sexta-feira, fevereiro 03, 2012

Governador colonial apupado em Cabinda

O governador da colónia angolana de Cabinda, Mawete João Batista, foi ostensivamente apupado no principal estádio local de futebol, Chiazi, por ocasião de um jogo particular entre Angola e os Camarões.

Quando o colonizador chegou à tribuna e acenou à assistência recebeu um apupo monumental, representativo do sentimento que o povo nutre por aqueles que teimam em retirar-lhe a sua histórica identidade.

Mawete João Batista foi nomeado governador da colónia de  Cabinda em 2010. É, obviamente, um colonizador da confiança de José Eduardo dos Santos e que, de acordo com as instruções do regime, impõe a razão da força, estando-se nas tintas para uma coisa que não sabe o que significa: a força da razão.

Mawete João Baptista continua a exortar os militantes do MPLA  no sentido de intensificarem as suas acções de mobilização das populações e, é claro, a manterem mais activas as estruturas de base nos bairros periféricos da cidade.

Tudo porque afinal, afirma Mawete João Baptista, ainda é preciso defender a paz e o progresso social, o que – está bem de ver - só é possível se o MPLA, que está no poder desde 1975, por lá fique aí mais uns… 50 anos.

Para mostrar a vitalidade do MPLA, Mawete João Baptista condecorou recentemente 24 militantes com as medalhas de 17 de Setembro, 10 com as de militante de Vanguarda 1º grau, 20 mereceram as de 2º grau, 30 com as de 3º grau e 34 as distinções de medalha de Deolinda Rodrigues e por último 12 com as medalhas militantes de Vanguarda - Hoji Ya-Henda.

Esta acção de Mawete João Baptista recorda-me, por exemplo, um seminário de formação de formadores, marcou o lançamento do programa de formação política e patriótica dos dirigentes, quadros, militantes e amigos da JMPLA e teve lugar também na colónia angolana de Cabinda.

Tal e qual como nos tempos da militância marxista-leninista do pós-independência (11 de Novembro de 1975), o regime angolano continua a reeducar o povo tendo em vista e militância política e patriótica. E tanto a militância política como a patriótica são sinónimos de MPLA.

Basta ver, mas sobretudo não esquecer, que o regime mantém, entre outras, a estrutura dos chamados Pioneiros, uma organização similar à Mocidade Portuguesa dos tempos de um outro António. Não António Agostinho Neto mas António de Oliveira Salazar.

Num Estado de Direito, que Angola diz – pelo menos diz – querer ser, não faz sentido a existência de organismos, entidades ou acções que apenas visam a lavagem ao cérebro e a dependência perante quem está no poder desde 1975, o MPLA.

Dependência essa que, como todas as outras, apenas tem como objectivo o amor cego e canino ao MPLA, como se este partido fosse ainda o único, como se MPLA e pátria fossem sinónimos.

Na acção então levada a cabo pelo regime na sua colónia de Cabinda, os trabalhos incidiram sobre "Princípios fundamentais e bases ideológica do MPLA", "Discurso do Presidente José Eduardo dos Santos na abertura do VI Congresso do partido", "Princípios fundamentais de organização e funcionamento da JMPLA" e " O papel da juventude na conquista da independência Nacional e na preservação das vitórias do povo angolano".

Nem no regime de Salazar se fazia um tão canino culto do regime e do presidente como o faz o MPLA, só faltando (e já esteve mais longe) dizer que só existem Deus no Céu e José Eduardo dos Santos na terra.

Não nos esqueçamos, por exemplo, que o regime tem comandantes militares cuja exclusiva função é a Educação Patriótica.

Tantos anos depois da independência, dez depois da paz, a estrutura militar continua a trabalhar à imagem e semelhança dos Khmer Vermelhos de Pol Pot.

Regressemos a Mawete João Baptista, um governador colonial que recentemente mostrou ao mundo que os colonialistas vão apostar no progresso de Cabinda.

Falando em Cabinda, afirmou que o programa do governo que visa a abertura de picadas em toda a extensão da colónia (ele, como Salazar fazia em relação a Angola, chama-lhe província), com destaque para os municípios do interior, demonstra a vontade do executivo em responder os apelos das populações visando o seu bem estar social e a sua inclusão social e segurança na sua mobilidade.

Mawete João Baptista apontou que é objectivo do Governo colonial criar cada vez mais as condições necessárias para as populações, sobretudo as que vivem em áreas de difícil acesso, para que se sintam também incluídos nos programas ajuizados pelo governo, nomeadamente, na saúde, na educação e no ensino, na água potável, na energia e em especial terem uma segurança total para o exercício das suas actividades no campo.

“Nós estamos gratos por esse esforço que corresponde com a alegria das populações nessas áreas”, disse Mawete João Baptista, para mais adiante sublinhar que a abertura das picadas inoperantes há mais de 30 anos, no caso de Alto Sundi - Sanda Massala (Belize), Quissamano - Necuto (Buco-Zau) e o melhoramento (asfaltagem) da estrada que liga a Comuna de Dinge (Cacongo) e a de Necuto (Buco-Zau), permitem hoje garantir o exercício cabal da administração do estado.

Mawete João Baptista indicou ainda que o governo colonial vai continuar a abertura de outras picadas ao longo de toda a fronteira com os dois países vizinhos os Congos Brazaville e RDC por formas a permitir que haja um melhor controlo das populações e da segurança.

 “As nossas aldeias vão poder ser visitadas e beneficiar de programas do governo para seu bem-estar social. Teremos melhor segurança e evitaremos elementos que antes se aproveitavam para se instalar nessas aldeias isoladas devido a falta de estradas ou picadas onde preparavam acções contra as nossas populações já não o farão”, exortou o governador da colónia.

Apesar de mais de 70% das exportações angolanas de petróleo terem origem na sua colónia de Cabinda, o máximo que o regime colonial do MPLA dá ao povo são umas picadas por onde vão passar, é claro, os milhares de militares que lá tem e que – como força de ocupação – visam neutralizar qualquer tipo de resistência.

Deus abençoe o “querido lider”

Se, como diz Passos Coelho, "uma nação com amor próprio não anda de mão estendida", um português com amor próprio também não.

E para que um cidadão não ande, apesar da barriga cada vez mais vazia, de mão estendida, o melhor que tem a fazer é aprende a viver em silêncio sem comer ou, em alternativa, estender a mão mas tendo entre os dedos uma pistola.

O primeiro-ministro, na versão Pedro Miguel Passos Relvas Coelho, defendeu hoje  que ao executar o programa de assistência está a fazer o que se pede ao governo "de um país honrado" e que se os compromissos forem cumpridos, Portugal "volta-se a erguer".

Tem razão. Se os portugueses cumprirem o que quer o governo não voltarão a erguer-se, mas permitirão que os donos do país continuem bem direitos e a viver à grande, seja nas ocidentais praias lusitanas ou em qualquer outro paraíso, fiscal ou não.

"A cada 15 dias destes debates, começa a faltar imaginação para pôr questões e mostrar pontos de vista", afirmou Passos Coelho, depois de ter sido confrontado no debate quinzenal no Parlamento pelo líder do PCP, Jerónimo de Sousa, com o "calvário para as populações" que representam as medidas de austeridade.

Qual calvário, qual austeridade. Alguém acredita que a vida dos mais de 800 mil desempregados, dos 20 por cento de pobres e dos outros 20 por cento cuja grande ambição é terem comida no prato, é um calvário?

Só o ano passado foram encontrados mortos em casa 2.872 cidadãos. Alguém acredita que foi por causa da austeridade?

Na abertura do debate quinzenal, Jerónimo de Sousa considerou que "a vida está a dar razão" ao PCP e que as consequências para o país "do pacto de agressão" são "um calvário para as populações".

"Um novo recorde de desemprego, com mais uns milhares empurrados para a vida precária, muitos para a miséria e para a pobreza", assinalou o deputado do PCP, que acusou o Governo de "esconder a realidade" com "o matraquear da ideologia".

Será que o PCP ainda não percebeu que não adianta contestar as teses de quem é dono da verdade? De quem é o “querido líder” de um regime esclavagista?

Na resposta, Pedro Miguel Passos Relvas Coelho acusou os comunistas de aproveitarem "casos que são dolorosos e o custo que tem para os portugueses a situação em que o país mergulhou" e defendeu que "a verdade" é que o Governo está "a apresentar resultados e a defender os portugueses da crise que se está a abater".

É assim mesmo. Um “querido líder” é isso aí. Retira os amigalhaços da confusão, trata a plebe como ela deve ser tratada e assim garante a apresentação de resultados.

O primeiro-ministro pediu ainda "honestidade" ao secretário-geral comunista: "A situação a que o país chegou não se deve, com certeza, a vários anos da minha governação". É claro que não. Aliás, o PSD só ontem (ou terá sido só hoje?) é que chegou ao governo de Portugal.

Por alguma razão Cavaco Silva (julgo que pertence ao PSD) só foi primeiro-ministro  de 6 de Novembro de 1985 a 28 de Outubro de 1995.

"Uma nação que tem amor próprio não anda de mão estendida, nem a lamentar-se, cumpre os seus compromissos e volta-se a erguer, é esse o custo que o país sabe que tem de cumprir para sair da situação em que está e os portugueses terão muito orgulho em poder fazê-lo, porque não querem manter, como tiveram nos últimos dez anos, uma economia que não cresce e um desemprego a crescer continuamente", declarou Pedro Miguel Passos Relvas Coelho.

Na verdade os portugueses estão com Passos Coelho. E, para isso não vão andar de mão estendida (têm orgulho próprio) e vão conseguir atingir o desiderato requerido pelo Governo. Como? Morrendo, por exemplo. Mas, neste caso, a culpa não será com certeza do Governo porque este está a fornecer-lhes todos os instrumentos para terem sucesso…

O Vasco do nosso contentamento

O recém-empossado presidente do Centro Cultural de Belém (CCB), Vasco Graça Moura, fez distribuir – escreve o Público – uma circular interna na qual dá instruções aos serviços do CCB para não aplicarem o Acordo Ortográfico e para que os conversores sejam desinstalados de todos os computadores da instituição.

Considero, sobretudo dada a disparidade das forças em confronto, que a luta pelo português de Portugal está condenada à derrota. Apesar disso, continuo a entender que só é derrotado quem desiste de lutar. Ora desistir é algo que me recuso a fazer, mesmo sabendo que do outro lado está uma força monumentalmente maior em todos os aspectos, sobretudo no número de falantes.

Sou, portanto, contra o Acordo Ortográfico. Admito, quando muito, que se deixe que sejam o tempo e os protagonistas a transformar a língua, a dar-lhe eventualmente diferente grafia, tal como acontece com a introdução de novos termos.

É claro que existem letras que, no português de Portugal, podem ser suprimidas sem que venha grande mal ao mundo. Mesmo assim, também não viria grande mal ao mundo se o meu Bilhete de Identidade disse que eu nasci no “uambo”. Mas a verdade é que eu nasci no “Huambo”.

Se o sapato português já foi «çapato» e a farmácia foi «pharmácia», é bem possível que, de forma natural, também o facto passe um dia a fato. Mas a forma natural é deixar a língua fazer a sua viagem ao logo dos anos, das décadas, dos séculos, sem as amarras que lhe querem pôr.

E o que defendo para Portugal, defendo para qualquer outro dos países lusófonos. É legítimo que os brasileiros, não só porque são especialistas em inventar palavras, mas, sobretudo, porque podem impor a razão da força dos seus muitos milhões de cidadãos, queiram neutralizar a força da razão daquela “meia dúzia” de tugas que estão nas ocidentais praias lusitanas.

Não cabe aos que defendem o português, contudo, abdicar e atirar a toalha ao tapete quando podemos ser poucos, mas podemos ser bons (sem querer dizer que os outros são maus). Creio, aliás, que a língua ainda é das poucas coisas que são verdadeiramente nossas. Tudo o resto é “made in” qualquer outro país.

Por isso, esta é para mim, uma questão de identidade e de honra que deve continuar a ter as suas próprias características, respeitando a dos outros e convivendo em sã harmonia com as diferenças.

Aliás, quando me falam de harmonização (seja do que for) cheira-me logo a algo hitleriano. Por isso, custe o que custar, não serei eu a render-me a um acordo ortográfico contra-natura e violador das diferenças que são, aliás, a grande força da Lusofonia.

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

Acabem com a CPLP a bem da Lusofonia

A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) inaugura na segunda-feira a sua nova sede em Lisboa, um espaço maior e com mais funcionalidades, que os seus dirigentes acreditam permitirá abrir a organização à sociedade.

Segundo Vasco Graça Moura, novo presidente do Conselho de Administração da Fundação Centro Cultural de Belém, “a CPLP é uma espécie de fantasma que não serve para rigorosamente nada, que só serve para empatar e ocupar gente desocupada”

O novo espaço, que ocupa o Palácio Conde Penafiel, na zona do Largo do Caldas, na baixa de Lisboa, inclui auditório, biblioteca e centro de documentação, além de salas de reuniões, gabinetes de trabalho e um salão nobre, onde serão recebidas entidades oficiais.

"Fica facilitada a nossa intenção de promover um contacto mais directo com a comunidade", disse à agência Lusa o secretário-executivo da organização, Domingos Simões Pereira, adiantando que a ideia é atrair a comunidade académica e promover encontros com as várias comunidades lusófonas que vivem em Portugal.

"Este conjunto de movimentos deverá permitir que a CPLP seja mais conhecida e esteja mais presente no dia a dia dos cidadãos", considerou, lembrando que as anteriores instalações, na Lapa, não ofereciam condições para estas iniciativas.

Ao longo dos primeiros 15 anos de existência, a CPLP, criada a 17 de Julho de 1996, pretendeu (embora sem êxito) afirmar-se como organização de concertação politico-diplomática e de cooperação, sendo frequentemente criticada por não conseguir chegar às sociedades dos oito países.

"Gostávamos de ter ido bastante mais rápido, mas (...) era preciso estruturar a organização, era preciso que fosse reconhecida nos espaços oficiais para que hoje possamos sentir que temos oportunidade de nos aproximarmos da comunidade", disse.

Na segunda-feira, decorre a cerimónia inaugural da nova sede, que será presidida pelo Presidente da República de Portugal, Aníbal Cavaco Silva, e contará com a presença do vice-presidente de Angola, Fernando Piedade dos Santos, em representação da presidência angolana da organização.

Participam também na sessão o primeiro-ministro português, Pedro Passo Coelho, e os ministros dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, que na tarde de segunda-feira realizam um Conselho de Ministros extraordinário.

O programa termina na terça-feira com um colóquio em que antigos chefes de Estado e de Governo, como o português Mário Soares ou moçambicano Joaquim Chissano, analisam os 15 anos da CPLP.

E sendo a CPLP uma Comunidade dos Países de diversas Línguas,  entre as quais a Portuguesa, não admira que enquanto Timor-Leste quer abandonar o português, outros queiram entrar, mesmo que o que pensem da nossa Pátria comum (a língua) seja igual a zero. São disso exemplos, Austrália, Indonésia, Luxemburgo, Suazilândia e Ucrânia.

Domingos Simões Pereira, secretário executivo da organização supostamente lusófona, precisa que a Suazilândia e a Ucrânia já formalizaram o pedido de adesão como membros associados, enquanto dos restantes três países, o Luxemburgo solicitou um “convite especial”.

Nada como a CPLP estar preocupada, por exemplo, em ajudar os cidadãos ucranianos e esquecer – como tem feito até agora – os guineenses. É, aliás, simpático dar sapatos aos filhos do vizinho enquanto os nossos andam descalços...

“Mas quando nós começamos a receber esta atenção e este nível de interesse por parte de países que ‘à priori’ não pareceria terem afinidades, interesses tão óbvios, isso deve alertar-nos para aquilo que a CPLP pode significar, para aquilo que pode representar”, acrescentou Domingos Simões Pereira.

E pelo que a CPLP parece representar, seria mais aconselhável mudar o nome para Comunidade dos Países de Língua Petrolífera. Esquecia-se a língua portuguesa, que é coisa de somenos importância, e apostava-se forte naquilo que faz mover os areópagos da política internacional: o petróleo.

Aliás, mesmo sem perguntar a Xanana Gusmão, todos sabem que a Indonésia é um daqueles países a quem a lusofonia tudo deve, mormente Timor-Leste.

Por alguma razão Jacarta proibiu, enquanto foi dona de Timor-Leste, aquilo que agora é desejo de Xanana Gusmão, ou seja, o uso da língua portuguesa.

E quando este responsável da CPLP diz que o Acordo Ortográfico é uma prioridade e se sabe que a Guiné-Bissau regista a terceira taxa mais elevada de mortalidade infantil no mundo, fica a ideia de que afinal a CPLP se está nas tintas para os guineenses.

Sempre que alguém tem coragem de falar verdade (nunca é o caso de Portugal ou da CPLP), fica a saber-se que para além de envergonharem as autoridades guineenses – mostram a hipocrisia que reina nos areópagos das principais capitais da CPLP, a começar por Lisboa.

Será que com o Acordo Ortográfico a esperança de vida à nascença dos guineense, que agora é de "apenas" de 45 anos, vai passar para os 45,5?

Será que com o Acordo Ortográfico a CPLP deixará de aceitar calma e serenamente, como até agora, que apesar da miséria, os líderes guineenses continuem a saborear várias refeições por dia, esquecendo que na mesma rua há gente a morrer à fome?

Será que com o Acordo Ortográfico, Portugal, tal como outros, continuará a mandar toneladas de peixe para a Guiné-Bisau, esquecendo que o que os guineenses precisam é tão só de quem os ensine a pescar?

Será que com o Acordo Ortográfico, a CPLP vai continuar a mandar montes de antibióticos para a Guiné-Bissau, esquecendo, sobretudo porque tem a barriga cheia, que esses medicamentos só devem ser tomados depois de uma coisa essencial que os guineenses não têm: refeições?

E assim, a CPLP tem na presidência um país cujo presidente (o único da Lusofonia) não só não foi eleito como é, dentro das boas tradições ditatoriais, o que há mais tempo está no poder. Qualquer coisa como 32 anos.

O governo português diz que Angola desenvolveu nos últimos anos um grande esforço para "acentuar a coesão" entre os membros do bloco lusófono nas áreas da democracia, direitos humanos e reforço do estado de direito.

Democracia? Direitos humanos? Estado de direito? Será Lisboa sabe mesmo quais são os estados que fazem parte da Comunidade de Países (também) de Língua Portuguesa?

Ou, sabendo-o, considera que Angola, a Guiné-Bissau e até mesmo Moçambique (embora este noutra escala) são exemplos de democracia, quando 70% dos angolanos vive na miséria e votam com a barriga, de direitos humanos quando em Cabinda há presos – se é que alguns ainda não morreram - por delito de opinião, de um estado de direito quando o presidente angolano não foi eleito?

A Human Rights Watch revela que Angola enfrenta problemas de desrespeito pelos direitos humanos, incluindo a falta de liberdade de expressão, a tortura e a violência.

Onde estava a CPLP? Onde estava o Governo das ocidentais praias lusitanas?

É claro que Portugal não leu o relatório. Temeu, creio eu, que em matéria da liberdade de expressão a Human Rights Watch poderia também falar dos muitos jornalista que no reino lusitano foram, são e serão substituídos por operários formatados para terem apenas a liberdade de expressarem o que o chefe manda.

Um dias destes o governo desliga o ventilador e a liberdade de Imprensa passa à necrologia

Os poucos jornalistas que existem em Portugal (muitos estão no desemprego) continuam a “chorar” sobre o leite derramado. Ainda pensam que a informação é um bem público.

Deveria ser. Mas é um bem tão público que as forças ditas públicas o querem privado e por isso são, ou procuram ser, donas dos donos dos jornalistas.

“Uma informação livre, pluralista, de qualidade, eticamente responsável e deontologicamente comprometida é essencial ao exercício pleno da cidadania, nas múltiplas dimensões que encerra o direito dos cidadãos à informação consagrado nas convenções internacionais e nas leis constitucionais e nas leis ordinárias dos estados. É através da imprensa livre que as democracias respiram”, diz o Sindicato dos Jornalistas baseado numa utopia que – acredito – gostasse que fosse realidade.

Em Portugal todos sabem que isso é mesmo uma utopia, sobretudo porque não “há imprensa livre”, razão pela qual a democracia só consegue respirar porque está ligada a um ventilador.

Em Portugal, tanto o PS como o PSD chegaram tão cedo ao sector da comunicação social que conseguiram, sem grande esforço e em muitos casos apenas por um prato de lentilhas, fazer com que os seus sipaios, titulares, ou não, de Carteira Profissional de Jornalista, fizesse da “imprensa o tapete do poder”.

Chegaram tão cedo que conseguiram, sem grande esforço e em muitos casos apenas por um prato de lentilhas, transformar jornalistas em “criados de luxo do poder vigente".

Chegaram tão cedo  que conseguiram, sem grande esforço e em muitos casos apenas por um prato de lentilhas, garantir que esses criados regressarão mais tarde ou mais cedo (muitos já lá estão) para lugares de direcção, de administração etc..

Mais do que as questões, objectivas ou não, que envolvem o plano de todos os governos para dominar ainda mais a comunicação social, a mim preocupa-me não só a promiscuidade do jornalismo com a política (sobram os exemplos de jornalistas-assessores e de assessores-jornalistas), mas também o enxovalhar da ética entre os próprios jornalistas ou, pelo menos, entre os que se dizem jornalistas.

Preocupação pouco relevante num contexto de todos a monte fé em Deus, onde ser enxovalhado pode significar – basta olhar para muitas das Redacções - meio caminho andado para ser director ou administrador. Portanto...

Em matéria de jornalistas, a ética tornou-se aquele regra fundamental que aparece a seguir à última... quando aparece. E assim, de face oculta em face oculta, lá vai o jornalismo português cantando e rindo a bem, é claro, de uma qualquer nação que, na maioria dos casos, se confunde com servilismo político e económico.

Servilismo que, por regra, tem boas compensações monetárias. Registemos os factos e também os nomes. Daqui a uns tempos alguns destes supostos jornalistas vão estar a assessorar partidos e ou empresas para, tempos depois, assumirem cargos de direcção ou administração em empresas, mesmo que privadas, onde o Estado põe e dispõe.

Tem sido assim e, pelos vistos, assim tem de continuar a ser. O forrobodó no bordel continua a marcar pontos. Alguns jornalistas lá vão “ladrando” mas, é claro, a caravana dos donos da verdade e do país passa, passa sempre.

É claro que a decência (mais do que limpo e asseado deve significar honesto, decoroso) evitaria muitos dos males recentes de um país que, ao que parece, até já foi Pátria. Mas também isso foi banido.

Portugal vive agora, como sempre viveu nas últimas décadas, uma realidade marcada pela corrupção, pela promiscuidade entre a política, a economia, a justiça, o desporto, o jornalismo etc. Agora é mais visível apenas pela simples razão de que o actual poder político quis ser mais papista do que o Papa e pensou ser possível comprar todos os jornalistas por atacado.

Os seus antecessores, tanto do PSD como também do PS, limitavam-se a comprar o essencial, deixando válvulas de escape para o acessório. E o país ia vivendo com esse acessório no convencimento de que era o essencial.

Durante décadas era uma espécie de Fátima, Futebol e Fado. O povo estava entretido, tinha o essencial para viver e lá ia cantando e rindo. Ao permitir que a válvula de escape da sociedade, protagonizada por uma numericamente expressiva classe média, desse o berro, o Governo provocou a implosão da própria sociedade.

E dos cacos que vão sobrando dessa implosão é difícil restabelecer qualquer clima de confiança nas instituições e, muito menos, nos seus arautos ou artífices. Os portugueses sabem que o critério, que deveria ser sagrado para dirigir as instituições, não é o da competência mas, antes e sobretudo, o da subserviência.

E sabendo isso por experiência própria, dificilmente voltarão a acreditar num país que vive no sistema de todos a monte e fé no Estado, que o importante não é ser mas antes parecer.

E como se tudo isso não fosse mais do que suficiente, transparece a ideia de que há cidadãos que estão acima da lei, vingando a tese de que o crime compensa. E quando tal acontece, lá vamos todos defender a estratégia de olho por olho, dente por dente.

E se assim for, e assim será com certeza mais dia menos dia, o resultado não estará à vista porque vamos ficar todos cegos e... desdentados.

Mas se tiver que ser... seja!

A (des)propósito das greves

O secretário de estado dos Transportes, Sérgio Monteiro, apela às estruturas sindicais para que reflictam sobre o impacto das greves em Portugal. Sobre o impacto de os portugueses terem cada vez mais a barriga vazia, o silêncio é a palavra de ordem.

Reafirmando os custos (“150 milhões de euros” na contas do Governo) da greve dos transportes públicos que hoje se realiza, o secretário de Estado pediu aos deputados (falava na Comissão Parlamentar de Economia e Obras Públicas, onde está a ser ouvido a pedido do PS) para reflectirem nesse número "porque a economia não aguenta impactos dessa natureza".

O governante terminou afirmando que "temos todos de caminhar para a sustentabilidade das contas públicas".

Aos trabalhadores, Sérgio Monteiro pediu "compreensão para perceberem que este caminho de greve sobre greve afasta o país do caminho da consolidação".

Reafirmando que "não se pode pôr em causa aquilo que é o esforço do Governo num ano de poupança", pediu ainda aos sindicatos "especial sentido de responsabilidade" na actual conjuntura económica.

"Reflictam. Têm de ter consciência do impacto das suas decisões", afirmou o secretário de Estado.

Hoje, a federação que representa os sindicatos as principais empresas públicas de transportes - CP, Refer, CP/Carga, Carris (Lisboa), Transtejo, STCP (Porto) e Metropolitano de Lisboa - estão a realizar uma greve nacional em protesto contra os cortes no sector.

O direito à greve é garantido também a todos os jornalistas, independentemente da natureza do vínculo contratual, da posição hierárquica na empresa, da localização do posto de trabalho e da qualidade de associado. Mas eles não alinham nisso.

- Hoje, como ontem, quem fizer greve pode ir preparando informações sobre o centro de emprego mais próximo, fazendo contas quanto á maneira como vai arranjar novo emprego.

As empresas não podem recolher informações prévias sobre os jornalistas que tencionam ou não aderir a uma greve, nem os trabalhadores são obrigados a prestar essa informação, seja a que pretexto for, não podendo o seu silêncio sofrer qualquer sanção. Todas as iniciativas das empresas com esse objectivo devem ser denunciadas.

- Hoje, como ontem, o silêncio é entendido como deslealdade à entidade patronal e dá luz verde à entrada directa para a lista negra dos dispensáveis a troco de um prato de lentilhas.

O jornalismo não é uma actividade compreendida nas obrigações de serviços mínimos nem há qualquer restrição ou excepção legais ao direito de participação dos jornalistas numa greve, não podendo ser aceite qualquer pretexto imposto pelas empresas, inclusivamente o fecho de edições.

- Hoje, como ontem, tudo isto é fado, tudo isto é treta. Quem manda, sem direito a contestação, são os donos dos jornalistas e os donos dos donos.

A adesão dos jornalistas a uma greve consiste na sua não comparência ao trabalho e não carece de qualquer formalidade, nem sequer de justificação, nem prévia nem posterior, uma vez que o pré-aviso de greve constitui justificativo bastante.

- Hoje, como ontem, e até porque até prova em contrário os jornalistas são… culpados, o melhor é levar em conta a vontade dos donos, desde logo porque não há lei que proteja os escravos.

Os jornalistas em greve devem abster-se de permanecer no interior das redacções, mesmo que a pretexto de realização de tarefas que não se relacionem com a edição do dia. O eventual acesso aos locais de trabalho para efeito de verificação de adesões à greve deve ser feito de forma breve e discreta e sem interferir no direito a trabalhar de outras pessoas.

- Hoje, como ontem, o melhor é alegar que por razões de força maior (tipo prestação da casa, colégio dos filhos, contas na mercearia) o trabalho dignifica, mesmo quando há greve.

O êxito de uma greve também pode ser obtido através de pequenos mas importantes actos, tanto pelos trabalhadores em greve como por aqueles que não têm condições para cumprir a greve como gostariam, contribuindo para dar força a esta luta.

- Hoje, como ontem, as greves têm uma forte participação dos jornalistas. O mesmo não se poderá dizer dos muitos produtores de conteúdos e dos funcionários das redacções. Os primeiros, que são cada vez menos, têm a sagrada missão de dar voz a quem a não tem, os outros têm como missão ampliar a voz dos seus donos e a dos donos dos seus donos.

Memórias... da memória!

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

Chafurdar na merda dá prazer aos políticos

A PSP registou, durante o ano passado, 2.872 casos de idosos encontrados mortos em casa. Portugal soma e segue.

Os casos dizem respeito a pessoas com 60 ou mais anos, que morreram em casa sem qualquer tipo de assistência médica e que foram descobertas pela PSP, muitas vezes em conjunto com outras autoridades.

O distrito de Lisboa é o que regista mais casos - 1.299, cerca de 45% do total. Apesar dos números registados na capital, a PSP de Lisboa tem actualmente 259 equipas de proximidade e apoio a vítimas no terreno, que têm sinalizados quase quatro mil idosos em risco.

Depois de Lisboa, segue-se o distrito do Porto, com 414 casos, a ilha da Madeira, com 232, e Setúbal, com 220 casos. Os restantes distritos não chegam a um número com três dígitos. Ainda assim, destaque para Coimbra, com 99, Aveiro, com 90, e Braga, com 76 casos.

Nas contas da PSP, as regiões com menos ocorrências deste tipo, em 2011, foram a ilha do Pico, nos Açores, com um só caso, Évora, com dois, a ilha açoriana da Graciosa, com cinco, e a Guarda e o Faial, com 13 casos cada.

Valha, contudo, a certeza de que o governo quer resolver alguns dos mais sérios problemas do reino. Pelo que está a fazer pode ter-se a certeza de que Portugal vai mesmo ser um país diferente.

A esperança média de vida vai diminuir porque os velhotes vão morrer bem mais cedo, porque os de meia idade não vão chegar a velhos e porque os mais novos não poderão ter filhos.

Além disso, a esmagadora maioria dos portugueses vai deixar de consumir definitivamente antibióticos e outros medicamentos, contribuindo assim para pôr em ordem as contas do Serviço Nacional de Saúde.

Isto porque, para além do preço (que não podem pagar), esses fármacos devem ser tomados depois de uma coisa que hoje é uma miragem: refeições.

Como é óbvio, nada disto se aplica a cidadãos de primeira do tipo Cavaco Silva que, em termos vitalícios, só tem direito nesta altura a 4.152 euros do Banco de Portugal, a 2.328 euros da Universidade Nova de Lisboa e a 2.876 euros de primeiro-ministro.

Recordo-me de o ministro da Solidariedade e Segurança Social ter considerado no passado dia 12 de Dezembro "preocupante" o número de idosos em situação de risco, afirmando que é necessário agir de forma "muito determinada" para sinalizar estes casos e garantir a protecção destas pessoas.

Quem diria? Idosos em situação preocupante? Em Portugal? É mesmo estranho, desde logo porque se sabe que só existem 800 mil desempregados, 20% de miseráveis e outros tantos cujo grande objectivo de vida é pôr alguma coisa nos pratos.

A Segurança Social estima que sejam já 25 mil os idosos em risco e sem apoio, num universo de quase 400 mil pessoas com mais de 65 anos que vivem sozinhas em Portugal. É claro que o número dispara se se considerar os que vivem sozinhos… mas acompanhados.

"São números preocupantes", disse Pedro Mota Soares, à margem do seminário "Sociedade Civil e Envelhecimento - Desafios do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações", que decorreu em Lisboa.

O ministro adiantou que, com o Censos 2011, já se conhece a dimensão do envelhecimento: "Cerca de 20% da sociedade portuguesa tem 65 anos ou mais".

"Sabemos das situações de risco e, por isso mesmo, queremos agir de uma forma muito determinada e este Ano Europeu do Envelhecimento Activo também terá de acautelar todo o fenómeno que hoje existe dos idosos que estão colocados em situações de risco", afirmou num conjunto de palavras que, logo depois, foram levadas pelos ventos agrestes de um país governado para o défice e não para as pessoas.

Nesse sentido, adiantou o ministro, tem sido feito um trabalho mais directo com as instituições sociais, com os serviços da Segurança Social para se conseguir fazer a sinalização desses casos e "garantir protecção às pessoas dentro das instituições".

Nada como ir dando o peixe (no caso para dividir por vários) sem ensinar a pescar, já não os idosos mas os filhos. Se bem que mesmo os filhos já estão também esqueléticos de tanto tentarem, como quer o Governo, viver sem comer.

No dia 20 de Fevereiro de 2010 (eu sei que se ele já nem se lembra do que disse ontem…) Pedro Miguel Passos Relvas Coelho disse no Porto,  que "Portugal estava a bater no fundo". Hoje, com a sua ajuda, está a cavar mais uns metros no fundo…

Os portugueses quiseram mudar, mês escolherem farinha do mesmo saco. Esperavam que Passos Coelho e o PSD os tirassem do pântano movediço. Mas, mais uma vez, o resultado está à vista. Em poucos meses o Governo já conseguiu cavar mais uns metros, tornando ainda mais fundo e putrefacto o pântano.

Ao contrário do que prometera, Passos Coelho entende que condenar os portugueses ao insucesso é a melhor forma de recuperar o que resta. Disse aos portugueses que havia uma ponte que os levaria para a outra margem. Eles acreditaram. Hoje, chegados ao meio da travessia, concluem que afinal nem ponte existe.

Não deixa, contudo, de ser verdade que o PSD continua a ter muita gente à sua volta. Não faltam energúmenos para quem chafurdar na merda é uma questão de sobrevivência.

Governo dá aos portugueses, de borla, todos os meios para aprenderem a viver sem comer

O ministro da Economia e Obras Públicas de Portugal, Álvaro Santos Pereira, disse hoje ver "com muita preocupação" os dados divulgados pelo Eurostat e que dão conta de uma taxa de 13,6% de desempregados.

Os portugueses até ficaram satisfeitos com a preocupação do ministro, o mesmo que afirmou em 14 de Novembro do ano passado que 2012 "irá marcar o fim da crise" e permitirá a Portugal retomar o crescimento da economia.

É claro que os escravos não sabem se a barriga vazia os manterá vivos durante este ano, nem se o fim da crise é para os milhões que têm pouco ou nada ou, pelo contrário, é apenas para os poucos que têm cada vez mais milhões. Mas isso pouco importa.

Segundo o ministro, "2012 será um ano determinante para Portugal e para a economia portuguesa", pois "certamente irá marcar o fim da crise e será o ano da retoma para o crescimento de 2013 e 2014".

Álvaro Santos Pereira disse que é  "muito importante" que Portugal "perceba que os sacrifícios são absolutamente fundamentais para que o Estado possa pôr as suas contas em ordem".

É verdade. O Estado e a corja que lhe é coincidente  ficam com as contas em ordem. Quanto aos escravos, os portugueses, esses ficam depenados, esqueléticos ou mortos. Mas, afinal, não é mesmo para isso que existem escravos?

Por sua vez, Cavaco Silva tem afirmado, como se nada tivesse a ver com o assunto, que "há limites para os sacrifícios" e que o Orçamento do Estado para 2012 tinha "falta de equidade fiscal", referindo-se à suspensão dos subsídios de férias e de Natal.

No caso de Cavaco Silva ainda se compreende. Ele chegou há pouco tempo à vida do país. Só foi primeiro-ministro  de 6 de Novembro de 1985 a 28 de Outubro de 1995, presidente da República eleito em 22 de Janeiro de 2006 e reeleito em 23 de Janeiro de 2011…

Já o ministro reafirmou aquilo que mantém os cemitérios cheios, ou seja, as (boas, diz ele) intenções do Governo em colocar no terreno políticas para aumentar a competitividade e baixar o défice externo.

Santos Pereira acredita que, depois de deitar borda fora o excesso de carga (os portugueses), o governo voltará a pôr a pôr a caravela portuguesa a flutuar.

Se acaso o conseguir, resta saber onde é que o barcaça vai emergir (provavelmente, na melhor da hipóteses, será nas águas territoriais de Marrocos) e se a bordo ainda haverá algum sobrevivente.

Valha ao menos o facto de, segundo o ministro da Economia, 2012 marcar o fim da crise. Para muitos portugueses esse será também o fim. Isto porque se prevê que em 2012 muitos deles estejam já a saber viver sem comer.

Se calhar, no exacto momento em que vão conseguir atingir tal desiderato… morrem. Mas aí a culpa não será com certeza do Governo porque, ao que parece, lhes fornecerá todos os instrumentos para terem sucesso…

Obiang quer pôr em ordem a Guiné… Bissau

A Guiné-Equatorial, numa atitude digna de quem já sente com um pá dentro da CPLP, disponibilizou-se a dar apoio técnico e financeiro à reforma das forças de defesa e segurança na Guiné-Bissau.

Não sei se o “querido líder” de Angola vai na cantiga. Mas como Teodoro Obiang Nguema e José Eduardo dos Santos são grandes amigos, se calhar vão encontrar uma estratégia comum para a neo-colonização da Guiné-Bissau.

A promessa da Guiné-Equatorial, país candidato a membro de pleno direito da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, foi feita na capital da Etiópia, no âmbito de uma mesa redonda sobre a Guiné-Bissau, à margem da 18ª cimeira da União Africana (UA).

Foi o Presidente da Guiné-Equatorial, Teodoro Obiang Nguema Nbasogo, presidente cessante da UA, que incentivou a realização da mesa redonda, de sensibilização da comunidade internacional para a necessidade de apoiar a Guiné-Bissau.

No mundo parece haver quem acredite que é possível que as Forças Armadas da Guiné-Bissau se submetam ao poder político. Essa é, aliás, uma boa tese quando defendida nos areópagos, bem alimentados e bebidos, da política internacional em geral ou, ainda, na lusófona em particular.

Essa coisa, misto de nada com coisa nenhuma, que dá pelo nome de CPLP, sabe bem que a força da razão dos políticos (de alguns, pelo menos) nunca conseguirá vencer a razão da força dos militares.

Quem nasceu no meio de tiros, cresceu no meio de tiros só tem como objectivo morrer no meio de tiros. Na Guiné-Bissau todos os avisos resvalam na petrificada couraça dos militares para quem a lei só tem um nome: Kalashnikov.

Em Junho de 2010, por exemplo, um comunicado da Embaixada norte-americana em Dacar, Senegal, dizia que “é impossível para os EUA contribuir para o processo de reforma da segurança e da defesa se essas pessoas, ou outros implicados no tráfico de estupefacientes, forem nomeados ou permanecerem em postos de responsabilidade nas Forças Armadas”.

Washington foi mais longe ao sublinhar que era “imperativo” que o chefe das Forças Armadas não estivesse “implicado nos acontecimentos de 1 de Abril”, evocando implicitamente o major-general António Indjai.

Posição idêntica à dos EUA tinha sido defendida pela União Europeia, cujos representantes em Bissau boicotaram até  uma conferência de sensibilização para a reforma daquele sector organizada pela ONU e pelo governo guineense.

Quanto à CPLP, cuja presidência está nas mãos do democrata, não eleito e há 32 anos no poder, José Eduardo dos Santos, continua de bico calado para ver se ninguém dá por ela.

Tudo isto é, afinal, a reedição de um filme já gasto de tanto ser usado, seja nos “cinemas” de Lisboa ou de Luanda. Vão mudando, por fuga, morte ou prisão, os protagonistas principais, mas o argumento é sempre o mesmo. Também a assistência (CPLP e companhia) é sempre a mesma.

Recordam-se que a morte de Hélder Proença e Baciro Dabó (irmão do major também abatido) teria resultado dum tiroteio que se seguiu à resistência demonstrada por eles quando as forças da ordem, alegadamente, pretendiam detê-los pela sua suposta implicação numa intentona?

Recordam-se que Kumba Ialá disse que "o senhor primeiro-ministro vai ter de explicar ao povo da Guiné-Bissau quem matou Hélder Proença, Baciro Dabó, Tagmé Na Waié e o general João Bernardo Nino Vieira. Catorze pessoas que morreram durante o seu mandato"?

Recordam-se que na Guiné-Bissau nenhum candidato, nenhum presidente acabou o seu mandato e em 16 anos o país já teve sete presidentes?

A democracia que faz brilhar os olhos dos bem nutridos dirigentes da CPLP tem destas coisas. Ou se é favor de quem está no poder ou, é claro, vai-se para a choldra. Ou se é a favor ou choca-se com uma bala perdida. Mas, sendo ou não membro da CPLP, a Guiné-Equatorial é bem capaz de pôr ordem na casa.

Recordam-se que o coronel Antero João Correia, antigo comandante-geral da Polícia, teria sido detido por ordens do então interino chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, Zamora Induta, depois de se recusar a assinar o comunicado do SIE (Serviços de Informação do Estado) que anunciava a neutralização da alegada tentativa de golpe de Estado?

Recordam-se que esta recusa teria obrigado os mentores do plano a confiar a assinatura do documento ao director-geral adjunto dos SIE, coronel Samba Djaló, que foi apontado como uma pessoa "muito próxima" (pudera!) de Zamora Induta e seu representante a nível do Ministério do Interior que tutela os SIE?

Ao que parece, tanto os políticos guineenses como os donos do poder na comunidade internacional, continuam pouco ou nada preocupados com o facto de os pobres guineenses (a esmagadora maioria) só conhecerem uma forma de deixarem de o ser.

E essa forma (desculpem estar há anos a dizer sempre o mesmo) é usar, não um enxada, uma colher de pedreiro ou um computador, mas antes uma AK-47. E enquanto assim for...

É que dois em cada três guineenses vivem na pobreza absoluta e uma em cada quatro crianças morre antes dos cinco anos de idade. A esperança de vida à nascença para um guineense é de "apenas" de 45 anos.

Será que os dirigentes da Guiné-Bissau, da CPLP (com ou sem Obiang) e similares se lembram que enquanto saboreiam várias refeições por dia, ali ao lado há gente que foi gerada com fome, nasceu com fome e morre com fome?

Será que os dirigentes da Guiné-Bissau, bem como essa coisa que dá pelo nome de CPLP, se lembram que não é possível enganar toda a gente durante todo o tempo?

E, mesmo famintos, ainda sobra força aos guineenses para, ontem como hoje e certamente amanhã, fazerem o que já começa a ser um hábito: puxar o gatilho.

E assim se vai escrevendo a história do princípio daquilo que pode ser o fim da Guiné-Bissau. Realidade que não preocupa todos aqueles que vão continuando a cantar e a rir, levados, levados sim, por interesses pouco claros, sejam do narcotráfico propriamente dito ou não.