch.

Como se vê, e como pregava Frei Augusto (Santos Silva), não faltam por esse mundo abutres a salivar de satisfação pela entrada em Portugal do FMI, instituição à qual – aliás – Portugal pertence.

O povo morre, as riquezas não!

A violência pós-eleitoral na Costa do Marfim causou já mais de 460 mortos e quase um milhão de deslocados. Nada que preocupe os donos do mundo. Esses apenas conhecem a Líbia.

De há muito que se sabe (sabem os que não olham apenas para o seu umbigo) que na lista dos 10 países mais susceptíveis de se tornarem estados falhados, sete são da África sub-saariana, nomeadamente Somália, Sudão, Zimbabué, Chade, República Democrática do Congo, Costa do Marfim e República Centro Africana (os outros são asiáticos: Iraque, Afeganistão e Paquistão).

Mas a tal democracia que agora querem exportar para a Líbia tem destas coisas. Como bons mentores da verdade divina, EUA e Europa disseram que era preciso haver eleições e a Costa do Marfim realizou-as.

No entanto, como é habitual, não explicaram que quem perde tem de sair. É que, se tivessem explicado, não haveria eleições.

Em Angola verifica-se, por exemplo, que ao Ocidente basta uma UNITA com 10% dos votos para dar um ar democrático à ditadura do MPLA. Aliás, por alguma razão o Ocidente não reagiu às vigarices, às fraudes protagonizadas pelo MPLA. E não reagiu porque não lhe interessa que a democracia funcione, neste caso em Angola. É sempre mais fácil negociar com as ditaduras.

"Algumas pessoas já entenderam a essência da democracia, mas outras nem por isso, e os que nos querem hoje ensinar o que é a democracia são aqueles que atrasaram o país durante 500 anos e que são, ainda, as antenas e os acólitos do neocolonialismo na Guiné-Bissau", afirmou em tempos o ex-presidente guineense, Kumba Ialá.

Para o Ocidente, o importante é que se façam eleições “rapidamente e em força”, como disse – embora a outro propósito – António de Oliveira Salazar, seja onde for, mesmo sabendo que os povos vão votar com a barriga (vazia).

Mesmo sabendo que votar nestas condições nunca será sinónimo de democracia. Mesmo sabendo que, desta forma, não tardará que estejamos todos a lamentar mais umas mortes violentas.

Mas, do ponto de vista do Ocidente, vale a pena ter esses lamentos. E vale porque os africanos vão morrendo mas as riquezas, essas continuam lá à espera do... Ocidente.

Embora não ande na ribalta das preocupações internacionais nem conste das agendas da Imprensa, a verdade é que a crise na Costa do Marfim já descambou numa guerra civil, coisa que todos sabem ser rara num continente onde há muitas riquezas, muitas armas e muita gente para morrer.

A situação tem, pelo menos a fazer fé nos muitos exemplos que chegam da região, uma grande vantagem para o Ocidente, sobretudo para os EUA e a Europa: o povo morre mas as riquezas continuam lá...

Ao que parece, a comunidade internacional nada mais pode fazer. Até porque existe uma grande diferença entre a qualidade dos que morrem, por exemplo, na Costa do Marfim e a dos que morrem na Líbia.

Como se constata, o que Muammar Kadhafi está a fazer ao seu povo é um verdadeiro genocício. Como certamente diria João Gomes Cravinho, o líder líbio – que até há pouco tempo era considerado por José Sócrates como um “líder carismático” - não passa agora de um Hitler.

Genocídio é com certeza o que se vai passando na Líbia e não, é claro, qualquer outra coisa que se passa na África mais profunda, mais a Sul. Para se falar de genocídio é preciso ver quem são as vítimas e quem são os autores.

Na verdade, o que são os milhões de pessoas que em toda a África morrem de fome, de doença ou pelos efeitos da guerra, comparados com a situação na Líbia, ou até mesmo com a socialisticamente fabricada crise política em Portugal?

É claro que o importante é mostrar ao mundo que a aviação líbia tornou em escombros grande quantidade de prédios. Reconheço que tal não acontece em África.

Não acontece mesmo. Em zonas onde há milhões de pessoas que vivem (quando vivem) em cubatas é difícil, calculo eu, ter imagens de prédios destruídos.

Além disso, o que interessa não são os africanos mas, antes, o petróleo e outros produtos vitais para o Ocidente. E se até Sarah Palin não tinha a noção do que era essa coisa chamada África, é bem natural que as ruas das principais cidades mundiais se encham de cidadãos de primeira preocupados com outros cidadãos de primeira, e não com essa espécie menor a que chamam pretos.

terça-feira, março 29, 2011

MPLA prepara censura à Internet

O governo do regime de sua majestade D. Eduardo dos Santos vai avançar com uma lei que visa tentar pôr na ordem (do MPLA) e em ordem (igualmente do MPLA) o que circula na Internet em Angola e que, é claro, desagrada aos donos do reino.

Sua majestade não gosta (e tem razões para isso) do que sobre o seu regime é dito nos meios de informação do ciberespaço e vai tentar que, pelo menos no seu reino, sejam censurados, tal como faz com muita da comunicação tradicional.

De acordo com a ONG Artigo 19, organização, com sede em Londres, de defesa e promoção da liberdade de expressão e da liberdade de informação em todo o mundo, os tópicos das dez principais ameaças à liberdade de expressão/liberdade de imprensa são:

«1. Aumento do controlo governamental sobre os media através de uma série de mecanismos, incluindo influência política sobre os média, registos punitivos e requerimento de licenças, propriedade política, e recurso a regras antiquadas.»

Não é, mas poderia ser, tirada a papel químico do que se passa em Angola, mesmo quando esse controlo não é feito formalmente mas, como mandam as regras de atirar a pedra e esconder a pata, através de mercenários e outras espécies de chefes de posto colocados em locais estratégicos (administrações, direcções, chefias).

«2. Leis cíveis e criminais sobre difamação, injúria e ofensa, as quais penalizam declarações factuais ou opiniões, ou as quais protegem a reputação de símbolos, instituições estatais ou religiosas, ou contam com duras penalidades.»

Isto é, fazendo fé no que se passa no reino de Eduardo dos Santos, a liberdade dos jornalistas termina (e bem) onde começa a dos donos do país, por exemplo. No entanto, a dos donos do país – por exemplo – nunca termina. O importante não é o interesse público mas, antes, o público que interessa aos interesses privados de quem manda.

«3. Violência contra jornalistas e fracasso na prevenção e investigação de tais ataques, e em levar perante a justiça os seus responsáveis.»

No recato dos areópagos do poder, os donos do país puxam da pistola sempre que ouvem falar em jornalistas (sobretudo dos que não são seus assalariados). Quando na praça pública, são defensores desde pequeninos da liberdade de Imprensa.

«4. A falha por parte de uma maioria de estados em adoptar leis que garantam o direito de acesso à informação, e a fraca concretização de tais leis em muitos estados.»

Neste caso, digo eu, Angola é diferente. Todos os jornalistas têm acesso livre à informação... oficial. É claro que, na maioria dos casos, esse material não é informação mas, isso sim, propaganda. Mas também é verdade que os donos do país não têm culpa de considerarem informação o que os jornalistas (alguns e cada vez menos) dizem ser propaganda...

«5. Discriminação contra os grupos historicamente desfavorecidos, os quais lutam pelo exercício do seu direito à liberdade de expressão.»

Nada disso. Em Angola não há grupos desfavorecidos. Os que existem são-no de livre vontade. Se todos quiserem ser do MPLA passam a ser cidadãos de primeira e dessa forma entram na classe dos favorecidos.

«6. Pressões comerciais, incluindo o acréscimo da concentração da propriedade dos média e o risco de que os emissores de rádio públicos percam posição no decurso do processo de conversão digital em muitos países.»

A concentração dos media é, apenas, a parte visível do controlo por parte do poder económico e político do regime. É muito mais fácil controlar, ou comprar, ou subordinar, meia dúzia de empresas do que dezenas de meios. Além disso, tem a clara vantagem de ser mais fácil transformar jornalistas em operários das linhas de enchimento de conteúdos “made in MPLA”.

«7. Desafios para a capitalização de fundos públicos que suportem o serviço público e comunitário de rádio.»

Não se aplica, julgo, ao reino de Eduardo dos Santos.

«8. Utilização dos interesses de segurança nacional para justificar limitações excessivas à liberdade de expressão.»

As limitações à liberdade de imprensa, de expressão e de todas as outras liberdades, têm por base exclusivamente a segurança dos interesses político-partidários de quem está no poder há 32 anos sem nuca ter sido eleito.

«9. Restrições governamentais à Internet, através da imposição de paredes de fogo e filtros, ou bloqueando websites e domínios web.»

Ora aí está. A rapaziada do regime está atenta e vai crivar tudo o que existe, deixando apenas passar para consumo interno o que interessar ao dono do país.

«10. Acesso limitado à Internet por parte de camadas da população vulneráveis, tais como pobres, populações rurais e envelhecidas.»

Pois é. No reino angolano, com 70 por cento de gente pobre, não admira que entre um saco de fuba e a Internet (que muitos nem sabem o que é) seja fácil a escolha.

O artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos (que, obviamente, não se aplica a Angola) estabelece: «Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias por qualquer meio de expressão.»

Portugueses africanos e portugueses europeus não são, e jamais poderão ser, a mesma coisa!

Os portugueses, apesar de viverem muito bem no seu país (só são 700 mil desempregados, 20% de pobres e outros tantos a olhar para os pratos vazios), continuam a aventurar-se por terras angolanas.

Como em tempos dizia o meu amigo Gil Gonçalves, “quando a cabeça não dá para mais nada, a única saída é embarcar para Angola e espoliar mais uns pretos”. Não é só a cabeça que não dá para nada, o próprio país é um deserto e os seus dirigentes uma resistente espécie de parasitas.

Mas, diga-se, a culpa não é só dos portugueses de hoje que, ao contrário dos de ontem, procuram sacar tudo o que podem, começando o exemplo pelos governantes, passando pelos gestores e administradores públicos e restante casta.

A culpa também é dos angolanos que colocaram os de ontem, muitos dos quais deixaram mesmo o cordão umbilical em Angola, ao mesmo nível dos de hoje, ou muitas vezes a um nível bem mais baixo.

Em Angola causa alguma estranheza o facto de, apesar da presença massiva de portugueses, eles nunca serem mencionados nos balanços do Serviço de Migração e Estrangeiros sobre a expulsão de expatriados.

E estranha-se porquê? Porque, mesmo considerando que esses cidadãos são súbditos de sua majestade D. José Sócrates, as vítimas dos serviços de migração são por regra africanos e, de quando em vez, uns chineses.

E Maio de 2009, o Semanário Angolense dizia que “aos outros imigrantes é exigido o cumprimento da lei, mas aos portugueses não”. E acrescentava: “Muitos até falsificam documentos e dizem-se naturais de Malange – maioritariamente “nasceram” em terras da Palanca Negra –, Huíla, Benguela, mesmo sem nunca lá terem estado”.

E o jornal concluía: “É urgente investigar e descobrir quem promove e protege essa invasão silenciosa de portugueses”.

É verdade que são aos milhares os portugueses africanos que agora nasceram de gestação espontânea, uma espécie de mercenários que nada têm em comum com muitos outros portugueses de outrora, esses sim africanos de alma e coração.

Os novos descobridores vão para a África rica (caso de uma parte de Angola) sacar tudo o que for possível e depois regressam à sua normal e tipificada forma de vida, voltando a ter a porta sempre fechada aos africanos.

Com a conivência consciente de Eduardo dos Santos, que não dos angolanos, Portugal aposta tudo o que tem (lata) e o que não tem (dignidade) nos muitos mercenários que têm as portas blindadas e sempre fechadas, remetendo para as catacumbas todos aqueles portugueses que sempre tiveram a porta aberta.

Como é que se vê a diferença? É simples.

A grande diferença é que os portugueses europeus, os que agora aceleram na tentativa de chegar à cenoura na ponta da vara de Angola, sempre consideraram (quiçá com razão) que até prova em contrário todos os estranhos são culpados.

Já os portugueses africanos, os que deram luz ao mundo, os que choram ao ouvir Teta Lando, Elias Dia Kimuezo, Carlos Lamartine ou os N’Gola Ritmos, entenderam que até prova em contrário todos os estranhos são inocentes.

Em África, os portugueses africanos aprenderam a amar a diferença e com ela se multiplicaram. Aprenderam a ser solidários com o seu semelhante, fosse ele preto, castanho, amarelo ou vermelho. Aprenderam a fazer sua uma vivência que não estava nas suas raízes.

Na Europa, os portugueses aprenderam a desconfiar da diferença e a neutralizá-la sempre que possível. Aprenderam a ser individualistas mesquinhos e a só aceitar a diferença como exemplo raro das coisas do demónio.

Com o re(in)gresso de milhares de portugueses africanos ao Portugal europeu, a situação alterou-se apenas por breves momentos. Tão breves que hoje, 36 anos depois da debandada africana, quase se contam pelos dedos de uma mão os que ainda se assumem como portugueses africanos.

Isto é, muitos dos portugueses europeus que foram para África tornaram-se facilmente africanos. No entanto, ao re(in)gressarem às origens ressuscitaram a velha mesquinhez de um país virado para o umbigo, de um país de portas fechadas. Voltaram a ser apenas europeus.

Nessa mesma leva vieram muitos portugueses africanos nascidos em África. Esses não re(in)gressaram em coisa alguma. Mantiveram-se fiéis às suas raízes mas, é claro, tiveram (e ainda têm) de sobreviver.

Apesar disso, só olham para o umbigo de vez em quando e as suas portas só estão meias fechadas.

Acresce que muitos destes acabaram por constituir vida em Portugal, muitos casando com portugueses europeus. Por força das circunstâncias, passaram a olhar mais vezes para o umbigo e a porta fechou-se quase completamente.

Chega-se assim aos filhos, nados e criados como “bons” tugas europeus. Estes só olham para o umbigo e trancaram a porta. Por muito que o pai, ou a mãe, lhes digam que até prova em contrário todos (brancos, pretos, amarelos, castanhos ou vermelhos) são inocentes, eles já pouco, ou nada, querem saber disso.

Por força das circunstâncias, os portugueses africanos diluíram-se no deserto europeu, foram colonizados e só resistem alguns malucos que, por força dos seus ideais, admitiram que o presente de Portugal poderia estar na Europa, mas sempre e desde sempre tiveram a certeza que o futuro estava em África.

Europa não pode alegar desconhecimento

O magnata britânico de origem sudanesa Mo Ibrahim continua a dizer as verdades, mesmo quando o mundo olha para o lado e assobia.

Por exemplo, Mo Ibrahim responsabiliza as “falhas monumentais dos líderes africanos após a independência”, explicando sem meias palavras (coisa cada vez mais rara) que, “quando nasceram os primeiros Estados africanos independentes, nos anos 50, África estava melhor em termos económicos”.

Flando agora em Paris, Ibrahim diz que os interesses da Europa apenas podem ser duravelmente garantidos pela democracia e não pelo apoio aos ditadores.

“Se a Europa quer garantir a longo prazo os seus interesses, ela tem todo interesse em se aproximar dos povos africanos. Pensar que a conivência com os ditadores seria benéfica é um grande erro”, indicou Mo Ibrahim.

Este empresário, que fez fortuna na telefonia celular ao criar o operador CELTEL que se tornou depois ZAÏN, já há um ano qualificou de “vergonhoso e um golpe à dignidade” a contínua dependência de África em relação ao ocidente, tendo em conta os “recursos impressionantes” que abundam no continente.

“Não se justificam a fome, a ignorância e a doença que assolam África”, disse na altura Mo Ibrahim, para quem a solução terá de pessar obrigatoriamente por “bons líderes, boas instituições e boa governação”, sem os quais “não haverá Estado de Direito, não haverá desenvolvimento”.

Agora recordou que, “havia uma África na qual o Estado era o único proprietário dos meios de informação, na qual a única televisão partencia ao poder, na qual toda a informação era controlada. Esta África já não existe”.

Por isso, “o que aconteceu na Tunísia e no Egipto nunca teria sido possível sem as tecnoligias de informação e comunicação. Apesar dos esforços colossais, os Governos destes dois países não conseguiram impedir a circulação das informações. Nesta nova África, o povo é o único soberano e os nossos amigos europeus devem persuadir-se disso”.

Comparando o posicionamento europeu com o norte-americano, Mo Ibrahim entende que “os americanos escolhem geralmente muito claramente a democracia e a luta contra a corrupão na sua relação com os Estados africanos. Seria bom que os nossos amigos Europeus fizessem o mesmo”.

Em relação às posições da Europa, recordo-me que Margaret Thatcher, que em Maio de 1979 se tornou a primeira mulher a dirigir um governo britânico, proibiu nesse ano o seu enviado especial à Rodésia de se encontrar com Robert Mugabe.

E fê-lo para defender a democracia? Para lutar contra as ditaduras?

Não. O argumento, repare-se, era o de que "não se discute com terroristas antes de serem primeiros-ministros".

"Não. Por favor, não se reúna com os dirigentes da 'Frente Patriótica'. Nunca falei com terroristas antes deles se tornarem primeiros-ministros", escreveu - e sublinhou várias vezes - numa carta do Foreign Office de 25 de Maio de 1979 em que o então ministro dos Negócios Estrangeiros, Lord Peter Carrington, sugeria um tal encontro.

Ou seja, quando se chega a primeiro-ministro, ou presidente da República, deixa-se de ser automaticamente terrorista. Não está mal. É verdade que sempre assim foi e que sempre assim será.

segunda-feira, março 28, 2011

Ninguém do regime angolano é corrupto!

José Filomeno dos Santos, filho do Presidente angolano, tido como potencial sucessor de Eduardo dos Santos na monarquia democrática angolana, é suspeito de alegados negócios ilícitos.

Até prova em contrário é inocente. Se o assunto se passasse em Angola e envolvesse o filho de um qualquer líder partidário, com exclusão do MPLA, o homem seria culpado até prova em contrário.

José Filomeno dos Santos, para além de ser filho do dono de Angola e ter passado por empresas do pai (caso – queira-se ou não – da Sonangol), é um cidadão viajado e preparado para suceder a quem está no poder há 32 anos, sem nunca ter sido eleito.

Aliás, nas monarquias é mesmo assim.

Na retaguarda dos negócios de José Filomeno dos Santos, segundo a Deutsche Welle - Voz da Alemanha, está Jean-Claude de Morais Bastos, um cidadão suíço originário de Cabinda, através do qual o filho de Eduardo dos Santos fundou o seu próprio banco, o “Quantum”, recrutando para os seus quadros Ernst Welteke, ex-presidente do Banco Central da Alemanha, que hoje assume as funções de Presidente do Conselho de Administração.

De acordo com a mesma fonte, observadores angolanos residentes na Alemanha já lançaram publicamente acusações graves que apontam (como se alguém acreditasse nisso...) para lavagem de dinheiros desviados das finanças públicas angolanas, e que seria feita com a participação e ajuda de personalidades alemãs, como Ernst Welteke.

Ernst Welteke, membro do Partido Social-Democrata alemão foi, que em 2004, obrigado a demitir-se do Banco Central Alemão por suspeita de corrupção.

Seja como for, não faz sentido falar de lavagem de dinheiro e de corrupção em Angola. E não faz porque, como todos sabem, são maleitas que não existem no reino de Eduardo dos Santos.

E quando as organizações internacionais (que o regime ainda não conseguiu comprar) dizem que o país é um dos mais corruptos do mundo, estão enganadas.

Tal como estava enganado o líder a UNITA, Isaías Samakuva, quando em Novembro de 2009 afirmou, sem meias palavras, que um dos exemplos da corrupção em Angola eram as transferências de avultadas somas para Portugal "para comprar até empresas falidas para branquear dinheiro roubado ao povo de Angola”.

Que a afirmação de Samakuva não iria causar qualquer mossa em Angola, desde logo porque o governo do MPLA e a corrupção são uma e a mesma coisa, todos calculavam. Assim aconteceu.

Já quanto a Portugal, mesmo sabendo que nesta matéria - como em muitas outras – os angolanos aprendem com os seus amigos portugueses, ainda havia na altura quem pensasse que surgiria uma qualquer reacção, mesmo sabendo que o país está atolado com as faces ocultas conhecidas e, é claro, com outras que são mesmo ocultas.

Mas não. Tal como Luanda, Lisboa menteve-se impávida e serena, cantando e rindo e bem de uma nação que, pelos vistos, ninguém sabe qual é, mas todos dizem ser socialista.

Isaías Samakuva apontou mesmo a a existência de "pressões" sobre o primeiro-ministro português, José Sócrates, para "libertar milhões de dólares de dinheiro público (angolano em contas de bancos portugueses) para determinadas contas privadas de mandatários do regime angolano" de forma a poderem "comprar empresas falidas" e "branquear" capitais.

Grave? Com certeza que sim se, é claro, se falasse de um Estado de Direito. Como o Estado é torto, como muitas das suas faces são ocultas, tudo ficou em águas putrefactas de bacalhau, como é timbre num reino medíocre.

Se calhar, no caso português, o silêncio (para além de ser a alma das negociatas) é também uma forma de não hostilizar os seus principais credores, ou seja, a família Eduardo dos Santos e todo o séquito que cada vez está mais rico à custa, como óbvio, do povo que está cada vez mais pobre.

Creio, aliás, que a ainda grande diferença posicional, em matéria de corrupção, entre Portugal e Angola se deve apenas ao facto de os angolanos, apesar de tudo, darem a chipala ao manifesto.

Ao contrário dos portugueses que apostam tudo em ocultar a face...

Bem que Kadhafi poderia utilizar o Magalhães!

Qualquer boa democracia tem uma listagem dos ditadores bons e dos ditadores maus, dos terroristas bons e dos terroristas maus. Sendo ainda certo que os maus de hoje foram os bons de ontem, e os maus de ontem serão os bons de amanhã.

Hoje, o ministro dos Negócios estrangeiros da Rússia, Serguei Lavrov, considerou que o apoio militar da coligação internacional aos rebeldes líbios é uma "ingerência" nos assuntos internos da Líbia.

Por diversas vezes aqui se disse que Muammar Kadhafi, o tal a quem José Sócrates chamou de “líder carismático”, não era flor que se cheire.

Mas o cheiro, o mesmo cheiro, já tem décadas e isso nunca incomodou os donos do mundo, tal como não incomoda que o presidente de Angola, há 32 anos no poder sem ter sido eleito, tenha 70 por cento da população na pobreza.

"Consideramos que a ingerência da coligação numa guerra que, no fundo, é interna, civil, não foi sancionada pela resolução do Conselho de Segurança da ONU", que previa o recurso à força para proteger os civis contra a repressão do regime do coronel Muammar Kadhafi, declarou Lavrov.

E é verdade. A missão seria, supostamente, para proteger civis e não para ajudar civis a derrotar militarmente o ditador. É claro que, todos sabem, civis com armas ao lado de Kadhafi são terroristas, civis com armas do outro lado são heróis.

"A defesa da população civil continua a ser a nossa prioridade", disse Lavrov, mas acrescentou: "há uma diferença sensível entre ataques aéreos contra os meios de defesa anti-aéreos líbios e contra colunas de tropas" fiéis ao dirigente da Líbia.

Serguei Lavrov reconheceu a legitimidade da entrega do comando da operação à NATO, mas voltou a sublinhar que as operações militares devem exclusivamente visar a protecção da população civil.

"Essa decisão corresponde aos parâmetros previstos na resolução 1973. Nela está escrito que podem resolver as tarefas previstas no documento tanto países como organizações internacionais e regionais que se disponham para isso. A NATO é uma delas e, por isso, todos os processos foram observados", precisou.

"Processos são processos, mas os poderes previstos na resolução podem ser utilizados apenas com o objectivo da protecção da população civil", sublinhou.

É de facto uma chatice. Bem que Kadhafi poderia ter resolvido a questão de outra forma, fazendo o mesmo que os seus homólogos do Egipto e da Tunísia.

Bastava pegar num dos “Magalhães” oferecidos pelo seu ex-grande amigo português e, pela Internet, transferir mais uns milhões para um qualquer paraíso.

Mas como é teimoso... lá tiveram os donos do mundo de pegar na listagem dos bons e dos maus para saberem quem iriam matar.

O défice protege os audazes!

Os portugueses, bem como a senhora Angela Dorothea Merkel, podem ficar dscansados. O presidente da República garantiu à agência Bloomberg que recebeu a garantia de PS, PSD e CDS-PP do seu "compromisso inequívoco" com a estratégia de consolidação orçamental e com as metas de redução do défice já anunciadas pelo Governo.

Aníbal Cavaco Silva assegura (e quando alguém que nunca se engana e raramente tem dúvidas assegura...) que os três maiores partidos portugueses assumem o compromisso de apoio às metas já estabelecidas "por forma a garantir a trajectória de sustentabilidade da dívida pública".

Ora, sendo assim, os 700 mil desempregados, os 20% de pobres e os outros 20% que lambem os pratos vazios já podem ficar descansados. Vão continuar desempregados, pobres e lamber pratos vazios mas o défice será honrado.

Alguns até poderão colocar nos vãos das escadas onde dormem, ou até mesmo na lápide do cemitério, a frase: “O défice protege os audazes”.

E, convenhamos, ser audaz com o dinheiro dos outros, à custa da miséria dos outros, até não é uma questão difícil. Não será, por isso, complicado – basta haver portugueses – levar o défice para os 4,6% do Produto Interno Bruto em 2011, 3% em 2012 e 2% em 2013.

E se quiserem mais é só pedirem...

Até agora todas as forças partidárias defenderam a realização de eleições antecipadas, dizendo que é a única forma de resolver a crise política. E, pelos vistos, também será a única via para cumprir o défice, mesmo que a roleta (portuguesa, com certeza) volte a dar mais do mesmo.

O que conta em Portugal é a vontade de quem manda e a submissão de quem é mandado. E se já há gerações que nascem sem coluna vertebral, o melhor é deixar o tempo passar e tudo ficará na santa paz do défice e na santa ceia da classe dominante, onde têm lugar reservado Cavaco Silva, José Sócrates, Passos Coelho e Paulo Portas.

Não adianta por isso dizer que a actual crise financeira, moral, política etc. é culpa dos políticos, essa casta superior que rege a vida dos plebeus.

Não adianta afirmar que o Estado socialista, social-democrata ou democrata-cristão, asfixia o povo com impostos, enquanto os gestores das empresas públicas auferem principescas remunerações.

Os portugueses devem apenas limitar-se a perguntar o que é que podem fazer pelo Estado (queriam que fosse o Estado a perguntar o que pode fazer por eles?).

E quando ele diz: baixem as calcinhas, cumpram com um sorriso e peguem na vaselina...

Sem esbirros do Santo Ofício ou bufos da PIDE, Sócrates continua como líder carismático do PS

Os filiados no PS voltaram, de forma clara e inequívoca, a dizer que querem que seja José Sócrates a comandar as tropas. Até mesmo muitos dos que o acham uma besta deram o seu voto para que, até um dia destes, continue a ser bestial.

Muitos socialistas já estão fartos de engolir tantos sapos. Mas... A digestão poderá (calculo) não ser fácil, mas não há nada que uns tantos “enos” não resolvam.

Sócrates sabe disso. Aliás, como dono da verdade, sabe que muitas das pedras que lhe aparecem no caminho lá foram colocadas por socialistas. José Sócrates também sabe que os adversários estão nos outros partidos, tal como sabe que os inimigos capazes de o apunhalar pelas costas estão dentro do seu.

Mas isso são outras cantigas.

Como em tempos, no auge da poética argelina, dizia Manuel Alegre, também agora José Sócrates pode dizer “a mim ninguém me cala”.

É claro que, ao contrário de Manuel Alegre (pelo menos para já), não vamos ver Sócrates escrever artigos no jornal Público intitulados "Contra o medo". Nem sequer ler prosas onde diga que é contra "a confusão entre lealdade e subserviência" no PS.

"Há um clima propício a comportamentos com raízes profundas na nossa História, desde os esbirros do Santo Ofício até aos bufos da PIDE", escreveu num desses artigos o argelino Manuel Alegre, acusando o Partido Socialista de "auto-amordaçar-se".

É claro que, ou não fosse José Sócrates como é, esta afirmação foi anotada e sublinhada pelo secretário-geral do PS. Não para meter na linha o poeta, o militante, o candidato presidencial derrotado, mas para a usar quando outros socialistas o mandarem dar uma volta ao bilhar grande.

Mas, tal como Manuel Alegre deixou de falar dos “esbirros do Santo Ofício até aos bufos da PIDE", passando a elogiar a democracia e o sentido patriótico de José Sócrates e companhia, também um dia destes vamos ver o ainda sumo pontífice do PS a elogiar a toda irmandade socialista.

A política é isso mesmo: A arte de deixar a coluna vertebral em casa.

Ainda não há muito tempo, Ana Benavente, ex-secretária de Estado socialista, dizia que José Sócrates “tornou-se autocrata, distribuindo lugares e privilégios, ultrapassando até o “centralismo democrático” de Lénine que tanto criticámos.”

Ainda bem, para Ana Benavente, que ela não precisa de emprego. É que os que precisam e que tiveram (são cada vez menos os que ainda têm) a ousadia de dizer coisas parecidas estão no desemprego ou, em alternativa, a tentar dobras as esquinas da vida.

Numa entrevista, publicada em Fevereiro pela revista Revista Lusófona de Educação, a ex-deputada socialista, secretária de Estado da Educação de António Guterres (1995-2001), acusou o PS (Partido de Sócrates, ex-Partido Socialista) de aplicar políticas neoliberais e a sua liderança de ser autoritária.

“Fazer do capital financeiro o dono e árbitro do desenvolvimento económico é uma capitulação face ao neo-liberalismo que não é digna de um partido socialista”, acusava Ana Benavente.

Além disso, o que já não é pouco, Ana Benavente acusava o PS de José Sócrates de ter assumido políticas de direita, descurando a justiça social e a sua matriz ideológica, “dirigindo a 'máquina' de modo autoritário e sem diálogo, substituindo de tal modo a direita que esta ficou 'encostada às cordas'”.

A ex-deputada enumerou assim os sete pecados capitais da actual liderança do sumo pontífice socialista, José Sócrates:

"Adopção de políticas neo-liberais e, portanto, abandono da matriz ideológica socialista; Autoritarismo interno e ausência de debate, empobrecendo o papel do PS no país; Imposição das medidas governativas como inevitáveis e sem alternativa, o que traduz dependências nacionais e internacionais não assumidas nem clarificadas para o presente e o futuro; Marketing político banal e constante, de par com uma superficialidade nas bandeiras de modernização da sociedade portuguesa; Falta de ética democrática e republicana na vida pública e na governação; Sacrifício de políticas sociais construídas pelo próprio PS em fases anteriores; Falta de credibilidade, quer por incompetência quer por hipocrisia, dando o dito por não dito em demasiadas situações de pesadas consequências".

Não está mal. É um retrato quase perfeito do (im)poluto líder socialista que, mais uma vez, mereceu a reeleição por esmagadora margem.

Para Ana Benavente, “um partido só pode assegurar um longo período de governação quando também utiliza a sua acção governativa para construir, manter e desenvolver a sua própria hegemonia cultural.”

Ora “Sócrates não compreendeu esta simples verdade. Procurou assegurar e legitimar socialmente o seu Governo através da sua adaptação à hegemonia cultural do radicalismo de mercado.”

“O PS abdicou da defesa dos trabalhadores e dos mais desfavorecidos. Considerou que bastava defender questões ditas “fracturantes” como é o caso do casamento entre pessoas do mesmo sexo para manter uma imagem de esquerda. E foi buscar protagonistas de tais causas, independentes do PS, para as defender. Discordo em absoluto”, afirma ainda Ana Benavente.

Reconheça-se, apesar disso, que José Sócrates (certamente com a colaboração institucional de Angela Merkel) fez tudo para que os 700 mil desempregados, os 20% de pobres e os outros 20% que para lá caminham, aprendessem (seja ou não nas Novas Oportunidades) a viver sem comer.

Esse é um mérito que nunguém lhe pode tirar. Até agora, sobretudo porque os portugueses são uns desmancha-prazeres e uns anti-socialistas primários, os resultados não foram animadores.

Todos os que tentaram seguir as teses de José Sócrates estiveram muito perto de saber viver sem comer. Mas quando do estavam quase lá... morreram.

domingo, março 27, 2011

Será a cópia melhor do que o original?

Ainda José Sócrates não abandonou o poleiro e já Pedro Passos Coelho começa a mostrar que, afinal, é mais o que os une do que aquilo que os separa. E a ser assim, os portugueses que se cuidem!

O PSD diz que quer pôr ordem e em ordem as empresas do Sector Empresarial do Estado já que são, no seu dizer, um problema para a economia (mas ainda existe economia?) do país.

Pelos exemplos das últimas décadas, onde os donos do poder foram sempre PSD e PS, PS e PSD, são uma doença que, por ser crónica, ninguém está de facto interessado em tratar.

E não estão interessados porque essa doença serve para encher os bolsos de muita gente, sobretudo daqueles que gravitam na esfera do poder.

Desta vez, garante o PSD, vai ser diferente. Passos Coelho quer que os seus especialistas resolvam o problema. Está-se mesmo a ver. O que eles vão fazer é participar nos cuidados paliativos de modo a mascarar a enfermidade que, com jeitinho, será um porto de abrigo para a sua rapaziada.

O PSD considera que, sobretudo pelas mãos socialistas e sob a batuta de José Sócrates, o Sector Empresarial do Estado cresceu sem qualquer tipo de racionalidade.

É verdade. Mas se não fosse assim, onde seriam colocados os homens do sistema que, para além de política mediocre, nada mais sabem fazer?

É verdade que o Governo de José Sócrates está, como sempre esteve, com as empresas (públicas, privadas ou assim-assim) ligadas ao PS, às dos amigos do PS, às que empregam os amigos do PS, às que financiam os amigos do PS, às que fazem propaganda ao PS, às que albergam militantes do PS, às que dão empregos milionários a ex-dirigentes do PS.

Mas se hoje é assim, ontem também foi assim. Quase sempre quem mamou na gamela foi o PSD e o PS. Daí que ninguém com perspectivas de chegar aos tachos esteja verdadeiramente interessado em resolver a questão.

Hoje o PSD pode acusar o PS. Mas não pode esquecer que têm muitos, mas muitos, telhados de vidro.

Ainda não há muitos anos se poderia dizer que o PSD esteva com as empresas (públicas, privadas ou assim-assim) ligadas ao PSD, às dos amigos do PSD, às que empregam os amigos do PSD, às que financiam os amigos do PSD, às que fazem propaganda ao PSD, às que albergam militantes do PSD, às que dão empregos milionários a ex-dirigentes do PSD.

Em bom português poder-se-á dizer que, no fim de contas, as moscas podem mudar, mas a merda continua a ser a mesma.

Todos saberão por onde ir?

Muita parra mas pouca, ou nenhuma, uva

José Sócrates, com 26.713 votos que correspondem a 93,3%, foi reeleito secretário-geral do PS. Nada de novo, portanto. Passos Coelho diz que o PSD votou contra o PEC IV porque não ia "suficientemente longe" para resolver o problema da dívida pública.

É a política portuguesa ao seu melhor nível (isto é como quem diz!). Em entrevista à agência Reuters, o líder do PSD esclareceu o que é importante para os portugueses saberem, de facto, o que os espera. Depois não digam, como habitualmente, que ninguém os avisou.

"Votámos contra o pacote de austeridade, não porque foi longe demais, mas porque não vai suficientemente longe para obter resultados na dívida pública", esclareceu o presidente do PSD.

Não terá sido isso que, até agora, foi percebido pelos portugueses. De qualquer modo, ainda estão a tempo de, nas próximas e antecipadas eleições, dizerem o que agora diz Sócrates (depois de mim virá quem de mim bom fará), ou aferirem que – afinal – quando a fuba é do mesmo saco, o pirão sai (quase) sempre igual.

"O que aconteceu é que os mercados não acreditam que o Governo tem credibilidade e legitimidade suficientes para cumprir as suas metas", sustentou Passos Coelho na entrevista à Reuters.

Talvez por isso, com o PSD os mercados passem a acreditar na credibilidade e legitimidade do novo governo. Só falta é saber se os portugueses darão ao PSD a tal credibilidade e legitimidade que Passos Coelho diz que Sócrates não tinha.

O PSD acredita que as eleições serão favas contadas. Se calhar vai-lhe sair o tiro pela culatra, mesmo que se descalce para contar até 12.

Os portugueses começam a ver que é muita a parra mas pouca a uva.

Sublinhando que o PSD está "totalmente empenhado" em atingir as metas orçamentais acordadas (por José Sócrates) com Bruxelas, Passos Coelho não põe de parte a possibilidade de o Governo de José Sócrates, demissionário, solicitar ajuda externa, numa situação de emergência, mesmo quando formalmente passar a estar em gestão.

"Temos de evitar uma situação como essa", salvaguardou. "Um novo Governo pode trazer novos resultados e uma nova confiança aos mercados", entende o líder social-democrata (esquece-se que, antes disso, tem de ter a confiança dos eleitores), que insiste na tese de que o Executivo socialista não empreendeu as "reformas estruturais" necessárias, nem teve capacidade para cortar nas despesas do Estado.

Sócrates não teve essa capacidade. Mas será que Passos Coelho terá? Se calhar não.

Há muitos “boys” à espera e, para além disso, muitos políticos de geração espontânea na linha de partida que conduz à gamela do poder.

Passos Coelho diz que vai prosseguir um programa de privatizações, envolvendo a alienação de parte do capital do Estado na Caixa Geral de Depósitos, na TAP e em outras empresas públicas de transportes. Nada de novo, bem vistas as coisas.

sábado, março 26, 2011

Cabindas sabem (bem) o que querem...

Ele só sabe (e não é pouco) que tudo sabe!

Como em tudo na vida, enquanto se é bestial não faltam seguidores. Quando se passa a besta, aí as coisas mudam de figura. Os servos viram-se contra o dono do reino. Nesta fase, José Sócrates ainda é bestial.

É claro que não falta no PS quem vote em Sócrates para liderar o partido e ser candidato a primeiro-ministro, mesmo que nos bastidores já estejam prontos para o apunhalar pelas costas.

Não faltam na história dos partidos portugueses exemplos disso. Dizem-me que a vida é mesmo assim. Vale tudo para chegar onde se não consegue chegar por mérito, lealdade, verticalidade, frontalidade e coerência.

Deve, aliás, ser por isso que há cada vez mais portugueses a nascer sem coluna vertebral e castrados. Creio até que a possibilidade de ter coluna vertebral amovível foi o maior contributo de genética para a criação, e proliferação, dos mais importante protagonistas portugueses: os políticos.

No caso do PS, até porque há gerações que não se renderam a quem se julga dono da verdade, de quando em vez lá aparece um histórico socialista que, por nada dever ao partido, diz umas tantas verdades.

É o caso de Henrique Neto que, em entrevista ao "Correio da Manhã", entende que José Sócrates deveria "demitir-se já da liderança do PS". Muitos outros há que pensam da mesma maneira, mas a estes – mesmo a alguns que têm coluna vertebral - falta-lhes os tomates. Vão, por isso, esperar que o líder caia para, então sim, recorrerem a tomates de plástico e dizerem que sempre estiveram contra.

Henrique Neto acusa Sócrates, como se isso fizesse algum sentido, de viver num "estado de negação da realidade" que o "obriga a mentir e a criar um mundo irreal".

Todos os socialistas, mesmo aqueles que como as marionetas só se aguentam de pé por terem alguém a segurá-los, sabem que o líder socialista se considera de uma casta rara e superior. Mesmo assim, não desgrudam da gamela.

Apesar de ter sido ministro de António Guterres, José Sócrates nada aprendeu com ele. Humildade? Honorabilidade? Não. Nada disso aprendeu com o então secretário-geral do PS e depois primeiro-ministro.

Quando António Guterres dizia que a verdade era a principal qualidade de um governante, certamente Sócrates entendia que isso era uma treta. E terá sido por isso que, quando se apanhou no poleiro, decretou que era o único dono da verdade e tratou de secar todos aqueles que pensavam, e pensam, de forma diferente.

Henrique Neto diz nesta entrevista que é "uma missão impossível" debater o futuro dentro do PS. É verdade. Mas, neste caso, José Sócrates tem razão. Desde quando se viu a plebe a debater os desígnios divinos do sumo pontífice do partido que, desde nascença, só sabe que tudo sabe?

Qualquer semelhança do regime português com democracia é mera e casual coincidência

Em entrevista à revista portuguesa Visão, em Maio do ano passado, o ex-ministro das Finanças de José Sócrates, Luís Campos e Cunha, dizia que "daqui a um ano as pessoas vão perceber que precisam de outro Governo". Errou por pouco.

Também dizia que as actuais medidas de austeridade são o "dobro do que seria necessário se tivessem sido iniciadas em Dezembro". José Sócrates não ouviu, o PS também não, tal como o presidente da República e o PSD.

Nessa altura perguntei aqui se as afirmações de Luís Campos e Cunha não pecavam por tardias.

Isto porque, por exemplo, num estudo da SEDES, de 3 de Julho de 2009, se dizia que maioria dos portugueses inquiridos considerava que as decisões dos governantes não reflectiam as preferências dos eleitores, o que levava o presidente desta associação, Luís Campos e Cunha, a concluir que tal era "uma prova de vivermos numa democracia madura".

Três em cada cinco inquiridos nesse estudo discordavam das noções de que os governantes tomam muitas vezes em conta as opiniões dos cidadãos, de que o governo é influenciado pelas preferências dos eleitores, de que os políticos se preocupam com o que eles pensam ou de que se preocupam com outra coisa além dos seus interesses pessoais.

É claro que, reafirmo eu, os governantes, estes e os outros, os outros e estes, se estão nas tintas para os cidadãos, salvo em época eleitoral. Na política “made in Portugal” os seus actores estão para se servir e não para servir. É pena, mas é a verdade. É, aliás, meio caminho – entre outras coisas – para o fim da própria democracia.

Mas o maior problema revelado no estudo "A Qualidade da democracia em Portugal", que até surpreendeu o próprio autor, ere – como continua a ser - o acesso à justiça e a igualdade perante a lei, que os inquiridos fizeram uma avaliação muito negativa.

Em média – dizia o trabalho da SEDES - "mais de dois em cada três eleitores" consideram que diferentes classes de cidadãos recebem tratamento desigual em face da lei e da justiça" e "a maioria" sente-se desincentivada a recorrer aos tribunais para defender os seus direitos.

Na altura da saída do estudo, escrevi aqui (pois, onde mais poderia ser?) que cada vez mais há portugueses de primeira, de segunda e até de terceira. Apesar disso, os políticos jogam com o que consideram ser uma certeza imutável: os portugueses são um povo de brandos costumes ou, como mais recentemente disse o primeiro-ministro, José Sócrates, manso.

"Os portugueses são cidadãos exigentes e querem que as áreas da democracia funcionem melhor", afirmou na altura Luis Campos e Cunha, salientando que o estudo também demonstrou que os portugueses "mais velhos estão mais satisfeitos com a democracia porque conheceram uma alternativa", a ditadura antes da revolução de Abril.

Será? Cá para mim que vou também ouvindo o que dizem os mais velhos, são cada vez mais os que falam de saudades do outro tempo, os que dizem que antes – ao contrário de hoje – eram poucos os que roubavam ou que, como diria o deputado socialista Ricardo Rodrigues, “tomavam posse” do que era dos outros.

Mais de 80 por cento dos inquiridos discordavam que "a justiça trata ricos e pobres de forma igual", 79 por cento discordavam que "a justiça trata de forma igual um político e um cidadão comum" e 49 por cento discordavam que "os processos judiciais não são tão complicados que não vale a pena".

O trabalho então apresentado pela SEDES era da autoria de Pedro Magalhães, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

Conclusão. Afinal, ao contrário do que há quase um ano dizia Luís Campos e Cunha, os portugueses não viviam "numa democracia madura". Sobreviviam, como hoje, numa democracia podre.

Porque razão terão de ser os angolanos a decidir o que é bom para os cabindas?

O meu amigo Eugénio Costa Almeida, em entrevista ao Semanário Angolense, diz que “é altura de o MPLA perceber que, pela sua descontinuidade territorial, Cabinda deveria ter um estatuto especial que se coadunasse com os desejos dos povos desta região”.

E acrescenta: “Para isso é necessário que a Constituição vigente na República de Angola seja revista, de modo a que se preveja a instituição de regimes autonómicos. Cabinda é um caso paradigmático. Nesta altura, e finalmente, Angola será uma nação em paz, e social e politicamente seremos muito ricos. E assim, África não terá uma mas sim duas «nações arco-íris», a África do Sul e Angola”.

À pergunta: “Para além de se atribuir um estatuto especial à Cabinda, como se pode, ultrapassar a instabilidade política e militar que se vive naquela região do país?”, responde:

“Uma alteração da Constituição e uma plena e efectiva abertura que leve os diferentes interlocutores a falarem clara e abertamente sem condições prévias como, de certa forma, aconteceu no Luena, Moxico, em finais de Março de 2002. Esta será, talvez, a condição mais vantajosa para acabar, de vez, com toda a instabilidade política, militar e social na província”.

A resposta termina dizendo “como referi antes não podemos tratar Cabinda como se fossem angolanos menores. Até porque recordemos que de Cabinda vem um fluxo importante de petróleo e madeiras preciosas que alimenta fortemente o nosso erário público. Ora, os cabindenses acham, e muito bem, que a redistribuição desses dividendos não devem ser só para construir um estádio de futebol bonito, diga-se, e uma via rápida de acesso ao mesmo”.

“Os cabindas precisam que lhes dêem - leia-se devolvem - fundos para melhorar a vida socioeconómica da província, como por exemplo, novas redes viárias, melhor saneamento básico, bairros sociais com boas condições de habitabilidade, mercados mais próximos dos consumidores e melhores portos”, conclui Eugénio Costa Almeida.

Para quem é defensor acérrimo, com toda a legitimidade – acrescente-se, da tese de que Cabinda faz parte de Angola, Eugénio Costa Almeida faz considerações válidas e oportunas mas que, na minha opinião, pecam por defeito.

Para mim, Cabinda nunca fez parte de Angola e a sua integração como província angolana só aconteceu em 11 de Novembro de 1975, à revelia de todos os acordos que Portugal assumira. Numa outra escala, mas com o mesmo substrato, foi o que a Indonésia fez ao declarar Timor-Leste como sua província.

De facto, a criação de um “estatuto especial que se coadunasse com os desejos dos povos desta região”, poderia ser meio caminho andado.

Mas, segundo esta tese, um tal estatuto seria definido pelos angolanos e não, como seria lógico, pelos cabindas através de, por exemplo, um referendo. Aliás, nunca o regime angolano aceitará de livre vontade esse referendo, similar – por exemplo- ao de Timor-Leste, porque sabe que a opção “independência” também teria de ser colocada e que, nesse caso, certamente seria a opção escolhida.

Ao contrário da tese de Eugénio Costa Almeira, a questão de Cabinda não se resume, pelo contrário, a “fundos para melhorar a vida socioeconómica da província, como por exemplo, novas redes viárias, melhor saneamento básico, bairros sociais com boas condições de habitabilidade, mercados mais próximos dos consumidores e melhores portos”.

É bem mais vasta. E a haver uma síntese, dir-se-ia que os cabindas querem ser eles apenas a decidir o seu futuro. Se assim não for, por muito que se mascare a situação, Cabinda continuará a ser uma colónia de Angola.