sexta-feira, setembro 02, 2011

Se salvar sai caro… então morram!


O presidente e a coordenadora nacional da Autoridade dos Serviços do Sangue e da Transplantação de Portugal pediram hoje a demissão em protesto contra as intenções do ministro da Saúde de cortar as verbas daquele organismo.

“Recuso-me a permanecer aqui porque o meu lugar está esvaziado de funções. Não posso aceitar que haja doentes que se podem salvar mas que vão morrer porque o país está em dificuldades económicas”, disse à Lusa a coordenadora nacional das Unidades de Colheita de Órgãos, Tecidos e Células para Transplantação, Maria João Aguiar.

A demissão da coordenadora nacional surge na sequência das declarações “absolutamente desastrosas” do ministro da Saúde, Paulo Macedo, em entrevista à TVI nesta quinta-feira à noite.

Questionado sobre se os transplantes estariam em risco, o ministro Paulo Macedo admitiu que “pode não haver o mesmo número de transplantes”, explicando que é preciso perceber se o país “pode sustentar o actual número de transplantes”.

“O que pretendemos é manter um número de transplantes tão interessante e de qualidade como tem vindo a ser feito, mas claramente dando menos incentivos aos hospitais, porque também não é necessário. Estes incentivos visam um incremento e o que achamos é que não é necessário haver aqui um incremento”, acrescentou o ministro.

Perante as declarações do ministro, Maria João Aguiar e o director geral da Autoridade dos Serviços do Sangue e da Transplantação (ASST), João Rodrigues Pena, apresentaram hoje a sua carta de demissão ao ministério como “forma de protesto”, uma informação que o ministério já confirmou à Lusa.

“Enquanto médica e enquanto técnica para mim isto é absolutamente inaceitável”, disse Maria João Aguiar, acrescentando: “É muito difícil para os médicos aceitar que haja doentes que se podem salvar e vão morrer porque o país está em dificuldades económicas. Digam então às famílias dos doentes que temos de fazer cortes económicos para salvar o Serviço Nacional de Saúde e terão que morrer doentes.”

“Como é que um doente que está à espera de um transplante para sobreviver recebe estas notícias? A colheita não sobe nem desce por milagre, tem de ser apoiada”, sublinhou a responsável.

Em Agosto, o Governo decidiu cortar para metade os incentivos para a realização de transplantes, com efeitos retroactivos desde o início do ano.

A responsável refere que o anúncio de cortes aos incentivos previstos para a ASST tinham sido recebidos pelos responsáveis como “inevitáveis” face à actual situação do país: “Eu, com alguma ingenuidade, pensei que poderia tentar fazer o mesmo trabalho com metade [do orçamento] e que se iria tentar que os números da actividade não baixassem. Mas as declarações do senhor ministro [nesta quinta-feira] foram muito claras.”

Maria João Aguiar considera que as suas funções deixam de fazer sentido quando o ministério admite que o país está sem capacidade económica para manter o actual nível de colheitas e transplantes.

A responsável garante que as transplantações renais significam uma “poupança de milhões de euros” ao Estado: “A transplantação é a maneira mais económica para os doentes que vão continuar a gastar dinheiro ao Estado porque continuam em diálise se não são transplantados.”

Afirmou ainda à Lusa que decidiu enviar uma mensagem aos colegas que trabalham na área, apelando para que “continuem a ter em mente os doentes que estão em lista de espera, porque eles existem e sofrem todos os dias”.

Marcas que (não) ficam!


A empresa Global Notícias, do grupo Controlinveste, pretende despedir cinco jornalistas, além de outros trabalhadores, a pretexto do encerramento da revista “NS”.

O Sindicato dos Jornalista (SJ) repudia a intenção, quer por a empresa e o grupo possuírem diversos outros órgãos de comunicação social onde poderiam colocar aqueles trabalhadores, quer por estar na forja o lançamento de um novo suplemento, o que aumenta a capacidade de utilização da força de trabalho existente.

Em comunicado divulgado hoje, o SJ considera a intenção de despedimento “inaceitável e injustificável”, questiona a legalidade do procedimento da empresa, e advoga que a Administração da empresa “deve reanalisar os seus procedimentos e sobretudo encontrar uma solução justa para os jornalistas e outros trabalhadores, respeitando o seu direito ao trabalho e o direito à plena realização profissional e pessoal”.

É o seguinte o texto, na íntegra, do Comunicado do SJ:

«1. A Direcção do Sindicato dos Jornalistas repudia a intenção, completamente inaceitável e injustificável, da empresa Global Notícias, do grupo Controlinveste, de despedir cinco jornalistas, além de outros trabalhadores, com o mero pretexto de encerramento da revista “NS”, distribuída semanalmente com o “Jornal de Notícias” e com o “Diário de Notícias”, encerramento esse que o SJ lamenta.

2. Depois de terem recebido, na passada quarta-feira, a informação de que o último número da “NS” será distribuído amanhã, os jornalistas do quadro redactorial desta revista, mas que também produzem para a revista “Notícias Magazine”, igualmente distribuída com o JN e o DN, foram confrontados ontem com a dispensa do dever de assiduidade até ao dia 19 e a informação de que os respectivos postos de trabalho seriam extintos, com fundamento no encerramento da revista.

3. O procedimento da empresa é muito discutível quanto à legalidade da dispensa do dever de assiduidade – que os trabalhadores não são obrigados a aceitar – e é completamente inaceitável quanto aos fundamentos para o despedimento que tenciona fazer.

4. O SJ sempre defendeu que, havendo estrita e justificada necessidade de encerrar publicações ou diminuir os respectivos quadros, as empresas e grupos de media têm a obrigação de integrar nos quadros redactoriais de outros órgãos de informação os jornalistas que deixem de ter lugar naquelas.

5. O caso da “NS” comprova que o SJ tem todas as razões para defender essa solução justa, já que:

a) Apesar de pertencerem ao quadro redactorial da “NS”, os jornalistas em causa, produzem igualmente para a “Notícias Magazine”, pelo que não trabalhavam exclusivamente na revista que a empresa vai extinguir;

b) Embora estando adstritos, como devem estar!, a um órgão de informação, os jornalistas têm um vínculo contratual com a empresa Global Notícias, Publicações SA, pelo que é sua obrigação encontrar um novo posto de trabalho, no respeito pelos direitos e garantias dos jornalistas;

c) A empresa e o grupo em causa possuem um importante “portfólio” de órgãos de comunicação social – de jornais diários à televisão, passando por revistas e pela rádio – com algumas redacções manifestamente reduzidas para as necessidades;

d) Em algumas redacções, é tão manifesta a carência de jornalistas que estão a ser utilizados estudantes, apresentados como “estagiários”, inclusivamente em pleno período de férias escolares;

e) Hoje mesmo foi tornado público, através de declarações do director-geral de publicações do grupo ao “Diário Económico”, que o encerramento da “NS” se deve a uma simples operação de renovação de suplementos e que o DN vai apresentar em breve um novo suplemento focado na Cultura, do que resulta que, afinal, o grupo aumenta a capacidade de utilização da força de trabalho que possui;

f) Também hoje, o mesmo responsável, citado pela “Meios & Publicidade” começa por sustentar que, com o desaparecimento da “NS”, “a ‘Notícias Magazine’ sairá valorizada e enriquecida”, posição que só justifica o reinvestimento nesta revista, precisamente com a reafectação de jornalistas que têm a vantagem de já estarem identificados com ela;

g) Ainda na “Meios & Publicidade” (edição na Internet), o referido responsável informa ainda que no âmbito da “renovação” do portfólio de suplementos, vai ser lançada a revista “Fama”, iniciativa (aliás confirmada na edição de hoje do JN) que também comprova que a capacidade de produção necessita realmente de um reforço e não da dispensa de profissionais;

h) Na citada M&P, o mesmo responsável justifica a alegada “negociação da saída da empresa” dos jornalistas ameaçados de despedimento com o inaceitável argumento segundo o qual é o que acontece “sempre que uma marca acaba”, pois os jornalistas e outros profissionais não podem ser tratados como factores de produção descartáveis ao sabor das “renovações” de portfólios.

6. Além de não reconhecer o mínimo fundamento legal para a intenção de despedir jornalistas e outros trabalhadores, o SJ entende que a Administração da empresa deve reanalisar urgentemente os seus procedimentos e sobretudo encontrar uma solução justa para os jornalistas e outros trabalhadores, respeitando o seu direito ao trabalho e o direito à plena realização profissional e pessoal

7. Além de prestar todo o apoio – além da maior solidariedade para com todos os atingidos – aos seus representados, a Direcção do SJ vai solicitar a intervenção urgente da Autoridade para as Condições de Trabalho, se não forem devidamente acautelados os direitos e garantias dos jornalistas.»

Citando Silvio Berlusconi...

… e se a cabeça não tem neurónios?


O presidente da CIP - Confederação Empresarial de Portugal, António Saraiva, defendeu no passado dia 13 de Janeiro, em declarações à Lusa, que o Código do Trabalho devia sofrer alterações “enquanto a crise estiver instalada, nos próximos três anos”, para facilitar o crescimento económico.

Provavelmente tem razão. Penso que, por isso, deveria também incluir uma forma de suspender aqueles empresários, e não são tão poucos assim, que conseguem pôr as empresas em crise e as suas contas pessoais em manifesto crescimento.

“Não defendemos a alteração de todo o Código, mas para um período definido, enquanto a crise estiver instalada, nos próximos três anos, é preciso encontrar formas de o melhorar e optimizar, por exemplo nos contratos a prazo, encontrando uma limitação, um tecto para as indemnizações [em caso de despedimento] nos novos contratos”, disse António Saraiva.

Recorde-se, entretanto, que o anterior presidente da CIP considerou (28 de Maio de 2009) que o aumento dos despedimentos colectivos era consequência directa da lei que proíbe rescisões amigáveis .

Já nessa altura, como hoje e certamente como amanhã, Francisco Van Zeller esqueceu-se de dizer que muitos dos despedimentos, colectivos ou não, são consequência de muitos empresários terem uma clara vocação para tudo, menos para serem empresários.

Tal como com Francisco Van Zeller, também agora com António Saraiva, ninguém lhes pergunta porque razão há empresas a dar lucro e que optam por despedir ou, ainda, porque razão muitas empresas alegam dificuldades para despedir e logo a seguir admitem novos funcionários.

Será que a CIP não vê que Portugal está inundado de empresas geridas pelos filhos dos velhos patrões e que, devido ao facto de o dinheiro ter caído do céu, apenas sabem pensar com a cabeça que não tem nenhum neurónio?

Em declarações ao Jornal de Notícias em 17 de Fevereiro de 2009, Francisco van Zeller referiu que estava por provar que haja empresas a aproveitarem-se da actual conjuntura para encerrar.

À pergunta: “Há empresas com lucros elevados no ano passado e que este ano já anunciaram despedimentos por perspectivarem uma quebra dos resultados. Como comenta?”, Francisco van Zeller disse:

“É uma forma de gestão que sempre se usou e que se baseia no princípio de que os ajustes se devem fazer enquanto há dinheiro. Isso é a situação normal que sempre houve, porque em condições normais essas pessoas despedidas conseguiriam encontrar outro emprego. Na situação actual, parece-me um bocadinho mais vergonhoso. Mas as empresas têm uma grande capacidade de previsão e sabem se os contratos para daqui a seis meses já estão a falhar, podendo optar por começar já a dispensar pessoal para acertar as despesas. Tem de ser visto caso a caso e não se pode atirar pedras a empresas que estão muitas vezes a fazer o melhor que sabem e a tentar proteger os trabalhadores.”

Ou seja, segundo o então presidente da CIP, despedir quando há lucros é vergonhoso. Mas como vergonha é coisa que não consta do léxico de muitos dos empresários portugueses, vale tudo. E até, se necessário, é sempre possível contratar especialistas para provarem que não ter vergonha é uma qualidade (vidé os políticos).

Quando um grupo mistura no mesmo saco empresas que dão lucro com outras que não dão, certamente consegue um resultado favorável à tese do prejuízo, actual ou futuro. É fácil, barato e até dá milhões.

Engraçado foi ver nessa altura o presidente da CIP, no seu legítimo papel, dizer – e bem – que “não se pode atirar pedras a empresas que estão muitas vezes a fazer o melhor que sabem e a tentar proteger os trabalhadores”.

E é engraçado porque Francisco van Zeller sabia, melhor do que qualquer outro, que essas não são a regra, nem esse é o princípio basilar de muitas empresas que são geridas por quem só tem capacidade técnica, escolar, intelectual, para ser arrumador de carros. E mesmo assim...

Dito de outra forma, Francisco van Zeller sabia que basta ter dinheiro (com a origem do qual ninguém se preocupa) para ser empresário ou, pelo menos, para ser dono de uma empresa.

Francisco van Zeller também sabia, como sabe António Saraiva, que muitas empresas vão à falência embora, é claro, os seus donos continuem ainda mais ricos. Tal como sabia, embora não diga, que se tivesse de escolher, muitos dos seus “colegas” empresários não os queria nem mesmo para arrumar carros.

O Alto Hama aplica medidas da “troika”


Entre outras medidas acordadas no memorando de entendimento com o Fundo Monetário Internacional, o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia (a troika), a Administração deste blogue terá de, este mês, apresentar uma descrição detalhada das medidas para alcançar uma redução nos custos operacionais em 2011 e 2012. Assim, continuaremos a viver sem comer.

quinta-feira, setembro 01, 2011

Viver sem comer, morrer sem ficar doente

O Governo português vai decidir este mês o aumento das taxas moderadoras.

Aos portugueses é pedido que, para além do uso de velas (o IVA da electricidade passou de 6% para os 23%), morram o mais depressa possível para, assim, ajudarem a pôr o défice onde os donos do país querem. 

O aumento será superior à inflação, além da redução das isenções, mas as "pessoas de menores recursos" deverão manter-se isentas no acesso à saúde, anunciou o ministro da tutela. Não é certo, deverão. 

"Haverá menos isenções do que o número que existe actualmente, haverá também algum agravamento, designadamente diferenciado", uma medida que deverá ser decidida em Conselho de Ministros ainda em Setembro, afirmou o ministro Paulo Macedo, em entrevista ao Jornal da Noite, da TVI. 

Segundo o governante, uma das áreas onde o aumento das taxas poderá ser maior é no acesso às urgências. 

Acho muito bem. Se os portugueses já se estão a habituar a viver sem comer, bem poderão aprender a morrer sem ficar doentes. É tão simples quanto isso. 

"Como sabemos, hoje em dia, as taxas moderadoras não moderam o acesso às urgências. Não se moderou esse consumo", disse Paulo Macedo, que admitiu que as urgências são uma área em que poderão registar-se "alguns aumentos percentuais superiores". 

Sobre o valor do aumento das taxas moderadoras, o ministro lembrou que o que está previsto no memorando da 'troika' da ajuda externa "é um aumento das taxas moderadoras e depois um acompanhamento através da inflação". 

"Por isso", acrescentou, "o aumento das taxas moderadoras será superior à inflação". 

A subida dos valores cobrados aos utentes dos serviços de saúde "vai ter em conta o rendimento das pessoas" e "será um aumento diferenciado entre cuidados primários e hospitalares", disse ainda o ministro. 

Paulo Macedo adiantou que o projecto do seu ministério é que mantenham as isenções "as pessoas de menores recursos, designadamente desempregados e abaixo do salário mínimo nacional". 

Não percebo esta benesse do Governo. Se já têm o privilégio de estar desempregados, de ter menores recursos, porque carga de chuva haveriam de ter isenções para ir ao médico ou ao hospital? É que assim o país não vai lá. 

Essas isenções deveriam ser apenas para cidadãos trabalhadores que, como Américo Amorim, não são ricos. Esses sim, merecem.

Sobre o impacto esperado do aumento das taxas, o ministro escusou-se a especificar um valor: afirmou que "o aumento de proveitos não terá qualquer comparação com a redução de custos" no sector da saúde (estimados em 11% para o próximo ano) e acrescentou que o Governo espera "um valor mais substancial" do que os cem milhões de euros por ano de impacto actualmente.

Não é caso para os portugueses dizerem que estão entregues à bicharada. Isto porque a bicharada não gosta de se alimentar de corpos esqueléticos, famintos e em estado terminal.

Agir não é com a malta da ERC. Mas para disfarçar lá vão reagindo... a bem da Nação!


A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) de Portugal considerou hoje que a alegada espionagem ao telemóvel do jornalista Nuno Simas representa, a confirmar-se, um “grave atentado à liberdade de imprensa e aos direitos dos jornalistas”.

A ERC é uma entidade que ajuda a fingir que Portugal é um Estado de Direito. Dá uma no cravo e outra na ferradura, não… nem sei de cima, empata para manter o estado das coisa.

E assim sendo, não age mas reage, não quer saber o que se passa com os jornalistas, mas preocupa-se (reconheça-se) com os donos dos jornalistas e com os donos dos donos dos jornalistas.

Como é natural, quando é chamada a dizer de sua justiça mostra quanto impoluta é a sua tarefa, a bem de qualquer coisa, pode – com certeza – ser da nação, sempre no estrito cumprimento não da verdade mas do que – mesmo sendo mentira -  o Poder diz que é a verdade.

Foi por isso, por exemplo, que arquivou o processo sobre alegadas pressões políticas e económico-financeiras aos meios de comunicação social, denunciadas pelo director do jornal Sol. Razões? Não terem ficado provadas as denúncias feitas.

"Considera o conselho regulador da ERC que, ponderados os depoimentos prestados perante a ERC e tudo o que foi possível apurar-se na documentação junta ao processo, não ficaram provadas as pressões políticas e económico-financeiras denunciadas pelo director do jornal Sol", referiu na altura e a entidade.

Sendo regra no reino que nada se prove, mas que tudo se transforme, a ERC não poderia fugir aos ditames. Não sei, aliás, se até no Burkina Faso os jornais ou jornalistas recebem documentos com assinatura reconhecida a dizer “isto é uma pressão política e económico-financeira”, ou “isto é uma escuta ilegal”

É que se não recebem nunca poderão provar. De resto, os jornalistas em Portugal são despedidos à medida e por medida, os directores são seleccionados pela mesma regra, a publicidade é direccionada consoante o “bom” ou “mau” comportamento da Imprensa... mas nada disso é passível de ser provado.

A 26 de Novembro de 2009, a ERC anunciou a abertura de um processo de averiguações relativo a alegadas interferências do Governo em alguns órgãos de comunicação social, nomeadamente no Sol, denunciadas pelo director daquele título, José António Saraiva, à revista Sábado.

"Uma pessoa do círculo próximo do primeiro-ministro e que conhecia muito bem a situação do jornal e a relação com o banco BCP disse-nos que os nossos problemas ficariam resolvidos se não publicássemos a segunda notícia do Freeport", disse José António Saraiva citado pela revista.

No mesmo artigo, a Sábado adiantava ter havido discriminação por parte do Governo e organismos públicos na distribuição de publicidade institucional a jornais nacionais.

Ouvido em Dezembro pela ERC, o director reiterou a denúncia adiantando que foram feitas "tentativas de 'chantagem' sobre a sua direcção editorial e de 'estrangulamento' económico-financeiro", com o objectivo de condicionar a linha editorial do Sol ou mesmo de extinguir o jornal.

Todos os que não são imbecis porque procuram saber o que se passa à sua volta sabem que, de facto, o que José António Saraiva afirmou acontece, sobretudo naqueles poucos meios que ainda não aceitam ser criados, mesmo que de luxo, do poder.

Mas não basta saber. Até mesmo quando a Polícia grava conversas sabe que, dependendo dos escutados, a verdade de hoje pode ser mentira amanhã. O pilha-galinhas sabe sempre que é o culpado de tudo. No entanto, se for dono do aviário pode ficar descansado que nada lhe acontece.

"Falei [à ERC] das pressões que foram exercidas sobre a direcção do Sol por pessoas próximas do primeiro-ministro para não publicarmos notícias sobre o caso Freeport", contou José António Lima, director adjunto,  depois da sua audição.


No entanto, a ERC considera do alta da sua divina sabedoria ser impossível provar as acusações, já que a origem de uma das alegadas pressões políticas "não foi identificada por escusa do jornalista" e a outra "não foi confirmada por flagrante contradição dos declarantes".

Por outro lado, refere o organismo, "não ficou provado que a mudança na administração do grupo BCP, ocorrida em Fevereiro de 2008, tivesse alterado a conduta e a estratégia da BCP Capital (...), não podendo, por conseguinte, dar-se como confirmada a existência de pressões de natureza política do BCP sobre o semanário Sol".

Aliás, segundo José António Saraiva, foi da boca de José Sócrates que ouviu a afirmação de que “a melhor forma de controlar a imprensa é controlar os patrões”.

Há já uns anos, o então secretário-geral da ONU defendeu uma tese que se tornou suicida no caso português. Kofi Annan disse que os jornalistas “deveriam ser agentes da mudança”.

Eles tentaram, o que aliás sempre fizerem, mudar a sociedade para melhor. Acontece que o seu conceito de sociedade melhor não é igual ao dos donos do reino. E a resposta não se fez esperar: Jornalista bom é jornalista desempregado.

Nos últimos anos, pelo menos 181 jornalistas das redacções do Porto de vários órgãos de comunicação social perderam o emprego, 54 dos quais no despedimento colectivo, inédito na Imprensa portuguesa, levado a cabo pelo grupo Controlinveste (JN, DN, 24 Horas e “O Jogo”).

O Povo passa fome, mas mesmo assim...

A ordem, embora em fatias, já foi decretada:
- Mais impostos sobre os que vivem sem comer

Sempre que o Governo de Passos Coelho abre a boca saem novos impostos. A procissão ainda vai no adro, mas é já possível dizer que o primeiro-ministro transformou José Sócrates num ingénuo pilha-galinhas.

Como se já não bastasse entrar descarada e criminosamente  nos  bolsos dos portugueses, o Governo resolve todos os dias pô-los  de pernas para o ar, numa voraz sofreguidão  para ver se não há nenhum cêntimo escondido nas dobras das calças rotas.

Para os super-especialistas do Governo, que se lixem os 800 mil desempregados, os 20% que (ainda) vivem sem comer e outros 20% que (ainda) vivem com o espectro da fome a bater à porta.

Se eles, Passos Coelho e companhia, entendem que devem roubar aos milhões que têm pouco, ou nada, para dar aos poucos que têm milhões, os portugueses têm de sair à rua e usar o seu legítimo direito à indignação, mesmo que para isso seja necessário pagar na mesma moeda do Governo: olho por olho, dente por dente.

Vão acabar cegos e desdentados? Talvez. Mas para quem só vê os outros a comer tudo e a não deixar nada, pouco diferença fará ter olhos e dentes…

Para além de tudo (impostos e mais impostos, desemprego e mais desemprego, miséria e mais miséria) o governo de Passos Coelho está a tratar os cidadãos como uma casta menor, intelectualmente estúpida.

O líder do governo disse na campanha eleitoral, importa não esquecer e recordar sempre,  que não aumentaria a carga fiscal. Mudam-se os tempos, mudam-se as exigências, mantêm-se os burros de carga. Tão burros, segundo o Governo, que vão agora pagar tudo o que os super-cérebros do PSD entendam como necessário para que os amigos, os assessores, os amigos dos amigos, continuem a chular o país à grande.

Ao passar, entre outros exemplos, o IVA da electricidade dos 6% para os 23%, mantendo os bilhetes de futebol nos 6%, o que estará a pedir esta corja de oportunistas?
Justificar, como o fez na sua habitual “câmara lenta” o ministro das Finanças, que "a esmagadora maioria dos países da União Europeia paga a electricidade à taxa máxima de IVA", é também uma forma de dizer aos consumidores que são uma cambada de matumbos.

Tão matumbos  que, pensará o super-ministro, nem sabem que o seu nível de vida é dos mais fracos dessa mesma Europa.

Por enquanto, mesmo tendo de aprender a viver sem comer, os portugueses continuam a ser “um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora,  aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice”.

Os portugueses, ao que parece, “já nem com as orelhas são capazes de sacudir as moscas” porque são “um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta”.

Os portugueses continuam a aceitar “uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro”.

Os portugueses continuar a aceitar  “um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País”.

Mas, creio eu, tantas vezes hão-de ir aos pratos vazios que um dia destes vão fazer a casa ir abaixo. 

E os bons só são os do... MPLA