sexta-feira, agosto 26, 2011

Palestinianos? Sim, com certeza. São os bons!
Tibetanos? Cabindas? Jamais. São os maus!


A China vai votar a favor da adesão do Estado palestiniano às Nações Unidas. Do Tibete nunca ouviram falar.

Já em Junho de 2007 o  Hamas declarava vitória, não sobre os israelitas, mas sobre os seus rivais da Fatah, afirmando que "estava garantida a libertação de Gaza e aberto o caminho para a criação de um Estado islâmico".

Na altura, as forças leais ao presidente Mahmoud Abbas (a quem a então secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, manifestara a solidariedade norte-americana) garantiam que nada estava decidido, que o Governo palestiniano (liderado por Ismail Haniyeh, do Hamas) seria dissolvido com base numa declaração de estado de emergência.

Mas, sem perder a memória, voltemos à actualidade. A garantia chinesa foi dada pelo presidente chinês, Hu Jintao, ao seu homólogo palestiniano, Mahmoud Abbas.

Isto porque, ao contrário do Tibete, e no dizer de   Hu Jintao, a "China sempre apoiou os direitos legítimos do povo palestiniano no estabelecimento de um Estado independente" em toda a Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental anexado por Israel.

Os palestinianos esperam obter, e consegui-lo-ão com certeza, o apoio de "mais de 150 países" dos 192 membros da ONU. Portugal (e se Pequim varre o Tibete para debaixo do tapete, Lisboa faz o mesmo em relação a Cabinda) deverá estar na primeira linha desse apoio, ou não tivesse – por exemplo – financiado (mais dois milhões de dólares) a construção do  novo estádio de futebol na cidade de Al-Kahder, nos arredores de Belém, na Cisjordânia.

Mahmud Abbas apresentará a 20 de Setembro um pedido de adesão plena do Estado palestiniano às Nações Unidas que será entregue ao secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, no dia de abertura da próxima Assembleia-geral da ONU, em Nova Iorque.

No final de Julho os palestinianos tinham já anunciado a sua intenção de pedir em Setembro ao Conselho de Segurança a adesão do Estado da Palestina à ONU e excluíram o retomar das negociações com Israel antes da Assembleia-geral.

Os palestinianos procuram uma adesão com plenos direitos à ONU e o reconhecimento da Palestina com as fronteiras que tinha na Cisjordânia, em Gaza e em Jerusalém Oriental em Junho de 1967, antes da Guerra dos Seis Dias e da anexação de territórios palestinianos por Israel, com o apoio dos EUA.

A "Palestina Vencerá" foi a palavra de ordem que mobilizou no dia 8 de Janeiro de 2009 três centenas de activistas frente à Embaixada de Israel na capital portuguesa, para condenar a invasão militar da Faixa de Gaza.

Em síntese, pode dizer-se que matar israelitas é um acto nobre mas que, pelo contrário, matar palestinianos é um crime. Há gente para tudo, sobretudo quando se está não só longe das coisas mas, sobretudo, longe da racionalidade.

O protesto, dito pacífico apesar de fazer a apologia da violência, foi convocado por um colectivo de partidos políticos, sindicatos, associações e organizações que, curiosamente, diziam defender a paz.

Sob o lema "Fim ao Massacre em Gaza", na concentração participaram sobretudo militantes de meia-idade, homens, que estavam em maioria sobre mulheres e jovens. A questão da idade é relevante. É que a idade não é sinónimo de juízo.

Havia faixas do tipo "Fim do Bloqueio a Gaza" e "Contra a Ocupação", chamando aos israelitas "Nazis Criminosos de Guerra" e defendendo uma "Palestina Pátria Livre e Soberana".

Este pessoal que ainda anda por aí não tem tomado a medicação correcta e teima em confundir Gaza com ganza e, é claro, aproveita as saídas precárias do hospício para vir para as ruas dizer asneiras.

Raquel Varela, directora de uma coisa dita de revista marxista-leninista, a Rubra, declarou nesse dia à Agência Lusa que "a grande mensagem - do protesto - é a de que num conflito entre desiguais a indiferença é cúmplice do mais forte".

"Estamos aqui pela vitória dos palestinianos e pela derrota absoluta do exército israelita", acentuou. Tanto quanto parece, o então primeiro-ministro israelita, Ehud Olmert, quando soube da ameaça de Raquel Varela mandou imediatamente retirar as tropas de Gaza.

Para Raquel Varela, "esta guerra só prova que terrorista é o Estado de Israel, com a cumplicidade dos Estados Unidos e da União Europeia, de onde vêm os financiamentos e as armas para permitir a matança indiscriminada de todo um povo aprisionado" na Faixa de Gaza.

Ora aí está. Na altura, também Barack Obama mandou um telegrama a Raquel Varela pedindo-lhe que fosse à Sala Oval (à Sala Oval?!?) da Casa Branca para o aconselhar (será que a tradução foi bem feita?) nas medidas a tomar contra os demónios dos israelitas.

Tanto quanto consegui apurar nessa época, Raquel Varela não terá ido aos EUA porque tinha agendadas para Lisboa mais uma série da manifestações em defesa das vítimas de Darfur, do Zimbabué, da República Democrática do Congo, da Somália, de Cabinda e de mais uma dúzia de países africanos onde ela apenas sabe que vivem... pretos.

Alma lusófona no coração do Porto


A proposta de “Olha lá” é recriar o Centro Histórico do Porto (CHP) através das artes de palco e das artes visuais.

A partir da recolha de estórias de vida das pessoas será criado um objecto híbrido que contemplará o teatro, a fotografia e a conversa.

 “Olha lá” é um ponto de encontro entre o CHP e as várias culturas lusófonas na cidade. Esta é uma produção da Associação 10pt - Criação Lusófona e está inserida na iniciativa Manobras no Porto, um programa de acção e de construção colectiva promovido pela Porto 2.0 que decorrerá no CHP na semana de 28 de Setembro a 2 de Outubro.

Desde Julho, o projecto “Olha lá” já realizou uma Oficina Participativa de Fotografia aberta a moradores do CHP e Lusófonos na Diáspora. O colectivo encontra-se de momento em ensaios para uma peça de Teatro a estrear a 29 de Setembro na arena do Abrigo dos Pequeninos, nas Fontainhas.

Dia 24 de Setembro inaugura uma Exposição de Fotografia resultante da Oficina e que revela um Porto que teima em se esconder dos nossos olhos, imagens plenas de quotidiano e de surpresa. Este evento terá lugar na Casa Museu Guerra Junqueiro que receberá ainda um Ciclo de Conversas em torno da lusofonia e da cidade do Porto.

Durante todo o mês de Setembro estará exposta pelas ruas da Cidade do Porto uma exposição fotográfica com retratos gigantes de moradores do CHP e comunidades Lusófonas na Diáspora. Com esta exposição de rua “Olha lá” pretende chamar a atenção de quem passa e desafiá-los a um novo olhar.

A 10pt - Criação Lusófona é uma plataforma criadora que produz projectos de intervenção cultural que desenvolvam novos campos de acção, estimulem o pensamento crítico e criativo, e a capacidade transformadora dos cidadãos. Os projectos da 10pt já foram apoiados a nível nacional pela Fundação Calouste Gulbenkian e pelo Instituto Camões, e a nível internacional pelas autarquias de São Vicente e da Cidade Velha, pela Universidade de Londres, entre outros.

Ciclo de Conversas
       Conversa 01 - Lusofonia:  “ Vamos comer A-gostinho ” – 24 Setembro
(reflexão sobre o Luso-Brasileiro e portuense Agostinho da Silva)
       Conversa 02 – Arte e Sociedade: “ Marginais? ”  - 30 Setembro
(em colaboração com o Instituto de Sociologia da UP - uma conversa sobre as comunidades à margem na cidade)
       Conversa 03 – Comunicação Lusófona: “ Fala: Corpo ” – 01 Outubro

Cabinda segundo Adriano Moreira


Os cabindas não exigem mais, e não se lhes pode pedir que exijam menos: «Optar por ser quem são».

«Nesta questão da globalização, em que circulam expressões como Estado-continente para designar os de maior extensão territorial e Estado-baleia para referir os das populações desmedidas, acrescendo o fenómeno dos grandes espaços que agregam várias soberanias cooperativas, as atenções desviam-se facilmente das pequenas identidades políticas, cuja autonomia de Governo não foi consagrada pela História, e olham com displicência para as que lhes parecem uma arqueologia de resíduos.

Casos como os do Mónaco, São Marino, Andorra, parecem amparados por um sobrevivente respeito dos ocidentais pela História, mas a dissolução da Jugoslávia, a desagregação da URSS, a complexidade do Médio Oriente, destinos como o do Tibete, encontram difícil amparo em escalas de valores participadas.

Nesta data, Cabinda é um território cuja situação tem de ser avaliada tendo em vista este conjunto de variáveis: um pequeno território com uma população de dimensão correspondente; multiplicação de soberanias interessadas no seu estatuto efectivo, num quadro internacional incerto, com todas as sedes de legitimidade em crise, bastando lembrar os efeitos que a segunda guerra do Iraque teve na consistência das solidariedades no Conselho de Segurança, na NATO, e na própria União Europeia.

Em primeiro lugar, acontece que o respeito pela identidade e vontade de ocupar um lugar igual na comunidade internacional não depende nem da dimensão territorial nem da expressão numérica da população: é um direito dos povos, que não foi limitado pela regra indicativa da ONU, no sentido de as fronteiras da independência serem as que tinham sido traçadas pela soberania colonizadora.

No caso de Cabinda, o ordenamento constitucional português, que durou até 1976, nunca impediu a afirmação reiterada da identidade específica de Cabinda, nem a especificidade do título que uniu Cabinda à coroa de Portugal, o anualmente e solenemente festejado Tratado de Simulambuco, em relação também, com expressão única, com o facto de os bustos dos reis portugueses em exercício por vezes assinalarem as sepulturas dos líderes políticos locais que faleciam.

A decisão de cada povo, com sentimento de identidade, convergir para espaços políticos mais vastos, optando por limitações de soberania, por grupos de soberanias cooperativas ou por autonomias regionalizadas, faz parte da liberdade com que organiza a preservação da sua identidade, não pode ser uma imposição exógena, que contrarie os princípios e valores a que a Carta da ONU vinculou a defesa da paz e da dignidade dos povos e dos homens.

É finalmente certo que o petróleo, como as antigas especiarias, tende para fazer esquecer as limitações que estavam implícitas na resposta do anónimo marinheiro de Vasco da Gama, e que Cabinda enfrenta o risco de ser absorvida pela percepção actual da África útil.

A resposta firme tem de adoptar a recente advertência do PNUD (2004): «São necessárias políticas multiculturais que reconheçam diferenças, defendam a diversidade e promovam liberdades culturais, para que todas as pessoas possam optar por falar a sua língua, praticar a sua religião e participar na formação da sua cultura, para que todas as pessoas possam optar por ser quem são.»

Os cabindas não exigem mais, e não se lhes pode pedir que exijam menos: «Optar por ser quem são.»

Nota: Artigo de Adriano Moreira publicado no Diário de Notícias em 30 de Novembro de 2004.

Cabinda segundo Joffre Justino


“Há, em Cabinda, na verdade, a necessidade de se clarificar o que pretende realmente o Povo de Cabinda – se a Independência, se uma Autonomia, que passe pela criação de um Estado do tipo Federal, ou pela criação de Regiões Autónomas como sucede entre Portugal e as Ilhas”.

Em 6 de Julho de 2006, Joffre Justino escrevia que “Nzita Tiago, Presidente da FLEC, declarou recentemente que desconhecia quaisquer negociações entre o Fórum de Cabinda para o Diálogo e o Governo de Angola, recordando que António Bento Bembe não se encontrava mandatado para desenvolver quaisquer negociações que representasse a FLEC, organização que dirige”.

«Para ser sincero, eu (e qualquer analista), entendo que a situação de Cabinda necessita de solução urgente. A Espanha está a resolver a questão com o País Basco e a ETA, a Irlanda resolveu o problema com o IRA, e a solução passou, sempre, pelo diálogo, pela negociação, sendo que, em ambos os casos, o mesmo aconteceu sem perca de posições de todas as partes”, afirmava Joffre Justino, acrescentando que “por isso mesmo a solução não passou pela sustentação de uma atitude laxista”.

Para Joffre Justino, “exemplo do erro que são as soluções laxistas está no processo de Descolonização português e na sequência de guerras civis e instabilidades em todos os países de expressão portuguesa nascidos com o 25 de Abril”.

“Compete, sem dúvida, ao Governo de Angola, manter a estabilidade no interior das suas fronteiras. Essa competência nada tem a ver, como se pode aprender com a Irlanda e com a Espanha, com a sustentação de um diálogo que encaminhe as partes para soluções não violentas”, afirmava Joffre Justino, para quem “há, em Cabinda, na verdade, a necessidade de se clarificar o que pretende realmente o Povo de Cabinda – se a Independência, se uma Autonomia, que passe pela criação de um Estado do tipo Federal, ou pela criação de Regiões Autónomas como sucede entre Portugal e as Ilhas”.

“Essa necessidade, segundo Joffre Justino, exige que o Povo de Cabinda tenha direito à palavra, directamente, e não por interposta pessoa das organizações que assumem a sua representação”, explicando que “esse direito à palavra, em Democracia, chama-se Referendo”.

Joffre Justino  alerta que “não é bom que as partes se iludam umas às outras, gerando “negociações” que não o são, porque afastam componentes desses mesmos representantes, o anulando negociações que podem sê-lo, retirando representatividades a quem pode tê-la, só porque “deixaram de agradar”».

«Como muitos sabem, nunca defendi a Independência de Cabinda”, diz Joffre Justino, explicando que, «em primeiro lugar, porque entendo que os Estados minúsculos, hoje sobretudo, só servem interesses não nacionais. Em segundo lugar, porque são evidentes os interesses de certas petrolíferas na fragilização daquela parte de África. Em terceiro lugar, porque ainda não se ouviu o mais interessado neste processo - o Cabindês».

«Como, pelo que eu pude estudar, Cabinda até foi uma das componentes que deu origem ao nascimento de Angola, a questão da Independência de Cabinda nunca foi, para mim, uma questão de decisão clara e adequada. É claro que já é bem claro para mim que Cabinda se revoltou e se revolta perante o ostracismo em que foi mantida, tendo em conta a riqueza que gera para toda Angola, e tendo em conta a posição explicita dos Católicos de Cabinda contra o regime comunista em Angola e depois contra o autoritarismo», escrevia Joffre Justino, acrescentando que «é também certo que vivemos, no que respeita a Cabinda, um momento difícil onde, inclusivamente, uma parte da Igreja Católica se mostra contra uma sua outra parte, até dado o radicalismo inerente a uma guerra civil que se prolonga».

«Neste contexto é pois necessário que predomine sobretudo o bom senso», opinava Joffre Justino, dizendo que isso «é o que por vezes tem faltado, ainda que no geral se tenha de entender que em um processo como este não se possa perder a noção de autoridade.»

«Em particular tendo em conta a noção que nos é transmitida pela potência das potências – os EUA – que volta a considerar Angola como região de risco forte de relacionamento com o terrorismo internacional. Diria que por detrás deste volte face está mesmo a relação preferencial de Angola com a República Popular da China, pois não se vislumbra qualquer alteração em Angola, a não ser esta», considerava Joffre Justino.

Da análise feita então por Joffre Justino, ressalta que “de novo surgem misturadas razões ditas políticas com razões de interesse económico explícito, o que não é, de forma alguma adequado, nem para as razões políticas, nem para as razões de interesse económico».

«No entanto, goste-se ou não, os EUA estão a mudar de posição, mais uma vez, no que diz respeito a Angola. E ao mudarem de posição, preparam-se, certamente, para tomar outras posições no cenário angolano, que podem passar por um apoio, directo ou indirecto, explícito ou não,  às Oposições Angolanas, FLEC incluída», perspectivava Joffre Justino, considerando que «perante tal, o Governo de Angola terá de analisar mais cuidadosamente do que faz, a metodologia e os objectivos que entendeu assumir para o caso Cabinda/FLEC/Igreja Católica».

«O que não impede de ser importante que todas as partes assumam o mais urgentemente possível, uma posição negocial, tal como fez o IRA, tal como fez a ETA. A bem de Cabinda, a bem de Angola, a bem da região envolvida», concluía Joffre Justino.

quinta-feira, agosto 25, 2011

… E o chefe do posto manda o sipaio dizer
que na Madeira não há falta de liberdade!


A Comissão para a Ética, a Cidadania e a Comunicação da Assembleia da República (Portugal) rejeitou uma audição de jornalistas sobre atentados à liberdade de informação na região Autónoma da Madeira.

O que mais seria de esperar? Se é isso que os donos dos jornalistas e os donos dos donos dos jornalistas querem, é que isso que conta. O resto são cantigas para embalar crentes.

O Sindicato dos Jornalistas (SJ) estranha a decisão e lamenta que as "averiguações parlamentares sobre direitos fundamentais continuem a depender da geometria variável das maiorias de turno".

Em comunicado divulgado esta tarde, o SJ considera que a audição – solicitada pelo Bloco de Esquerda – se impunha, quer pelos argumentos invocados, quer pela sucessão de graves acontecimentos na região que têm sido denunciados pelo Sindicato.

O SJ considera ainda que a autonomia regional não pode ser invocada como pretexto para rejeitar a audição, uma vez que as questões em causa “têm a ver com a problemática mais amplas da liberdade de imprensa na República”.

É o seguinte o texto, na íntegra, do Comunicado do SJ:

«1. A Direcção do Sindicato dos Jornalistas (SJ) foi surpreendida pela decisão da maioria parlamentar na Comissão para a Ética, a Cidadania e a Comunicação da Assembleia da República de rejeitar uma audição de jornalistas sobre atentados à liberdade de informação na região Autónoma da Madeira.

2. No entendimento do SJ, tal audição impunha-se pelas razões invocadas no requerimento apresentado pelo Bloco de Esquerda (anexo) e pela sucessão de graves acontecimentos na região que têm sido denunciados pelo Sindicato.

3. No entanto, de acordo com os relatos nomeadamente pela Agência Lusa, o CDS tentou empurrar o assunto para as instâncias da Região Autónoma da Madeira e para uma outra comissão – a dos Assuntos Constitucionais – e o PSD entendeu que cabe à Assembleia Legislativa da Madeira, “se entender por bem”, tratar dos assuntos referentes à região.

4. Acontece que os graves acontecimentos que o requerimento refere não se relacionam apenas com jornalistas e órgãos de informação daquela Região Autónoma, pois também envolvem – e ofendem – jornalistas e órgãos de informação do Continente, assim como claramente têm a ver com a problemática mais amplas da liberdade de imprensa na República.

5. Mas mesmo que, porventura, e apenas em tese, fosse possível aceitar que o objecto da discussão requerida fosse de âmbito “regional”, não se pode aceitar que a Assembleia da República adopte, em matérias desta gravidade, critérios diferentes para o desempenho da sua missão consoante a conjuntura parlamentar.

6. Com efeito, na legislatura passada, a requerimento do CDS-PP, a mesma Comissão procedeu – e bem! – a uma audição com objecto bem mais “regional”, relativo às condições da actividade da imprensa na regional, em particular as condições de concorrência entre o “Jornal da Madeira” e o “Diário de Notícias” da Madeira (relatório anexo), sendo evidente que, na altura, não prevaleceu qualquer escrúpulo de “respeito” pela autonomia da Madeira!

7. A Direcção Nacional do Sindicato dos Jornalistas, reafirmando a sua solidariedade para com todos os jornalistas que, em qualquer parte do território nacional, enfrentam as difíceis condições de exercício da profissão, especialmente no que diz respeito ao acesso à informação, repudia a rejeição da audição requerida e lamenta que as averiguações parlamentares sobre direitos fundamentais continuem a depender da geometria variável das maiorias de turno.»

O dono das ocidentais praias lusitanas

Para já, Portugal continua de cócoras perante o regime de Luanda, tal como estava em relação a Muammar Kadhafi que, citando José Sócrates, era “um líder carismático”. Talvez um dia chegue à conclusão que, afinal, Eduardo dos Santos também é um ditador. Não sei, contudo, se alguma vez o vai dizer. Tudo porque, de dia para dia, o presidente angolano está a tornar-se dono das ocidentais praias lusitanas.

http://www.angola24horas.com

Que seja eterno enquanto dure

"Esta casa pertence ao povo"


Piscina, mármores, ouro e todo o género de comodidades. Era assim a casa de Aisha, a única filha de Muammar Kadhafi, e que agora, depois do assalto dos rebelde a Tripoli, começa a ser conhecida e destruída.

Os líbios têm razões de sobre para tanta indignação, tal como um dia terão os angolanos se tiverem (o que é pouco provável) oportunidade de entrar nos palácios, palacetes e similares que o clã Eduardo dos Santos tem por esse mundo fora.

É claro que gastar 13 milhões de euros numa cubata na Quinta do Lago, no Algarve (Portugal), é o mínimo que se pode esperar de um presidente que tem 70% do seu povo a passar fome.

Apesar de ter adquirido a mansão, ou melhor, uma humilde cubata, recheada de luxos, José Eduardo dos Santos decidiu fazer algumas alterações no interior.

Tal como acontece com as casas do povo angolano, esta mansão  comprada em Portugal (cada vez mais um protectorado de Angola) foi equipada com o que de mais caro existe no mercado e é considerada uma das mais luxuosas moradias do empreendimento algarvio.

Segundo o maior diário português, Correio da Manhã, só o candeeiro que foi instalado na entrada da casa custou nada mais nada menos do que 600 mil euros. Os móveis e equipamentos da cozinha aproximadamente 700 mil euros, e o sistema de televisão cerca de 70 mil euros.

Mas voltemos à família de Muammar Kadhafi, um velho e grande amigo de José Eduardo dos Santos. Situada no distrito de Fashloom, a propriedade da filha do líder líbio, foi baptizada por alguns dos opositores como "o palácio da prostituta", escreve o "TheTimes".

A mansão de três andares é rodeado por um exuberante jardim, decorado com várias fontes. Há uma piscina interior, onde ainda bóiam os brinquedos dos netos de Muammar Kadhafi, uma casa para convidados e uma cozinha de luxo.

"Não posso acreditar que alguém viva desta maneira. Talvez em Bervely Hills, mas na Líbia...", explicou um dos habitantes que invadiram a casa.

Um dia talvez se venha a ouvir algum angolano a dizer algo semelhante. É que, apesar de blindados pelo petróleo, os ditadores acabam sempre por tombar.

A casa foi decorada com candeeiros luxuosos e com mármore a cobrir o chão. Debaixo de umas grandes escadas em caracol, há um sofá dourado, em forma de sereia e com a cara de Aisha.

Ao entrar no quarto principal, "fica-se sem ar", explica o repórter do jornal inglês, que descreve uma enorme cama, no centro daquela divisão, e na qual os rebeldes não tiveram qualquer dúvida em saltar.

Dentro do quarto, há ainda duas casas de banho, uma para mulheres e outra para homens.

A residência foi completamente destruída e foram pintadas nos muros frases como "Esta casa pertence ao povo", ou "Líbia é livre".

Como noutros tempos dizia o MPLA, o povo angolano reedita a tese de que a luta continua e a vitória é certa. Só falta derrubar o ditador.

Kadhafi e José Eduardo dos Santos

Se ao menos Kadhafi tivesse,
como Eduardo dos Santos,
comprado o reino lusitano…

O investimento público e o aumento do petróleo vai permitir a Angola, ou seja ao regime, ou seja ao clã Eduardo dos Santos, crescer 8% no próximo ano.

Os pobres também vão aumentar, mas esses não contam para a análise do Banco Mundial. O que conta é, ainda, que Angola, o segundo maior produtor petrolífero da África subsaariana, vai este ano crescer 5%.

Tudo, é claro, graças ao ouro negro. De facto, o petróleo representa mais de 50% do Produto Interno Bruto de Angola, 80% das receitas estatais e mais de 90% das exportações.

O mesmo mundo que derrubou, ou está em vias disso, Muammar Kadhafi, sabe que o presidente angolano está há 32 anos no poder sem ter sido eleito, mas isso pouco ou nada importa.

É claro que, segundo a bitola gerada pelo Ocidente, há bons e maus ditadores. Hoje, Muammar Kadhafi é mau e Eduardo dos Santos bom. Amanhã se verá.

Para já, Portugal continua de cócoras perante o regime de Luanda, tal como estava em relação a Muammar Kadhafi que, citando José Sócrates, era “um líder carismático”. Talvez um dia chegue à conclusão que, afinal, Eduardo dos Santos também é um ditador. Não sei, contudo, se alguma vez o vai dizer. Tudo porque, de dia para dia, o presidente angolano está a tornar-se dono das ocidentais praias lusitanas.

Alguém ainda se recorda, por exemplo, que em Março de 2009, no Palácio de Belém, só dois jornalistas de cada país tiveram direito a colocar perguntas a Cavaco Silva e a Eduardo dos Santos?

Recordam-se que um deles, certamente no cumprimento da sua profissão mas, é claro, à revelia das regras dos donos dos jornalistas e dos donos dos donos dos jornalistas, questionou Cavaco Silva sobre esse eufemismo a que se chama democracia em Angola, e perguntou a Eduardo dos Santos quando haveria eleições presidenciais no seu país?

Recordam-se que Cavaco Silva se limitou a... não responder e Eduardo dos Santos disse que não sentia falta de legitimidade, acrescentando que um dia haveria eleições presidenciais em Angola?

Recordam-se que no dia 3 de Setembro de 2008, quando  o mesmo Cavaco Silva falava na Polónia a propósito das eleições em Angola, disse o óbvio (uma das suas especialidades): “Desejo que as eleições ocorram com toda a paz, sem qualquer perturbação, justas e livres como costumam dizer as Nações Unidas nos processos eleitorais"?

Recordam-se que, nessa altura, como sempre, Cavaco Silva nada disse sobre o facto de quatro órgãos de comunicação social portuguesa - SIC, Expresso, Público e Visão – terem sido impedidos de entrar em Angola para cobrir as eleições que foram tudo menos justas e livres?

Afinal, hoje, Cavaco Silva, embora mais comedido, continua a pensar da mesma forma que José Sócrates, Passos Coelho ou Paulo Portas para quem Angola nunca esteve tão bem, mesmo tendo 68% dos angolanos na miséria.

De facto, como há já alguns anos dizia o Rafael Marques, os portugueses só estão mal informados porque querem, ou porque têm interesses eventualmente legítimos mas pouco ortodoxos e muito menos humanitários.

Custa a crer, mas é verdade que os políticos, os empresários e os (supostos) jornalistas portugueses (há, é claro, excepções) fazem um esforço tremendo (se calhar bem remunerado) para procurar legitimar o que se passa de mais errado com as autoridades angolanas, as tais que estão no poder desde 1975.

Alguém, pergunto eu, ouviu Cavaco Silva recordar que 68% da população angolana é afectada pela pobreza, que a taxa de mortalidade infantil é a terceira mais alta do mundo, com 250 mortes por cada 1.000 crianças? Não, ninguém pergunta até porque ele não responde.

Alguém o ouviu recordar que apenas 38% da população tem acesso a água potável e somente 44% dispõe de saneamento básico?

Alguém o ouviu recordar que apenas um quarto da população angolana tem acesso a serviços de saúde, que, na maior parte dos casos, são de fraca qualidade?

Alguém o ouviu recordar que 12% dos hospitais, 11% dos centros de saúde e 85% dos postos de saúde existentes no país apresentam problemas ao nível das instalações, da falta de pessoal e de carência de medicamentos?

Alguém o ouviu recordar que a taxa de analfabetos é bastante elevada, especialmente entre as mulheres, uma situação é agravada pelo grande número de crianças e jovens que todos os anos ficam fora do sistema de ensino?

Alguém alguma vez o ouvirá dizer que 45% das crianças angolanas sofrerem de má nutrição crónica, sendo que uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos?

Alguém alguma vez o ouvirá dizer que a dependência sócio-económica a favores, privilégios e bens é o método utilizado pelo MPLA para amordaçar os angolanos?

Alguém alguma vez o ouvirá dizer que 80% do Produto Interno Bruto angolano é produzido por estrangeiros; que mais de 90% da riqueza nacional privada é subtraída do erário público e está concentrada em menos de 0,5% de uma população; que 70% das exportações angolanas de petróleo tem origem na sua colónia de Cabinda?

Alguém alguma vez o ouvirá dizer que o acesso à boa educação, aos condomínios, ao capital accionista dos bancos e das seguradoras, aos grandes negócios, às licitações dos blocos petrolíferos, está limitado a um grupo muito restrito de famílias ligadas ao regime no poder?

Não. O silêncio (ou cobardia) são de ouro para todos aqueles que existem para se servir e não para servir.