segunda-feira, setembro 03, 2012

Alto Hama suspende publicação


Por razões mais ou menos pessoais (que a razão conhece mas que, por agora, omite) o Alto Hama é obrigado a suspender a sua publicação. Tão rápido quanto possível, e se for possível, voltará à ingénua luta de pôr o poder das ideias acima das ideias de poder. Obrigado.

domingo, setembro 02, 2012

Fraude monumental com apoio russo


Quem decidiu as eleições em Angola, nomeadamente a percentagem de votos que cada partido ou coligação teria, foi a Casa Militar do Presidente da República em estreita colaboração com Moscovo. O Povo e os observadores foram meras figuras decorativas.

Os milhares de observadores internacionais às eleições em Angola confirmaram a democraticidade do acto. Bem, não foram milhares, foram centenas. Centenas também será um exagero. Fiquemos pelas dezenas. Ou, melhor, foram meia dúzia.

Para além de ficarem nos melhores hotéis (ninguém lhes pagou para ir ao país profundo ou para indagarem sobre o que se passou do lado de lá da cortina... de ferro) e comerem do bom e do melhor (se não fosse para isso o que é que iriam lá fazer?), estiveram sempre – honra lhes seja feita – na primeira fila.

E estiveram na primeira fila para, dizem, ver tudo o que se passava. Além disso a sua localização estratégica permitiu que todos os vissem.

Foram espertos. Pelo contrário, os competentes na arte de ganhar eleições ficaram lá atrás. Não foram vistos, mas viram tudo o que se passava. E, mais do que isso, viram bem antes das eleições. Muito antes.

De facto, e como era esperado pelo regime angolano, na primeira fila de observação está sempre a subserviência, colectiva ou individual.

Os que sabem tudo, esses estão na primeira fila. Cá atrás não estiveram os observadores. E não estiveram porque se o fizessem poderiam, mesmo que involuntariamente, ver o que se passava de facto. E se vissem seria uma chatice não relatar. Além disso, o grosso da fraude não se passou mas mesas de voto. Passou-se no centro (nevrálgico) do controlo informático, sob as ordens de especialistas russos.

É por isto que os observadores eleitorais estiveram sempre na primeira fila. Todos sabiam quem eles eram e ao que iam. Se calhar poderiam passar despercebidos e, dessa forma, ver melhor a realidade. Mas não era para isso que eles lá estavam.

E para um observador que se preze, o silêncio é uma regra de ouro. E se a isso conseguir juntar a cegueira, então é o diamante no cimo dos dólares.

Como lhe competia, o MPLA só deu luz verde aos observadores que entendeu. A União Europeia passou de 100 em 2008 para 2 (dois) em 2012. A CPLP conseguiu resolver a questão com 10 (dez). Apesar da redução numérica, o regime colocou como condição sine qua non serem invertebrados, corruptos e cegos.

Quem melhor, por exemplo, do que Pedro Pires para chefiar a Missão de Observadores da União Africana? Não foi ele quem em 2001  ganhou as eleições presidenciais cabo-verdianas à custa de uma fraude?

No entanto, a fraude não se limitou ao acto do colocar o voto na urna. Começou antes, bem antes. Tão antes que ninguém da oposição conseguiu a tempo e horas (como, aliás, estava previsto na lei) saber o que se passava com os cadernos eleitorais.

Por alguma razão as pessoas que o regime entendeu serem as mais credenciadas para as mesas e assembleias de voto foram membros da JMPLA e do SINFO, aparecendo alguns destes como sendo indicados pelos partidos da oposição.

Aliás, quem decidiu as eleições, nomeadamente a percentagem de votos que cada partido ou coligação teria foi a Casa Militar do Presidente da República, com destaque para Hélder Vieira Dias,  Kopelika, mas com o contributo dos generais Fernando Alberto Araújo e Rogério Saraiva.

Pela via informática/electrónica, montada há meses por técnicos russos, os resultados recebidos foram convertidos na linguagem já estabelecida, razão pela qual muitos dos resultados apurados in loco nas assembleias de apuramento não coincidem com os divulgados pela CNE.

E, em muitos casos, a culpa nem é da CNE que, de facto, divulga os dados que recebe e que julga terem origem nos centros de escrutínio. Mas não. Os enviados desses centro vão parar ao comando russo que os converte e reenvia para a CNE.

Seja como for, nada disto e do muito que continua no segredo dos deuses do MPLA, com assessoria russa, importa à comunidade internacional que, tal como os angolanos, foi comida de cebolada.

sábado, setembro 01, 2012

Observadores à e por medida


Como todos já sabiam há muito tempo, as eleições de ontem em Angola foram novamente um exemplo de democraticidade, eficiência e transparência. Aliás, nem outra coisa era de esperar do partido, o MPLA, que está no poder desde 1975.

Essa era uma certeza adquirida nos areópagos políticos dos parceiros e sócios do regime angolano a ponto, ao contrário de 2008, a União Europeia ter reduzido o número dos seus observadores eleitorais de 100 (então chefiados pela italiana Luísa Morgantini que foi considerada pelo regime como persona non grata) para… 2 (dois).

Tal como em 2008, a missão da CPLP voltou a ser chefiada pelo  moçambicano Leonardo Simão. E o que viu agora o líder da missão de observadores da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa?

O que viu não se sabe porque ele, como político inteligente que é, não conta. Mas sabe-se o que já disse. Desde logo a "enorme evolução" na organização das eleições… apesar de "algumas falhas". Falhas pequenas, muito pequenas, acrescento eu.

"O processo eleitoral decorreu num ambiente de tranquilidade, serenidade, com um grau de organização bastante elevado", embora com algumas falhas aqui e acolá", afirmou o chefe da missão dos observadores da CPLP, que – certamente perante a pequenez do país - deslocou um importante contingente de 10 (dez) técnicos para testemunhar o processo eleitoral.

Segundo Leonardo Simão, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros de Moçambique e actual diretor da Fundação Joaquim Chissano (e, portanto, por dentro das necessidades do regime do MPLA e da sua capacidade política, económica e militar), a missão da CPLP detectou as excepções que acabam por confirmar a democraticidade, transparência e eficácia das eleições.

A provar a atenção dos 10 (dez) técnicos da CPLP, Leonardo Simão vai ao pormenor de contar que numa situação em Viana, nos arredores de Luanda, os membros de algumas mesas não apareceram, devido a uma avaria numa autocarro.

É claro que não detectaram muitas outras irregularidades, como sejam a dos mortos votarem e a de muitos vivos não constarem dos cadernos eleitorais.

Leonardo Simão cometeu, apesar de não querer – legitimamente -  cuspir no prato de quem lhe deu comida, alguns lapsos. Falou da ausência de delegados de lista em algumas mesas de voto, disse que os partidos não receberam financiamento atempado para recrutar e formar pessoas e afectá-las a mais de 25 mil postos de votação em todo o país.

Leonardo Simão referiu-se também à aprovação tardia da lei eleitoral, em Dezembro, e à impugnação, entretanto, da presidente da Comissão Nacional Eleitoral (CNE). "O tempo material para a preparação das eleições foi bastante curto", considerou, lembrando que uma votação como esta "leva dois anos a preparar". Deveria levar…

Apesar das acusações de irregularidades do principal partido da oposição, e da dura resposta do MPLA, no poder desde 1975, Leonardo Simão disse ter testemunhado "um ambiente mais distendido" em relação a 2008, quando "havia uma certa tensão no ar e uma certa incerteza sobre o que ia acontecer".

E se em 2008 havia alguma incerteza, em 2012 tudo ficou claro. O regime continua igual ao que sempre foi, a maioria dos angolanos continuará a passar fome, os ricos continuarão cada vez mais ricos, Portugal continuará o seu processo de bajulação e o MPLA retribuirá com a defesa e apoio ao seu protectorado (luso, lusitano, lusófono) do sul da Europa.

Uma nota final para enaltecer a opinião de dois sipaios, perdão, observadores portugueses que – como convém – deitaram faladura na RTP para elogiar o processo eleitoral:  Elísio de Oliveira e Azeredo Lopes (foto).

Talvez por terem os dois pertencido a um elefante branco que, em Portugal, dá pelo nome de Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), a unanimidade foi total. Em abono, obviamente, do regime. Na minha ingenuidade, sempre esperava mais de Elísio de Oliveira, sobretudo porque iniciou a sua actividade profissional no Rádio Clube de Angola, na ex-Emissora Oficial de Angola e na revista “Noite e Dia” editada pela “Noticia”. Enganei-me. 

Parabéns ao dono de Angola!


O MPLA está no poder desde 1975 e por lá vai ficar. Com o poder absoluto que tem nas mãos (é também o presidente do MPLA e chefe do Governo), José Eduardo dos Santos é um dos ditadores ou, na melhor das hipóteses, um presidente autocrático, há mais tempo em exercício.

O facto de não ser caso único, nomeadamente em África, em nada abona do ponto de vista democrático e civilizacional a seu favor. Sabe todo o mundo, mas sobretudo e mais uma vez África, que se o poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente. É o caso em Angola.

Só em ditadura, mesmo que legitimada pelos votos comprados a um povo que quase sempre pensa com a barriga (vazia) e não com a cabeça, é possível estar tantos anos no poder. Em qualquer estado de direito democrático tal não seria possível.

Aliás, e Angola não foge infelizmente à regra, África é um alfobre constante e habitual de conflitos armados porque a falta de democraticidade obriga a que a alternância política seja conquistada pela linguagem das armas. Há obviamente outras razões, mas quando se julga que eleições são só por si sinónimo de democracia está-se a caminhar para a ditadura.

Com Eduardo dos Santos passa-se exactamente isso. A guerra legitimou tudo o que se consegue imaginar de mau. Permitiu ao actual presidente perpetuar-se no poder, tal como como permitiu que a UNITA dissesse que essa era (e pelo que se vai vendo até parece que teve razão) a única via para mudar de dono do país.

É claro que, é sempre assim nas ditaduras, o povo foi sempre e continua a ser (as eleições não alteraram a génese da ditadura, apenas a maquilharam) carne para canhão.

Por outro lado, a típica hipocrisia das grandes potências ocidentais, nomeadamente EUA e União Europeia, ajudou a dotar José Eduardo dos Santos com o rótulo de grande estadista. Rótulo que não corresponde ao produto. Essa opção estratégica de norte-americanos e europeus tem, reconheça-se, razão de ser sobretudo no âmbito económico.

É muito mais fácil negociar com um regime ditatorial do que com um que seja democrático. É muito mais fácil negociar com alguém que, à partida, se sabe que irá estar na cadeira do poder durante toda a vida, do que com alguém que pode ao fim de um par de anos ser substituído pela livre escolha popular.

É, como acontece com José Eduardo dos Santos, muito mais fácil negociar com o líder de um clã que representa quase 100 por cento do Produto Interno Bruto, do que com alguém que não seja dono do país mas apenas, como acontece nas democracias, representante temporário do povo soberano.

Bem visível na caso angolano é o facto de, como em qualquer outra ditadura, quanto mais se tem mais se quer ter, seja no país ou noutro qualquer sítio. Por muito pequeno que seja o ditador, o que não é o caso de José Eduardo dos Santo, a História mostra-nos que tem sempre apreciável fortuna espalhada pelo mundo, seja em bens imobiliários (como era tradição) ou mais modernamente nos paraísos fiscais.

Reconheça-se, entretanto, a estatura política de José Eduardo dos Santos, visível sobretudo a partir do momento em que deixou de poder contar com Jonas Savimbi como o bode expiatório para tudo o que de mal se passava em Angola.

Desde 2002, o presidente vitalício de Angola tem conseguido fingir que democratiza o país e, mais do que isso, conseguiu (embora não por mérito seu mas, isso sim, por demérito da UNITA) domesticar completamente todos aqueles que lhe poderiam fazer frente.

Não creio que, até pelo facto de o país ter estado em guerra dezenas de anos, José Eduardo dos Santos tenha as mãos limpas de sangue. Aliás, nenhuma ditador com 33 anos de permanência seguida no poder, tem as mãos limpas.

Mas essa também não é uma preocupação. Quando se tem milhões, pouco importa como estão as mãos. Aliás, esses milhões servem também para branquear, para limpar, para transplantar, para comprar (quase) tudo e (quase) todos.

Tudo isto é possível com alguma facilidade quando se é dono de um país rico e, dessa forma, se consegue tudo o que se quer. E quando aparecem pessoas que não estão à venda mas incomodam e ameaçam o trono, há sempre forma de as fazer chocar com uma bala.

Acresce, e nisso os angolanos não são diferentes dos portugueses ou de qualquer outro povo, que continua válida a tese de que “se não consegues vencê-los junta-te a eles”. Não admira por isso que José Eduardo dos Santos tenha cada vez mais fiéis seguidores, sejam militares, políticos, empresários e até supostos jornalistas.

É claro que, enquanto isso, o Povo continua a ser gerado com fome, a nascer com fome, e a morrer pouco depois... com fome. E a fome, a miséria, as doenças, as assimetrias sociais são chagas imputáveis ao Poder. E quem está no poder há 33 anos, aos quais somará agora mais cinco, é sempre o mesmo, José Eduardo dos Santos. Até um dia, como é óbvio.

Mas alguém se preocupa com o Povo?

sexta-feira, agosto 31, 2012

No Huambo até os mortos votam


O Aristides é um velho amigo que vive, sempre viveu, no Huambo. Sempre foi do MPLA. Hoje fartou-se de ganhar dinheiro com as eleições.

Explicou-me que ganha um tanto (“mesmo muito”, segundo diz) por cada vez que vai votar. Recebeu uma lista (“e como eu há muitos mais”, acrescenta) com os locais onde deve votar, em nome de quem deve votar, não sendo necessário – é claro – dizer em quem deve votar.

- Mas então como é que resolves essa questão da tinta no dedo?, perguntei com a minha habitual ingenuidade.

- Essa questão, explicou-me, não se coloca aos que votam neste sistema. Nos locais escolhidos não tenho que pôr o dedo no tinteiro. Voto e vou-me embora para nova votação.

- Mesmo assim, e como é que te identificas? Não podes dar sempre o teu nome porque só votas num local. Certo?

- Certo. Nesses locais, tal como acontece com a tinta, digo apenas o meu suposto nome, eles dão baixa, eu voto e vou embora.

- Seja. E se depois aparece o verdadeiro cidadão pelo qual tu votaste?

- Não. Esse não aparece de certeza. É que eu voto em todos aqueles que já wafa (morreram).

- Boa. E para além de votares em nome dos mortos, nesse esquema também se pode votar em nome de outros cidadãos?

- É claro que pode. Há muita gente que vive no Lubango e que deveria votar no Huambo. Estás mesmo a ver esse pessoal a fazer centenas de quilómetros para votar?

É a democracia do MPLA no seu melhor!

Ser especialista de avental é outra coisa!


O futuro do comércio de textos de linha branca, sejam feitos ou não em Portugal, passa por Angola. Não pelos angolanos.  Aliás, o importante é trabalhar para os poucos que têm milhões e não para os milhões que até passam fome.

Acompanhar os especialistas  das questões angolanas, quase todos de gestação espontânea mas que têm formação maçónica e usam avental para encobrir  a ausência de coluna vertebral, é aliciante.

Como é compreensível, esses textos não são jornalismo mas, apenas, meios de propaganda que visam cativar investidores/compradores. E esses não se encontram ao nível do Povo que continua a ser gerado com fome, a nascer com fome e a morrer pouco depois… com fome.

Por alguma razão as despesas dos angolanos, que visitaram Portugal entre Janeiro e Abril, cresceram 53,23%.

Os turistas angolanos, parte deles são o filão que mais interessa ao moderno comércio jornalístico que se faz em Portugal, gastaram 87,2 milhões de euros, valor que compara com os 56,9 milhões de euros gastos no mesmo período de 2011.

E se, de uma forma geral, Portugal precisa dos donos de Angola, é natural que as empresas lusas, sejam ou não de comércio de textos de linha branca, afinam pelo mesmo diapasão.

Basta, aliás, ver o perfil do cliente angolano em Portugal, que representa mais de 30% do mercado de luxo português. Trata-se sobretudo de homens, 40 anos, empresários do ramo da construção, ex-militares ou com ligações ao governo. Vestem Hugo Boss ou Ermenegildo Zegna. Compram relógios de ouro Patek Phillipe e Rolex.

Do outro lado, aquele que não interessa a esse dito moderno “jornalismo”, está o perfil do povo angolano, que representa 70% da população, e que é pé descalço, barriga vazia e vive nos bairros de lata.

Esses angolanos de primeira não olham a preços. Procuram qualidade e peças com o logo visível. É comum uma loja de luxo facturar, numa só venda, entre 50 e 100 mil euros, pagos por transferência bancária ou cartão de crédito.

Por outro lado, de acordo com a vida real dos angolanos (de segunda), 45% das crianças sofrem de má nutrição crónica e uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos.

Na joalharia de luxo, os angolanos também se destacam, tanto pelo valor dos artigos que compram como pela facilidade com que os pagam. Um representante em Portugal da Chaumet, Dior e H. Stern, conta o caso de "uma senhora angolana que comprou uma pulseira por 120 mil euros, e pagou com cartão de crédito, sendo o pagamento imediatamente autorizado pelo banco".

Pois é. Em Angola, o acesso à boa educação, aos condomínios, ao capital accionista dos bancos e das seguradoras, aos grandes negócios, às licitações dos blocos petrolíferos, está limitado a um grupo muito restrito de famílias ligadas ao regime no poder e que é o que mais interessa ao moderno “jornalismo” luso, lusitano ou lusófono.

Atrevo-me, aliás, a calcular a ementa dos almoços dos modernos “jornalistas” portugueses quando, ao serviço dos superiores interesses da sua actividade comercial, vão a Luanda.

Mais coisa menos coisa deve andar à volta de trufas pretas, caranguejos gigantes, cordeiro assado com cogumelos, bolbos de lírio de Inverno, supremos de galinha com espuma de raiz de beterraba e uma selecção de queijos acompanhados de mel e amêndoas caramelizadas, com cinco vinhos diferentes, entre os quais um Château-Grillet 2005.

Fraude eleitoral em Angola, minuto a minuto

É claro que a Comissão Nacional Eleitoral, os observadores internacionais e a maioria dos (supostos) jornalistas estrangeiros não descobrem fraude nenhuma. Eventualmente porque a isso são obrigados pelo regime do MPLA. Sempre, é claro, a bem da nação que compra tudo e que, inclusive, deu a Portugal o estatuto de protectorado.

http://eleicoesangola2012.com/

Nada de novo no reino dos donos de Angola

quinta-feira, agosto 30, 2012

Gurus sebentos e sabujos


Com aquele ar sebento e sabujo de sipaio sentado na cadeira do chefe do posto, António Borges afirmou hoje que a resistência à mudança dos interesses estabelecidos gera níveis de "polémica" e "gritaria" que nem sempre coincidem com a "vontade colectiva".

O especialista do Governo de Portugal em passar atestados de menoridade intelectual aos portugueses, embora mais subtil do que Miguel Relvas que entende pura e simplesmente que os tugas são os matumbos, falava naquela coisa lusófona - tipo Mocidade Portuguesa - onde  se formam os autómatos que amanhã serão donos do reino, e que dá pelo pomposo nome de Universidade de Verão do PSD.

O homem fala de tudo, sabe de tudo. Seja de economia, de privatizações, de RTP, de roubos, de branqueamento. Pena é que os portugueses não percebem o raro privilégio que têm em poder contar com António Borges. E como não percebem, até dizem que ele defendeu a urgência de salários baixos. Ora, vamos lá ver se nos entendemos, o que ele defende é que sejam os trabalhadores a pagar para terem trabalho.

Quanto a ele está como quer. Aliás, ainda recentemente o Governo português  disse “não existirem quaisquer incompatibilidades ou conflitos de interesses” entre o cargo proposto a António Borges pelo maior accionista da Jerónimo Martins e “as funções de consultoria” na equipa que supervisiona junto da Parpública (a holding que gere as participações empresariais do Estado) as privatizações, as renegociações das Parcerias Público-Privadas (PPP) e a reestruturação do Sector Empresarial do Estado.

Reconheço, contudo, que a equipa de Passos Coelho é coerente na estratégia que o leva a (re)implantar no reino um regime esclavagista, sendo António Borges uma peça fundamental para atingir esse desiderato.

Se o próprio primeiro-ministro é um paradigma da mentira, certamente também vítima do “jornalismo interpretativo” que tanto chateia Miguel Relvas,  não se poderia esperar outra coisa dos seus mais dilectos seguidores ou, melhor, dos dilectos gurus que segue.

Ainda se recordam do que escreveu, entre Março de 2010 e Junho de 2011, Pedro Passos Coelho para enganar os portugueses e dessa forma ganhar as eleições?

Recordemos essas declarações numa singela, mas sentida, homenagem a, entre outros, Cavaco Silva, Joaquim Pina Moura, Jorge Coelho, Armando Vara, Manuel Dias Loureiro, Fernando Gomes, António Vitorino, Luís Parreirão, José Penedos, Luís Mira Amaral, António Castro Guerra, Joaquim Ferreira do Amaral, Filipe Baptista, Ascenso Simões, António Mexia, Faria de Oliveira, António Borges e Eduardo Catroga.

“Estas medidas põem o país a pão e água. Não se põe um país a pão e água por precaução. Estamos disponíveis para soluções positivas, não para penhorar futuro tapando com impostos o que não se corta na despesa.

“Aceitarei reduções nas deduções no dia em que o Governo anunciar que vai reduzir a carga fiscal às famílias. Sabemos hoje que o Governo fez de conta. Disse que ia cortar e não cortou. Nas despesas correntes do Estado, há 10% a 15% de despesas que podem ser reduzidas.

“O pior que pode acontecer a Portugal neste momento é que todas as situações financeiras não venham para cima da mesa. Aqueles que são responsáveis pelo resvalar da despesa têm de ser civil e criminalmente responsáveis pelos seus actos.

 “Vamos ter de cortar em gorduras e de poupar. O Estado vai ter de fazer austeridade, basta de aplicá-la só aos cidadãos. Ninguém nos verá impor sacrifícios aos que mais precisam. Os que têm mais terão que ajudar os que têm menos.

“Queremos transferir parte dos sacrifícios que se exigem às famílias e às empresas para o Estado. Já estamos fartos de um Governo que nunca sabe o que diz e nunca sabe o que assina em nome de Portugal. O Governo está-se a refugiar em desculpas para não dizer como é que tenciona concretizar a baixa da TSU com que se comprometeu no memorando.

“Para salvaguardar a coesão social prefiro onerar escalões mais elevados de IRS de modo a desonerar a classe média e baixa. Se vier a ser necessário algum ajustamento fiscal, será canalizado para o consumo e não para o rendimento das pessoas.

“Se formos Governo, posso garantir que não será necessário despedir pessoas nem cortar mais salários para sanear o sistema português. A ideia que se foi gerando de que o PSD vai aumentar o IVA não tem fundamento. A pior coisa é ter um Governo fraco. Um Governo mais forte imporá menos sacrifícios aos contribuintes e aos cidadãos.

“Não aceitaremos chantagens de estabilidade, não aceitamos o clima emocional de que quem não está caladinho não é patriota. O PSD chumbou o PEC 4 porque tem de se dizer basta: a austeridade não pode incidir sempre no aumento de impostos e no corte de rendimento.

“Já ouvi o primeiro-ministro dizer que o PSD quer acabar com o 13.º mês, mas nós nunca falámos disso e é um disparate. Como é possível manter um governo em que um primeiro-ministro mente?”

Comandante assume que, afinal, a Polícia Nacional não é de Angola mas sim do MPLA


Se dúvidas existissem sobre a democracia que não existe em Angola, ou sobre o Estado de Direito que Angola não é, basta ver o que diz o comandante da suposta Polícia Nacional de Angola.

O comandante da Polícia Nacional de Angola criticou hoje o “pronunciamento leviano” do líder UNITA a pedir o adiamento das eleições gerais e disse que a sua força está pronta para responder a essa “ameaça” e garantir a votação.

Ou seja, aquilo a que se chama erradamente Polícia Nacional de Angola é, de facto, a Polícia Nacional do MPLA. Mas, como é óbvio, nada disso incomoda a CNE, muito menos os observadores eleitorais e ainda menos a comunidade internacional.

Em conferência de imprensa em Luanda, Ambrósio de Lemos afirmou que a Polícia Nacional “não vai permitir que haja perturbações em função dessa ameaça” às eleições gerais na sexta-feira, garantindo a defesa até às “últimas consequências” do Governo e do seu líder.

Dúvidas? O comandante da dita Polícia Nacional de Angola garante, sem papas na língua e perante a passividade da comunidade internacional, que vai defender até às “últimas consequências” o Governo e o seu líder, José Eduardo dos Santos, candidato do MPLA.

“Somos uma instituição do Governo e a polícia vai defender este Governo até às últimas consequências e muito especialmente o seu líder, porque é um Presidente que está aqui, e não podemos permitir que qualquer pessoa de forma leviana desafie e insulte a mais alta entidade deste país”, declarou o comandante nacional da Polícia.

Ora tomem! A Polícia Nacional de Angola não é uma instituição do país mas, isso sim, “uma instituição do Governo”.

Bem que a CPLP, tal como os países que a integram e ainda a União Europeia, na pessoa do sipaio Durão Barroso, poderiam limpar a cara à merda que tanto lhes agrada no regime angolano.

Isaías Samakuva, líder da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), anunciou o desejo de um encontro com o presidente do partido no poder, José Eduardo dos Santos, para discutir o adiamento das eleições, em resultado de alegadas irregularidades, não se responsabilizado pelas consequências caso o diálogo seja recusado.

Para Ambrósio de Lemos, assumido funcionário do MPLA nas funções de comandante da Polícia, o pronunciamento do líder do maior partido de oposição foi “leviano” e levou-o a questionar o motivo pelo qual a UNITA aceitou anteriormente a data da realização das eleições e a participação na campanha eleitoral.

“Porque fizeram a campanha eleitoral? É uma pergunta que se pode fazer. A campanha eleitoral teve lugar em todo o país e esse senhor terminou-a com esse pronunciamento”, disse o comandante da Polícia Nacional (do MPLA), acrescentando que, “naturalmente, quem de direito irá dar resposta a isso”.

A Polícia Nacional, garantiu, “está pronta e prestará serviços específicos nesta quadra para dar resposta a todos os desafios que atentem contra a estabilidade e a materialização das eleições” e apela “a todas as formações políticas para que os seus militantes e simpatizantes observem as leis, normas e regulamentos estabelecidos”.

“Os pronunciamentos de incitamento à desordem devem ser banidos de qualquer um dos políticos envolvidos neste processo eleitoral”, disse Ambrósio de Lemos, insistindo que, em caso da perturbação da ordem, a sua força não irá esperar para dar “uma resposta para o imediato restabelecimento da segurança pública”.

O comandante nacional da Polícia do MPLA informou que o pronunciamento da UNITA não alterou o plano de segurança previsto para sexta-feira, que envolve um total de 70 mil efectivos em todo o país, e confia que “o povo está maduro, consciente, quer paz” e não vê necessidade de se entrar “numa violência ou numa contenda”.

Vivam as eleições, diz o Povo faminto!


5.660 antigos combatentes e veteranos da Pátria (Angola) estão a receber, no Huambo, as respectivas pensões em atraso, referentes aos meses de Dezembro de 2009 e 2010, incluindo o 13º mês.

A informação foi dada pelo director provincial dos Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria, Moreira Janeiro Mário Lopes, segundo o qual o montante a ser pago está avaliado em – cito ipsis verbis a Angop -  “180 milhões, 492 mil, 554 kwanzas e 87 cêntimos.”

Moreira Janeiro Mário Lopes esclarece que os pensionistas que não têm contas bancárias estão a receber o seu dinheiro nas administrações dos municípios onde vivem, ao passo que os utentes de contas bancárias recebem directamente nas suas contas.

O director provincial dos Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria deu a conhecer, entretanto, que pelo facto de o número de pensionista ter diminuído ligeiramente, por razões desconhecidas, houve necessidade de aumentar dez por cento ao salário de cada beneficiário.

 Em Dezembro de 2009 eram 6.437 e um ano depois este número baixou para 6.121.

Recorde-se que tudo isto se deve, pois claro!, aos inefáveis esforços do ministro dos Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria, general Kundi Paihama.

Sim. É esse mesmo que, no início deste mês, disse no Estádio Nacional de Ombaka (Benguela)que os que lutarem contra o MPLA e contra José Eduardo dos Santos “vão ser varridos”.

E se Kundi Paihama o diz é porque vai mesmo fazer isso. Só falta esperar por amanhã para medir a amplitude da varredura.

Ao que parece, e ao contrário do que aconteceu em 2008, o regime tinha indicações fidedignas de que, desta vez, para além dos mortos também os veteranos se recusavam a votar no MPLA. Embora isso não fosse impeditivo de uma solução alternativa, testada com êxito nas anteriores eleições, em que em alguns círculos eleitorais apareceram mais votos do que votantes, poderá acontecer que com uns tantos kwanzas os votos apareçam de forma voluntária.

Se se estivesse a falar de um Estado de Direito e de uma comunidade internacional honesta, seria criticável que o partido que governa Angola desde 11 de Novembro de 1975, que tem como seu líder carismático e presidente da República alguém que está no poder há 33 anos, sem ter sido eleito, sentisse necessidade de usar a intimidação violenta para ganhar eleições.

Mas como nada disso se passa, tudo vai continuar a ser feito por medida e à medida do MPLA. É para isso que o petróleo existe, é para isso que serve aquela escrita internacional que dá pelo nomes de dólares.

E porque o regime só reconhece a existências de um único deus, Eduardo dos Santos, não admite que existam dúvidas, não aceita que a sua liberdade termine onde começa a do Povo. Vai daí, intimida, ameaça, espanca, rapta e mata quem tiver a veleidade de contrariar o “querido líder”.

Sempre que no horizonte se vislumbra, mesmo que seja uma hipótese remota, a possibilidade de alguma mudança,  o regime dá logo sinais preocupantes quanto ao medo de perder as eleições.

Para além do domínio quase total dos meios mediáticos, tanto nacionais como estrangeiros (em Portugal nem se fala), o MPLA apostou forte numa estratégia que tem dado bons resultados. Isto é, no clima de terror e de intimidação.

Tal como mandam os manuais, o MPLA subiu o dramatismo para, paralelamente às enxurradas de propaganda, prevenindo os angolanos de que ou ganha ou será o fim do mundo.

Enquanto isso, CPLP, UA, UE continuam a rir

quarta-feira, agosto 29, 2012

Pedro Pires lidera observadores que já sabem que as eleições em Angola são... livres e justas


Assim se vê a força dos dólares de sangue do regime angolano do MPLA. Até os observadores eleitorais são escolhidos a dedo. A escolha varia entre invertebrados, corruptos, cegos e similares.

Quem melhor do que Pedro Pires para chefiar a Missão de Observadores da União Africana? Estando à vista, por muito benevolentes e ingénuos que sejam os que se interessam por Angola, a possibilidade de fraudes na votação  de sexta-feira, nada melhor do que escolher um observador amigo e que, em 2001, ganhou as eleições presidenciais cabo-verdianas à custa de uma fraude.

No dia 16 de Junho de 2010, quando recebeu o seu homólogo da Guiné Equatorial, ficou a saber-se que o então presidente de Cabo Verde era cada vez mais apologista da entrada do reino de Teodoro Obiang Nguema Mbasogo na Comunidade de Países de Língua(?) Portuguesa.

Na altura, os mais ingénuos estranharam que Pedro Pires tenha barrado os jornalistas quando estes, numa coisa a que se chama liberdade de imprensa, se aproximaram para chegar à fala com Teodoro Obiang Nguema Mbasogo.

Pedro Pires impediu as câmaras da televisão de filmarem a entrada para o veículo oficial que levou Obiang Nguema para a Assembleia Nacional, o que gerou manifestações de repúdio dos jornalistas, tal o ineditismo do gesto, que foi mostrado e comentado de forma crítica pela televisão local.

Segundo a Repórteres Sem Fronteiras, em 2009 Cabo Verde tinha caído do 36º para 44º lugar em matéria de liberdade de imprensa. Se calhar, na altura enquanto presidente e agora como chefe da Missão de Observadores às eleições de Angola,  proteger um ditador é até uma qualidade, sobretudo petrolífera, que pode render muitos pontos.

Obiang, que a revista norte-americana “Forbes” já apresentou como o oitavo governante mais rico do mundo, e que depositou centenas de milhões de dólares no Riggs Bank, dos EUA, tem sido acusado de manipular as eleições e de ser altamente corrupto.

“Mas o que é que isso importa”, perguntará certamente Pedro Pires, tal como fazem José Eduardo dos Santos, Armando Guebuza ou Pedro Passos Coelho.

Obiang, também ele amigo do “querido líder” do MPLA, que chegou ao poder em 1979, derrubando o tio, Francisco Macias, foi reeleito com 95 por cento dos votos oficialmente expressos (também contou, como é hábito, com os votos dos mortos), mantendo-se no poder graças a um forte aparelho repressivo, do qual fazem parte os seus guarda-costas marroquinos.

“Mas o que é que isso importa”, perguntará certamente Pedro Pires, tal como fazem José Eduardo dos Santos, Armando Guebuza ou Cavaco Silva.

Recorde-se que gozando, como todos os ditadores que estejam no poder, de um estatuto acima da lei, Obiang riu-se à grande e à francesa quando em 2009 um tribunal... francês rejeitou um processo que lhe fora intentado por recorrer a fundos públicos para adquirir residências de luxo em solo gaulês, com a justificação de que – lá como em qualquer parte do mundo - os chefes de Estado estrangeiros, sejam ou não ditadores, gozam de imunidade.

Os vastos proventos que a Guiné Equatorial recebe da exploração do petróleo e do gás natural poderiam dar uma vida melhor aos 600 mil habitantes dessa antiga colónia espanhola, mas a verdade é que a maior parte deles vive abaixo da linha de pobreza.

Mas se, por exemplo, em Angola há 70% os pobres, porque carga de chuva não podem também existir, democraticamente, na Guiné Equatorial?, perguntará certamente Pedro Pires, tal como fazem José Eduardo dos Santos, Armando Guebuza ou Paulo Portas.

Reconheça-se, contudo, que tomando como exemplo Angola, a Guiné Equatorial preenche todas as regras para entrar de pleno e total direito na CPLP. Não sabe o que é democracia mas, por outro lado, tem fartura de petróleo, o que é condição “sine qua non” para comprar o que bem entender… incluindo observadores do tipo Pedro Pires.

Forças Armadas de Angola, supostamente apartidárias, apoiam o candidato do MPLA


O regime angolano do MPLA é, de facto e de jure, um exemplo de tudo quanto contraria a democracia. Não deixa, contudo, de satisfazer as verdadeiras democracias para quem é melhor, muito melhor, negociar com ditaduras.

Em alguma democracia séria, em algum Estado de Direito, se vê o Chefe do Estado Maior das Forças Armadas dizer, em plena campanha eleitoral, que um dos candidatos – mesmo que seja o actual presidente da República -  marcou a sua postura “por momentos de sacrifício e glória”, permitindo “a Angola preservar a independência e soberania nacionais, a consolidação da paz, o aprofundamento da democracia, a unidade e reconciliação entre os angolanos, a reconstrução do país, bem como a estabilidade em África e em particular nas regiões Austral e Central do continente"?

Não. Nas democracias seria impossível o  Chefe do Estado Maior das Forças Armadas ter manifestações públicas deste género, tomando partido por um dos candidatos. Em democracia, os militares são apartidários.

Mas como Angola não é uma democracia, muito menos um Estado de Direito, o Chefe Estado Maior das Forças Armadas, general Geraldo Sachipengo Nunda, resolveu fazer campanha em prol de um dos candidatos, no caso – obviamente – José Eduardo dos Santos.

E o que disse a Comissão Nacional Eleitoral? E o que disseram os observadores eleitorais? E o que disse a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP)? Nada. Ou seja, corroboraram pelo silêncio a partidarização das Forças Armadas de Angola em favor de um dos candidatos.

Recorde-se que Geraldo Sachipengo Nunda foi um dos militares que comandaram a caça, e posterior morte em combate, a Jonas Savimbi. Nunda foi, aliás, um dos generais das FALA (Forças Armadas de Libertação de Angola) a quem Savimbi ensinou tudo e que, por um prato de lagostas, o traíram.

Geraldo Nunda já no final do ano passado disse que com a promulgação e entrada em vigor da Constituição da República de Angola "o país entrou numa nova etapa histórica do seu desenvolvimento". Referia-se, recorde-se, à Constituição que aboliu a eleição presidencial.

É, aliás, admirável a forma como os militares angolanos estão sempre a falar da necessidade da preservação da paz (já cimentada há dez anos), da Constituição e do culto a José Eduardo dos Santos. Nunca pensei ver Geraldo Sachipengo Nunda a embarcar numa fantochada deste tipo em que, creio, nem ele próprio acredita. Mas…

"A reconstrução nacional tem permitido a normalização da vida em todo o território nacional", diz Geraldo Sachipengo Nunda, acrescentando que existem sinais visíveis de um país que renasce após longos anos de guerra.

Que a guerra em Angola, como qualquer outra, deu cabo do país é uma verdade incontestável. Também é verdade que o país está a crescer, embora esse crescimento só esteja a ser feito para um dos lados (para aquele que está com o regime).

Mas será que Geraldo Sachipengo Nunda se esqueceu da Angola profunda, daquela onde o povo, o seu povo, é gerado com fome, nasce com fome e morre pouco depois com fome?

Será que Geraldo Sachipengo Nunda se esqueceu que o seu actual presidente (Eduardo dos Santos), a sua Constituição, o seu regime, considera um crime contra o Estado ter opiniões diferentes das oficiais? Será por isso que teve de lamber as botas ao candidato José Eduardo dos Santos?

Não será altura de Geraldo Sachipengo Nunda  se interrogar das razões que levam a que em Angola uns poucos tenham muitos milhões, e muitos milhões não tenham nada?

Não deixa de ser curioso, pelo menos para mim, ver Geraldo Sachipengo Nunda a dizer que são prioridades das FAA a  preparação operativa, combativa e de educação patriótica, transmitindo a vontade e a determinação do Exército de vencer os obstáculos e constrangimentos para que os efectivos disponham de melhores condições e o processo da sua gradual renovação.

Segundo Geraldo Sachipengo Nunda, em declarações ao Semanário Angolense a propósito da morte de Jonas Savimbi, outros dois antigos coronéis das FALA, Kivo e Calado, também comprados pelo MPLA a troco da traição não só a Savimbi como a uma grande parte do povo angolano, estiveram na última linha de combate em perseguição de Savimbi, e viram-no a sucumbir aos disparos.

Uma hora depois do líder rebelde ter sido morto, já o general Geraldo Sachipengo Nunda (certamente com mais uma estrela nos ombros), que estava em permanência no posto de comando dessa operação no Luena, chegava ao local na companhia de outros altos responsáveis militares governamentais, entre os quais os generais Hélder Vieira Dias "Kopelipa" e Hanga, bem como o sub-comissário Panda.

Não se sabe ao certo, mas é curial pensar-se que Geraldo Sachipengo Nunda tenha manifestado a sua satisfação pela morte de Savimbi, não fosse o MPLA arrepender-se das mordomias que lhe dera.

Seja como for, Geraldo Sachipengo Nunda está muito bem onde está e terá sempre consigo os louros de ter traído Jonas Savimbi, a UNITA e o povo que ela representava.

E cesteiro que faz um cesto...

terça-feira, agosto 28, 2012

Para o MPLA todos são agora... inimigos

Eles já disparam em todas as direcções


O jornal do MPLA, conhecido também como Jornal de Angola, resolveu agora, cumprindo ordens do democrata presidente que está no poder há 33 anos sem ter sido eleito, abrir fogo sobre a colónia angolana de Cabinda, juntando-lhe mais alguns dislates.

O pasquim juntou todo o seu arsenal propagandístico para agradar ao “querido líder” e, dessa forma, continuar a garantir o salário ao fim do mês.

Segundo o órgão oficial do regime, activistas da CASA-CE andam em Cabinda a “vender” um referendo que consiste em saber se a população da província quer a independência.

Acrescentam que “o  padre Congo é o primeiro propagandista deste crime grave contra a soberania nacional”. De facto, para o órgão oficial do MPLA, bem como para os dirigentes do partido que governa angola desde 1975, Cabinda continua a ser aquela espinha que entope a garganta putrefacta dos colonizadores.

Por muito que tentem, e já utilizaram todos os meios ao seu dispor, não conseguem tirar a espinha e pôr os cabindas de joelho. Ao contrário do que fez em Angola, na colónia o Povo só aceita ficar de joelhos perante Deus.

Eu sei que o  Jornal de Angola considera José Eduardo dos Santos um deus. Considera por enquanto. Quando ele, tal como Salazar e outros ditadores, alguns bem amigos do dono de Angola, cair, vamos ver este pasquim a dizer que, afinal, Eduardo dos Santos não era bestial mas, isso sim, uma besta. É, aliás, o processo natural de autómatos acéfalos e invertebrados.

Para o jornal do MPLA, quem defender o direito de o Povo de Cabinda escolher o seu destino está a cometer um crime. É, aliás, o mesmo crime que – à luz das leis de então – o MPLA cometia quando lutava pela independência de Angola.

Além disso, desde 1975 que a lei é alterada de acordo com a conveniência dos donos do reino, nem que para isso tenham de fazer vários 27 de Maio e matar milhares de pessoas. Se calhar agora, em vez de dizerem que é crime passível de pena de morte seguir Nito Alves vão dizer que é crime, com a mesma moldura penal, seguir o padre Jorge Casimiro Congo.

Escreve o órgão oficial do regime que “Tonet, Congo e companhia assinaram um “acordo” para o referendo. Se fosse só irresponsabilidade estávamos bem. Mas é muito pior. Chivukuvuku imita Savimbi e grita empolgado aos seus apoiantes: “a direcção da Comissão Nacional Eleitoral não são patriotas”.

De uma só vez o pasquim dirigido por Eduardo dos Santos através dos fantoches José  Ribeiro e Filomeno Manaças mete todos os seus inimigos no mesmo suposto crime: William Tonet, Jorge Congo, Abel Chivukuvuku e Jonas Savimbi. É tamanha a dor que o MPLA sente que os sipaios tiveram mesmo de escrever o nome destes inimigos.

Em relação a William Tonet é compreensível. José Ribeiro e Filomeno Manaças gostariam um dia de ser como ele, Jornalistas, patriotas e  íntegros. Como não conseguem lá chegar por mérito próprio, que não têm, tentam denegrir a sua imagem.

Em relação a Jorge Congo, tentam beliscar a honorabilidade que tem. Não chegam lá. Aliás, se a sua valia moral e intelectual se medisse pelo nível dos seus inimigos, José Ribeiro e Filomeno Manaças amesquinhavam-no em todos os sentido.

Quanto a Abel Chivukuvuku, o jornal do MPLA ainda procura saber quem foram os responsáveis do partido que o não assassinaram, como era esperado e correspondia ao plano que, em 1992, o MPLA pôs em marcha e que visou o genocídio politico-tribal das gentes da UNITA.

Quanto a Jonas Savimbi, José Ribeiro e Filomeno Manaças deveriam pôr-se em sentido (eu sei que é uma posição impossível para quem não tem coluna vertebral) quando falam dele. Se calhar acreditam que os documentos encontrados no bunker de Savimbi, no Andulo, desapareceram definitivamente…

Como eruditos escribas, os sipaios do jornal de MPLA dizem que Chivukuvuku faz ameaças à Savimbi: “com um governo da CASA-CE enfermeiro que pede gasosa vai no Tribunal!” Os apoiantes entram em delírio. Ele dispara: “no prazo máximo de um ano acabamos com a gasosa”. E também promete acabar com a pobreza numa legislatura! Quem fala assim não é gago mas também não pode ser levado a sério. Até a demagogia tem que ter limites para fazer algum efeito.”

“Os insultos mais rasteiros chegam de Chivukuvuku que já se julga um Savimbi apontando os canhões da calúnia contra os “crioulos” e os “caudilhos”. No último comício disparou: ”lá em cima roubam, os ministros roubam, as províncias roubam, os administradores roubam”, conta o jornal do MPLA.

A resposta a esta enciclopédia de imbecilidades do Jornal de Angola será, com certeza, dada pelos visados que – embora não seja por vontade do MPLA – ainda estão vivos.

Também não tenho nenhuma procuração para defender Jonas Savimbi. Mesmo assim, e não tendo a certeza que José Ribeiro e companhia sabem ler, aqui vão algumas notas de esclarecimento.

Jonas Malheiro Savimbi foi o único dirigente dos movimentos de libertação nacional que se encontrava no interior do país por ocasião do 25 de Abril de 1974.

Durante 16 anos, Savimbi dirigiu a Resistência contra o expansionismo russo-cubano e o monopartidarismo, tendo angariado apoios e simpatias interna e externamente. Foi classificado como estratega politico-militar de craveira internacional; combatente pela liberdade; esperança de Angola pelos países amantes da liberdade e democracia Foi Jonas Savimbi quem obrigou à saída dos cubanos de Angola e ao fim do monopartidarismo.

A carreira de Jonas Savimbi foi fundamentalmente de um cidadão sensível aos problemas do seu Povo; de um empenho total às causas profundas e legítimas dos angolanos de um condutor de homens cujo pensamento e acção determinaram a evolução do processo de Libertação do Povo de Angola e de África Austral, tornando-lhe num dos patriotas mais vibrantes e empreendedores do fim do Século XX.

Savimbi foi o único dirigente nacionalista angolano que circunscreveu nos ideais do seu Movimento, aquando da sua fundação em 1966, a democracia assegurada pelo voto do Povo através de vários Partidos Políticos.

Mesmo contra a vontade do MPLA e, neste caso, dos sipaios que tem em serviço no Jornal de Angola, com a morte de Savimbi, África perdeu um dos seus mais insignes filhos, cuja vida e obra o  situam na senda dos arautos da História Africana como N'Krumahn, Nasser, Amílcar Cabral, Senghor, Boigny e Hassan II.

segunda-feira, agosto 27, 2012

É crime não ser do MPLA


Apesar de garantir que milhões e milhões de angolanos (presumo que cerca de 99%) vão votar no MPLA, o regime angolano continua dar porrada em todos aqueles que sejam, ou aparentem ser, da UNITA.

No dia em o “querido líder”, também conhecido por “o escolhido de Deus”, esteve no Huambo, os efectivos da Guarda Presidencial espancaram um jovem por este ter cometido o mais grave dos crimes: usava uma camisola da UNITA.

Diga-se, contudo, que o MPLA bem avisou. Quando, no início deste nês, discursava no Estádio Nacional de Ombaka (Benguela) o  ministro dos Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria, general Kundi Paihama, disse que os que lutarem contra o MPLA e contra José Eduardo dos Santos “vão ser varridos”.

Como o regime só reconhece a existências de um único deus, Eduardo dos Santos, não admite que existam dúvidas, não aceita que a sua liberdade termine onde começa a do Povo. Vai daí, intimida, ameaça, espanca, rapta e mata quem tiver a veleidade de contrariar o “querido líder”.

Na senda do que tem feito ao longo dos anos, o MPLA acusa a Oposição de enveredar por "manifestações violentas e hostis, provocando vítimas, inventando vítimas, incentivando a desobediência civil, greves e tumultos, provocando esquadras e agentes e patrulhas da polícia com pedras, garrafas e paus". E como, segundo o regime, todos são culpados até prova em contrário, Eduardo Militão bateu todos os índices de criminalidade ao circular no Huambo com uma camisola da UNITA, ainda por cima no dia em que o dono do país estava na cidade.

Outro crime que está a atormentar as soberbas mentes do regime respeita ao facto de, segundo o MPLA, haver indícios de que demasiados angolanos estão a pensar sem ser com a barriga. E isso não pode ser tolerado. Desde logo porque pensar faz ver que existe uma diferença entre a hiena que chora e a que entoa o hino do MPLA.

Tendo na memória as manifestações dos jovens ou a mais recente de ex-combatentes, não adianta, pelo menos por enquanto, dizer que a polícia (armada até aos dentes) e os seus capangas à civil, desrespeitam o direito à manifestação e os direitos humanos. E não adianta porque Angola não é um Estado de Direito mas, antes, um reino em que o soba tem plenos poderes, inclusive para mandar matar quem pense de maneira diferente.

Seja como for, todos esses manifestantes ajudam a semear a Primavera, embora até agora vivam no mais duro Inverno. Todos gritam que "a polícia é do povo, não é do MPLA", ma continuam a esquecer-se que o MPLA é Angola e Angola é o MPLA.

Recorde-se que a 3 de Setembro do ano passado, uma manifestação organizada pelo movimento de jovens terminou com a detenção de 21 manifestantes, 18 dos quais foram julgados e condenados a penas de prisão entre um mês e 90 dias, por ofensas corporais à Polícia e danos materiais.

Em Angola "vive-se uma democracia com medo", disse na altura o "rapper" angolano Mona Dya Kidi. Mentira. No reino de Eduardo dos Santos existe a mais avançada democracia de que há conhecimento… Duvidam? É só perguntarem, entre outros, a Cavaco Silva, Passos Coelho ou Durão Barroso. E se, mesmo assim, tiverem dúvidas perguntem ao insuspeito… José Eduardo dos Santos.

Falar, no caso de Angola, de democracia com medo é uma forma de branquear a situação, compreensível no contexto de que os angolanos sabem que o regime mata primeiro e pergunta depois. Aliás, se existe medo é porque não existe democracia.

O regime de Eduardo dos Santos sabe bem que a melhor forma de exercer a sua “democracia” é ter 70% da população na miséria, é ter tirado a coluna vertebral à esmagadora maioria dos seus opositores políticos e militares, a começar por Geraldo Sachipengo Nunda e acabando em “Black Power”.

O regime não brinca em serviço e, por isso, nada como preventivamente mostrar aos manifestantes (bem como aos jornalistas) que quem manda em Angola, tal como em Portugal, é o MPLA.

Defender a liberdade de expressão não é nada do outro mundo, mas é algo que o regime não quer. Tudo quanto envolva a liberdade (com excepção da liberdade para estar de acordo com o regime) é algo que causa alergias graves a Eduardo dos Santos.

Recorde-se, a propósito das manifestações, que Bento Bento, o chefe do posto do MPLA em Luanda, foi claro quando disse: "Quem tentar manifestar-se será neutralizado, porque Angola tem leis e instituições e o bom cidadão cumpre as leis, respeita o país e é patriota."

Apesar de tudo, as manifestações fazem – por muito pequenas que (ainda) sejam - tremer o regime. A tal ponto que – relembremos - perante o anúncio da primeira manifestação, o Governo angolano apressou-se a pagar salários em atraso nas Forças Armadas e na Polícia, a fazer promoções em série e a, inclusive, a mandar carradas de alimentos para a casa de milhares de militares.

Basta também ver que, perante essas manifestações, o regime pôs nas rua e por todo o lado – mesmo em locais onde os angolanos nem sabiam que iria haver manifestações – os militares e a polícia a avisar que qualquer apoio popular aos insurrectos significava o regresso da guerra.

No entanto, por muita força que tenha a máquina repressora do regime angolano (e tem-na), por muito apoio que tenha de alguns órgãos de comunicação estrangeiros, como a RTP, nunca conseguirá fazer esquecer que a luta continua e a vitória é certa.