segunda-feira, julho 25, 2011

E a CPI não tem dúvidas e não se engana
- A culpa de tudo é apenas e só da UNITA

A Comissão Parlamentar do Inquérito (CPI) sobre a intolerância política na Província do Huambo (Angola) não tem dúvidas e, é claro, nunca se engana.

Assim sendo, ficou “provado”  que “não provada a acusação da UNITA segundo a qual teria havido alguma orientação por parte do governador, dos administradores Municipais e Comunais e das autoridades tradicionais, com o fim de promover a intolerância política”.

A democracia é isso mesmo. A CPI,  presidida pelo deputado Higino Carneiro, membro do Comité Central do MPLA, era composta de 15  deputados, dos quais 12 do MPLA e os restantes três divididos democraticamente pela UNITA, PRS e FNLA.  

Como seria de calcular, a CPI apurou que “os assassinatos invocados pea UNITA como tendo ocorrido nos municípios do Bailundo, Katchiungo, Tchikala Tcholohanga, Ukuma, Ecunha, Londuimbali e Caála não resultaram de intolerância politica, mas, de crimes do foro comum, relacionados, com praticas ligadas à feitiçaria”.

E apurou muito bem. Aliás, sendo o MPLA dono absoluto da verdade, estava fácil de ver que a teoria da UNITA era uma manifesta mentira. E a CPI foi, mesmo assim, muito condescendente com a malta do Galo Negro porque, num acto de assinalável magnanimidade, não acusou a UNITA de ter sido ela própria a provocar as mortes só para acusar, denegrir e enxovalhar a impoluta imagem do partido de José Eduardo dos Santos.

Como todo o mundo sabe,  tudo o que de mal se passou, passa ou passará em Angola é culpa da UNITA. Desde logo porque, e não foi preciso nenhuma CPI para o provar, as balas das FALA (Galo Negro) matavam apenas civis e as das FAPLA/FAA (MPLA) só acertavam nos militares inimigos. Além disso, como também é sabido, as bombas lançadas pela Força Aérea do MPLA só atingiam alvos inimigos e nunca estruturas civis.

Aliás, qualquer CPI poderá um dia destes provar  que a UNITA é que é responsável pelos mais de 40.000 angolanos torturados e assassinados em todo o país depois dos acontecimentos de 27 de Maio de 1977, acusados de serem apoiantes de Nito Alves ou opositores ao regime.

Como poderá provar e comprovar que a UNITA é também responsável pelo massacre de Luanda que visou o seu próprio aniquilamento e de cidadãos Ovimbundus e Bakongos, onde morreram 50 mil angolanos, entre os quais o vice-presidente da UNITA, Jeremias Kalandula Chitunda, o secretário-geral, Adolosi Paulo Mango Alicerces, o representante na CCPM, Elias Salupeto Pena, e o chefe dos Serviços Administrativos em Luanda, Eliseu Sapitango Chimbili.

Qualquer CPI não terá igualmente dificuldade em mostrar ao mundo que angolanos são pessoas como Lúcio Lara, Iko Carreira, Costa Andrade (Ndunduma), Henriques Santos (Onanbwe), Luís dos Passos da Silva Cardoso, Ludy Kissassunda, Luís Neto (Xietu), Manuel Pacavira, Beto Van-Dunem, Beto Caputo, Carlos Jorge, Tito Peliganga, Eduardo Veloso, Tony Marta, José Eduardo dos Santos.

Provará também que não angolanos são aquela subespécie como Alda Sachiango, Isaías Samakuva, Alcides Sakala, Jeremias Chitunda, Adolosi Paulo Mango Alicerces, Elias Salupeto Pena, Jonas Savimbi, António Dembo ou Arlindo Pena "Ben Ben".

Qualquer CPI não terá igualmente dificuldade em mostrar que o massacre do Pica-Pau em que, no dia 4 de Junho de 1975, perto de 300 crianças e jovens, na maioria órfãos, foram assassinados e os seus corpos mutilados no Comité de Paz da UNITA em Luanda… foram obra da UNITA.

Qualquer CPI não terá igualmente dificuldade em mostrar que o massacre da Ponte do rio Kwanza, em que no dia 12 de Julho de 1975, 700 militantes da UNITA foram barbaramente assassinados, perto do Dondo (Província do Kwanza Norte), perante a passividade das forças militares portuguesas que garantiam a sua protecção, foi obra da UNITA.

 Qualquer CPI não terá igualmente dificuldade em mostrar que, entre 1978 e 1986, centenas de angolanos foram fuzilados publicamente, nas praças e estádios das cidades de Angola, uma prática iniciada no dia 3 de Dezembro de 1978 na Praça da Revolução no Lobito, com o fuzilamento de 5 patriotas e que teve o seu auge a 25 de Agosto de 1980, com o fuzilamento de 15 angolanos no Campo da Revolução em Luanda… foi tudo obra da UNITA.

Qualquer CPI não terá igualmente dificuldade em mostrar que foi a aviação da UNITA que, em Junho de 1994, bombardeou e destruiu  Escola de Waku Kungo (Província do Kwanza Sul), tendo morto mais de 150 crianças e professores.

Qualquer CPI não terá igualmente dificuldade em mostrar que foi a aviação da UNITA que, entre Janeiro de 1993 e Novembro de 1994,  bombardeou indiscriminadamente a cidade do Huambo, a Missão Evangélica do Kaluquembe e a Missão Católica do Kuvango, tendo morto mais de 3.000 civis.

Qualquer CPI não terá igualmente dificuldade em mostrar que, entre Abril de 1997 e Outubro de 1998, na extensão da Administração ao abrigo do protocolo de Lusaka, foi a UNITA quem assassinou mais de 1.200 responsáveis e dirigentes dos órgãos de Base da… UNITA em todo o país.

domingo, julho 24, 2011

Pois! Antes de morrer estava vivo!

Notícia teria sido, digo eu, se tivesse morrido soterrado por um muro que não caiu…

Piratas da Somália serão heróis?
Heróis ocidentais serão piratas?

Se os piratas somalis (ou similares) são um bando de criminosos que urge erradicar, o que se dirá dos piratas ocidentais (sobretudo dos EUA, França e Espanha) que, por exemplo, roubam à grande a à francesa as riquezas, sobretudo marítimas,  deste pobre "país" africano?

Mas será que alguém está mesmo interessado em acabar com esta actividade na região do Corno de África? Não. Ninguém está interessado. Quanto pior… melhor, para os abutres ocidentais que actuam impunemente na região.

Desde o início da guerra civil, nos anos 90, patrocinado pelos donos do mundo, que os somalis sequestram navios e pedem resgates. A situação levou, inclusive, à criação da Task Force 150, na qual participam Canadá, EUA, Alemanha, França, Grã Bretanha, Portugal e Turquia entre outros.

Será a ideia acabar com a pirataria? É essa ideia, não que vise defender os somalis mas, apenas isso, garantir a segurança dos piratas ocidentais que lá vão sacar tudo quanto for de valor.

De facto, ninguém está interessado em ir ao fundo do problema, desde logo por se tratar de África e de um local, a Somália, do qual os donos do mundo (os EUA) não guardam boas recordações.

A Somália desapareceu em 1991 enquanto esboço de um país que nasceu de um parto prematuro em 1960, como resultado do casamento de conveniência entre dois protectorados (um italiano e outro britânico).

Com o fim da União Soviética, exactamente em 1991, acabaram muitos países e outros mudaram de rumo, sendo a Somália o exemplo mais antigo de uma terra de ninguém.

Acabada a divisão ideológica do mundo, com a rendição da supostamente toda poderosa URSS, muitos foram os países africanos que ficaram à deriva.

Os somalis, por exemplo, quando chegaram ao meio da ponte que atravessa o rio da vida, pararam para procurar uma razão para que 75% deles vivam na mais catastrófica miséria. Foi então que, perante a indiferença habitual, repararam que nem ponte havia...

Apesar de ser um dos países mais pobres do mundo, não falta quem para lá mande toneladas de caixotes de ajuda alimentar cheios de armas. Alguém está interessado nisso.

Tudo isto entronca na exportação para África de processos democráticos do estilo “Nescafé”, em que basta “juntar água e mexer”.

O problema está que, por obra e graça de muitos ditadores africanos e de uns tantos autocratas ocidentais, esse é um método que é comum quando se trata de chegar ao poder.

Tanto a Europa como os EUA pensam que os processos democráticos que exportam para África, não para criar democracias sérias e estados de direito mas, antes, para criar e manter  ditadores corruptos, são algo em que se mistura o pó com água e dá uma democracia.

Em todos os países em que se votou apenas para calar a comunidade internacional, apenas para legitimar os poderes existentes, os conflitos estão e estarão latentes, bastando um fósforo para pôr as Kalashnikov a dizerem de sua justiça.

Recordam-se que, em Janeiro de 2007, o exército norte-americano lançou um ataque aéreo no sul da Somália contra os islamitas só porque o senhor George W. Bush e afins suspeitavam ter ligações à Al-Qaida?

No caso, segundo o então presidente dos EUA, para ser suspeito bastava ser preto e não apoiar o Governo que Bush escolhera  para a Somália. Se são civis inofensivos e inocentes... isso pouco interessava… e pouco interessa.

E assim se fazia e continua a fazer uma parte da História no Corno de África. Na altura a Etiópia invadiu a Somália com mais de 10 mil soldados, blindados e aviões e o mundo ou ficou calado ou aplaudiu. Eram os “bons” que enfrentavam os “maus”.

E quem são os “bons” e os “maus”? É simples. “Bons” são os amigos dos EUA e da Europa. Todos os outros são os “maus”.

É só escolher...

Mais transparência. Onde? No… PS

Renato Sampaio, presidente da distrital do PS no Porto afirmou hoje, segundo o JN, que o partido precisa rapidamente de reajustar a sua organização para se tornar mais transparente.

Mais transparente? Boa. De facto, a começar pela distrital do Porto, estava muito opaco.

"Acho que o PS precisa rapidamente de construir alguns reajustes na sua organização, nos próprios estatutos de forma a tornar-se um partido mais transparente, mais aberto à sociedade e o que eu espero é que, a partir de agora, tenhamos as condições de fazermos oposição a este Governo de direita", disse Renato Sampaio, a poucas horas da reunião do secretariado da distrital, durante a qual vai decidir a sua continuidade enquanto dirigente.

Porém, Renato Sampaio quis sublinhar que qualquer decisão que venha a tomar "não tem rigorosamente nada a ver com as eleições para secretário-geral do partido", mas sim com a leitura que faz dos "acontecimentos dos últimos dois anos, do último ano em especial", em referência às legislativas. Já não era sem tempo…

Recordo que Renato Sampaio apresentou há um ano (14 de Junho) o livro “Oposição a Norte” que, no seu entender, é (ou era) “uma homenagem à região”, considerando que “falta coragem” às pessoas para escreverem o que pensam.

No passado dia 8 de Junho, perguntei aqui se perante a banhada do PS no distrito do Porto, não será “falta de coragem” manter-se agarrado ao lugar, não seguindo o exemplo do seu “querido líder”?

Renato Sampaio continuou no lugar, eventualmente à espera do resultado da sua declaração de apoio à candidatura de Francisco Assis, agora derrotado por António José Seguro.

Essa de um socialista dizer que “falta coragem” às pessoas para escreverem o que pensam... não lembraria ao Diabo. Mas, é claro, lembrou a um dirigente socialista que sabe bem que, com o seu PS no Governo, dizer o que se pensava (quando isso não coincidia com as ideias do dono do partido) era mais de meio caminho andado, entre outras consequências, para o desemprego.

“Às vezes falta alguma coragem às pessoas para escreverem, porque assim nunca são confrontadas com essas opiniões. É muito fácil, muitas vezes, omitir, ignorar, mas eu não tenho esse tipo de problemas. Acho que nós devemos dizer o que pensamos a cada momento, mesmo que muitas vezes nós próprios evoluamos num sentido ligeiramente diferente”, afirmou.

Que bonito! Falso, mas bonito. Renato Sampaio sabe que o ex-líder do seu partido, tal como ele próprio, preferiu ser assassinados pelo elogio do que salvos pela crítica. Sabe que entre um génio e um néscio com o cartão do partido, o PS nacional como o distrital escolhia o néscio. Sabe que todos os que ao longo dos anos, nomeadamente na comunicação social portuguesa, escreverem coisas como estas porque assim pensavam... fazem hoje parte dos 800 mil desempregados que o país tem.

É por isso que para mim é confrangedor o culto ao chefe por parte dos socialistas. Eu sei que a todo o momento (basta o chefe deixar de o ser, como aconteceu a José Sócrates) podem mudar de barricada. Mas, mesmo assim, tenho alguma dificuldade em entender como é que socialistas inteligentes continuam de cócoras e, parafraseando Renato Sampaio, têm “falta coragem para escreverem (ou dizerem) o que pensam”.

Também me custa a aceitar (cada vez menos, é verdade) que Portugal seja uma espécie de país onde os que dizem sempre que sim são bestiais e, é claro, onde os que só dizem que sim quando devem dizer que sim, são umas bestas.

Não é assim? Sócrates deixou o poleiro do governo e do partido e logo se viu que, afinal, havia muitos socialistas que até achavam que o primeiro-ministro tinha, no mínimo, conhecimento de um plano para controlar órgãos de comunicação social.

Embora seja uma prática corrente nas ocidentais praias lusitanas, alguém com alguma sanidade mental duvida que os governos de José Sócrates foram os que mais trabalharam para que os jornalistas fossem formatados, com ou sem chip, consoante os interesses (económicos, políticos e similares) dos donos do Poder?

Recordam-se, por acaso, de quem disse que "Sócrates reduz a política à sua pessoa"? Não. A frase não é minha, embora reflicta a minha opinião. Aliás, de há muito que aqui digo (aqui e onde posso, sendo que não posso em todos os sítios que gostaria por obra e graça de alguns socialistas) que o ex-primeiro-ministro de Portugal tinha todas as características de um – para citar José Lello – foleiro ditador.

Alguns dirão que só quando chegou ao poder é que a enfermidade foi conhecida. Pois é. E o que fizeram para alterar isso? Nada. Limitaram-se a segurar com unhas e dentes os tachos, bajulando o “querido líder” enquanto ele o foi.

Num artigo de opinião do jornal Público há para aí quatro anos, intitulado "Contra o medo", Manuel Alegre criticava "a confusão entre lealdade e subserviência" que, segundo o socialista, se verificavam no Governo de José Sócrates. Recordam-se?

"Há um clima propício a comportamentos com raízes profundas na nossa História, desde os esbirros do Santo Ofício até aos bufos da PIDE", escreveu Manuel Alegre, acusando o Partido Socialista de "auto-amordaçar-se".

Renato Sampaio disse que apoiava Francisco Assis por estar “convencido que é o melhor líder para o PS” e quem “melhor serviria os interesses do PS no próximo círculo político, porque é um líder que também tem uma ideia para o país e um projecto para o PS”.

Cá para mim, que continuo a ter coragem para dizer o que penso (mesmo contra a vontade de muitos socialistas), Renato Sampaio apoiava Francisco Assis por uma única razão: estava convencido que ele ia ganhar.

sábado, julho 23, 2011

Ser ignorante é fácil e lucrativo

O regime angolano, com a total cobertura CPLP (a que Luanda preside), não quer ouvir o que o povo pensa. E, para isso, acena sistematicamente com o espectro de uma coisa que ninguém quer: a guerra.

Não adianta perguntar a Luanda durante quantas mais décadas vai utilizar a fantasma da guerra para, de uma forma cruel, calar a revolta popular.

O povo tem fome? Atenção à guerra. O Povo não tem assistência médica? Atenção à guerra. O Povo nem tem empregos? Atenção à guerra. O Povo não tem casas? Atenção à guerra. O Povo... Atenção à guerra.

É evidente que a comunidade internacional só está mal informada porque quer, ou porque têm interesses, eventualmente legítimos, mas pouco ortodoxos e muito menos humanitários.

Em Portugal, por exemplo, custa a crer mas é verdade que os políticos, os empresários e os (supostos) jornalistas (há, é claro, excepções) fazem um esforço tremendo (se calhar bem remunerado) para procurar legitimar o que se passa de mais errado com as autoridades angolanas, as tais que estão no poder desde 1975 e que têm um presidente da República há 32 anos no poder sem nunca ter sido eleito.

Alguém na CPLP  quer saber que 68% da população angolana é afectada pela pobreza, que a taxa de mortalidade infantil é a terceira mais alta do mundo, com 250 mortes por cada 1.000 crianças? Não, ninguém quer saber.

Alguém na CPLP quer saber que apenas 38% da população tem acesso a água potável e somente 44% dispõe de saneamento básico?

Alguém na CPLP quer saber que apenas um quarto da população angolana tem acesso a serviços de saúde, que, na maior parte dos casos, são de fraca qualidade?

Alguém na CPLP  quer saber que 12% dos hospitais, 11% dos centros de saúde e 85% dos postos de saúde existentes no país apresentam problemas ao nível das instalações, da falta de pessoal e de carência de medicamentos?

Alguém na CPLP  quer saber que a taxa de analfabetos é bastante elevada, especialmente entre as mulheres, uma situação é agravada pelo grande número de crianças e jovens que todos os anos ficam fora do sistema de ensino?

Alguém na CPLP quer saber que 45% das crianças angolanas sofrerem de má nutrição crónica, sendo que uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos?

Alguém na CPLP quer saber que a dependência sócio-económica a favores, privilégios e bens, ou seja, o cabritismo, é o método utilizado pelo MPLA para amordaçar os angolanos?

Alguém na CPLP  quer saber que 80% do Produto Interno Bruto angolano é produzido por estrangeiros; que mais de 90% da riqueza nacional privada é subtraída do erário público e está concentrada em menos de 0,5% de uma população; que 70% das exportações angolanas de petróleo tem origem na sua colónia de Cabinda?

Alguém na CPLP quer saber que o acesso à boa educação, aos condomínios, ao capital accionista dos bancos e das seguradoras, aos grandes negócios, às licitações dos blocos petrolíferos, está limitado a um grupo muito restrito de famílias ligadas ao regime no poder?

Não. O silêncio (ou cobardia) são de ouro para todos aqueles que existem para se servir e não para servir. E quando não têm justificação para tamanha cobardia, lá aparecem a dizer: atenção à guerra.

Votos enchem a barriga da CPLP

A comunidade internacional (seja lá o que isso for) e sobretudo a CPLP (que todos sabemos ser um montanha que nem um rato consegue parir) entende que, mesmo que seja com a barriga vazia, desde que se vote… há democracia.

A tese, sobretudo para África, é a de que os povos podem ser alimentados com votos, que as crises se resolvem com votos e que os votos são um milagroso remédio que cura todos os males.

No caso da Lusofonia africana, Portugal sabe que África teve, tem e continuará a ter uma História de autoritarismo que, aliás, faz parte da sua própria cultura. Mas isso, é óbvio, em nada preocupa os fazedores da macro-política que se passeiam nos areópagos dos luxuosos hotéis do mundo.

Apesar disso, teima-se em exportar a democracia “made in Ocidente”, sem ver que a realidade africana é bem diferente. Vai daí, pela força dos votos os ditadores chegam ao Poder, ficam eternamente no poder e em vez de servirem o povo, servem-se dele.

Mas será isso democracia? Por que carga de chuva ninguém se lembra que, por exemplo, na Guiné-Bissau as escolhas não são feitas com o cérebro mas com a barriga, ainda por cima vazia?

Foi neste contexto que, por exemplo,  “Nino” Vieira chegou a presidente e, tal como o seu homólogo, mentor e amigo angolano, por lá queria continuar com o beneplácito da tal Comunidade de Países de Língua Portuguesa.

A estratégia de “Nino” Vieira falhou, mas outras aí estão no terreno com inegável pujança e com a histórica cobertura dos donos do poder em Portugal, na CPLP e no mundo.

Ninguém se lembrou, apesar de saberem (até por experiência própria) que “Nino” Vieira (tal como Eduardo dos Santos ou Robert Mugabe) era só por si uma enciclopédia de corrupção.

Ninguém quis ver que “Nino” foi o único histórico do país que enriqueceu depois da independência, tornando-se o homem mais rico de um país miserável.

“Nino” vendeu e comprou as melhores empresas do país (Armazéns de Povo, Socomin, Dicol, Titina Sila, Cumeré, Blufo, Bambi, Volvo, Oxigénio e Acetileno, etc., etc.), tornando-se sócio do então presidente Lassana Conté, da Guiné-Conakry, para melhor traficar, entre outras riquezas, os diamantes da Serra Leoa.

Que conclusões terá tirado a CPLP e Portugal quando Carlos Gomes Júnior, o actual primeiro-ministro, disse que “era impossível coabitar com “Nino” Vieira que não passava de um bandido e de um mercenário que traiu o povo"?

Que conclusões terá tirado a CPLP e Portugal ao saber que, tal como se passou nas eleições angolanas, também “Nino” conseguiu em alguns círculos ter mais votos do que eleitores registados?

Pelos vistos à CPLP e a Portugal apenas interessa que se vote, nem que para isso se chamem os mortos, tal como aconteceu e acontecerá em Angola.

Se os votos foram comprados, isso pouco interessa. Se os povos votam em função da barriga vazia e não de uma consciente opção política, isso pouco interessa.

Para quem vive bem, para quem tem pelo menos três refeições por dia, o importante foi e será que os africanos votem. Não importa o que aconteceu antes, o que está a acontecer agora e que voltará a acontecer um dia destes.

Não será, aliás, difícil antever que o sangue (como aconteceu ciclicamente na Guiné-Bissau) voltará a correr. Mas o que é que isso importa? O que importa é terem votado...

Fraudes no PS? Não, não pode ser!

Francisco Assis, o candidato que disputa com António José Seguro a sucessão de José Sócrates na liderança do PS, acusou a candidatura do seu adversário político de "fraude eleitoral".

Não está mal.  O caso terá ocorrido na secção de Olival de Basto, Póvoa de Santo Adrião. Segundo um comunicado da candidatura de Assis, após a abertura do período de votações, o fiscal "detectou que as urnas já continham boletins de voto".

"Após a abertura da urna foi confirmada a existência de vários boletins de voto, já preenchidos, assinalados na lista A, de António José Seguro", refere o comunicado.

Digam lá que o MPLA não teve, e tem, bons mestres? Também ele (membro da Internacional Socialista tal como o PS) conseguiu nas últimas eleições em Angola ter em algumas secções mais de 100 por cento dos votos...

Olho por olho, dente por dente

Pelo menos 91 pessoas morreram ontem na sequência de um ataque à bomba em Oslo, Noruega, e num ataque a tiro num encontro de jovens.

A polícia norueguesa suspeita que os ataques possam ter sido levado a cabo por uma mesma pessoa: o norueguês Anders Behring Breivik, que terá ligações à extrema-direita.

Este é o mais grave atentado terrorista na Europa desde que 52 pessoas perderam a vida em Londres em 2005, num ataque levado a cabo por terroristas islâmicos.

Alguém disse e outros vão dizendo, mesmo que por palavras diferentes e em contextos diversos,  que “nós somos filhos e agentes de uma civilização milenária que tem vindo a elevar e converter os povos à concepção superior da própria vida, a fazer homens pelo domínio do espírito sobre a matéria, pelos domínios da razão sobre os instintos».

Chegados aqui, voluntariamente ou não, é razoável pensar que são cada vez mais os instintos e cada vez menos as razões. Aliás, a razão é algo eu cada vez mais significa menos. De um lado e do outro residem argumentos válidos, tão válidos quanto se sabe (é da História) que para os senhores do poder (hoje terroristas, amanhã heróis - ou ao contrário) o importante é a sociedade que tem de ser destruída e não aquela que tem de ser criada.

É isso que pensam ou pensaram, por exemplo, George W. Bush, Osama bin Laden, Saddan Hussein, Tony Blair, Robert Mwgabe e José Eduardo dos Santos. Aliás, G. Geffroy dizia pura e simplesmente que o importante é avançar por avançar, agir por agir, pois em qualquer dos casos alguns resultados hão-de aparecer.

Os EUA avançaram, feridos que foram no seu orgulho de polícias do Mundo. Com eles estiveram, estão e estarão uma série de países, nem todos de forma sincera. Não será o caso dos europeus mas é, com certeza, o caso de muitos estados árabes que, com medo do cão raivoso, aceitaram (mesmo que contrariados) a ajuda do lobo.

Quando se aperceberem (alguns já se aperceberam), o lobo derrotou o cão e prepara-se para os comer a eles. O lobo, como mais uma vez se confirma, não terá necessariamente de ter nacionalidade norte-americana.

Aliás, os homens do tio Sam são especialistas em criar lobos onde mais lhes convém. Em certa medida Osama bin Laden, tal como foi Saddam Hussein, foi um lobo «made in USA». Ao contrário do que pensam os ilustres operacionais da NATO, do FBI da CIA ou de qualquer coisa desse tipo, ninguém tem neste planeta (pelo menos neste) autoridade e poder ilimitados e está eternamente incólume.

O mesmo se aplica em relação aos agora chamados de terroristas. Mas, como os instintos ultrapassam a razão, ambos estão convencidos que são donos e senhores da verdade absoluta. O confronto foi, é e será, por isso, inevitável.

Significará esta tese que a 3ª Guerra Mundial está aí ao dobrar da próxima esquina? Para mim significa exactamente isso. Só falta saber a que distância está a próxima esquina.

Os agora terroristas (segundo a terminologia ocidental, que já usou igual epíteto - entre outros - para Yasser Arafat, recordam-se?) poderão não ter a mesma capacidade bélica do que os EUA e seus aliados. Vão ser humilhados, sobretudo pelo número dos mortos que o único erro que cometeram foi terem nascido.

São as leis da razão? Não. São as leis dos instintos. Instintos que vão muito além das leis da sobrevivência. Entram claramente (tal como entrou Bin Laden) na lei da selva em que o mais forte é, durante algum tempo mas nunca durante todo o tempo, o grande vencedor.

A 3ª Guerra Mundial começou porque o Mundo Árabe só está do lado dos EUA por questões estratégicas, por opções instintivas. Bem ou mal, em matéria de razão os árabes estão com os seus... e esses não são os nossos (?) heróis.

É claro que, transitoriamente, alguns admitiram aliar-se aos EUA. Foi a opção, neste exacto contexto, pelo mal menor. Mesmo assim, avisaram que não admitirão ataques a outros países árabes. Mas eles aconteceram, como é o caso da Líbia. Pelo menos desde a Guerra dos Seis Dias, a aprendizagem dos árabes tem sido notável. Aceitam o que os EUA definem como inimigos, enforcam até os seus pares com a corda fornecida pelos norte-americanos mas, na melhor oportunidade, enforcam americanos com a corda enviada de Washington.

Até agora os atentados são a resposta mais visível desta 3ª Guerra Mundial. Com bombas, aviões, antrax ou suicidas vão preparando o terreno. Não tardará muito, tal como fizeram com os soviéticos no Afeganistão, vão utilizar o próprio armamento do Ocidente. E, quando entenderem, também poderão fazer uso de armamento nuclear.

Então? Então é preciso ir em frente. Sem medo. Olho por olho, dente por dente. No fim, o último a sair - cego e desdentado - que feche a porta e apague a luz...

Há 14 anos a defender a Lusofonia

Do encontro da CPLP, em Luanda, chegam notícias repetidas. O  apoio a quem ajude a promover a língua portuguesa voltou a estar em cima da mesa. Quem sabe se um dia será premiado com merece e não quem é amigo dos diferentes donos da CPLP.

Deixem-me, como já por diversas vezes tenho feito, apontar um nome e uma obra que merecem esse e outros prémios. Chama-se António Ribeiro é o “maluco” que aguenta o barco, eu diria porta-aviões, que dá pelo nome de Notícias Lusófonas. É assim há 14 anos. É obra. É sim senhor!

Entre outros navios da esquadra, o Notícias Lusófonas está há 14 anos a descobrir novos mundos e a dar novos mundos ao Mundo da Lusofonia. É obra. Ou melhor, seria obra premiada se a Comunidade da Países de Língua Portuguesa, por exemplo, soubesse a diferença entre a força da razão e a razão da força...

Ou seja, como escreveu o maior dos maiores (Luís de Camões) “De África tem marítimos assentos/É na Ásia mais que todas soberana/Na quarta parte nova os campos ar/E se mais mundo houvera, lá chegara!”.

Pena é que os ilustres protagonistas dos areópagos políticos da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (alguém sabe o que isso é?) não queiram ver o contributo ímpar que o António Ribeiro tem dado à Lusofonia.

Mas, pelo contrário, os leitores do Notícias Lusófonas estão atentos. Ainda pouco se falava de Lusofonia quando, em finais de 1996, o António Ribeiro decidiu criar, na Internet, um espaço privilegiado para a comunicação entre todos os falantes da língua de Camões (hoje perto de 250 milhões), independentemente do local de habitação.

Mercê do apoio dos visitantes e sempre atento às suas aspirações, o António Ribeiro, com o seu “Portugal em Linha”, foi desenvolvendo novas secções e novos serviços.

Mas faltava ainda algo que, mesmo noutros serviços ou jornais existentes, ainda não estava concretizado: Um espaço de notícias para toda a Comunidade Lusófona.

Assim, em 1997, nascia o Notícias Lusófonas. Desde essa data publicou, primeiro mensalmente, depois quinzenalmente e, por fim - sempre respondendo às solicitações dos leitores - semanalmente, uma súmula de notícias acerca do que ia acontecendo um pouco por todas as Comunidades Lusófonas.

Sempre animado da sua velha (mas sempre nova) paixão pela Lusofonia, o António Ribeiro resolveu renovar o Notícias Lusófonas e fazer - uma vez mais - o que não existe em toda a Comunidade Lusófona: um jornal (digno desse nome) online com notícias dos vários países lusófonos e das comunidades lusófonas espalhadas pelo mundo, com actualização dinâmica e diária, contendo ainda entrevistas e artigos de opinião.

Já que os países da CPLP têm dificuldade em agradecer a todos (e não são assim tantos...) os que levam a carta a Garcia, premiando com extrema facilidade todos aqueles (e são cada vez mais...) que a deitam na primeira valeta que encontram, eu continuo a dizer: Obrigado António.

sexta-feira, julho 22, 2011

Portas amigo, o MPLA está contigo

A primeira deslocação oficial do ministro doe Negócios Estrangeiros da República de Portugal, Paulo Portas, foi a Angola. Nada mais natural, sobretudo no âmbito da diplomacia económica que pretende incentivar a OPA (Oferta Pública de Aquisição) do MPLA sobre Portugal.

No contexto da Lusofonia, folgo em saber que Paulo Portas visita um país lusófono em que 70 por cento da população vive na miséria. Quererá isso dizer alguma coisa? Não. Com certeza que não. Portugal tem outras preocupações bem mais petrolíferas.

Espero, contudo, que Paulo Portas não se esqueça de felicitar o único Estado da CPLP - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, à qual Luanda preside, que têm há 32 anos o mesmo presidente e que nunca foi eleito. Isto para além de ser (des)governado pelo mesmo partido, o MPLA, desde 1975.

Que importa que Angola seja de facto, que não formalmente, uma ditadura? Sim, o que é que isso importa tanto para o governo português como para uma Presidência supostamente social-democrata ou para um ministro democrata-cristão?

A única coisa que conta nas ocidentais praias lusitanas é o petróleo, que é um bem muito – mas muito - superior aos direitos humanos, à democracia, à liberdade, à cidadania.

Reconheça-se, contudo, que a hipocrisia não é uma característica específica de Portugal, se bem que tenha nela alguns dos seus mais latos expoentes.

A hipocrisia internacional, com Portugal em destaque,  é também (in)digna de registo, desde logo porque, por exemplo, a própria UNESCO projectou atribuir um prémio patrocinado pelo Presidente da Guiné-Equatorial, Teodoro Obiang Nguema, mais um dos grandes ditadores da actualidade.

Vê-se, por aqui, que a própria agência das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura chegou a equacionar dar cobertura a um dos mais infames ditadores mundiais, apesar de só estar no poder há... 32 anos. Mas tem petróleo, acrescente-se.

E como Angola tem petróleo (grande parte roubado na sua colónia de Cabinda), ninguém se atreve a perguntar a Paulo Portas se acha que Angola respeita os direitos humanos, ou se é possível que a presidência da CPLP seja ocupada por um país cujo presidente está no poder há 32 anos, sem ter sido eleito.

Reconheça-se, contudo, que tomando como exemplo Angola, a Guiné-Equatorial preenche todas as regras para ser um país amigo íntimo de Portugal, tal como foi a Tunísia, o Egipto ou a Líbia.

Paulo Portas, como não poderia deixar de ser, não vê o que se passa mas amplia o que gostava que se passasse. Vai daí não se cansa (embora sem a mesma efusividade de José Sócrates) de enaltecer os méritos do regime angolano.

É claro que em Angola, tal como nos restantes países da Lusofonia, existem muitos seres humanos que continuam a ser gerados com fome, nascem com fome e morrem, pouco depois, com fome. Mas, é claro, morrem em... português... o que significa um êxito também para Portugal.

Paulo Portas, tal como Cavaco Silva e José Sócrates, tem razão. O importante é mesmo os famintos e miseráveis da Lusofonia saberem dizer, em bom português, “não conseguimos viver sem comer”. Continuarão, como até aqui, sem comida, sem medicamentos, sem aulas, sem casas, mas as organizações internacionais vão perceber o que eles dizem.

Tal como perceberam que Portugal transferiu a presidência da CPLP, com todo o brilhantismo e à volta de uma mesa farta, para um país que, por exemplo, mantém forte presença militar e policial na sua colónia de Cabinda, que não respeita os direitos humanos e que é dos mais corruptos do mundo.

Mas o que é que isso importa? O importante é que Angola fala português, com ou sem acordo ortográfico, tem petróleo que nunca mais acaba (embora a partir de uma colónia) e, mais importante do que tudo, está em vias de resolver os problemas económicos de Portugal.

Problemas que acabarão quando a Oferta Pública de Aquisição, parcial ou total, lançada pelo regime do MPLA sobre Portugal se concretizar.

Mas, se a Tunísia, tal como a Argélia, o Egipto, a Líbia, a Venezuela ou a China, podem ser os grandes parceiros do reino lusitano, porque carga de chuva não se poderá dar o mesmo estatuto a Angola?

Recordam-se que, no dia 6 de Maio de 2008, o músico e activista Bob Geldof afirmou, em Lisboa, que Angola é um país "gerido por criminosos"? Ele disse, mas nem Cavaco, nem Sócrates, nem Passos Coelho, nem Paulo Portas ouviram.

E não ouviram porque as verdades são duras e o capataz do reino angolano, Eduardo dos Santos, não iria gostar que eles dissessem que ouviram.