sábado, dezembro 03, 2011

A Primavera tarda em chegar a Angola

Milhares de jovens manifestaram-se hoje, pacificamente, em Luanda. O regime, como é habitual, respondeu com a sua principal arma: a razão da força, onde nem faltaram cães e agentes a cavalo.

A polícia contou, mais uma vez, com o seu poder popular (civis) para meter na ordem todos aqueles que teimam em pensar diferente do regime que, recorde-se, governa Angola desde 1975 e que tem um presidente, não eleito, há 32 anos no poder.

Também como é habitual, todos são culpados até prova em contrário. Assim sendo, enquanto a CPPL (presidida por Angola) e a restante comunidade internacional olha para o lado, alguns dos manifestante foram para a choldra e outros para o hospital.

Não adianta, pelo menos por enquanto, dizer que a polícia (armada até aos dentes) e os seus capangas à civil, desrespeitam o direito à manifestação e os direitos humanos. E não adianta porque Angola não é um Estado de Direito mas, antes, um reino em que o soba tem plenos poderes, inclusive para mandar matar quem pense de maneira diferente.

Os manifestantes que continuam a semear a Primavera, embora até agora vivam no mais duro Inverno, bem gritaram que "a polícia é do povo, não é do MPLA". Esqueceram-se, contudo, que num regime totalitário como é o angolano, o MPLA é Angola e Angola é o MPLA.

Recorde-se que a 3 de Setembro uma manifestação organizada pelo movimento de jovens terminou com a detenção de 21 manifestantes, 18 dos quais foram julgados e condenados a penas de prisão entre um mês e 90 dias, por ofensas corporais à Polícia e danos materiais.

Em Angola "vive-se uma democracia com medo", diz o "rapper" angolano Mona Dya Kidi. Mentira. No reino de Eduardo dos Santos existe a mais avançada democracia de que há conhecimento… Duvidam? É só perguntarem, entre outros, a Cavaco Silva, Passos Coelho ou Armando Guebuza.

Falar, no caso de Angola, de democracia com medo é uma forma de branquear a situação, compreensível no contexto de que os angolanos sabem que o regime mata primeiro e pergunta depois. Aliás, se existe medo é porque não existe democracia.

O regime de Eduardo dos Santos sabe bem que a melhor forma de exercer a sua “democracia” é ter 70% da população na miséria, é ter tirado a coluna vertebral à esmagadora maioria dos seus opositores políticos, a começar pela UNITA, é dizer ao povo que tem de escolher entre a liberdade e um saco de fuba.

O regime não brinca em serviço e, por isso, nada como preventivamente mostrar aos manifestantes (bem como aos jornalistas) que quem manda é o MPLA.

José Eduardo dos Santos que tem, que ainda tem, a cobertura internacional (comprada, mas tem), sabe que pôr o povo a pensar com a barriga é a melhor forma de o manter calado e quieto.

Aliás, se assim não for o que lhe restará? Provavelmente, “peixe podre, fuba podre, 50 angolares e porrada se refilares”.

Defender a liberdade de expressão não é nada do outro mundo, mas é algo que o regime não quer. Tudo quanto envolva a liberdade (com excepção da liberdade para estar de acordo com o regime) é algo que causa alergias graves a Eduardo dos Santos.

Recorde-se, a propósito das manifestação, que Bento Bento, primeiro secretário provincial de Luanda do MPLA, foi claro quando disse: "Quem tentar manifestar-se será neutralizado, porque Angola tem leis e instituições e o bom cidadão cumpre as leis, respeita o país e é patriota."

Apesar de tudo, as manifestações fazem – por muito pequenas que (ainda) sejam - tremer o regime. A tal ponto que – relembremos - perante o anúncio da primeira manifestação, o Governo angolano apressou-se a pagar salários em atraso nas Forças Armadas e na Polícia, a fazer promoções em série e a, inclusive, a mandar carradas de alimentos para a casa de milhares de militares.

Basta também ver que, perante essas manifestações, o regime põe nas rua e por todo o lado – mesmo em locais onde os angolanos nem sabem  que iria haver manifestações – os militares e a polícia a avisar que qualquer apoio popular aos insurrectos significava o regresso da guerra.

No entanto, por muita força que tenha a máquina repressora do regime angolano (e tem-na), por muito apoio que tenha de alguns órgãos de comunicação estrangeiros, como a RTP, nunca conseguirá fazer esquecer que 70% dos angolanos vivem na miséria.

Nunca fará esquecer que apenas um quarto da população angolana tem acesso a serviços de saúde, que, na maior parte dos casos, são de fraca qualidade, que 12% dos hospitais, 11% dos centros de saúde e 85% dos postos de saúde existentes no país apresentam problemas ao nível das instalações, da falta de pessoal e de carência de medicamentos.

Nunca fará esquecer que 45% das crianças angolanas sofrerem de má nutrição crónica, sendo que uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos.

Nunca fará esquecer que a dependência sócio-económica a favores, privilégios e bens é o método utilizado pelo MPLA para amordaçar os angolanos, que 80% do Produto Interno Bruto é produzido por estrangeiros, que mais de 90% da riqueza nacional privada é subtraída do erário público e está concentrada em menos de 0,5% de uma população, que 70% das exportações angolanas de petróleo tem origem na sua colónia de Cabinda.

Nunca fará esquecer que o acesso à boa educação, aos condomínios, ao capital accionista dos bancos e das seguradoras, aos grandes negócios, às licitações dos blocos petrolíferos, está limitado a um grupo muito restrito de famílias ligadas ao regime no poder.

Por tudo isto, a luta continua e a vitória é certa! Pode demorar, mas vai chegar.

Ingénuos, de cócoras, a pão e água

Mesmo de barriga vazia, os portugueses continuam a fazer o milho crescer e os laranjais florescer. Continuam a dar dinheiro para o Governo comprar máquinas, carros e senhoras…

As Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) de Portugal deverão começar a receber na próxima semana verbas provenientes do Fundo de Socorro Social, anunciou hoje o Governo, que está a preparar uma linha de crédito adicional de 50 milhões de euros.

O ministro da tutela, Pedro Mota Soares, referiu que quando iniciou funções no Ministério da Solidariedade e da Segurança Social “o Fundo de Socorro Social não tinha qualquer dotação, estava esgotado”, ao contrário do que seria esperado.

“Já conseguimos alocar esta verba de 10 milhões de euros, conto que já a partir da próxima semana se comecem a fazer alguns pagamentos e que até ao final do ano tenhamos apresentado um decreto-lei que permita alterar as regras deste fundo, garantindo que o fundo é mesmo de emergência social”, afirmou o ministro.

Por definir está o que é emergência social, desde logo porque o Governo assumiu (e a fazer fé no que o primeiro-ministro assumiu durante a campanha eleitoral, o que é verdade às segundas, quartas e sextas é mentira às terças, quintas e sábados) como prioridade assegurar a sustentabilidade das contas públicas, de forma a criar as condições que originem crescimento económico e promovam a criação de emprego e bem-estar.

Hoje, porque é sábado, isso não é assim. Não há nem crescimento económico nem criação de emprego.

O Governo também disse (não sei em que dia de semana) que “muitas famílias vivem hoje momentos difíceis, enredados nas teias do desemprego, das falências, do sobreendividamento, da desestruturação social, da exclusão e da pobreza”.

Não quantificou, mas sabe-se que são 800 mil os desempregados, 20% os pobres e 20% os miseráveis. Coisa pouca. O número de desempregados vai aumentar, mas o dos pobres e miseráveis via estabilizar porque os novos titulares dessa categoria vão substituir os que não conseguiram cumprir o programa de viver sem comer.

“Na actual conjuntura não é possível optar por caminhos que diminuam ainda mais os níveis globais de protecção social dos mais desfavorecidos, ou que impliquem um esforço financeiro adicional que o País não consegue suportar”, afirmou o Governo num daqueles dias em que, mais uma vez, mostrou apenas ter uma vaga ideia do Portugal real.

Ma altura em que saía da missa, ainda com visíveis resíduos de uma hóstia recentemente engolida, o Governo disse também que “a redução das desigualdades sociais deve passar pela adopção de medidas de apoio à família, pela distribuição mais justa dos rendimentos e dos sacrifícios”.

E essa “distribuição mais justa dos rendimentos e dos sacrifícios” é bem visível, embora unicamente entre os escravos que continuam a passar fome para que os seus donos possam viver à grande. Ou, por outras palavras, os portugueses da casta superior dividem entre si os rendimentos, e os plebeus dividem os sacrifícios.

Fazendo lembrar as políticas coloniais, em que o patrão prometia tudo aos contratados e acabava por dar apenas peixe podre, fuba podre, panos ruins, 50 angolares e porrada se refilares, o Governo português garante “a promoção e protecção de direitos de muitos que são os mais excluídos e de muitos que estão numa situação de tal desigualdade, que se exige uma resposta social excepcional”.

Por isso, o Governo disse aos contratados, perdão, aos portugueses, que “o mais importante hoje é promover direitos e apresentar medidas que possam minorar o impacto social da crise, que possam constituir uma «almofada social» que amortece para muitos, as dificuldades que agora atravessam”.

De mão estendida, ingénuos e de cócoras, são cada vez mais os portugueses que sonham com uma sardinha, mesmo que seja para dividir por três, mas que apenas encontram pão e água, eventualmente um prato de farelo.

Mesmo assim, mesmo de barriga vazia, continuam a fazer o milho crescer e os laranjais florescer. Continuam a dar dinheiro para o Governo comprar máquinas, carros e senhoras...

Farelo para os escravos portugueses

De derrota em derrota até à vitória final

sexta-feira, dezembro 02, 2011

Livro de Onofre Varela. A não perder!

Escravos na terra e no mar a bem da... nação!

O que são meia dúzia de pescadores no contexto macroeconómico de um governo que quer instituir o esclavagismo e o direito a ser proprietário dos plebeus?

O presidente da associação Pró-Maior Segurança dos Homens do Mar disse hoje que as circunstâncias do naufrágio da embarcação portuguesa "Virgem do Sameiro", nomeadamente a falta de um sistema de comunicação de emergência, "não podem passar impunes".

Na ingenuidade própria de uma pessoa de bem, José Festas julga que Portugal é um Estado de Direito e que, por isso, existe punição tanto para os responsáveis materiais como para os morais.

Está enganado. Se o assunto avançar, o máximo que se conseguirá é provar que a responsabilidade é da mulher da limpeza que, a recibos verdes, trabalha no ministério que tem a tutela desse sector.

José Festas exige, com toda a razão mas sem nenhuma força reivindicativa, que os técnicos da Direcção-Geral das Pescas expliquem porque retiraram do programa "Segurança é Viver" os rádio-balizas de localização dos barcos em situações de emergência.

"Isto não pode passar impune: nem os pescadores vão permitir, nem eu enquanto presidente da associação", prometeu o mestre.

Prometeu e é sua vontade. Mas vai perder o ânimo dentro em breve. Não por vontade própria, não por menosprezo pelos pescadores, mas porque os tubarões - que nos areópagos da alta política portuguesa decidem tudo – vão obrigá-lo a estar calado.

Como em muitas outras variantes da vida portuguesa, o Governo vai avisar que os escravos não têm direitos e que, por isso, têm de comer e calar, pouco importando se são também seres humanos.

Em declarações aos jornalistas junto às urgências do Hospital de Leiria, onde se encontram a recuperar os seis tripulantes hoje resgatados, José Festas, a pedido dos pescadores, solicitou à Comunicação Social que respeitasse "estes homens que viveram uma angústia muito forte".

Entretanto, com ar combalido e certamente com algumas migalhas nos bolsos, o secretário de Estado do Mar, Manuel Pinto de Abreu, revelou hoje que o Governo está à procura de linhas de financiamento para dotar as embarcações de pesca com sistemas de localização para situações de emergência.

Cá para mim, a procura vai continuar na esperança que os acidentes não se repitam, até porque as operações de busca ficam muito caras e podem desestabilizar o Orçamento de Estado.

Reconheço, contudo, que não falta experiência vivencial e, quiçá, pragmática deste político nas questões reais dos problemas dos pescadores. É oceanógrafo e engenheiro hidrógrafo, com o doutoramento em oceanografia física, ainda por cima  na Naval Postgraduate School de Monterey, na Califórnia, licenciou-se em Ciências Militares Navais na Escola Naval no Alfeite, foi oficial imediato do navio “Limpopo” e comandante do “Dom Jeremias”, o que lhe dá algumas facilidades para procurar linhas… de financiamento.

Manuel Pinto de Abreu disse que, em 2009, o programa "Segurança é Viver" previa inicialmente uma verba de oito milhões de euros para suprir essa insuficiência, que seria garantida pelo projecto "Pró Mar". O problema, acrescentou, é que só estavam asseguradas metade dessas verbas.

Pois é. Uma chatice. Mas apenas uma pequena chatice. Desde logo porque os pescadores são gente humilde, trabalhadora e  honesta, o que lhes dá todas as qualificações para serem portugueses de segunda ou, em alternativa, escravos de primeira.

Peço justiça

“Na sequência do adiamento da audiência de julgamento do processo em que sou assistente, permitam que recorde o ocorrido e expresse a minha opinião.

Em Outubro de 2007, depois de aprofundado trabalho de investigação, realizado com o máximo rigor nos métodos, nos processos e no uso das fontes, publiquei com meu marido o livro Purga em Angola. Aqui se relatam os acontecimentos ocorridos no dia 27 de Maio de 1977 e nos anos que se seguiram, quando dezenas de milhar de angolanos, homens e mulheres, novos e velhos, passaram por cadeias e campos de concentração, tendo sido sujeitos a aterradores interrogatórios. Com base em vários testemunhos, tudo leva a crer que 30 mil pessoas foram sumariamente fuziladas, sem nunca terem sido julgadas e sem se saber, ainda hoje, onde repousam as suas ossadas.

Agostinho Neto, então Presidente da República, deu o tiro de partida na corrida do terror, ao dispensar o poder judicial, em claro desrespeito pela Constituição que jurara e garantia aos arguidos o direito à defesa. Fê-lo ao declarar, perante as câmaras da televisão, que não iriam perder tempo com julgamentos. Tal procedimento nem era uma novidade, pois, na história do movimento que dirigia, tornara-se usual mandar matar os que se apontavam como «fraccionistas», estranha designação aplicada a uma frente política.

Neto deixaria a Angola o legado da máxima centralização de um poder incapaz de dialogar e de construir consensos, assim como de uma corrupção endémica. E os portugueses que nasceram e viveram em Angola, ainda hoje recordam o papel que teve na sua expulsão do país. Antes da independência declarava que os brancos que viviam em Angola há três gerações eram os «inimigos mais perigosos». Em 1974, duvidava que os portugueses pudessem continuar em Angola. Em vésperas da independência convidava-os a sair do país. E já depois da independência, por altura da morte a tiro do embaixador de um país de Leste, cuja viatura não parara quando se procedia ao hastear da bandeira de Angola, dirigiu-se, pela televisão, aos camaradas, para lhes dizer que era preciso cuidado, pois nem todos os brancos eram portugueses.

A expulsão foi uma decisão racial, já que a maioria dos portugueses eram simples trabalhadores, necessários ao país, pois sem eles a economia e os serviços passariam a funcionar mal ou deixariam mesmo de funcionar. Os resultados dessa expulsão continuam à vista. Tirando o petróleo, que representa mais de 50% do PIB, 80% das receitas do Estado e 90% das exportações, na Angola de hoje praticamente não existe indústria e, num país com condições agrícolas para alimentar toda a África, até os alimentos são importados.

Na revista «Única» do semanário EXPRESSO de 5 de Janeiro de 2008, a senhora D. Maria Eugénia, viúva do falecido presidente Agostinho Neto, concedeu uma entrevista em que declarou:

«[…] Aqui em Portugal, durante estes anos todos, estão sempre a repisar no mesmo assunto. […] Angola está sempre na berlinda. E com um ódio, de não estar lá ou de não usufruir das riquezas. É uma coisa impressionante. E agora surge o livro dessa senhora…».
Antes e em resposta à questão do número de mortos resultantes do 27 de Maio, insultou-me dizendo: «-Isso é mentira. Essa senhora é desonesta e mentirosa».

Não se contradita ninguém insultando-o. E também não se trata duma reacção emocional à «provocação» da jornalista, pois D. Maria Eugénia sabia o que lhe iam perguntar. De resto, estes insultos seriam o mote para ameaças de morte e para novos insultos.

Um mês depois, em 19 de Fevereiro de 2008, o oficioso Jornal de Angola publicava uma Declaração da Fundação Agostinho Neto, a que D. Maria Eugénia preside, afirmando que no livro publicado a «dita historiadora» Dalila Cabrita Mateus apenas diz mentiras, conta «mentira atrás da outra» e «manipula a história». Enganou-se, pois, o júri que me atribuiu o grau de doutor em História Moderna e Contemporânea com a mais elevada das classificações académicas.

Em Setembro de 2010, a senhora D. Irene Neto, agora testemunha de sua mãe, dizia ao jornal O PAÍS que a signatária pega «numa afirmação que a mãe fez de que ela é mentirosa e move [um] processo de difamação, quando em Portugal passam a vida a dizer que o Primeiro-Ministro é mentiroso, mas não têm processo algum». Dizia, ainda, que «os historiadores são utilizados por estes ou por aqueles, pagam-lhes».

E de novo no oficioso Jornal de Angola, Artur Queiroz, também testemunha de D. Maria Eugénia, num artigo intitulado «Excrementos de Cabrita», lança um «festival de impropérios» na sugestiva imagem dum jornalista angolano. Agora, a signatária não era só mentirosa, mas também provocadora, embusteira, aldrabona, impostora, aberração intelectual, leprosa intelectual, falsificadora da história, pobre diaba. E até assinava «modestamente com o diminutivo, quando nem o aumentativo dava nota da sua baixeza moral».

Na sua milenar sabedoria, diz o nosso povo que «quem não se sente, não é filho de boa gente». Considero-me filha de boa gente. E não gosto que me insultem ou tentem impedir-me de investigar e de escrever. Apresentei, pois, queixa contra D. Maria Eugénia Neto, pelo crime de difamação agravada.

Em todo este processo, são muitos os silêncios cúmplices. E também não faltam as acções de ajuda à tentativa de impedir a denúncia de um «crime contra a Humanidade», dos tais que não prescrevem perante as leis internacionais.

D. Maria Eugénia, como diz a sabedoria popular, é do género de «bater e fugir». Soube insultar e promover o insulto. Mas procurou, desde a primeira hora, escapar às suas responsabilidades, chegando a arvorar-se em vítima.

Na fase de inquérito, o Ministério Público não a conseguia encontrar de modo a constituí-la arguida, embora fosse portuguesa e tivesse residência em Lisboa, onde vem frequentemente, ainda que, do alto da sua importância, entre com passaporte diplomático para não se misturar com a plebe.

Devolvido o processo à signatária, esta apresentou acusação particular que foi acompanhada pelo Ministério Público. Mas, em vésperas da distribuição do processo para julgamento, D Maria Eugénia pediu a abertura da instrução, solicitando a audição duma série de testemunhas por carta rogatória. O Juiz de Instrução considerou não ser necessário ouvir testemunhas, pois os elementos ao seu dispor mostravam claramente estar-se perante um crime de difamação agravado. E foi nesse pressuposto que, há mais de um ano, foram marcadas duas datas para a audiência de julgamento.

D. Maria Eugénia veio, agora, pedir dispensa da presença na audiência de julgamento, por motivos de saúde e de idade, mau grado, na semana anterior, ser publico ter estado na Feira do Livro de Belgrado, na Sérvia. E, possivelmente, até passou por Lisboa, a caminho de Luanda. Entretanto, numa carta emitida no passado dia 15 de Novembro, a signatária seria notificada do despacho da Juíza de Direito encarregue do processo, adiando a audiência de discussão e julgamento marcada para o dia seguinte, 16 de Novembro, pelas 9 e meia da manhã. Adiamento «sine die», pelo facto de as autoridades judiciais de Angola não terem dado cumprimento à carta rogatória pedida por D. Maria Eugénia e emitida em 27 de Outubro de 2010, para a audição em Angola das testemunhas Rui Mingas, Irene Neto e Artur Queiroz.

A signatária não gosta de pleitear. E D. Maria Eugénia poderia ter evitado que o processo chegasse a tribunal. Bastava ter pedido, no mesmo jornal em que os proferira, desculpa pelos insultos, reconhecendo que o livro Purga em Angola resultava de um trabalho de investigação realizado com o máximo rigor nos métodos, nos processos e no uso das fontes. E, como é usual, pagasse a indemnização compensatória dos danos materiais e morais causados, indemnização muito longe dos 300 mil dólares que exigiu a um jornal angolano que informava do facto de estar a reclamar uma pensão anual de 10 milhões de dólares. Contudo, até agora, D. Maria Eugénia não o quis fazer, apostando antes em expedientes e manobras dilatórias, na esperança de que levem à prescrição do processo.

Volto a reafirmar a minha confiança na justiça portuguesa. E nem me passa pela cabeça que um qualquer magistrado possa pactuar com manobras dilatórias realizadas com a cumplicidade das autoridades judiciais angolanas, deixando prescrever o processo que corre termos no 1º Juízo Criminal de Lisboa. Por isso, resta-me fazer votos para que o julgamento se realize o mais depressa possível e para que nele se faça Justiça.”

Texto de Dalila Cabrita Mateus

quinta-feira, dezembro 01, 2011

Angola aposta forte no progresso de Cabinda
- Vai construir (o que é obra!) mais... picadas

O Governador angolano na colónia de Cabinda, Mawete João Baptista, mostrou ao mundo que os colonialistas vão apostar no progresso.

Falando em Cabinda, afirmou que o programa do governo que visa a abertura de picadas em toda a extensão da colónia (ele, como Salazar fazia em relação a Angola, chama-lhe província), com destaque para os municípios do interior, demonstra a vontade do executivo em responder os apelos das populações visando o seu bem estar social e a sua inclusão social e segurança na sua mobilidade.

Mawete João Baptista apontou que é objectivo do Governo colonial criar cada vez mais as condições necessárias para as populações, sobretudo as que vivem em áreas de difícil acesso, para que se sintam também incluídos nos programas ajuizados pelo governo, nomeadamente, na saúde, na educação e no ensino, na água potável, na energia e em especial terem uma segurança total para o exercício das suas actividades no campo.

“Nós estamos gratos por esse esforço que corresponde com a alegria das populações nessas áreas”, disse Mawete João Baptista, para mais adiante sublinhar que a abertura das picadas inoperantes há mais de 30 anos, no caso de Alto Sundi - Sanda Massala (Belize), Quissamano - Necuto (Buco-Zau) e o melhoramento (asfaltagem) da estrada que liga a Comuna de Dinge (Cacongo) e a de Necuto (Buco-Zau), permitem hoje garantir o exercício cabal da administração do estado.

O repovoamento das aldeias abandonadas há muito tempo com a edificação de casas de construção definitiva são igualmente programas que o governo da colónia promete levar a cabo para o bem estar das populações da região em algumas localidades do interior.

Mawete João Baptista indicou ainda que o governo vai continuar a abertura de outras picadas ao longo de toda a fronteira com os dois países vizinhos os Congos Brazaville e RDC por formas a permitir que haja um melhor controlo das populações e da segurança.

 “As nossas aldeias vão poder ser visitadas e beneficiar de programas do governo para seu bem-estar social. Teremos melhor segurança e evitaremos elementos que antes se aproveitavam para se instalar nessas aldeias isoladas devido a falta de estradas ou picadas onde preparavam acções contra as nossas populações já não o farão”, exortou o governador da colónia.

Apesar de mais de 70% das exportações angolanas de petróleo terem origem na sua colónia de Cabinda, o máximo que o regime colonial do MPLA dá ao povo são umas picadas por onde vão passar, é claro, os milhares de militares que lá tem e que – como força de ocupação – visam neutralizar qualquer tipo de resistência.

Divagações sobre a indústria do futebol

Introdução: Os jornalistas sabem que é melhor estar de cócoras e ter um prato de lentilhas, do que estar erecto mas de barriga vazia. Sabem que é preferível serem criados do poder e ter dinheiro para pagar ao merceeiro, do que serem honrados profissionais e andarem a mendigar nas esquinas da vida.

1-O presidente do FC Porto comentou a queixa de um jornalista da TVI que disse ter sido agredido no Estádio do Dragão no final do FC Porto-Sp. Braga:  “Se tivesse havido algum problema na bancada da comunicação social, de certeza que os jornalistas não estavam todos a dormir. E ninguém viu ou falou sobre isso. Apenas um senhor veio dizer que foi insultado e agredido, mas nem sequer sabe por quem”.

2-Quando, no dia 11 de Junho de 2009, o Real Madrid ofereceu ao Manchester United 93 milhões de euros pela transferência de Cristiano Ronaldo, ficou a saber-se que mais de 200 milhões de crianças continuavam a ser forçadas a trabalhar diariamente no Mundo.

3-O Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, subscreveu afirmações das “gentes do mundo do futebol” de que se ultrapassaram os “limites razoáveis” na transferência de Cristiano Ronaldo para o Real Madrid.

4-Para Manuel Serrão, "o F. C. Porto e o futebol em geral têm feito mais pelo País que os nossos políticos, afirmando-o em África, no Brasil, na Colômbia, numa série de sítios onde se fez festa com as últimas conquistas".

5-Quando em Portugal a televisão transmite jogos de futebol, o que mais gosto de ver é as imagens dos ilustres protagonistas que, nos camarotes só reservados a gente importante, mostram como é que se agrada aos donos.

6-Quando no dia 4 de Outubro de 2010, o presidente do Futebol Clube do Porto disse em Olhão, Algarve, que “só os espíritos cretinos e obtusos pensam que receber um clube numa câmara é sinal de promiscuidade”, referia-se a um dos raros políticos lusos que nunca estiveram ao seu lado nesses camarotes: Rui Rio.

7-Cada vez mais os camarotes dos estádios dos grandes clubes de futebol são os lugares onde se vêem mais políticos por metro quadrado. Tenho dúvidas que todos esses políticos sejam adeptos do futebol e muito menos do desporto, mas o que importa é estar ao lado de um campeão. E consoante muda o campeão mudam-se os panegíricos. Portugal é mesmo assim.

8-Será um erro exigir que num jardim zoológico como cada vez mais é Portugal, cada macaco esteja no seu galho? Será um erro exigir que futebol seja futebol, que política seja política, que jornalismo seja jornalismo?

9-Entre um prato de lentilhas e a verdade, quase todos os jornalistas pensam com a barriga. Aliás, pensar com a barriga que alimenta um corpo sem coluna vertebral é mais de meio caminho andado. Para andar o outro meio basta ter cartão do partido… ou de um clube de futebol.

Lusofonia soma pontos na… corrupção

Que triste sina esta de ser angolano-português. Portugal foi mas já não é, Angola continua a não ser.

Enquanto no reino lusitano continua a marcha (sem opositores capazes de dar um chuto no mataco dos algozes) para instaurar um estado esclavagista, em Angola tudo continua na santa paz de um regime totalitário.

Angola continua a ser o país lusófono pior colocado (168º lugar entre 183) na tabela de corrupção, elaborada pela organização não governamental Transparência Internacional e que foi hoje divulgada.

Portugal mantém o 26º lugar o que, dizem os especialistas, é uma posição aceitável e, se calhar, digna para um país que está cada vez mais próximo do norte de África.

Não creio que  essa posição no ranking mundial esteja certa, desde logo porque se sabe que a corrupção (política, económica, social, empresarial, judicial, financeira etc.) está para Portugal como Amália Rodrigues está para o fado.

Se calhar, admito, não é fácil à Transparência Internacional provar que os robalos são carros de luxo, que entrar pobre para a política é mais de meio caminho para ser milionário, que existem BPN com fartura e faces ocultas que nunca mais acabam.

No documento, intitulado "Índice de Percepção da Corrupção 2011", a Transparência Internacional determinou que a pontuação da tabela varia de 10 (livre de corrupção) a zero (altamente corrupto).

Ou seja, Portugal (quem diria?) é o menos corrupto, segue-se Cabo Verde (41º), Brasil (73º), Moçambique ficou na 120ª posição, com uma pontuação de 2.7; a Guiné-Bissau foi incluída no grupo dos 30 países mais corruptos à luz do Índice de Percepção da TI, estando este ano no 154º lugar, com 2.2 pontos; São Tomé e Príncipe está na 100ª posição, com 3.0 pontos. Já Angola é, entre os lusófonos, o pior colocado, com uma pontuação de 2.0, ocupando o 168º lugar.

O ranking da Transparência Internacional classifica a Somália, Coreia do Norte, Myanmar e Afeganistão como os países mais corruptos.