segunda-feira, março 03, 2008

Gastão Salsinha entregou-se ou não?
- Ainda vai acabar por ser “suicidado”

Fontes do comando conjunto da operação "Halibur" e fontes internacionais em Timor-Leste afirmam "não ter qualquer informação de que Gastão Salsinha se rendeu". A rendição do ex-tenente Gastão Salsinha foi anunciada hoje pelo comandante da Polícia Militar, em declarações à RTP e à Lusa em Díli.

Cá para mim, interpretando o facto de Xanana Gusmão ter estado no relvado em frente ao Palácio do Governo com vários membros do Executivo, o Procurador-Geral da República e com os comandantes das formas armadas e da Polícia Nacional a, cito, "respirar o ar fresco", Salsinha entregou-se mesmo.

Segundo o major Gino Neves, Gastão Salsinha juntou-se à família em Gleno, distrito de Ermera, e entregou-se depois ao pároco da vila, que por sua vez contactou a Polícia Militar. A história parece-me mal contada, mas a verdade é que em Timor-Leste nada é bem contado, a começar nos ataques que vitimaram Ramos-Horta.

"É altamente improvável que Gastão Salsinha aceitasse render-se à Polícia Militar e é também improvável que ele fosse entregue à Polícia Militar pela igreja de Gleno, que é conhecida por ser muito próxima dele", afirmou a mesma fonte internacional à Lusa.

Como este caso comprova, a nível de fontes internacionais, tirando as australianas, ninguém sabe o que realmente se passa.


"Se Gastão Salsinha se tivesse rendido, o comando conjunto saberia de imediato", afirmou uma fonte militar da operação "Halibur", montada pelas autoridades timorenses para capturar os elementos responsáveis pelo duplo ataque de 11 de Fevereiro contra o Presidente da República e o chefe de Governo.

Se calhar a dúvida deve-se ao facto de ainda não se saber bem se Salsinha se rendeu ou, eventualmente, “foi suicidado”. É que dava muito mais jeito, sobretudo para os principais protagonistas deste crise, que Salsinha tivesse o mesmo destino de Alfredo Reinado.

Morto, Salsinha poderia ser – como foi Reinado – perdoado pelo presidente e a comunidade internacional poderia dormir descansada. Aguardemos os próximos episódios de uma novela da vida real que, esteja ou não Salsinha nas mãos das autoridades, ainda está muito longe do fim. Infelizmente.

Para quê encerrar jornais?

Em Outubro de 2001, mostrando um raro sentido democrático, o Procurador-Geral da República da Guiné-Bissau, Caetano Intchamá, ordenou o encerramento dos dois únicos jornais privados que se publicavam no país.

No seu despacho, Caetano Intchamá ordenou o encerramento dos jornais "Diário de Bissau" e "Gazeta de Notícias", alegando "prática continuada de actividade delituosa potencialmente geradora de danos irreparáveis, pois atenta contra a independência da Nação, a integridade do território, a unidade nacional, as instituições da República e os princípios e objectivos e integridade moral dos cidadãos".

Como se vê, Caetano Intchamá limitou-se a fazer o que outros, em diferentes países da Lusofonia, gostariam ainda hoje de fazer.

Na altura escrevi que a liberdade de Imprensa na Guiné-Bissau só podia existir se fosse para dizer «sim» a tudo o que o Governa entendia fazer. Na Guiné era assim em 2001, em Portugal é mais ou menos assim em 2008.

Os métodos são diferentes, mas o essencial é o mesmo. Nas ocidentais praias lusitanas os governantes são mais perspicazes e não mandam encerrar jornais. Mandam é calar os jornalistas.

O despacho de Caetano Intchamá acrescentava que "o exercício delituoso dos referidos jornais atenta gravemente contra o Estado de Direito Democrático que se pretende edificar".

José Sócrates tem dito isso mesmo, em 2008, embora com uma urbanidade diferente, eventualmente mais subtil. Mas que o diz, diz.

Na altura, Humberto Gomes, do "Gazeta de Notícias", disse que "num país em que o Presidente da República se substitui à Constituição não é de admirar que o PGR se substitua aos tribunais".

É evidente que isso foi na Guiné-Bissau em 2001. É evidente que em Portugal – por exemplo – nada disse se passou, passa ou passará.

Para quê encerrar jornais se basta aprovar um Estatuto dos Jornalistas que os acorrenta?

Para quê encerrar jornais se basta aprovar critérios editoriais que transformam o que é preto em branco?

Para quê encerrar jornais se basta não aprovar um pacote publicitário para virar o bico ao prego?

Para quê encerrar jornais se basta convidar alguns jornalistas para serem assessores do Governo?

Para quê encerrar jornais se basta convidar o director para almoçar?

domingo, março 02, 2008

Em memória de Sérgio Vieira de Mello
(divagações sobre o tempo que passa)

Parece que foi ontem mas já lá vão quase cinco anos. Sérgio Vieira de Mello foi um dos poucos bons exemplo dos que trabalham para os milhões que têm pouco, ou nada. Tanto trabalhou por eles, do Bangladesh ao Líbano, de Moçambique a Timor-Leste, que acabou assassinado em Bagdade.

Tivesse preferido trabalhar para os poucos que têm milhões e estaria, certamente, a apanhar banhos de sol num qualquer paraíso.

O que se passou, o que se passa e o que se passará nos nas terras que foram de Saddam Hussein é algo que, necessariamente, me faz pensar em duas frentes. Por um lado, creio que quem mexer no passado deve perder um olho. Mas, é claro, quem o esquecer deve perder os dois.

Seja como for, dou por certo que ao adoptar-se a política do olho por olho, dente por dente (tão do agrado dos senhores que põem a razão da força acima da força da razão, como os EUA), corremos todos (mesmo os que vão cantando e rindo nas ocidentais praias lusitanas) o risco de ficarmos cegos e desdentados.

É também claro que (pelo menos para mim) todos os Bin Laden, Saddam Hussein, George W. Bush, Dmitri Medvedev ou Mahmud Ahmadinejad e companhia devem ser punidos, estejam eles onde estiverem, tenham passaporte afegão, americano, angolano ou de qualquer outra nacionalidade.

Milhares de pessoas, entre as quais gente lusófona, morreram no ataque terrorista a Nova Iorque e a Washington. Ainda se lembram? O Mundo parou para ver, lamentar e condenar. As televisões, sobretudo elas, mostraram até à exaustão imagens que revoltam todos aqueles que, por regra, têm sangue nas veias. Não era para menos.

Deixem-me, contudo, recordar que não é só nos EUA que os actos terroristas matam milhares de pessoas. A diferença está no facto de, em África por exemplo, não haver CNN a transmitir em directo (ou em diferido que fosse) os ataques que transformam em pó as populações.

E quando não são ataques com bombas, são ataques de fome, miséria, humilhação e doenças...

E, nestes casos, nem os EUA, nem a NATO, nem a Rússia ou Portugal se preocupam. Também são aos milhares. Mas como estão lá nas terras do fim do Mundo... pouco importa.

Aliás, como têm petróleo e diamantes, até é bom que se vão matando (aos milhares, reforço), até é bom que vão morrendo de fome. A indústria bélica do Mundo, sobretudo dos EUA, vai continuar a ter necessidade de mercados com elevado potencial (gente para morrer e petróleo para pagar).

E o petróleo de Angola para onde vai? E os angolanos como (sobre)vivem?

E das duas uma. Ou há dois tipos de terrorismo, um bom e outro mau, ou então é preciso impor alguma moralidade na forma como se trata do assunto.

Terrorismo mau é só aquele que é transmitido pelas televisões ocidentais? Vítimas só são as que estão em nossa casa?

É claro, refira-se mais uma vez, que o terrorismo é todo ele mau. Os autores devem ser punidos. Sejam eles Saddam Hussein, George W. Bush, Tony Blair, Robert Mugabe ou Kim Jomg-il.

Mas devem ser punidos todos. Não apenas aqueles que se atreveram a chatear o tio Sam, não apenas aqueles que entendem que a liberdade dos EUA termina onde começa a deles. E, convenhamos, os EUA não são grande exemplo de moralidade e equidade.

Os americanos devem, aliás, ter cuidado para (mais uma vez) não fornecerem aos amigos de momento a corda com que estes, mais tarde, vão enforcar... americanos.

Advogados podem ser jornalistas? - Sim
Jornalistas podem ser advogados? - Não

Ser jornalista está, pelo menos em Portugal, na moda. Pouco importa que o mercado não tenha capacidade para absorver todos aqueles que, por vontade própria ou pela conta bancária do pai, querem experimentar a profissão.

É complicado dizer isto porque, desde logo, grande parte dos professores(?) de jornalismo(?) são jornalistas(?). Se reconhecessem que o mercado está difícil teriam, creio, de abdicar da acumulação de vencimentos. Também aqui os princípios são muito bonitos mas (até porque os jornalistas – que não os chefes - ganham mal e porcamente) é preciso pagar ao merceeiro.

Mas, igualmente grave, é (em muitos casos) começar a casa pelo telhado. E é assim que começam muitos dos candidatos (diplomados) a jornalistas. Chegam às Redacções e não tardam a entrevistar o primeiro-ministro. Não sabem fazer uma notícia de um acidente rodoviário mas, com satisfação, podem incluir no curriculum a dita entrevista e, um dias destes, serem assessores do Governo.

E, por norma, é aqui que entram os assessores dos entrevistados, regra geral ex-jornalistas com a escola toda. E é destes «putos» que eles gostam, e é destes «putos» que os chefes gostam. É tão fácil «comê-los de cebolada», como querem os entrevistados e como pretendem os chefes (alguns, é óbvio).

Com alguma perspicácia o jovem jornalista nem precisa de se preocupar em preparar a entrevista. Para isso está lá o dito assessor. É claro que o produto final obedecerá a todas as regras jornalísticas. Só é pena que não seja jornalismo mas, quase sempre, uma peça de propaganda.

É igualmente claro que esta forma de comércio jornalístico tem êxito garantido. (Quase) todos ficam a ganhar. O entrevistado porque disse apenas o que queria. O órgão de comunicação social porque não fez ondas e porque, ainda, vai receber alguns anúncios de empresas que ficaram satisfeitas com o trabalho. O jornalista porque viu o seu trabalho elogiado por todos.

Quem perde? Desde logo o Jornalismo. E, com ele, os leitores, ouvintes ou telespectadores que comeram gato por lebre.

Mas será mesmo assim? Pergunta-se. Vejamos um exemplo. Se um administrador de uma sociedade de advogados receber uma cunha irrecusável (tipo «job for de boys») para admitir na empresa um jornalista, o que fará? Admite-o, claro! Faz dele um assessor de Imprensa ou um secretário. Nunca um advogado.

E se for um administrador de um jornal a receber a mesma cunha para um advogado? Admite-o, claro! Em pouco tempo faz dele um... jornalista.

Conclusão: Qualquer profissão dá acesso ao que hoje se chama de jornalismo.

Bloguismo moçambicano no Ma-blog

Ma-blog é o novo portal do bloguismo relacionado com Moçambique. Como ainda está em versão de teste e instalação, todo o feedback dos leitores é particularmente apreciado.
Os organizadores agradecem todas as opiniões sobre qual é o modelo mais indicado para este portal: a lista com texto integral dos últimos posts publicados, como se pode ver na primeira página actualmente, ou a lista com o título e uma chamada de cada um dos últimos posts, como se pode ver na segunda página.
É já possível votar no inquérito na coluna lateral, ou enviar opiniões pelo formulário de contacto.
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Subserviência é basilar para ter emprego
(ser competente é o que menos importa!)

Portugal, a começar pelo Governo (o exemplo, creio, deve sempre partir de cima), deve apostar tudo (mesmo que seja pouco o que ainda tem) no primado da competência. Essa coisa das promoções automáticas cheira-me mais a tachos...

Tenho, contudo, dúvidas que essa aposta vingue. E tenho porque, para ter efeitos, o exemplo deveria mesmo começar por cima, ou seja, pelos órgãos de Poder. E isso, convenhamos, nunca acontecerá. Aí, desde sempre, funciona a subserviência e não a competência. Aí funcionam as ideias de Poder e não o poder das ideias.

Também não seria mau que o exemplo fosse dado pelas empresas onde o estado tem poder, directa ou indirectamente. Mas não é, nem vai ser, assim. Nessas empresas, dir-me-ão, não é a antiguidade que conta. Têm razão. Não é. Em vez da antiguidade conta, e entre as duas venha o diabo e escolha, a subserviência.

Portugal continua a confundir a obra prima do Mestre com a prima do mestre de obras. Promove, ou permite que se promova, todos aqueles que estão sempre de acordo, todos aqueles que para contar até 12 têm de se descalçar. Quanto à competência, esse é um critério selectivo que só está em primeiro lugar quando é preciso despedir.

Os incompetentes proliferam por todos os lados. Mesmo que descobertos nas mais vis latrinas das cunhas e das filiações partidárias, são guindados para o topo das hierarquias de modo a que, com toda a lata, demitam ou ajudem a demitir os que sabem mais, os que fazem melhor, os competentes.

É assim em quase toda a nossa sociedade. Fundações, empresas públicas, semi-públicas, institutos, etc. estão cheios de gentalha capaz de tudo para cumprir o que o chefe manda, capaz de tudo para manter o tachito. E é desses que (quase todos) os patrões (também eles "competente$") gostam. Esses até são capazes de dar o ... e dois tostões para que não lhes tirem o nome da hierarquia da empresa.

Mas, convenhamos, não é com esses que Portugal sai da cepa torta. Falta é saber se o país quer dela sair. Se não quer, então está no caminho certo e deve acrescentar, logo à cabeça, que só terão lugar no mundo do trabalho todos aqueles que comprovadamente não tenham coluna vertebral.

Que a economia entrou em derrapagem e que já está a fazer buracos no fundo, todos sabemos, incluindo - apesar de tudo - o primeiro-ministro.

E para a economia voltar a funcionar é urgente dar oportunidade ao primado da competência e não, como está a fazer também este Governo, ao da filiação partidária. São tantos os autómatos que este Governo guindou (ou permite que sejam guindados) a lugares de decisão, que não tardará muito que os portugueses digam: «voltem Santana, Durão ou Guterres... estão perdoados».

Morram primeiro e dispararem depois

O CDS-PP requereu hoje explicações urgentes do ministro da Administração Interna, Rui Pereira, sobre as medidas que o Governo tenciona adoptar para combater recentes fenómenos de criminalidade violenta registados nas principais zonas urbanas do país. Hoje, no Porto, mais um “segurança” foi baleado.

Se a morte de alguém é sempre de lamentar, a dor dos familiares dos criminosos é algo que todos devemos respeitar e compreender. Compreender até que peçam a pena de morte para os que os prendem.
Quem um bandido ama, herói lhe parece.

Neste aspecto estamos entendidos. Importa, contudo, ser mais racional. Ou seja, perguntar se os agentes da autoridade têm poder (legal e material) para pôr em ordem toda uma marginalidade que, de dia para dia, vai tomando conta da sociedade portuguesa.

É claro que não se deve passar do oito para o oitenta, até porque os criminosos também têm direitos. Não me parece, contudo, que possam ter os mesmos, ou até mais, do que as vítimas.

Actualmente, por razões que à razão dá jeito desconhecer, os criminosos continuam a ser os donos e senhores de muitas cidades ou, pelo menos, de parte delas.

Com este quadro, aconselho os militares ou polícias que zelam (como lhes compete) pela minha segurança a, das duas uma: levarem primeiro um tiro (ou, de preferência, dois ou três) e só depois dispararem ou, então, abandonarem a profissão.

É caso para dizer: morram primeiro e disparem depois.

sábado, março 01, 2008

“A partir de agora não temos desculpas”
- Afirmou Xanana Gusmão em 13.02.99

Sem alterar uma vírgula, apenas recordando que as palavras voam mas os escritos são eternos, reproduzo uma entrevista que fiz a Xanana Gusmão, publicada em 13 de Fevereiro de 1999 no Jornal de Notícias (Portugal). Conclusões, ilações ou seja o que for, deixo-as a cargo dos leitores aqui do Alto Hama.

Jornal de Notícias - O presidente Habibie admite a independência de Timor-Leste ainda este ano. Acredita nisso?
Xanana Gusmão - Acredito. O Governo indonésio está a levar a sério o assunto e nada nos faz supor que a ideia das autoridades de Jacarta sejam outras.

- Então está satisfeito?
- Sim. Essas afirmações são para nós um acrescido motivo de alegria. Sabemos que processos assim levam a tomadas de posição por vezes algo imprevisíveis. O problema é que muitas vezes somos apanhados desprevenidos e mudanças rápidas de atitude, obrigam-nos necessariamente a ter mais consciência das nossas enormes responsabilidades. Ainda mais porque essa alteração reduz o tempo que prevíamos ter para preparar todo o processo. Isso não significa, contudo, que não estejamos satisfeitos.

- Digamos que admite que essa proposta seja um armadilha?
- Não exactamente. O espaço é demasiado curto. No entanto, e mais uma vez, esperamos que o Governo indonésio confirme junto da comunidade internacional que os passos que estão a ser dados não vão sofrer alterações, e que, por isso, não se corre o risco de andar para a frente e para trás.

- Tem mantido contactos com os timorenses que estão no território?
- A minha vinda para esta casa foi uma forma de me permitir ter contactos directos com todas as forças e opiniões sobre Timor-Leste e, sobretudo, com os timorenses que são os mais interessados na resolução deste processo. Tenho estado em constante contacto com todos os timorenses, e esse trabalho vai continuar cada vez mais de forma alargada. É claro que os contactos ultrapassam os timorenses pois importa ouvir todos aqueles que podem, mesmo que de uma forma pouco expressiva, contribuir para a solução pacífica do problema.

- Dos contactos já feitos e das análises daí resultantes, a que conclusão chega?
- Penso, desde logo, que o problema é apenas nosso. A partir de agora não teremos mais desculpas. Temos de provar a todos, nomeadamente à Indonésia de que somos capazes. Não vamos exigir à Indonésia, ou à comunidade internacional, as responsabilidades que são apenas nossas. Teremos de ser nós a tratar do nosso destino. Temos de provar que temos capacidade e não defraudar a confiança que estão a colocar em nós.

- Não haverá algum excesso de optimismo?
- Não se esqueça que o optimismo permitiu-nos chegar até aqui. Reconheço, como é óbvio, que existem sempre pessoas, mesmo entre os timorenses, que pretendem espalhar o espectro da guerra civil. É isso mesmo que temos de eliminar e, ao mesmo tempo, temos de semear a harmonia e o entendimento entre os timorenses.

- Vai ser, permita-nos o termo, uma «guerra» complicada...
- Sim. Sabemos que é um grande desafio para todos nós. Mas se desde o princípio da guerra sabíamos que estávamos a enfrentar um muito poderoso inimigo e, mesmo assim, não perdemos a fé, agora que já conseguimos ver melhor a luz ao fundo do túnel, não podemos de maneira alguma perder a fé de que conseguiremos, em consciência e com o contributo de todos, fazer o que nos cabe, não encontrando desculpas ou passando a responsabilidade para os outros.

- Com este quadro, a união fará mais uma vez a força?
- Exacto. Todos os timorenses, estejam ou não no território, devem reflectir sobre os próximos e difíceis desafios. Reflectir de forma consciente e séria. Eu prefiro a independência. Mas não a prefiro a qualquer preço. A independência não se consegue, ou não se constrói, com um simples içar da bandeira. É preciso trabalhar muito. É preciso estar preparado. Não basta querer, é preciso saber querer.

- Tem estado com os representantes portugueses. São encontros frutuosos?
- São muito frutuosos. Ana Gomes e Afonso Malheiro estão em contacto permanente comigo. São encontros que cada vez mais se tornarão uma rotina, desde logo porque os seus conselhos e os seus contributos são, como é fácil de entender, importantíssimos para a solução do problema.

- É importante a ida de Ramos-Horta a Jacarta?
- Era importante que ele viesse, tal como era que todos viessem na tal perspectiva de que todos não seremos demais para ajudar a construir o nosso país. Temos de aproveitar a altura para, em conjunto, encontrarmos a melhor via. O encontro de Ramos-Horta comigo não é importante. Sê-lo-á com certeza com as autoridades indonésias. Isto na perspectiva de que devemos todos remar no mesmo sentido.

- E para Portugal que papel fica reservado?
- Um papel importante. Portugal é importante, como sempre o foi. Acreditamos que, mais uma vez, Portugal vai ajudar os timorenses a encontrar o caminho certo. Por isso, nunca é demais agradecer a ajuda de Portugal e dos portugueses. Esperamos que nesta hora difícil e crítica para a nossa Pátria, os portugueses continuem a ajudar-nos.

- Insiste em usar termos que denotam algumas incertezas ou dúvidas...
- É que, de facto, o momento é mesmo crítico. E não o é porque não estejamos já a ver o fim da luta. É crítico porque o processo é cada vez mais célere e tempo cada vez mais curto. Daí a importância que damos à ajuda dos portugueses que, novamente, nos vai ser dada. Aliás, importa recordar que foi a ajuda e a solidariedade do povo português que desde há 24 anos nos deu a força moral para resistir e hoje olharmos para a vitória com a firmeza e confiança.

- Solidariedade que nem sempre foi dada por outros povos?
- Não diria por outros povos. Diria por outros governos. Veja-se que a posição dos portugueses e do seu Governo contrasta com a do Governo australiano que continua a manifestar-se contra a independência de Timor-Leste. Com essa posição estão a passar-nos um atestado de menoridade, mas estou convencido de que os factos vão demonstrar que somos capazes.

Luís Amado enaltece o presidente
que sucedeu ao “Hitler africano”

"Mais uma vez pedimos que Portugal continue a encorajar as autoridades angolanas para que o processo eleitoral decorra da melhor forma, porque queremos que os angolanos votem numa situação de tranquilidade", apelou Isaías Samakuva na altura em que, em Luanda, recebeu o ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Luís Amado.

Apesar de o chefe da diplomacia portuguesa ter destacado o papel da UNITA na normalização da vida política angolana, frisando que tem actuado de forma "muito responsável e construtiva" para dar garantias no processo de estabilização do país, não creio que Portugal vá responder positivamente ao apelo de Samakuva.

Quem manda (apesar de mal) em Portugal é o Partido Socialista e, como é sabido, é muito mais (ou quase tudo) o que o une ao MPLA do que o que os divide. Foi assim, é assim e sempre assim será. Portanto nada de falsas ilusões quanto à equidistância do Governo de Lisboa.

Importa recordar que o secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação do Governo português, de seu nome João Cravinho, continua a ser o mesmo que, em Novembro de 2005, em declarações ao Expresso, disse que «Savimbi foi um monstro, um Hitler africano”.

Tendo as responsabilidade governativas que têm, que continua a ter, e por isso não pode alegar que falou como simples cidadão, João Cravinho vinculou o Governo de José Sócrates (que não, obviamente, Portugal) a esta afirmação.

Se Portugal fosse um Estado de Direito, das duas uma. Ou o secretário de Estado teria pedido desculpa aos milhões de angolanos que gostam de Savimbi, nomeadamente à UNITA, ou teria sido demitido.


Nada disso aconteceu. Tudo continua na mesma. E se assim continua é porque, de facto e de jure, Portugal não é um Estado de Direito.

O governante português não conhece certamente a realidade angolana. Do seu ponto de vista, do qual o Governo não se demarcou, Angola é sinónimo de MPLA e tudo o resto são monstros e hitleres.

Talvez Luís Amado pense de maneira ligeiramente diferente de Gomes Cravinho. Talvez. Mas a verdade é que Cravinho continua a ser secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação. Portanto, o Governo de Lisboa vai continuar a manter-se equidistante, embora estando do lado do MPLA.

A ignorância dos deputados portugueses (II)

Como referi no comentário anterior, os deputados portugueses aprovaram por unanimidade um voto de pesar pelo falecimento de Gentil Ferreira Viana, dizendo que ele, “depois de concluir a licenciatura em meados da década de 1960, empreendeu uma fuga célebre com mais cerca de cem companheiros de várias ex-colónias portuguesas de África, entre os quais os moçambicanos Joaquim Chissano e Pepetela, iniciando um longo périplo que o levaria a Paris, Gana, Congo Brazzaville, Argélia, China, e mais tarde à guerrilha em Angola.”

Que os deputados da Oposição não saibam que Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos (Pepetela) nasceu em Benguela a 29 de Outubro de 1941, que não saibam que Benguela fica em Angola e que Angola fica em África, ainda vá que não vá.

Agora que os deputados da maioria socialistas de José Sócrates não saibam, isso não aceito. E não aceito porque, como todos sabem, desde que tomou conta do PS, José Sócrates e os seus autómatos tornaram-se donos de todo o conhecimento e de toda a verdade e, como tal, nunca se enganam.