quarta-feira, maio 12, 2010

Verdades da UNITA de nada servem

A reinserção social dos ex-militares, especificamente da UNITA, acordada com o governo do MPLA nas negociações que tiveram lugar para por cobro à guerra, “continua lenta”, afirmou hoje Alcides Sakala, acrescentando que isso “deixa em situação de miséria essas pessoas”.

“São situações que podem transformar-se em problemas de conflito social graves”, frisou o porta-voz da UNITA quando fazia o balanço do périplo nacional realizado pelo líder do partido, Isaías Samakuva.

A UNITA continua a chorar sobre o leite derramado. Não basta, aliás, ir muito longe para ver que quem faz acordos com a onça acaba por ser comido.

Na altura do Natal do ano passado, e de acordo com dados oficiais do regime do MPLA, 15 196 ex-militares iriam beneficiar (o que é obra!) em 2010, de charruas, carroças, sementes agrícolas diversas e fertilizantes, para o reforço da capacidade de produção agro-pecuária nas comunidades rurais dos 11 municípios da província do Huambo.

A entrega destes instrumentos de trabalho enquadrava-se na implementação do programa do governo de reforço à reintegração dos ex-militares, lançado no dia 21 de de Dezembro de 2009 na comuna de Tchipipa (Huambo).

Presumindo que tamanha generosidade do MPLA (partido no poder em Angola desde 1975) também abarcaria ex-militares da UNITA, atrevi-me na altura a perguntar: Terá valido a pena ser militar da UNITA? Terá sido para isto que o mais Velho tanto lutou?

As perguntas são minhas embora julgue serem comuns a muitos desses soldados.

Terá sido para isto que tantas vezes, em Umbundu (mas não só) Jonas Savimbi dizia «ise okufa, etombo livala»? (em português, prefiro antes a morte, do que a escravatura).

Num cenário em que os poucos que têm milhões (quase todos do MPLA mas onde aparecem também alguns da UNITA) continuam a ter cada vez mais milhões e em que, no mesmo país, muitos milhões não têm sequer o que comer, não me custa a crer que a linguagem das armas volte a ser equacionada.

Mal por mal, antes a morte do que a escravatura. E se antes foi o tempo dos contratados e de os escravos ovimbundus ou bailundos irem para as roças do Norte, agora é o enxovalho para ter “peixe podre, fuba podre… e porrada se refilares”

«Sekulu wafa, kalye wendi k'ondalatu! v'ukanoli o café k'imbo lyamale!»: Morreu o mais velho, agora ireis apanhar café em terras do norte como contratados, ou ser escravos na terra que ajudaram a, supostamente, libertar.

E não vale a pena pensar que os alertas lançados ao mundo vão ter algum resultado prático. Isto porque é muito mais fácil negociar com um regime ditatorial do que com um que seja democrático. É muito mais fácil negociar com alguém que, à partida, se sabe que irá estar na cadeira do poder durante toda a vida, do que com alguém que pode ao fim de um par de anos ser substituído pela livre escolha popular.

É, como acontece com José Eduardo dos Santos, muito mais fácil negociar com o líder de um clã que representa quase 100 por cento do Produto Interno Bruto, do que com alguém que não seja dono do país mas apenas, como acontece nas democracias, representante temporário do povo soberano.

Bem visível na caso angolano é o facto de, como em qualquer outra ditadura, quanto mais se tem mais se quer ter, seja no país ou noutro qualquer sítio. Por muito pequeno que seja o ditador, o que não é o caso de José Eduardo dos Santo, a História mostra-nos que tem sempre apreciável fortuna espalhada pelo mundo, seja em bens imobiliários (como era tradição) ou mais modernamente nos paraísos fiscais.

Reconheça-se, entretanto, a estatura política de José Eduardo dos Santos, visível sobretudo a partir do momento em que deixou de poder contar com Jonas Savimbi como o bode expiatório para tudo o que de mal se passava em Angola.

Desde 2002, o presidente vitalício (ao que parece) de Angola tem conseguido fingir que democratiza o país e, mais do que isso, conseguiu (embora não por mérito seu mas, isso sim, por demérito da UNITA) domesticar completamente todos aqueles que lhe poderiam fazer frente.

Não creio que, até pelo facto de o país ter estado em guerra dezenas de anos, José Eduardo dos Santos tenha as mãos limpas de sangue. Aliás, nenhuma ditador com 31 anos de permanência seguida no poder, tem as mãos limpas.

Mas essa também não é uma preocupação. Quando se tem milhões, pouco importa como estão as mãos. Aliás, esses milhões servem também para branquear, para limpar, para transplantar, para comprar (quase) tudo e (quase) todos.

Tudo isto é possível com alguma facilidade quando se é dono de um país rico e, dessa forma, se consegue tudo o que se quer. E quando aparecem pessoas que não estão à venda mas incomodam e ameaçam o trono, há sempre forma de as fazer chocar com uma bala ou de ter um acidente.

Acresce, e nisso os angolanos não são diferentes dos portugueses ou de qulquer outro povo, que continua válida a tese de que “se não consegues vencê-los junta-te a eles”. Não admira por isso que José Eduardo dos Santos tenha mais alguns fiéis seguidores, sejam militares, políticos, empresários e até supostos jornalistas.

É claro que, enquanto isso, o Povo continua a ser gerado com fome, a nascer com fome, e a morrer pouco depois... com fome. E a fome, a miséria, as doenças, as assimetrias sociais são chagas imputáveis ao Poder. E quem está no poder há 31 anos é sempre o mesmo, José Eduardo dos Santos. Até um dia, como é óbvio.

terça-feira, maio 11, 2010

Dêem um helicópetro a João Gomes Cravinho

O secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação de reino lusitano, João Gomes Cravinho, comentou hoje que “não é mais um helicóptero que vai resolver os problemas” de narcotráfico na Guiné-Bissau.

Tem toda a razão. Desde logo porque veio chamar burro ao vice-chefe do Estado Maior General das Forças Armadas da Guiné-Bissau que, recentemente, pediu ajuda à comuniade internacional para combater o narcotráfico, dizendo que a ajuda até poderia ser “um helicóptero em segunda mão”.

Falando em Bruxelas, João Gomes Cravinho disse que “o problema é mais profundo do que isso”, acrescentando que “se fosse esse seria mais fácil de resolver”.

A afirmação de Gomes Cravinho, que não percebeu o exemplo em sentido figurado do militar guineense, mostra que o rapaz que comanda a Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação de Portugal não só não sabe o que diz como é especialista em dizer o que não sabe.

Para o secretário de Estado do reino lusitano, a questão “depende da reforma do sector da segurança”, já que, neste momento, as Forças Armadas guineenses "não têm exercido o seu poder da forma mais apropriada”.

Neste momento, entenda-se. Tal como foi noutro momento com outros protagonistas: Bubo Na Tchuto, Hélder Proença, Baciro Dabó, Tagmé Na Waié, João Bernardo Nino Vieira etc. etc.

João Gomes Cravinho insiste na ideia de que o problema de fundo reside na fragilidade das instituições, mais do que propriamente na falta de meios, razão pela qual defende a permanência da missão da União Europeia para a reforma do sector da segurança na Guiné-Bissau.

Em Janeiro, quando oficialmente Bubo Na Tchuto era procurado pela justiça e se tinha refugiado na sede da ONU em Bissau, João Gomes Cravinho disse que o caso veio "expor completamente a fragilidade das instituições" guineenses.

Basta ler (se alguém tiver paciência para isso) o que Gomes Cravinho disse uma vez, nem que seja há um par de anos, para se saber que sempre que fala da Guiné-Bissau usa as mesmas ideias, os mesmos argumentos, a mesma teoria e, é claro, a mesma passividade.

E por falar em Gomes Cravinho, recordam-se que ele afirmou no dia 4 de Dezembro de 2007 que a União Europeia devia libertar-se da "bagagem colonial" na relação com África, reconhecendo que o continente “é hoje um igual" com "progressos notáveis" nos últimos anos?

No dia 25 de Junho do ano passado, João Gomes Cravinho falou pela enésima vez sobre a situação na Guiné-Bissau, apelando para uma resolução rápida da situação dos detidos por militares a 5 de Junho.

João Gomes Cravinho disse então à Lusa que "há um bom consenso quanto à necessidade de melhorar a capacidade de coordenação das Nações Unidas", e ele próprio encorajou o director de Assuntos Políticos a trabalhar nesse sentido.

"Não houve ainda uma decisão do Conselho de Segurança mas as coisas estão muito bem encaminhadas para que haja um prolongamento por mais seis meses da actual missão, UNOGBIS, e, a partir de Janeiro, seja bastante reforçada, com capacidade para fazer a coordenação internacional que tem faltado", esclareceu Gomes Cravinho.

Pois é. Chegou Janeiro, Fevereiro e Março, mas no primeiro dia de Abril ficou a saber-se que, por muito que se diga o contrário, a Guiné-Bissau continua infelizmente a pôr, perante a passividade dessa coisa que dá pelo nome de CPLP, a razão da força acima da força da razão.

Mais do que tapar o sol com uma peneira, como faz por regra Portugal em relação à Guiné-Bissau, é preciso que se entenda que – por exemplo – realizar eleições não é só por si sinónimo de democracia. Mas isso nunca será dito por Lisboa.

Só a verdade, ou o que dela estiver mais próximo, pode ajudar a Guiné-Bissau a enfrentar os seus mais graves problemas, sejam eles relativos aos senhores (políticos e militares) do narcotráfico ou, ainda, aos que de fora e sob a capa de amigos equidistantes (caso de Angola) estão já a marcar território e a olhar não para as veias dos guineenses mas para os veios petrolíferos.

Será que, no caso da Guiné-Bissau, Portugal e a CPLP têm medo de alguma coisa? Será que acreditam que uma mentira viva é melhor do que uma verdade póstuma? Será que temem que a verdade faça implodir o país? Será que, por alguma razão, uma eventual implosão poderá atingir alguns políticos portugueses ou de outros países da CPLP?

Continuo a pensar que os guineenses preferem ser salvos pela verdade, por muito dura que ela seja, do que assassinados pela mentira, por muito adornada e celestial que ela seja.

Pena é que, num sistema lusófono em que a aparência vale muitos mais do que a realidade, se continue a instituir o primado da impunidade e da imunidade baseado na mentira oficilizada, no caso português, por João Gomes Cravinho.

Liberdade de imprensa? Onde?

O pré-relatório da Comissão de Ética do Parlamento português conclui algo que me parece anacrónico, ou seja, que existem condicionantes à liberdade de imprensa em Portugal.

O pré-relatório refere hoje, embora ainda esteja sujeito à censura rosa e aos retoques laranja, que existe "intervenção diversificada e sofisticada do poder político e do poder económico".

Por outras palavras, o pré-relatório não ouviu os únicos protagonistas que sabem da matéria, ou seja, os donos dos jornalistas e os donos dos donos. Se os ouvissem saberiam os deputados que o que mais há em Portugal é liberdade de imprensa.

Eu sei que a Repórteres Sem Fronteiras (RSF) diz que Portugal, em matéria de liberdade de Imprensa, desceu do 16º lugar, em 2008, para o 30º, em 2009, não tendo para a sua análise ainda contado com a clarificadora intervenção de Ricardo Rodrigues, o deputado do Partido Socialista, vice-presidente do Grupo Parlamentar e membro do Conselho Superior de Segurança Interna que furtou (ele chama-lhe “tomar posse”) gravadores a jornalistas.

Mas esses da Repórteres Sem Fronteiras são outros que tais. Não percebem nada da matéria... e era tão simples perceber. Bastava perguntar ao perito dos peritos, José Sócrates, ou ao seu auxiliar, igualmente perito, Augusto Santos Silva.

O pré-relatório elaborado pela deputada comunista Rita Rato adianta ainda que há falta de transparência na propriedade dos meios de comunicação social.

Mais uma treta. Que importa saber quem são os donos dos meios de comunicação social se, de facto, acima deles ainda estão outros donos e às vezes outros acima destes?

O pré-relatório devia dizer, isso sim, que em Portugal José Sócrates, enquanto primeiro-ministro, chegou tão cedo ao sector da comunicação social que conseguiu, sem grande esforço e em muitos casos apenas por um prato de lentilhas, fazer com que os seus mercenários, chefes de posto ou sipaios, titulares, ou não, de Carteira Profissional de Jornalista, fizessem da imprensa o tapete do poder.

O pré-relatório devia dizer, isso sim, que em Portugal José Sócrates, enquanto primeiro-ministro, chegou tão cedo que conseguiu, sem grande esforço e em muitos casos apenas por um prato de lentilhas, transformar jornalistas em criados de luxo do poder vigente.

O pré-relatório devia dizer, isso sim, que em Portugal José Sócrates, enquanto primeiro-ministro, chegou tão cedo que conseguiu, sem grande esforço e em muitos casos apenas por um prato de lentilhas, garantir que esses criados regressarão mais tarde ou mais cedo (muitos já lá estão) para lugares de direcção, de administração etc..

O pré-relatório devia dizer, isso sim, que preocupante é a promiscuidade do jornalismo com a política (sobram os exemplos de jornalistas-assessores e de assessores-jornalistas), mas também o enxovalhar da ética entre os próprios jornalistas ou, pelo menos, entre os que se dizem jornalistas mas que estão ao serviço do poder, seja ele político, económico, desportivo ou outro.

O pré-relatório devia mostrar, isso sim, preocupação com o facto de que quem aceita ser enxovalhado pode a curto prazo – basta olhar para muitas das Redacções - ser director ou administrador.

O pré-relatório devia dizer, isso sim, que em Portugal a ética jornalística tornou-se aquele regra fundamental que aparece a seguir à última... quando aparece. E assim lá vai o jornalismo português cantando e rindo a bem, é claro, de uma qualquer nação que, na maioria dos casos, se confunde com servilismo político e económico.

Servilismo que, por regra, tem boas compensações monetárias. Daqui a uns tempos alguns destes supostos jornalistas vão estar a assessorar partidos e ou empresas para, tempos depois, assumirem cargos de direcção ou administração em empresas onde o Estado põe e dispõe.

Tem sido assim e, pelos vistos, assim tem de continuar a ser. O forrobodó no bordel continua a marcar pontos. O Sindicato lá vai “ladrando” mas, é claro, a caravana dos donos da verdade e do país passa, passa sempre.

É claro que a decência (mais do que limpo e asseado deve significar honesto, decoroso) evitaria muitos dos males recentes de um país que, ao que parece, até já foi Pátria. Mas também isso foi banido.

Portugal vive agora, como sempre viveu nas últimas décadas, uma realidade marcada pela corrupção, pela promiscuidade entre a política, a economia, a justiça, o desporto, o jornalismo etc. Agora é mais visível apenas pela simples razão de que o actual poder político quis ser mais papista do que o Papa e pensou ser possível comprar todos os jornalistas por atacado.

Os seus antecessores, tanto do PSD como também do PS, limitavam-se a comprar o essencial, deixando válvulas de escape para o acessório. E o país ia vivendo com esse acessório no convencimento de que era o essencial.

Durante décadas o povo estava entretido, tinha o essencial para viver e lá ia cantando e rindo. Ao permitir que a válvula de escape da sociedade, protagonizada por uma numericamente expressiva classe média, desse o berro, o Governo provocou a implosão da própria sociedade.

E dos cacos que vão sobrando dessa implosão é difícil restabelecer qualquer clima de confiança nas instituições e, muito menos, nos seus arautos ou artífices. Os portugueses sabem que o critério, que deveria ser sagrado para dirigir as instituições, não é o da competência mas, antes e sobretudo, o da subserviência.

E sabendo isso por experiência própria, dificilmente voltarão a acreditar num país que vive no sistema de todos a monte e fé no Estado, que o importante não é ser mas antes parecer.

E como se tudo isso não fosse mais do que suficiente, transparece a ideia de que há cidadãos que estão acima da lei, vingando a tese de que o crime compensa.

Louvados sejam os pobres de espírito

Bento VXI está em Portugal. Milhares e milhares de cidadãos olham para o Papa com esperança em alguma coisa. Provavelmente desejam o mesmo que outros povos: saúde, trabalho, comida e paz.

O reino lusitano volta agora aos seus velhos três efes: Futebol, Fátima e Fado. Os portugueses estão com cada vez mais dificuldades em ter comida (20% são pobres, outros 20% têm a pobreza a bater à porta e são 700 mil os desempregados), mas alimentam o espírito com esses três efes.

E enquanto isso, o governo lá os vai obrigando a pagar mais impostos, a apertar ainda mais o cinto, a engrossar o desemprego, a aumentar a miséria. Mas, é verdade, louvados sejam os pobres de espírito.

Quanto ao Papa Bento XVI, que como todos os elementos da Igreja Católica tem pelo menos três refeições por dia, lá vai dizendo algumas verdades, embora saiba que as palavras leva-as o vento.

O Papa faz o diagnóstico, muitas vezes com precisão, mas depois tudo volta ao normal, ou seja, o doente morre pouco depois. Diagnóstico sem medicação é mais ou menos como uma guitarra sem cordas.

Lembram-se, por exemplo, do que disse o Papa em Angola no dia 20 de Março do ano passado? Vejamos: considerou essencial para uma “democracia civil moderna” o “respeito e promoção dos Direitos Humanos”, um “Governo transparente”, uma “magistratura independente”, uma comunicação social “livre” e “acabar de uma vez por todas com a corrupção”.

Mais de um ano depois deste diagnóstico, qual é o resultado? Tudo na mesma. Louvados sejam os pobres de espírito.

Nessa altura, em Luanda, o Papa disse nas entrelinhas que era essencial tudo aquilo que Angola não tinha e que continua sem ter.

Num encontro com as autoridades políticas e civis angolanas e com o corpo diplomático no Palácio Presidencial da capital do país, o Papa afirmou o mesmo que disse hoje em Portugal: que chegou o tempo da esperança.

Bento XVI juntou aos citados requisitos para construir uma “democracia civil moderna” uma “administração pública honesta, uma rede de escolas e de hospitais que funcionem de modo adequado e a firme determinação, radicada na conversão dos corações, de acabar de uma vez por todas com a corrupção”.

Louvados sejam os pobres de espírito. Até porque há coisas que a Igreja Católica não vê, outras que não quer ver, muitas que vê mas silencia... também ela a bem de uma nação em que poucos têm milhões e milhões pouco mais têm do que fé.

segunda-feira, maio 10, 2010

Ser ditador (como bem sabem Dos Santos e Obiang) só é mau quando se perde o poder

Uma coligação de 28 grupos de defesa dos direitos humanos condenou hoje a UNESCO por ter projectado atribuir um prémio patrocinado pelo Presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema.

Aqueles grupos disseram que a agência das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura deveria dissociar-se de “um dos mais infames ditadores mundiais”, como o é este homem de 67 anos que há três décadas se encontra no poder.

Não consta que essa coligação tenha tomado igual, parecida ou ligeiramente semelhante, em relação a Angola cujo presidente, não eleito, está no poder há 31 anos e que, além disso, o seu regime (no poder desde 1975) vai presidir a partir de Julho à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – CPLP.


Obiang, que a revista norte-americana “Forbes” já apresentou como o oitavo governante mais rico do mundo, e que depositou centenas de milhões de dólares no Riggs Bank, dos EUA, tem sido acusado (tal como como o seu homólogo angolano) de manipular as eleições e de ser altamente corrupto, tal como o que se passa em Angola.

O primeiro Prémio de Ciência UNESCO-Obiango, no valor de três milhões de dólares (2,3 milhões de euros), deverá ser atribuído em Junho, numa altura em que o ditador Obiang se prepara para fazer do seu reino pessoal um membro de pleno direito da CPLP, depois de ter estado seis anos com o impávido e sereno estatuto de observador.

Obiang, que chegou ao poder em 1979, derrubando o tio, Francisco Macias, foi reeleito no ano passado com 95 por cento dos votos oficialmente expressos (também contou, como em Angola, com os votos dos mortos), mantendo-se no poder graças a um forte aparelho repressivo, do qual fazem parte os seus guarda-costas marroquinos.

Gozando, como todos os ditadores que estejam no poder, de um estatuto acima da lei, Obiang riu-se à grande e à francesa quando o ano passado um tribunal... francês rejeitou um processo que lhe fora intentado por recorrer a fundos públicos para adquirir residências de luxo em solo gaulês, com a justificação de que – lá como em qualquer parte do mundo - os chefes de Estado estrangeiros, sejam ou não ditadores, gozam de imunidade.

Os vastos proventos que a Guiné Equatorial, como escreve hoje o jornal português Público, recebe da exploração do petróleo e do gás natural poderiam dar uma vida melhor aos 600 mil habitantes dessa antiga colónia espanhola, mas a verdade é que a maior parte deles vive abaixo da linha de pobreza. Em Angola são 70% os pobres...

Recorde-se que no passado dia 29 de Abril, em Lisboa, o presidente moçambicano e líder do partido que governa Moçambique, Frelimo, desde a independência, Armando Guebuza, considerou que a possível adesão da Guiné Equatorial à CPLP poderá servir para aquele país "melhorar o seu relacionamento", nomeadamente no que diz respeito aos direitos humanos.

Para além de se saber que a força da Guiné Equatorial está no petróleo, se calhar sabe bem a alguns países lusófonos ser enganados por mentiras que tentam ser pela insistência uma verdade.

Questionado sobre se concordava com a adesão à CPLP de um país que é referenciado pelas organizações internacionais no que respeita à violação dos direitos humanos, Guebuza disse acreditar que a Guiné Equatorial vai "fazer tudo para se conformar com aquilo que são as normas na CPLP".

Normas de quê? De quem? Da CPLP? Mentir é uma coisa, gozar a inteligência dos outros é outra, por sinal bem diferente, concordem ou não José Eduardo dos Santos, Armando Guebuza ou Cavaco Silva.

Verdade é que ninguém se atreve a perguntar a Guebuza e a Cavaco Silva se acham que Angola respeita os direitos humanos ou se é possível que a presidência da CPLP vá ser ocupada por um país cujo presidente, José Eduardo dos Santos, no poder há 31 anos, não foi eleito.

Sobre a mesma questão, o Presidente português escusou-se a antecipar a decisão dos chefes de Estado e de Governo, que vão analisar a proposta de adesão da Guiné Equatorial na próxima cimeira da CPLP, em Julho, em Luanda, mas advertiu que todos os Estados interessados em aderir à comunidade "têm que ter em atenção os estatutos na CPLP".

Advertiu quem? Os que querem entrar? E então os que já lá estão? Será que o que se passa, por exemplo, em Cabinda com execráveis violações dos direitos humanos, é uma questão menor?

É claro que é uma questão menor. Ou não fosse o MPLA dono de Angola, ou não fosse Angola a potência petrolífera que é, para além de ser o primeiro mercado importador de bens portugueses fora da Europa, tendo já passado os EUA.

A verdade, incómoda para os donos do poder, seja em Portugal, Moçambique ou Angola, é que a CPLP está a ser utilizada de forma descarada para fins comerciais e económicos, de modo a que empresas portuguesas, angolanas e brasileiras tenham caminho livre para entrar nos novos membros, caso da Guiné Equatorial.

Reconheça-se, contudo, que tomando como exemplo Angola, a Guiné Equatorial preenche todas as regras para entrar de pleno e total direito na CPLP. Não sabe o que é democracia mas, por outro lado, tem fartura de petróleo, o que é condição sine qua non para comprar o que bem entender.

Há quem defenda, certamente à revelia dos mais altos interesses petrolíferos, que o caso da Guiné Equatorial deveria ser alvo de uma reflexão mais profunda. Não se vê para quê.

Para aderir, o país terá de adoptar o português como língua oficial, a par do espanhol e do francês e, no âmbito de um acordo assinado em 2009, Portugal disponibilizou-se para enviar professores de português e apoiar a formação de quadros do país africano em universidades portuguesas ou do espaço lusófono, através do Fundo da Língua Portuguesa.

Governada, como Angola, há mais de 30 anos por Teodoro Obiang Nguema, a Guiné Equatorial é frequentemente acusada por organizações não governamentais de corrupção e atentados aos direitos humanos.

E se isto nada significa em relação a Angola, convenhamos que não pode servir de obstáculo à entrada da Guiné Equatorial.

Legenda: Teodoro Obiang Nguema é o da... esquerda.

domingo, maio 09, 2010

400 mil visitas e 3 731 textos publicados

Ao fim de 3 731 mensagens o Alto Hama atingiu as 400 mil visitas. Cabe, por isso, agradecer a todos os que, regularmente ou não, por aqui vão passando.

Agradeço aos poucos que me estendem a mão sempre que tropeço numa pedra; também aos, certamente ainda menos, que fazem o favor de tirar as pedras antes de eu passar; bem como aos que não se cansam de atirar pedras e esconder... a pata. Todos são importantes.

Dizer o que penso ser a verdade continua a ser (aí vêm mais umas tantas pedras) um dos melhores predicados que sigo, se bem que na maior parte das vezes apenas sirva para me criar dores de cabeça e pôr a barriga (ainda) mais vazia.

Aqui pelo Alto Hama a minha liberdade é (quase) total. E é só quase total porque melhor do que pensar (e escrever) livremente é pensar (e escrever) com rectidão, é ter a noção de que a minha liberdade termina onde começa a dos outros. Nunca esquecendo, contudo, que a dos outros (mesmo que sejam os donos do poder) termina onde começa a minha.

Em Angola, onde nasci em 1954 e vivi até 1975 (por muito que isso custe a acéfalos e inéptos desta e de outras praças), aprendi que devo ser o que sou e não o que os outros querem que eu seja... mesmo quando vão subindo o preço da compra.

Tem sido uma tarefa complicada, tão forte é a pressão dos que nos querem acéfalos, autómatos e, como se isso não bastasse, invertebrados também.

É claro que entre as ruas do Bairro de Benfica (foi aí, junto à Escola Primária, que a parteira Maria de Lupes me deu uma mão) da então Nova Lisboa e a cidade Alta (a terceira rua à direita a seguir ao Colégio das Madres, a caminho do aeroporto, foi a última etapa de um sonho) fui aprendendo outras coisas que ainda hoje continuam válidas.

No Liceu Nacional General Norton de Matos (que saudades Professora Dorinda Agualusa, que saudades!) aprendi coisas que estão arquivadas no disco duro da memória e outras que estão on line. Todas me ajudam a compreender que só é derrotado quem deixa de lutar.

Entre dias sem pão e pão sem dias, lá fui e lá vou (assim dizia João Charulla de Azevedo) projectando o melhor, esperando o pior e aceitando de ânimo igual o que Deus quiser.

Mas o que mais conta é que, salvo retoques externos de embalagem, continuo no essencial a acreditar no (im)possível. É por isso que a luta continua porque... ninguém nos cala.

E se calarem alguns, outros estão prontos para a luta, por muitas que sejam as pedras ou as facadas... nas costas.

Angolanos de primeira segundo o MPLA
- Portugueses de primeira segundo o PS

Os angolanos já assimilaram que só um povo informado consegue ser livre. Deve ser por isso que, segundo a Repórteres Sem Fronteiras (RSF), Angola passou, em matéria de liberdade de imprensa, da posição 116º em 2008 para a 119º em 2009.

No âmbito da Lusofonia, Cabo Verde caiu, no mesmo período, de 36º para 44º lugar, Timor-Leste de 65º para 72º, Guiné-Bissau de 81º para 92º. Mas algun subiram. O Brasil passou do 82º lugar para o 71º e Moçambique do 90º para o 82º.

E deve ser por tudo isto (provável excesso de liberdade de imprensa) que nos areópagos da política dos reinos lusitano e angolano se volta a reanimar a tese evidenciada, em 2001, pelo então secretário para as relações exteriores do MPLA, Paulo Teixeira Jorge.

Tese essa que sustentava que o Governo português não deveria permitir que "portugueses de ocasião" interferissem nos assuntos internos de Angola, tal como os “angolanos de ocasião” deveriam também ser impedidos de falar sobre Angola.

Na altura, e um pouco à semelhança do que ainda hoje se passa, Paulo Teixeira Jorge não teria ouvido falar de democracia. Não sabia o que era e, por isso, julgava-se no direito de dar palpites sobre um Estado de Direito que Portugal quase chegou a ser e que Angola, até agora, nunca foi.

"Existe o princípio universal da não ingerência nos assuntos internos (de outro Estado) e eu creio que Portugal, através dos órgãos competentes, poderia recomendar a esses ditos portugueses (elementos afectos à UNITA que vivem em Portugal) para não se meterem nos assuntos internos (de Angola)", afirmou na altura Paulo Teixeira Jorge, referindo-se ao facto do relatório do então mecanismo de fiscalização das sanções contra a UNITA apresentar Portugal como a principal base de apoio do movimento de Jonas Savimbi na Europa.

Hoje, com pressupostos legais diferentes, o MPLA continua a insistir no sentido de Portugal calar todos aqueles que pensam com a sua própria cabeça, que têm coluna vertebral e que (ainda) não foram cmmprados pelo regime angolano.

O “crime” já não é tanto o de os “portugueses ou angolanos de ocasião” apoiarem a UNITA, mas sobretudo o de criticarem o regime, nomeadamente em relação a Cabinda.

E, a fazer fé no muito que se vai lendo, as teses de Paulo Teixeira Jorge fizeram escola. Portugal hoje, muito mais do que 2001, convirá que todos o entendam de uma vez por todas, é um país rendido ao petróleo (e não só) da família Eduardo dos Santos.

E é por issso que, mais ou menos de forma velada, as autoridades de Lisboa vão aconselhando a que se moderem as críticas ao regime angolano. Acrescentam, aliás, que se não houver moderação... outras medidas terão de ser tomadas.

Seja como for, todos aqueles que catalogam os angolanos e os portugueses em duas classes, os de primeira (afectos ao MPLA ou ao PS, ou a ambos) e os de segunda (afectos aos outros partidos ou simplesmente apartidários), devem perceber que nem mesmo pela barriga conseguirão calar os que são livres.

"... Eles são portugueses de ocasião, fundamentalmente são angolanos que se tornaram portugueses depois da evolução da situação em Angola", afirmou na altura Paulo Teixeira Jorge, para quem o Governo português também deveria "chamar a atenção" dos elementos da Frente de Libertação do Enclave de Cabinda (FLEC) que se encontravam em Portugal.

De ocasião ou não, angolano ou português, recuso-me a deixar de dizer o que penso ser a verdade. Ainda mais agora que, por acção directa do PS e indirecta do MPLA, estou quase a saber viver sem comer...

O que (não) dirá Angola na cimeira contra a fome que amanhã terá inicío em Brasília?

Provavelmente será o ministro da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e Pescas, Afonso Canga, quem representará Angola na cimeira que começa amanhã em Brasília e que, numa iniciativa inédita do Governo de Lula da Silva, visa declarar guerra à fome, e na qual estarão presentes ministros africanos, incluindo todos os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa - PALOP.

Será que, em abono da verdade e da tão proclamada (embora ainda não vista) transparência, Afonso Canga vai reconhecer que 68% (68 em cada 100) dos angolanos são gerados com fome, nascem com fome e morrem pouco depois com fome?

Será que vai reconhecer que 45% das crianças angolanas sofrerem de má nutrição crónica, sendo que uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos?

Será que vai reconhecer que Angola estava, em 2008, na posição 158 no “ranking” que analisa a corrupção em 180 países, e, em 2009, passou para a ... 162?

Será que vai reconhecer que a dependência sócio-económica a favores, privilégios e bens é o método utilizado pelo MPLA (no poder desde 1975) para amordaçar os angolanos?

Será que vai reconhecer que 80% do Produto Interno Bruto é produzido por estrangeiros; que mais de 90% da riqueza nacional é privada e foi subtraída do erário público e estar concentrada em menos de 0,5% de uma população?

Será que vai reconhecer que o acesso à boa educação, aos condomínios, ao capital accionista dos bancos e das seguradoras, aos grandes negócios, às licitações dos blocos petrolíferos, está limitado a um grupo muito restrito de famílias ligadas ao regime no poder?

Não. Afonso Canga tem mais com que se preocupar. Aliás, é pago para defende os interesses dos poucos que têm milhões e não, obviamente, dos milhões que têm pouco ou nada.

sábado, maio 08, 2010

As banalidades de Mawete João Baptista
como se em Cabinda tudo estivesse bem!

O primeiro secretário do Comité do MPLA na colónia angolana de Cabinda, Mawete João Baptista, exortou hoje as entidaddes religiosas no sentido de primarem pelas quastões espirituiais, visando a preparação e elevação da consciência moral e cívica da população.

“Elevação da consciência moral e cívica da população”? Estará Mawete João Baptista a pensar, entre outros, em Raul Tati, Francisco Luemba, Belchior Lanzo Tati, Barnabé Paca Pezo, Andre Zeferino Puati, José Benjamin Fuca?

O político do MPLA destacado para a colónia de Cabinda fez esta exortação no encontro com reverendos e pastores de diferente religiões, adiantando que na sua conduta o pastor deve ter o cuidado com as questões que lhe possam trazer contradições, combatendo as tendências discriminatórias, tribais, regionais, bem como a desconfiança que, na sua opinião, enfraquecem a nação.

Nação, como diria o homólogo português de José Eduardo dos Santos, de “Cabinda ao Cunene”?

A única forma de não enfraquecer a nação é falar verdade. E essa, quer queira ou não Mawete João Baptista, José Eduardo dos Santos ou Aníbal Cavaco Silva, diz-nos que Cabinda não é Angola.

Para Mawete João Baptista, as igrejas têm o papel mobilizador visando a promoção da amizade, a união entre os crentes, no seio das famílias, o combate contra a violência, de modo a que as populações possam viver em harmonia.

Será para que possam viver em harmonia que o regime colonial de Angola trata em condições execráveis, entre outros, em Raul Tati, Francisco Luemba, Belchior Lanzo Tati, Barnabé Paca Pezo, Andre Zeferino Puati, José Benjamin Fuca?

Recorde-se, entretanto, o que o padre Jorge Casimiro Congo foi recentemente dizer ao Parlamento Europeu (Bruxelas), a convite da eurodeputada socialista Ana Gomes e, certamente, à revelia do grande amigo de Eduardo dos Santos que dá pelo nome de José Sócrates.

Dizendo o que aprendeu com o falecido bispo do Porto, D. António (“diante de Deus, de joelhos; diante dos homens, de pé”) o padre Jorge Casimiro Congo lamentou a posição do Governo português de condenar apenas o que classificou como um ataque terrorista durante a Taça das nações Africanas (CAN), afirmando que “Portugal é o último a falar, não deve ser o primeiro a falar” sobre o enclave.

Se as verdades ajudassem a reduzir o défice português, as que foram ditas pelo padre Congo, não só por serem históricas mas sobretudo actuais, o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, estaria bem da vida e não haveria necessidade de nenum Programa de Estabilidade e Crescimento.

Mas não ajudam. Desde logo porque, da Presidência de República portuguesa ao governo, passando pelo Parlamento e pelos partidos, ninguém sabe o que é, da facto e de jure, Cabinda. Para quase todos, a história de Portugal só começou a ser escrita em Abril de 1974, ou até mais tarde, pelo que – como diz Cavaco Silva – “Angola vai de Cabinda ao Cunene”.

“Portugal é que é o culpado do que acontece em Cabinda. Não nos aceitou, traiu-nos”, disse o padre Congo, referindo-se ao processo de descolonização de Angola que deu de mão beijada e de cócoras o poder ao MPLA e, como se isso não fosse suficiente, rasgou os acordos que tinha asumido com o povo de Cabinda.

Optimista quanto ao futuro, sobretudo porque sabe que o seu povo nunca será derrotado porque nunca deixará de lutar, o padre Congo disse ainda ter esperança de que no futuro haja “governos portugueses com mais calma para ver este problema”, porque acredita “que há partidos que começam a levantar a cabeça” e surgirão figuras que fiquem “acima de quaisquer negociatas, de petróleo, ou de mão-de-obra que tem de ir para Angola”.

É claro que não houve nenhuma reacção oficial de Portugal às acusações do padre Congo. Uns porque entendem (e talvez bem) que quem manda no país é cada vez mais o clã Eduardo dos Santos; outros porque entendem que se o MPLA virar a rota e passar a investir noutro lado lá vão ao charco alguns grandes negócios; outros ainda porque se estão nas tintas para a honorabilidade de um Estado de Direito.

Estado de Direito que Angola não é e que Portugal é cada vez menos.

Charros, imperiais e... gravadores

Eu sei que o dia hoje não está grande coisa. Chuva e frio não são bons atributos para manifestações. Mas, mesmo assim, esperava que fosse uma enchente.

Então não é que apenas – segundo a Lusa - cerca de cem pessoas marcharam hoje no centro de Lisboa pela legalização da marijuana, defendendo um "comércio regulado" e o "respeito pela liberdade" individual?

Mesmo assim, Pedro Pombeiro, porta-voz da Marcha Global da Marijuana (MGM) de Lisboa, deixou o recato do pombal e defendeu que "legalizar permite criar regras, vender em locais próprios, a maiores de idade, fiscalizar".

Nem mais. E convenhamos que se Ricardo Rodrigues, deputado do Partido Socialista, vice-presidente do Grupo Parlamentar e membro do Conselho Superior de Segurança Interna, pode furtar (ele chama-lhe “tomar posse”) gravadores a jornalistas, também é justo que quem quiser possa comprar, pelo menos numa primeira fase, marijuana.

A ilegalização "é um desperdício de recursos que ao mesmo tempo não respeita a liberdade das pessoas de escolherem fazer uma coisa que não faz pior do que muitas outras que são legais", argumentou, e muito bem, Pedro Pombeiro.

Se calhar faz muito mais mal à humanidade ter Ricardo Rodrigues como deputado, vice-presidente do Grupo Parlamentar socialista e membro do Conselho Superior de Segurança Interna, e a verdade é que ele continua por aí impávido e sereno.

"Enquanto consumidores, achamos que era bom contribuirmos com impostos para um comércio legal e regulado, em vez de estarmos na clandestinidade, na ilegalidade porque decidimos fumar charros em vez de beber uma imperial", exemplificou Pedro Pombeiro.

É isso aí. Se uns podem beber sem problemas umas dúzias de imperiais, finos ou cervejas, se até se pode afanar gravadores sem problemas, porque carga de chuva não é possível fumar uns charros?

Cá para mim, o ideal até seria fazer tudo ao mesmo tempo: fumar uns charros, beber umas imperiais, roubar uns gravadores e ser deputado.

Jovens de ambos os sexos, alguns a fumarem charros, transformaram os guarda-sóis do quisoque do Jardim da Mãe d'Água em guarda-chuvas improvisados enquanto preparavam a saída da marcha.

Um homem sobre andas e uma réplica gigante da folha da cannabis eram adereços que se destacavam acima dos guarda-chuvas abertos dos cerca de cem manifestantes, um número avançado à Lusa pela PSP, que acompanhou a marcha.

Transportados pelos manifestantes, que tinham como destino o Largo Camões, sobressaíam também cartazes com dizeres como "Proibição não é solução" ou "O tráfico é contra a legalização da cannabis, e você?".

Acrescente-se que, apesar de por lá terem estado diversos jornalistas, nenhum deles ficou sem gravadores...