quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Na horizontal ou de joelhos?

Gosto (por defeito de fabrico) de manter viva a peregrina ideia de que não se é Jornalista sete horas por dia a uns tantos euros por mês, mas sim 24 horas por dia... mesmo estando desempregado.

Reconheço, contudo, que essa é uma máxima cada vez menos utilizada e, até, menosprezada por muitos dos que mais recentemente chegaram a esta profissão e, também, por aqueles mercenários que descobriram não na profissão mas nos tachos inerentes, uma rentável e nobre forma de ser chulo.

Os jornais (é claro que também as rádios e as televisões) não são um produto feito à medida dos jornalistas e/ou dos consumidores mas, isso sim, dos empresários. São, cada vez mais, um negócio ou, melhor, uma forma de comércio. São apenas mais um produto em que os seus fazedores (jornalistas) são escolhidos à, ou por, medida.

E, como tal, têm de obedecer às regras da oferta e da procura. Trabalhando na horizontal ou de joelhos. Mais do que informar, mais do que formar, têm de vender, vendendo-se tantas vezes. Vender, vender sempre mais. E quem sabe o que fazer para melhor vender não são, na maioria dos casos, os jornalistas.

Os jornalistas são os montadores (tantas vezes são eles próprios os montados) que, de acordo com o mercado, alinham as peças de um crime, de um comício, de um atentado ou de um buraco na rua.

Se o que vende é dar uma ajuda ao partido do Governo para que este ganhe as próximas eleições, são essas as peças que têm de montar, nada contando a teoria da isenção que é tão do nosso teórico agrado. Entre um artigo isento que nada rende a não ser prestígio, e um nada isento que dá umas tantas páginas de publicidade, a escolha é simples.

Se o que vende é divulgar os produtos da empresa «X», são essas as peças que têm de montar, passando por cima do facto de essa empresa eventualmente não pagar os salários aos seus trabalhadores ou apostar no trabalho infantil.

Se o que vende é dar cobertura às ditaduras (sejam a de Fidel Castro ou a de José Eduardo dos Santos), são essas peças que têm de montar, calibrando-as da forma a parecerem dos melhores exemplos democráticos.

Pouco importa tudo o resto.

Assim sendo, as linhas de montagem não precisam de jornalistas 24 horas por dia, basta-lhes as sete horas. E aos jornalistas basta-lhes, ao que parece, uns tantos euros por mês...

Tudo o resto são cantigas, tenha a classe uma Ordem ou apenas, como agora, um Sindicato, uma Entidade Reguladora ou coisa nenhuma...

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Será que o Magalhães tem tecla “delete”?

Era bom saber (e continuo eu com esta mania - quase doença - de imaginar como será viver num Estado de Direito) quais são os partidos políticos beneficiados nas suas campanhas eleitorais, entre outros, pelos grupos de comunicação social.

Isto porque, desconfio, as grandes empresas jogam, por norma, em vários tabuleiros para terem a certeza de que – seja qual for o partido vencedor – ganham sempre.

Dizem-me, entretanto, que a partir de agora os portugueses podem e devem (e devem cada vez mais) ficar descansados. Graças ao Magalhães, a corrupção, o compadrio, o clientelismo e outras virtudes também, mas não só, socialistas, vão desaparecer. É só carregar na tecla que diz “delete”.

(Magalhães é aquela coisa a que o melhor vendedor da empresa J.P. Sá Couto - de seu nome José Sócrates - chamou «o primeiro grande computador ibero-americano, uma espécie de Tintim: para ser usado desde os sete aos 77 anos»)

Se se enganarem na tecla ainda vão parar à intranet da Presidência do Conselho de Ministros, mas também não será por aí que o problema se agravará.

Não sei porquê, mas até estou tentado a pensar que se as empresas fossem sérias e honestas (eu sei que é uma utopia) se calhar a crise seria hoje menor, assim como o desemprego.

Mas se o própro Estado não é sério nem honesto, porque carga de chuva deveriam as empresas ser?

Só os cães de Kundy Paihama escapam

Uma grande concentração populacional, a presença de cães vadios em zonas urbanas e um saneamento básico deficiente explicam o surto de raiva em Luanda, afirmou hoje Virgílio Almeida, professor da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Técnica de Lisboa.

Razão tinha Kundy Paihama quando, no dia 12 de Janeiro de 2008, “botou faladura” num comício na Sede do Município da Matala e disse: “Durmo bem, como bem e o que restar no meu prato dou aos meus cães e não aos pobres”.

E por que não vai para os pobres?, perguntam vocês, eu também, tal como os milhões (ou serão só meia dúzia?) que todos os dias passam fome. Não vai porque não há pobres em Angola. E se não há pobres, mas há cães… é preciso alimentá-los bem.

E se todos fizessem como Kundy Paihama, não heveria cães com raiva. Continuaria a haver, é claro, angolanos a morrer à fome. Mas entre morrer à fome e morrer contaminado com raiva...

“Eu semanalmente mando um avião para as minhas fazendas buscar duas cabeças de gado; uma para mim e filhos e outra para os cães”, disse Paihama.

Não admira, por isso, que todos os angolanos procurem, afinal, ter a mesma sorte que os cães de Kundy Paihama. Tiveram, contudo, pouca sorte. Os cães que lhes tocaram em sorte estão cheios de raiva.

É claro que, embora reconhecendo a legitimidade que os cães do ministro da Defesa do MPLA e do regime que (des)governa Angola desde 1975 têm para reivindicar uma boa alimentação, não posso deixar de dar um conselho aos milhões, os tais 68%, de angolanos que são gerados com fome, nascem com fome e morrem pouco depois com fome.

Não. Não se transformem em cães para ter um prato de comida. Reivindiquem o direito tão simples de comer como os cães de Kundy Paihama.

Liberdade de expressão em Portugal?
- Mas "isso" serve para alguma coisa?

O presidente da República portuguesa (tal como os restantes titulares de cargos políticos), tem mais com que se preocupar do que com os despedimentos no Jornal de Notícias, Diário de Notícias, 24 Horas e O Jogo. Aliás, no contexto nacional, são menos do que uma gota de água no oceano.

Assim sendo, Cavaco Silva olha apenas, ou parece olhar apenas, para os números. Agora são cento e poucos, daqui a alguns (poucos) meses serão mais uns tantos, mas mesmo assim serão sempre poucos se comparados com o que se passa pelo país.

“Hoje somos confrontados diariamente com dramas pessoais e familiares que dificilmente poderíamos imaginar. São dramas que as estatísticas nem sempre revelam, mas que nos vão alertando para a dimensão social que a actual crise económica e financeira tem vindo a assumir”, declarou o chefe de Estado um dia destes.

Que Cavaco Silva tenha dificuldade em imaginar os múltiplos dramas dos portugueses, ainda vá que não vá. Não pode, contudo, é escudar-se na ignorância de quem vive longe do país real para sacudir a água do capote e para fingir que não sabe que, no caso da comunicação social, quem acabará por ficar no desemprego é a própria liberdade de expressão, a própria democracia e até aquilo que Portugal gostaria de ser mas que (ainda) não é: um Estado de Direito.

Cavaco Silva e os seus assessores estão a levar demasiado tempo para ver o diagnóstico que há muito foi feito por quem, mesmo desempregado, não penhorou a liberdade de opinião. Um Estado de Direito conquista-se quando se não tem medo de dizer a verdade. E esta, quer o presidente queira ou não, não é pertença nem do queixoso, nem do réu, nem do juiz e muito menos daqueles que têm dinheiro para comprar o queixoso, o réu e o juiz.

Os políticos de uma forma geral, sejam o Presidente da República, os membros do Governo, os deputados ou autarcas, teimam em tapar o sol com uma peneira, mesmo quando o fazem a meio da noite.

De um presidente de um Estado de Direito (eu sei que não é o caso de Portugal) esperar-se-ia que tomasse medidas para castigar tanto o ladrão que entra em casa como o que fica à porta. Mas não. Cavaco Silva, na sua qualidade de mais alto magistrado da nação, parece querer castigar as vítimas e não os ladrões.

De um presidente de um Estado de Direito (eu sei que não é o caso de Portugal) esperar-se-ia que visse a quem beneficia a infracção, que argumentos usa para cilindrar a liberdade e sobretudo porque o faz de forma completamente impune.

De um presidente de um Estado de Direito (eu sei que não é o caso de Portugal) esperar-se-ia que procurasse – por exemplo – saber como é possível a uma empresa despedir dezenas de trabalhadores quando, poucos meses antes, os donos e ou administradores gastaram mais de 500 mil euros em carros novos para seu uso pessoal.

De um presidente de um Estado de Direito (eu sei que não é o caso de Portugal) esperar-se-ia muita coisa. E não apenas o óbvio para tudo continuar na mesma, para uns relembrarem o António (de Oliveira Salazar) e outros a necessidade de uma nova revolução.

Outros tempos, outras memórias (II)

(Clique na foto para ampliar)

E o que em tempos era um trunfo (a memória) hoje é algo supérfluo. E se calhar não há nada a fazer. Para quê ter memória se, sem ela, os autómatos fazem o que é exigido ao jornalismo(?) moderno?

Vem isto a (des)propósito das teses vigentes um pouco por todo o lado, que apontam para a necessidade de os jornalistas serem formatados consoante os interesses (económicos, políticos e similares) dos donos do Poder.

Ao contrário dos donos do poder, continuo a lutar para que a imprensa não seja o tapete do poder, tenha ele as cores ou a denominação social que tiver.

Poder esse que conseguiu, sem grande esforço e em muitos casos apenas por um prato de lentilhas, transformar jornalistas em “criados de luxo do poder vigente".

Poder que, sem grande esforço e em muitos casos apenas por um pratinho de lentilhas, vendeu o primado da excelência e comprou o da mediocridade.

Poder que convenceu (pudera!) os mais cépticos de que mais vale ser um propagandista de barriga cheia do que um ilustre Jornalista com ela vazia.

Poder que convenceu os jornalistas que devem pensar apenas com a cabeça... do chefe. Poder que mostrou aos Jornalistas que a regra de ouro é comer e calar... a bem da Nação.

Outros tempos, outras memórias

Não sei, mas isso também pouco importa, se aquela peregrina ideia de as redacções dos jornais terem memória ainda é seguida. Se calhar não. Os tempos são outros e os jornais deixaram de ter redacções.

Se despedir quando há lucros é vergonhoso,
então comprem-se formas de ter prejuízos...

Em declarações ao Jornal de Notícias, o presidente da Confederação da Indústria Portuguesa, Francisco van Zeller, referiu que está por provar que haja empresas a aproveitarem-se da actual conjuntura para encerrar.

À pergunta “Há empresas com lucros elevados no ano passado e que este ano já anunciaram despedimentos por perspectivarem uma quebra dos resultados. Como comenta?”, Francisco van Zeller disse:

“É uma forma de gestão que sempre se usou e que se baseia no princípio de que os ajustes se devem fazer enquanto há dinheiro. Isso é a situação normal que sempre houve, porque em condições normais essas pessoas despedidas conseguiriam encontrar outro emprego. Na situação actual, parece-me um bocadinho mais vergonhoso. Mas as empresas têm uma grande capacidade de previsão e sabem se os contratos para daqui a seis meses já estão a falhar, podendo optar por começar já a dispensar pessoal para acertar as despesas. Tem de ser visto caso a caso e não se pode atirar pedras a empresas que estão muitas vezes a fazer o melhor que sabem e a tentar proteger os trabalhadores.”

Ou seja, segundo o presidente da CIP, despedir quando há lucros é vergonhoso. Não se referia, creio, ao caso concreto do JN. De qualquer modo, é sempre possível escapar ao rótulo de vergonhoso, bastando para isso contratar especialistas.

Quando um grupo mistura no mesmo saco empresas que dão lucro com outras que não dão, certamente consegue um resultado favorável à tese do prejuízo, actual ou futuro. É fácil, barato e até dá milhões.

Engraçado é ver o presidente da CIP, no seu legítimo papel, dizer – e bem – que “não se pode atirar pedras a empresas que estão muitas vezes a fazer o melhor que sabem e a tentar proteger os trabalhadores”.

E é engraçado porque Francisco van Zeller sabe, melhor do que qualquer outro, que essas não são a regra, nem esse é o princípio basilar de muitas empresas que são geridas por quem só tem capacidade técnica, escolar, intelectual, para ser arrumador de carros.

Dito de outra forma, Francisco van Zeller sabe que basta ter dinheiro (com a origem do qual ninguém se preocupa) para ser empresário ou, pelo menos, para ser dono de uma empresa.

Francisco van Zeller também sabe que muitas empresas vão à falência embora, é claro, os seus donos continuem ainda mais ricos. Tal como sabe, embora não diga, que se tivesse de escolher, muitos dos seus “colegas” empresários não os queria nem mesmo para arrumar carros.

Lancinante...

In: http://www.noticiaslusofonas.com/

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Europa contra a corrupção ou apenas
contra aqueles que são os mais fracos?

Ana Gomes (PS) e José Ribeiro e Castro (CDS-PP) fazem parte de um grupo de deputados europeus que lança quarta-feira, em Bruxelas, através de uma página da Internet, uma petição para lutar contra a corrupção.

A petição insta a Comissão Europeia e os Estados-membros da União Europeia (UE) a propor legislação e mecanismos de combate à corrupção, em particular nas relações com países em vias de desenvolvimento.

Confesso que me veio logo à cabeça o regime do MPLA que, como poucos se lembram, dirige os destinos de Angola desde 1975, e cujo chefe máximo (do partido e da República) visita um dias destes as ocidentais praias lusitanas a norte – embora cada vez mais a sul – de Marrocos.

Segundo este grupo de eurodeputados, a corrupção ao mais alto nível "reduz a capacidade de muitos estados para garantir serviços básicos às suas populações", como o direito à alimentação, habitação, saúde e educação. Se calhar, digo eu, é por isso que perto de 70% de angolanos passa fome.

Em África, por exemplo, os Estados perdem anualmente cerca de 25 por cento do Produto Interno Bruto devido à corrupção, é sublinhado no comunicado de imprensa com o anúncio da iniciativa.

Que eu saiba, o grupo não fala que para haver corrupção tem de haver quem corrompa e quem seja corrumpido. Ou não será? Adiante.

A petição pretende recolher as assinaturas de um milhão de cidadãos dos 27 para "obrigar as autoridades europeias a tomar medidas contra a corrupção", segundo Ana Gomes.

A eurodeputada explicou em declarações à Agência Lusa que principalmente os países em desenvolvimento perdem somas enormes de dinheiro que é investido na Europa.

Os deputados europeus que promovem a petição gostariam que a sua iniciativa levasse a que fluxos financeiros duvidosos passassem a ser analisados. Era bom, era.

Por seu lado, Ribeiro e Castro lembra as questões de "moralidade e legalidade" e, principalmente, os "prejuízos para o bem-estar dos povos" que recebem apoios dos 27 que são desviados para outros fins.

Fins onde, se calhar, aparecem os que contribuiram com esses apoios. Ou não será?

A recolha de assinaturas é feita na página da Internet
www.stopcorruption.eu/.

Um grupo de pelo menos um milhão de europeus pode obrigar a Comissão Europeia a estudar e apresentar propostas legislativas relacionadas com determinada matéria.

domingo, fevereiro 15, 2009

Supostos colegas, supostos jornalistas
é que comandam a operação cirúrgica

Um grupo de jornalistas alvo do despedimento colectivo de 123 trabalhadores da Controlinveste enviou a vários responsáveis políticos uma carta em que alerta para equívocos no processo levado a cabo pela empresa no início do ano.

Quanto a mim é uma completa perda de tempo. Responsáveis políticos? Onde? Se fossem responsáveis se calhar não eram políticos, pelo menos nesta praça. Além disso, basta ver quantos se interessaram pelo inequívoco e lancinante problema que está subjacente ao despedimento: a perda da liberdade de expressão.

No documento a que a agência Lusa teve acesso, enviado à Entidade Reguladora para a Comunicação Social e a vários responsáveis políticos, entre eles o Presidente da República, o primeiro-ministro e os cinco grupos parlamentares, os subscritores queixam-se de que "os jornalistas abrangidos pelo despedimento colectivo foram alvo de uma avaliação efectuada expressamente para a ocasião".

Enviar uma carta destas, e logo na altura em que Cavaco Silva e José Sócrates estão é preocupados em escolher a moldura para a carta que receberam do presidente dos EUA, Barack Obama, é chover no molhado.

Este é mais um exemplo de que num Estado que não é de Direito o que conta é a razão da força (Controlinveste) e não a força da razão (os despedidos).

Ao que parece, nessa carta os signatários dizem que se está perante um despedimento "selectivo", por "tratar-se de jornalistas que internamente têm vindo a chamar à atenção e a reclamar sobre o desvio editorial” e sobre (...) “diárias violações do Código Deontológico dos Jornalistas".

Têm toda a razão. Do que conheço do processo, os jornalistas despedidos foram vítimas de uma operação cirúrgica que, contudo, ainda tem mais capítulos. Por outras palavras, como aqui é dito há muito, muito, tempo, todos os jornalistas que teimam em pensar com a cabeça e não com a barriga, são para abater. Abater e ponto final.

Importa, contudo, dizer que as listas de gente a abater não foram elaboradas pela Controlinveste. Quem as elaborou, quem listou todos aqueles que pensam com a cabeça, foram supostos jornalistas, supostos colegas, que dirigem as diferentes publicações do grupo.

Estamos, por isso, a ser assassinados (na maior parte dos casos pelas costas, como é típico do nanismo intelectual reinante) por outros “jornalistas”. Importa não o esquecer. Importa nunca o esquecer.