sábado, março 31, 2007

Sim sr. primeiro-ministro ou sim sr. engenheiro?

O primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates, completou a sua licenciatura em Engenharia Civil na Universidade Independente (UnI) num domingo de Setembro de 1996, dia em que foi assinado o diploma de final de curso, noticia hoje o semanário Expresso. Se o gato vai às filhós (e vai mesmo), não é pela data.

Na manchete da edição de hoje, o semanário cita "documentos sobre o processo do aluno José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa", que concluiu em 1996 na UnI a sua licenciatura, iniciada anos antes no Instituto Politécnico de Coimbra e prosseguida no Instituto Superior de Engenharia de Lisboa.

Na Independente, Sócrates realizou cinco cadeiras: Análise de Estruturas; Betão Armado e Pré-Esforçado; Estruturas Especiais; Projecto e Dissertação, leccionadas por António José Morais, e Inglês Técnico, dada pelo ex-reitor da universidade, Luiz Arouca.

Em declarações ao Expresso, António José Morais afirmou que o facto de o diploma ter sido assinado a um domingo "não é estranho", alegando que "nas universidades privadas, muitas vezes trabalha-se ao domingo". E o facto de ter data de domingo não quer, obrigatoriamente, dizer que tenha sido assinado nesse dia.

Se o gato vai às filhós (e vai mesmo), não é pela data.

O professor António José Morais confirma ter dado quatro das cinco cadeiras ao primeiro-ministro, mas Luiz Arouca afirmou ao Expresso nunca ter dado qualquer aula nem feito qualquer avaliação a Sócrates. Aqui já o bichano está nas filhós.

Também Frederico Oliveira Pinto, que, segundo o Expresso, diz ter sido o primeiro presidente do conselho científico da UnI e, na altura, professor de todas as cadeiras de Cálculo das licenciaturas de Engenharia, afirmou ao semanário nunca ter visto José Sócrates naquela instituição, "a não ser muitos anos mais tarde, durante uma oração de sapiência, em que estava na assistência". Aqui já o bichano está nas filhós.

No entanto, Carlos Gomes Pereira e Alberto Santos garantiram ao jornal ter sido colegas de curso de Sócrates em 1996, assegurando que tiveram aulas e fizeram exames com o actual primeiro-ministro.

Segundo o Expresso, José Sócrates, o seu gabinete e o ministério do Ensino Superior escusaram-se a comentar a notícia. Aqui já o bichano está nas filhós.

Frederico Oliveira Pinto adianta, citado pelo jornal, que o processo de licenciatura do primeiro-ministro decorreu sem o seu conhecimento, uma vez que o plano de equivalências e de estudos de Sócrates "não foi submetido a apreciação de qualquer órgão académico". Aqui já o bichano está nas filhós.

De acordo com a fonte, o conselho científico da universidade apenas foi criado em meados de 1997, após o primeiro-ministro ter concluído o curso na UnI.

O diploma de final de curso na UnI foi, segundo o semanário, assinado a 8 de Setembro de 1996, um domingo, pelo então reitor Luiz Arouca e a sua filha, chefe dos serviços administrativos da universidade.

As notas de quatro exames finais que terão permitido completar a licenciatura de Sócrates - duas provas escritas e duas provas orais - foram lançadas, de acordo com o jornal, no mesmo dia, em Agosto.

O Expresso salienta que, nos documentos que consultou, apresentados pela UnI como prova da licenciatura de Sócrates, o nome do aluno aparece manuscrito sem quaisquer referências adicionais, apenas com uma rubrica dos professores das cadeiras.

Por sua vez, o plano de equivalências resume-se a duas folhas manuscritas e com a menção quase ilegível de algumas disciplinas, sem data nem assinatura. Aqui já o bichano está nas filhós.

O livro de termos, onde constam os dados académicos dos alunos, e o livro de sumários, horários e lista de professores, estudantes e disciplinas do curso de Engenharia Civil alegadamente não existem, de acordo com o Expresso. Aqui já o bichano está nas filhós.

Apenas um texto em inglês dactilografado e corrigido a vermelho foi apresentado como prova escrita da disciplina de Inglês Técnico, embora sem estar redigido numa folha de teste com o carimbo da UnI. Aqui já o bichano está nas filhós.

Mas não sejamos maus. Se José Sócrates é um mau primeiro-ministro (e para mim é) não é por ser, ou não, licenciado. É mau primeiro-ministro porque (não sei se na UnI) comprou o diploma de dono da verdade.

sexta-feira, março 30, 2007

Prémio Nacional de Jornalismo em Angola

Segundo a Angop, jornalistas de diferentes órgãos de Comunicação Social consideraram, em Luanda, pertinente a institucionalização pelo Governo, do Prémio Nacional de Jornalismo por simbolizar uma valorização do trabalho e dignificação da classe.

Num comentário ao texto, inserido no AngoNotícias, alguém dizia: “Não sei se isso tem sentido numa Angola onde matam jornalistas porque dizem a verdade”, perguntado “(…) Mas quando é que um jornalista merece prémio? Quando está a favor do governo, do partido, ou quando diz a verdade?”

De acordo com a directora-geral adjunta para a Informação da Angop, Luísa Damião, o prémio é um incentivo para todos os jornalistas, pois estes verão os seus trabalhos reconhecidos, primando por maior rigor e responsabilidade no exercício das suas funções. Dada a evolução do jornalismo angolano nos últimos tempos, já se fazia necessário a sua criação", frisou a directora, acrescentando que vai obrigar a classe a enveredar por um jornalismo sério, atractivo, responsável e de qualidade.

Por seu turno, para o sub-director de Informação do "Jornal de Angola", Caetano Júnior, a abrangência do prémio vem preencher uma lacuna, permitindo a avaliação de várias áreas que abarcam a comunicação social em igualdade de circunstâncias.

Luísa Rogério, a secretária-geral do Sindicato de Jornalistas Angolanos, é de opinião que a distinção servirá de estímulo à prestação dos quadros do sector, embora reconheça que estes não trabalham para prémios.

Na opinião do jornalista Ismael Mateus, o galardão é também uma questão de justiça entre os profissionais, uma vez que os já existentes (Maboque) não permitiam a participação de todas as categorias em igualdade de circunstâncias.

Outro aspecto positivo citado por Ismael Mateus é o facto de avaliar os trabalhos de estudiosos da comunicação social, incentivando a investigação neste domínio.

Por ser atribuído pelo órgão de tutela, o sub-director de Informação da Rádio Nacional de Angola (RNA), Adalberto Lourenço, considera que este é mais inclusivo e se reveste de maior significado, promovendo o mérito e a criatividade.

Os profissionais afirmaram porém que a melhoria da qualidade passa pela formação contínua dos quadros, credibilidade e, sobretudo, a competência posta ao serviço do interesse público.

Aprovado pelo Conselho de Ministros, a 28 de Março deste ano, o Prémio Nacional de Jornalismo visa incentivar a criatividade, valorizar a competência, mérito e profissionalismo dos jornalistas angolanos.

Aberto a todos os profissionais angolanos no país e no estrangeiro, estes a título colectivo ou individual, e ainda estudiosos da comunicação social, cujos trabalhos devem ser publicados em Angola, o prémio vai ser atribuído anualmente no mês de Maio, a partir de 2008, por ocasião do Dia da Liberdade de Imprensa.

Num comentário ao texto, inserido no AngoNotícias, alguém dizia: “Não sei se isso tem sentido numa Angola onde matam jornalistas porque dizem a verdade”, perguntado “(…) Mas quando é que um jornalista merece prémio? Quando está a favor do governo, do partido, ou quando diz a verdade?”

Também não aparo idiotices!!

(Nestas alturas já não se importam que hajam imigrantes…)

Antes que me voltem a questionar ou a pedir a minha opinião, informo que não aparo idiotices, nem profiro comentários sobre quem quer, unicamente, publicidade barata e desenvolvida como eles próprios já o terão confessado.

Se não falassem e publicitassem tanto, não talvez não houvessem Le Pen’s e imitações semelhantes por alguns países, nem haveriam problemas como os que se verificam, ultimamente e em pré-eleições – já não é novo –, em terras francesas!…

E não aproveitem para me virem dizer que é um efeito “Salazar”!

Subscrevo este texto publicado por Eugénio Costa Almeida em

quinta-feira, março 29, 2007

- Ó meu senhor, vá foder outro!

A história ouvi-a um destes dias, contada por um dos seus protagonistas, e vale pelo que em si mesma encerra de alegoria, o que entendo como a alegoria do tamanho do mundo

No arranque da década de 1970, um jornal destacou uma equipa de reportagem para a zona da Ribeira do Porto. Objectivo: levar a bom termo uma reportagem sobre os sonhos que alimentavam os jovens daquela zona da Invicta. É preciso acrescentar que se estava no início de mais um ano lectivo, o 25 de Abril de 1974 ainda não tinha acontecido e o jovem repórter, de Roland Barthes debaixo do braço, entusiasmava-se com a tese de que era possível fazer literatura através do jornalismo, intervir no Mundo, fazer da sociedade, através da profissão, algo melhor e mais justo para todos.

Sempre a descer até ao Douro, “ caneta” e “bate-chapas” lá foram. Uma das primeiras visões que tiveram – e que encaixava na perfeição nas teses de Barthes – entrou-lhes pelos olhos dentro mal lá chegaram. No paredão de granito junto ao mercado, um miúdo – que, a época, ainda não tinha lugar na escola –, de cócoras, agitava com um pau algo que lhe captara a atenção numa pequena poça de água. O repórter-fotográfico já estava a imaginar a foto impressa a preto e branco, o jovem acocorado, cabisbaixo, enquadrado no cenário do rio indiferente com uma vista parcial do tabuleiro inferior da ponte Luiz I no canto esquerdo. A máquina disparou por diversas vezes e o repórter fez-se ao motivo da reportagem, o miúdo. Sempre de olhos no chão, a mexer e a remexer na poça de água, o miúdo não mudou de posição. De cócoras e concentrado no pau e no que lhe atraía a atenção, fosse lá o que fosse.

O repórter avançou determinado. Mentalmente também já imaginava uma prosa de ligeiras tintas neo-realistas, Barthes a pular nas meninges, e, porque não?, gritar na “azert” a revolta que lhe ia na alma contra as injustiças sociais que o Portugal ainda sem democracia gerava e alimentava. E, sem delongas, disparou: “Olha lá, quando fores grande o que é que queres ser?

”Sempre de olhos no chão, o miúdo não mudou de posição, manteve-se de cócoras e concentrado no pau e no que lhe atraía a atenção. O seu mundo tinha a distância que separava os olhos da poça de água em que remexia. E seguro de si, fulminou:

– Ó meu senhor, vá foder outro!

Texto publicado em http://www.viagempelasruasdaamargura.blogspot.com

Eduardo dos Santos, Mugabe & Kadhafi

O Governo de José Eduardo dos Santos não está, como nunca esteve, com meias palavras. E se agora resolveu dar uma ajudinha ao “democrata” que gere Zimbabué, o mesmo tinha sido feito em 2001, embora de uma outra forma. Ou seja, nesse ano, Angola aceitou acolher, segundo o então governador do Banco Central angolano, os fazendeiros que decidam abandonar o Zimbabué devido à política de terras do presidente Robert Mugabe. Mudam-se os tempos…

Aguinaldo Jaime garantiu na altura que aqueles fazendeiros poderão comprar ou alugar terras em Angola por períodos longos e terão assegurado o respectivo título de propriedade.

Pelos vistos, Aguinaldo Jaime era dono e senhor de Angola, razão pela qual podia decidir o que bem lhe apetecesse, mesmo que isso seja feito à revelia dos angolanos.

Segundo Aguinaldo Jaime, o executivo de Luanda lançou uma nova estratégia de atracção de investidores, especialmente nos sectores exteriores ao petróleo, como a mineração, agricultura e pescas.

Na altura, mais do que agora, Angola pedia aos pobres dos países ricos para dar aos ricos do seu pobre país.

Aguinaldo Jaime notou que, apesar de Angola ter atraído um investimento externo directo considerável no sector dos petróleos, este capital não criou um número significativo de postos de trabalho, pelo que era necessário apostar nas indústrias de mão de obra intensiva.

Por isso foram tomadas medidas encorajadoras do investimento em todas as áreas da economia angolana e, à excepção da segurança e transportes e as normas permitem o total repatriamento dos dividendos.

Haverá, com certeza, quem acredite nestas ideias... nem que sejam os fazendeiros do país de Robert Mugabe. Falta, contudo, o resto. E o resto, que todos os dias se sabe não ser tão pouco quanto isso, não passa pelo Governo de Luanda mas, isso sim, pelos angolanos onde é necessário e inevitável incluir a UNITA.

Aguinaldo Jaime garantiu que o Estado angolano não interferirá na gestão das empresas estrangeiras e que não forçará os investidores externos a aliarem-se a parceiros locais.

Não interferirá? Nesta é quem os fazendeiros acreditaram.

"Se pretendemos que as pessoas invistam recursos maciços, elas têm de sentir que podem gerir os investimentos como querem e repatriar os respectivos lucros". Nem José Sócrates diria melhor...

Para defender que Luanda "fez muito" nos últimos anos para normalizar a economia angolana, citou (2001) a liberalização das taxas de juros e dos mecanismos de controlo de divisas, a reestruturação das empresas públicas, a retirada de algumas barreiras comerciais e um esforço de transparência na gestão política e económica do país.

Notou ainda, neste domínio, que as receitas do petróleo e a contabilidade do banco central começaram a ser submetidas a auditoria por entidades independentes e que a inflação baixou nos últimos quatro anos de 3.000 para 70 a 80 por cento.

E tudo isto aconteceu - recorse-se - numa altura em que Moammar Kadhafi apresentou a solução (eventualmente retirada dos manuais do MPLA) para o problema do Zimbabué: expulsar todos os brancos de África e ocupação das suas terras.

Kadhafi, que na altura visitou o Zimbabué, exortou os zimbabueanos negros e os africanos em geral a correrem com os brancos do continente e a só pararem se estes aceitarem transformar-se em criados.

Recorde-se que cerca de 1.700 fazendas pertencentes a brancos foram ocupadas desde que Mugabe exortou os chamados antigos combatentes a ignorarem a lei e as ordens dos tribunais e a apropriarem-se de terras.

O executivo zimbabueano já referenciou para nacionalização sem compensação cerca de 5.000 fazendas de brancos (95% do total).

Este ambiente de tensão tem provocado um duplo efeito sobre a vizinha África do Sul. Pretória viu-se forçada a assumir o abastecimento eléctrico e de combustível do Zimbabué, para evitar o colapso de um país que até recentemente era um dos seus principais mercados de exportações.

Por outro lado, enquanto vai absorvendo milhares de imigrantes ilegais, em fuga do desemprego nos países vizinhos, a África do Sul tenta assegurar que a sua própria redistribuição de terras não siga o caminho do Zimbabué.

(As palavras voam, mas os escritos são eternos).

quarta-feira, março 28, 2007

Xanana e Ramos Horta, Ramos Horta e Xanana

A (mais do que provável) candidatura de Xanana Gusmão ao cargo de primeiro-ministro de Timor-Leste, bem como a de Ramos Horta a presidente da República, lembra-me que nesta questão (como em quase todas as outras) a memória é curta. Muito curta.

Alguém se recorda que em Fevereiro de 2002, o actual presidente timorense dirigiu fortes críticas a José Ramos Horta e à Fretilin?

A polémica surgiu depois de José Ramos Horta ter servido de mediador entre a Fretilin e Xanana Gusmão, no âmbito de uma proposta do maior partido timorense para a formação de uma comissão multipartidária que nomeasse o líder nacional (Xanana) como candidato.

Em declarações ao jornal timorense «Suara Timor Lorosae», Xanana Gusmão acusou então a Fretilin de "inconsistências" na sua posição sobre o tema das presidenciais, considerando que José Ramos Horta continua a apoiar este partido.

"Já há muito tempo, mesmo antes das eleições, que notei que Horta também é da Fretilin. Só um dedinho é que saiu mas todo o corpo está dentro", disse Xanana Gusmão.

Na polémica entrevista, Xanana desmentiu garantias dadas por si próprio à Agência Lusa em Janeiro de 2002, quando afirmou não ter sido contactado quanto à formação da comissão nacional conjunta.

Admitiu também ter sido confrontado por José Ramos Horta quando desmentiu o contacto inicial sobre a proposta da Fretilin, num encontro que fontes timorenses garantiram ter sido "bastante quente".

"Afinal como é, chefe? Falámos ou não falámos?", terá dito Ramos Horta, citado por Xanana Gusmão.Xanana Gusmão confirmou a tensão do encontro referindo ter apelado directamente a Ramos Horta para esquecer a ideia.

"Disse-lhe que nós os dois trabalhamos juntos há muito tempo, mas por vezes não nos ouvimos um ao outro", disse Xanana Gusmão.Para Xanana Gusmão, a proposta da Fretilin era "inconsistente" com as suas posições actuais, parecendo "anti-democrática".

"A Fretilin disse que só me dá apoio se me candidatar como independente, mas agora o Ramos Horta aparece a dizer que a Fretilin assim já apoia", afirmou.

"Não gosto quando hoje dizem uma coisa e amanhã outra. Não dou valor e não aprecio este tipo de atitude", referiu.

Os “mandamentos” de Bill Kovach

Bill Kovach, co-autor do livro “Os elementos do Jornalismo” e um dos mais conhecidos e respeitados jornalistas dos EUA, diz que a primeira obrigação do jornalismo é para com a verdade; que o jornalismo deve manter-se leal, acima de tudo, aos cidadãos; que a sua essência assenta numa disciplina de verificação; que aqueles que o exercem devem manter a sua independência em relação às pessoas que cobrem; que deve servir como um controlo independente do poder; que deve servir de fórum para a crítica e compromisso públicos; que deve lutar para tornar relevante e interessante aquilo que é significativo; que deve garantir notícias abrangentes e proporcionadas e que aqueles que o exercem devem ser livres de seguir a sua própria consciência.

Qualquer semelhança com a realidade portuguesa é mera coincidência.

terça-feira, março 27, 2007

Angolanos de primeira (MPLA)
e de segunda (todos os outros)

Os angolanos já assimilaram que só um povo informado consegue ser livre. Vai daí, alguns passaram do oito para o oitenta esquecendo que a liberdade de uns termina onde começa a dos outros. Tal como fez, em 2001, o então secretário para as relações exteriores do MPLA, Paulo Teixeira Jorge, ao dizer que Governo português, não deveria permitir que "portugueses de ocasião" interferissem nos assuntos internos de Angola, catalogam agora de “angolanos de ocasião” todos os que dizem algo que seja diferente da verdade oficial.

Na altura, creio que Paulo Teixeira Jorge ainda não teria ouvido falar de democracia. Não sabia o que era e, por isso, julgava-se no direito de dar palpites sobre um Estado de Direito, algo que não se podia dizer (ainda não se pode) a propósito de Angola, em cujos quintais proliferam acéfalos do tipo do secretário do MPLA.

"Existe o princípio universal da não ingerência nos assuntos internos (de outro Estado) e eu creio que Portugal, através dos órgãos competentes, poderia recomendar a esses ditos portugueses (elementos afectos à UNITA que vivem em Portugal) para não se meterem nos assuntos internos (de Angola)", afirmou Paulo Teixeira Jorge, referindo-se ao facto do relatório do então mecanismo de fiscalização das sanções contra a UNITA apresentar Portugal como a principal base de apoio do movimento de Jonas Savimbi na Europa.

E, a fazer fé no muito que se vai lendo, as teses de Paulo Teixeira Jorge fizeram escola.Portugal hoje, como em 2001, convirá que todos o entendam de uma vez por todas, é uma nação livre. Coisa que não existe em Angola. Lá, por ordem dos amigos deste ou de qualquer outro secretário do MPLA, nem existe nação nem liberdade.

Seja como for, todos aqueles que catalogam os angolanos em duas classes, os de primeira (afectos ao MPLA) e de segunda (afectos aos outros partidos), devem perceber que angolano não é sinónimo de cor ou de filiação partidária.

"... Eles são portugueses de ocasião, fundamentalmente são angolanos que se tornaram portugueses depois da evolução da situação em Angola", afirmou na altura Paulo Teixeira Jorge, para quem o Governo português também deveria "chamar a atenção" dos elementos da Frente de Libertação do Enclave de Cabinda (FLEC) que se encontravam em Portugal.

Paulo Teixeira Jorge também disse que Angola deveria "rever as relações bilaterais" com Portugal na sequência das conclusões do relatório do mecanismo de fiscalização das sanções contra a UNITA.

Na altura, importa recordá-lo, nas declarações que prestou à Rádio Nacional de Angola, Paulo Teixeira Jorge também criticou as posições que a Igreja Católica tinha tomado no âmbito do processo de paz, considerando que "num Estado laico, a Igreja não pode permitir-se interferir nos assuntos do Governo".

Ontem, tal como hoje. Ninguém pode interferir com a lei da selva imposta pelo MPLA. Portugal interfere com Angola, a Igreja interfere com o Governo.

Na altura, importa recordá-lo , referindo-se ao facto do presidente da Conferência Episcopal de Angola e S. Tomé (CEAST), D. Zacarias Camuenho, ter defendido a necessidade de um cessar-fogo bilateral para acabar com a guerra, Paulo Teixeira Jorge afirmou que "D. Zacarias Camuenho devia preocupar-se com os problemas da Igreja, que não são poucos, já que o resto não era da sua competência".

Mais palavras para quê? É por estas e por outras, é por este e por outros, que os angolanos continuam a vegetar, enquanto os dirigentes vivem, continuam a viver, à grande. Até um dia.

segunda-feira, março 26, 2007

RTP exclui Nova Democracia do debate sobre a OTA

A RTP, a televisão pública de Portugal, vai transmitir dentro de algumas horas um debate, no programa Prós e Contras, sobre o famigerado projecto da construção do aeroporto da OTA. À boa maneira do serviço público, que não do serviço para o público, a RTP esqueceu-se (ou foi obrigada a esquecer?) de convidar o Partido da Nova Democracia. Esqueceu-se de quem primeiro e em tempo útil questionou o projecto.

De facto, quer a RTP queira ou não, a Nova Democracia foi o único e o primeiro partido que, em tempo útil, colocou em causa o projecto da OTA apresentando na Assembleia da República uma petição com mais de 4 500 assinaturas na qual se apelava à não construção do Aeroporto.

Seria fácil (seria, digo bem) à RTP verificar que foi graças a essa petição que o plenário do Parlamento voltou a discutir esta questão. Mas, apesar de fácil, foi (ainda) mais fácil esquecer que a Nova Democracia existe. É pena. É lamentável.

A Direcção Nacional da Nova Democracia considera, e bem, que só a falta de isenção e rigor jornalístico do programa, pelo menos desta edição, justifica a sua ausência.

“A RTP sendo uma estação pública comporta-se como um canal privativo de alguns”, diz a Nova Democracia numa carta enviada a Fátima Campos Ferreira.

E tem razão. Pena é que, neste como em muitos outros casos, a Nova Democracia não seja ouvida. Aliás, a própria democracia portuguesa tem medo de ouvir vozes diferentes.

domingo, março 25, 2007

Os abutres e a carne putrefacta
A carne putrefacta e os abutres

Os abutres são aves de rapina que se alimentam quase exclusivamente da carne putrefacta dos animais mortos. Ora, para que eles proliferem na sociedade portuguesa é preciso que exista a tal carne putrefacta. Se esta não existir, os abutres também não existem. Ou seja, estas aves dependem da existência de animais mortos… ou em vias disso.

Os abutres são normalmente vistos como aves que se alimentam de cadáveres em decomposição (aves necrófagas). De entre os abutres que ocorrem entre nós, o Grifo (Gyps fulvus) e o Abutre negro (Aegypius monachus) são verdadeiros especialistas na necrofagia, enquanto o Abutre do Egipto (Neophron percnopterus) explora principalmente os restos disponíveis.

Ou seja, estas aves dependem da existência de animais mortos… ou em vias disso.

Segundo Nuno Leitão, a exploração dos cadáveres com o consumo da carne putrefacta por parte destas aves, acompanhado da sua fisionomia e do seu grande porte, faz com que os humanos as sintam como verdadeiros símbolos da morte. Principalmente, quando nos deparamos com o Grifo e com o Abutre negro, aves impressionantes, com envergaduras superiores a 2,5 metros e com as suas cabeças e seus compridos pescoços, desprovidos de penas para melhor explorarem as carcaças dos animais mortos.

Ou seja, estas aves dependem da existência de animais mortos… ou em vias disso.

O Grifo alimenta-se da carne de cadáveres de médios e grandes mamíferos e, em certos casos, da carne das aves maiores e dos peixes mortos. O Abutre negro tem uma dieta praticamente constituída por carne de animais mortos, mas prefere cadáveres de animais mais pequenos e, à falta destes, pode mesmo caçar pequenos animais, como coelhos com mixomatose e pequenos cordeiros.

O Abutre do Egipto apresenta uma dieta mais diversificada, mas alimenta-se frequentemente de cadáveres de pequenos animais, como ratos, cobras e coelhos. Quanto à exploração da carne dos animais de maior porte, devido ao seu bico menos forte, apenas explora certas partes do cadáver, como sejam os olhos, a língua e as vísceras (após abertura da carcaça por outros necrófagos).

Ou seja, estas aves dependem da existência de animais mortos… ou em vias disso.

Passe a tétrica constatação, tal como fazem com outros despojos, os abutres podem incluir naturalmente na sua dieta os cadáveres humanos. Na verdade, a biomassa média do Homem, do ponto de vista nutritivo, é relativamente vantajosa para os abutres.

Desde a antiguidade, que este facto, tornou as relações do Homem com os abutres pouco amistosas, tendo sido os abutres alvos de perseguição pelo Homem ao longo dos tempos. Os locais mais frequentes de interacção do Homem com os abutres eram os campos de batalha, onde chegava a haver grupos de homens para afastar os abutres, de forma a impedir danos nos soldados feridos. Mesmo hoje em dia, estas situações de aproveitamento dos cadáveres humanos por parte dos abutres sucedem quando ocorrem catástrofes naturais.

Ou seja, estas aves dependem da existência de animais mortos… ou em vias disso.

Esta relação Homem/Abutre deu azo também a inúmeras práticas culturais onde estas aves desempenham o papel principal. Determinadas culturas aplicavam sentenças de morte, onde os homens condenados eram amarrados e deixados para morrer, ficando à mercê dos abutres. Há também práticas funerárias, que subsistem até hoje, e que levam a que os cadáveres sejam expostos aos abutres. Os Parsis de Bombaim depositam os corpos dos defuntos nas chamadas "Torres do Silêncio", quase como que em oferta aos abutres, e alguns monges tibetanos oferecem aos abutres, pedaços dos corpos dos falecidos.

Ou seja, estas aves dependem da existência de animais mortos… ou em vias disso.

Hoje em dia, pelo menos na civilização ocidental, os abutres têm outro valor para o Homem ao funcionarem como indicador da saúde de alguns ecossistemas. Os abutres são um dos símbolos mais importantes da Natureza. Desta forma, estas aves, a par de outras grandes aves de rapina, são alvo de admiração, com a vantagem de serem facilmente observadas comparativamente a outros animais. A constatação do declínio generalizado das espécies de abutres, nos finais dos anos sessenta, deu origem a acções de grupos conservacionistas e a numerosos trabalhos de investigação, o que contribuiu grandemente para o conhecimento e valorização destas aves.

Ou seja, estas aves dependem da existência de animais mortos… ou em vias disso.