sexta-feira, fevereiro 24, 2012

O lixo continua debaixo do tapete

“Concentração frente à sede da Controlinveste, no Porto, apoia greve dos trabalhadores despedidos”, dizia uma das notícias da Lusa. Não foi assim há tanto tempo. Podem olhar para o lado, mas a verdade continua viva.

“Entre os manifestantes encontram-se boa parte dos despedidos, mas também muitos trabalhadores não abrangidos pela medida - jornalistas e não jornalistas - pertencentes aos quadros dos quatro jornais do grupo, que inclui o Jornal de Notícias, o Diário de Notícias, o 24 Horas e o diário desportivo O Jogo.

Alfredo Mendes, jornalista da redacção do Porto do Diário de Notícias, 53 anos e 30 de casa, disse à Lusa que, depois de todos estes anos de dedicação foi despedido "em menos de dois minutos".

Com a mulher desempregada e dois filhos a cargo - uma com 17 anos, a ponto de entrar para a Universidade e um rapaz de 13 anos - Alfredo Mendes vê "o futuro da família com desespero".

A indemnização que a empresa lhe propõe - 44.666 euros - foi calculada tendo em conta apenas o seu ordenado base e não todos os complementos de ordenado que auferia.

"Foi um processo iníquo de despedimento apoiado numa avaliação falsa e vigarista que na realidade não existiu", afirmou.

César Príncipe, 66 anos, reformado há oito anos do Jornal de Notícias - no qual trabalhou durante quatro décadas - compareceu em solidariedade com os seus companheiros de trabalho.

Este veterano do jornalismo portuense está na base do Manifesto dos 119, documento que acusa a Controlinveste de pretender que sejam os trabalhadores a pagar "um conjunto de más decisões" tomadas pela Direcção do JN, cobertas pelas administrações do jornal e do grupo.

"O que aqui estamos a assistir é a uma verdadeira matança dos inocentes", afirmou.

César Príncipe frisou que "se o JN perdeu a liderança do mercado, de que desfrutou durante tantos anos, para o Correio da Manhã, a culpa é da actual Direcção que descaracterizou o jornal, ao retirar-lhe o seu cunho regionalista", defendeu.

"Há oito anos, quando me reformei, escrevi à Direcção do jornal a avisar que isso seria fatal para o JN, não me quiseram ouvir. Infelizmente tinha razão", afirmou.

Considerou ainda que "com a descaracterização do JN, o Porto perde o último dos três grandes diários que teve desde o século XIX e ao longo de todo o século XX".

Alfredo Maia, presidente do Sindicato dos Jornalistas, não arriscou ainda fazer um balanço da greve.

"Mas a impressão é positiva, pela adesão que aqui podemos testemunhar", afirmou o sindicalista, remetendo o balanço para o final da tarde.

À porta das instalações do Diário de Notícias, Jornal de Notícias, 24 Horas e O Jogo, em Lisboa e no Porto, está a ser distribuído pelos grevistas um panfleto que apela à solidariedade popular com esta acção de luta.

Entretanto, a eurodeputada Ilda Figueiredo (PCP) anunciou hoje, em comunicado que fez chegar aos manifestantes, que vai apresentar no Parlamento Europeu uma pergunta parlamentar em que solicita "medidas para apoiar e defender os direitos dos trabalhadores da Controlinveste, tendo em conta também a necessidade de garantir o pluralismo na comunicação social".

A eurodeputada sublinha que os 119 trabalhadores que a Controlinveste vai despedir representam cerca de 12 por cento dos efectivos do grupo.

Ilda Figueiredo pretende também que os órgãos da União Europeia informem sobre quais os apoios comunitários concedidos a este grupo e em que condições foram atribuídos.”

Angolanos continuam a ser gerados com fome, a nascer com fome e a morrer com fome

Ao que parece, os ortodoxos do regime angolano não conseguem deixar às gerações vindouras algo mais do que a pura expressão da cobardia que, entre outras coisas, faz com que milhões de angolanos tenham pouco ou nada, e poucos tenham muitos milhões.

Talvez esses génios, quase todos paridos nas latrinas da cobardia, pensem que não é necessário dar corpo e alma à angolanidade (seja, ou não no contexto da Lusofonia). É por isso que alimentam o ódio e a discórdia, o racismo, não reconhecendo que a liberdade deles termina onde começa a dos outros.

Porque não há comparação entre o que se perde por fracassar e o que se perde por não tentar, permito-me a ousadia (que espero – com alguma ingenuidade, é certo - compartilhada por todos os que responderam a esta chamada) de tentar o impossível já que - reconheçamos - o possível fazemos nós todos os dias.

Como jornalista, como angolano, como ser humano, entendo que a situação angolana ultrapassa todos os limites, mau grado a indiferença criminosa de quem, em Angola ou no Mundo, nada faz para acabar com a morte viva que dez anos depois da paz caracteriza um povo que morre mesmo antes de nascer.

E morre todos os dias, a todas as horas, a todos os minutos. E morre enquanto e Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP)  canta e ri. E morre enquanto outros, em Luanda, comem lagosta. E morre enquanto outros, no interior do território, nem sabem o que é comer.

É que, quer o MPLA queira ou não, como na guerra, a vitória é uma ilusão quando o povo morre à fome. Tal como está a Angola profunda, a Angola real, ninguém sairá vencedor, mesmo que haja eleições. Todos perdem. Todos perdemos.

Creio, aliás, que o próprio José Eduardo dos Santos terá de vez em quando consciência de que a sua ditadura não é uma solução para o problema angolano, sendo antes um problema para a solução.

Creio que é, ou pode ser, pequeno o passo que é preciso dar para que os angolanos, irmãos de sangue, se entendam para ajudar Angola a ser um país onde os angolanos sejam todos iguais e não, como agora acontece, uns mais iguais do que outros.

Se se entenderam para que Angola deixasse de ser uma gigantesca vala comum, não será difícil que entendam agora que a força da razão pode e deve substituir a razão da força.

Durante demasiados anos de guerra, os angolanos mataram-se uns aos outros. Acabada essa fase, os angolanos continuam a matar-se uns aos outros. Não directamente pela força das armas, mas pelo poder que as armas dão aos que querem subjugar os seus irmãos que consideram de espécie inferior.

Mais do que julgar e incriminar importa, nesta altura, parar. Parar definitivamente. Não se trata de fazer um intervalo para, no meio de palavras simpáticas e conciliadoras, ganhar tempo continuar o processo de esclavagismo, ganhar tempo para formar novos milionários, ganhar tempo para sabotar eleições, ganhar tempo para enganar o Povo.

Dez anos passos, Angola tem militares a mais e angolanos a menos. Angola tem minas que chegam para encher durante um século os cemitérios. Angola tem feridas suficientes para ocupar os médicos (que não tem) durante décadas.

Convém, por isso, que a democracia, a igualdade de oportunidades, a justiça, o Estado de Direito cheguem antes de morrer o último angolano. Espero que disso se convença José Eduardo dos Santos, um angolano que certamente não se orgulha de ser presidente de um país onde os angolanos são gerados com fome, nascem com fome e morrem pouco depois com fome.

Foto: 4 de Abril de 2002, o chefe das Forças Armadas de Angola, à direita, Armando da Cruz Neto, e Abreu Muengo 'Kamorteiro', comandante das FALA.

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Do JN à TSF, do DN ao 24 Horas

O Sindicato dos Jornalistas (SJ) de Portugal, no que já se tornou um hábito (despedimentos colectivos no JN, DN e 24 Horas), repudiou hoje a abordagem individual a jornalistas e outros trabalhadores em curso na TSF, com vista ao seu despedimento.

Esse despedimento está a se feito sob a forma de rescisão por mútuo acordo, tendo o SJ exortado a empresa, do Grupo Controlinveste, a negociar alternativas com os representantes dos trabalhadores.

Em comunicado, a Direcção do SJ alerta para o risco de a dispensa de profissionais poder agravar a situação da TSF, diminuindo a sua capacidade de trabalho, propõe a negociação de soluções alternativas com os representantes dos trabalhadores e reafirma a sua disponibilidade para apoiar esse processo.

O comunicado é do seguinte teor:

“1. A TSF, rádio do grupo Controlinveste, tem vindo a abordar jornalistas e outros trabalhadores, com vista à sua dispensa através da chamada rescisão por mútuo acordo, método que a Direcção do Sindicato dos Jornalistas repudia em absoluto, por ser ofensivo da dignidade pessoal e profissional dos atingidos.

2. Com efeito, se ninguém se pode opor – embora possa lamentar, devido à descapitalização em memória, experiência e sentido crítico que podem representar – a programas de adesão voluntária para redução de efectivos, é inteiramente condenável a abordagem individual a trabalhadores, especialmente se a sua selecção não é clara, objectiva e transparente.

3. Por outro lado, a dimensão do processo encetado, atingindo cinco jornalistas na sede e dois em delegações importantes (Alentejo e Algarve), justifica a maior preocupação quanto à capacidade da TSF de servir os ouvintes sem perda de qualidade, sendo de temer que a medida, alegadamente ditada por razões de conjunto económico-financeira, venha a ter um efeito nefasto no futuro da rádio.

4. A Direcção do SJ manifesta inteira solidariedade para com os jornalistas e outros trabalhadores abrangidos pela iniciativa da empresa, exortando também todos os jornalistas ao serviço da TSF à resistência colectiva a tal medida, exigindo a negociação de alternativas ao despedimento, protegendo os postos de trabalho dos camaradas que a empresa quer dispensar agora, bem como os que podem vir a ser postos em causa no futuro.

5. O SJ entende que há alternativas e está disponível para apoiar a sua discussão, assim a empresa esteja interessada em dialogar com os jornalistas através dos seus representantes e negociar soluções que não diminuam a capacidade de trabalho da rádio nem ponham em causa os postos de trabalho dos profissionais ao seu serviço.”

Porra! Assim vale mesmo a pena!

Manuel Pinho decretou o fim da crise em 2007. Teixeira dos Santos em 2009. Passos Coelho não só a decretou para 2012 como decidiu aumentar em 50% o número de colocações de desempregados até 2013.

Porra! Assim vale a pena ter um governo. Uma resolução do Conselho de Ministros de hoje garante trabalho a mais três mil pessoas por mês.

O pomposo Programa de Relançamento do Serviço Público de Emprego inclui oito eixos e um conjunto de medidas que visam fomentar a captação de ofertas de emprego, cooperar com parceiros para a colocação de desempregados, reestruturar a rede de Centros de Emprego e Centros de Formação Profissional, entre outras.

Segundo o ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, o diploma  hoje aprovado  visa "promover um acompanhamento mais próximo e mais regular do desempregado" e melhorar o desempenho do serviço público de emprego, "nomeadamente no que diz respeito à oferta e procura de emprego", incluindo alterações no funcionamento dos centros de emprego.

Agora é que vai ser. Até os que (ainda) têm emprego vão querer ficar desempregados para assim beneficiarem deste ovo de Colombo, verdadeiro e histórico achado da equipa liderada por Pedro Miguel Passos Relvas Coelho.

O diploma visa também, segundo Álvaro Santos Pereira, "a modernização do sistema de informação dos centros de emprego, o que irá facilitar a colocação de ofertas no portal 'netemprego' e permitirá a criação de um registo electrónico público de todas as ofertas de emprego captadas pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP)".

Ou seja, não vão faltar armas e munições para os portugueses irem caçar elefantes. Só fica a faltar a informação sobre se essa espécie animal existe no… Alentejo.

Os desempregados inscritos nos centros de emprego vão ter um gestor de carreira (desempregado com gestor de carreira é obra!) para facilitar o regresso ao mercado de trabalho. A medida visa "permitir um acompanhamento contínuo dos desempregados pelo mesmo técnico, assegurando um conhecimento mais próximo das qualificações de cada um", facilitando a sua colocação e evitando novas dificuldades sempre que se desloca a um centro de emprego, explicou o ministro da Economia que, creio, com este programa se arrisca a ganhar um Nobel.

Álvaro Santos Pereira adiantou ainda que a rede de centros de emprego vai ser reestruturada e sujeita a fusões para se tornar "mais ágil" e que vão ser reduzidos cerca de 150 dirigentes, "que vão passar a desempenhar tarefas técnicas de apoio directo a desempregados".

O secretário de Estado do Emprego, Pedro Martins, frisou que estes dirigentes vão assegurar um acompanhamento mais próximo dos desempregados como gestores de carreira.

"Os responsáveis dos vários centros cujas posições serão eliminadas no decurso desta reestruturação poderão ter um contacto mais próximo com os desempregados através desta figura de gestor da carreira", disse Pedro Martins.

Álvaro Santos Pereira ressalvou que as alterações apresentadas contam com a participação activa dos empresários e dos sindicatos e foram consagradas no pacto assinado com os parceiros sociais.

Antevejo que, até para testar de uma forma pragmática este programa e as inerentes capacidades dos gestores de carreiras, os empresários poderão já acelerar os processos de despedimentos colectivos que têm na manga.

Chips obrigatórios para jornalistas

O anterior governo português decretou a obrigatoriedade de instalação de um dispositivo electrónico (chip) de matrícula em todos os veículos motorizados, garantindo estar salvaguardada o "direito à privacidade" e a protecção dos dados pessoais.

O actual executivo, agora liderado por Pedro Miguel Passos Relvas Coelho, deveria seguir a metodologia de José Sócrates (e certamente não lhe faltariam apoios) e decretar igual aplicação em todos os jornalistas (e são cada vez menos) que teimam em pensar com a cabeça e não com a barriga.

Seria, aliás, um alívio para todos os empresários da praça lusitana que, creio, até poderiam retirar algum dinheiro aos trabalhadores para dar aos partidos.

Como sempre, mesmo no desemprego, vou estar do lado dos que consideram que dizer o que pensamos ser a verdade é a melhor qualidade das pessoas de bem. Pessoas de bem onde, para nosso penar, é cada vez mais difícil incluir empresários e jornalistas.

E o que em tempos era um trunfo (a memória) hoje é algo supérfluo. E se calhar não há nada a fazer. Para quê ter memória se, sem ela, os autómatos fazem o que é exigido por alguns empresários ao jornalismo(?) moderno de produção de textos de linha branca.

Vem isto a (des)propósito das teses vigentes um pouco por todo o lado, nomeadamente nos órgãos públicos (Governo, Parlamento e similares) que apontam para a necessidade de os jornalistas serem formatados (Fernando Lima chama-lhe domesticação), com ou sem chip, consoante os interesses (económicos, políticos e similares) dos donos do Poder.

Se calhar, como me dizem ex-jornalistas que hoje são assessores, directores, administradores, deputados etc., o melhor era aceitar a derrota e na impossibilidade de os vencer, juntar-me a eles.

Seria com certeza uma boa opção. Não estaria certamente no desemprego. O mal está, digo eu, que só é derrotado quem deixa de lutar. E, pelo menos para já, tenho mesmo de afirmar que a luta continua.

E continua porque, ao contrário dos donos do poder e dos lacaios ao seu serviço, continuo a lutar para que a imprensa não seja o tapete do poder, tenha ele as cores ou a denominação social que tiver.

Só no dicionário, e transitoriamente, é que a competência aparece antes da subserviência

Porque muitos, cada vez mais, fogem sem pensar, é preciso que alguns malucos (cada vez menos) pensem sem fugir. Será?

Mas se pensar não enche barriga, não dá emprego e não paga o empréstimo da cubata, não será melhor zarpar?

Na sociedade portuguesa são exigências basilares para encontrar, ou manter, emprego, o cartão do partido, os jantares com o chefe ou a prenda de anos no aniversário do director.

É claro que nas listagens das condições basilares não se encontra nenhuma referência à competência. Aparecem sim, e não é por erro ortográfico, indicações de que o futuro passa por algo que rima com competência, mas apenas isso: subserviência.

Num ou noutro caso aparece outra rima, esta meritória: transparência. Não se explica, contudo, como é que tal é possível se os seus agentes são opacos.

Até há pouco tempo, a escolha de profissionais cuja principal arma laboral fosse a cabeça parecia séria mas não era. Hoje, contudo, não parece nem é.

Hoje, sejam empresas do Estado ou privadas, o ambiente é de valorização exponencial do aparente, do faz de conta, do travesti profissional que veste a farda que mais jeito dá ao capataz de serviço.

O presente é, ou parece ser, de todos aqueles que às segundas, quartas e sextas são do PS, às terças, quintas e sábados do PSD e ao domingo negoceiam com o CDS, com o BE e com o PCP.

Pelo meio deste circuito aparecem, sobretudo quando as eleições alteram algumas moscas, velhos sipaios de farda nova que acalentam a esperança de serem chefes de posto.

Tal como os chefes de posto, também com nova indumentária, querem algo mais pelos altos serviços prestados a bem da nação. Querem e conseguem, mesmo que no lugar da assinatura da filiação partidária tenham de pôr a impressão… digital.

Vamos lá rapaziada, todos para o PSD

Só quem não quer fazer coisas sérias é que não percebe que, afinal, não há mais vida para além do PSD/CDS. E se um emprego implicar coluna vertebral e tomates amovíveis… que mal tem?

Vamos a isto rapazes. Muitos de nós estamos a aprender a viver sem comer (desemprego). Antes que se descubra que é uma missão impossível (já faltou mais), o melhor é preencher a respectiva ficha… mesmo quando o ordenado não é grande coisa. Apenas um vencimento mensal (ainda por cima bruto) de 3.653,81 euros...

Assim como está (e ao que parece vai continuar na mesma) Portugal não vai levar a carta a Garcia... mesmo que o general esteja ao dobrar da esquina.

Nos últimos anos, bem antes – reconheça-se – de José Sócrates ter sido eleito sumo pontífice do PS e do Governo, Portugal apostava forte e feio na rapaziada do costume.

Seja como for, o que Portugal precisa é de uma estratégia (ou desígnio) que valorize quem tem ideias e não quem diz que as tem. Que institua (e não que sugira que se institua) o primado da competência, independentemente da filiação partidária e das cunhas.

Será isso que vai acontecer? Que raio de pergunta mais ingénua, infantil e matumba.

É certo que a procissão ainda vai no adro. No entanto, o problema é bem mais extenso. Não se resume a pessoas. Assenta na mentalidade de quem dirige o país e esses não são, necessariamente, os ministros e os secretários de Estado.

São, sobretudo, aqueles que comandam a economia, que dão emprego aos políticos, e os poderes paralelos que ditam as regras do jogo e que, tantas vezes, as alteram quando mais convém. São as grandes empresas, as associações empresariais, as fundações e outros similares que proliferam na sociedade desta República.

Garantem-me que Belmiro de Azevedo afirmou (pelo menos uma vez) que “um subalterno tem o dever de questionar uma ordem do chefe e, se for o caso, dizer-lhe que não é suficientemente competente”.

Se calhar essa foi uma das regras que originou o êxito deste empresário. Belmiro sabia (será que ainda sabe?) que um chefe não é só o que manda - é sobretudo o que dá o exemplo. Sabia que a crítica não significa desobediência. Sabia que tinha de se rodear de massa crítica, pois para dizer sempre que “sim” bastava-lhe a própria sombra.

O Governo português está cheio de “sombras”. E está este como estão as associação empresariais, os sindicatos, o PS, o PSD, o CDS/PP e os organismos (sobretudo fundações, institutos e similares) criados para dar emprego a ex-políticos e candidatos a políticos.

“Sombras” que vivem religiosamente à custa das bênçãos, das cunhas, e dos padrinhos que, por regra, já chegaram a chefes do estado maior.

Com um país assim, onde são (quase) sempre os mesmos a ter acesso ao poder, sendo todos os outros relegados para fora de jogo, só há duas possibilidades: ter ideias e ser marginalizado ou, agora, ser sombra e filiar-se no PSD (excepcionalmente também no CSD/PP).

Mais dia menos dia o tacho há-de sorrir.

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

O chefe do posto manda, o sipaio cumpre

É só estar com atenção. Um dia destes o sipaio que dirige o Jornal de Angola vai provar que Jonas Savimbi ainda era mais criminoso do que diz o MPLA.

Vamos, portanto, ficar a saber que foi Savimbi quem preparou os seguintes massacres:

Em Luanda, visando o aniquilamento  de cidadãos Ovimbundus e Bakongos, no qual foram mortos mais de 50 mil angolanos, entre os quais o vice-presidente da UNITA Jeremias Kalandula Chitunda, o secretário-geral Adolosi Paulo Mango Alicerces, o representante na CCPM, Elias Salupeto Pena, e o chefe dos Serviços Administrativos em Luanda, Eliseu Sapitango Chimbili.

O do Pica-Pau, a 4 de Junho de 1975,  onde perto de 300 crianças e jovens, na maioria órfãos, foram assassinados e os seus corpos mutilados no Comité de Paz da UNITA em Luanda.

O da Ponte do rio Kwanza, no dia 12 de Julho de 1975, no qual 700 militantes da UNITA foram barbaramente assassinados, perto do Dondo (Província do Kwanza Norte), perante a passividade das forças militares portuguesas que garantiam a sua protecção.

O de mais de 40.000 angolanos que foram torturados e assassinados em todo o país, depois dos acontecimentos de 27 de Maio de 1977, acusados de serem apoiantes de Nito Alves ou opositores ao regime.

Os que, entre 1978 e 1986, originaram que centenas de angolanos fossem fuzilados publicamente, nas praças e estádios das cidades de Angola, uma prática iniciada no dia 3 de Dezembro de 1978 na Praça da Revolução no Lobito, com o fuzilamento de 5 patriotas e que teve o seu auge a 25 de Agosto de 1980, com o fuzilamento de 15 angolanos no Campo da Revolução em Luanda.

O do dia 29 de Setembro de 1991, em  Malange, onde foi morto   o secretário Provincial da UNITA naquela Província, Lourenço Pedro Makanga, a que se seguiram muitos outros na mesma cidade.

Os dos dias 22 e 23 de Janeiro de 1993, quando em Luanda se registou nova  perseguição aos cidadãos angolanos Bakongos, e que resultou em perto de 300 civis mortos.

Os de Junho de 1994, quando a aviação  bombardeou e destruiu a Escola de Waku Kungo (Província do Kwanza Sul), tendo morto mais de 150 crianças e professores.

Os que, entre Janeiro de 1993 e Novembro de 1994, resultaram dos ataques da aviação à cidade do Huambo, à Missão Evangélica do Kaluquembe e à Missão Católica do Kuvango, causando mais 3.000 mortos civis.

Os que, entre Abril de 1997 e Outubro de 1998, na extensão da Administração ao abrigo do Protocolo de Lusaka, resultaram no assassinato de mais de 1.200 responsáveis e dirigentes dos órgãos de Base da UNITA em todo o país.

Recorde-se que, faz depois de amanhã dez anos, alguém disse: “sekulu wafa, kalye wendi k'ondalatu! v'ukanoli o café k'imbo lyamale!” (morreu o mais velho, agora ireis apanhar café em terras do norte como contratados.)

Sekulu  esse que também dizia:  «Ise okufa, etombo livala» (Prefiro antes a morte, do que a escravatura).

Movimento Informação é Liberdade

O que é feito do MIL - Movimento Informação é Liberdade? Pelos vistos ninguém sabe. O mais recente texto publicado no blog da organização data de 30 de Janeiro de... 2008. O que é feito do entusiasmo de tantos craques?

O silêncio (certamente construtivo dado o altíssimo nível profissional dos jornalistas fundadores e dos que a seguir se juntaram) deve reflectir - digo eu - o estado das coisas no jornalismo “made in Portugal”.
Ou será que outros voos laborais (com isto quero dizer tachos) fizeram com que esses arautos do grande jornalismo luso metessem a viola no saco? Ou será que, numa tentativa de serem (os que ainda não eram) portugueses de primeira, resolveram render-se aos encantos das actividades próprias do calor da noite?
Centenas de jornalistas estavam (ainda estão?) inscritos no MIL, entidade portuguesa que no início de 2008 anunciava para breve uma comissão organizadora para promover uma assembleia geral para eleição dos seus órgãos sociais.
Nunca fiz parte do MIL porque, como aqui escrevi a 27 de Janeiro de 2008, me recuso a fazer figura de urso só porque isso convém à estratégia de marketing do director do circo.
De acordo com o MIL, “o objectivo, a curto e médio-prazo, é muito simples: o MIL será interlocutor em todos os processos de discussão de matérias de interesse para a classe dos jornalistas, como por exemplo a autoregulação e o acesso à profissão”.
Lindo. Lindo. Paz à sua alma.
Há cerca de dois anos aqui escrevi que “se o mais relevante para os jornalistas, “a curto e médio-prazo”, é a “autoregulação e o acesso à profissão”, não tenho dúvidas de que o MIL está (ou estava) a confundir a estrada da Beira com a beira da estrada, valorizando o acessório e esquecendo o essencial que, digo eu, vai muito além do umbigo de alguns, tenham ou não experiência curricular nas assessorias políticas e ou empresariais.
Quando o principal problema dos jornalistas portugueses é a perda da liberdade de expressão e de emprego, não aceito fazer figura de urso só porque o primeiro-ministro é convidado de honra do circo mediático.
Quando, por questões de sinergia, se tenta uniformizar a informação de modo a cercear a diversidade de visões sobre o mesmo assunto (diapasão da liberdade), não aceito fazer figura de urso só porque o dono circo mediático viu o “urso” propriamente dito ser colocado como assessor de um qualquer político.
Os jornalistas, os do MIL e muitos outros, estão como o tolo no meio da ponte. Não sabem se devem ir para a frente ou para trás. No entanto, preocupados com essa dúvida existencial, ainda não repararam que, afinal, nem ponte há...
O que terão a dizer de tudo isto os nomes sonantes do MIL, entre outros, Ana Luísa Nascimento, Octávio Ribeiro, António Ribeiro Ferreira, João Pedro Henriques, Luciano Alvarez, Frederico Duarte de Carvalho, Carlos Enes, Mário Moura, Sérgio Coimbra, Helena Matos, João Fragoso Mendes, Alcides Vieira, Alfredo Leite, Áurea Sampaio, Cândida Pinto, Eduardo Cintra Torres, Eduardo Dâmaso, Ferreira Fernandes, José Leite Pereira, José Manuel Fernandes, João Marcelino, Rodrigo Guedes de Carvalho?

Porque hoje é dia 22

Mau grado a vontade, os avisos e as pressões dos quadrúpedes ruminantes, com ou sem gibas sobre o dorso, que em Angola e Portugal nasceram a saber tudo e são donos divinos da verdade, volto a publicar – como, aliás, faço todos os anos desde 2002 – o texto que escrevi na altura em que se confirmou que Jonas Savimbi tinha sido morto em combate.

O Povo Angolano, Angola, África e todos os que pugnam pelos ideais de liberdade e democracia no Mundo, estão de luto. Luto por diversas razões.
O Dr. Jonas Malheiro Savimbi, Presidente da UNITA, tombou heroicamente em combate! Tombou heroicamente em combate o meu Presidente.
Tão heroicamente que as Forças Armadas de Angola (ou pelo menos parte delas) tiveram necessidade de O humilhar... mesmo depois de morto. Trataram o meu Presidente como um cão raivoso, como um troféu de caça. Até na morte Jonas Savimbi atemorizou os militares de José Eduardo dos Santos.
Os adversários, ou até mesmo os inimigos, merecem respeito. E isso não aconteceu. As FAA não humilharam Jonas Savimbi, humilharam uma grande parte do Povo Angolano.
A África perdeu um dos seus mais insignes filhos, cuja vida e obra O situam na senda dos arautos da História Africana como N'Krumahn, Nasser, Amílcar Cabral, Senghor, Boigny e Hassan II.
O Dr. Jonas Malheiro Savimbi, Presidente da UNITA, o meu Presidente, tombou em combate ao lado das suas tropas e do Povo mártir, apanágio só concedido aos Grandes da História.
Deixou-nos como maior e derradeiro legado a sua coragem e o consentimento do sacrifício máximo que pode conceder um combatente da liberdade, a sua Vida.
Fiel aos princípios sagrados que nortearam a criação da UNITA, o Dr. Savimbi, rejeitando sempre e categoricamente os vários cenários de exílios dourados, foi o único dos líderes angolanos que sempre viveu e lutou na sua Pátria querida.
A ela tudo deu e nada tirou, ao contrário de outros com contas, palácios e mansões no estrangeiro.
Fisicamente o meu Presidente morreu. Fisicamente o meu Presidente foi humilhado. Mas uma coisa é certa. Não há exército que derrote, mate ou humilhe uma cultura, um povo, uma forma eterna de ser e de estar.
Jonas Savimbi, o meu Presidente, continuará a ter quem defenda essa cultura, esse povo, essa forma eterna de ser e de estar.
"Há coisas que não se definem - sentem-se». Foi isto que em 1975 me disse, no Huambo, Jonas Malheiro Savimbi. É isto que José Eduardo dos Santos nunca compreendeu. A UNITA não se define - sente-se. Jonas Malheiro Savimbi não se define - sente-se. Angola não se define - sente-se.
E porque se sente, e não há maneira de matar o que se sente, é que Jonas Malheiro Savimbi, o meu Presidente, continuará vivo. Vivo no esforço pela paz em Angola, vivo pela dignificação dos angolanos, vivo pela liberdade, vivo pela coerência... vivo porque os heróis não morrem nem são humilhados.
Obrigado Presidente.