sexta-feira, setembro 30, 2011

Muito gosta Aníbal Cavaco Silva de tratar os portugueses como mentecaptos e matumbos

O presidente da República, Cavaco Silva, continua a gozar com a chipala dos portugueses. Até parece que só agora chegou à política “made in Portugal”.

Sempre que fala ao país, directa ou indirectamente, Cavaco Silva sacode a água do capote e continua (como se, para além de presidente da República, não andasse há um monte de anos na política portuguesa e sempre nos areópagos do poder) a esquecer-se de que quem não vive para servir não serve para viver.

"Eu disse que se devia ter em conta o limite que se pode exigir ao cidadão comum" e é relativamente a esses "que nós temos que pensar como, neste tempo de dificuldades, assegurar uma vida digna", diz o prasidente.

O presidente da República defendeu, também, um "debate aprofundado" e "com muito bom senso" na Assembleia da República (AR) em matéria fiscal e de justiça fiscal, para evitar "erros" prejudiciais ao país.

"A competência exclusiva em matéria fiscal cabe à AR e o que eu aconselharia é que, nesse domínio, se faça um debate aprofundado, com muito bom senso, tendo presente todas as consequências para o desenvolvimento futuro do nosso país", disse.

O chefe de Estado lembrou que, "às vezes" se cometem "erros", como "já aconteceu noutros países no domínio fiscal", os quais "têm consequências muito negativas para o futuro do país, prejudicando as possibilidades de aproximação aos níveis de desenvolvimento da União Europeia".

Será que os portugueses se recordam que o mesmo Cavaco Silva afirmou que o mal da economia portuguesa estava nas finanças públicas, mas que o "medo" dos políticos dificulta a sua correcção, malgrado defender um quase poder de veto para o ministro das Finanças?

Recordam-se que o também ex-líder do PSD e  ex-primeiro-ministro considerava, em Março… de 2002, que Portugal tinha no máximo um ano e meio para inverter a tendência de degradação da situação económica?

Para o também economista, professor universitário e presidente da República, seria, contudo, "muito complicado" para o Governo resolver "o problema mais grave" que afecta a economia portuguesa: a crise nas finanças públicas. Recordam-se?

Será que também se recordam de ele ter dito que “os políticos, como pessoas normais que são, têm medo, e será precisa muita coragem política para adoptar políticas necessárias, mas cuja viabilidade política é duvidosa"?

Ou que Cavaco Silva dizia que a solução passava, necessariamente, por "reforçar os poderes do ministro das Finanças", que devia contar com o apoio incondicional do primeiro-ministro e dispor "de um poder quase de veto sobre os restantes ministérios"?

Recordam-se que também foi ele quem afirmou que o objectivo era assegurar a concretização de medidas que se antevêem impopulares, como as reformas da saúde - apostando na gestão privada dos hospitais públicos - e educação, a extinção de alguns serviços públicos, a contenção nas transferências para as autarquias, o equilíbrio das contas externas e o assegurar de "disciplina" nas empresas públicas?

Ou que era necessário acompanhar "quase à semana o endividamento de determinadas empresas públicas, nomeadamente no sector dos transportes e do audiovisual”?

Recordam-se ainda que Cavaco Silva defendia, quanto à evasão e fraude fiscais, como única solução viável "um claro levantamento do sigilo bancário" sustentando que, mesmo face ao risco de fuga de capitais, "em situação de crise" esta medida se impõe?

E então, se Cavaco Silva afirmava tudo isto há mais de 9 anos, é  caso para perguntar, para voltar a perguntar, para nunca deixar de perguntar, o que tem andado Cavaco Silva a fazer pelo menos desde Março de 2002, para além de gozar com a miséria dos outros?

Para quando uns motins a sério?

O secretário de Estado do Orçamento de Portugal, Luís Morais Sarmento, anunciou hoje que o Governo vai tomar mais medidas de austeridade. Venham elas!

"Estes valores do primeiro semestre mostram que o Governo estava certo quando tomou medidas de urgência - antecipar aumento do IVA sobre os produtos energéticos e estabelecer a sobretaxa do IRS para 2011 -, mas isso apenas não chega", disse o governante na comissão parlamentar do Orçamento e Finanças.

Por deficiência congénita e ancestral, os portugueses são um povo de brandos costumes que, quase sempre, defendem a tese de que “quanto mais me bates mais gosto de ti”.

Mas, quem sabe?, talvez um dia acordem e mostrem que estão fartos de quem em vez de os servir… só se serve deles.

"Estão criadas as condições para que as contestações se alastrem", porque a "base da pirâmide demográfica é dominada por jovens, entre os 16 e os 25 anos, logo a propensão para haverem problemas é muito grande", explicou em tempos à agência Lusa o investigador na área da segurança e professor universitário, José Vegar.
É certo que em Portugal aumenta o número dos que pensam que a crise (da maioria, de quase sempre os mesmo) só se revolve a tiro. Parece-me uma boa opção.

Mesmo que assim seja, se calhar os responsáveis pela tragédia (como é o caso, entre outros, de Cavaco Silva, José Sócrates, Passos Coelho e Paulo Portas) vão continuar a ter pelo menos três boas refeições por dia.

De uma coisa os portugueses não podem, contudo, esquecer-se: Como dizia Platão: "O castigo por não participares na política é acabares por ser governado por quem te é inferior."

E, convenhamos, se o valor dos portugueses se medisse pelo nível dos seus actuais, anteriores e anteriores aos anteriores  políticos, estariam certamente abaixo do último do lugar do “ranking” mundial.

Segundo um estudo da Aon Risk Solutions, Portugal apresenta, pela primeira vez em dez anos, um risco político com ameaças de greves, de motins e de comoção civil.

"Embora tenha mantido o mesmo 'rating' - aquele que indicia o mais baixo patamar de risco - pela primeira vez foram especificados dois riscos específicos, nomeadamente, o de incumprimento da dívida soberana e o de ocorrência de fenómenos de violência pública", disse já há algum tempo à Lusa o director geral da Aon, Pedro Penalva.

De acordo com o responsável pelo estudo da Aon Risk Solutions, a empresa global de gestão de risco da Aon Corporation, "Portugal é um dos países que surge pela primeira vez na história do 18º Mapa de Risco Político, dada a conjuntura actual em comparação com outros anos".

O legado da recessão mundial, a recente crise da dívida soberana, os desenvolvimentos ocorridos na Grécia neste domínio e o consequente risco de contágio são factores que contribuíram para atirar Portugal para a lista dos países em risco, num universo composto por mais de 211 a nível mundial.

As conclusões do estudo referem-se ao ano de 2010, e resulta de uma avaliação da AON em conjunto com diversas entidades, como universidades, agências de 'rating', seguradoras e bancos de investimento. E se em 2010 era assim…

A Aon mediu o risco político de 211 países e territórios, baseado em inúmeros indicadores, designadamente impossibilidade de conversão de moeda e transferência de dinheiro, greves, motins e comoção civil, guerra, guerra civil, não pagamento da dívida soberana, interferência política, quebra na cadeia de abastecimentos e riscos legais e regulatórios.

Para já e por enquanto, na primeira linha dos que podem e devem sair à rua para dizer “basta” estão os 800 mil desempregados, os 20% que vivem na miséria e outros tantos que começam a ter saudades de uma... refeição.

Convenhamos que é muita gente a pensar com a barriga vazia.

Em certas áreas urbanas das grandes cidades, nomeadamente "as periferias das cidades de Lisboa, Setúbal, Porto as probabilidades de protestos são grandes", e não é só por uma "questão de austeridade, dificuldade do mercado de trabalho e do emprego", porque "já não é possível o estado social cobrir todas as funções que antes cobria", diz por sua vez José Vegar.

O investigador lembrou que uma das "principais reivindicações é que querem emprego, querem protecção, [mas] isso acabou e já não há", tendo as "pessoas de se qualificar, para terem mais acesso”.

E quanto mais qualificados são, digo eu, menos acesso têm. Isto porque, cada vez mais, os empregos não são para os que sabem mais, para os mais qualificados, mas para os que demonstram ter coluna vertebral amovível.

"Por muitas qualificações que as pessoas tenham hoje em dia, o acesso ao emprego não é automático, só os melhores vão ter acesso", diz José Vegar, certamente por nunca ter necessitado de enviar candidaturas a empregos.

O Alto Hama no Angola24Horas

quinta-feira, setembro 29, 2011

Se Angola fosse um Estado de Direito…

Diz o órgão oficial do regime angolano, o Jornal de Angola (JA), que “Angola já foi um país ocupado por forças estrangeiras”. Tem razão. Os cubanos e soviéticos eram uma força de ocupação estrangeira.

“Mas se por hipótese hoje Angola fosse a Líbia, o país estava novamente a atravessar um período de grande instabilidade e perturbação. Mas como o tempo não recua, Luanda é uma cidade livre e Tripoli está a ser palco de confrontos fratricidas entre líbios”, diz o órgão oficial do MPLA.

Tem, mais uma vez, toda a razão. Como Angola não é a Líbia, embora José Eduardo dos Santos seja uma cópia de Muammar Kadafi, de quem aliás era íntimo amigo, ainda falta algum tempo até que o Povo derrote o ditador.

“Se Angola fosse a Líbia, estava a ser cercada militarmente e bombardeada por uma aliança militar e submetida a todos os outros membros dessa organização bélica, que tinham escolhido para presidente de um qualquer CNT um “rapper” com nome de oxigénio, devidamente ajudado por outro com apelido de marechal”, diz o JA do alto da sua cátedra de correia de transmissão de um regime que colocou o país no topo do mais corruptos do mundo.

Mas é bom registar as afirmações do JA. Desde logo porque, como sempre acontece nas ditaduras, ainda vamos ver os mesmos protagonistas embandeirar em arco quando Eduardo dos Santos passar de bestial a besta.

“Se Angola fosse a Líbia, continua o JA, a esta hora as grandes petrolíferas estrangeiras estavam a roubar milhões de barris de petróleo por dia de Angola, antes que a resistência dos angolanos os impedisse de continuar o roubo. E os aviões da aliança, com a carta branca da Organização das Nações Unidas, estavam a despejar bombas sobre as nossas cidades, para proteger os civis do CNT”.

O pasquim, dirigido por José Eduardo dos Santos através dos autómatos José Ribeiro e Filomeno Manaças, esquece-se que Angola rouba milhões de barris de petróleo por dia ao povo da sua colónia de Cabinda. Mas lá chegará a altura em que os angolanos os vão ver fora do pedestal.

“Se Angola fosse a Líbia não havia partidos políticos nem liberdade de imprensa e muito menos eleições democráticas. A bela Constituição da República de Angola era rasgada na Praça da Independência, donde já tinham tirado o monumento a Agostinho Neto, aos gritos e com raiva para as câmaras de televisão mundiais repetirem de hora a hora de maneira interminável”, escreve o órgão do MPLA na senda do seu irmão Pravda, que foi o principal jornal da União Soviética e um órgão oficial do Comité Central do Partido Comunista da União Soviética entre 1918 e 1991.

Falar de democracia e de liberdade de imprensa num país que têm um presidente da República há 32 anos no poder, sem nunca ter sido eleito, que têm 68 por cento de gente a viver na miséria, e que trata os jornalistas não afectos ao regime como inimigos, é o mesmo que dizer que os rios nascem no mar.

“Se Angola fosse a Líbia este jornal não circulava e os seus jornalistas não se atreveriam a escrever estas verdades porque eram logo massacrados como estão a massacrar os negros em Tripoli e outras cidades líbias “libertadas” pela aliança militar”, considera o Pravda de Luanda.

Importa dizer, desde logo porque nem todas fomos  (pelo menos por enquanto) comprados pelo regime, que o JA não tem jornalistas ao seu serviço. Tem, apenas isso, funcionários do partido que escrevem o que lhes mandam e que, em muitos casos, não assinam os textos porque ficaria mal em vez do nome colocar a impressão digital.
  
“Se Angola fosse a Líbia, estávamos de novo a sofrer as investidas militares de regimes estrangeiros aliados a uma frente de oportunistas e intriguistas que procuram ignorar quem combateu e deu tudo pela concórdia e harmonia entre os angolanos”, afirma o órgão de propaganda do regime.

 Por regra, o JA sente um orgasmo especial em atacar os poucos jornalistas portugueses que ainda não foram comprados pelo regime angolano.

Tem, obviamente, todo o direito de o fazer. Para o pasquim do MPLA, “os órgãos de comunicação social portugueses, salvo raras excepções, em vez de reflectirem a realidade portuguesa e europeia, andam entretidos a intrometer-se na política angolana”.

Ainda bem que o JA esclarece o âmbito em que devem actuar os media portugueses. Ficam assim a saber que podem falar de Angela Merkel mas que, pelo contrário, não devem ousar escrever sobre o mais lídimo e sublime representante de Deus na terra, de seu nome José Eduardo dos Santos.

Diz o JA, reflectindo aliás a velha cartilha dos tempos (mesmo hoje a diferença é pouca) do partido único, que “os mentores desses exercícios de colonialismo retardado têm a mesma origem de sempre mas deixam de fora o rabo de quem lhes paga os disparates sem sentido.”

Neste aspecto, reconheço, o JA tem toda a razão. Não fala do colonialismo angolano praticado em Cabinda porque, presumo, considera que Cabinda não pertence a Angola. Quanto ao rabo, é verdade que no caso do Jornal de Angola tal não se aplica… embora ainda se notem as marcas.

Diz o JA que o  “Diário de Notícias” é hoje “um boletim ao serviço de quem dá mais”, revoltando-se contra o facto de o DN “dizer que o presidente José Eduardo dos Santos está no poder há 32 anos, sendo altura de sair”.

Acrescenta o órgão oficial do MPLA: “Se um jornal angolano escrevesse um editorial a sugerir que o presidente Cavaco Silva não se candidatasse ao segundo mandato porque foi dez anos Primeiro-Ministro e fez mais cinco na Presidência, o alarido em Lisboa era tal que até a Ponte 25 de Abril vinha abaixo, como já caiu fragorosamente a revolução dos capitães”.

Brilhante. Esquece-se o JA que, ao contrário do reino do seu mentor, Cavaco Silva - seja como primeiro-ministro ou presidente – sempre foi eleito. Eu sei que a democracia “made in MPLA” não implica, antes pelo contrário, que seja necessário haver eleições. Aliás, não faria sentido eleger quem é o divino representante de Deus…

“Se em Angola algum órgão de informação ousasse escrever que Alberto João Jardim não deve concorrer a um novo mandato de presidente do Governo Regional da Madeira, o alarido em Lisboa era tal que o edifício da Caixa Geral de Depósitos ruía, como está em ruínas o sistema financeiro europeu e a Zona Euro ameaça derrocada”, diz e muito bem o boletim oficial do regime.

Esquece-se, mais uma vez, que também Alberto João Jardim foi eleito, ao contrário do sumo pontífice do MPLA,  que está no poder há 32 anos sem nunca ter sido eleito.

“O Presidente José Eduardo dos Santos não governa há 32 anos. Ele é o líder de um povo que teve de enfrentar de armas na mão a invasão de exércitos estrangeiros e os seus aliados internos”, escreve o JA, repescando as regras dos áureos tempos em que se impunha que o povo é o MPLA, o MPLA é o povo.

“José Eduardo dos Santos foi o líder militar que derrubou o regime de “apartheid”, o mesmo que tinha Nelson Mandela aprisionado. José Eduardo dos Santos só aceitou depor as armas quando a Namíbia e a África do Sul foram livres e os seus líderes puderam construir regimes livres e democráticos”, recorda com a sua habitual perspicácia o JA.

Penso que, neste aspecto, bem poderia ser menos modesto. É que foi graças a José Eduardo dos Santos que Portugal adoptou a democracia, que a escravatura foi abolida, que D. Afonso Henriques escorraçou os mouros, que Barack Obama foi eleito e que os rios passaram a correr para o mar…

“Os media portugueses pelo menos deviam reconhecer o que José Eduardo dos Santos tem feito para que os portugueses não vão ao fundo com a crise. Eles mais do que ninguém deviam propor o seu nome para Prémio Nobel da Paz”, salienta com raro sentido de oportunidade o Jornal de Angola.

Tem, mais uma vez, razão. A Oferta Pública de Aquisição lançada pelo regime angolano (que é o mesmo que dizer MPLA ou José Eduardo dos Santos) sobre Portugal está a ter êxito, calculando-se por isso que o reino lusitano não tarde a ser mais uma das províncias de Angola.

Também concordo que Eduardo dos Santos merece o Prémio Nobel da Paz. E, já agora, o Jornal de Angola merece – no mínimo – o Prémio Pulitzer.

Fotos: Uma empresa da França e outra do Mónaco juntaram as mãos para construir este iate com 58 metros de comprimento e 38 metros de largura para Isabel dos Santos, filha do Presidente Eduardo dos Santos.

O Povo angolano continua a morrer à fome, mas há quem na UNITA só pense em lagosta

Já não adianta reflectir sobre a UNITA. No entanto, ao ver Rafael Massanga Savimbi falar, no Huambo, perante uma multidão de boa gente, achei que deveria voltar a fazê-lo.

Não sei se qualquer reflexão que ultrapasse o círculo de bajuladores de Isaías Samakuva serve para aqueles que sobrevivem com mandioca ou, pelo contrário, para os que se banqueteiam com lagostas em Luanda.

Mas, mais uma vez, vamos lá então reflectir mais um pouco. Perante o desastre eleitoral anterior (e no próximo, se o houver, será pior), Samakuva mexeu na equipa dirigente, baralhou tudo e voltou a dar para, presumi na altura, dar um novo dinamismo à máquina partidária. Hoje presumo menos. Amanhã menos ainda.

Ninguém melhor, penso, do que Samakuva para saber se a UNITA vai conseguir viver sem comer. UNITA no sentido dos homens e mulheres que tinham orgulho no Galo Negro que transportavam no peito. Temo que, apesar da muita experiência, um dia destes se venha dizer, venha o MPLA dizer, que exactamente quando estava mesmo, mesmo quase a saber viver sem comer, a UNITA morreu.

A UNITA, ou seja – os seus dirigentes, teima em confundir as esquinas da vida com a vida nas esquinas. Continua a preferir ser assassinada pelo elogio do que salva pela crítica. E quando assim é... não há memória que a salve, nem mesmo a do Mais Velho.

Depois de perdida (embora com muita batota) a batalha das legislativas, continuo a pensar que a UNITA escolheu os seus “generais” para a “guerra” política baseada em critérios de parca consistência.

Continuo a pensar (e depois de ver Rafael Massanga reforcei essa ideia) que se Jonas Savimbi fosse vivo, grande parte destes “generais” não passava de “cabos”. “Cabos” que, recorde-se, passarem a generais nas FAA e o ajudaram a matar.

E, para – apesar de tudo - meu penar, não sou o único (longe disso) a pensar assim. Sou, eu sei, dos poucos que publicamente assume esta tese. Tenho, no entanto, recebido testemunhos com chipala e nome, que comprovam que o Estado-Maior da UNITA continua a querer ganhar a “guerra” com “generais” que ao primeiro “tiro” vão para o outro lado da barricada ou, na melhor das hipóteses, levantam os braços, içam um pano branco e depenam o Galo Negro.

O sacrificado povo angolano, mesmo sabendo que foi o MPLA que o pôs de barriga vazia, não viu, não vê e assim nunca verá na UNITA a alternativa válida que durante décadas lhe foi prometida, entre muitos outros, por Jonas Savimbi, António Dembo, Paulo Lukamba Gato, Alcides Sakala e Samuel Chiwale.

De há muito que pergunto: Terá sido para isto que Jonas Savimbi lutou e morreu? E lá vou acrescentando: Não. Não foi. E é pena que os seus ensinamentos, tal como os seus muitos erros, de nada tenham servido aos que, sem saberem como, herdaram o partido.

Continuo a lamentar que os que sempre tiveram a barriga cheia nada saibam, nem queiram saber, dos que militaram na fome, mas que se alimentaram com o orgulho de ter ao peito o Galo Negro.

Também é pena, importa continuar a dizê-lo, que todos aqueles que viram na mandioca um manjar dos deuses estejam, como parece, rendidos à lagosta dos lugares de elite de Luanda.

Se calhar também é de lamentar que figuras sem passado, com discutível presente e necessariamente sem futuro, queiram ter tudo à custa da desonra dos seus antepassados que deram tudo o que tinham, incluindo a vida, para dignificar os Angolanos.

Será que a UNITA não enterrou, depois da morte de Savimbi, o espírito que deu corpo ao que se decidiu no Muangai em 13 de Março de 1966?

Ao ouvir Rafael Massanga dizer várias vezes que o Galo voa, lembrei-me novamente de algo que o Pai dele me disse, no Huambo, em 1975: “a UNITA, tal como Angola, não se define – sente-se”.

Foi do Muangai que saíram pilares como a luta pela liberdade e independência total da Pátria; Democracia assegurada pelo voto do povo através dos partidos; Soberania expressa e impregnada na vontade do povo de ter amigos e aliados primando sempre os interesses dos angolanos.

Foi de lá que também saíram teses sobre a defesa da igualdade de todos os angolanos na Pátria do seu nascimento; busca de soluções económicas, priorização do campo para beneficiar a cidade;  liberdade, democracia,  justiça social,  solidariedade e  ética na condução da política.

Alguém, na UNITA, se lembra hoje de quem disse: ”Eu assumo esta responsabilidade e quando chegar a hora da morte, não sou eu que vou dizer não sabia, estou preparado"?

Isaías Samakuva mostrou ao mundo que as democracias ocidentais estão a sustentar um regime corrupto e um partido que quer perpetuar-se no poder. E de que lhe valeu isso?

Depois da hecatombe eleitoral, provocada também pela ingenuidade da UNITA acreditar que Angola caminha para a democracia, Samakuva alterou os jogadores, a forma de jogar e promete, continua a prometer, melhores resultados.

Mas a verdade é que muitos desses craques que escolheu não conseguem olhar para além do umbigo, do próprio umbigo, e passaram os últimos anos a bloquear iniciativas válidas só porque partiam de outras pessoas. Ou seja, olharam para o mensageiro e não para a mensagem.

Habituaram-se à lagosta e esqueceram a mandioca.

Deixem os Jornalistas morrer em silêncio!

A Direcção do Sindicato (SJ) dos Jornalistas de Portugal apela à participação dos jornalistas nas manifestações contra o empobrecimento e as injustiças, convocadas para o próximo sábado, dia 1 de Outubro, em Lisboa e Porto.

Diz o SJ que “o Governo decidiu tirar-nos uma parte do subsídio de Natal, aumentar mais os impostos sobre bens e serviços essenciais, subir as taxas moderadoras e os preços dos transportes, agravando o custo de vida”, acrescentando que “com a perspectiva de que tudo ficará ainda pior no próximo ano, com a mais que certa alteração dos escalões de IVA.”

“O Governo prepara despedimentos fáceis e baratos, ameaçando mesmo liberalizá-los e torná-los arbitrários, diminui a protecção no desemprego e reduz nas prestações sociais”, saliente o SJ em comunicado hoje divulgado, referindo ainda que o executivo de Passos Coelho “prepara privatizações – incluindo de canais da RTP e da parte do Estado na agência Lusa – prejudiciais ao interesse nacional e contra os direitos dos cidadãos.”

Considera o SJ que “as decisões tomadas e anunciadas pelo Governo agravam a recessão económica, as desigualdades, o desemprego e a precariedade”, sendo que “as medidas de austeridade que continuam a ser impostas aos portugueses não só não resolvem os problemas económicos do país como aprofundam as injustiças e atacam o Estado-Social.”

Da análise do SJ resulta que “os sucessivos sacrifícios impostos aos trabalhadores têm provocado uma constante redução do poder de compra dos salários e das pensões”, sendo tudo isto razão suficiente para que os “jornalistas participem nas manifestações contra o empobrecimento e as injustiças que se realizam sábado, às 15 horas, em Lisboa (Praça do Saldanha/Praça dos Restauradores) e no Porto (Praça dos Leões/Praça da Batalha).

Porque a “luta é de todos” e, portanto, também dos jornalistas, o SJ sugere que  se vá “para a rua defender o emprego, os salários, as pensões e os direitos sociais e laborais.”

Para além dos jornalistas que, eventualmente, lá apareçam em serviço, e de um ou outro que seja dirigente sindical, estes profissionais vão primar pela ausência.

Ausência que não invalida as razões que justificam a manifestação. Acontece que os jornalistas sabem, por amarga e recente experiência, que a participação lhes pode acarretar sérios problemas junto dos seus donos e, ainda, dos donos dos seus donos.

Sabem que, apesar de tudo, é melhor estar de cócoras e ter um prato de lentilhas, do que estar erecto mas de barriga vazia. Sabem que é preferível serem criados do poder e ter dinheiro para pagar ao merceeiro, do que serem honrados profissionais e andarem a mendigar nas esquinas da vida.

O SJ afirma que “é preciso dizer basta”. De facto é preciso. Mas o Sindicato sabe igualmente que os Jornalistas são uma classe profissional em clara e inevitável via de extinção. Sabe que os que restam são obrigados a pensar com a barriga.

Sendo assim, todos os que restam sabem que “é preciso dizer basta”, mas quase todos vão dizê-lo em silêncio.

A força e o poder da cultura

Para o MPLA vale (mesmo) tudo!

Está em marcha o plano do regime angolano para se perpetuar no poder. Em várias frentes, os “bentos bentos” do MPLA estão no terreno.

Já está em curso a campanha contra a UNITA e os seus dirigentes nos órgãos de comunicação social. A par da sempre oportuna descoberta de paióis de armamento, os principais dirigentes do Galo Negro vão ver a sua vida devassada. Notícias com carácter escandaloso, como contas bancárias no exterior, contactos com serviços secretos estrangeiros etc. não tardarão.

As autoridades vão avançar com processos criminais, sob denúncia de elementos da população, que podem compreender acusações de violações de menores, tráfico de influências em negócios ilegais e transacção ilegal de diamantes e indivíduos envolvendo figuras destacadas da Oposição.

Vai aumentar ainda mais a vigilância pessoal sobre os dirigentes da cúpula da UNITA, com escutas telefónicas e alargamento da rede de informadores no interior do Galo Negro.

Estão a ser cridas condições para a expulsão, ou saída “voluntária”,  de Organizações Não Governamentais, bem como os jornalistas estrangeiros não afectos ao regime.

Foram reactivadas as Brigadas Populares de Vigilância nos bairros de Luanda e nas capitais provinciais, estando tudo pronto para, inclusive, distribuir armamento ligeiro aos seus efectivos para defesa da população civil.

Afinal, na História recente (desde 1975) do regime angolano, nada se perde e tudo se transforma para que os mesmos continuem a ser donos do poder e, é claro, de Angola.

Quando o partido que governa Angola desde 11 de Novembro de 1975, que tem como seu líder carismático e presidente da República alguém que está no poder há 32 anos, sem ter sido eleito, sente necessidade de reeditar esta plano alternativo é porque, contra todos os ventos e marés da ditadura, as sementes da revolta estão a multiplicar-se.

Embora oficialmente o regime diga que tudo está calmo, a verdade é que o primeiro secretário do comité de Luanda do MPLA, Bento Bento, considera que a situação "inspira cuidados especiais", por ser "delicada".

Bento Bento acusa a UNITA, o maior partido da oposição, de ser o líder, em aliança com alguns partidos da oposição, nomeadamente o Bloco Democrático e alguns Partidos da Oposição Civil (POC's),  de um plano para "derrubar o MPLA e o seu líder, José Eduardo dos Santos".

"Têm como executivos mais dinâmicos nesta luta o secretário-geral da UNITA, Camalata Numa, o presidente da JURA, Mfuka Muzemba, o Presidente do Bloco Democrático, Justino Pinto de Andrade, David Mendes, que têm outros executores, mas esses são os principais mentores", afirma Bento Bento.

“Quando um político entra em conflito com o seu próprio povo, perde a sua credibilidade no seu agir, torna-se um eterno ditador”, afirmou (recordam-se?) o bispo emérito de Cabinda, Paulino Madeca, falecido em 2008, numa carta dirigida a António Bento Bembe, mas que serve às mil maravilhas para este outro Bento Bento.

Segundo Bento Bento, o plano tem em vista unicamente "sabotar a realização das próximas eleições em Angola". "Infelizmente entre os executores dessa conjura consta um deputado, que de manhã à noite instiga a sublevação contra as instituições, contra as autoridades e contra o MPLA, o senhor Makuta Nkondo", acusou ainda o político.

Nesse sentido, Bento Bento pediu aos militantes do seu partido para que controlem "milimetricamente" todas as acções da oposição, em especial da UNITA, para não serem "surpreendidos". E se for necessário, como prevê o plano do MPLA, há armas à disposição dessas Brigadas Populares de Vigilância.

De acordo com o primeiro secretário de Luanda do MPLA, a oposição liderada pela UNITA decidiu enveredar por "manifestações violentas e hostis, provocando vítimas, inventando vítimas, incentivando a desobediência civil, greves e tumultos, provocando esquadras e agentes e patrulhas da polícia com pedras, garrafas e paus".

Sempre que no horizonte se vislumbra, mesmo que seja uma hipótese remota, a possibilidade de alguma mudança,  o regime dá logo sinais preocupantes quanto ao medo de perder as eleições e de ver a UNITA a governar o país.

Para além do domínio quase total dos meios mediáticos, tanto nacionais como estrangeiros, o MPLA aposta forte numa estratégia que tem dado bons resultados. Isto é, no clima de terror e de intimidação.

No início de 2008 (recordam-se?), notícias de Angola diziam que, no Moxico, “indivíduos alegadamente nativos criaram um corpo militar que diz lutar pela independência”.

E, na ausência de melhor motivo para aniquilar os adversários que, segundo o regime, são isso sim inimigos, o MPLA poderá sempre jogar a cartada, tão do agrado das potências internacionais que incendeiam muitos países africanos, de que há o perigo de terrorismo, de guerra civil.

Se no passado, pelo sim e pelo não, falaram de gente armada no Moxico, agora deverão juntar o Bié ou o Huambo.

Kundi Paihama, um dos maiores especialistas de Eduardo dos Santos nesta matéria, não tardará a redescobrir mais uns tantos exércitos espalhados pelas terras onde a UNITA tem mais influência política, para além de já ter dito que quem falar contra o MPLA vai para a cadeia, certamente comer farelo.

Tal como mandam os manuais, o MPLA começa a subir o dramatismo para, paralelamente às enxurradas de propaganda, prevenir os angolanos de que ou ganha ou será o fim do mundo.

Além disso, nos areópagos internacionais vai deixando a mensagem de que ainda existem por todo o país bandos armados que precisam de ser neutralizados.

Aliás, como também dizem os manuais marxistas, se for preciso o MPLA até sabe como armar uns tantos dos seus “paihamas” para criar a confusão mais útil. E, como também todos sabemos, em caso de dúvida a UNITA será culpada até prova em contrário.

Numa entrevista à LAC - Luanda Antena Comercial, no dia 12 de Fevereiro de 2008, o então ministro da Defesa, Kundi Paihama, levantou a suspeita de que a UNITA mantinha armas escondidas e que alguns dos seus dirigentes tinham o objectivo de voltar à guerra.

Kundi Paihama, ao seu melhor estilo, esclareceu, contudo, que os antigos militares do MPLA, "se têm armas", não é para "fazer mal a ninguém" mas sim "para ir à caça". Ora aí está. Tudo bons rapazes.

Quanto aos antigos militares da UNITA, Kundi Paihama disse que a conversa era outra e lembrou que mais cedo ou mais tarde vai ser preciso falar sobre este assunto. Pelos vistos chegou a agora a hora de se falar do que existe mas, sobretudo, do que não existe.

Transição pacífica ou guerra? - Qualquer uma desde que o MPLA continue no poder

MPLA está calmo. O petróleo garante só por si a democraticidade da ditadura do seu regime. O regime manda e os outros comem e calam. Portugal está de cócoras e de mão estendida… a bem da nação.

Apesar da aparente calma dos donos de Angola, José Eduardo dos Santos faz contas à vida. O fim está próximo. Fim que poderá passar por uma transição pacífica ou, como parecer ser vontade o MPLA para se perpetuar no poder, por nova guerra civil.

Em Luanda, o presidente não eleito e há 32 anos no poder, sabe, agora melhor do que nunca, que as democracias o vão passar de bestial a besta logo que ele deixe o poder. Se calhar hoje, mais do que ontem, Eduardo dos Santos sabe que já não há amigos como, por exemplo, Kim Jing-Il.

Quando em Março de 2005 visitou Luanda, o vice-presidente da Coreia do Norte, Zeng Yang Hong, foi claro ao ressaltar a importância da cooperação bilateral, e ainda mais explícito quando disse tratar-se de algo histórico. Eduardo dos Santos agradeceu e agora deu ordens para que o sistema de vasos comunicantes entre Luanda e Pyongyang seja transformado, rapidamente e em força, num sistema de caudais comunicantes.

É bom que os angolanos (a comunidade internacional passou uma esponja no assunto) saibam que a ditadura de Pyongyang tem relações históricas com a sua congénere de Luanda.

Para além dos laços históricos, nascidos na década de 70 com o apoio militar norte-coreano às FAPLA, é certo que Angola só tem a ganhar, agora mais do que nunca, com o reforço da cooperação com Pyongyang.

Então em matéria de democracia, direitos humanos, liberdades e garantias sociais, a Coreia do Norte parece continuar a ser (tal como Cuba e o Zimbabué) uma lapidar referência para o regime de Eduardo dos Santos.

Aliás, não é difícil constatar que a noção de democracia de Eduardo dos Santos se assemelha muito mais à vigente na Coreia do Norte do que à de qualquer outro país. E é natural. É que para além de uma longa convivência “democrática” entre ditadores, Luanda ainda tem de pagar a dívida, e os juros, da ajuda que Pyonyang deu ao MPLA. Amigos, amigos, contas à parte.

No que tange a direitos humanos, os princípios são os mesmos embora – reconheça-se – Luanda tenha sido obrigada a alargar o laço que estrangula os angolanos. Mas já está a apertá-lo novamente, desde logo porque os angolanos não podem de ter as mesmas veleidades que os tunisinos, egípcios ou líbios.

De qualquer modo continuam os milhões que têm pouco, ou nada, a trabalhar para os poucos que têm milhões. É assim em todas as ditaduras. Foi por isso que algumas delas tombaram, e será por isso que também a de Eduardo dos Santos vai um dia destes cair do pedestal petrolífero e diamantífero.

É claro que o Governo do MPLA escuda-se nas relações Estado a Estado para estar de bem com Deus e com o Diabo. E faz bem. Segue, aliás, a regra praticada por Portugal em relação a Angola. Mas, tal como outros países, também Lisboa vai aplaudir um dia a queda do dono de Angola, como se nada tivesse a ver com a sua manutenção ao longo de dezenas de anos.

Lisboa nunca se importou com a ditadura, como nunca se importou com a sorte dos angolanos. Aliás, Eduardo dos Santos é elogiado por um vasto leque de políticos lusos, casos de Cavaco Silva, José Sócrates, Pedro Passos Coelho e Paulo Portas, tal como Ben Ali o foi por Nicolas Sarkozy e Hosni Mubarak por Barack Obama, por exemplo.

A regra made in Portugal é simples. “Porque carga de chuva tenho de estar preocupado com os muitos angolanos que nem uma refeição têm por dia, se eu tenho pelo menos três?” Não é dr. Aníbal Cavaco Silva? Não é eng. José Sócrates? Não é dr. Passos Coelho? Não é dr, Paulo Portas?

Eduardo dos Santos pensa o mesmo. Kim Jong-Il também. Mas não são só eles, acrescente-se. São também os dirigentes das democracias ocidentais, da ONU, da CPLP etc. Para eles pouco importa que em Darfur tenham morrido em dois anos mais de 300 mil pessoas, ou que em Angola a grande maioria da população (perto de 70%) seja tratada abaixo de cão.

Também há muitas e válidas razões para o MPLA amar ainda mais Cuba e, é claro, para Cuba amar ainda mais o MPLA. Permitam-me que, por exemplo, recorde o brilhante trabalho cubano no apoio à vitória eleitoral do MPLA.

Na altura, Setembro de 2008, ao elogiar a transparência e honestidade das eleições em Angola, bem como o papel de comunicação social (do estado, está bom de ver), Cuba prestou o melhor dos serviços à verdade.

Só não viu quem era ceguinho (e foram muitos, continuam a ser muitos). Só não vê quem quer continuar a ser cego. E, neste caso, a cegueira é proporcional ao peso do petróleo angolano, grande parte dele roubado a Cabinda.

Pedro Ross Leal, embaixador cubano em Angola, em declarações à agência angolana de notícias, Angop (a quem mais poderia ser?), apontou como merecedor de elogio o comportamento da comunicação social (não especificou qual delas, mas é fácil de entender) pela sua “eficiência” e oportunidade dada aos partidos políticos para expressarem os seus “propósitos de governação”.

Relevando como “facto inédito” em África, num país que viveu “longos anos de guerra”, a realização de eleições num clima “de paz, tranquilidade e honestidade”, Ross Leal disse que considerava que o escrutínio foi “transparente e honesto” pelo “comportamento cívico dos cidadãos e dos partidos políticos”.

E se Cuba o diz, quem se atreverá – pelo menos por enquanto - a dizer o contrário?

terça-feira, setembro 27, 2011

E então os tachos para a rapaziada?

O líder do PSD/Porto, Virgílio Macedo, acusa o executivo de Pedro Passos Coelho de ter "tiques de centralização de competências", usando o "argumento da racionalização". 

Traduzindo: onde estão os tachos para a malta do PSD? 

Segundo a terminologia do PS…D, é chato – eu diria muito chato – o governo não ter feito "praticamente nenhuma" nomeação para a administração central, mantendo "toda a máquina socialista que foi vergonhosamente colocada nesses cargos". 

Virgílio Macedo tem toda a razão. Se fosse para não haver novos tachos, porque carga de chuva o pessoal iria votar no PSD? 

Embora o líder do PSD/Porto saiba que é tudo uma questão de tempo, está a desesperar porque a clientela do partido começa a cobrar-lhe as promessas. 

"Embora possam existir argumentos que levem a que este não seja o tempo certo para se iniciar um processo de regionalização, certamente também não é este o tempo de com o argumento da racionalização de custos se iniciar um processo de centralização", afirmou o social-democrata durante a Assembleia Distrital do PSD/Porto que decorreu ontem à noite. 

Virgílio Macedo lembrou mesmo que "nas últimas semanas foram anunciadas algumas medidas de reorganização administrativa em estruturas centralizadas que podem ser um sinal da existência de tiques governativos de centralização de competências, os quais terão a minha maior oposição". 

Referia-se à "extinção da Direcção Regional da Economia, ou da Direcção Regional da Educação do Norte, ou ainda da Administração da Região Hidrográfica (ARH) e a sua incorporação numa agência do ambiente e da água a criar com sede em Lisboa e não na CCDR-N como seria normal". 

Estes, considera Virgílio Macedo, "poderão ser sinais de centralização que deverão ter a mais firme oposição por parte do PSD do distrito do Porto". 

E logo numa altura em que a rapaziada do partido já se via, devidamente acompanhada por assessores e similares, e sem grandes mudanças geográficas, à frente de uma série de organismo, aparece o governo a acabar com essas estruturas. 

É chato. Convenhamos que é mesmo muito chato. Tivesse Passos Coelho dito isso antes das eleições e outro galo cantaria. Se calhar seria um galo socialista com timbre social-democrata. 

Continuando a tecer críticas a alguns aspectos da governação do executivo PSD/CDS, o líder social-democrata do Porto referiu-se também ao facto de ainda não ter sido feita "praticamente nenhuma" nomeação para cargos da administração central. "Toda a máquina socialista que foi vergonhosamente colocada nesses cargos, mantém-se na administração central", lamentou. 

Recordando ter sido compromisso do PSD "despartidarizar a administração pública" e reconhecendo que "nem todos os militantes socialistas nomeados para funções são incompetentes", salientou porém que o "o governo de Portugal não pode recear substituir os incompetentes que estão em funções de direcção na administração pública central e em estruturas centralizadas". 

É que, vamos lá ver se a gente se entende, se nem todos os socialistas nomeados são incompetentes, todos os sociais democratas que fazem fila à espera do tacho são competentes. 

"Esse é um acto a que deve estar obrigado, a bem do país, substituindo-os não por militantes do PSD mas por homens e mulheres com provas dadas e que permitam outro rigor na gestão dos organismos públicos", frisou Virgílio Macedo, defendendo uma "verdadeira meritocracia" por parte do executivo. 

É claro que a questão do mérito é facilmente mensurável. Basta ter cartão de militante do PSD. É claro que não ter coluna vertebral nem tomates é um factor de desempate. Não será decisivo porque, afinal, quase todos estão nessa situação.

Cabinda segundo o Página Global

RTP é serviço privado do regime angolano?

Jornalistas de Cabo Verde estão atentos

segunda-feira, setembro 26, 2011

Vivam sem comer e morram sem dar despesas

Quatro em cada dez portugueses admitem fazer cortes no orçamento familiar para poderem comprar medicamentos em resultado do novo regime de comparticipação dos fármacos.

Dito assim, até parece que os portugueses o fazem de livre vontade. Mas, na verdade, eles são obrigados a isso, tal como são obrigados a outros cortes, desde logo optando por aprender a viver sem comer.

O barómetro "Os portugueses e a saúde", que será divulgado amanhã, revela que os cortes na compra de medicamentos passaram de 4,5% para 14,5%.

Segundo o estudo, cujo conteúdo nunca será lido pelos ministros deste governo (por óbvia, entenda-se, falta de tempo), 1,2 milhões de portugueses afirmam que tais cortes implicarão deixar na farmácia alguns dos medicamentos necessários, sendo a população idosa, não activa, com níveis de instrução mais baixos a mais atingida com tal medida.

E tudo se deve, lamentavelmente, ao facto de os portugueses ainda não terem percebido os nobres, altruístas e beneméritos intentos do Governo quando sugere (impõe, vá lá) que os cidadãos vivem sem comer e morram sem ficar doentes.

Nesta altura, se calhar os portugueses estão tentados a dizer que estão entregues à bicharada. Mas não é assim. Desde logo porque a bicharada não gosta de se alimentar de corpos esqueléticos, famintos e em estado terminal.

Acresce que, mais uma vez bem, o Governo continua a dar sobejos exemplos de que também está a apertar o cinto. Convém não esquecer, por exemplo, que os membros da equipa de Passos Coelho também faz greve de fome para ajudar a pôr o país em e na ordem. É claro que só o fazem entre as refeições, mas já é alguma coisa.

Recordam-se de a então ministra da Saúde de Portugal, Ana Jorge, ter apelado no dia 2 de Junho do ano passado às famílias portuguesas para fazerem “sopa em casa” em vez de gastarem em “fast food”, aproveitando a necessidade de contenção económica e como forma de combater a obesidade?

“É bom que as pessoas deste país tenham a noção que a obesidade implica um tratamento sério e alteração de comportamentos, desde que se nasce, ou melhor, até durante a gravidez”, realçou a então ministra (hoje deputada), acrescentando que “é necessário modificar os comportamentos alimentares e de sedentarismo que as pessoas estão a ter” em Portugal.

Melhor do que comer sopa é, e um dia destes ainda vamos ver o actual primeiro-ministro a falar disso, fazer o mesmo que o indiano Prahlad Jani que – diz ele e até tem testemunhas ditas credíveis - não come nem bebe há mais de 70 anos.

Até agora, sobretudo porque os portugueses são uns desmancha-prazeres, os resultados em Portugal não são animadores. Todos os que tentaram seguir, por correspondência, o método de Prahlad Jani estiveram muito perto mas, quando estavam quase lá... morreram.

Pedro Passos Coelho e Paulo Portas fazem Eduardo dos Santos esquecer José Sócrates

Ao contrário do que aqui (onde mais poderia ser?) escrevi, o  regime angolano está satisfeito com o governo português dirigido pelo “africanista de Massamá”,  Passos Coelho.

“Está a sair melhor do que a encomenda”, dizem fontes do partido que dirige Angola desde 1974 (o MPLA) e do presidente que está há 32 anos no poder sem ter sido eleito. Acrescentam que, afinal, para os objectivos de Luanda a estratégia de Passos Coelho é bem mais agradável do que a de José Sócrates.

José Eduardo dos Santos perdeu um velho amigo, José Sócrates, mas encontrou na dupla Passos Coelho/Paulo Portas novos amigos que continuam não só a considerá-lo um “líder carismático” como ainda abriram mais as portas que existem e as que não existem à entrada triunfal do seu clã.

De facto, tal como José Sócrates, também o actual governo português não está interessado em que o MPLA alguma vez deixe de ser dono de Angola. O processo de bajulação continua a bem, dizem, de uma diplomacia económica que – neste caso – se está nas tintas para os angolanos.

Embora já não tendo, como no tempo de Sócrates, tantos ditadores para idolatrar, o governo português continua a querer dar-se bem com os que existem, sobretudo com aqueles que têm dinheiro para ajudar a flutuar as ocidentais praias lusitanas.

É disso paradigma o actual líder do país (Angola) que preside à Comunidade de Países de Língua Portuguesa e que, como prova da democraticidade do seu regime, está no poder – repita-se - há 32 anos sem ter sido eleito.

Paulo Portas, que até foi excepcionalmente recebido pelo dono de Angola, acredita que o importante para Portugal são os poucos que têm milhões e não, claro, os milhões que têm pouco… ou nada. E tem razão.

A Portugal interessam apenas aqueles angolanos que já representam 30% do mercado de luxo português, que vestem Hugo Boss ou Ermenegildo Zegna, que compram relógios de ouro Patek Phillipe e Rolex.

Quanto aos outros, os 70% da população que vive na miséria, que é pé descalço, que tem a barriga vazia, que vive nos bairros de lata, que é gerado com fome, nasce com fome e morre pouco depois com... fome, esses que se lixem.

E se Portas diz que as relações com Angola são excelentes, é porque são mesmo. Eu diria bem mais do que excelentes... na óptica da Oferta Pública de Aquisição lançada por Angola (que não pelos angolanos) sobre Portugal.

Tão excelentes como o facto de 45% das crianças angolanas sofrerem de má nutrição crónica, sendo que uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos. Tão excelentes como Angola ser um dos países mais corruptos do mundo.

Tão excelentes como a dependência sócio-económica a favores, privilégios e bens ser o método utilizado pelo MPLA para amordaçar os angolanos. Tão excelentes como o facto de 80% do Produto Interno Bruto ser produzido por estrangeiros; mais de 90% da riqueza nacional privada ser subtraída do erário público e estar concentrada em menos de 0,5% de uma população.

Tão excelentes como a certeza de que o acesso à boa educação, aos condomínios, ao capital accionista dos bancos e das seguradoras, aos grandes negócios, às licitações dos blocos petrolíferos, estar limitado a um grupo muito restrito de famílias ligadas ao regime no poder.

Como se já não bastasse a recente bajulação socialista de Lisboa ao regime angolano, os portugueses continuam agora a assistir a novos episódios da mesma bajulação, embora com diferentes protagonistas.

Parafraseando José Sócrates, não basta ser primeiro-ministro ou ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros para saber contar até doze sem ter de se descalçar... Mas, é claro, ser do governo é suficiente para, por ajuste directo, entregar ao dono de Angola tudo o que ele quiser. Espera-se, aliás,  que queira tudo e mais alguma coisa.