quarta-feira, outubro 26, 2011

A "verdade" só aos donos do mundo pertence

A família de Muammar Kadafi está a ponderar apresentar queixa  no Tribunal Penal Internacional contra a NATO por "crime de guerra".

Independentemente do facto de Kadafi ter merecido, na minha opinião, morrer não uma mas uma dúzia de vezes, o que a NATO fez na Líbia (mas que não fará noutros países com ditadores bem mais facínoras) foi o exemplo acabado de que os donos do mundo conhecem a razão da força mas nunca ouviram falar da força da razão.

O antigo líder líbio, de 69 anos, que fugira de Tripoli em finais de Agosto, foi capturado vivo (bem vivo, aliás) perto de Sirte (a 360 quilómetros da capital) e assassinado a tiro.

Que se saiba, embora não se tenha a certeza, não foi a NATO a dar o tiro de misericórdia a Kadafi, embora todos tenham ficado a lucrar com o silêncio definitivo do líder líbio.

Certo foi que foram os aviões da NATO que dispararam contra a coluna de veículos em que seguia Kadafi.

Embora o homicídio voluntário seja um crime de guerra previsto pelo artigo 8 do Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional, a NATO sempre dirá que naquele situação Kadafi continuava a constituir uma ameaça para a Líbia, se calhar até para África ou, quem sabe, para o mundo inteiro.

Inicialmente dizia-se que a NATO estaria na região para, além de atirar a pedra e esconder a mão, proteger a população, excluindo sempre o objectivo de derrubar regime.

Como logo se viu, era uma treta como qualquer outra. Alguns países da NATO inundaram os rebeldes com todo o tipo de armas, deram-lhes instrução, planearam os ataques e coordenaram as acções com a Força Aérea da Aliança Atlântica. Tudo, é claro, para defender as populações e nunca para derrubar o regime.

Do lado da NATO estão, como sempre acontece com os vencedores, uma série de países, nem todos de forma sincera. Não será o caso dos europeus mas é, com certeza, o caso de muitos estados árabes que, com medo do cão raivoso, aceitaram (mesmo que contrariados) a ajuda do leão.

Quando se aperceberem (alguns já se aperceberam), o leão terá derrotado o cão e preparar-se-á para os comer a eles. O leão, como mais uma vez se confirma, não terá necessariamente de ter nacionalidade norte-americana.

Aliás, os homens do tio Sam são especialistas em criar leões onde mais lhes convém. Em certa medida Osama bin Laden, tal como Saddam Hussein, como Muammar Kadafi,  foram leões “made in USA”.  Ao contrário do que pensam os ilustres operacionais da NATO, do FBI da CIA ou de qualquer coisa desse tipo, ninguém tem neste planeta (pelo menos neste) autoridade e poder ilimitados.

Os maus da fita, segundo os realizadores da NATO,  poderão não ter a mesma capacidade bélica do que os EUA e seus aliados. Vão ser, continuam a ser, humilhados, sobretudo pelo número dos mortos que o único erro que cometeram foi terem nascido.

São as leis da razão? Não. São as leis dos instintos. Instintos que vão muito além das leis da sobrevivência. Entram claramente (tal como entrou Bin Laden ou Muammar Kadhafi) na lei da selva em que o mais forte é, durante algum tempo, mas nunca durante todo o tempo, o grande vencedor.

Seja como for, o Mundo Árabe só está do lado dos países da NATO por questões estratégicas, por opções instintivas. Bem ou mal, em matéria de razão, os árabes estão com os seus... e esses não são os nossos...

Pelo menos desde a Guerra dos Seis Dias, a aprendizagem dos árabes tem sido notável. Aceitam o que os donos do mundo definem como inimigos, enforcam até os seus pares com a corda fornecida pelo Ocidente, mas, na melhor oportunidade, vão enforcar americanos e europeus com a corda enviada de Nova Iorque, Paris ou Londres.

A (im)poluta governação dos países da CPLP

Três países lusófonos - Guiné-Bissau, Angola e Moçambique - estão entre os que têm a pior taxa de mortalidade infantil, de acordo com o relatório sobre a Situação da População Mundial relativo a 2011.

Segundo o relatório do Fundo das Nações Unidas para a População (FNUAP), em cada 1.000 nascidos vivos, morrem 192,6 na Guiné-Bissau (só ultrapassada por Afeganistão e Chade), 160,5 em Angola e 141,9 em Moçambique.

Entre os países de língua portuguesa, seguem-se São Tomé e Príncipe, com 77,8 crianças, e Timor-Leste, com 56,4. Mais abaixo, surgem Cabo Verde, com 27,5, e Brasil, com 20,6. Portugal apresenta uma taxa de 3,7.

Ainda no capítulo da saúde materno-infantil, 1.000 em cada 100.000 mulheres na Guiné-Bissau morrem no parto (pior registo só no Afeganistão e no Chade).

Com números acima das 500 mortes estão Angola (610) e Moçambique (550). O relatório não apresenta dados sobre São Tomé e Príncipe, enquanto em Timor-Leste 370 em 100.000 mulheres morrem no parto. Os números descem em Cabo Verde (94), no Brasil (58) e em Portugal (7).

No que diz respeito à taxa de partos entre adolescentes (15 a 19 anos), é Moçambique que lidera, com 185 (em cada 1.000), 170 na Guiné-Bissau, 165 em Angola, 92 em Cabo Verde, 91 em São Tomé e Príncipe, 59 em Timor-Leste, 58 no Brasil e 17 em Portugal.

Os indicadores fazem ainda referência à percentagem de "partos atendidos por pessoal qualificado em saúde", sendo esta menor, entre os países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), em Timor-Leste (18), inferior apenas no Afeganistão, Chade e Etiópia.

Em Guiné-Bissau (39) e Angola (47) menos de metade das mulheres beneficiaram deste atendimento especializado. Acima dos 50 por cento surgem Moçambique (55), Cabo Verde (78), São Tomé (82) e Brasil (97).

Na saúde sexual e reprodutiva, é em Angola que as mulheres entre os 15 e os 49 anos menos usam contraceptivos, seja através de que método for. Apenas 6% o fazem, seguidas por 10% das guineenses e 17% das moçambicanas.

Em Timor-Leste, 22% das mulheres usam contraceptivos, taxa que aumenta para 38% em São Tomé e Príncipe, 61% em Cabo Verde, 80% no Brasil e 87% em Portugal.

Apenas quatro dos países da CPLP apresentam dados sobre a taxa de prevalência do vírus VIH/SIDA entre a população dos 15 aos 24 anos, com Moçambique a distanciar-se pela negativa, com percentagens de 3,1% nos homens e de 8,6% nas mulheres (apenas menor do que em países como Botswana, Lesotho, África do Sul, Swazilândia e Zâmbia).

Na Guiné-Bissau, o vírus VIH/SIDA afecta 0,8% de homens e 2%  de mulheres, em Angola, 0,6% de homens e 1,6% de mulheres e, em Portugal, 0,3% de homens e 0,2% de mulheres.

Nos indicadores relativos à educação, a taxa de alfabetização da população entre os 15 e os 24 anos é de 78% nos rapazes e 62%  nas raparigas tanto na Guiné-Bissau como em Moçambique, e de 81% e 65% em Angola.

Taxas de alfabetização totais ou quase totais verificam-se em São Tomé e Príncipe (95% dos rapazes e 96% das raparigas), no Brasil e em Cabo Verde, com os mesmos números para rapazes e raparigas (97 e 99%), e em Portugal (100% para os dois sexos).

Não há dados sobre a alfabetização em Timor-Leste, mas o relatório indica que 79% dos rapazes e 76% das raparigas em idade escolar estão matriculados no "ensino fundamental".

Até há pouco tempo, o argumento da guerra serviu às mil maravilhas para que esse elefante branco que dá pelo nome de CPLP, enquanto organização que congrega os países lusófonos, dissesse que só podia – quando podia – mandar algum peixe. Para ensinar a pescar era imprescindível a paz.

E agora? Há muito que existe paz, nomeadamente em Angola e na Guiné-Bissau. Será que as canas de pesca são mais caras que as Kalashnikov? Será que os angolanos só vão ter direito à cana de pesca quando a Sonae abrir o primeiro Continente?

Segundo declarações do vitalício Presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, feitas em 2008, existia a esperança de que “a vontade política que norteia a CPLP, bem como as excelentes relações entre os seus membros dêem lugar a programas concretos que fomentem o crescimento económico, a erradicação da pobreza e a integração social, para que a médio/largo prazo pudéssemos estar todos no mesmo patamar de desenvolvimento”.

E acrescentava: "deve-se, por isso, pensar muito a sério na criação de facilidades financeiras para a promoção recíproca do investimento e da cooperação económica".

Todos estão de acordo. Só que... continua a não fazer sentido pedir aos pobres dos países ricos para dar aos ricos dos países pobres. Em vez de se preocupar com o povo que não pode tomar antibióticos (e não pode porque eles, quando existem, são para tomar depois de uma coisa que o povo não tem: refeições), a CPLP mostra-se agora mais virada para questões políticas, para o aprofundamento da democracia.

Que adiantará ter uma democracia quando se tem a barriga vazia? Valerá a pena pedir, ou exigir, que se respeite a legitimidade democrática se o povo apenas quer deixar de morrer à fome?

terça-feira, outubro 25, 2011

Mentir é fácil, é barato e dá milhões

O primeiro-ministro de Portugal anunciou hoje  que o Governo vai aprovar na próxima semana alterações ao estatuto dos gestores públicos e novas regras relativas aos institutos públicos e gabinetes ministeriais que constituem uma "mudança de regime".

Alguém acredita? Quem diz isto é o mesmo que disse: “Estamos disponíveis para soluções positivas, não para penhorar futuro tapando com impostos o que não se corta na despesa”.

Pedro Passos Coelho disse que a intenção do Governo é que os lugares da Administração Pública sejam preenchidos segundo uma escolha "que esteja muito para além da questão da confiança política e que envolva o mérito, independentemente da área partidária" dos candidatos.

Alguém acredita? Quem diz isto é o mesmo que disse: “Aceitarei reduções nas deduções no dia em que o Governo (do PS) anunciar que vai reduzir a carga fiscal às famílias”.

"Até 2013 haverá concursos públicos para prover aqueles lugares em termos diferentes do que aconteceu até hoje. O objectivo é acabar com esta ideia de um Estado paralelo que é construído dentro dos gabinetes dos ministros e dos secretários de Estado e que desqualifica a Administração", impondo que assessores e adjuntos sejam recrutados "na Administração Pública", disse Passos Coelho.

Alguém acredita? Quem diz isto é o mesmo que disse: “Vamos ter de cortar em gorduras e de poupar. O Estado vai ter de fazer austeridade, basta de aplicá-la só aos cidadãos”.

Segundo o primeiro-ministro, é preciso evitar "que cada vez que um Governo é substituído ou uma equipa ministerial é substituída todo o saber, toda a competência saia com os titulares desses lugares" e fazer com que esta permaneça "na Administração para que seja efectivamente do Estado e não do Governo".

Alguém acredita? Quem diz isto é o mesmo que disse: “Ninguém nos verá impor sacrifícios aos que mais precisam. Os que têm mais terão que ajudar os que têm menos. Queremos transferir parte dos sacrifícios que se exigem às famílias e às empresas para o Estado”.

Passos Coelho adiantou que "relativamente às empresas públicas e aos institutos públicos" o Governo vai actuar "reduzindo o número de administradores: onde são sete deverão passar para cinco, senão mesmo para três, onde são cinco deverão passar para três".

Alguém acredita? Quem diz isto é o mesmo que disse: “Para salvaguardar a coesão social prefiro onerar escalões mais elevados de IRS de modo a desonerar a classe média e baixa”.

Quanto a remunerações, o primeiro-ministro disse que, "em todas as áreas que estão protegidas do mercado", estas serão indexadas às "do Presidente da República ou do primeiro-ministro" e que, no caso das "empresas do Estado que estejam em concorrência", será permitido, "durante um tempo a estipular, que os rendimentos médios auferidos possam ser preferidos".

Alguém acredita? Quem diz isto é o mesmo que disse: “Se vier a ser necessário algum ajustamento fiscal, será canalizado para o consumo e não para o rendimento das pessoas. Se formos Governo, posso garantir que não será necessário despedir pessoas nem cortar mais salários para sanear o sistema português”.

Segundo Passos Coelho, trata-se de "uma mudança de regime completa relativamente a tudo aquilo que tem sido observado. E a forma como o Estado manterá a sua disposição de se retirar de uma grande parte dos negócios da economia complementa esta visão de que o Estado não existe, na nossa acepção, para ter muitas empresas. O que o Estado deve é regular bem o papel da economia. Essa é a sua função, essa deve ser a regra, as empresas públicas devem ser a excepção, e não o contrário".

Alguém acredita? Quem diz isto é o mesmo que disse: “A ideia que se foi gerando de que o PSD vai aumentar o IVA não tem fundamento. A pior coisa é ter um Governo fraco. Um Governo mais forte imporá menos sacrifícios aos contribuintes e aos cidadãos”.

Ou que disse: “Não aceitaremos chantagens de estabilidade, não aceitamos o clima emocional de que quem não está caladinho não é patriota”.

Ou que disse: “O PSD chumbou o PEC 4 porque tem de se dizer basta: a austeridade não pode incidir sempre no aumento de impostos e no corte de rendimento”.

Ou que disse: “Já ouvi o primeiro-ministro dizer que o PSD quer acabar com o 13º mês, mas nós nunca falámos disso e é um disparate”.

Ou que disse: “Como é possível manter um governo em que um primeiro-ministro mente?”

Em Portugal tudo é… colossal

O presidente do Sindicato dos Jornalistas, Alfredo Maia, considera que a privatização de um canal da RTP "é um erro colossal" porque representa a "amputação do serviço público de televisão" e "prejudica" os cidadãos.

Mais do que discutir o inevitável, as violações à lei, o quero posso e mando que caracteriza este, tal como o anterior, governo, prefiro falar daquela de Jornalismo, ou seja, da profissão que está em vias de extinção, sem que isso preocupe (antes pelo contrário) os donos do reino.
Todos este jornalistas, como sempre foi, é e será desejo dos diferentes poderes existentes em Portugal, sobretudo os políticos e os económicos, estão agora (os que ainda a têm) a pensar com a barriga.
Apesar de serem de Maio de 2009, não me esqueço que o Carlos Narciso (um dos mais probos jornalistas de língua portuguesa) dizia que não ia à feira do livro “porque o subsídio de desemprego é manifestamente curto para dar de comer à família e ainda conseguir comprar livros”.
Já em Fevereiro de 2006, o Carlos Narciso dizia em entrevista ao Notícias Lusófonas: “O mercado de trabalho está cada vez mais pequeno, mesmo se, eventualmente, hoje temos mais títulos de imprensa, mais canais de rádio e de televisão que há 20 anos atrás. A verdade é que há cada vez menos patrões… e o aproveitamento das chamadas sinergias de grupo tem vindo a atirar jornalistas para o desemprego”.
E acrescentava que “o que tenho observado, com bastante estranheza, é que os jornalistas têm estado silenciosos” (...) silêncio que “pode, de facto, revelar a cobardia que reina entre os jornalistas, o medo de perder o emprego caso revelem opiniões contrárias às do patrão”.
Carlos Narciso, considerado pelo Notícias Lusófonas (opinião que subscrevo) como “um excelente Jornalista, dos mais conhecidos e respeitados em todo o espaço lusófono”, dizia também que “há uma ideia romantizada do que é jornalismo e, nessa ideia, não entram conferências de imprensa enfadonhas, passar meses e anos a escrever pequenas notícias, a frustração de ver oportunidades passar ao lado, a mediocridade premiada, enfim, o dia-a-dia de muitas redacções”.
Também em Maio de 2009, Alfredo Maia salientava que ainda que a liberdade de imprensa esteja, "do ponto de vista formal, assegurada", há "problemas graves" no jornalismo português.
Há? Quem diria. Ouvir o presidente de um sindicato dizer que o que se passa nas ocidentais praias lusitanas a norte, embora cada vez mais a sul, de Marrocos, é apenas “grave”, é como querer tapar o Sol com uma peneira... não tendo sequer peneira.
Alfredo Maia salientava então, e o discurso continua com uma colossal actualidade,  que a "ameaça de desemprego" que paira sobre alguns conjuntos de profissionais e a "precariedade", que atinge "novos e antigos profissionais", são os principais desafios à "autonomia" da imprensa hoje em dia.
Compreendo que como jornalista assalariado e, portanto, igualmente sujeito à ameaça de desemprego, o Alfredo Maia não possa dizer mais. Fica, contudo, um travo amargo porque de um presidente de um sindicato esperava mais. Muito mais.
Já para o então sub-director do jornal Público, a falta de liberdade de expressão passa, no Ocidente, muito mais, por um "tipo de controlo de opinião, que é feito de uma forma muito mais subliminar".
Segundo Amílcar Correia, esse controlo acontecia (acontece) sob a forma de "condicionamento económico dos órgãos de informação", pela "pressão de fontes" e anunciantes, que "num cenário de alguma crise nos media", podem conseguir ter "alguma influência no editorial das respectivas publicações".
Os leitores aqui do Alto Hama certamente que se lembram de já ter lido algo semelhante. E de o ter lido desde há muito tempo e por várias vezes.
Sobre os eventuais excessos derivados da "falta de sensatez e de bom senso" dos jornalistas, Amílcar Correia entende que "a ausência da liberdade de expressão é sempre pior", portanto, "é preferível o excesso de liberdade de imprensa à total ausência de liberdade de expressão".
Aliás, todos sabem que, no reino lusitano, não faltam exemplos de casos onde os jornalistas são “voluntariamente obrigados” a pensar com a barriga.
"Só com jornalistas usando plenamente os seus direitos e garantias existe jornalismo verdadeiramente livre e responsável", destacava Alfredo Maia, certamente pensando nas centenas de jornalistas que nos últimos anos foram obrigados a ir para o desemprego.
Tudo, é claro, a bem de uma nação que acaba de instituir a escravatura como forma de, dizem eles, evitar a falência.

segunda-feira, outubro 24, 2011

Abaixo da escravatura nada mais há!

Ao que parece há para aí uma onda nas ocidentais praias lusitanas contra o facto de alguns elementos  da casta superior de portugueses, os políticos, beneficiarem de pensões vitalícias.

Nada mais errado.  Como bem sabem os 800 mil desempregados, os 20% que ainda vivem (isto é como quem diz) na miséria e os outros 20% que a têm à porta, em todas as sociedades (é o caso de Portugal)  em que existem seres superiores e inferiores, em que os esclavagista estão no poder, os escravos têm de pagar essas pensões vitalícias e outros emolumento.

Aliás, por muito que seja o dinheiro envolvido na chulice, importa reconhecer que os políticos portugueses, os de ontem e os de hoje (possivelmente também os de amanhã), são mesmo seres superiores que, como exímios azeiteiros, exploram os escravos até ao tutano. E exploram porque tal lhes é permitido. E sé é isso que a plebe quer, não há nada a fazer.

Aliás, basta ver a galeria de notáveis e superiores cidadãos lusos para ter a certeza de que todos eles, de Dias Loureiro a Oliveira e Costa ou Ângelo Correia, de Jorge Coelho a Armando Vara  merecem tudo o que recebem e ainda muito mais.

Se em Portugal a casta superior é constituída por todos aqueles que trabalham não para os milhões que têm pouco ou nada (os escravos), mas sim para os poucos que têm cada vez mais milhões, ninguém pode dizer que eles não são competentes e merecedores que os plebeus continuam a pagar para manter a sua mama.

Quando ouço, por exemplo, Francisco Louçã dizer que "todos são iguais e quem tem responsabilidades tem de cumprir a lei que propõe para todos os portugueses", farto-me de rir (a barriga vazia não anula o meu sentido de humor).

Todos são iguais? Onde?

São todos iguais a ponto de como bom “africanista de Massamá”, Passos Coelho reeditar a política colonial imortalizada no poema Monangambé de António Jacinto: fuba podre, peixe podre, panos ruins, cinquenta angolares e porrada se refilares.

E, tal como no tempo de Salazar, avisa que o Governo não permitirá o direito à indignação aos “que pensam que podem incendiar as ruas" e trazer "o tumulto". Tirem os escravos daí a ideia.

Por deficiência congénita e ancestral, os portugueses são de uma forma geral um povo de brandos costumes que, quase sempre, defendem a tese de que “quanto mais me bates mais gosto de ti”. Mesmo agora que está esquelético, continuam a achar que o seu fado é serem cidadãos de segunda que tudo devem fazer para agradar aos seus donos.

Mas, quem sabe?, talvez um dia acordem com a barriga de tal modo vazia a ponto de mostrem que estão fartos de quem em vez de os servir… só se serve deles. Não sei se isso acontecerá. Mas que, pelo menos em tese, os portugueses também têm direito à Primavera, isso têm.

É certo que em Portugal aumenta o número dos que pensam que a crise (da maioria, de quase sempre os mesmo) só se revolve a tiro. Até os militares sonham, embora em silêncio e com as paredes do cérebro insonorizadas, que essa é uma alternativa. Por mim parece-me uma boa opção, sobretudo porque apesar da fraqueza física haverá sempre força para puxar o gatilho.

Mesmo que assim seja, se calhar os responsáveis pela tragédia (como é o caso, entre outros, entre muitos outros) de Cavaco Silva, José Sócrates, Passos Coelho e Paulo Portas, vão continuar a ter pelo menos três boas refeições por dia e chorudas pensões vitalícias.

De uma coisa os portugueses não podem, contudo, esquecer-se.  Parafraseando Platão: "O castigo por não pores borda fora a actual classe política é acabares por ser governado por quem te é inferior."

Para já e por enquanto, na primeira linha dos que podem e devem sair à rua para dizer “basta” estão os 800 mil desempregados, os 20% que vivem na miséria e outros tantos que começam a ter saudades de uma... refeição. Número que, convenhamos, já tem algum significado. De facto, é muita gente a pensar com a barriga… vazia.

Seja como for, começa mesmo a ser altura de os portugueses porem os seus políticos a pão e água ou, talvez, a farelo.

Nas escolas aprende-se a ser competente.
- Nos partidos aprende-se a ter bons tachos!

Portugal foi o país da União Europeia que mais progrediu na última década em termos de população que termina pelo menos o 12º ano, atingindo médias europeias no ensino superior, frequentado por um em cada três jovens de 20 anos.

Os avanços de Portugal poderão constituir um exemplo para outros países que têm vindo a baixar nos indicadores em causa, mas os bons resultados conseguidos estão ainda "aquém do exigido", precisou a presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), Ana Maria Bettencourt.

O estudo sobre a qualificação dos portugueses serviu, hoje, de base à intervenção da presidente do CNE na abertura de uma conferência da Rede Europeia de Conselhos de Educação, em Lisboa, que contou com a presença da secretária de Estado do Ensino Básico e Secundário, Isabel Leite.

A diversificação da oferta de formação profissional, bem como da educação de adultos "contribuíram, sem dúvida, para os progressos que pudemos verificar", reconheceu Ana Bettencourt.

A responsável alertou que é preciso garantir "níveis ainda mais elevados de recuperação", que permitam ao país recuperar de um atraso de décadas e alcançar as metas estabelecidas para 2020.

"O que só será possível com o recurso a medidas extraordinárias dirigidas à captação de pessoas pouco escolarizadas, com as quais o país tem uma dívida", defendeu.

O CNE recomenda que é necessário avaliar e melhorar percursos e estratégias, prosseguindo na melhoria da educação e qualificação.

"Sabemos que as dificuldades exigem esforços redobrados das políticas, dos sistemas e das práticas, mas também das instituições, dos actores sociais e das estruturas do tecido empresarial", sustentou a presidente deste órgão independente.

No mesmo sentido, considerou que o contributo das empresas pode ser decisivo, "quer pela valorização de melhores qualificações em novas admissões, quer pela maior especialização que darão ao sector produtivo, quer ainda pelo desenvolvimento profissional dos seus colaboradores", permitindo adequar as suas competências às necessidades do mercado de trabalho.

Ana Bettencourt advertiu que a presente crise irá agravar as condições de vida na sociedade portuguesa e "comprometer as oportunidades de emprego", desejando que as ofertas educativas possam gerar mudanças que reduzam as desigualdades e a exclusão.

A secretária de Estado frisou, por seu lado, que a maioria da população activa portuguesa continua a entrar no mercado de trabalho "muito impreparada", apesar das medidas tomadas por anteriores governos.

Responsáveis de concelhos de educação de vários países da Europa estão reunidos até terça-feira na conferência dedicada a debater "Novas Competências para Novos Empregos".

Esta é a notícia ou, se se preferir, a teoria ou embalagem. A realidade, a substância, o conteúdo desmente muitas destas divagações estatísticas que, regra geral, dão para tudo.

Num sistema laboral como o português, o importante não é estar bem preparado, desde logo porque a competência nada significa perante a subserviência em que os "jobs" são para os "boys", em que os génios são menos importantes do que os néscios desde que estes tenham obviamente cartão do partido.

Quando um país vê os seus licenciados a guiar táxis, a fazer embrulhos em lojas de roupa ou a servir às mesas nos cafés do país e nada faz é porque, de facto, deixou de ser um país e passou a ser um local mal frequentado.

O  Governo actual, como os anteriores, simulou que queria alterar o (mau) estado das coisas mas de facto é mais a parra do que a uva. Mais o acessório do que o essencial. Mais o oportunismo do que o realismo. Mais a embalagem do que o produto.

Seguindo “ipsis vervis” a metodologia que tanto criticou no PS, o PSD está a estacionar, com algumas raras excepções, as suas peças em sectores relevantes, marimbando-se para a real competência dos portugueses que caminham a passos largos para deixarem de ser cidadãos de segunda para serem apenas e tão só escravos.

Na comunicação social, por exemplo,  continua a valer a regra socialista de que mais vale ser um propagandista de barriga (bem) cheia do que um ilustre Jornalista com ela vazia.

Tal como John Kennedy, também Passos Coelho diz que: "É a altura, não de perguntar aquilo que o Governo pode fazer por nós, mas aquilo que todos podemos fazer pelo Governo".

(A tradução da frase de Kennedy para português é : "quem pode manda")

É claro (para mim - entenda-se) que este Governo (ao contrário dos leves e iniciais indícios e de alguns – embora poucos – competentes que o integram) está-se nas tintas para os portugueses que não têm coluna vertebral amovível.

Porquê? Porque, cada vez mais, os portugueses sabem que é sempre possível ter um cartão do partido no meio de tantos outros, mesmo que a validade seja curta.

Sabem que, sendo do partido, haverá sempre um lugar como assessor, como especialista ou como super qualquer coisa.

Como dizia Inês Pedrosa, "temos cada vez mais jornalistas que saltam das redacções para se tornarem criados de luxo do poder vigente". E a regra não é exclusiva dos jornalistas.

E, é claro, depois dessa rodagem há sempre a possibilidade de ver criados saltarem do poder para serem sobas nas empresas, fundações, institutos e similares com especialização em estar sempre de acordo com os seus donos.

Tal como conheço pessoas de alto nível cultural e profissional que são motoristas de táxi, repositores de produtos em supermercados, fazedores de embrulhos em lojas e, é claro, desempregados, também conheço políticos e similares (deputados, autarcas, assessores, administradores de empresas públicas, institutos etc.) que deveriam ser motoristas de táxi, repositores de produtos em supermercado, fazedores de embrulhos em lojas e, é claro, desempregados.

A diferença entre eles não está na origem do “dr.” (quem diz doutor, diz engenheiro) mas nas ligações partidárias que, a par ou não da competência, são muito mais do que meio caminho andado para se ter um bom tacho.

Um colossal mentiroso no reino lusitano

Pedro Passos Coelho escreveu, entre Março de 2010 e Junho de 2011, o que a seguir se reproduz. Com isso enganou os portugueses e ganhou as eleições. É chegada a altura de o mandar pregar para outra freguesia.

«Estas medidas põem o país a pão e água. Não se põe um país a pão e água por precaução».

 «Estamos disponíveis para soluções positivas, não para penhorar futuro tapando com impostos o que não se corta na despesa».

«Aceitarei reduções nas deduções no dia em que o Governo anunciar que vai reduzir a carga fiscal às famílias».

«Sabemos hoje que o Governo fez de conta. Disse que ia cortar e não cortou».

«Nas despesas correntes do Estado, há 10% a 15% de despesas que podem ser reduzidas».

«O pior que pode acontecer a Portugal neste momento é que todas as situações financeiras não venham para cima da mesa».

«Aqueles que são responsáveis pelo resvalar da despesa têm de ser civil e criminalmente responsáveis pelos seus actos».

 «Vamos ter de cortar em gorduras e de poupar. O Estado vai ter de fazer austeridade, basta de aplicá-la só aos cidadãos».

«Ninguém nos verá impor sacrifícios aos que mais precisam. Os que têm mais terão que ajudar os que têm menos».

«Queremos transferir parte dos sacrifícios que se exigem às famílias e às empresas para o Estado».

«Já estamos fartos de um Governo que nunca sabe o que diz e nunca sabe o que assina em nome de Portugal».

«O Governo está-se a refugiar em desculpas para não dizer como é que tenciona concretizar a baixa da TSU com que se comprometeu no memorando».

«Para salvaguardar a coesão social prefiro onerar escalões mais elevados de IRS de modo a desonerar a classe média e baixa».

«Se vier a ser necessário algum ajustamento fiscal, será canalizado para o consumo e não para o rendimento das pessoas».

«Se formos Governo, posso garantir que não será necessário despedir pessoas nem cortar mais salários para sanear o sistema português».

«A ideia que se foi gerando de que o PSD vai aumentar o IVA não tem fundamento».

«A pior coisa é ter um Governo fraco. Um Governo mais forte imporá menos sacrifícios aos contribuintes e aos cidadãos».

«Não aceitaremos chantagens de estabilidade, não aceitamos o clima emocional de que quem não está caladinho não é patriota».

«O PSD chumbou o PEC 4 porque tem de se dizer basta: a austeridade não pode incidir sempre no aumento de impostos e no corte de rendimento».

«Já ouvi o primeiro-ministro dizer que o PSD quer acabar com o 13.º mês, mas nós nunca falámos disso e é um disparate».

«Como é possível manter um governo em que um primeiro-ministro mente?»

domingo, outubro 23, 2011

É fácil negociar com dirigentes vitalícios

MPLA recupera artigo escrito para Kadafi mas que nunca chegou a ser publicado (*)

«A democracia só existe se brotar de cada um de nós e for cultivada cuidadosamente no quotidiano em todos os nossos gestos.

Esse é o ponto de partida. E no regime democrático nunca há ponto de chegada, porque os regimes políticos exigem um aperfeiçoamento permanente. Nada é dado como adquirido, o pluralismo de ideias impõe-se às certezas absolutas e sucessivas gerações têm pontos de vista e soluções diferentes para os mesmos problemas. Quem cultiva em si a democracia é tolerante, sabe perder, sabe ganhar e, sobretudo, é capaz de reconhecer o valor das ideias dos outros.

Na democracia não há inimigos, apenas adversários. E todos são importantes na construção das condições que suportam a liberdade: trabalho para todos, habitação, saúde e educação. Por isso, o regime democrático começa em nossa casa, mesmo que não haja na mesa muito pão. Em democracia todos podem ralhar e todos têm razão. Mas no dia em que na nossa casa houver oprimidos e as suas vozes forem silenciadas, a democracia fica reduzida a boas intenções. Não é com palavras mais ou menos bem intencionadas que se constrói ou se defende a democracia. Casa onde não há democracia, não existe legitimidade para discutir ideias ou apresentar alternativas.

Cada líbio tem de cultivar em si a democracia. Cada casa da Líbia tem de viver num clima democrático e os seus membros têm o direito indeclinável de fazer ouvir a sua voz. Só assim a democracia progride e se enraíza cada vez mais no nosso país. Enganam-se os que pensam que o regime democrático se institucionaliza por decreto ou que bastam jogos de palavras para contribuir para o aprofundamento da democracia. A Líbia  abraçou o multipartidarismo e a economia de mercado há muitos anos. Nesse momento foram livremente aceites pelos líbios os mais importantes pressupostos da democracia. Como resultado dessa opção política, Muammar Kadafi  passou a ser o primeiro defensor do regime democrático.

A História recente demonstra que Muammar Kadafi  tem honrado os compromissos assumidos. Nem mesmo a guerra o fez mudar de posição. Numa altura em que a autoridade do Estado foi posta em crise na maior parte do território nacional por um exército ilegal e destruidor, Muammar Kadafi apostou na democracia e não foi pelo caminho que as circunstâncias apontavam, quer seria a declaração do estado de sítio. A sua fidelidade aos princípios democráticos permitiu que hoje os líbios vivam em paz e liberdade num inegável clima de reconciliação nacional.

Muammar Kadafi   é um democrata convicto. Na sua casa, há democracia e liberdade de opinião. Ninguém pode apontar no seio do seu governo casos de dirigentes punidos só porque pensam de forma diferente do líder. Cada um assume publicamente as suas ideias sem medo de castigos, de expulsões ou de ameaças. Por isso, o eleitorado lhe deu mais de 82 por cento dos votos nas últimas eleições e sufragou a política seguida por Muammar Kadafi .

Mustafa Abdel Jalil disse que “a ditadura na Líbia é refinada mas é ditadura”. A grandeza da democracia está neste simples facto: os democratas são capazes de arriscar a vida e a liberdade para que líder do Conselho Nacional de Transição da Líbia  tenha direito a exprimir livremente as suas opiniões. Mas eu considero que Mustafa Abdel Jalil  não tem razão. Os líbios deram à democracia em África e no mundo uma dimensão nunca alcançada. Mustafa Abdel Jalil  sabe como ninguém que o CNT  esteve vários anos num Governo de Unidade e Reconciliação Nacional. Infelizmente, nesse período o seu partido deu um contributo muito pobre ao aprofundamento do regime democrático e em alguns momentos fez da Assembleia Nacional apenas arena de demagogia, cadeira vazia e crispação em níveis que chegaram a pôr em dúvida se o partido adere ao sistema democrático.

Felizmente, continua a triunfar o bom senso. Hoje Mustafa Abdel Jalil  pede diálogo. Mas foi pena que na fase intensa do conflito Mustafa Abdel Jalil  tivesse optado pelo silêncio, apoiando a guerra por omissão. Os heróis do seu partido que assinaram a paz, pondo fim à absurda aventura belicista, nunca mereceram do líder do CNT uma palavra pública de reconhecimento. E ela era devida, quanto mais não seja porque foram eles que lhe permitiram liderar o partido e usufruir das benesses do regime democrático que ele ingratamente acusa de “dictature raffinée”.

A democracia líbia é jovem e faz o seu caminho. Se Mustafa Abdel Jalil  pede hoje diálogo é porque tem graves problemas no seu partido. No dia em que a democracia chegar à casa de Mustafa Abdel Jalil, verá que ela fica mais forte e mais madura, porque a Oposição é imprescindível ao regime democrático. O líder do CNT daria um sinal importante de abertura democrática se, por exemplo, concedesse ao nosso jornal a entrevista que nos últimos tempos por duas vezes recusou. Seria uma boa oportunidade para explicar aos líbios o que entende por “ditadura refinada”.»

(*) Este artigo é da autoria do porta-voz de Kadafi, Musa Ibrahim, e estava pronto para ser publicado após a vitória que o ditador dava como certa. Como tal não aconteceu, o texto foi recuperado, adaptado e publicado pelo regime amigo de Eduardo dos Santos, sob a pena do director do Jornal de Angola, José Ribeiro.

Por mares nunca dantes navegados