sábado, fevereiro 21, 2009

Entre a beira da estrada e a estrada da Beira

O primeiro-ministro das ocidentais praias lusitanas cada vez mais perto de Marrocos, José Sócrates, disse hoje que “o país pede aos seus líderes políticos e empresariais que proponham soluções para a crise e não que descrevam a crise”.

Muito bem. Melhor ainda seria se José Sócrates percebesse que ele próprio não é solução para o problema mas, antes, um problema para a solução. E como não compreende (nem mesmo com as explicações de Augusto Santos Silva), fica sentado na beira da estrada a tentar convencer os portugueses que está a caminhar na estrada da Beira.

O primeiro-ministro diz (e se ele o diz eu ponho-me em sentido) que esta é a “crise mais séria dos últimos 100 anos”, pelo que o país (penso que se referia a Portugal) “não pode cometer o erro de ficar parado”, sendo por isso necessárias “soluções pragmatistas” que “ousem contribuir para resolver os problemas".

Tem sido, aliás, isso que muitos empresários estão fazer. Passam a crise para os empregados (despedindo-os) e continuam a viver à grande e à francesa. É que, convenhamos, a crise não é igual para todos. À falência vão as empresas mas nunca os empresários.

“Não há político no activo que tenha vivido uma crise semelhante. Lembro-me de haver recessão nos Estados Unidos, no Japão e mesmo na Europa, mas não tenho memória de toda a Europa, a Rússia, os EUA e até a China se encontrarem nessa situação, numa crise à escala mundial”, disse num rasgo de inegável inteligência José Sócrates.

“Este é o momento em que os portugueses se viram para o Estado e o que precisamos é de confiança e ânimo, porque nunca vi o pessimismo criar um posto de trabalho”, afirmou o primeiro-ministro, utilizando uma frase que seria igualmente digna na boca dos seus amigos Hugo Chávez, Muammar Kadhafi ou José Eduardo dos Santos.

“Os países com mais sucesso valorizam os que arriscam”, disse ainda José Sócrates. E tem razão. É por isso que Portugal está cada vez mais próximo do Burkina Faso. Neste quintal lusitano, quem se arrisca a pensar de forma diferente do Poder (político, económico, empresarial) é recompensado com o despedimento.

Tal como no Burkina Faso, em Portugal valoriza-se os que não erram sem aquilatar de saber que há tanta genta a não errar porque, simplesmente, nada faz.

Chávez amigo, Sócrates está contigo

O Partido Socialista de Portugal convidou o líder do Partido Socialista Unido da Venezuela, Hugo Chávez, para assistir ao Congresso que arranca na próxima sexta-feira, em Espinho.

Penso que o PS fez muito bem em convidar o democrata Chávez. Creio, aliás, que irá convidar igualmente outros democratas amigos de José Sócrates, como Muammar Kadhafi, José Eduardo dos Santos e – quem sabe? – Robert Mugabe.

A notícia faz manchete na edição de hoje do jornal Sol. O semanário refere que o convite ainda não teve resposta. É a primeira vez que o PS faz semelhante convite. Os socialistas justificam o convite com o relacionamento estreito que existe com a Venezuela.

E, de facto, são tantas as semelhanças que faz todo o sentido.

Segundo o advogado Hermán Escarrá, “há vários presos políticos, presos pessoais e presos por capricho do regime instaurado na Venezuela, e cujo titular e responsável é o cidadão Hugo Rafael Chávez Frías”.

Ainda de acordo com o advogado, na Venezuela há “ausência do Estado de Direito, violações permanentes da Constituição, nulas garantias democráticas, violação generalizada dos Direitos Humanos, concentração do poder na figura presidencial e nula autonomia e independência dos Poderes Públicos”.

Como se vê, os amigos são para as ociasiões. E já lá vai o tempo em que o mesmo José Sócrates, chamou “radical e populista” ao agora seu amigo do peito, Hugo Chávez.

Mudam-se os tempos...

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

«Despedir quando há lucros
“é um bocadinho vergonhoso”»

Segundo o Diário de Notícias (DN), «os três jornais generalistas pagos da Controlinveste aumentaram as vendas durante os primeiros dez meses de 2008, em comparação com o mesmo período de 2007.”

Diz ainda o DN que “apesar da crise, os jornais diários tiveram uma circulação paga superior em cerca de 6% à registada em 2007.»


Olhando para o Jornal de Notícias, verifica-se que, diz o próprio jornal, «foram lidos mais jornais diários no último trimestre de 2008, muito graças à subida do "Jornal de Notícias". Quanto ao período estudado anteriormente pela Marktest, o JN foi o que registou um salto maior na audiência.»

Ver:

«Controlinveste em situação financeira perigosa»

«A empresa proprietária dos jornais 'Diário de Notícias', 'Jornal de Notícias', '24 Horas', TSF Rádio e outras publicações encontra-se com graves problemas de solvência. Segundo as nossas fontes, o DN e o 24 Horas têm dado prejuízos na ordem de milhões de euros e o patrão da empresa Joaquim Oliveira já solicitou à banca o adiamento de alguns pagamentos a que estava obrigado. O único jornal que está a sustentar financeiramente a Controlinveste é o 'Jornal de Notícias'. »

João Severino em:
http://pauparatodaaobra.blogspot.com/2009/02/controlinveste-em-situacao-financeira.html

Magalhães entra na área da Francofonia
onde está incluído São Tomé e Príncipe!

A JP SÁ Couto, a empresa portuguesa que contou com José Sócrates como o seu melhor vendedor, vai entregar até finais de Março os restantes 200 mil portáteis Magalhães às escolas portuguesas de primeiro ciclo e tem negociações comerciais mais avançadas na Líbia e Marrocos, disse hoje o responsável da empresa.

Quanto a Marrocos, até pela cada vez mais estreita proximidade geográfica, acredito que alinhem na coisa. No entanto, não creio que agora que é o líder da União Africana, Muammar Kadhafi vá na cantiga. Mas nunca se sabe. Aliás, dada a grande e sólida amizade com José Sócrates, até será possível ver o Magalhães espalhado por essa África.

"Contamos até ao final de Março ter tudo resolvido, porque já temos mais de 200 mil entregues, do lote de pouco menos 500 mil [que estavam previstos]", disse o responsável para a área dos mercados internacionais da JP Sá Couto, Luís Pinto, que falava à margem do lançamento pela Portugal Telecom do Sapo Moçambique e do Programa Magalhães.

Luís Pinto lembrou que a empresa tem projectos com contrato entre Portugal e a Venezuela e está em negociações com propostas comerciais, mais avançados no México e na Líbia. Além disso, afirmou que a empresa está "percorrer uma série de países da área francófona em África, como o Gabão, os Camarões, o Senegal, a Costa de Marfim, São Tomé e Príncipe e Chade" e da América Latina, como a Venezuela , a Argentina e o Chile.

E eu, que não tenho o Magalhães, até julgava que quando se falasse de São Tomé e Príncipe seria no contexto não da Francofonia mas da Lusofonia.

Que falta faz o Magalhães para eu ultrapassar esta ignorância!

“We don’t wanna put in!”
ou a cólera no Zimbabué?

O número de casos de cólera no Zimbabué aumentou para 80.250 e o número de mortes eleva-se a 3.759, disse hoje a Organização Mundial de Saúde (OMS) em Genebra.

Mas será que isto é noticiosamente relevante? Claro que não. Aposto que vai ter mais destaque na comunicação social o facto de Vladimir Putin não gostar da canção que a Geórgia leva ao festival da Eurovisão (“We don’t wanna put in!”).

A porta-voz da OMS, Fadela Chaib, afirmou que os números incluiam todos os casos e mortes comunicados desde o início da epidemia em Agosto e até quinta-feira.

A epidemia de cólera está a alastrar rapidamente no Zimbabué devido à falência do sistema de saúde do país e à deficiente manutenção das infra-estruturas como a rede de água e de esgotos.

Cabinda é uma presa nas garras
da sociedade MPLA & petrolíferes

Nzita Tiago, presidente da FLEC, denuncia os rumores «tendenciosos e infundados», alimentados pela «má-fé de alguns membros da FLEC» que promoveram suspeitas sobre as ligações de membros do movimento.

O líder da resistência desmentiu que responsáveis do movimento tivessem sido excluídos da FLEC e acusou as iniciativas que visam provocar «falhas» no seio do movimento e do Governo provisório onde «a unidade da direcção desestabiliza os detractores».

Garantindo que existe unanimidade na visão de todos os dirigentes, negou que a FLEC seja um movimento tribal ou místico reafirmando que a direcção e o governo provisório mantêm a confiança em «todos os seus membros».

«Em nenhum momento se deve dar razão aqueles que apenas aspiram à destruição do nosso movimento» afirmou Nzita Tiago, «Cabinda é hoje uma presa entregue pelos angolanos às potências petrolíferas e financeiras».

Nzita Tiago considerou que chegou a hora de pôr um termo definitivo à ocupação de Cabinda por Angola e insistiu que a posição «categórica e firme» da FLEC é negociar com Angola o futuro de Cabinda tendo em conta o temperamento pacífico do povo de Cabinda e o seu desejo de ascender à independência por um meio não violento «salvo se circunstancias obriguem diferentemente», sublinhou.

Nzita Tiago afirmou que a FLEC espera poder encontrar-se com «uma delegação oficial de Angola a fim de negociar os problemas fundamentais» de Cabinda e obterem rapidamente as «decisões concretas que tirem os dois países do impasse actual devido à incompreensão contínua das autoridades angolanas, responsáveis da catástrofe».

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Jonas Savimbi, o meu Presidente

Faz domingo sete anos que o meu Presidente foi assassinado. Mau grado a vontade, os avisos e as pressões dos quadrúpedes ruminantes, com ou sem gibas sobre o dorso, que em Angola e Portugal nasceram a saber tudo e são donos divinos da verdade, volto a publicar – como, aliás, faço todos os anos desde 2002 – o texto que escrevi na altura em que se confirmou que Jonas Savimbi tinha sido morto em combate:

O Povo Angolano, Angola, África e todos os que pugnam pelos ideais de liberdade e democracia no Mundo, estão de luto. Luto por diversas razões.

O Dr. Jonas Malheiro Savimbi, Presidente da UNITA, tombou heroicamente em combate! Tombou heroicamente em combate o meu Presidente.

Tão heroicamente que as Forças Armadas de Angola (ou pelo menos parte delas) tiveram necessidade de O humilhar... mesmo depois de morto. Trataram o meu Presidente como um cão raivoso, como um troféu de caça.

Até na morte Jonas Savimbi atemorizou os militares de José Eduardo dos Santos.

Os adversários, ou até mesmo os inimigos, merecem respeito. E isso não aconteceu. As FAA não humilharam Jonas Savimbi, humilharam uma grande parte do Povo Angolano.

A África perdeu um dos seus mais insignes filhos, cuja vida e obra O situam na senda dos arautos da História Africana como N'Krumahn, Nasser, Amílcar Cabral, Senghor, Boigny e Hassan II.

O Dr. Jonas Malheiro Savimbi, Presidente da UNITA, o meu Presidente, tombou em combate ao lado das suas tropas e do Povo mártir, apanágio só concedido aos Grandes da História.

Deixou-nos como maior e derradeiro legado a sua coragem e o consentimento do sacrifício máximo que pode conceder um combatente da liberdade, a sua Vida.

Fiel aos princípios sagrados que nortearam a criação da UNITA, o Dr. Savimbi, rejeitando sempre e categoricamente os vários cenários de exílios dourados, foi o único dos líderes angolanos que sempre viveu e lutou na sua Pátria querida.

A ela tudo deu e nada tirou, ao contrário de outros com contas, palácios e mansões no estrangeiro.

Fisicamente o meu Presidente morreu. Fisicamente o meu Presidente foi humilhado. Mas uma coisa é certa. Não há exército que derrote, mate ou humilhe uma cultura, um povo, uma forma eterna de ser e de estar.

Jonas Savimbi, o meu Presidente, continuará a ter quem defenda essa cultura, esse povo, essa forma eterna de ser e de estar.

«Há coisas que não se definem - sentem-se». Foi isto que em 1975 me disse, no Huambo, Jonas Malheiro Savimbi. É isto que José Eduardo dos Santos nunca compreendeu.

A UNITA não se define - sente-se. Jonas Malheiro Savimbi não se define - sente-se. Angola não se define - sente-se.

E porque se sente, e não há maneira de matar o que se sente, é que Jonas Malheiro Savimbi, o meu Presidente, continuará vivo.

Vivo no esforço pela paz em Angola, vivo pela dignificação dos angolanos, vivo pela liberdade, vivo pela coerência... vivo porque os heróis não morrem nem são humilhados.

Obrigado Presidente.

Jornalistas timorenses intimidados

O processo criminal movido contra o jornalista José Belo pela ministra da Justiça, Lúcia Lobato, está a ser alvo de uma petição-contestação por parte de jornalistas de outros países anglófonos limítrofes a Timor-Leste, como é o caso da Austrália e da Nova Zelândia. O protesto visa ser entregue ao Presidente da República de Timor-Leste, Ramos Horta, actualmente em visita à Nova Zelândia e Austrália.

José Belo, jornalista do jornal timorense Tempo Semanal foi acusado pela ministra de difamação criminal depois de ter publicado denúncias sobre a corrupção que envolve o governo timorense de Xanana Gusmão suportado pela Aliança de Maioria Parlamentar.

O suporte do processo-crime são velhas leis indonésias que limitam a liberdade de expressão e informação, leis essas que nos tempos da ocupação indonésia valeram àquele jornalista penas de prisão por escrever contra a ocupação indonésia.

Paradoxalmente, a ministra Lúcia Lobato, fez-se valer dessas leis obsoletas e castradoras para mover o referido processo-crime contra o jornalista, alegadamente por este denunciar eventuais acções de corrupção que indiciavam elementos do governo, familiares e amigos dos mesmos.

O documento vem assinado por 85 jornalistas e levanta questões que requerem o compromisso do governo timorense no sentido de respeitar a liberdade de expressão e de informação.

Segundo Cathy Harper, signatária do documento, “José Belo está habituado a ser impopular com as autoridades porque fazia parte da resistência contra a Indonésia e foi enviado para a prisão por alegadas actividades anti-indonésias, é um paradoxo que agora seja o próprio governo timorense a querer prendê-lo”.

Por seu lado, José Belo declarou que está “pronto para ser preso devido àquelas leis e na mesma prisão” em que os indonésios o detiveram acusando do mesmo “crime” de que o governo timorense o acusa.

Cathy Harper salienta que “José Belo é o principal editor do
Tempo Semanal”, uma referência no jornalismo timorense e que aquilo que acontecer ao jornalista terá repercussões na classe a nível de passarem a temer represálias se pretenderem elaborar denúncias relacionadas com o governo.

Segundo afirma um grupo denominado Kolkos, que está envolvido na elaboração em novas leis para regular a mídia, “existem vários exemplos recentes de jornalistas que foram intimidados com ameaças de acções judiciais por parte de governantes depois de se referirem a casos de corrupção ou outros que possam ser mal aceites pela população".

A deputada Fernanda Borges declarou sobre o caso que lhe desagrada a situação de não haver liberdade de expressão “porque mais tarde ou mais cedo alguém vai bater à sua porta e dizer que você não disse a verdade sobre mim e então vai para a prisão”. A deputada referiu ainda que neste momento os tribunais estão a ser utilizados para esse fim, para calarem as pessoas.

In:

Eu conluio, tu conluias, ele conluia...

A eurodeputada socialista Ana Gomes lamentou hoje a supressão da referência a Portugal na resolução sobre a CIA aprovada pelo Parlamento Europeu, afirmando que mais uma vez funcionou o "conluio" do "centrão" entre direita e esquerda.

O Parlamento Europeu aprovou hoje, em Bruxelas, uma resolução sobre a utilização de países europeus pela CIA para transporte e detenção ilegal de prisioneiros, sem qualquer referência específica a Portugal, suprimida por iniciativa da delegação do PS.

No texto final, aprovado hoje no hemiciclo com 334 votos a favor, 247 contra e 87 abstenções, "caiu" a referência a voos em Portugal "durante o Governo (Durão) Barroso", tal como constava na versão original do projecto de resolução comum.

Ana Gomes confirmou hoje ter-se manifestado contra a queda da referência, por considerar que havia elementos novos que a justificavam, e considerou "muito significativo que a referência a Portugal tenha caído" na sequência de um "conluio de gente de direita e de esquerda" que, na sua opinião, "de alguma maneira só chama mais a atenção para o que há a esconder no que toca ao envolvimento de Portugal".

A deputada reconheceu que "a formulação que estava no texto era bastante imprecisa", já que atribuía novos elementos a relatos da imprensa, quando "o que é relevante são os factos novos e os elementos novos, e os elementos novos sem dúvida existiam, desde que o relatório (da comissão temporária do PE sobre os voos da CIA) foi aprovado em 2007".

Entre esses elementos que considera novos apontou um relatório da organização Reprieve "que identifica voos autorizados por Portugal", e que a Procuradoria Geral da República "considerou relevante", daí a investigação em Portugal ainda estar em curso, e uma lista de voos de e para Guantanamo até final de 2007 "que mostram que continuaram a ser aprovados mesmo depois de o PE ter iniciado a investigação".

Segundo Ana Gomes, "há outros elementos que mostram que há particulares responsabilidades do governo de Durão Barroso na operação de todo o processo de transferência de detidos para Guantanamo e de Guantanamo para prisões secretas".

A terminar, a deputada comentou que, da mesma forma que foi suprimida a referência a Portugal, países com claro envolvimento nos processos de transferência de prisioneiros ficaram de fora da resolução, o que atribuiu ao tal "conluio".

"O 'centrão' que quer mandar os assuntos para debaixo do tapete, o 'centrão' do conluio não existe só em Portugal", disse.

Por seu turno, o eurodeputado Carlos Coelho, que presidiu à comissão temporária do PE, indicou hoje que se absteve na votação da resolução, explicando que, por um lado não poderia votar contra um texto que "recorda valores essenciais do respeito pelos Direitos Humanos, pelo Estado de Direito e pela procura da verdade", mas, por outro, não podia votar favoravelmente um texto que pretende "instrumentalizar o PE para lutas de política interna".

Para Carlos Coelho, esta resolução aparece "fora de tempo, pois ainda decorrem diligências no Parlamento Europeu", e a sua aprovação antes de se concluir o processo é "uma precipitação que gera erros".