sábado, dezembro 31, 2011

Carrasco sudanês lidera observadores árabes que confirmam que tudo está normal na Síria

Omar al-Bashir, o democrata presidente do Sudão, responsável pelo genocídio em Darfur (qualquer coisa como 300 mil mortos) continua a rir-se do TPI.

O Tribunal Penal Internacional emitiu um mandado de captura contra Omar al-Bashir, acusando-o de crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Resultado? O homem continua a rir-se e, é claro, a matar.

E ri-se com razão. Há um enorme exagero quando se diz que em Darfur morreram 300 mil pessoas. Dados independentes, passíveis até de serem organizados por uma equipa nomeada por Angola (a quem Bashir pediu ajuda em Agosto de 2008), certamente revelarão que o número de mortos não terá passado os 299.999.

Entretanto, os observadores árabes estão na Síria para demonstrarem que, afinal, tudo está calmo, sossegado e dentro dos parâmetros democráticos e do respeito pelos direitos humanos.

E quem chefia os observadores árabes? Quem? Nada mais nada menos de que o general sudanês Mohammed Ahmad Mustafa al-Dabi, militar de confiança máxima de Omar al-Bashir e que – como chefe das Forças Armadas do Sudão – comandou a limpeza étnica em Darfur.

Em declarações à imprensa na sede da Liga Árabe no Cairo, um dos responsáveis pela missão, explicou que o chefe dos observadores, está na cidade de Homs e que concluiu pelos relatórios recebidos e pelas visitas feitas que nada de anormal se passa com o regime de Bashar al Assad.

Provavelmente o general sudanês Mohammed Ahmad Mustafa al-Dabi tem razão. Desde o início dos protestos na Síria, em meados de Março, mais de 5 mil pessoas morreram vítimas da repressão do regime.

Ora, comparando as 5 mil vítimas sírias com os 300 mil mortos de Darfur, não é difícil concluir que tudo está calmo no reino da Síria.

A Oposição síria quer, entretanto, que o general sudanês dixe de liderar a missão de observadores, considerando que ele foi a principal autoridade do "regime opressivo" do presidente Omar al-Bashir.

Segundo a Amnistia Internacional, sob o comando de al-Dabi, a inteligência militar sudanesa, no início dos anos 1990, "foi responsável por prisões e detenções arbitrárias, desaparecimentos, tortura e outros maus-tratos de várias pessoas no Sudão".

"O que esperar do chefe de uma missão de observadores que é acusado de genocídio no seu próprio país", questiona Ausama Monajed, membro do Conselho Nacional Sírio (CNS), principal grupo opositor do país.

Que nunca falte a coragem às pessoas de bem

União Africana vai analisar queixas dos cabindas contra o regime colonial angolano

A União Africana (UA) nomeou um relator especial para analisar as queixas dos independentistas da colónia angolana de Cabinda contra o governo de Angola.

A agência, tutelada pelo Gabinete da ONU para Coordenação dos Assuntos Humanitários, destaca que a decisão da UA ocorre cerca de cinco anos depois de a Frente de Libertação do Estado de Cabinda (FLEC), liderada por Henrique Nzita Tiago, ter apresentado a primeira de uma série de queixas contra o regime colonial angolano.

Importa, neste contexto,  recordar algumas coisas, desde logo  que hoje há cabindas que foram presos, que estão presos, que serão presos, que foram mortos e que serão mortos. Tudo porque acreditam que a força da razão vale mais do que a razão da força.

Os cerca de 500 anos de história colonial de Angola (1482-1975) ficam bem longe, apesar das teses oficiais vigentes na actualidade, dos 90 anos de ocupação do Protectorado Português de Cabinda (1885-1975). Embora com uma vertente comum – Portugal, a trajectória de vida de Cabinda e de Angola não têm praticamente pontos comuns.

Assim, são nações distintas e no caso de Cabinda ainda está por fazer a descolonização.

O único suporte ao qual se agarra com unhas e dentes o regime angolano para justificar a sua apetência expansionista sobre Cabinda, é o Acordo de Alvor.

O Acordo de Alvor que permitiu a independência de Angola e a anexação por esta de Cabinda, representa, segundo disse o próprio Almeida Santos, um dos signatários, apenas "um pedaço de papel" que "não valeu nada".

Almeida Santos, tal como a restante equipa portuguesa, sabia à partida que o Acordo de Alvor só valeria se o MPLA não ficasse no Poder. Como ficou...

O dirigente socialista, que a 15 de Janeiro de 1975 era ministro da Coordenação Interterritorial e integrava a delegação portuguesa que assinou com os líderes dos três movimentos de libertação de Angola (MPLA, FNLA e UNITA) o Acordo de Alvor, no Algarve, referiu que, assim que viu o documento, soube que "aquilo não resultaria".

“Aquilo não resultaria”, como não resultou, porque Portugal viciou as regras do jogo no sentido de dar o Poder a uma das partes, o MPLA, sem esquecer que era necessário correr à força com os portugueses de Angola e depois, como defendia Vasco Gonçalves e Rosa Coutinho, entre outros, metê-los no Campo Pequeno.

De facto, se o valor do Povo português se medisse pelo nível dos políticos portugueses que assinaram o Acordo de Alvor, não há dúvidas de que Portugal há muito seria uma província espanhola.

"Do Acordo de Alvor sou apenas um escriba, não sou mais do que isso", diz Almeida Santos (que foi também ministro da Comunicação Social, da Justiça, de Estado, candidato a primeiro-ministro e presidente da Assembleia da República), mentindo mais uma vez ao dizer que Portugal não teve outra alternativa, senão assinar por baixo.

Se o Acordo de Alvor não serviu para nada, importa ter a mesma coerência no sentido de também o considerar inválido no que respeita à anexação de Cabinda por Angola.

Na véspera da proclamação das independências de Angola (em 11 de Novembro de 1975, uma em Luanda pelo MPLA e outra no Huambo pela UNITA e FNLA), tanto o primeiro-ministro como o presidente da República reconheceram que não tinham capacidade para controlar a situação, devendo esta constatação também contribuir para a anulação do Acordo de Alvor.

É no primeiro dia de Agosto que os cidadãos do Protectorado Português de Cabinda comemoram a proclamação da independência do Estado Livre de Cabinda.

Foi nesse dia, em 1975, três meses antes da independência da então República Popular de Angola (país que ocupa desde então Cabinda), que os cabindas começaram a sua difícil, mas não impossível, caminhada em prol dos seus direitos.

Desde então enfrentam dois grandes inimigos. Portugal que ao não honrar os seus até então solenes e nobres compromissos, se transformou num inimigo político, e Angola que é um inimigo militar que transformou Cabinda numa colónia onde, um pouco à semelhança do que faz no resto de Angola, vigora o princípio de que até prova em contrário todos são culpados.

Muitos se recordam mas poucos têm a liberdade de consciência para o dizer. É por isso que, um pouco por todo o lado – até mesmo em Portugal – os que se atrevem a defender a causa de Cabinda são também culpados... até prova em contrário.

Recorde-se que, a partir da revolução portuguesa de 1974, Cabinda entrou por direito próprio na agenda internacional, especialmente na da então OUA (Organização de Unidade Africana, hoje União Africana), onde a FLEC contava com o apoio de alguns países africanos (Uganda, Zaire, Gabão, etc.).

Perante o cenário juridicamente correcto, em face dos tratados assinados, de uma descolonização separada dos dois territórios (Angola e Cabinda), o presidente do MPLA, Agostinho Neto, desencadeou em 1974 uma actividade diplomática intensa para persuadir os líderes africanos a retirarem da agenda da cimeira da OUA o debate previsto sobre o problema de Cabinda.

Agostinho Neto apresentava, aliás, todas as garantias de que as autoridades portuguesas que dominavam o país iriam entregar exclusivamente ao MPLA os destinos de Angola, apresentando mesmo documentos nesse sentido subscritos pelos dirigentes do Movimento das Forças Armadas (MFA). E dessa forma conseguiu que o dossier de Cabinda fosse varrido para debaixo do tapete.

O mesmo se passou em relação ao Acordo de Alvor onde, com cumplicidade activa de Rosa Coutinho, Alto Comissário em Angola, bem como de outras figuras de destaque, caso de Almeida Santos e Agostinho Neto, afastou a FLEC de qualquer discussão do caso de Cabinda, dando como adquirido que o protectorado português era parte de Angola.

Foi todo este cenário que levou o Presidente da FLEC, Luís de Gonzaga Ranque Franque, a declarar a independência de Cabinda.

Recorde-se que, apesar dos esforços conjuntos do MPLA, Portugal, União Soviética e Cuba, alguns países reconheceram Cabinda como um país independente. Foram os casos do Togo, Gabão, República Centro Africana, Uganda e a R. D. Congo (ex-Zaire).

Para terminar, recordo o que sempre disseram os cabindas. Isto é, que só é derrotado quem deixa de lutar. Não creio por isso que alguma vez os cabindas deixem de lutar. Desde logo porque só aceitam estar de joelhos perante Deus. Perante os homens, mesmo que armados até aos dentes, estarão sempre de pé.

Nostal(ma)gia


No pôr do sol da minha madrugada
reencontrei uma acácia que nascia
nas longas, cálidas e ternas neblinas
duma vida que se chama nostalgia.

sexta-feira, dezembro 30, 2011

FELINO sem garras e castrado

Eu sei que essa coisa da memória é uma constante chatice. Tal como a coluna vertebral e os tomates. Mas, mesmo assim, respeitando todos aqueles, e são cada vez mais, que não têm esses predicados, continuo a valorizá-los como membro de uma minoria.

Recordo-me que o chefe do Estado Maior General das Forças Armadas portuguesas (CEMGFA) considerou em 24 de Setembro de 2008 estarem criadas as bases da doutrina militar para o emprego de uma força conjunta da CPLP (comunidade de Países de Língua Portuguesa).

Luís Valença Pinto regozijou-se na altura com a participação, pela primeira vez, de forças de todos os países que compõem a CPLP no exercício FELINO concluído então na área militar de S. Jacinto, em Portugal.

No balanço que fez desse exercício conjunto, o CEMGFA considerou que o FELINO 2008 permitiu lançar as bases de doutrina militar para criar uma força conjunta que possa ser activada para missões de paz, sob a égide das Nações Unidas.

Será que o que se tem passado, o que se passa e que se virá a passar na Guiné-Bissau não justifica a activação dessa força?

“Portugal ensinou e aprendeu muito e a conduta táctica permitiu recolher referências para essa doutrina militar, cujas bases  deverão ser testadas em 2009, em Moçambique”, disse Luís Valença Pinto, acrescentando que a construção dessa doutrina militar é condição de base para o emprego comum de forças da CPLP, já que há países de dimensão muito diferente e com realidades distintas das de Portugal, como elemento da NATO.

O CEMGFA salientou que, devido à cooperação militar, seria viável até aqui uma intervenção bilateral ou trilateral, mas não a oito, do ponto de vista militar, dada a necessidade de harmonizar conceitos, técnicas e tácticas, que foi o objectivo do FELINO 2008.

Volto a perguntar: Será que o que se tem passado, o que se passa e que se virá a passar na Guiné-Bissau não justifica a activação dessa força?

No terreno desde 2000, os FELINO visam treinar o planeamento, a conduta e o controlo de operações no quadro da actuação de resposta a uma situação de crise ou guerra não convencional, por parte das Forças Armadas dos estados-membros da CPLP.

Em teoria, e é só disso que vive a CPLP, as forças FELINO  poderiam actuar por livre iniciativa da CPLP quando a situação é de crise num dos seus estados-membros.

Em termos políticos, de acordo com o especialista angolano em Relações Internacionais Eugénio Costa Almeida, "o grande problema da CPLP é não ter, ao contrário da britânica Commonwealth ou da Communauté Française, um Estado com capacidade de projecção e liderança que defina e determine as linhas de actuação da Comunidade, tal como faz Londres ou Paris".

O facto, "ainda não ultrapassado e se calhar de difícil solução, de a CPLP não falar a uma só voz, de não ter uma voz de comando que determine o rumo a seguir, leva a que, em situações de crise num dos seus membros, sejam terceiros a resolver o problema", diz Eugénio Costa Almeida.

E enquanto os militares da CPLP brincam aos... militares, na Guiné-Bissau os militares, ou similares, vão-se exercitando com as AK-47 e por falta de alvos convencionais… matam-se uns aos outros.

Hoje mato eu, amanhã matas tu. Depois? Bem, depois acabamos por morrer todos!

Os partidos agrupados na chamada oposição democrática da Guiné-Bissau afirmam, escreve a Lusa, que estão em curso "operações de limpeza e de eliminação física" de adversários políticos do Governo.

Por sua vez, o primeiro-ministro garante que golpe de estado teria como objectivo assassiná-lo. E é assim que os países acabam.

A preocupação da oposição vem expressa num comunicado no qual o movimento de oposição que reúne 15 partidos, dois dos quais com representação parlamentar, se baseia nas informações de que o major na reserva Iaia Dabó teria sido "sumariamente executado" quando se tentava entregar à policia.

Iaia Dabó, irmão do falecido antigo ministro do Interior e deputado, Baciro Dabó, foi abatido a tiro por elementos da Policia de Intervenção Rápida na terça-feira, apesar de se ter apresentado naquela corporação.

Dabó era procurado pela polícia por ser o alegado autor dos disparos que vitimara mortalmente um agente daquela corporação, segundo denunciou o presidente da Liga dos Direitos Humanos, versão que foi posteriormente confirmada pelo ministro do Interior.

"A confirmarem-se as versões de que a rendição de Iaia Dabó teria sido negociada pelo ministro do Interior, Fernando Gomes com um representante da Igreja Católica, um deputado e activistas da Liga dos Direitos Humanos, resta apenas uma firme certeza: Está em curso uma operação de limpeza patrocinada pelo Governo do senhor Carlos Gomes Júnior para eliminar fisicamente os seus adversários políticos", lê-se no comunicado.

No mesmo documento a oposição exige a demissão imediata de Fernando Gomes do cargo de ministro do Interior e o afastamento dos elementos que abateram Iaia Dabó.

O primeiro-ministro guineense, Carlos Gomes Júnior, disse hoje  estar na posse de informações de que o conflito entre militares  tinha como objectivo a sua morte.

"Havia uma tentativa para assassinar o próprio Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas e o próprio primeiro-ministro", disse Carlos Gomes Júnior, numa entrevista à Rádio Nacional da Guiné-Bissau. O chefe de Governo negou que tivesse sido protegidos por soldados angolanos

Seja qual for a crise, a resposta é sempre a mesma. Não se cura a enfermidade mas apenas se alivia a dor. Isto até que o doente pura e simplesmente... morra.

A tese é a de que os guineenses podem ser alimentados com votos, que as crises se resolvem com votos e que os votos são um milagroso remédio que cura todos os males.

O Ocidente, e neste caso particular da Guiné-Bissau a CPLP e sobretudo Portugal, sabe que África teve, tem e continuará a ter uma História de autoritarismo que, aliás, faz parte da sua própria cultura e que em nada preocupa os fazedores da macro-política que se passeiam nos areópagos dos luxuosos hotéis do mundo.

Apesar disso, teima-se em exportar a democracia “made in Ocidente”, sem ver que a realidade africana é bem diferente. Vai daí, pela força dos votos os ditadores chegam ao Poder, ficam eternamente no poder e em vez de servirem o povo, servem-se dele. Ma como, supostamente, foram eleitos...

Mas será isso democracia? Por que carga de chuva ninguém se lembra que, por exemplo, na Guiné-Bissau as escolhas não são feitas com o cérebro mas com a barriga, ainda por cima vazia, com uma AK-47 encostada às costas?

Foi neste contexto que “Nino” Vieira (tal como, entre muitos outros, José Eduardo dos Santos e Robert Mugabe) chegou a presidente e, tal como o seu homólogo, mentor e amigo angolano, por lá queria continuar com o beneplácito da tal Comunidade de Países de Língua Portuguesa.

A estratégia de “Nino” Vieira falhou, mas outras aí estão no terreno com inegável pujança e com a histórica cobertura dos donos do poder em Portugal, na CPLP e no mundo.

 Se os votos são comprados, isso pouco interessa. Se os guineenses votam em função da barriga vazia e não de uma consciente opção política, isso pouco interessa.

Para quem vive bem, para quem tem pelo menos três refeições por dia, o importante foi e será que os guineenses votem. Não importa o que aconteceu antes, o que está a acontecer agora e que voltará a acontecer um dia destes.

Não será, aliás, difícil antever que o sangue do povo guineense voltará a correr. Mas o que é que isso importa? O que importa é terem votado...

Será que Kumba Ialá tinha razão quando, em 17 de Junho de 2009, acusou o PAIGC de ser responsável pela morte de Amílcar Cabral,  "Nino" Vieira, Tagmé Na Waié, Hélder Proença e Baciro Dabó?

"Carlos Gomes Júnior e o seu candidato (Malam Bacai Sanhá) têm que responder no Tribunal Penal Internacional pelas atrocidades que estão a cometer", no país, defendeu nesse sai Ialá, acrescentando que "há pessoas a quererem vender a Guiné-Bissau", mas esclarecendo que "serão responsáveis pelas turbulências que terão lugar no futuro".

“Novas Oportunidades” para emigrar

O deputado socialista Fernando Medina considerou hoje de "enorme gravidade" as recentes decisões do Governo relativamente ao programa 'Novas Oportunidades', realçando que a "qualificação" é o investimento mais importante para que Portugal volte a crescer economicamente.

O PS continua a não perceber, mesmo depois das lições de tango entre José Sócrates e Passos Coelho, qual é a dança deste governo. E é pena.

É que Passos Coelho, na sua qualidade de adjunto de Miguel Relvas, aposta mesmo na “qualificação” dos portugueses. É claro que não é para os manter no país (que nem ele sabe se ainda existe) mas – isso sim – para os despachar para outros destinos, se possível só com bilhete de ida.

Fernando Medina salientou que há estudos que indicam que se Portugal tivesse o nível de qualificação dos países mais avançados o Produto Interno Bruto potencial seria cerca de dois pontos superior ao actual e a economia portuguesa teria crescido "muito mais e de uma forma mais robusta".

É verdade mas, tal como Passos Coelho, também José Sócrates substituiu as qualificações profissionais, a competência e até alguma genialidade pela subserviência e pela filiação partidária. E sendo fuba do mesmo saco, o melhor era estarem calados.

"É por isso que o prosseguimento com êxito da iniciativa Novas Oportunidades é tão importante para todos nós", sublinhou o deputado socialista. Em sua opinião, trata-se de recuperar décadas de atraso nesse domínio, pelo que Portugal necessita de fazer um esforço muito grande e "intenso" na qualificação e formação profissional.

Ainda não há muito tempo (foi no dia 29 de Janeiro), o então primeiro-ministro socialista de Portugal, José Sócrates, disse, em Braga, que "o grande projecto" para Portugal era a aposta na educação, "porque é o investimento mais importante na afirmação de um país".

Como muitas outras coisas, o que José Sócrates dizia não era para levar a sério. Desde logo porque o que ele dizia às segundas, quartas e sextas era desmentido por ele próprio às terças, quintas e sábados. Aos domingos certamente ia à missa.

Passos Coelho está, aliás, a sair-se ainda melhor do que José Sócrates, sobretudo quando manda os escravos deixarem a zona de conforto e zarparem para paragens civilizadas.

E isso sabem bem os 800 mil portugueses que estão desempregados mas que são (bem) educados, os 20 por cento que estão de forma muito (bem) educada na miséria, bem como pelos outros 20 por cento que já olham, mas sempre de forma muito (bem) educada, para os pratos vazios.

Eu sei que para Miguel Relvas (Passos Coelho, pronto!) ter um diploma não significa ser educado, estar bem preparado, ter qualificações profissionais e ter direito a fazer parte dessa nobre casta que governo o reino.

A taxa de desemprego entre as pessoas com habilitações superiores mais do que duplicou desde 2002 e hoje são bem mais do que 60 mil os que não conseguem um lugar no mercado... de trabalho, por muito bem educados que sejam.

Não admira por isso que, fartos de esperar por um emprego de acordo com as suas habilitações, os jovens façam o mesmo que Mário Soares fez em tempos com o socialismo. Ou seja, metam o diploma numa gaveta e procurem sobreviver como motoristas de táxi, como embrulhadores de compras numa loja de um qualquer centro comercial ou como autómatos nos call-centers.

Muitos têm tentado uma outra alternativa, esta bem mais promissora: a filiação no PSD e a militância activa. Alguns estão a dar-se bem, embora temam que a médio prazo  tenham de mudar de camisola…

Mas, convenhamos, se for esse o caso não há nada a temer. O que custa é vender a alma a primeira vez. Depois disso, é só caminhar sempre junto ao poder e, como mandam os mandamentos da política “made in Portugal”, deixar a coluna vertebral em casa.

"Aqui está o grande projecto nacional. Esta época vai ficar marcada pela aposta na educação", afirmou no dia 10 de Março José Sócrates a propósito do projecto de modernização das escolas secundárias que previa a requalificação 313 estabelecimentos, num investimento global de 2,9 mil milhões de euros.

Até parecia que a solução estava na requalificação física das escolas e não na requalificação do país e, é claro, na dos que têm responsabilidade políticas na gestão da coisa pública. Sim, é verdade. Esses responsáveis já não têm cura, e muitos deles nem precisam de deixar a coluna vertebral em casa porque, pura e simplesmente, já nasceram sem ela.

Nem todos escolhem o silêncio

Eleições à vista, propaganda na agenda

A ministra da Comunicação Social de Angola, Carolina Cerqueira, destacou hoje, em Luanda, a importância que os órgão de comunicação privados desempenham na sociedade, tendo apontado a sua utilidade na diversidade do sector.

Não fosse ser onde é e, eventualmente, todos acreditariam que Angola é um país democrático, com liberdade efectiva e própria de um Estado de Direito.

Se calhar já ninguém se lembra que há um ano e meio, o regime de José Eduardo dos Santos (um presidente não eleito e há 32 anos no poder) comprou – certamente no âmbito da importância agora corroborada pela ministra - dois dos mais importantes jornais privados de Angola,  o Semanário Angolense e A Capital.

Como recorda Carlos Duarte, no Makaangola.org, “a operação, fraudulentamente financiada pela Sonangol, estava orçada em mais de 20 milhões de dólares. Inicialmente, a verba incluía também uma “investida” para silenciar a Rádio Ecclésia e a compra de uma terceira publicação, o Novo Jornal. Os responsáveis pela operação concluíram que a aquisição do Novo Jornal, detido maioritariamente pelo Grupo ESCOM, não era prioritária. Consideravam a linha editorial do semanário como pouco incómoda aos desígnios do regime. No entanto, há três anos, segundo fontes da direcção, o jornal se encontra em sistema de auto-gestão, devido à dificuldade da ESCOM em vender a publicação”.

Voltemos a Carolina Cerqueira. A governante, que falava durante uma visita à Luanda Antena Comercial (LAC), na qual tomou conhecimento do seu funcionamento, ressaltou que independentemente de órgãos privados ou estatais, o Ministério da Comunicação Social é formado por todos.

Segundo Carolina Cerqueira, a pluralidade de pedidos para a abertura de mais rádios comprova que há espaços para que todos possam desenvolver a comunicação social.

“Está claro que a linha editorial, a sustentabilidade financeira dos investidores e a credibilidade estão a ser estudadas por nós, para vermos até que ponto é que elas podem contribuir para a prosperidade do país”, prosseguiu.

Aqui a boca da ministra fugiu para a verdade, esquecendo-se do texto exacto da cartilha do regime. É o governo quem analisa e decide sobre a sustentabilidade financeira e a credibilidade dos projectos. Numa democracia normal não é assim. Mas em Angola é. O regime é que avalia tudo, até mesmo se os investimentos podem contribuir para a prosperidade do país.

Se, supostamente – é bem claro, os Jornalistas devem lutar pelo que pensam ser a verdade, não deixou de ser curioso vê-los a analisar, em Maio deste ano, o pacote legislativo da Comunicação social de Angola, exactamente em Cabinda, território ocupado pelos militares do regime angolano.

Se, dando crédito a Carolina Cerqueira, o jornalismo é “um exercício de democracia”, resta saber onde está esse jornalismo porque, de facto (de jure é ligeiramente diferente), Angola não é uma democracia.

Quando, é o caso de Angola, o povo vota de barriga vazia não existe democracia. Quando o presidente da República está no poder há 32 anos sem nunca ter sido eleito, o sistema político pode ser tudo... menos democracia. Quando há círculos eleitorais onde o MPLA tem mais votos do que eleitores...

Verdade seja dita, contudo, que a ministra Carolina Cerqueira não fala exactamente de democracia existente, mas sim da “democracia que queremos construir”. Não sei se o dono do país terá gostado desta divagação.

Também é verdade que, mesmo nas ditas democracias estabilizadas, do tipo da que Portugal diz ter, as coisas não são muito diferentes. Basta recordar, por exemplo, que um deputado (Ricardo Rodrigues do PS) não se inibiu de roubar os gravadores aos jornalistas que o entrevistavam.

Ou que o Governo do actual soba maior de Portugal (tal como o do anterior) conseguiu, na vigência dessa dita democracia, fazer de grande parte da “imprensa o tapete do poder”, transformar jornalistas em “criados de luxo do poder vigente", convencer os mais cépticos de que mais vale ser um propagandista de barriga cheia do que um ilustre Jornalista com ela vazia.

Tal como conseguiu, sem grande esforço e em muitos casos apenas por um prato de lentilhas, convencer os jornalistas que devem pensar apenas com a cabeça... do chefe, mostrar aos Jornalistas que ter um cartão do PSD, ou do MPLA, é mais do que meio caminho andado para ser chefe, director ou até administrador.

Em teoria sabe-se que caberia aos jornalistas (ainda há, tanto por Portugal como por Angola, alguns que teimam em dar voz a quem a não tem) estar na primeira linha dos que, com respeito, respeitando a liberdade, respeitando as pessoas, devem sobretudo respeitar antes de mais a verdade.

No entanto, por experiência própria, os jornalistas sabem que, tanto no reino esclavagista lusitano como no seu congénere angolano, dizer a verdade é mais de meio caminho andado para o desemprego.

E tanto sabem disso que, hoje em Portugal, estão a dar a volta e a trocar as amizades do Largo do Rato pelas da Rua de São Caetano. No caso de Angola, como não há nada para trocar, continuam a venerar o Futungo.

quinta-feira, dezembro 29, 2011

Cá se fazem, cá se pagam!

“Apesar de ter no seu grupo dois diários que registam já, em alguns dias da semana, vendas em banca próximas ou mesmo abaixo de 15 mil exemplares, o “Jornal de Notícias” resolveu ontem, na divulgação dos resultados da APCT referentes a Setembro/Outubro 2011, fazer chamada de capa com a sua pretensa “subida” e com o que chama de “queda livre” de Record – um sinal de importância que muito agradecemos, tanto mais que continuamos a registar mais do dobro das vendas de “O Jogo”, que pertence ao grupo do JN.

Melhor fora, no entanto, um olhar para dentro e para o verdadeiro trambolhão que o JN dá – e que os quadros ao lado provam sem margem para dúvidas. Líder da imprensa diária até 2003, o jornal nortenho viu-se então ultrapassado pelo “Correio da Manhã”, que já lhe levava em Outubro uma vantagem de... 50 mil exemplares!

A “subida” do JN assenta no milagre do item “assinaturas”, que eram 800 em Fevereiro último e que “cresceram” para 10 mil (!) em Setembro. Para se ter uma ideia do fenómeno, diremos que o jornal que mais vende em Portugal, o “Correio da Manhã”, tem apenas 28 assinaturas. A “subida” do JN não é, assim, mais do que a máscara para uma evidência: as vendas de Setembro e Outubro foram as piores dos últimos 12 anos.”


E o vencedor será… o MPLA!

O MPLA vai ganhar as próximas eleições com larga vantagem. Todos, a começar pelos angolanos, sabem isso. Quando perto de 70 por cento arrotam à fome, chega-lhes à boca a solução: votar no regime.

Seja como for, importa tentar que desta vez quer os donos da verdade em Angola, quer os seus congéneres mundiais, com Portugal à cabeça, não façam de nós estúpidos. Os angolanos merecem mais respeito.

Há muito que o MPLA, com o apoio de uma vasta máquina internacional, quer policial quer propagandística, prepara o terreno para ter o que queria. Usa, volta a usar, sobretudo duas técnicas: comprar e intimidar. Da CNE aos órgãos de comunicação do Estado, dos governadores provinciais aos sobas, tudo estará novamente bem controlado.

Tendo garantido a cegueira da comunidade internacional, para quem o essencial não é haver eleições livres mas, apenas isso,  haver quem vá votar, o MPLA volta a facturar como quer, onde quer e sempre que quer. O mundo volta a estar preparado, quase sempre comprado, para reconhecer a vitória do MPLA.

Portugal, e tanto faz que o primeiro-ministro seja José Sócrates ou Passos Coelho, está pronto para reconhecer a vitória do MPLA e para enaltecer a democracia angolana. Deverá, aliás, utilizar o mesmo articulado e as mesmas palavras do reconhecimento anterior.

O nível de bajulação de Portugal ao regime de Eduardo dos Santos é de tal ordem que, se calhar a bem do reino das ocidentais praias lusitanas, até ficaria bem que o texto encomiástico fosse escrito pelo MPLA e viesse a Lisboa apenas para nele ser colocado a assinatura ou a… impressão digital.

Que as eleições não vão ser nem livres nem justas, todos sabem embora só alguns o digam. Todos vão olhar para Luanda, até mesmo a UNITA, esquecendo que será nas províncias que a fraude, mais tosca nuns lados e mais afinada noutros, terá mais impacto. Luanda voltará a ser uma cortina de fumo, também pensada pelos especialistas em conseguir os votos dos voluntários devidamente amarrados.

Creio, aliás, que o MPLA não quererá um resultado tão expressivo como nas anteriores “eleições” para, dessa forma  (como desejava a comunidade internacional), evitar uma eleição mugabiana.

Sendo, como tem acontecido desde a independência, mais papistas do que o papa, os homens do MPLA vão querer mostrar serviço ao soba maior, acelerando o processo de manipulação e de compra de votos.

Os especialistas internacionais bem vão dizendo ao regime que modere a amplitude da vitória. Mas a oportunidade de mais uma vez humilharem os adversários, sobretudo os da UNITA (considerados em muitos círculos do poder como uma subespécie), vai ser mais forte do que qualquer conselho.

A comunidade internacional, com Portugal à cabeça, vai voltar a aproveitar mais uma oportunidade para fornecer mais uns quilómetros de corda ao regime do MPLA. Corda essa que, mais uma vez, o MPLA irá usar para enforcar os ocidentais. Só não vê quem não quer, que os donos do poder em Angola estão-se nas tintas para o chamado modelo ocidental de democracia.

Quanto à UNITA, o Galo Negro vai voltar a não voar e, mais uma vez, vai apanhar café às ordens dos senhores coloniais.

Tirando os conhecidos exemplos da elite partidária, todos aqueles que humildemente ainda são simpatizantes da UNITA, incluindo milhares dos que andaram a combater, vão continuar a  apanhar café, ou algo que o valha.

Até às “eleições” anteriores julguei que os discípulos de Jonas Savimbi prefeririam a liberdade de barriga vazia do que a escravatura de barriga cheia. Enganei-me.

Quanto à cobertura das próximas “eleições” por parte da Comunicação Social portuguesa, recordam-se que nas anteriores a  SIC, o Expresso, o Público e a Visão foram impedidos de entrar em Angola?

Nada disso voltará a acontecer. Os donos dos jornalistas destes quatro meios têm agora bons negócios com o regime e, por isso, fica garantida a isenção para irem cobrir as “eleições”, sabendo e Impresa e a Sonae que o seu sucesso em Angola passa pela liberdade dos jornalistas dizerem tudo… o que o regime quer que se diga.

Guia turístico para a colónia de Cabinda

A colónia angolana de Cabinda poderá contar, em 2012, com um guia turístico, anunciou hoje o secretário colonial do Comércio, Hotelaria e Turismo, Paulo Lufua.

O responsável, que fazia o balanço das actividades desenvolvidas pelo sector, adiantou para o efeito estar a trabalhar com a secretaria da cultura, para identificação dos locais turísticos.

Certamente que não faltarão locais dignos de figurar nesse guia. Basta, aliás, ver o que é feito na capital de Angola. E, tal como em Luanda não aparecem imagens como a aqui reproduzida, em Cabinda vai passar-se o mesmo.

Como existem pelo menos duas Angolas, também existem duas Cabindas. Uma, a dos guias turísticos, onde se descobre como é o país dos angolanos de primeira. Outra que se esconde, mas que está lá.

Noutra vertente, Paulo Lufua  disse que em 2012 a direcção colonial poderá reforçar as acções de fiscalização sobre o exercício da actividade do comércio a retalho, serviços de restauração e hospedaria, assim como a formação contínua do pessoal.

Em 2011, de acordo com Paulo Lufua, o sector licenciou 547 estabelecimentos comerciais, entre retalhista, geral, grossista, de prestação de serviços mercantis, comércio precário que garantiram 1.679 postos de trabalho.

O sector hoteleiro controla cinco hotéis, 26 pensões, duas hospedarias, quatro aparthotéis, três complexos turísticos, um  aldeamento turístico, 15 restaurantes e outras similares.

Fora do guia turístico vão ficar, creio eu, os meandros operacionais e logísticos previstos pelo chefe do Estado-Maior General das FAA, general Geraldo Sachipengo Nunda, que – correspondendo a um dos objectivos determinados pelo Comandante-em-Chefe, José Eduardo dos Santos,  – promete para 2012 a pacificação de Cabinda.

Fome, pobreza e injustiças em Angola?
- Até o soba maior afirma que existem!

O Presidente de Angola, não eleito e há 32 anos no poder, José Eduardo dos Santos reconheceu  em Luanda o que há muitos anos é aqui dito no Alto Hama.

Ou seja, que a erradicação da fome, da pobreza, do analfabetismo e das injustiças sociais constituem "objectivos essenciais" que não foram ainda alcançados.

Todavia, como se já não tivesse tido tempo (e de paz total já lá vão nove anos) manifestou-se esperançado num "futuro melhor" e na capacidade dos angolanos em "vencer todas as dificuldades, mesmo os problemas mais complexos e difíceis".

José Eduardo dos Santos fez estas considerações na tradicional mensagem de Ano Novo, transmitida em directo pela rádio e televisão públicas angolanas.

"Permanecem por realizar alguns dos nossos objectivos essenciais, tais como erradicar a fome, a pobreza e o analfabetismo, as injustiças sociais, a intolerância, os preconceitos de natureza racial, regional e tribal", disse Eduardo dos Santos, esquecendo-se – como é natural – de dizer que o MPLA (no poder desde 1975) é o principal responsável.

Para o Presidente angolano, embora haja a registar resultados positivos, "ainda há e haverá sempre, como é natural, por causa da evolução e do crescimento, aspectos e problemas a requererem mais atenção e resolução prioritária nos domínios da educação, saúde, habitação, emprego e do fornecimento de água e energia".

Traduzindo, apenas 38% da população angolana tem acesso a água potável e somente 44% dispõe de saneamento básico,  apenas um quarto da população tem acesso a serviços de saúde, que, na maior parte dos casos, são de fraca qualidade, 12% dos hospitais, 11% dos centros de saúde e 85% dos postos de saúde existentes no país apresentam problemas ao nível das instalações, da falta de pessoal e de carência de medicamentos, 45% das crianças  sofrerem de má nutrição crónica, sendo que uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos.

Para ultrapassar as debilidades, o dono de Angola defendeu que o Estado, a sociedade civil e o sector privado "devem continuar a conjugar e a aumentar os seus esforços com o objectivo de corrigir o que está mal, melhorar o que está bem, criar coisas novas onde for necessário, para aumentar" a capacidade de resposta e satisfazer as necessidades da sociedade.

"Por mérito próprio conseguimos alcançar tudo aquilo que queríamos. Com determinação, coragem, firmeza e grande vontade de vencer conquistámos a independência, e mais tarde a paz, construímos o nosso Estado e estamos a desenvolver o país em democracia", frisou Eduardo dos Santos.

Relativamente ao facto de em 2012 estar agendada a realização de eleições gerais, salientou o facto de estarem a ser criados os "mecanismos legais" para que estas sejam "bem organizadas, transparentes e justas".

A tradução desta garantia revela que o regime está a preparar tudo para que, como nas anteriores “eleições”, embora pondo os mortos a votar… tal não possa ser detectado pelos observadores internacionais, pois os internos estão sob controlo.

Sem se referir à decisão que irá tomar sobre a candidatura ao cargo, caso seja o primeiro nome da lista do MPLA às eleições gerais, José Eduardo dos Santos lembrou faltarem ainda oito meses para o escrutínio.

Quanto às mudanças em curso noutras latitudes, e depois de reconhecer que o Mundo está em "constante transformação", em que salientou ser "compreensível" o desejo de todos aspirarem a uma mudança para melhor nas suas vidas, José Eduardo dos Santos chamou a atenção para no caso de Angola, a história recente ensinar "que o processo de mudança pode ser brusco e radical ou evolutivo e suave, por fases".

"Os processos radicais provocam rupturas e grande desorientação inicial com consequências sociais graves. As mudanças que decorrem através de processos democráticos e pela via do diálogo, da compreensão mútua, da convivência pacífica e do estrito cumprimento da legalidade, garantem estabilidade social e política", concluiu num previsível “até já”.

quarta-feira, dezembro 28, 2011

Monangambé do reino lusitano

Aquele reino lusitano
continua a não ter chuva
é o suor de outros rostos
que rega as plantações;

 Aquele reino lusitano
deixou de ter café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas de outro sangue
feitas seiva.

 Um reino já sem cravos,
pisado, torturado
e cada vez mais pálido
como a cor dos escravos.

 Pálido da cor dos escravos!
 Perguntem às aves que já não cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:
Quem se levanta cedo?
Quem vai à miséria?
Quem traz pela estrada térrea
a sacola cheia de fome?

 Quem trabalha e em paga
recebe desdém
fuba podre, peixe podre,
panos ruins, alguns euros
e porrada se refilares?

 Quem?
Quem faz o governo mamar
e os ricaços florescer?

- Quem?
Quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas, carros, senhoras
e cabeças de outros escravos
para aumentar os lucros?

 Quem faz o governo prosperar,
ter barriga grande,
ter dinheiro?

 - Quem?
 E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:

 - "Monangambééé..."

 Ah! Deixem-me ao menos
subir às tascas da vida.
Deixem-me beber até cair
e esquecer diluído
nas minhas bebedeiras.


Nota: Poema original, aqui tão mal tratado, de António Jacinto. Monangambé (o contratado, o escravo) eram angolanos negros contratados para trabalhar nas roças dos brancos, na era colonial. Hoje são portugueses brancos contratados para trabalhar nas “roças” dos brancos donos do poder.

Olho por olho, dente por dente!

Sempre que o Governo de Passos Coelho abre a boca saem novos impostos, novos cortes, novas taxas, novas regras para que todos os escravos aprendam a viver sem comer.

A procissão ainda vai no adro, mas é já possível dizer que o primeiro-ministro transformou José Sócrates num ingénuo pilha-galinhas.

Como se já não bastasse entrar descarada e criminosamente  nos  bolsos, na saúde, na vida dos portugueses, o Governo resolve todos os dias pô-los  de pernas para o ar, numa voraz sofreguidão  para ver se não há nenhum cêntimo escondido nas dobras das calças rotas.

Para os super-especialistas do Governo, que se lixem os 800 mil desempregados, os 20% que (ainda) vivem sem comer e outros 20% que (ainda) vivem com o espectro da fome a bater à porta.

Se eles, Passos Coelho e companhia, entendem que devem roubar aos milhões que têm pouco, ou nada, para dar aos poucos que têm milhões, os portugueses têm de sair à rua e usar o seu legítimo direito à indignação, mesmo que para isso seja necessário pagar na mesma moeda do Governo: olho por olho, dente por dente.

Vão acabar cegos e desdentados? Talvez. Mas para quem só vê os outros a comer tudo e a não deixar nada, pouco diferença fará ter olhos e dentes…

Para além de tudo (impostos e mais impostos, desemprego e mais desemprego, miséria e mais miséria) o governo de Passos Coelho está a tratar os cidadãos como uma casta menor, intelectualmente estúpida.

O líder do governo disse na campanha eleitoral, importa não esquecer e recordar sempre,  que não aumentaria a carga fiscal. Mudam-se os tempos, mudam-se as exigências, mantêm-se os burros de carga. Tão burros, segundo o Governo, que vão agora pagar tudo o que os super-cérebros do PSD entendam como necessário para que os amigos, os assessores, os amigos dos amigos, continuem a chular o país à grande.

Ao passar, entre outros exemplos, o IVA da electricidade dos 6% para os 23%, o que estará a pedir esta corja de oportunistas?

Justificar, como o fez na sua habitual “câmara lenta” o ministro das Finanças, que "a esmagadora maioria dos países da União Europeia paga a electricidade à taxa máxima de IVA", é também uma forma de dizer aos consumidores que são uma cambada de matumbos.

Tão matumbos  que, pensará o super-ministro, nem sabem que o seu nível de vida é dos mais fracos dessa mesma Europa.

Por enquanto, mesmo tendo de aprender a viver sem comer, os portugueses continuam a ser “um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora,  aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice”.

Os portugueses, ao que parece, “já nem com as orelhas são capazes de sacudir as moscas” porque são “um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta”.

Os portugueses continuam a aceitar “uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro”.

Os portugueses continuar a aceitar  “um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País”.

Mas, creio eu, tantas vezes hão-de ir aos pratos vazios que um dia destes vão fazer a casa ir abaixo.

Ontem como hoje e certamente amanhã, as Kalashnikov "alimentam" os guineenses...

A Liga Guineense dos Direitos Humanos da Guiné-Bissau disse hoje que elementos da Polícia de Intervenção Rápida "abateram friamente" o major Iaia Dabó quando este se entregou voluntariamente na corporação, na sequência do conflito militar, da passada segunda-feira, pelo qual era procurado.

Não fosse o facto de que os que já morreram não podem morrer outra vez, dir-se-ia que tudo continua na mesma. Ou seja, a caminho do fim.

No mundo parece haver quem acredite que é possível que as Forças Armadas se submetam ao poder político. Essa é, aliás, uma boa tese quando defendida nos areópagos, bem alimentados e bebidos, da política internacional em geral ou, ainda, na lusófona em particular.

Essa coisa, misto de nada com coisa nenhuma, que dá pelo nome de CPLP sabe bem que a força da razão dos políticos (de alguns, pelo menos) nunca conseguirá vencer a razão da força dos militares.

Quem nasceu no meio de tiros, cresceu no meio de tiros só tem como objectivo morrer no meio de tiros. Na Guiné-Bissau todos os avisos resvalam na petrificada couraça dos militares para quem a lei só tem um nome: Kalashnikov.

Em Junho do ano passado, um comunicado da Embaixada norte-americana em Dacar, Senegal, dizia que “é impossível para os EUA contribuir para o processo de reforma da segurança e da defesa se essas pessoas, ou outros implicados no tráfico de estupefacientes, forem nomeados ou permanecerem em postos de responsabilidade nas Forças Armadas”.

Washington foi mais longe ao sublinhar que era “imperativo” que o chefe das Forças Armadas não estivesse “implicado nos acontecimentos de 1 de Abril”, evocando implicitamente o major-general António Indjai.

Posição idêntica à dos EUA tinha sido defendida pela União Europeia, cujos representantes em Bissau boicotaram até  uma conferência de sensibilização para a reforma daquele sector organizada pela ONU e pelo governo guineense.

Quanto à CPLP, cuja presidência está nas mãos do democrata, não eleito e há 32 anos no poder, José Eduardo dos Santos, continua de bico calado para ver se ninguém dá por ela.

Tudo isto é, afinal, a reedição de um filme já gasto de tanto ser usado, seja nos “cinemas” de Lisboa ou de Luanda. Vão mudando, por fuga, morte ou prisão, os protagonistas principais, mas o argumento é sempre o mesmo. Também a assistência (CPLP e companhia) é sempre a mesma.

Recordam-se que a morte de Hélder Proença e Baciro Dabó (irmão do major agora abatido) teria resultado dum tiroteio que se seguiu à resistência demonstrada por eles quando as forças da ordem, alegadamente, pretendiam detê-los pela sua suposta implicação na intentona?

Recordam-se que Kumba Ialá disse que "o senhor primeiro-ministro vai ter de explicar ao povo da Guiné-Bissau quem matou Hélder Proença, Baciro Dabó, Tagmé Na Waié e o general João Bernardo Nino Vieira. Catorze pessoas que morreram durante o seu mandato"?

Recordam-se que na Guiné-Bissau nenhum candidato, nenhum presidente acabou o seu mandato e em 16 anos o país já teve seis presidentes?

A democracia que faz brilhar os olhos dos bem nutridos dirigentes da CPLP tem destas coisas. Ou se é favor de quem está no poder ou, é claro, vai-se para a choldra. Ou se é a favor ou choca-se com uma bala perdida.

Recordam-se que o coronel Antero João Correia, antigo comandante-geral da Polícia, teria sido detido por ordens do então interino chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, Zamora Induta, depois de se recusar a assinar o comunicado do SIE (Serviços de Informação do Estado) que anunciava a neutralização da alegada tentativa de golpe de Estado?

Recordam-se que esta recusa teria obrigado os mentores do plano a confiar a assinatura do documento ao director-geral adjunto dos SIE, coronel Samba Djaló, que foi apontado como uma pessoa "muito próxima" (pudera!) de Zamora Induta e seu representante a nível do Ministério do Interior que tutela os SIE?

Ao que parece, tanto os políticos guineenses como os donos do poder na comunidade internacional, continuam pouco ou nada preocupados com o facto de os pobres guineenses (a esmagadora maioria) só conhecerem uma forma de deixarem de o ser.

E essa forma (desculpem estar há anos a dizer sempre o mesmo) é usar, não um enxada, uma colher de pedreiro ou um computador, mas antes uma AK-47. E enquanto assim for...

É que dois em cada três guineenses vivem na pobreza absoluta e uma em cada quatro crianças morre antes dos cinco anos de idade. A esperança de vida à nascença para um guineense é de "apenas" de 45 anos, atendendo à fragilidade humana, sobretudo por causa da fraca cobertura dos serviços sociais.

Será que os dirigentes da Guiné-Bissau, da CPLP e similares se lembram que enquanto saboreiam várias refeições por dia, ali ao lado há gente que foi gerada com fome, nasceu com fome e morre com fome?

Será que os dirigentes da Guiné-Bissau, bem como essa coisa que dá pelo nome de CPLP, se lembram que não é possível enganar toda a gente durante todo o tempo?

E, mesmo famintos, ainda sobra força aos guineenses para, ontem como hoje e certamente amanhã, fazerem o que já começa a ser um hábito: puxar o gatilho.

E assim se vai escrevendo a história do princípio daquilo que pode ser o fim da Guiné-Bissau. Realidade que não preocupa todos aqueles que vão continuando a cantar e a rir, levados, levados sim, por interesses pouco claros, sejam do narcotráfico propriamente dito ou não.