quinta-feira, maio 28, 2009

Exclusão social potencia a criminalidade
- Angola não escapa a essa dura realidade

A exclusão social é um factor que potencia o aumento do índice de criminalidade em Angola, afirma o bastonário da Ordem dos Advogados de Angola, Inglês Pinto (foto).

Para Inglês Pinto, quando o indivíduo não tem condições de satisfazer as suas necessidades, tende a enveredar por caminhos ínvios, que tendencialmente o levarão a desvios de conduta.

Como medidas para combater o problema, Inglês Pinto sugere, entre outras, o policiamento de proximidade, a criação de mais postos de trabalho, a desburocratização do sistema fomentador de investimentos no sector produtivo e de prestação de serviços (constituição de empresas), e o incremento emprego juveniel.

Inglês Pinto considerou, por outro lado, estar na base do aumento de crimes de violações sexuais a crença em feitiçaria, o desvio de conduta, perda de valores morais, entre outros factores, situação que se pode reverter com esforço conjugado de psicólogos, entidade religiosas e outros organizações da sociedade.

Quanto à administração do sistema judiciário no país, adiantou que este tem de acompanhar e deve ser uma das molas impulsionadoras do desenvolvimento económico e social, como garante de uma paz efectiva do país.

Segundo o bastonário, entrevistado pela Angop, não obstante o investimento em recursos humanos e técnico-material, a criação de novos tribunais municipais, além da modernização da Polícia Nacional, ainda se está aquém do considerado normal para que o sistema de administração da justiça cumpra com o seu real papel.

Inglês Pinto ressaltou a necessidade de se implementarem programas específicos de formação; dar maior protagonismo ao processo de reforma do direito da Justiça, em termos de produção legislativa; aprovar o mais célere possível um novo código penal, bem assim um código de processo penal; ter legislação processual laboral elaborada, além de se efectuar a revisão pontual de aspectos ligados ao código civil.

Inglês Pinto destacou os esforços que estão a ser envidados para a melhoria do sistema de registos nas conservatórias e nos notariados, referindo, entretanto, que mais e melhor deve ser feito a nível de tribunais municipais e províncias.

O bastonário apontou a independência dos juizes e magistrados, maior empenho, dedicação, disciplina e o respeito à ética e deontologia como princípios fundamentais na aplicação da legislação.

Sobre a extensão dos serviços judiciários aos municípios, disse ainda não corresponder as expectativas, pelo que muito há a fazer, nomeadamente a qualificação dos quadros, pois só assim poderão corresponder as necessidades do sistema de administração pública, do mundo do negócio e do exercício da advocacia de uma maneira geral.

Já no campo da celeridade dos processos de julgamento, disse que o sistema é lento por razões objectivas e subjectivas, mas apelou aos advogados a persistirem na defesa dos seus constituintes e, assim, ir de encontro as necessidades do sistema de administração da Justiça.

quarta-feira, maio 27, 2009

... e a culpa é, obviamente, dos outros

O secretário-geral do PS, José Sócrates, considerou hoje que os governos de coligação PSD/CDS-PP foram responsáveis por terem lançado um clima de "terror na educação", atrasando a colocação de professores e a abertura dos anos lectivos.

José Sócrates falava no comício do PS de Castelo Branco em resposta a críticas feitas pelo cabeça de lista social-democrata ao Parlamento Europeu, Paulo Rangel, que acusou o actual Governo de ter lançado o terror na educação.

"Depois das reformas que este Governo fez na educação, e sem um pingo de vergonha, a direita vem dizer que estas reformas representam o terror na educação", apontou.

A seguir, Sócrates devolveu a acusação: "eu sei bem o que é o terror na educação, recordo-me dele. Terror na educação deu-se quando houve um Governo há quatro anos atrás que não foi capaz de colocar os professores a tempo e horas e não foi sequer capaz de iniciar o ano lectivo".

Para o secretário-geral do PS, a principal consequência da política educativa dos anteriores governos PSD/CDS "foi o terror das famílias e, mais do que isso, o horror das famílias portuguesas perante um Governo incompetente".

Depois de o ministro Augusto Santos Silva ter dito que os professores "não conhecem a diferença entre Salazar e os democratas", não admira que Sócrates diga o que diz. É ele ao seu melhor estilo.

Sócrates está virado do avesso porque os professores ainda não perceberam quem é o dono do reino e, ao que parece, continuam erradamente a julgar que este Portugal é um Estado de Direito democrático.

Se fosse um Estado de Direito, Sócrates lembrar-se-ia dos 100 mil docentes que teve à porta do seu reino. Não se lembra porque segundo os técnicos dos areópagos socialistas do Largo do Rato, em Lisboa, terão estado nas ruas da capital talvez uns oito mil. Os outros que todo o mundo viu, podem dar aulas mas não são professores, diria com o habitual ar cândido e socretino a ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues.

(Todos sabemos que, a exemplo do seu capataz-mor, muitos desses técnicos ainda hoje não acabaram a contagem dos manifestantes porque, se para contarem até 12 têm de se descalçar, …)

Governo apoia ex-guerrilheiros do MPLA
(terão sido os únicos que combateram??)

O governador da província do Huambo, Angola, Albino Malungo, garantiu hoje apoio habitacional e agrícola para os antigos guerrilheiros do MPLA, por forma a "dignificar e reintegrar condignamente aqueles que contribuíram na luta pela conquista da Independência Nacional".

O governador fez essa garantia durante um encontro com a Direcção Nacional da Associação dos Antigos Guerrilheiros do MPLA, aos quais aconselhou, numa primeira fase, a fazerem o levantamento de todos os ex-combatentes da província, a fim de facilitar a intervenção do governo.

"São os antigos guerrilheiros que contribuíram para a conquista da Independência do país, onde todos se orgulham viver, graça a sua bravura e esforços. Isso galvanizou os filhos desta pátria que, igualmente, lutaram para a conquista da paz. Por isso, merecem um reconhecimento por parte do governo na melhoria das condições de vida dos mesmos", expressou Albino Malungo.

Já o porta voz da Associação Nacional dos Antigos Guerrilheiros do MPLA, Augusto José dos Santos, informou que a sua instituição traçou um programa para todas as províncias, no sentido de trabalharem para criação de condições de vida para os seus filiados, principalmente no domínio habitacional e agrícola.

De igual modo, explicou, deve ser feito um levantamento para saberem quantos beneficiam já da Caixa Social das Forças Armadas e do Fundo de Pensões do Estado.

"Gostamos da forma como fomos recebidos pelo governador da província do Huambo, e recebemos garantia que nas reservas fundiárias os associados vão igualmente beneficiar-se de áreas para a construção de residência e apoio do governo, com instrumentos e in puts agrícola para a fazenda da associação", considerou.

Na província do Huambo, a Direcção Província dos Antigos Guerrilheiros do MPLA controla mais de 310 associados, que necessitam de apoio habitacional e agrícola para a sua reintegração social.

Mais cinco mil barris de petróleo por dia
E o povo, bem esse tal de povo que se lixe

Uma nova descoberta petrolífera foi hoje anunciada em Luanda, capital do reino do MPLA, pela Sociedade Nacional de Combustíveis de Angola (SONANGOL) e pela British Petroleum (BP).

Segundo um comunicado da companhia petrolífera angolana, o novo poço com a capacidade de produção de cinco mil barris diários, denominado “Oberon-1” foi perfurado a 1.624 metros de profundidade de água, com a profundidade total de 3.622 metros abaixo do nível do mar.

O poço está situado na parte sul do bloco 31 das águas ultra profundas do “offshore” angolano e aproximadamente a 335 quilómetros a noroeste de Luanda, e a quatro quilómetros a nordeste do campo “Dione”, sendo a décima oitava descoberta da BP neste bloco.

No bloco 31, a SONANGOL é a concessionária com 20 por cento de interesses, a British Petroleum operadora (26.67 por cento), a Esso Exploration and Production Angola (25 por cento), a Statoil Angola A.S, (13,33 por cento), a Marathon International Petroleum Angola (10 por cento) e a TEPA (cinco por cento).

Entretanto, ali ao lado, do outro lado da rua, nas traseiras dos condomínios de luxo, o povo continua a procurar nos caixotes do lixo alguma coisa para comer.

Eu sei que estamos a falar de países diferentes. Um é o dos poucos que têm milhões, o outro dos milhões que têm pouco ou nada. O facto de ser tudo em Angola é, claro está, mera coincidência.

Um povo de brandos costumes e de tanga

O crescimento do desemprego nos países desenvolvidos para cima dos 10% até final de 2010, segundo previsões da OCDE, poderá levar ao aumento dos crimes de 'colarinho branco', de acordo com um estudo da seguradora inglesa Hiscox.

"Apesar de em alguns países se estar a observar um aumento da violência e desordem civil, quer seja vandalismo ou ameaças à integridade e segurança física (veja-se o recente exemplo dos empresários que têm sido feitos reféns pelos seus empregados em grandes empresas), o crescimento do desemprego normalmente conduz a uma maior incidência de crimes de extorsão do que de crimes violentos", sublinhou a Hiscox.

O estudo traça o perfil do extorsionista, normalmente um homem jovem, com menos de 25 anos, para quem o crime funciona como um desafio intelectual. Porém, o aumento do desemprego deverá alterar este perfil, levando mais empregados de escritório de meia idade, com formação superior e bons conhecimentos da empresa a tornarem-se extorsionistas como forma de se vingarem de antigos patrões ou, simplesmente, de conseguirem dinheiro.

"Em todas as anteriores recessões económicas por que já passámos, registámos um aumento significativo deste tipo de delitos. Os crimes de 'colarinho branco' envolvem, sobretudo, extorsões mais sofisticadas contra um antigo patrão, sendo que o executante, que normalmente enfrenta um desemprego prolongado, procura assim uma vingança e uma forma 'fácil' de ganhar dinheiro", explicou Charlie Hanbury, especialista em riscos especiais da seguradora inglesa.

Por isso, prevê que as participações de seguros de empresas que sejam alvo de extorsão aumentem pelo menos 25 por cento, "revelando-se fundamental que as companhias avaliem e testem os seus procedimentos de gestão de risco para fazer face a este tipo de situações".

Portugal deve, contudo, estar fora deste cenário, não porque o desemprego não possa chegar aos 10% (ou mais), mas porque não é – digo eu – um país desenvolvido. Além disso, é um país de (muito) brandos costumes.

Tão brandos que, apesar dos mais de 500 mil desempregados, ainda não reparou que a maioria do seu povo está de tanga.

Como quer ser dona e senhora do quintal
Austrália ameaça com o “tudo ou o nada”

A Austrália quer “o tudo ou nada” de Timor-Leste com a chegada a Díli, na quinta-feira, de uma delegação empresarial do Território do Norte que vai oferecer parcerias em sectores estratégicos do desenvolvimento. Oferecer e, é claro, cobrar altos juros.

Por outras palavras, a Austrália assume que quer fazer o que muito bem entender do “quintal” timorense. A missão, composta por meia centena de empresários pretende apostar em primeiro lugar no promissor “sector do turismo”, embora fique claro – como assume o embaixador australiano em Díli, Peter Weyward – que a “construção das infra-estruturas fica a cargo dos timorenses”.

Outros sectores a apostar, segundo o embaixador, são os da construção civil, barragens, represas, sistemas de irrigação, estradas e pontes. Os transportes vêem a seguir, mas com a exploração em regime de “outsourcing”.

O sector das telecomunicações em Timor-Leste, que a Austrália teve na mão e perdeu para o monopólio da Timor Telecom (PT), contratualmente até 2017, é apetecido “só se for liberalizado” em 2010, como parece ser vontade do Governo de Xanana Gusmão, disse o embaixador.

Um “interesse natural” é depositado também no sector da banca em Timor-Leste, onde “o ANZ é o principal operador em ATM”, referiu.

“Será possível a criação de um banco de desenvolvimento, a Austrália está interessada se o Governo timorense criar condições, ainda que por ora não seja determinante”, acrescentou o diplomata.

Finalmente, o sector do petróleo e gás natural, tendo o embaixador admitido “motivos de esperança” para que o consórcio do Greater Sunrise entre num projecto para levar um “pipeline” até ao sul de Timor-Leste.

“Timor-Leste está no arco de segurança da Austrália e esta é a perspectiva para uma relação sustentável”, vincou o diplomata, valorizando por isso o triângulo de cooperação formado pela Austrália, Timor-Leste e Indonésia.

Banco de Portugal, KGB e FBI
à boa moda do reino lusitano!

O governador do Banco de Portugal insistiu hoje que a supervisão ao sistema financeiro actua com métodos e padrões próprios e usados internacionalmente e não é uma espécie de KGB e FBI juntos. Então o que é?

Acusando um deputado do Bloco de Esquerda de “equívoco ou ignorância fundamental” sobre o que é a supervisão e o que foi a intervenção do Banco de Portugal no Banco Português de Negócios, Vítor Constâncio disse que a natureza de algumas perguntas formuladas são “com presunções de os supervisores serem uma espécie de KGB e FBI juntos”.

Pois. Então o que é o Banco de Portugal?

“O supervisor não é um super polícia” com acesso a tudo, disse o governador do Banco de Portugal, mas sim uma entidade que actua segundo métodos e padrões reconhecidos.

Ok. Então, em vez de supervisor (visão superior à normal), o Banco de Portugal deveria reconhecer que não passa de um simples visor ou, neste caso, um grande retrovisor.

“Não pode ser cometido o erro, para não dizer outra coisa, de se avaliar a actuação por critérios e objectivos que sejam diferentes das práticas internacionais”, indignou-se Vítor Constâncio, recordando que uma análise recente do Fundo Monetário Internacional mostrou que as práticas do regulador português estão no grupo das melhores.

É verdade. O melhor médico que conheci (e assim foi considerado por muitos) foi um que sempre tratou da saúde aos que estavavam de boa saúde. Quando alguém estava doente, manda-vo para o hospital.

Constâncio deixou ainda uma interrogação sobre o papel dos revisores oficiais de contas e auditores, dizendo que as situações detectadas no BPN, ainda antes desta situação que levou à nacionalização, “foram todas identificadas pelo Banco de Portugal e não pelos auditores”.

Ou seja. A culpa é dos outros e não é tão grande porque, embora não sendo uma espécie de KGB e FBI juntos, muito menos PIDE ou DGS, o Banco de Portugal conseguiu fazer o papel dos outros. Se calhar esqueceu-se do seu, e como não tinha ponto...

Constâncio disse que já esteve a responder “até às três da manhã a perguntas dos deputados na comissão parlamentar”, em Novembro passado, e que pelos vistos vai ser igual na próxima semana, embora já tenha “enviado à comissão” os relatórios e documentos que dão conta das várias actuações que o Banco de Portuhgal, enquanto supervisor, teve junto do BPN.

De facto, não é justo levar o governador do Banco de Portugal a fazer um esforço tão grande. Ainda se ele fosse o governador do KGB e do FBI juntos...

Pedir aos pobres dos países ricos
para dar aos ricos dos países pobres

O ministro da Defesa de Portugal reafirmou hoje à Agência Lusa em Luanda, Angola, que a normalização do processo político na Guiné-Bissau, depois do assassínio do Presidente “Nino” Vieira, depende de uma “reforma do sector da segurança”.

“Para que haja normalização do processo político na Guiné-Bissau, é absolutamente indispensável que aconteça uma reforma do sector da segurança, que está em marcha e no qual Portugal está empenhado. Essa é uma condição fundamental para a estabilização do processo político”, afirmou o ministro luso.

E eu a pensar que a normalização depende de dar de comer a quem tem (tanta) fome, de dar assistência médica a quem dela (tanto) carece...

Nuno Severiano Teixeira está em Luanda para participar na XI Reunião dos Ministros da Defesa da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que decorre hoje e quinta-feira, sendo a situação na Guiné-Bissau um dos temas em agenda.

A Guiné-Bissau foi, mais uma vez, abalada, em Março, pelo duplo assassínio do Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas, general Tagmé na Waié, e do Presidente da República, João Bernardo "Nino" Vieira.

O ministro português salientou ainda que “também é preciso ter em conta que, para que aconteça uma verdadeira reforma do sector de segurança guineense, é necessária capacidade e meios para a desmobilização daqueles que estão hoje nas Forças Armadas, que já têm idade, que estiveram na guerrilha (da luta pela independência) e que devem ser desmobilizados”.

Capacidade e meios? Sim claro! Capacidade e meios para melhorar o armamento e não para, como pensam os ingénuos como eu, dar dignidade aos guineenses que continuam a ser gerados com fome, a nascer com fome e a morrer pouco depois com fome.

Sublinhando que Portugal está também empenhado nesse processo, o ministro da Defesa português considerou ainda essencial que haja “um apoio da comunidade internacional e que existam fundos para a concretização desse objectivo”.

Por outras palavras, Portugal e essa coisa que dá pelo nome de CPLP entendem que é preciso pedir aos pobres dos países ricos para dar aos ricos dos países pobres. Nada mau.

Em relação a Guiné-Bissau, Portugal “manifestou-se sempre contra qualquer acto de violência política e essa é uma preocupação que deve ser cumprida”, disse.

“Mas é importante também referir, em primeiro lugar, o apoio e a solidariedade de Portugal e da CPLP ao pleno restabelecimento do processo constitucional, que se fará com as eleições (presidenciais de 28 de Junho) onde Portugal tem, através do Ministério dos Negócios Estrangeiros, mantido o apoio”, notou o ministro português.

Lá continua a comunidade internaciobal a confundir eleições com democracia, a confundir votos com a barriga vazia com liberdade.

Hoje 27 de Maio. Hoje, outros 27 de Maio

Não sei se ter memória é, nos tempos que correm, uma qualidade. Creio que não. Alguém disse que quem estiver sempre a falar do passado deve perder um olho. No entanto, acrescentou que quem o esquecer deve perder os dois...

Tal como o Papa Bento XVI recordou recentemente, em Luanda, perante quase um milhão de fiéis, as “consequências terríveis” dos 27 anos de guerra civil em Angola, lamentando que esta seja “uma realidade familiar”, apetece-me hoje recordar também algumas coisas.

Recordar, em homenagem às vítimas, o massacre de Luanda, perpetrado pelas forças militares e de defesa civil do MPLA, visando o aniquilamento da UNITA e cidadãos Ovimbundus e Bakongos, e que se saldou no assassinato de 50 mil angolanos, entre os quais o vice-presidente da UNITA Jeremias Kalandula Chitunda, o secretário-geral Adolosi Paulo Mango Alicerces, o representante na CCPM, Elias Salupeto Pena, e o chefe dos Serviços Administrativos em Luanda, Eliseu Sapitango Chimbili.

Recordar, em homenagem às vítimas, o massacre do Pica-Pau em que no dia 4 de Junho de 1975, perto de 300 crianças e jovens, na maioria órfãos, foram assassinados e os seus corpos mutilados pelo MPLA, no Comité de Paz da UNITA em Luanda.

Recordar, em homenagem às vítimas, o massacre da Ponte do rio Kwanza, em que no dia 12 de Julho de 1975, 700 militantes da UNITA foram barbaramente assassinados pelo MPLA, perto do Dondo (Província do Kwanza Norte), perante a passividade das forças militares portuguesas que garantiam a sua protecção.

Recordar, em homenagem às vítimas, o facto de mais de 40.000 angolanos terem sido torturados e assassinados pelo MPLA em todo o país, depois dos acontecimentos de 27 de Maio de 1977, acusados de serem apoiantes de Nito Alves ou opositores ao regime.

Recordar, em homenagem às vítimas, o facto de, entre 1978 e 1986, centenas de angolanos terem sido fuzilados publicamente pelo MPLA, nas praças e estádios das cidades de Angola, uma prática iniciada no dia 3 de Dezembro de 1978 na Praça da Revolução no Lobito, com o fuzilamento de 5 patriotas e que teve o seu auge a 25 de Agosto de 1980, com o fuzilamento de 15 angolanos no Campo da Revolução em Luanda.

Recordar, em homenagem às vítimas, o facto de no dia 29 de Setembro de 1991, o MPLA ter assassinado em Malange, o secretário Provincial da UNITA naquela Província, Lourenço Pedro Makanga, a que se seguiram muitos outros na mesma cidade.

Recordar, em homenagem às vítimas, o facto de nos dias 22 e 23 de Janeiro de 1993, o MPLA ter desencadeado em Luanda a perseguição aos cidadãos angolanos Bakongos, tendo assassinato perto de 300 civis.

Recordar, em homenagem às vítimas, o facto de em Junho de 1994, a aviação do MPLA ter bombardeado e destruido a Escola de Waku Kungo (Província do Kwanza Sul), tendo morto mais de 150 crianças e professores.

Recordar, em homenagem às vítimas, o facto de entre Janeiro de 1993 e Novembro de 1994, a aviação do MPLA ter bombardeado indiscriminadamente a cidade do Huambo, a Missão Evangélica do Kaluquembe e a Missão Católica do Kuvango, tendo morto mais de 3.000 civis.

Recordar, em homenagem às vítimas, o facto de entre Abril de 1997 e Outubro de 1998, na extensão da Administração ao abrigo do protocolo de Lusaka, o MPLA ter assassinado mais de 1.200 responsáveis e dirigentes dos órgãos de Base da UNITA em todo o país.

Recordar. Recordar apenas...

Transparência e boa governação parecem ser
a solução mais correcta para países africanos

Com a crise internacional a criar constrangimentos orçamentais nos países desenvolvidos, levando alguns a reduzir da ajuda ao desenvolvimento, os dirigentes africanos têm de reforçar a transparência e boa governação para poderem atrair capitais, dizem diferentes especialistas.

Falando no seminário internacional "África e a Crise", organizado pela RDP África, Mira Amaral, ex-ministro e actual presidente do banco luso-angolano BIC, foi o mais contudente na responsabilização dos dirigentes africanos na procura de respostas para as dificuldades actuais, apesar de os seus países estarem apenas a "apanhar por tabela", com o abrandamento das suas economias.

"É do mais elementar realismo sobre o género humano dizer-se que têm de ser os africanos a criar condições para entrarem na economia global", em particular práticas de boa governação, respeito pelos investidores e combate à corrupção, afirmou Mira Amaral.

Antes da crise, adiantou, já havia "problemas sérios" nos países africanos, e nalguns deles o cenário era mesmo "desastroso", "muito por culpa dos seus dirigentes".

"Gostamos de África, também temos travado combates por África mas obviamente que tudo tem de ter uma lógica económica subjacente", referiu o ex-ministro.

Mira Amaral insurgiu-se contra a tendência para considerar os ocidentais como "maus da fita", esquecendo as responsabilidades dos próprios dirigentes e de nações emergentes como a China, cujo envolvimento em África passa por "sacar o petróleo e os recursos naturais de que precisa como de pão para a boca".

Certo, referiu, é que a ajuda ao desenvolvimento está hoje "em questão", com aumento da dívida e diminuição da colecta dos impostos nos países desenvolvidos.

"Nós também estamos mais pobres, é tão simples quanto isto", afirmou.

Também para Mário Machungo, presidente do Banco Millennium BIM, cabe aos africanos decidir "qual o melhor caminho a seguir, em vez de depender das soluções apresentadas pelo exterior".

Contudo, disse, se não forem tomadas medidas para reforçar a ajuda a alguns países africanos, os esforços recentes no combate à pobreza podem ser "anulados ou seriamente prejudicados".

"É possível que nalguns países os governos se vejam obrigados a cortar em despesas sociais com educação, habitação ou saúde", afirmou.

João Gomes Cravinho, secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, faltou ao evento mas deixou uma mensagem gravada em que sublinha que os países africanos foram "profundamente afectados pela crise", embora menos no caso dos mais transparentes, entre eles dois lusófonos.

"Cabo Verde e Moçambique são países que conseguiram sobreviver razoavelmente às consequências da crise, porque se adaptaram com mecanismos de transparência, responsabilização das elites políticas face às populações (...) é fundamental que isto continue", afirmou.

"A crise confronta África com problemas muito sérios e interpela-nos a todos - africanos, não africanos e a nós portugueses pela possibilidade que temos de promoção de relação forte entre União Europeia e África - e coloca desafios sérios, que não se resolverão facilmente mas que devem também ser vistos como oportunidades", frisou.

Cravinho deixou ainda o alerta de que os países africanos têm menos margem para respostas contra-cíclicas, "a não ser que apoio venha do exterior", e que o cenário de manutenção do actual nível de ajuda ao desenvolvimento é "optimista".

Isabel Mota, administradora da Fundação Gulbenkian, sublinhou que não se percam definitivamente os ganhos dos últimos anos, a nível económico e social, devem ser mantidos os níveis de ajuda mas também de investimento e de empenhamento na erradicação da pobreza.

Isto, afirmou, passa por "lutar para que sejam honrados os compromissos assumidos pelos parceiros internacionais" mas também por "uma maior transparência, previsibilidade, alinhamento e trabalho cúmplice" entre países dadores e parceiros africanos.

"É a única maneira para que o progresso económico de África continue após a crise", que veio interromper aquela que é considerada a década de maior crescimento desde as independências, afirmou.


Fonte: Lusa