domingo, junho 03, 2012

Só falta o MPLA premiar a Fátima


A jornalista da RTP Fátima Campos Ferreira foi distinguida com o prémio jornalismo 2012. O prémio foi entregue durante a iniciativa "Baile da Rosa", que este ano decidiu apoiar a Associação de Pais e Amigos das Crianças com Cancro.

Acho bem e fico satisfeito. Não sei se o prémio diz respeito àquela coisa a que a RTP chamou "Reencontro" entre portugueses e angolanos, apesentada por Fátima Campos Ferreira e transmitida sob as ordens de Miguel Relvas, a partir de Luanda, e no qual, para além do ministro português, participaram, entre outros, Abraão Gourgel, Albina Assis ou Zeinal Bava.

Se este prémio não respeita a esse exemplo de frete feito de cócoras ao regime angolano, então é altura de José Eduardo dos Santos atribuir uma comenda a Fátima Campos Ferreira pelos altos serviços prestado ao MPLA.

Se para não chatear o “querido líder” de Angola, Pedro Miguel Passos Relvas Coelho não tem tempo para falar dos angolanos, porque carga de chuva deveria a assalariada Fátima Campos Ferreira, ainda mais com o patrão ali ao lado, ter esses atributos?

A política e a produção de conteúdos – actividade comercial que substituiu o jornalismo -, são uma coisa com vários pesos e outras tantas medidas, que serve quase sempre para milhões terem pouco e poucos terem milhões. Enquanto se é bestial (José Sócrates dizia, entre outros, que Muammar Kadafi era um “líder carismático”) a bajulação não tem limites. Quando se passa a besta, todos se unem para dizer o pior e facturar sobre os escombros, sejam materiais ou humanos.

Desde 1975 que o regime português bajula caninamente o regime angolano do MPLA, e há 33 anos que lambe (pelo menos)  as botas a José Eduardo dos Santos, presidente não eleito mas – certamente – um paradigma da democracia e dos direitos humanos.

Em entrevista ao órgão oficial do regime, o Jornal de Angola, e a propósito da sua visita ao país, o primeiro-ministro de Portugal disse:

“As minhas expectativas são muito elevadas. Em primeiro lugar, porque não conheço pessoalmente o Presidente José Eduardo dos Santos e é para mim uma honra conhecê-lo. Mas quero dizer que ele já tinha tido a amabilidade de me convidar para visitar Angola na altura em que fui eleito presidente do PSD, então principal partido da oposição. Por razões que se prenderam com o nosso calendário interno não foi possível efectuar a visita. O Presidente José Eduardo dos Santos teve amabilidade de me convidar novamente, agora como chefe do governo, e é muito importante que nos possamos conhecer pessoalmente”.

Depois desta afirmação na versão primária de apenas Pedro Passos Coelho, certamente tanto portugueses como angolanos ficaram com uma (pelo menos) lágrima no canto do olho. Eduardo dos Santos está na fase do bestial (para isso basta estar no poder) e por isso o primeiro-ministro de Portugal disse que “é uma honra conhecê-lo”.

De mão estendida para pedir ajuda (a saudação é feita com um grande abraço), Passos Coelho  enaltece  todas as históricas qualidades do presidente de Angola, seja como estadista ou político de gabarito internacional ou até como (se quiser pagar direitos de autor a José Sócrates) como “líder carismático”.

Daqui a uns tempos, e já faltou mais, veremos Passos Coelho dizer de Eduardo dos Santos o que cada vez mais portugueses dizem de si. Ou seja, que é no mínimo um mentiroso. É claro que o facto de, ao contrário do presidente angolano, ter sido eleito não dá ao líder do PSD legitimidade para continuar a gozar com a chipala tanto de portugueses como de angolanos. Mas é isso que ele e o seu governo fazem.  E fazem muito bem.

Passos Coelho abordou também, “numa conversa franca e aberta”, as recordações da sua infância “muito feliz” no Cuito, Huambo, Benguela e Luanda na altura – recorde-se – em que Portugal ia do Minho a Timor.

E neste contexto, nada comos mostrar serviço ao soba levando a Angola uma das mais prestigiada jornalista da RTP que, na circunstância, aceitou o  papel de sipaio e desempenhou-o com tal galhardia que me convenceu que essa era mesmo a sua vocação.

Se fosse jornalista, Fátima Campos Ferreira teria tido tempo para falar dos 68% de angolanos afectados pela pobreza, ou referir que a taxa de mortalidade infantil é a terceira mais alta do mundo, com 250 mortes por cada 1.000 crianças.

Se fosse jornalista, Fátima Campos Ferreira teria tido tempo para recordar que apenas 38% da população angolana tem acesso a água potável e somente 44% dispõe de saneamento básico, ou que apenas um quarto da população angolana tem acesso a serviços de saúde, que, na maior parte dos casos, são de fraca qualidade.

Se fosse jornalista, Fátima Campos Ferreira teria tido tempo para lembrar que 12% dos hospitais, 11% dos centros de saúde e 85% dos postos de saúde existentes no país apresentam problemas ao nível das instalações, da falta de pessoal e de carência de medicamentos, ou que a taxa de analfabetos é bastante elevada, especialmente entre as mulheres, uma situação é agravada pelo grande número de crianças e jovens que todos os anos ficam fora do sistema de ensino.

Se fosse jornalista, Fátima Campos Ferreira teria tido tempo para dizer que 45% das crianças angolanas sofrerem de má nutrição crónica, sendo que uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos, ou que a dependência socioeconómica a favores, privilégios e bens é o método utilizado pelo MPLA para amordaçar os angolanos, ou que 80% do Produto Interno Bruto angolano é produzido por estrangeiros; que mais de 90% da riqueza nacional privada é subtraída do erário público e está concentrada em menos de 0,5% de uma população; que 70% das exportações angolanas de petróleo tem origem na sua colónia de Cabinda.

Pois é. Mas se ele fosse jornalista e tivesse tempo para isso não teria sido convidada. Mas, tal como aconteceu com Muammar Kadafi, quando José Eduardo dos Santos cair do pedestal, talvez Fátima Campos Ferreira tenha tempo e autorização para voltar a ser jornalista.

Por tudo isto, e por muito que custe a alguns, não atirem a assalariada (e certamente futura assessora de Miguel Relvas) Fátima Campos Ferreira às feras. Ele limitou-se a cumprir ordens. E ou as cumpria ou ia para a rua.

Aliás, os portugueses – sobretudo os responsáveis políticos, económicos e jornalistas - só estão mal informados sobre a realidade angolana porque querem, ou porque têm interesses eventualmente legítimos mas pouco ortodoxos e muito menos humanitários.

De facto, os políticos, os empresários e os (supostos) jornalistas portugueses (há, é claro, para aí duas ou três excepções) fazem um esforço tremendo (bem remunerado) para procurar legitimar o que se passa de mais errado com as autoridades angolanas, as tais que estão no poder desde 1975.

Angola é um dos países mais corruptos do mundo? É sim senhor. É um dos países com piores práticas democráticas? É sim senhor? É um país com enormes assimetrias sociais? É sim senhor. Mas as instruções que o MPLA deu a Miguel Relvas, e que este certamente transmitiu à Fátima Campos Ferreira, proibiam a abordagem destes temas.

Pedro Miguel Passos Relvas Coelho afirma  que vê com "muito bons olhos a participação do capital angolano na economia portuguesa e noutras privatizações que o Estado venha a realizar”.

Se essa participação se faz com dinheiro de origem duvidosa, ou à custa de metodologias pouco transparentes, não interessa. O importante é que se faça. O resto ver-se-á na altura em que, provavelmente outros, terão de fechar a porta.

Questionado pelo jornal Público sobre se iria abordar o tema da transparência em Angola à luz das mudanças internacionais, o primeiro-ministro respondeu através do seu gabinete: "A visita servirá para fazer o ponto de situação sobre os principais aspectos das relações políticas e económicas entre os dois países."

Portugal, tal como a restante comunidade internacional, sabe que é mais fácil, muito mais fácil, negociar com ditaduras do que com democracias. É mais fácil negociar com quem está, é o caso de Angola, há 33 anos no pode do que com alguém que possa ter de abandonar o cargo pela escolha do povo.

Pedro Miguel Passos Relvas Coelho está, nesta fase, mais interessado em facturar sobre o facto de o “querido líder” de Angola ser bestial, esperando que quando ele passar – como todos os ditadores – a besta, não tenha de prestar contas.

Se o petróleo é o produto que Portugal mais importa de Angola, país que é o principal destino das exportações portuguesas, extra UE, se BES, Millennium bcp, Caixa Geral de Depósitos estão em força no reino de Eduardo dos Santos, se já há em força capital angolano no BCP, BPI, Banco BIC Português, se o BPN está nas mãos dos donos de Angola, porque carga de chuva iria  o “africanista de Massamá” hostilizar o grande soba, ou Fátima Campos Ferreira fazer perguntas incómodas?

“A solidez dos laços que nos unem e a convergência de posições em relação a muitos dos desafios centrais do nosso tempo, permitem-nos encarar o futuro com redobrada confiança e ambição”, escreveu em 2009, Aníbal Cavaco Silva, numa mensagem enviada ao democrata dono de Angola e que certamente é repetida pelo menos uma vez por ano.

O MPLA agradece, mas não em português...


“Angola é um grande país com um futuro promissor”, diz Jorge Sampaio. Mentira. É um país grande mas está longe, muito longe, de ser um grande país.

“Do ponto de vista económico, sem dúvida que Angola é um país com grande futuro, porque as taxas de crescimento assim o demonstram. O crescendo da economia angolana é evidente”, disse em tempos Jorge Sampaio num programa de opinião da RTP que, curiosamente, se chama Avenida de uma coisa que Angola não tem – Liberdade.

Seja como for, o MPLA gosta de ver os seus amigos a elogiar o regime, até porque as eleições estão à porta e do ponto de vista a imagem internacional, é sempre bom registar a apologia de figuras gradas da ex-potência colonial.

O antigo Presidente de Portugal referiu ainda que dadas as condições excepcionais que foram criadas em Angola com a conquista da paz, “é preciso ter esperança” de que vai ser um grande país, com um crescimento acima da média.

Então em que é que ficamos? É um grande país ou “vai ser um grande país”?  Adiante. Desde que o MPLA se perpetue no poder será sempre grande…

Jorge Sampaio defendeu que as relações de cooperação bilateral “devem assentar em bases sólidas e no respeito mútuo”.  Respeito esse que, vê-se logo, blinda qualquer tipo de crítica ao facto de Angola não ser uma democracia, não ser um estado de direito e ter, aliás, um presidente não eleito há 33 anos no poder.

E se, não há muito tempo, o ex-Presidente da República dizia-se "nada satisfeito com a qualidade da democracia" no seu país, onde a sociedade civil é "pouco actuante" e os poderes políticos são influenciados por "sectores corporativos", como o da justiça, o que dizer de Angola?

E se, de facto, na política “made in Portugal”, os seus actores (a grande maioria medíocre) estão para se servir e não para servir, o que dizer de Angola?

"Não estou nada satisfeito com a qualidade da democracia, temos que a requalificar, revitalizar. A começar pela renovação das dinâmicas e das estruturas partidárias. E há uma remobilização dos cidadãos que é necessária", sustentou Jorge Sampaio, em entrevista à Antena 1 em 21 de Abril de 2010.  Será que Sampaio já pensou o que, também nesta matéria, se passa em Angola?

Em consciência nenhum português deve estar satisfeito com a qualidade dessa coisa que, em Portugal, se chama democracia. Por alguma razão há cada vez mais portugueses de segunda e até de terceira. Apesar disso, os políticos jogam com o que consideram ser uma certeza imutável: os portugueses são um povo de brandos costumes. O mesmo se passa em Angola como, aliás, é do conhecimento de Jorge Sampaio.

Questionado sobre de quem é a culpa pelo estado da democracia em Portugal, Jorge Sampaio respondeu: "Somos todos naturalmente responsáveis." Se em Portugal são todos, porque razão em Angola se exclui os donos do regime?

Para Jorge Sampaio, é (ou era) necessário que "os poderes políticos saibam resistir, pela seriedade das suas propostas, àquilo que são as profundas influências de sectores corporativos da sociedade portuguesa". E nomeava médicos, juízes, magistrados do Ministério Público, enfermeiros e funcionários públicos. E quanto a Angola?

Em função desta realidade, mais negra a cada dia que passa, provavelmente os portugueses deveriam estar nas ruas a manifestar a sua indignação (creio, embora não tenha a certeza, que ainda têm esse direito) pelo aumento da pobreza, pelo custo de vida, pelo desemprego, pela crise, pela forma como são tratados.

Já em Angola, quando o tentam fazer levam porrada de criar bicho e nem com a solidariedade de todos os Jorges Sampaios podem contar.

Tal como fazia José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa em relação aos portugueses, também Jorge Sampaio se junta a Cavaco Silva e a Passos Coelho nesse nobre e eloquente acto de atirar poeira para a chipala dos angolanos e dos portugueses que gostam dos angolanos.

Não saberá Jorge Sampaio que:

- 68% da população angolana é afectada pela pobreza, que a taxa de mortalidade infantil é a terceira mais alta do mundo, com 250 mortes por cada 1.000 crianças?

- que apenas 38% da população angolana tem acesso a água potável e somente 44% dispõe de saneamento básico?

-  que apenas um quarto da população angolana tem acesso a serviços de saúde, que, na maior parte dos casos, são de fraca qualidade?

-  que 12% dos hospitais, 11% dos centros de saúde e 85% dos postos de saúde existentes no país apresentam problemas ao nível das instalações, da falta de pessoal e de carência de medicamentos?

- que 45% das crianças angolanas sofrerem de má nutrição crónica, sendo que uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos?

-  que, em Angola, a dependência sócio-económica a favores, privilégios e bens, ou seja, o cabritismo, é o método utilizado pelo MPLA para amordaçar os angolanos?

- que 80% do Produto Interno Bruto angolano é produzido por estrangeiros; que mais de 90% da riqueza nacional privada é subtraída do erário público e está concentrada em menos de 0,5% de uma população; que 70% das exportações angolanas de petróleo tem origem na sua colónia de Cabinda?

- que, em Angola, o acesso à boa educação, aos condomínios, ao capital accionista dos bancos e das seguradoras, aos grandes negócios, às licitações dos blocos petrolíferos, está limitado a um grupo muito restrito de famílias ligadas ao regime no poder?

Sabe. É claro que sabe. Mas os amigos são para as ocasiões. E por muitos que sejam os defeitos do regime angolano, nunca se esquecerá de agradecer por escrito a ajuda dos amigos. E normalmente escreve em… dólares.

Pedro Passos Coelho recria em Portugal uma espécie de património imaterial - os escravos


Passos Coelho e toda a sua equipa, formada e doutorada na JSD, nada têm a perder porque, na verdade, nada construíram. Vai daí, tudo o que vier é lucro… nem que seja à custa de um democrático regime esclavagista.

Afinal, ao que parece, ainda há portugueses que pensam que o seu Governo sabe, ou quer, dialogar, nomeadamente com os supostos parceiros da concertação social.

Seria, aliás, a primeira vez que um governo esclavagista dialogaria com os escravos. Por isso, os cidadãos de segunda que tirem o cavalinho da chuva porque, citando Afonso Camões, presidente da Lusa e ex-administrador da Controlinveste, Passos Coelho só sabe dizer que “é assim que eu quero, é assim que vai ser”.

E não adianta criticar o primeiro-ministro porque, de forma democrática, foi ele o escolhido pela plebe. É claro que os escravos estariam à espera da prometida carta de alforria mas, mais uma vez, Passos Coelho demonstrou como é fácil enganar um povo que estava ávido de mudanças.

Em teoria, tal como supostamente defende o Presidente da República, Cavaco Silva, também o “africanista de Massamá” advoga um "diálogo frutuoso e construtivo" entre os que mandam e os que são voluntariamente obrigados a aceitar viver sem comer, sem emprego e sem ir ao médico.

Certamente que, com diálogo e entendimento, a “insuficiência alimentar” dos que já só sonham com uma refeição será mais fácil de digerir. Estou mesmo a ver muitos portugueses a arrotar de satisfação depois de sonharem com um prato de comida.

Mesmo agora que estão esqueléticos como resultado da – citando Cavaco Silva - “insuficiência alimentar”, os portugueses continuam a acreditar que o diálogo os levará a serem uma espécie de património imaterial das ocidentais praias lusitanas.

Ainda não há muito tempo, Pedro Passos Coelho assegurava que "o Governo está, como sempre esteve, aberto ao diálogo com todas as forças políticas e sociais que queiram participar activamente no debate acerca de todas as escolhas".

Aí está o primeiro-ministro de Portugal ao seu melhor nível. Isto é, a mentir e a passar atestado de menoridade aos portugueses que nele acreditaram, levando na mesma onda os que nunca foram à sua missa.

O primeiro-ministro assegurou que "o Governo valoriza o consenso político em torno das grandes questões estratégicas nacionais", tendo mesmo o desplante de garantir que quer "manter um contacto construtivo constante com o principal partido da oposição" em todas aquelas matérias.

Mesmo para os portugueses que votaram em Passos Coelho mas que, nesta altura, já têm dúvidas se o primeiro-ministro não será Miguel Relvas,  as palavras deste governo pouco mais são do que a confirmação de alguém que acredita ser um ser superior e, por isso, dono de todos aqueles que tentam sobreviver no estado esclavagista que está a construir.

"O debate político frutuoso e a coesão social são condições decisivas para a superação da emergência nacional", acrescenta  o chefe do governo, para quem não basta ter os seus servos a aprender a viver sem comer, pelo que ainda entende que eles não têm direito de pensar… a não ser que seja pela cabeça do sumo pontífice do reino.

"Não bastam os votos na Assembleia da República dos deputados da maioria para superar a emergência nacional", sublinha Passos Coelho, defendendo ser "necessária a convergência de todas as forças políticas e sociais em Portugal".

Falando para um país que sabe ainda não estar suficientemente castrado e de barriga vazia, Passos Coelho continua a fazer gala da sua capacidade de impor a regra de ouro deste governo: quero, posso e mando. Quem não estiver bem, acrescenta, que abandone a “zona de conforto” e vá pensar para outros reinos.

Para Passos Coelho, todos (menos os seus lacaios) são culpados  até prova em contrário. Não tardará muito que vá dizer que ainda está para nascer um primeiro-ministro que tenha feito, pelos portugueses, tanto como ele.

E tendo em conta os seus objectivos e aspirações, até está a fazer obra. Por exemplo, conseguiu uma nova dieta alimentar para a maioria dos portugueses. Se os porcos propriamente ditos comem farelo e não morrem, os escravos portugueses também o podem fazer.

Há coisas que este governo quer ressuscitar que foram extintas há centenas de anos. Mas a verdade é que, perante a passividade de todos, Passos Coelho está a dar corpo a mais uma forma de escravatura.

Para além de serem obrigados a pensar com a barriga… vazia, os escravos (excluem-se desta categoria os políticos, directores, administradores, gestores, patrões e similares) até deveriam era trabalhar sem ganhar ou, até, pagar para trabalhar, sendo com certeza essa a melhor metodologia para vencer a crise.

Como bem sabem um milhão e duzentos mil desempregados, os 20% que ainda vivem (isto é como quem diz) na miséria e os outros 20% que a têm à porta, em todas as sociedades (é o caso de Portugal)  em que existem seres superiores e inferiores, em que os esclavagistas estão no poder, os escravos têm de pagar os manjares dos seus donos, seja pelas pensões vitalícias ou por outros emolumentos.

Aliás, por muito que seja o dinheiro envolvido na chulice, importa reconhecer que os políticos portugueses, os de ontem e os de hoje (a fazer fé nas fábricas partidárias, possivelmente também os de amanhã), são mesmo seres superiores que, como exímios azeiteiros, exploram os escravos até ao tutano. E exploram porque tal lhes é permitido. E sé é isso que a plebe quer, não há nada a fazer.

Aliás, basta ver a galeria de notáveis e superiores cidadãos lusos para ter a certeza de que todos eles, de Dias Loureiro a Oliveira e Costa ou Ângelo Correia, de Jorge Coelho a Armando Vara, passando por António Mexia, Faria de Oliveira e Eduardo Catroga,   merecem tudo o que recebem e ainda muito mais.

Se em Portugal a casta superior é constituída por todos aqueles que trabalham não para os milhões que têm pouco ou nada (os escravos), mas sim para os poucos que têm cada vez mais milhões, ninguém pode dizer que eles não são competentes e merecedores que os plebeus continuem a pagar para manter a sua mama.

sábado, junho 02, 2012

Um alucinogénio chamado MAC


Palavras para quê? O secretário de Estado da Solidariedade e da Segurança Social é um artista português. Está tudo dito.

Marco António Costa afirma que o Governo não faz "interpretações criativas" dos números do desemprego, vincando a "atitude de grande preocupação e respeito" do Executivo por quem está naquela situação.

Não sei se usa pasta medicinal Couto, mas que os dentes brilham, isso brilham. Mas para se ver o brilho a boca tem de estar aberta. E sempre que abre a boca, ou sai asneira ou entra mosca. Essa de o Governo ter “grande preocupação e respeito” com os desempregados permitiu a entrada de um moscão.

"Não fazemos interpretações criativas do fenómeno do desemprego, não desvalorizamos o fenómeno e assumimos sempre uma atitude de grande preocupação e respeito pelas pessoas que estão nessa situação", referiu mais exactamente o MAC, mostrando que se o valor dos desempregados se medisse pela credibilidade das análises destes políticos, Marco António Costa amesquinhava-os em toda a linha.

O que importa para a equipa que integra Marco António Costa é que os portugueses estão mesmo a aprender a viver sem comer. E para os ajudar nessa missão, o governo faz tudo o que pode. E o desemprego é, reconheço, uma boa estratégia para obrigar os mais relutantes a cumprir este supremo objectivo.

À margem da inauguração de uma creche em Barcelos, o secretário de Estado da Segurança Social sublinhou que "o desemprego tem preocupado permanentemente este Governo", acrescentando que "não há nenhuma declaração" do Executivo, durante o último ano, que "desvalorize" o fenómeno.

Tem razão. Quando Passos Coelho apela aos portugueses para que adoptem uma "cultura de risco" e considera que o desemprego não tem de ser encarado como negativo e pode ser "uma oportunidade para mudar de vida"… não está, obviamente, a desvalorizar o fenómeno. Pelo contrário.

MAC disse ainda que o Governo "não está parado nem de braços cruzados" perante o desemprego e recordou que já foi lançado o programa Estímulo 2012, "uma medida activa de emprego" que visa combater, já este ano, aquele "flagelo".

Não sei se do programa Estímulo 2012 existe alguma cláusula que diga aos desempregados, um milhão e duzentos mil, que não cruzem os braços e que lhes explique como aproveitar a sua situação como “uma oportunidade para mudar de vida”.  Se calhar não diz. Cá para mim, no âmbito da tal “cultura de risco”, bem que os portugueses poderiam optar por enfiar um balázio na mona destes políticos.

Com isso não só mudariam de vida (se fossem presos sempre teriam o que cá fora lhes falta: comida) como ajudariam os outros desempregados a livrar-se dos que em vez de ser uma solução para o problema são  um problema para a solução.

"Acompanho integralmente todas as declarações do ministro das Finanças e o trabalho, no seu todo, que o Governo está a fazer tem sempre no centro das suas preocupações o desemprego", rematou Marco António Costa, como se estivesse a falar nume reunião interna dos autómatos do seu partido.

MAC segue, aliás, tudo o que o seu sumo pontífice diz. Por isso, os portugueses devem ver, sentir e ampliar o exemplo de Passos Coelho que, como próprio diz,  não tem “aversão ao risco” (sobretudo depois de ter mentido descaradamente para ganhar as eleições) e aproveita “a oportunidade para mudar de vida”, mesmo sendo à custa da implantação da escravatura no seu reino.

"Estar desempregado não pode ser, para muita gente, como é ainda hoje em Portugal, um sinal negativo. Despedir-se ou ser despedido não tem de ser um estigma, tem de representar também uma oportunidade para mudar de vida, tem de representar uma livre escolha também, uma mobilidade da própria sociedade", diz Passos Coelho.

Creio, aliás, que o governo está mesmo a pensar dar um prémio chorudo (certamente depositado via Dias Loureiro num qualquer off-shore) aos empresários que maior contributo derem em matéria de despedimentos, sendo certo que a listagem desses empresários será feita por MAC.

"No curto prazo, no meio da crise em que estamos, claro que é preferível ter trabalho, mesmo precário, do que não ter, claro que é preferível trabalhar mais do que não trabalhar, vender mais barato do que não vender", mas "o modelo para o futuro tem de ser o de acrescentar valor", reforça o sumo pontífice do reino.

sexta-feira, junho 01, 2012

E o povo engasga-se com a fome!


O arcebispo de Braga (Portugal), Jorge Ortiga, confessou que quase se engasgou quando hoje tomava o pequeno-almoço e leu que o antigo presidente do BCP, Jardim Gonçalves, recebe uma reforma de cerca de 175 mil euros.

Acredito que o valor provoque uma tal reacção. Mas não é com Jardim Gonçalves que Jorge Ortiga se deve engasgar, a não ser que tenha contas pendentes com o BCP. Embora seja imoral, embora seja dinheiro que em parte também é pago pelos portugueses, é mias um problema dos accionistas do banco.

Jorge Ortiga deveria engasgar-se, isso sim, com os milionários salários dos gestores públicos, e outros similares, que se amamentam à custa dos 20% de portugueses que são pobres e de outros tantos cujo único objectivo de vida é, nesta altura, ter alguma coisa para pôr no prato, nem que seja apenas uma vez por dia.

Deveria engasgar-se com as malfeitorias dos portugueses de primeira do tipo Cavaco Silva, Joaquim Pina Moura, Jorge Coelho, Armando Vara, Manuel Dias Loureiro, Fernando Gomes, António Vitorino, Luís Parreirão, José Penedos, Luís Mira Amaral, António Castro Guerra, Joaquim Ferreira do Amaral, Filipe Baptista, Ascenso Simões, António Mexia, Faria de Oliveira ou Eduardo Catroga.

Deveria engasgar-se com o primeiro-ministro do seu país que   continua a sua luta, com visível êxito,  para colocar Portugal cada vez mais perto do norte… de África.

Em Portugal, para além dos milhões que legitimamente só se preocupam em encontrar alguma coisa para matar a fome, nem que seja nos restos deixados pelos cães dos donos do reino, uma minoria privilegiada só se preocupa em ter – com a preciosa ajuda do Governo - mais e mais, custe o que custar.

Como pessoa de bem que é, Jorge Ortiga ainda é dos poucos que se engasga com estas coisas. Há muito engasgado, continuo a recordar Frei João Domingos que afirma: "não nos podemos calar mesmo que nos custe a vida".

Adaptando de novo, e tantas vezes quantas forem preciso, Frei João Domingos, em Portugal "muitos governantes, gestores, administradores e similares têm grandes carros, numerosas amantes, muita riqueza roubada ao povo, são aparentemente reluzentes mas estão podres por dentro".

Mas esses, apesar de podres por dentro, continuam a viver à grande e à PSD, enquanto o Povo se prepara para morrer de fome ou de falta de assistência médica. O tempo em que o mais importante era resolver os problemas do povo,  já lá vai. Os políticos anteriores preparam o cemitério  e Passos Coelho deu-lhe o golpe de misericórdia.

Tal como muitos dos políticos que passaram pelo reino lusitano, Passos Coelho continua a pensar que Portugal é o seu PSD (que nada tem a ver com o de Francisco Sá Carneiro) e que o PSD é Portugal.

E como pensa assim, o que sobra dos abundantes regabofes dos gestores, administradores e similares pagos com o dinheiro dos portugueses, não vai para os escravos, mas sim para os rafeiros que gravitam sempre junto à manjedoura do poder.

E por que não vai para os pobres?, perguntam vocês, eu também, tal como os milhões de engasgados que todos os dias passam fome. Não vai porque, tanto nas teses de Passos Coelho como nas de Cavaco Silva, ou nas de António Mexia, não há pobres em Portugal.

Aliás, como é que poderia haver fome se (ainda) existe fartura de farelo? Se os porcos comem farelo e não morrem, também o Povo português pode comer. Ou não será assim. D. Jorge Ortiga?

Embora seja um exercício suicida, importa aos (ainda) vivos não se calarem, continuando a denunciar as injustiças, para que Portugal possa novamente abolir o esclavagismo e, dessa forma, ser um dia um país diferente, eventualmente uma nação e quiçá até uma pátria.

O Povo sofre e passa fome. Os países valem, deveriam valer,  pelas pessoas e não pelos mercados, pelas finanças, pela corrupção, pelo compadrio, pelas negociatas.

É por tudo isto que a luta continua. Tem de continuar. Até porque, mais cedo ou mais tarde, a Primavera também vai iluminar (mesmo contra a vontade de António Mexia e da sua EDP) as ruas de Lisboa e chegar ao resto do país.

Enquanto os escravos não se revoltarem, os donos do país e os donos dos donos (do tipo António Mexia)  vão continuar a vestir Hugo Boss ou Ermenegildo Zegna e comprar relógios de ouro Patek Phillipe e Rolex.

E enquanto os escravos se engasgam com a fome, os políticos e os mexiânicos peritos do reino vão continuar a ter à mesa trufas pretas, caranguejos gigantes, cordeiro assado com cogumelos, bolbos de lírio de Inverno, supremos de galinha com espuma de raiz de beterraba e queijos acompanhados de mel e amêndoas caramelizadas, e várias garrafas de Château-Grillet 2005.

Passos Coelho, tal como António Mexia, sabe que os portugueses são – citando Guerra Junqueiro – “um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas”.

Passos Coelho, tal como António Mexia, sabe que os portugueses são – citando Guerra Junqueiro – “um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta”.

Passos Coelho, tal como António Mexia, sabe que em Portugal existe – citando Guerra Junqueiro – “uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos”.

Passos Coelho, tal como António Mexia, sabe que em Portugal existe – citando Guerra Junqueiro – “um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País”.

Entretanto, alguns portugueses (não tantos quanto o necessário) sabem que – citando Guerra Junqueiro – Portugal tem “partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar”.

Unidos contra os golpes de Estado!


O Presidente de Angola, há 33 anos no poder sem nunca ter sido eleito, José Eduardo dos Santos, defendeu hoje em Luanda que "não pode ser tolerado o ressurgimento dos golpes de estado em África".

Tem toda a razão. Aliás, a democraticidade do seu regime e a legitimidade do seu mandato são prova disso. Como bem estabelecem os donos do mundo, há ditadores bons e maus. Daí que só os maus devam ser derrubados. Não é, obviamente, o caso de Angola.

José Eduardo dos Santos discursava na abertura da cimeira extraordinária de Chefes de Estado e de Governo da SADC, que hoje decorre em Luanda para análise da situação política da região e da integração económica regional.

De acordo como Presidente angolano, o continente necessita de exemplos concretos que confirmem que África pretende "virar firmemente uma página do passado de uma história em comum", marcado pela existência de "governos autoritários ou autocráticos, para dar lugar a sociedades e instituições democráticas".

Ver Eduardo dos Santos fazer um discurso já eleitoralista, certamente burilado pelos especialistas brasileiros, em que faz a apologia da democracia e condena os governos autoritários, é digno de registo no anedotário mundial.

Em 9 de Maio de 2008 já o chefe de Estado angolano e presidente do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), lançava um desafio para combater a corrupção e o tráfico de influências, que "atentam contra os interesses nacionais".

Afinal, estando Eduardo dos Santos na Presidência da República há uma porrada de anos, estando Eduardo dos Santos há uma porrada de anos a chefiar o MPLA, estando o MPLA há uma porrada de anos no Governo, o que terão andado a fazer desde 11 de Novembro de 1975?

Nesse dia, ao discursar na abertura da III Conferência Nacional do MPLA, em Luanda, o presidente do partido disse ainda que tinha de ser garantida a liberdade de imprensa e de expressão e um bom funcionamento do sistema de justiça, que são "condições essenciais para o aprofundamento da democracia".

Afinal, estando Eduardo dos Santos na Presidência da República há uma porrada de anos, estando Eduardo dos Santos há uma porrada de anos a chefiar o MPLA, estando o MPLA há uma porrada de anos no Governo, o que terão andado a fazer desde 11 de Novembro de 1975?

O chefe de Estado angolano sublinhou que os desafios que lançou na abertura da conferência "não são promessas demagógicas porque são fundamentadas por um estudo elaborado por técnicos competentes sobre a realidade nacional, que teve em conta as necessidades do povo e os recursos da nação".

Afinal, estando Eduardo dos Santos na Presidência da República há uma porrada de anos, estando Eduardo dos Santos há uma porrada de anos a chefiar o MPLA, estando o MPLA há uma porrada de anos no Governo, o que terão andado a fazer desde 11 de Novembro de 1975?

Com um programa ambicioso de construção de um milhão de habitações, das quais 500 mil nas áreas rurais, o Presidente afirmou que a questão das habitações em Angola merece "insatisfação geral" e a "aposta vai para a construção de habitação social e para o alojamento de pessoas de média renda".

Afinal, estando Eduardo dos Santos na Presidência da República há uma porrada de anos, estando Eduardo dos Santos há uma porrada de anos a chefiar o MPLA, estando o MPLA há uma porrada de anos no Governo, o que terão andado a fazer desde 11 de Novembro de 1975?

A Educação era também uma prioridade, tendo o chefe de Estado apontado para a criação de uma unidade de ensino superior ou médio em cada uma das 18 províncias angolanas. Outras das prioridades estabelecidas por José Eduardo dos Santos foi a Saúde, nomeadamente no que diz respeito às mulheres grávidas e às crianças com menos de cinco anos.

Afinal, estando Eduardo dos Santos na Presidência da República há uma porrada de anos, estando Eduardo dos Santos há uma porrada de anos a chefiar o MPLA, estando o MPLA há uma porrada de anos no Governo, o que terão andado a fazer desde 11 de Novembro de 1975?

Sinceramente não percebo porque é que os angolanos gostam de atazanar a vida do mais democrático país do mundo e, igualmente, do mais democrático presidente.

É claro que, perante tão injusto e irreal motivo, o presidente fica chateado e manda prender uns tantos e dar porrada em mais alguns. Estavam à espera de quê?

Há quem diga que no reino de Eduardo dos Santos há 70% de pobres. Alguém acredita nisso?

Segundo José Eduardo dos Santos, quando ele nasceu já havia muita pobreza na periferia das cidades, nos musseques, e no campo, nas áreas rurais. Citou, aliás, os poetas Agostinho Neto e António Jacinto que, nos seus versos, denunciavam a miséria extrema, e a exploração do contratado, cujo pagamento era fuba e peixe seco e porrada quando se refilava.

Eduardo dos Santos denuncia também, pudera!, os oportunistas que pretendem promover a confusão no país para provocar a subversão da ordem democrática estabelecida na Constituição da República, e derrubar governos eleitos, a favor de interesses estrangeiros.

“Hoje há uma certa confusão em África e alguns querem trazer essa confusão para Angola”, declarou o dono do país, adiantando que “devemos estar atentos e desmascarar os oportunistas, os intriguistas e os demagogos que querem enganar aqueles que não têm o conhecimento da verdade".

Como diria o seu amigo e ex-primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates, corroborado pelo seu sucessor (Passos Coelho) ainda está para nascer um presidente do MPLA, de Angola e chefe do Governo, que tenha feito melhor do que José Eduardo dos Santos.

José Eduardo dos Santos adiantou que nas chamadas redes sociais, que são organizadas via Internet e nalguns outros meios de comunicação social, fala-se de revolução, mas não se fala de alternância democrática.

Como dono da verdade, José Eduardo dos Santos esquece-se que para haver alternância democrática é preciso que antes exista  democracia. Mas isso até não é importante... sobretudo para quem está no poder há tanto tempo.

Diz ele, do alto da sua sábia cátedra, que pôr os vivos (e até os mortos) a votar – mesmo que de barriga vazia – é democracia.

“Para essa gente, revolução quer dizer juntar pessoas e fazer manifestações, mesmo as não autorizadas, para insultar, denegrir, provocar distúrbios e confusão, com o propósito de obrigar a polícia a agir e poderem dizer que não há liberdade de expressão e não há respeito pelos direitos” referiu o único presidente dos países lusófonos que nunca foi eleito.

José Eduardo dos Santos considera que os seus opositores têm medo das próximas eleições pois sabem que a maioria dos eleitores não vai votar a favor deles.

Nisso tem razão. Um povo com fome vota certamente em quem lhe der um saco de fuba. Além disso, como nas anteriores eleições, nada de anormal irá acontecer se em alguns círculos votarem no MPLA mais de 100% dos eleitores inscritos...

José Eduardo dos Santos diz que os opositores querem apenas colocar fantoches no poder, que obedeçam à vontade de potências estrangeiras que querem voltar a pilhar as riquezas e fazer o povo voltar à miséria de que se está a libertar com sacrifício. É mais ou menos, digo eu, o que ele também está a fazer em Cabinda.

Tem razão. Embora o MPLA pilhe as riquezas e o povo desde 1975, sempre tem a seu favor o facto de impor que os estrangeiros só pilhem se for em parceria com o clã Eduardo dos Santos.

O dono de Angola lamenta o facto de ninguém se lembrar de dizer que a pobreza não é recente e que é uma pesada herança do colonialismo e uma das causas que levou o MPLA a conduzir a luta pela liberdade, para criar o ambiente político necessário para resolver esse grave problema.

Pois é. Embora tenha comprado o país em 1975, o MPLA continua a responsabilizar o colonialismo e até, talvez, não fosse despiciendo falar também da responsabilidade de D. Afonso Henriques.

Utilizando uma calculadora certamente “made in Coreia do Norte”, Eduardo dos Santos diz que os índices de pobreza, que estavam em cerca de 70 por cento, baixaram para cerca de 30 por cento.

Mais uma vez o dono do país, modesto como é, peca por defeito. É que se fizer o cálculo ao seu clã e aos vassalos que o rodeiam, o índice de pobre é 0 (zero).

Segundo Eduardo dos Santos, no quadro do Programa de Luta contra a Pobreza, se continuar com esse ritmo de redução, a pobreza deixará de existir dentro de alguns anos.

Tem, mais uma vez, razão. Aliás, se o regime angolano excluir dos cálculos da pobreza todos os que são... pobres, pode já anunciar o fim da pobreza.

José Eduardo dos Santos afirmou também que apesar de não existir país nenhum no mundo sem corrupção, o Governo está a fazer esforços para combater este mal.

Aí está a prova de que o MPLA deve mudar o regime legal. É que se a lei não considerar a corrupção como um crime, o país deixa de ser o local do mundo com mais corruptos por metro quadrado.

"Sim" às crianças de Kiev, "não" às de Bissau!


A Nigéria, o Níger, o Mali e a Guiné-Bissau lideram a lista dos países com a taxa mais elevada de mortalidade infantil no mundo.

Talvez (santa e repetida ingenuidade a minha) com estes dados a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), dirigida pelo único presidente de um país lusófono não eleito e há 33 anos no poder – José Eduardo dos Santos - perceba a porcaria que andam a fazer em muitos países lusófonos.

Com 168,7 mortes por cada mil nascimentos, a Nigéria ocupa o primeiro lugar da lista, seguido do Níger e do Mali, ambos com uma média de 161 mortes.

Já na Guiné-Bissau, em cada mil crianças que nascem morrem 158,6 crianças antes de atingir os cinco anos, referem os dados do estudo divulgados pela revista norte-americana The Lancet, e que foram compilados pela Universidade de Washington.

Mas há mais, muito mais dados que – para além de envergonharem as autoridades guineenses – revelam a hipocrisia que reina nos areópagos das principais capitais da CPLP, a começar por Lisboa, sem esquecer Luanda.

Dois em cada três guineenses vivem na pobreza absoluta, a Guiné-Bissau continua a ocupar uma posição de desenvolvimento muito precária no concerto das Nações, com uma evolução relativamente baixa da economia e um crescimento do Produto Interno Bruto fraco.

Estas situações, aliadas à instabilidade política e institucional, não têm ajudado ao processo de melhoria sustentada das condições de vida das populações guineenses.

A progressão (se é que tal se pode chamar) na educação, em que persiste a desigualdade entre os sexos, com primazia aos rapazes, a morte durante o trabalho de parto por falta de cuidados básicos e a propagação de doenças como o HIV/SIDA, a tuberculose e a malária são, infelizmente, emblemas do país.

O aprovisionamento de água potável é fraco, os níveis de saneamento básico e de habitação "decente" são dos piores do mundo.

A esperança de vida à nascença para um guineense é de "apenas" de 45 anos, atendendo à fragilidade humana, sobretudo por causa da fraca cobertura dos serviços sociais.

Apesar disso, os líderes guineenses (já para não falar dos cavacos da praça) vão continuar a saborear várias refeições por dia, esquecendo que na mesma rua há gente que foi gerada com fome, nasceu com fome e morre com fome.

Tal como acontece, por exemplo, em Angola e mais recentemente em Portugal, também em Bissau se pensa que é possível enganar toda a gente durante todo o tempo. Mas não é. E, mesmo que famintos, ainda sobra força aos guineenses para um dia destes voltarem a fazer o que já começa a ser um hábito: puxar o gatilho.

Quando leio notícias deste tipo fico virado do avesso. Tal como entendo que os franceses devem dar prioridade aos países francófonos, imaginava que os portugueses – por exemplo - deveriam fazer o mesmo em relação aos lusófonos.

Mas ainda bem que, mesmo que isso signifique (como significa) um monstruoso e dilacerante murro no estômago, há gente que por gostar tanto de mim me explica que os meus ideais são uma utopia.

É isso que me acontece todos os dias. Poucos me compreendem quando os meus olhos abalroam as lágrimas ao ver as crianças famintas e doentes da minha terra. Poucos entendem o que digo quando afirmo que enquanto houver uma criança lusófona com fome a luta tem de continuar.

Explicaram-me os europeus donos da verdade que são poucos os portugueses a quem a real África lusófona diz alguma coisa.

- E são poucos porquê?

Olhando-me como que a dizer: acorda!, explicaram-me que a juventude portuguesa o que sabe da África lusófona é o que mais ou menos vai aprendendo nas escolas, algumas construídas ou recuperadas pela Parque Escolar e iluminadas com candeeiros de Siza Vieira, o que em síntese é quase nada, ou mesmo nada.

E se é isso que aprendem, se não lhes ensinam o que é a real Lusofonia, para eles é mais importante uma criança que passa fome em Kiev do que uma outra que sofre o mesmo em Luanda, é mais importante o que se passa em Bruxelas do que o que se passa na Cidade da Praia, é mais importante o que se passa em Rabat do que o que se passa em Bissau.

E se calhar até têm razão. Portugal (pai da suposta Lusofonia) adoptou oficialmente a tese de que a Europa é que tem futuro. E quem sou eu para justificar que o presente pode ser a Europa, mas que o futuro, esse passa pela África lusófona? Sim quem sou eu?

Se, de facto, a dita CPLP é uma treta, e a Lusofonia é uma miragem de meias dúzia de sonhadores, o melhor é mesmo encerrar para sempre a ideia de que a língua (entre outras coisas) nos pode ajudar a ter uma pátria comum espalhada pelos cantos do mundo.

E quando se tiver coragem (para mim será cobardia, mas quem sou eu?) para oficializar o fim do que se pensou poder ser uma comunidade lusófona, então já não custará tanto ajudar os filhos do vizinho com aquilo que deveríamos dar aos nossos próprios filhos.

É claro que essa coisa de que quem não vive para servir não serve para viver não se aplica à Guiné-Bissau. Nem a Portugal, acrescente-se.

"A mentira e o roubo institucionalizados"


"Não me parece que os militares se queiram meter nisto. Não estão com a força anímica que tinham antigamente, aquela alma que reagia quando a pátria está em perigo".

O ministro da Defesa de Portugal considera  que as Forças Armadas não são sustentáveis "tal como estão", defendendo mais gastos no "produto operacional" e cortes no pessoal militar.

"Não é possível continuarmos a achar que temos de ter capacidade operacional e continuarmos a gastar o que gastamos no pessoal e a cortar no equipamento, que é fundamental para termos capacidade de intervenção", diz Aguiar Branco.

Além da redução de 10% no efectivo militar imposto pela troika, o ministro referiu que ainda é possível fazer mais ajustamentos nas Forças Armadas.

Aguiar Branco defendeu ainda que a dimensão da defesa nacional é "importante e deve ser olhada pelos portugueses com carácter prioritário", criticando a arrogância "geracional dos que pensam que o bem-estar, a paz e a segurança não estão em causa e são dados adquiridos".

E por falar em arrogância, paz e segurança… permitam-me que fale, que volte a falar, que continue a falar de Pires Veloso.

O general Pires Veloso foi um dos protagonistas do 25 de Novembro  de 1975,  ficou conhecido como "vice-rei do Norte". Hoje defende um novo 25 de Abril, de raiz popular, para acabar com "a mentira e o roubo institucionalizados".

"Vejo a situação actual com muita apreensão e muita tristeza. Porque sinto que temos uma mentira institucionalizada no país. Não há verdade. Fale-se verdade e o país será diferente. Isto é gravíssimo", disse no passado dia 23 de Abril o general em entrevista à Lusa.

Para Pires Veloso, que enquanto governador militar do Norte foi um dos principais intervenientes no contra-golpe militar de 25 de Novembro que pôs fim ao "Verão Quente" de 1975, "dá a impressão de que seria preciso outro 25 de Abril em todos os termos, para corrigir e repor a verdade no sistema e na sociedade".

Pires Veloso, agora com 85 anos, puxa dos galões de oficial com provas dadas e considera que não poderão ser as forças militares a promover um novo 25 de Abril. Porquê? "Não me parece que se queiram meter nisto. Não estão com a força anímica que tinham antigamente, aquela alma que reagia quando a pátria está em perigo".

"Para mim, o povo é que tem a força toda. Agora é uma questão de congregação, de coordenação, e pode ser que alguém surja" a liderar o processo.

E agora que "o povo já não aguenta mais e não tem mais paciência, é capaz de entrar numa espiral de violência nas ruas, que é de acautelar", alertou, esperando que caso isso aconteça não seja com uma revolução, mas sim com "uma imposição moral que leve os políticos a terem juízo".

Pires Veloso defende uma cultura de valores e de ética. "Há uma inversão que não compreendo desses valores e dessa ética. Não aceito a actuação de dirigentes como, por exemplo, o Presidente da República, que já há pelo menos dois anos, como economista, tinha obrigação de saber em que estado estava o país, as finanças e a economia. Tinha obrigação moral e não só de dizer ao país em que estado estavam as coisas", defendeu o general com a coragem que se lhe reconhece.

Pires Veloso lamentou a existência de "um gangue que tomou conta do país. Tire-se o gangue, tendo-se juízo, pensando no que pode acontecer. E ponha-se os mais ricos a contribuir para acabar a crise. Porque neste momento não se vai aos mais poderosos".

O general deu como exemplo o salário do administrador executivo da Electricidade de Portugal (EDP) para sublinhar que "este Governo deve atender a privilégios que determinadas classes têm".

"Não compreendo como António Mexia recebe 600 mil euros e há gente na miséria sem ter que dar de comer aos filhos. Bem pode vir Eduardo Catroga dizer que é legal e que os accionistas é que querem, mas isto não pode ser assim. Há um encobrimento de situação de favores aos mais poderosos que é intolerável. E se o povo percebe isso reage de certeza", disse.

Para Pires Veloso, "se as leis permitem um caso como o Mexia, então é preciso outro 25 de Abril para mudar as leis", considerando que isto contribui para "a tal mentira institucionalizada que não deixa que as coisas tenham a pureza que deviam ter".

Casos como este, que envolvem salários que "são um insulto a um povo inteiro, que tem os filhos com fome", fazem, na opinião do militar, com que em termos sociais a situação seja hoje pior, mesmo, do que antes do 25 de Abril: "Na altura havia um certo pudor nos gastos e agora não: gaste-se à vontade que o dinheiro há de vir".

Quanto ao povo, "assiste passivamente à mentira e ao roubo, por enquanto. Mas se as coisas atingirem um limite que não tolere, é o cabo dos trabalhos e não há quem o sustenha. Porque os cidadãos aguentam, têm paciência, mas quando é demais, cuidado com eles".

"Quando se deu o 25 de Abril de 1974, disseram que havia de haver justiça social, mais igualdade e melhor repartição de bens. Estamos a ver uma inversão do que o 25 de Abril exigia", considerou Pires Veloso, para quem "o primeiro-ministro tem de arrepiar caminho rapidamente".

Passos Coelho "tem de fazer ver que tem de haver justiça, melhor repartição de riqueza e que os poderosos é que têm que entrar com sacrifícios nesta crise", defendeu, apontando a necessidade de rever rapidamente as parcerias público-privadas.

"Julgo que Passos Coelho quer a verdade e é esforçado, mas está num sistema do qual está prisioneiro. O Governo mexe nos mais fracos, vai buscar dinheiro onde não há. E, no entanto, na parte rica e nos poderosos ainda não mexeu. Falta-lhes mais tempo? Não sei. Sei é que tem de mudar as coisas", disse Pires Veloso.

Soberana oportunidade para quem tem fome


Na prisão há o que falta cá fora. Comida e cama. Se calhar mais vale do que ser livre e andar com a barriga vazia e dormir debaixo da ponte.

O alto representante do secretário-geral das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações, Jorge Sampaio, considera que o “medo, desconfiança e ressentimentos” provocados pela crise são uma “mistura explosiva” que é preciso resolver.

O também (entre outras coisas) ex-presidente da República de Portugal não está a ver bem a coisa. Não está, pelo menos, a ver com os mesmos óculos do governo de Pedro Passos Coelho.

Os portugueses não têm, aliás, razões para ter “medo, desconfiança e ressentimentos”. Ainda hoje foi revelado pelo Eurostat que Portugal continua a registar uma subida da taxa de desemprego, que em Abril se fixou nos 15,2%, uma décima acima do mês anterior, tendo o desemprego jovem aumentado para os 36,3%...

“Costumo dizer que esta crise não é só uma questão de números, de orçamento e de financiamentos. No centro da crise estão pessoas – pessoas que temem pelos seus empregos, que receiam pelo seu futuro; no centro da crise estão cidadãos que começam a ficar dominados pelo medo, pela desconfiança e pelo ressentimento, uma mistura explosiva a que há que saber dar resposta”, disse à Lusa Jorge Sampaio.

Se calhar devido ao facto de andar em missões da ONU, Jorge Sampaio está longe, muito longe, da realidade portuguesa. É pena. Se assim não fosse saberia, pelo menos, que para os donos do poder em Portugal as pessoas são o que menos conta. E se contassem seria um problema de resolução natural. Como estão, por ordem do governo, a aprender a viver sem comer… vão mais dia menos dia morrer.

Voltemos à “cultura de risco” e à grande oportunidade que, segundo Passos Coelho, são sinónimos de desemprego. A taxa de entre os jovens com menos de 25 anos subiu, entre Março e Abril, sete décimas, dos 35,9 para os 36,6%, sendo este novo valor mais de oito pontos percentuais superior àquele que se observava um ano antes (28,5), o maior aumento na União Europeia.

Conclui-se que, nesta vertente, a “cultura de risco” continua pujante, dando razão ao sumo pontífice do reino lusitano.

Em termos gerais, o desemprego continua a sua trajetória ascendente em Portugal (era de 13,6% em Outubro de 2011, 14,1 em Novembro, 14,6 em Dezembro, 14,7 em Janeiro deste ano, 14,8 em Fevereiro e 15,1 em Março) e a taxa é actualmente apenas inferior às de Espanha (24,3%) e Grécia (21,7 em Fevereiro), estando – o que será certamente um motivo de satisfação - a par da Letónia (dados do primeiro trimestre de 2012).

Na zona euro, manteve-se nos 11% em Abril, estável relativamente ao mês anterior, e no conjunto da União Europeia subiu de 10,2 para 10,3%.

Nas suas "previsões da Primavera", divulgadas em Maio, a Comissão Europeia estimou que a taxa de desemprego em Portugal se fixe nos 15,5% este ano, diminuindo apenas para 15,1% em 2013.

Quanto ao desemprego jovem, Portugal regista também o terceiro valor mais elevado, apenas superado por Espanha (51,5%) e pela Eslováquia (39,3%).

Comparando com os dados de há um ano, de Abril de 2011, a taxa de desemprego em Portugal subiu 2,6 pontos (12,6 para 15,2), e entre os jovens mais de oito pontos percentuais (28,5 para 36,6), a maior subida na comparação anual entre todos os Estados-membros sobre os quais há dados disponíveis.

Passos Coelho e a sua comandita devem estar satisfeitos. Estão, de facto, cada vez mais perto do seu mais sublime objectivo de vida: instalar no reino um regime esclavagista.

Como disse o primeiro-ministro, é preciso valorizar a "cultura de risco", tanto mais que o desemprego não tem de ser encarado como negativo e pode ser "uma oportunidade para mudar de vida".

Então escravos do reino? O milhão e duzentos mil desempregados apenas têm que seguir os conselhos do sumo pontífice do governo, apostando na “cultura do risco” e percebendo que têm uma soberana "oportunidade para mudar de vida".

Soberana oportunidade que pode contrariar as teses de Jorge Sampaio. É que se forem presos por, isto é um mero exemplo académico, enfiarem um balázio na mona dos responsáveis terão direito ao que hoje não têm: comida e cama. Será na prisão… mas mais vale preso com a barriga cheia do que livre com ela vazia.