segunda-feira, janeiro 14, 2008

A última mensagem escrita
do bispo emérito de Cabinda

«Quando um político entra em conflito com o seu próprio povo, perde a sua credibilidade no seu agir, torna-se um eterno ditador». Foi nestes termos que o bispo emérito de Cabinda, Paulino Madeca, falecido quarta-feira última, aos 80 anos de idade, se dirigiu a António Bento Bembe numa carta intitulada «A crise actual no enclave de Cabinda». Foi a Bento Bembe, mas poderia ter outros destinatários. Foi sobre Cabinda, mas poderia ser sobre Angola.

«Acompanhei de longe alguns passos que foram dados sobre o processo de paz para Cabinda onde houve a assinatura de um Memorando de Entendimento», escreveu Paulino Madeca a António Bento Bembe numa carta com data de 26 de Setembro de 2006. «No entanto, a situação de guerra parece-me perdurar», prossegue Paulino Madeca, «isto leva-nos a grandes interrogações sobre a viabilidade desse processo».

Na mesma carta, o bispo emérito afirma que toda «a prática que reduz as pessoas a serem mais que simples meios escraviza o homem» e que a maioria da população de Cabinda «continua mergulhada na miséria e a gritar por uma vida de liberdade e de dignidade». E acrescenta: «As nossas mães, nas aldeias, deixaram de ir livremente às lavras, em muitos lugares ainda tem havido prisões arbitrárias, estas e tantas outras devem interpelar-nos para a credibilidade do processo que está a começar».

Paulino Madeca afirma que «as aspirações máximas de um homem político é de ser aceite pelo próprio povo por quem trabalha», mas quando um político entra em conflito com o seu próprio povo, «perde a sua credibilidade no seu agir, torna-se um eterno ditador porque usará sempre da força das armas para se impor».

O bispo emérito de Cabinda escreveu que perante «o quadro tétrico que ainda se vive», o diálogo iniciado no enclave «deve abranger todas as forças vivas» de Cabinda, sublinhando ainda que o problema de Cabinda não se resolve no «acomodamento de algumas pessoas no governo angolano, recebendo alguns encargos», algo que Paulino Madeca considera «simplista de mais» para resolver o «conflito que dura há mais de 30 anos».

«O diálogo deve ser franco, transparente e verdadeiro e as decisões do Fórum Cabindês devem ser sempre a expressão das aspirações do povo de Cabinda e não de interesses particulares».

Paulino Madeca recordou a Bento Bembe que «o Fórum é um aglomerado de mandatos e não tem legitimidade por si próprio».

Foi a Bento Bembe, mas poderia ter outros destinatários. Foi sobre Cabinda, mas poderia ser sobre Angola.


Fonte: Angolense

domingo, janeiro 13, 2008

Emídio Rangel, Santos Silva ou a virtude
de não ter medo de dizer o que se pensa

Emídio Rangel, ao seu estilo, reconheça-se, dá hoje (na primeira parte de uma crónica que continua amanhã no Correio da Manhã) forte e feio no ministro Augusto Santos Silva, a propósito da política socialista para a RTP.

É uma prosa violenta? É sim senhor. Mas o Emídio Rangel é assim mesmo. Quando atira, atira a matar e com tudo o que tiver. Despeja o carregador (embora tenha sempre mais alguns atestados para o que der e vier). Talvez desperdice muitas munições. Mas ele não sabe jogar à defesa. O ataque é a sua melhor defesa. Com ele não há empates. Ou ganha ou perde. Quase sempre ganha.

Creio, aliás, que neste caso como em muitos outros, com estas ou com outras palavras, Emídio Rangel disse aquilo que muitos jornalistas pensam. Só pensam.

Recordo-me, a (des)propósito, que explicando num post aqui no Alto Hama as razões que o levaram a deixar o jornalismo para ser assessor do ministro Augusto Santos Silva, que entretanto o despedira, Carlos Narciso disse, com a franqueza habitual e rara de quem tem coluna vertebral: «Foi por necessidade absoluta de dar de comer aos meus dois filhos. Estava desempregado, tinha acabado de ser despedido da Impala absolutamente sem qualquer justa causa ou motivo profissional”.

“(…) não tenho o mínimo de consideração nem de respeito intelectual pelo saloio que detém no Governo a pasta da Comunicação Social e com quem mantenho, há anos, dissidências agravadas. Pelas baboseiras e falta de rigor que punha nas crónicas do ‘Público’, pela arrogância e pesporrência que exibia quando era ministro da Educação e logo a seguir da Cultura, sem ter feito nada, mesmo nada, nem pela educação nem pela cultura, porque o considero um dos ministros mais incompetentes do Governo de José Sócrates, tendo falhado de forma grotesca todas as decisões que tomou no âmbito da Comunicação Social, como sempre referenciei nas crónicas que escrevi ao longo do mandato do actual primeiro-ministro”, escreveu Emídio Rangel.

Será Emídio Rangel o único jornalista a considerar Santos Silva “um dos ministros mais incompetentes do Governo de José Sócrates”? Não, não é o único. É, contudo, dos poucos que o afirmam preto no branco.

E porque razão os muitos que pensam como Emídio Rangel estão calados? Pois, citando Carlos Narciso, porque “há a necessidade absoluta de dar de comer aos filhos”.

Para o bem e para o mal, a frase de Martin Luther King: "O que mais me preocupa é o silêncio dos bons", não se aplica a Emídio Rangel.

UNITA (des)afina a máquina eleitoral

Com o aproximar das eleições legislativas, sobretudo o MPLA e a UNITA vão afinando a máquina tendo em vista, julgo eu, vencer. Que a do MPLA, apesar de alguns problema internos, está afinada e pronta a deixar pregado ao chão o principal adversário, não tenho dúvidas. Também não tenho dúvidas quanto ao amadorismo que caracteriza o partido de Isaías Samakuva. Assim o “Galo Negro” não vai voar. Os mais altos dirigentes da UNITA preferem ser mortos pelo elogio do que salvos pela crítica. E quando assim é, não há nada a fazer.

Para o Presidente do maior Partido da oposição em Angola, o ano de 2008 é encarado como sendo o do “Encontro com o Nosso Destino”, já que ele definirá "o rumo do país e da UNITA e das nossas vidas nos próximos tempos".

É verdade. Acresce, contudo, que o destino é feito (pelo menos neste caso) pelos homens. E os homens da UNITA pouco ou nada estão a fazer para derrotar nas urnas o seu principal adversário.

Dir-me-ão que o MPLA tem dinheiro que nunca mais acaba, ao contrário da UNITA. É verdade. No entanto, recordo-me que a situação era a mesma, que as FAPLA/cubanos tinham do seu lado a gigantesca razão da força mas que, apesar disso, não conseguiram derrotar a força da razão que – na minha opinião – estava do lado das FALA.

Ou seja, a passividade, falta de engenho e marasmo da Direcção da UNITA (ou de parte dela) vai levar a que o MPLA chegue às eleições com a vitória garantida, não pelo seu mérito mas, sobretudo, pelo demérito da UNITA.

E é pena, para além de ser uma traição a todos quantos ao longo dos anos acreditaram que a UNITA seria a alternativa. Eu sei que muitos dos dirigentes da UNITA estão agora no lote dos poucos que têm milhões, enquanto o povo, o seu povo, continua no deserto dos milhões que têm pouco ou nada.

Também sei que a vitória do MPLA não alterará o seu status quo, pelo que lhes é indiferente que a UNITA ganhe ou perca. Seja qual for o resultado continuarão bem. Tão bem que alguns até evitam falar de Jonas Savimbi.

No que toca aos desafios que a UNITA tem para enfrentar as eleições, Isaías Samakuva sublinhou recentemente que é dever de todos os militantes prepararem-se psicologicamente para o facto de as eleições acarretarem responsabilidades acrescidas para cada um.

É verdade. Só falta passar da teoria à prática. Só falta o exemplo ser dado de cima para baixo.

Enfim. Cada vez mais me convenço que os dirigentes da UNITA preferem (ao contrário do que foi a prática do seu presidente fundador) ser assassinados pelo elogio do que salvos pelo crítica. O MPLA agradece mas, digo eu, os angolanos ficam a perder. Os angolanos do país real.

sábado, janeiro 12, 2008

Com esta CPLP só a Lusofonia perde


Continuo a pedir a ajuda dos cidadãos lusófonos para que, caso estejam para aí virados, me dizerem se viram por esse mundo fora alguma coisa que dê pelo nome de Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Poderá ser, imagino, um elefante branco ou, quiçá, uma enorme montanha de onde foi parido um ratinho. Dizem-me, contudo, que estatutariamente é algo de grandioso. Será? Talvez. Pena é que os estatutos não façam, só por si, obra.

A CPLP assume-se «como um novo projecto político cujo fundamento é a Língua Portuguesa, vínculo histórico e património comum dos oito, que constituem um espaço geograficamente descontínuo mas identificado pelo idioma comum».

Teoria não lhes falta. O problema está em passar da teoria à prática. E se o Instituto Internacional de Língua Portuguesa está, há anos, adormecido (apesar de bem teorizado) no papel, valerá a pena pensar noutros projectos?

Não seria preferível dar um murro na mesa para ver se os oito países responsáveis pela CPLP acordam? Ou, então, fechar para obras?

Se todos sabem que, desde que nasceu, a CPLP está em falência técnica, porque raio a querem manter artificialmente viva?

Mais do que criar organismos, institutos e similares; mais do que sugerir novos projectos (viáveis, mas condenados a uma longa noite de sono nos areópagos políticos dos oito), impõe-se pôr a funcionar a própria CPLP ou, então, reconhecer que confundiram a obra prima do Mestre com a prima do mestre de obras.

Mais do que uma enciclopédia culinária, pelo menos seis do oito membros desta comunidade precisam de comer alguma coisa, nem que seja em pratos de plástico, nem que seja peixe seco e pirão.

Enquanto não se perceber isso, não há saída. Enquanto não se perceber isso, continuarão os golpes de Estado. Primeiro foi São Tomé e Príncipe, depois a Guiné-Bissau. Mas há mais. Embora a CPLP também aqui esteja a dormir, as razões profundas que levam aos golpes de Estado continuam latentes também, por exemplo, em Angola.

Ou seja, poucos têm milhões e milhões têm pouco (ou nada).

Sejamos sérios. Os projectos não podem ser imputados à CPLP enquanto entidade com oito membros. A CPLP não pode reivindicar para si o somatório dos projectos individuais, ou bilaterais, levados a cabo por um ou mais dos seus signatários.

Recorde-se que, segundo a sua constituição, a CPLP tem como objectivos gerais «a concertação política e a cooperação nos domínios social, cultural e económico, por forma a conjugar iniciativas para a promoção do desenvolvimento dos seus povos, a afirmação e divulgação crescentes da língua portuguesa e o reforço da presença dos oito a nível internacional».

Pelo andar da carruagem (boas ideias que ficam no papel), corremos o risco de ver a Lusofonia substituída pela francofonia ou por outra qualquer fonia.

É que eles, ao contrário de nós, não projectam fazer - fazem.

Filiação partidária é seguro de vida

Se os nomes, e sobretudo as filiações partidárias, tiverem algum valor especial para os portugueses, nomeadamente para os que (sobre)vivem neste quintal à beira mar (re)plantado, então este Governo deu uma (mais uma) prova de que, afinal, a tradição continua a ser o que era e que, como ontem, os "jobs" são para os "boys", os génios são menos importantes do que os néscios desde que estes tenham cartão do partido.

José Sócrates começou como leão faminto e já está na fase do sendeiro, se bem que na altura das eleições vá regressar com um ar de leopardo. Falta é saber se a memória dos portugueses será, como prevê a equipa do primeiro-ministro, tão curta como isso.

O Governo simulou que queria alterar o (mau) estado das coisas mas, mais uma vez, foi mais a parra do que a uva. Mais o acessório do que o essencial. Mais o socialismo do que o BCP.

A meio do campeonato eleitoral começou a fazer das suas e como sabe - honra lhe seja feita - que a comunicação social é vital para vender gato por lebre, já colocou os jornalistas do partido nos locais certos, já fundiu o que havia para fundir de modo a que os verdadeiros Jornalistas entendam que mais vale ser um propagandista de barriga cheia do que um ilustre Jornalista com ela vazia.

... E os Jornalistas entenderam.

Alguns (muito poucos) ainda quiseram saber algo mais. No entanto, foram confrontados pelos que sabem tudo (embora raramente façam melhor) e que, como John Kennedy, disseram: "É a altura, não de perguntar aquilo que o grupo pode fazer por nós, mas aquilo que todos podemos fazer pelo grupo".

Por outras palavras, ouviram a mais pura e dura tese de que "quem pode manda".

É claro (para mim - entenda-se) que este Governo (tal como os outros) está-se nas tintas para os portugueses em geral e para os Jornalistas em particular.

Porquê? Porque, regra geral, os Jornalistas sabem contar até 12 sem terem de se descalçar. Assim sendo, fazem contas e chegam à conclusão de que o melhor é estar de acordo, é dizer sempre que sim, é ter o cartão do partido que está no poder.

É que, se não for nos jornais haverá sempre um lugar como assessor que, mais volta menos volta, abre as portas para se ser director de um jornal onde o Estado/Governo manda ou tem quem mande.

Como disse Inês Pedrosa, "temos cada vez mais jornalistas que saltam das redacções para se tornarem criados de luxo do poder vigente".

E, é claro, depois dessa rodagem há sempre a possibilidade de ver criados saltarem do poder para serem directores de jornais.

sexta-feira, janeiro 11, 2008

O pior da Lusofonia são os seus políticos


«O pior de Angola são os seus políticos» diz o escritor José Eduardo Agualusa em entrevista ao Semanário Angolense. Poderá lá ser? E não pode porque, digo eu, Angola não tem políticos, tem é bandoleiros em lugares políticos. Salvam-se algumas excepções que certamente há em todos os partidos mas que não enumero porque – reconheço – não me consigo lembrar de nenhuma.

Mas, fiquemos descansados que o problema não é só de Angola. Aplica-se a todos os países lusófonos, de Portugal a Timor-Leste.

“O que ele não suporta é a independência dos outros, das pessoas, das organizações, das empresas ou das instituições”, afirma o sociólogo português António Barreto.

Estará a falar de Eduardo dos Santos? De Nino Vieira? De Ramos Horta? Não. Por sinal está a falar do primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates.

Ele “não tolera ser contrariado, nem admite que se pense de modo diferente daquele que organizou com as suas poderosas agências de intoxicação a que chama de comunicação”, assegura António Barreto.

Estará a falar de Pedro Pires? De Lula da Silva? De Fradique de Menezes? De Armando Guebuza? Não. Por sinal está a falar do primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates.

“No seu ideal de vida, todos seriam submetidos ao Regime Disciplinar da Função Pública, revisto e reforçado pelo seu governo”, acrescenta António Barreto.

Estará a falar de Isaías Samakuva? De Afonso Dlakhama? De Mari Alkatiri? Não. Por sinal está a falar do primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates.

Portanto, caro José Eduardo Agualusa, o pior da Lusofonia e não apenas de Angola são os seus políticos.

A “coragem” de acusar os mortos
e de não falar dos poderosos vivos

Maria Eugénia Neto deu uma entrevista ao Expresso. Embora saiba o que diz, a viúva de Agostinho Neto não diz (tudo) o que sabe. Terá, com certeza, as suas razões. Duas questões são contudo, para mim, reveladoras.

À pergunta “conheceu Jonas Savimbi?”, respondeu “não muito bem”. Apesar disso, a viúva de Agostinho Neto disse achar que o fundador da UNITA “foi um criminoso terrível”.

Quando interrogada sobre se Eduardo dos Santos está há muito tempo no poder, a viúva de Agostinho Neto disse “não quero falar nisso”. E porquê? “Porque não quero criar problemas”.

Por outras palavras, é cómodo, barato e até pode dar milhões, acusar de “criminoso terrível” alguém que já morreu.

Por outras palavras, é cómodo, barato e até pode dar milhões, não falar de alguém que, para além de estar vivo, tem poder para calar qualquer um, mesmo que seja a viúva do primeiro presidente.

Modelo social de Sócrates poderá ser exportado
- Fala-se no forte interesse do... Burkina Faso


Finalmente José Sócrates revelou o segredo da sua política. Ao contrário de outros socialistas, o primeiro-ministro das ocidentais praias lusitanas fundou a "esquerda aberta às mudanças" em contra-ponto à esquerda "fixista e conservadora".

A explicação foi dada hoje no debate "Os desafios do desenvolvimento - as dinâmicas sociais e o sindicalismo", iniciativa promovida pela Fundação Mário Soares na Fundação Calouste Gulbenkian.

Ao seu estilo de dono da verdade, mesmo mentindo com quantos dentes tem, Sócrates garantiu que defende “um modelo social europeu que não deixe ninguém ficar para trás e que possa dar mais oportunidades a todos".

Se é verdade que o modelo social europeu dá oportunidades a todos, o modelo social português (patenteado por Sócrates e restante companhia de autómatos) corresponde mais ao Burkina Faso onde, como acontece por cá, as oportunidades são reservados para os militantes do partido e similares.

Acredito, contudo, que Sócrates acredite que o modelo social português passa vir a dar oportunidades a todos. Ou seja, quando esses todos forem militantes do PS.

Diz ainda o primeiro-ministro português que ao contrário da esquerda “fixista e conservadora”, a sua esquerda não deixa ninguém para trás. Diz e diz bem. Isto é verdade, sendo que, de facto, para trás só ficam os que não querem estar de acordo com ele. Quem estiver de acordo está safo.

Quem, por acaso, tiver a veleidade de discordar que se ponha a pau. Sócrates, como disse António Barreto, certamente um socialista da esquerda “fixista e conservadora”, o líder lusitano da esquerda aberta “não suporta a independência dos outros, das pessoas, das organizações, das empresas ou das instituições”, para além de “não tolerar ser contrariado”.

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Se o possível é feito todos os dias
vou tentando fazer o impossível

Como comecei esta aventura do Alto Hama há mais ou menos ano e meio, achei por bem fazer um balanço. É um motivo como outro qualquer. Poderia dar-me para falar do aeroporto de “jamais” deserto de Alcochete, mas deu-me para aqui. Nada a fazer. Fui então, enquanto José Sócrates dizia que Mário Lino “jamais” deixará de ser seu ministro, ver o primeiro texto que publiquei. Pareceu-me digno de ser recuperado, sobretudo porque responde aos rosas que dizem que sou laranja, aos laranjas que dizem que sou rosa, sem terem ainda percebido que aqui cabem todas as cores.

É só mais uma das facetas desta aventura de acreditar que as palavras voam, mas os escritos são eternos. Tão eternos quanto o engenho e a arte de quem entende que dizer o que pensa ser a verdade é uma das qualidades mais sagradas.

Alto Hama é uma pequena localidade da minha amada Angola. É, igualmente, o nome da secção que assino (por especial, e também eterna, amizade do António Ribeiro) no Notícias Lusófonas. Além disso é o nome de um livro que foi apresentado em Setembro de 2006 na Casa de Angola de Lisboa, prefaciado pelo mestre Eugénio Costa Almeida e dedicado ao Fernando Frade de quem disse, digo e direi que igual pode haver, melhor não.

Alto Hama é, tal como a localidade, um cruzamento que dá acesso a todos os pontos de vista. No entanto, se a minha liberdade termina onde começa a dos outros, também a dos outros termina onde começa a minha.

Além de tudo, importa dizê-lo, é um desafio para quem faz da escrita uma forma de vida. Tarefa impossível? Não. Mas mesmo que o fosse eu estaria na primeira linha. É que o possível faço eu todos os dias.

Obrigado a todos. Aos inimigos que são para o Alto Hama um estímulo. Aos amigos que representam o melhor da vida. Aos que me estendem a mão quando tropeço numa pedra mas, sobretudo, aos que tiram a pedra antes de eu passar e que – reconheço – dificilmente saberei quem são.

Legenda: Dois "malucos" à porta da Casa de Angola, em Lisboa. O da direita é o meu Irmão Fernando Frade

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Fernando Lello, Cabinda e Eduardo dos Santos

Este caso do jornalista Fernando Lello tem coisas muito curiosas, primeiro é que se o Fernando Lello comete um crime em Cabinda devia ter sido preso em Cabinda, julgado em Cabinda e não trazido aqui para Luanda, ele que é civil posto numa cadeia militar.

A segunda questão é que de facto este crime contra a segurança de estado é um crime típico para os cabindas. Isto resulta desta famosa pacificação de Cabinda, acho que o governo não consegue encontrar formas de pacificar Cabinda, não consegue encontrar uma solução para Cabinda.

Primeiro porque se nega a admitir que Cabinda é um problema, logo a dificuldade de encontrar uma solução para tal, e qualquer coisa que se faça; apesar do discurso do Presidente da Republica falar em liberdade de expressão, as pessoas poderem exprimir as suas ideias, em Cabinda isso é um pecado mortal.

Ninguém pode dizer aquilo que pensa, sobretudo, quando se trata de falar deste processo de paz, deste memorando de entendimento, quer dizer este «bento-bembismo» que foi instalado em Cabinda, é crime.

O Fernando Lello peca por ser Cabinda, e isto é grave porque isto vai afastando mais os cabindas das outras pessoas.

Quem assim fala é Raul Danda, activista dos direitos humanos. Mais palavras para quê?