quarta-feira, junho 04, 2008

No “jornalismo” português vale tudo

A revista Men's Health vai passar, segundo escreve o Jornal de Notícias, a ser dirigida pelo actor Pedro Lima, apesar de este não ter carteira de jornalista como é obrigatório. A administração já admitiu que irá fazer um pedido nesse sentido.

Ou seja, a administração vai ali ao quiosque da esquina e compra o título mágico que transforma um actor, ou um qualquer analfabeto funcional, não só em jornalista como em director. Não está mal. É mais ou menos o que fazem no Burkina Faso com as linhas de enchimento das salsicharias.

E nem de propósito. Acabo de receber um mail de um administrador (amigo, obviamente) de um hospital português a dizer-me que a administração tinha iniciado o processo para que me fosse passada a carteira profissional de médico, tendo em vista a minha nomeação para director clínico…

O actor, modelo e apresentador Pedro Lima, também ex-atleta de alta competição é, a partir de ontem, director da revista masculina Men's Health, a convite do grupo Motorpress, apesar de não estar profissionalmente habilitado para tal.

Mas o que importa o título se, como todos sabemos, esta é uma república das bananas que, neste caso, tem nos jornalistas os macacos principais?

A directora de serviços da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (CCPJ), Marília Monteiro, explicou que este não é um caso único, já que muitas pessoas desconhecem esta obrigatoriedade. Pois. É obrigatório comprar a Carteira Profissional. Se se está ou não preparado, isso pouco interessa.

"O director [da Men's Health] é obrigado a ter carteira de jornalista ou pelo menos título de equiparado por se tratar de uma publicação jornalística”, esclareceu Marília Monteiro. Para ultrapassar a questão, basta, no entanto, requisitar à Comissão da Carteira o título obrigatório, sendo o pedido avaliado e deferido se estiverem preenchidos os requisitos necessários.

Estes requisitos vão fazer prova, através do órgão de comunicação social em causa, de que a pessoa desempenha a função de director, e não exercer qualquer outro tipo de actividade incompatível com o jornalismo, como é o caso da publicidade.

Traduzindo: não é preciso provar nada. Basta comprar os impressos e a Carteira.

A escolha do actor para director da revista não passou, no entanto, pelas suas capacidades jornalísticas, como admitiu o administrador do grupo que detém a Men's Health, João Ferreira.

"Quando decidimos procurar um director, sabíamos o que queríamos. Após alguns contactos surgiu o nome de Pedro Lima que se encaixava no espírito que procurávamos: alguém que se identificasse com a revista, que fosse desportista, que tivesse família e que pudesse trazer algum valor acrescentado", afirmou João Ferreira.

Por esta explicação se vê que o importante (que deveria ser condição sine qua non) não é ser Jornalista. O que conta é vender, nem que para isso se ponha como director a mais bela prostituta do Parque Eduardo VII em Lisboa.

“O actor foi atleta de alta competição, tendo participado nos Jogos Olímpicos de Seul e Barcelona, tem três filhos e uma reconhecida carreira na área da moda, desporto, televisão, teatro e cinema, o que é revelador do seu espírito empreendedor, versatilidade e vontade de vencer” acrescentou o administrador.

E é mesmo assim. Será que um dia destes ainda vamos ver o Eusébio como director do jornal “A Bola”?

Por último, deixem-me dizer-vos que ser Jornalista não é nada disto. Mas como é disto que Portugal parece querer viver, confirma-se que o Jornalismo está mesmo em vias de extinção.

terça-feira, junho 03, 2008

Ulrich diz que não há corrupção em Angola
- Vá lá, vamos todos fingir que acreditamos?

O presidente do BPI, banco presente em Angola desde 1996, diz que não há corrupção no país. Em entrevista ao Diário Económico, Fernando Ulrich considerou que as declarações polémicas de Bob Geldof "não têm sentido nenhum". E tem com certeza razão. Pelo menos fala por experiência própria (está há 12 anos em Angola).

Questionado sobre a polémica recente à volta das declarações de Bob Geldof, que num evento promovido pelo BES em Lisboa disse que "Angola é um país gerido por criminosos", Ulrich diz que as declarações "não têm sentido nenhum". Todos gostaríamos de acreditar.

O BPI tem em Angola o Banco Fomento e Angola, sendo este o seu principal activo internacional. Actualmente, o banco está em negociações com a empresa estatal angolana Sonangol para a venda de uma posição de 49% no BFA. Fernando Ulrich diz que a experiência do BPI em Angola não mostra um país corrupto.

Aqui tem toda a razão. O país não é corrupto. Corruptos são, penso eu, os que (des)governam o país. Aliás, Geldof falou de um país gerido por criminosos e não de um país criminoso.

"O BPI nunca pagou nada a ninguém para obter nada em troca como nem nunca ninguém nos pediu nada para fazer o que quer que fosse em troca", disse ao "Diário Económico". Estamos esclarecidos.

Ulrich desvaloriza também o facto da petrolífera estatal Sonangol ter tirado as contas do BFA por este não ter suportado as condições de uma operação de financiamento para o Estado angolano.

"Isso também já me aconteceu em Portugal com entidades públicas e privadas que não gostaram de alguma coisa que eu fiz ou que não fiz", conta o responsável. Ai sim? Bom…

Em São Tomé os militares
já disseram o que queriam

O Conselho Consultivo do Ministério da Defesa da Ordem Interna de São Tomé e Príncipe pediu hoje ao Presidente para encontrar "o mais depressa possível" uma solução para a crise política gerada pela queda do Governo. O aviso, à boa moda africana, está dado. Depois não digam que eles não avisaram.

Numa carta a Fradique de Menezes, o Conselho manifesta "preocupação face à crise instalada" e apela ao Chefe de Estado para que, "no âmbito das suas competências constitucionais, encontre uma solução rápida". Uma posição politicamente correcta mas, é claro, selada pelos homens de farda.

O Conselho Consultivo é um órgão do Ministério da Defesa e Ordem Interna e integra o exército, a polícia nacional, a guarda costeira, a corporação de bombeiros, a polícia fiscal e serviços de imigração e fronteiras.

A carta é assinada pelos comandantes de todas as instituições, militares e paramilitares, e pelo director do Serviço de Imigração e Fronteira, para que não restem dúvidas quanto à validade e amplitude do aviso.

A opinião do Jorge Eurico

«Acabo de ler, aqui no cimo da minha cabeça (Alto Hama), que o meu amigo e companheiro Orlando Castro (profissional angolano com coluna vertebral desde manhã até à noite, logo jornalista 24 sob 24 horas) rasgou o cartão de filiado n.º 53 149 da UNITA e de membro n.º 11 da JURA.

Conheço o Orlando Castro há mais de cinco anos e, sem receio, sempre assumiu-se como militante do Galo Negro e seguidor das ideias de Jonas Savimbi.

Sei que Orlando Castro sempre foi coerente aos ideias da pessoa colectiva, a UNITA, que ele abraçou num dia qualquer do longínquo ano de 1974 na então Nova Lisboa.

Mau grado o Galo Negro não ter sabido aproveitar um quadro da estatura intelectual e profissional do Orlando Castro em detrimento de muitas ardósias que não valem um chavo.

Independentemente das razões que o terão levado a mandar a UNITA às urtigas, quero, por este meio, manifestar a minha solidariedade, ou seja, estou com ele. Quero crer que Orlando Castro ponderou muito antes de tomar a decisão de rasgar o cartão de militante do Galo Negro. Também não era para menos na medida em que ninguém aceita investir em saco roto.

Sei, por exemplo, que profissional e pessoalmente Orlando Castro já perdeu muito por se assumir publicamente como membro da UNITA.

Sei segura e garantidamente que o Galo Negro nunca reconheceu a dedicação e a fidelidade do Orlando Castro às causas que o levaram a abraçar o segundo maior partido angolano.

Só por isso e nada mais do que isso, se fosse da UNITA ou do MPLA também teria tomado a mesma atitude, ou seja, teria rasgado o cartão. Porquê? Porque para mim quer o "Partido do Coração" (MPLA) quer o "Partido dos Maninhos" (UNITA) são farinha do mesmo saco e banana do mesmo cacho. O País está como está por causa dos dois.

Por isso é que, ainda bem, não tenho partido (estou à espera que apareça aí um de tipo novo).

Por isso se estivesse no lugar do Orlando Castro também teria rasgado o cartão. Por isso é que digo que entre o MPLA e a UNITA que venha o diabo e escolha!»

Nota: Crónica de Jorge Eurico publicada no Notícias Lusófonas
http://www.noticiaslusofonas.com/view.php?load=arcview&article=21156&catogory=JEurico

Vida difícil para 100 milhões de africanos?
- Nada de novo na hipocrisia do mundo

O Papa Bento XVI afirma que a fome e a desnutrição são "inaceitáveis" num mundo "com recursos suficientes", na mensagem que enviou aos líderes mundiais presentes na cimeira da FAO sobre segurança alimentar.

Enquanto isso, a escalada nos preços dos produtos alimentares vai tornar ainda mais difícil a vida de pelo menos 100 milhões de africanos dos países mais pobres. As Nações Unidas comparam a situação com o tsunami que há quatro anos fez 220 mil mortos na costa asiática.

Na mensagem, Bento XVI afirma que milhões de pessoas estão com os olhos postos nos líderes mundiais para que encontrem soluções enquanto a segurança da sua própria sobrevivência e dos países a que pertencem estão em risco. O papa afirma que o mundo tem recursos suficientes e "know-how" para pôr termo à fome e às consequências desta e apelou a todas as nações para fazerem reformas estruturais "indispensáveis" que contribuam para o desenvolvimento.

O Programa Alimentar Mundial (PAM) refere-se ao crescente encarecimento mundial dos alimentos como um "tsunami silencioso" e pede um reforço nas ajudas internacionais para enfrentar aquele que considera "o maior desafio da sua história".

O alerta surgiu num comunicado da directora do PAM, Josette Sheeran, em que afirma que “milhões de pessoas que há seis meses não estavam numa situação de necessidade urgente fazem hoje parte desse grupo".

Josette Sheeram faz um apelo dramático à comunidade internacional, dizendo que a resposta a dar à actual crise deve envolver um movimento semelhante ao que o Mundo colocou em marcha após os trágicos acontecimentos de 2004, quando um tsunami semeou a destruição em 12 países banhados pelo Índico.

Nesse sentido, a directora do PAM pede "uma acção de alto nível e em larga escala" por parte da comunidade internacional. Um apelo semelhante já havia sido desencadeado pelo Banco Mundial, que, durante a sua Assembleia de Primavera, em Washington, sublinhou a urgência de um esforço massivo concertado à escala internacional.

Feito o diagnóstico já a comunidade internacional pode dormir descansada e continuar a ter, pelo menos, três boas refeições por dia. Quanto ao resto, mais milhão menos milhão de mortos, tudo vai ficar na mesma.

«Morte na Picada» - Ler e recordar Angola

No próximo Sábado, dia 7, entre as 18:30 e as 19:30, Henrique Antunes Ferreira estará na Feira do Livro de Lisboa para uma sessão de autógrafos e conversa. Porque vale a pena, visite o pavilhão das pequenas editoras (do lado direito de quem sobe, quase no topo da Feira, pouco acima do Pavilhão Carlos Lopes).

segunda-feira, junho 02, 2008

Quinta-feira na Feira do Livro do Porto

A convite da Papiro Editora estarei presente numa sessão de autógrafos na Feira do Livro do Porto, certame que decorre até ao dia 10 de Junho, no Palácio de Cristal, no Porto. O “Alto Hama” terá a sua vez no dia dedicado a “Falar África”, ou seja 5 de Junho, pelas 21 horas. Estarão igualmente presentes, Fernando Cunha Araújo: “Chocolate Não Amargo”; Isabel Pires de Carvalho: “Manteiga de Cacau”; Rodrigues Miguel: “Quissonde; Vera Ribeiro: “Pedra Dura”; Marta Santos: “Gita”; Liana Tinôco Ferreira: “Vivências”; João Carlos: “As hienas também choram” e José Alberto Silva: “Começar pelo Intervalo”.

45 mil contra o Acordo Ortográfico

Signatários do Manifesto em defesa da Língua Portuguesa entregaram hoje ao Presidente da República um CD-Rom com as 45.000 assinaturas já recolhidas bem como nove pareces contra o Acordo Ortográfico.

Dos nove pareces, "todos contra o acordo, três são inéditos e há ainda um texto do historiador Vitorino Magalhães Godinho", precisou Vasco Graça Moura, que liderou a delegação.

Referindo-se ao artigo hoje publicado no Diário de Notícias por Isabel Pires de Lima, Vasco Graça Moura lembrou que, já quando exercia as funções de ministra da Cultura, a hoje professora universitária e deputada do PS era favorável a uma moratória de dez anos "para criar um espaço de respiração e reexame do acordo".

O actual acordo, reiterou, revela "deficiências e erros" e "traz gravíssimas lesões à Língua Portuguesa". Apontou, concretamente, o caso da "grafia facultativa", que, na sua previsão, "vai lançar o caos". "Enquanto há língua há esperança", disse ainda o eurodeputado, estabelecendo um paralelismo entre o que aconteceu com o Acordo, para cuja elaboração "houve pareceres que não foram tidos em conta", e com o futuro aeroporto internacional de Lisboa.

"Tudo apontava para a Ota - exemplificou - mas pareceres científicos vieram a mostrar uma outra alternativa", tendo sido escolhido Alcochete. Graça Moura disse, ainda, esperar que os pareceres agora entregues ao Presidente da República possam ser analisados e contrariar o processo.

"O Acordo foi assinado em 1990 e devia ter entrado em vigor em 1994, sem que ninguém sentisse necessidade e urgência de o implementar, até que alguém o quis tirar do limbo onde estava", lembrou, não descartando a possibilidade de um acordo "sobre questões de pormenor".

Além de Graça Moura, a delegação que hoje foi recebida pelo Chefe de Estado integrava os linguistas António Emiliano e Jorge Morais Barbosa e a catedrática de literatura Maria Alzira Seixo.

domingo, junho 01, 2008

Jornalista 24 horas por dia?
- O tipo está mesmo doido!

“Quando se é jornalista 24 horas no dia e 7 dias na semana e ainda se consegue ter um tempozinho para dedicar à cultura das duas, três. Ou se é doido, e parece que ele se assume alegremente como tal; ou o relógio está deliciosamente parado no tempo e na saudade da terra onde o sol castiga mais; ou então... estamos perante um Homem que só conhece uma arte: o saboroso poder da escrita!”

Esta afirmação é de Eugénio Costa Almeida (http://pululu.blogspot.com/2008/05/artoliterama.html) e foi escrita a propósito do lançamento que fiz de um outro blogue, desta vez dedicada a versos e similares.

O Eugénio volta a ter razão. Sou doido e assumo-o alegremente. Além disso, é também verdade, venero o saboroso poder da escrita, mesmo junto daqueles (e são cada vez mais) têm de se descalçar para contar até doze.

Aliás, quando em no início da década de 70 comecei a dar os primeiros passos (e, é claro, os primeiros trambolhões) nesta profissão de Jornalista (então vista, ensinada e entendida como um sacerdócio) no diário “A Província de Angola”, os dois responsáveis pela delegação do Huambo, José de Almeida e Carlos Morgado, disseram-me logo que, embora não fosse condição sine qua non, ser maluco ajudava alguma coisa.

Trata-se portanto de uma enfermidade que já vem dos tempos em que calcorreava as picadas da terra onde o sol castiga mais. A dependência do saboroso poder da escrita veio depois. Ou seja, durante os largos meses em que só tinha o especial direito de escrever sobre os buracos das ruas ou sobre os candeeiros sem lâmpadas. Nesse tempo chamava-se tarimba.

Tarimba em que aprendi que quem não vive (nesta profissão em avançado estado de putrefacção e inevitável extinção) para servir, não serve para viver. É caro que também aprendi mais meia dúzia de coisas que hoje figuram como peças de museu, local onde um dia destes será incluída oficialmente a profissão de Jornalista.

Não aprendi, contudo, aquela que hoje é a regra fundamental do “jornalismo”: ser sempre aquilo que o chefe quer que sejamos.

Quando alguém tem a lata de, como eu, dizer que não se é Jornalista sete ou oito horas por dia, a uns tantos euros por mês, mas sim 24 horas por dia, mesmo estando (des)empregado, só pode estar mesmo doido. Não acham?

Se (esta) UNITA assim o quer…


Mau grado a vontade, os avisos e as pressões dos quadrúpedes ruminantes que em Angola e Portugal nasceram a saber tudo e são donos divinos da verdade, resisti sempre a alterar o livre curso do meu pensamento e da minha consciência. Continuo, como me disse Jonas Savimbi, a pensar que Angola não se define – sente-se.

O que se alterou foi o facto de, para além de uma fraca memória, esta UNITA entender que nela só cabem os que estão de acordo. Desse forma alteraram-se irremediavelmente os pressupostos basilares que me levaram, em 1975, a aderir à União Nacional para a Independência Total de Angola.

Alterou-se (quase) tudo o que aprendi com o Presidente (com o meu Presidente) Jonas Savimbi.

Assim sendo, acabo de rasgar o meu Cartão de Filiado nº 53 149 da UNITA e de Membro nº 11 da JURA no Huambo, da qual, aliás, fui secretário do Departamento Cultural do Comité do Huambo.

Se (esta) UNITA assim o quer, assim o tem.