terça-feira, fevereiro 05, 2008

Protestos em Moçambique. Será só isso?

Moçambique viveu hoje um violento protesto contra o aumento do custo dos “chapas”. Essenciais (por manifesta incapacidade de o Governo fornecer esse serviço) para o transporte dos trabalhadores que ganham pouco (fora os muitos que só ganham desespero) são também um barómetro da sociedade.

A questão do aumento dos “chapas” – na cidade passou de 5 meticais para 7,5 e na periferia de 7,5 para 10 (35 meticais equivalem a um euro) – é crucial para a maioria dos moçambicanos que, por regra, gasta cerca de 40% do ordenado mínimo (1 500 meticais) nesse tipo de transporte.

Os protestos contra o aumento dos transportes são habituais, seguindo a lógica descendente. O Governo aumenta os combustíveis, os transportadores aumentam o preço dos bilhetes, os utentes (que já se consideram felizes quando têm algum trabalho) protestam nas ruas e a Polícia desmobiliza-os à força de bastonadas e de tiros. Sempre que há aumentos há protestos, embora não tão violentos como os de hoje.

Hoje o protesto registou uma inovação. Foi convocado por sms e incluía fortes críticas ao Governo da FRELIMO: “O povo está a sofrer, os filhos de ministros, deputados e outros dignitários não andam de chapa e os chapas estão caros. Vamos fazer greve e exigir justiça. Lutemos contra a pobreza”.

Embora a situação, segundo fontes da Imprensa moçambicana, não passe de um protesto popular contra o alto custo de vida, a tensão registada fez temer algo mais grave, tantos são os exemplos da história recente de África.

Assim, pelo sim e pelo não, os bancos, escolas, repartições públicas e outros organismos do Estado fecharam as portas, enquanto organizações internacionais, caso da ONU, aconselharam os seus funcionários a não saírem à rua.

O Governo decidiu entretanto negociar com os representantes dos operadores dos “chapas” uma forma de minimizar as novas tarifas, garantindo que os utentes não serão prejudicados. O_Executivo de Maputo teme, aliás, que os protestos possam ser aproveitados pela Oposição para os potenciar, transformando-os numa contestação de carácter político.

A RENAMO, embora responsabilizando o Governo pelos incidentes, apelou aos manifestantes para “não exacerbarem os ânimos” e arranjarem uma solução negociada para a crise.

“O Estado não assegura transportes públicos eficazes para dar vazão aos utentes, daí que se abriu espaço para os privados colmatarem esta lacuna que o Governo deixou em branco, permitindo-lhes que usem e abusem do poder que têm sobre um povo pobre e sem capacidade reivindicativa”, afirma a RENAMO.

Recorde-se que, no passado dia 24, o Banco Mundial considerou existir um “claro risco” de abrandamento do ritmo de redução da pobreza em Moçambique, que atinge ainda mais de metade da população do país, tendo aprovado um apoio financeiro ao Orçamento de Estado para este ano na ordem dos 40,4 milhões de euros.

Eduardo dos Santos pode e deve ser criticado
- Mas, goste-se ou não, devemos-lhe respeito

O respeito é muito bonito e, creio, todos gostamos. No que ao presidente do MPLA e de Angola respeita, é público que o considero um ditador e o principal responsável, entre muitas outras coisas, pela fome que atinge milhões de angolanos. Isso não me dá direito de ofender José Eduardo dos Santos, esquecendo a educação e entrando pelo insulto soez, torpe e ordinário.

Vem isto a propósito de um CD (“xumuna – Trilha Ze Dú – Vairada 2008") em que o presidente de Angola é insultado de forma vil e cobarde. O facto de eu estar política, ética e moralmente nos antípodas de Eduardo dos Santos, não me dá o direito, nem a mim nem a ninguém, de dizer o que é dito do, goste-se ou não, mais alto magistrado de Angola.

Criticar Eduardo dos Santos? É claro que sim. Tenho-o feito, continuarei a fazê-lo, de forma incisiva e por vezes violenta mas, é claro, de modo educado e cívico. As ideias de poder (tão típicas do MPLA e da ditadura de Eduardo dos Santos) só se devem combater com o poder das ideias.

Ofender o presidente, chamando-lhe tudo e mais alguma coisa (metendo ao barulho a própria Mãe), não é a melhor – pelo contrário – forma de se defender a democracia, a liberdade, a justiça social e a alternância democrática num estado de direito.

O autor da referida canção e todos aqueles que lhe dão cobertura deveriam saber que a liberdade de cada um acaba onde começa a dos outros. Além disso, enquanto não percebermos que melhor do que pensar e agir com total liberdade é pensar e agir com rectidão, não vamos a lado algum.

Goste-se ou não, e eu não gosto, José Eduardo dos Santos é o mais alto magistrado de Angola e merece respeito. Respeito dos amigos e dos adversários.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Concentração mundial contra as FARC

Milhares de pessoas, sobretudo mas não só colombianos, manifestam-se hoje em todo o Mundo (mais de 131 cidades) contra as actividades das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), exigindo a libertação de todos os reféns e condenando o terrorismo.

Em entrevista à Agência Efe, a coordenadora da manifestação em Washington, Laura Busche, disse que os manifestantes querem que "a comunidade internacional condene energicamente o terrorismo das FARC", tese igualmente defendida por Inês Salcedo, uma das responsáveis pela acção de protesto em Portugal onde, aliás, estão agendadas duas concentrações, em Lisboa (frente à embaixada) e Porto (frente ao consulado).

"É uma oportunidade para que qualquer pessoa, não importando a sua ideologia política, condene as acções da guerrilha e de terrorismo levas as cabo pelas FARC", afirmou ao JN Inês Salcedo, uma dos cerca de 800 colombianos que vivem em Portugal.

A concentração de hoje visa ser uma mega manifestação simultânea em todo o Mundo (em Portugal é às 17 horas, 12 horas na Colômbia) e resulta de uma campanha virtual iniciada por um engenheiro da cidade colombiana de Barranquilla e que resulta da actividade do grupo "Um milhão de vozes contra as FARC".

Inês Salcedo, considera que a manifestação global de hoje "não é apenas uma marcha contra o sequestro e o terrorismo, mas, sobretudo, um encontro de todos, colombianos e não só, que repudiam e condenam as acções das FARC que, além de terroristas, são o maior cartel de narcotráfico do Mundo".


Entretanto, segundo a TV Uno, que diz ter recebido um comunicado assinado pelas FARC, a guerrilha está disposta a libertar três ex-deputados colombianos que fazem parte dos cerca de 43 reféns em seu poder.

O texto, atribuído ao secretariado das FARC, sublinha que a libertação seria feita por motivos de saúde e como um novo gesto de reconhecimento unilateral dos esforços do presidente venezuelano, Hugo Chávez, e da senadora colombiana Piedad Córdoba.

Fonte: Jornal de Notícias (Portugal)/Orlando Castro

domingo, fevereiro 03, 2008

Seca no sul de Angola não afecta
“paihamas” do poder luandense

A prolongada seca que abrange o sul de Angola levou o governador da Huila, Ramos da Cruz, a lançar um apelo no sentido de ser encontrada uma solução de emergência para a já evidente crise alimentar. Se não fosse o drama de quem nada tem a ver com a macro-política de Luanda, quase apetecia repetir a receita do ministro da Defesa que em tempos aconselhou os angolanos de segunda a comer farelo porque, segundo Kundi Paihama, “os porcos também comem e não morrem”

A par do apelo ao governo angolano para intervir em socorro das populações, Ramos da Cruz, numa visita às zonas mais afectadas pela seca, pediu ainda uma reunião aos governadores das outras províncias afectadas para trabalharem em conjunto na procura de uma solução.

Ramos da Cruz admitiu a "incapacidade local" para dar resposta ao cenário de crise que o sul de Angola está a atravessar. Na Huila já foram registadas as mortes de quatro pessoas e há milhares de famílias em "dificuldades extremas".

Na vizinha província do Namibe, já se contam milhares de cabeças de gado perdidas e em Benguela as colheitas estão total ou quase totalmente destruídas em vários municípios, deixando milhares de pessoas numa situação de "extrema penúria alimentar".

Na resposta aos apelos das autoridades provinciais do sul de Angola, o ministro da Agricultura, Afonso Kanga, reafirmou existirem condições garantidas para a assistência alimentar às famílias afectadas pela extensa estiagem que o país vive nas suas regiões mais austrais.

Também algumas Organizações Não-Governamentais (ONG) a trabalhar no sector da segurança alimentar nas províncias afectadas pela seca, apelaram para que o governo central crie com urgência um programa de ajuda alimentar para fazer face ao cenário de crise em curso.

As ONG salientam, segundo a Agência Lusa, que não têm actualmente possibilidade de prestarem assistência alimentar por falta de financiamento e de um programa conjunto com o governo, recordando que os próximos dois meses são de grande melindre para milhares de famílias.

As províncias mais afectadas pela seca são Benguela, Huila, Namibe, Kwanza-Sul, Cunene e Kwando Kubango, onde as actuais colheitas estão integralmente, ou quase, comprometidas.

Enquanto isso, mais acima, onde Angola é Angola (o resto é paisagem), ou seja em Luanda, os políticos do poder e boa parte dos das oposição continuam a ter várias refeições por dia, todas bem nutridas e regadas. Todos, incluindo Kundi Paihama que recentemente, recorde-se, disse que comia do bom e do melhor e que as sobras iam para os seus cães e não para os pobres.

O Alto Hama na revista Vida Lusa

A revista Vida Lusa do mês de Fevereiro 2008, publicação mensal bilingue (francês e português) publicou três textos da minha autoria: “Angola lança canal para a Lusofonia”, “Estamos entregues à bicharada” e “20% dos portugueses ainda acreditam em nós - como são puros e simples estes portugueses”. Agradeço a simpatia e aconselho a leitura da revista que, com excepção dos artigos referidos, merece ser lida com atenção. Trata-se de um trabalho de elevado profissionalismo. Na Internet pode ser consultada em www.vidalusa.com/VL94-web.pdf.

sábado, fevereiro 02, 2008

África está a arder? Está. Por obra e graça
da hipocrisia da Europa, dos EUA e da ONU

O Chade está a ferro e fogo. O Quénia também. O Sudão igualmente. Seguir-se-á a República Centro-Africana. O conflito em Darfur causou no mínimo 200 mil mortos e dois milhões de refugiados e deslocados. E o Ruanda, Etiópia, Somália? Mas o que é que isso importa? Importante, importante é o casamento, hoje, no Palácio do Eliseu, do presidente francês, Nicolas Sarkozy, com a cantora e ex-modelo Carla Bruni.

E se calhar, a velha Europa (de onde saíram as antigas potências coloniais de África) até tem razão: São pretos e, por isso, a comunidade internacional (EUA, Europa, ONU) pode dormir descansada, comer do bom e melhor e ir negociando a venda de armas para que eles, os pretos, se vão matando uns aos outros e ela possa ficar com as riquezas do continente.

Como se África já não tivesse problemas que cheguem, a comunidade internacional (Europa, EUA, ONU) volta a incendiar, ou a fornecer o fogo, este mártir continente. Como convém, à fome continua a juntar-se a guerra. Mas como são pretos, digo eu, os donos do poder e, supostamente, da civilização, continuam a cantar e a rir, festejando o casamento de Sarkozy.

O alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados, António Guterres, certamente voltará a dizer que “é necessária uma acção internacional urgente para pressionar as partes em conflito e todas as pessoas envolvidas no terreno a deixarem as agências humanitárias trabalharem em segurança. Milhares de vidas dependem disso”.

Certamente obterá a garantia oficial de que a comunidade internacional tudo fará para acabar com estes sucessivos genocídios. Mas o que, na verdade, EUA, Europa, ONU querem dizer é: “que se lixem, são pretos”.

Pois são. E depois venham falar de terrorismo no Ocidente, da al-Qaeda, de Bin Laden.

MPLA mostra os primeiros sinais
de como quer ganhar as eleições

O MPLA sabe a lição toda. Com especialistas portugueses e brasileiros, protecção cubana e petróleo roubado a Cabinda, tem tudo e mais alguma coisa para perpetuar a ditadura,mesmo que rotulada de democracia. Dá, contudo, sinais preocupantes quanto ao medo de perder as eleições e de ver a UNITA a governar o país.

Se, do ponto de vista mediático joga forte nos meios que em exclusividade fazem propaganda ao MPLA (pôr o canal 2 da Televisão Pública de Angola nas mãos dos filhos do Presidente da República, Tchizé e Zédú dos Santos, é só um exemplo), aposta igualmente no clima de terror e de intimidação.

Notícias de Angola dizem que, no Moxico, “indivíduos alegadamente nativos criaram um corpo militar que diz lutar pela independência”. Disparate? Não, de modo algum. Um dia destes vamos ver por aí o ministro da Defesa, Kundi Paihama, afirmar que são terroristas da UNITA. Para tanto bastará o MPLA ter a percepção de que as eleições não são (porque não vão ser) favas contadas.

E, na ausência de melhor motivo para adiar as eleições, o MPLA poderá sempre jogar a cartada, tão do agrado das potências internacionais que incendeiam o Chade, o Quénia, o Sudão e tantos outros, que há o perigo de terrorismo, de guerra civil.

Pelo sim e pelo não já falam de gente armada no Moxico, embora digam que em Cabinda está tudo calmo e sossegado. Kundi Paihama não tardará a descobrir mais uns tantos exércitos espalhados pelas terras onde a UNITA tem mais influência política, para além de já ter dito que quem falar contra o MPLA vai para a cadeia, certamente comer farelo.

Tal como mandam os manuais, o MPLA começa a subir o dramatismo para, paralelamente às enxurradas de propaganda, prevenir os angolanos de que ou ganha ou será o fim do mundo. Além disso, nos areópagos internacionais vai deixando a mensagem de que ainda existem por todo o país bandos armados que precisam de ser neutralizados.

Aliás, como também dizem os manuais marxistas, se for preciso o MPLA até sabe como armar uns tantos dos seus “paihamas” para criar a confusão mais útil. E, como também todos sabemos, em caso de dúvida a UNITA será culpada até prova em contrário.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Marinho Pinto, este Governo,
o chefe do posto e os sipaios

O director nacional da Polícia Judiciária de Portugal, Alípio Ribeiro, assegurou hoje que o Ministério da Justiça nunca lhe deu qualquer instrução relativamente à investigação de nenhum processo criminal, desmentindo acusações feitas ontem pelo bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto.

Já antes de ser bastonário, Marinho Pinto dizia o que pensava, e o que pensava (importa reconhecê-lo) era quase sempre o que povo também pensava. De uma forma geral, talvez por ter passado por um outro Jornalismo, utilizava a sua voz para dar voz a quem a não tem.

Pelos vistos, o bastonário conseguiu agora fazer tremer o Carmo e a Trindade, dizendo apenas o que os portugueses pensam, dizendo apenas que à mulher de César não basta ser séria, deve também parecê-lo. O povo gostou. E, como sempre, quando o povo gosta o poder não gosta.

A Polícia Judiciária diz que o que deve dizer. Ou seja, que o Governo nunca lhe deu instruções. Pois. Só acredita quem quer. O Governo escolhe, legitimamente, gente da sua confiança. E, é claro, espera que ninguém vá cuspir no prato onde come. E se a escolha tiver sido bem feita, nem precisa de dar instruções.

Esta história faz, aliás, lembrar-me uma outra passada nas terras do fim do mundo. Em Angola, um Chefe de Posto (autoridade colonial nos pontos mais recônditos do território) chamou um sipaio da sua confiança e disse-lhe para arranjar alguns voluntários para fazer umas obras na localidade.


Horas depois o sipaio chegou e disse ao Chefe de Posto:

“- Estão lá fora os voluntários… devidamente amarrados”.

Quero com isto dizer, permitam-me que seja explícito, que muitos dos súbditos de sua majestade o poder estão sempre, estarão sempre, onde o capataz quer que eles estejam, mesmo que este não lhes tenha dado instruções…

ONU e UA não conseguem
travar violência no Quénia

No dia em que mais algumas dezenas de mortos foram somadas à violência que atinge o Quénia, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, chegou a Nairobi para, em nome também da União Africana (UA), e segundo as suas próprias plavras, “fazer tudo para ver se se evita a guerra civil, a limpeza étnica ou o genocídio que atinge o país, mau grado os líderes quenianos dizerem coisas diferentes quanto à situação”.

Ki-moon não só responsabiliza os líderes políticos quenianos pelo que se passa, como afirma que, caso não actuem “com celeridade e eficácia”, serão acusados junto das instâncias internacionais que estão atentas ao drama queniano.

O secretário-geral da ONU já conseguiu que os dois líderes em confronto, o presidente reeleito em eleições pouco transparentes, Mwai Kibaki, e o líder da Oposição e candidato derrotado, Raila Odinga, aceitassem um entendimento que possa pacificar o país.

No entanto, como afirma o mediador internacional Kofi Annan, ex-secretário-geral da ONU, “falta saber se esse entendimento será suficiente para parar a guerra, sobretudo porque a violência não tem uma hierarquia de comando e está em total roda livre, funcionando ao sabor de todo o tipo de interesses, muitos dos quais nada têm a ver com questões políticas ou de legitimidade eleitoral de quem foi, ou não, eleito”.

A própria UA, cuja reunião de cúpula termina hoje em Addis Abeba (Etiópia), não se mostra muito convicta da validade das promessas dos políticos que dizem querer a pacificação do Quénia. Isto porque, como salienta o seu novo presidente, o tanzaniano Jakaya Kikwete (que sucede ao ganês John Kufuor), “não faz sentido o presidente do Quénia, Mwai Kibaki, continuar a dizer (como o fez nesta cimeira), que a oposição é a única responsável pela violência, quando se sabe que todos são responsáveis”.

“Estamos todos, União Africana e Nações Unidas, a apelar à calma, ao bom senso, à moderação e não à continuação de uma perigosa troca de acusações”, comentou Jakaya Kikwete, lembrando a Kibaki que o Quénia “já está de tal forma incendiado que não precisa de mais fogos”.

Kibaki, que está no poder desde 2002, afirmou na cimeira da UA, que o seu Governo criou medidas para fazer frente à onda de violência (mais de mil mortos) e dar assistência aos 300 mil deslocados, garantindo que “a situação, quanto à segurança no país, está sob controlo”.

Desmentindo Kibaki, dezenas de pessoas morreram ontem nos confrontos e mais de 50 casas foram incendiadas, afirmando os jornalistas quenianos que ninguém sabe quem é a autoridade ou quem são os bandidos.

"África não pode ficar de braços
cruzados perante o genocídio"

"Limpeza étnica? Genocídio? Seja o que for o que se passa no Quénia, não podemos ficar da braços cruzados", afirma o presidente da União Africana (UA), Alfa Umar Konare, corroborando as palavras do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e o dramático alerta do principal negociador, Kofi Annan, que suspendeu ontem, depois da morte do segundo deputado da Oposição, todos os contactos para resolver a crise que, segundo diz, "é já o embrião de uma guerra civil".

Konare afirmou na sessão de abertura da Cimeira da UA, na capital da Etiópia, Addis Abeba, que "o Quénia representa tanto para a estabilidade do continente que é urgente apagar este incêndio que pode devastar o país e reduzir a cinzas os vizinhos".

Falando também perante os chefes de Estado e de Governo dos 53 países da UA, Ban Ki-moon responsabilizou pela onda de violência o presidente reeleito em 27 de Dezembro, Mwai Kibaki, bem como o líder da Oposição, Raila Odinga, acrescentando que "por este andar não tardará que não haja nada para governar".

Ontem, quando decorriam negociações entre Kibaki e Odinga, mediadas por Kofi Annan, foi assassiando a tiro pela Polícia o deputado da Oposição David Kimutai Too. Os negociadores afectos à vítima abandonaram a reunião, acusando o Governo de estar ligado a esta morte como esteve, acusam, à do deputado Mugabe Were, na segunda-feira.

O Quénia vive uma grave crise desde 27 de Dezembro quando Kibaki, da etnia kikuyo, foi reeleito em eleições consideradas fraudulentas pelos observadores internacionais, originando protestos por parte dos apoiantes do candidato derrotado, Odinga, que pertence à etnia kalenjin.

Numa onda de violência que continua a crescer e a espalhar-se por todo o país e que já fez mais de mil mortos e 250 mil deslocados, kalenjin e kikuyos aproveitaram os desentendimentos políticos para desenterrarem o machado de guerra.


Nas últimas semanas, a comunidade internacional tentou resolver o conflito por meios diplomáticos. O ex-secretário-geral da ONU, Koffi Annan, conseguiu que os dois principais protagonistas, Kibaki e Odinga, chegassem a um entendimento.

No entanto, os populares já não ouvem os seus líderes e transportaram para a ruas a tese de "olho por olho, dente por dente". Como diz Annan, "ninguém lhes consegue explicar que assim acabarão todos cegos e desdentados".

O Quénia tinha uma das economias mais prósperas do continente africano e gozava de uma relativa estabilidade democrática. Era também aliado dos EUA contra o terrorismo que existe no leste da África, especificamente no Sudão e na Somália.

Fonte: Jornal de Notícias (Portugal)/Orlando Castro