sábado, dezembro 20, 2008

Nada a fazer quando só as moscas mudam

Um pouco, embora para melhor, ao estilo de José Sócrates, o antigo ministro da Presidência do PSD, Nuno Morais Sarmento, alertou hoje para a necessidade de os partidos políticos se adaptarem aos novos tempos e aproveitarem as novas tecnologias, como a Internet, para manter os jovens interessados pela política.

Por este andar, não tardará que o PSD descubra uma versão laranja do Magalhães, esquecendo-se que os jovens (ainda) têm capacidade para pensar, pela própria cabeça - acrescente-se, e que é por isso que estão afastados da política.

Não serão, portanto, as novas tecnologias que os vão seduzir. Mais tarde, quando enfrentarem o desemprego crescente, quando apesar de terem uma licenciatura tiveram de ir vender colares para uma loja de um centro comercial, então talvez se virem para a política.

A diferença entre vender colares ou vender aldrabices no Parlamento não é grande, mas o salário é muito, muito melhor. Por isso, aí talvez se virem para a política, com ou sem uso das novas tecnologias.

Nuno Morais Sarmento falava durante uma tertúlia política, organizada pela Juventude Social-Democrata (JSD) da Amadora, cujo tema era "O futuro das organizações politicas". Pelo título escolhido pela JSD logo se vê que também não usam as novas tecnologias. Se as usassem o titulo seria “Queres um tacho? Começa pela política”.

"O sistema político português, desde 1974 até aos dias de hoje, não foi mudado e não se adaptou à nova realidade que é a sociedade de informação. Esse facto tem provocado um défice na participação política”, defendeu Morais Sarmento.

Mas, bem vistas as coisas, os protagonistas da política portuguesa pensam hoje como os seus antepassados anteriores mesmo ao 25 de Abril de 1974. Ou seja, pensam ao estilo de primeiro eu, depois eu, a seguir eu e então depois os que descendem do meu eu.

Morais Sarmento lembrou que hoje os partidos políticos têm ao seu dispor ferramentas como as novas tecnologias que podem ser aproveitadas para passar mensagens ao eleitorado mais jovem. "A Humanidade vive um período único em que está ligada à escala mundial. Porque não utilizar os fóruns, os blogues ou até mesmo o Hi5 para comunicar"?, interrogou.

O ex-ministro também anda um pouco desactualizado. A juventude, mas não só ela, há muito que comunica por todos os meios de que dispõe e onde consegue ser realmente livre. E é aí que dizem, com toda a razão – acrescentre-se, que os políticos “made in Portugal” são (quase) todos uma merda.

Aliás, se formos ver bem o estado a que isto (isto quer dizer Portugal) chegou, ninguém terá dificuldades em dizer que ao longo dos últimos trinta e tal anos só algumas moscas mudaram...

A farinha é toda do mesmo saco
só as embalagens é que mudam!

Quando, como hoje aconteceu, o primeiro-ministro português, José Sócrates, afirma manter uma "relação institucional absolutamente impecável" com o Presidente da República, e nega que o Estatuto dos Açores tenha motivado um "braço-de-ferro" entre o PS e o Chefe de Estado, quer dizer que PS e PSD são farinha do mesmo saco.

"Tenho tido com o Presidente da República uma relação institucional absolutamente impecável. Isso é o que os portugueses esperam do Governo e do Presidente da República", disse José Sócrates.

Se calhar, e como é habitual, está a mentir com quantos dentes tem. Mas como Cavaco Silva não desmente ou, pelo menos, explica o seu conceito de “impecável”, é legítimo crer que a diferença é, mais de facto do que de jure, nula.

O primeiro-ministro falava aos jornalistas à margem da cerimónia de lançamento de mais uma primeira pedra, desta vez do Espaço Miguel Torga, em São Martinho de Anta, terra natal do poeta e escritor.

"O Presidente da República entendeu vetar [a revisão do Estatuto Político-Administrativo dos Açores] e o PS, respeitosamente, analisou as razões do Presidente e decidiu manter. Não vai nisso nenhum desafio a ninguém, nem nenhum braço de ferro com ninguém, apenas o exercício da Democracia, que não significa obedecer, apenas expressar um ponto de vista que, neste caso, não é coincidente com o do Presidente da República", afirmou.

Isso é que ra bom! Sócrates a dizer que o exercício da Democracia não significa obedecer, é mesmo para rir. Mais para chorar, é verdade.

O dono da verdade, o primeiro-ministro que, segundo António Barreto, “é a mais séria ameaça contra a liberdade, contra autonomia das iniciativas privadas e contra a independência pessoal que Portugal conheceu nas últimas três décadas”, a falar de Democracia.

Nem a bem da Nação o António diria melhor...

Há muitos angolanos a viver de restos
- Quem diria, dona Isabel dos Santos!

Há muitas famílias angolanas a (sobre)viver de “restos de alimentos” que adquirem nos mercados de Luanda. Quem o diz é um estudo do próprio Ministério angolano da Família e Promoção da Mulher (MINFAMU).

Mas isso pouco importa. O relevante é a filha do presidente da República e do MPLA (partido que desgoverna Angola há 33 anos), José Eduardo dos Santos, ter gasto apenas 164 milhões de euros para comprar uma posição no BPI.

Técnicos e especialistas do MINFAMU estiveram durante 45 dias no mercado “Roque Santeiro”, o maior do país, localizado no município do Sambizanga. Segundo a conclusão do trabalho, pessoas recorrem diariamente a este mercado, onde conseguem obter restos de produtos quase ou totalmente degradados para subsistirem.

Quantas pessoas poderiam ser alimentadas dignamente com, é apenas um dos muitos exemplos, os 164 milhões de euros? Mas o que é que isso interessa?

Em declarações à rádio LAC, Damásio Diniz, consultor do MINFAMU, afirmou que há “um número considerável” de pessoas que vivem nessas condições, mas sem quantificar. “Para a realidade do país e da cidade de Luanda é um número considerável e é uma pena, mas é a realidade”, disse.

Diniz frisou que as famílias nessas condições são pessoas que estão “abaixo do nível médio de pobreza”, sem qualquer tipo de subsistência económica.

“São pessoas que não têm nada e vêm contactar as vendedoras que lhes vendem a um preço módico os produtos que vão jogar fora. E essas pessoas compram para fazer uma refeição e dar de comer à família. Há muita gente aqui na cidade de Luanda que sobrevive nessas condições”, afirmou.

Quantas pessoas poderiam ser alimentadas dignamente com, é apenas um dos muitos exemplos, os 164 milhões de euros? Mas o que é que isso interessa?

Maria Cangombe é uma das pessoas que diariamente se desloca ao mercado Roque Santeiro em busca de restos de produtos para sustentar sua família.“Eu estou aqui no Roque a apanhar estas folhas para sustentar as crianças lá em casa. Estou aqui todos os dias porque não há dinheiro”, disse a mulher, citada pela LAC.

“Saio todos os dias cedo de casa e falo com as senhoras que vendem. Muitas vezes passamos o dia em casa com as crianças sem nada para comer. É melhor vir fazer isto do que ficar sem comer nada”, lamentou.

Vários relatórios sobre Angola indicam que o crescimento económico que o país tem registado não se reflecte na melhoria das condições de vida da população angolana. Que novidade!

O relatório “Perspectivas Económicas para África 2008”, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), divulgado em Maio, mencionava que o governo angolano tem sofrido “pressões” para que o crescimento da economia angolana se traduza em benefício do nível de vida da população.

Pressões que resultam em nada. Mas enquanto isso, Isabel dos Santos fez mais um dos muitos negócios que o clã Eduardo dos Santos protagoniza, gastando apenas 164 milhões de euros.

Coisa pouca, obviamente.

Democracia de barriga vazia
ou ditadura de barriga cheia?

Que a economia portuguesa entrou, mais uma vez e sempre para o lado dos mais fracos, em derrapagem e que, a todo o momento, pode fazer mais um buraco no fundo, já todos sabemos, incluindo (espero) o primeiro-ministro.

Se calhar o país ainda está a tempo de evitar que o povo saia à rua para, ao estilo recente da Grécia, dizer que não podem ser sempre os mesmos a pagara crise.

Numa coisa, reconheço, José Sócrates tem razão. Agora não são exactamente os mesmos a pagar a crise. Ou seja, são os mesmos de sempre e mais uns milhares que até agora tinham escapado. Do outro lado, aí sim, continuam sempre os mesmos (banqueiros, administradores, gestores e empresários).

Chegados a esta fase negra, já não adianta mudar de ministros. E para mudar as políticas é necessários mudar de Governo. Mas qual é a alternativa? Não há. E se não há, o melhor é mudar de políticos (os que há são – quase - todos farinha do mesmo saco) ou, quem sabe, até de sistema político.

É que entre um sistema em que poucos roubam e um em que muitos roubam, não me parece difícil escolher.

E para a economia voltar a funcionar é urgente dar oportunidade ao primado da competência e não, como o fez este Governo, ao da filiação partidária, do compadrio, da corrupção e de outras virtudes horizontais.

Como diz o meu amigo Gil Gonçalves, e a pensar como ele há cada vez mais gente, é preciso que haja outro 25 de Abril daqueles a sério: “Não para tirar uns e pôr outros e continuar tudo pior... para roubarem”.

Isto porque, diz ele e cada vez mais boa gente, nem no tempo do Salazar faziam essas coisas. “Agora rouba-se democraticamente. Aliás, cada vez mais me convenço, que a democracia inventou-se para se poder roubar à vontade”.

E a vida tem destas coisas. Depois admirem-se que entre uma ditadura de barriga cheia e uma democracia com ela vazia, os portugueses não tenham dúvidas em escolher. E, note-se, já há muita gente que nem sabe se tem barriga...

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Há mais de sete anos na web

Porque muitos, cada vez mais, fogem sem pensar, é preciso que alguns (cada vez menos) pensem sem fugir. Hoje em Portugal, numa altura em que pela mão de José Sócrates o país parece ter descoberto a pólvora, as sinergias afiguram-se como um milagroso remédio que tudo cura, nem que isso signifique engordar os poucos que têm milhões em detrimento dos muitos milhões que têm cada vez menos.

Espiar (apenas) os outros é que está a dar

O Conselho Federal, segunda câmara legislativa alemã, aprovou hoje, por 35 votos a favor e 34 votos contra, uma lei que permite à Polícia Judiciária Federal (BKA) instalar programas de espionagem em computadores pessoais, via Internet. Olha que novidade?

A versão inicial do diploma, apresentado pelo ministro do Interior, Wolfgang Schaeuble, previa que a BKA pudesse recorrer a este método para observar suspeitos sem autorização judicial, em caso de perigo iminente de atentado terrorista, por exemplo.

Porém, os sociais-democratas (SPD), um dos partidos do governo, aliaram-se a toda a oposição para exigir a revisão do projecto, que na forma final exige que a observação «online» seja previamente autorizada por um juiz de instrução.

Quando será que os alemães aprendem com a malta do Burkina Faso onde essa coisa da privacidade dos computadores pessoais não existe? Não são precisas leis, basta a vontade dos chefes de posto.

Na Alemanha competirá também a um magistrado e não à BKA decidir quais os dados electrónicos que são da esfera íntima de cada pessoa e que não podem, por isso, ser avaliados nas investigações.

A lei, que confere ainda à BKA a possibilidade de fazer escutas telefónicas, escutas e filmagens em apartamentos de suspeitos, pela primeira vez na história desta polícia, entrará em vigor em Janeiro de 2009.

Os Liberais do FDP, partido que mais se opôs à concessão dos novos poderes à BKA, alega que a lei viola importantes direitos, liberdades e garantias e irá requerer a respectiva anulação pelo Tribunal Constitucional.

A queixa será apresentada pelo antigo ministro do Interior Gerhard Baum, um dos paladinos dos direitos cívicos na Alemanha.

Modernices!...

Faltam os Woodward e Bernstein
mas sobram os “garganta funda”

William Mark Felt, o antigo director-adjunto do FBI que clandestinamente denunciou o ex-Presidente norte-americano Richard Nixon, no escândalo Watergate, e cuja identidade se escondia até há três anos sob a alcunha "Garganta Funda" morreu ontem aos 95 anos.

Mark Felt foi a fonte secreta de Bob Woodward e Carl Bernstein os dois jornalistas do Washington Post que denunciaram o escândalo Watergate.

Foi o Washington Post que publicou, em 1972 e 1973, as informações passadas pelo "Garganta Funda" ao então jovem repórter Bob Woodward, que, com Carl Bernstein, revelaram o caso, que contribuiu para a queda do então Presidente Richard Nixon.

Felt admitiu em Abril de 2005 que era a "Garganta Funda", ou seja, o informador secreto dos dois jornalistas, depois de ter mantido silêncio durante 33 anos sobre o seu papel no caso, incluindo em relação à família.

Graças às informações confidenciais de Mark Felt, Woodward e Bernstein puderam provar o papel da Administração do presidente Richard Nixon num assalto à sede do Partido Democrata no edifício Watergate, em Junho de 1972, para fotografar documentos e instalar aparelhos de escuta.

O escândalo e as tentativas da Casa Branca para encobrir o caso levaram à demissão de Richard Nixon, o primeiro presidente dos Estados Unidos a ser obrigado a fazê-lo, em Agosto de 1974.

"Quero que se lembrem de mim como um funcionário do governo que fez todo o seu melhor para ajudar toda a gente. Gostava de ficar com a reputação de ter procurado ajudar as pessoas", afirmou há três anos Mark Felt na altura em que publicou um livro sobre a sua vida como agente do FBI intitulado "A Vida do G-Man: o FBI, ser Garganta Funda, e o Combate pela Honra em Washington".

Hoje o que mais existe são “gargantas fundas”. No entanto, são cada vez menos (refiro-me óbvia e exclusivamente ao Burkina Faso) os Bob Woodward e Carl Bernstein.

Um abraço a todos os Júlio Roldão

“Como poderia esquecer a recepção e o companheirismo do grande Júlio Roldão no dia em que cheguei ao JN para o estágio, ou o Orlando, que depois de me abrir as portas lá de casa, me levou pela mão (com a sua Elisabete, com quem estudei em Braga) a conhecer a redacção, bem antes de lá trabalhar”, escreveu a jornalista Carla Teixeira, no seu blogue http://mentedespenteada3.blogspot.com/.
Hoje o Roldão telefonou-me a desejar um Bom Natal. Ele ainda é dos que não perderam a memória. São poucos. São cada vez menos. E o que em tempos era um trunfo (a memória) hoje é algo supérfluo. E se calhar não há nada a fazer. Para quê ter memória se, sem ela, os autómatos fazem o que é exigido ao jornalismo(?) moderno?

quinta-feira, dezembro 18, 2008

Os socialistas mandaram vir José Sócrates
mas os portugueses é que o têm de aturar!

Há uns tempos, e por isso as palavras voam mas os escritos são eternos, António Barreto disse que “o primeiro-ministro José Sócrates é a mais séria ameaça contra a liberdade, contra autonomia das iniciativas privadas e contra a independência pessoal que Portugal conheceu nas últimas três décadas”.

Tempos depois, Manuel Alegre afirmou que José Sócrates é "teimoso, obsessivo e arrogante", acrescentando que “não há racionalidade capaz de convencer Sócrates".

Eis senão quando, hoje, o (ainda) deputado socialista Manuel Alegre responde às palavras “pouco canónicas” do líder do PS, José Sócrates, sobre a “identidade” do Partido e confessou não saber “o que quer dizer essa coisa do popular e moderado”.

No programa “Grande Entrevista”, da RTP-1, o ex-candidato presidencial comentou as palavras de Sócrates, quarta-feira, no jantar de Natal da bancada, em que o primeiro-ministro garantiu que o PS é um partido sem problemas de identidade, assumindo-se como “popular”, da “esquerda democrática” e “moderada”.

Alegre ouviu as palavras de Sócrates como “uma tentativa de responder aquilo que ele pensa que será um excesso de esquerdização” da sua parte, que participou no domingo, em Lisboa, no fórum das esquerdas, com militantes do Bloco de Esquerda, ex-comunistas e independentes.

Na entrevista, o dirigente histórico do PS admitiu que as palavras de Sócrates não foram “muito canónicas” e fez uma confissão: “Eu não sei o que quer dizer essa coisa do popular e moderado”. E como é que Alegre deveria saber se o próprio Sócrates também não sabe?

“A levar isso à letra, então pressupunha que havia uma crise de identidade e uma acentuada deriva do Partido para o centro”, disse.

“Os portugueses sabem bem quem nós somos. Somos o grande partido popular da esquerda democrática e da esquerda moderada em Portugal”, declarou José Sócrates, motivando – como estabelecido no programa - uma prolongada salva de palmas dos deputados socialistas. Deputados que, como é regra neste PS, funcionam (quase) todos como autómatos telecomandados.

E cada vez mais António Barreto tem razão. “O primeiro-ministro José Sócrates é a mais séria ameaça contra a liberdade, contra autonomia das iniciativas privadas e contra a independência pessoal que Portugal conheceu nas últimas três décadas”.

Olho por olho, dente por dente?
- Se calhar é isso que é preciso!

O Presidente da República das ocidentais praias socialistas a norte (embora cada vez mais a sul) de Marrocos, Aníbal Cavaco Silva, fez hoje votos de "muita tranquilidade institucional" para 2009, considerando que tal será positivo para enfrentar as dificuldades que os portugueses têm pela frente.

Quem espera desespera, diz aquele povo que ajudou a pôr Cavaco Silva na Presidência e também, é claro, José Sócrates no pedestal de dono da verdade e, ao que parece, dos destinos do Zé Povinho.

Embora os portugueses sejam um povo de brandos costumes, se calhar começam a estar fartos de ver poucos a ter cada vez mais milhões e, do outro lado, milhões a terem cada vez menos.

Embora passivos, os portugueses começam a estar fartos de ser lorpas e um dia destes resolvem copiar o que os gregos estão a fazer e mandar os apelos de Cavaco Silva e as promessas de José Sócrates dar uma volta ao Nurkina Faso.

Mais uma vez corre-se (se calhar não porque o povo português só tem garganta) o risco de numa acção do tipo vale tudo, do tipo olho por olho dente por dente, ficarmos todos cegos e desdentados.

Mas, bem vistas as coisas, seria uma forma de mostrar aos donos do reino que também podem ficar cegos e desdentados. Ou não será?