domingo, janeiro 09, 2011

Só alguns sentem e poucos compreendem

Tenho, todos os dias, uma lágrima.
Quase sempre no canto do olho.
Essa lágrima perde-se no deserto português.
Se fosse na minha terra quente faria nascer uma flor.
Uma flor sem nome.
Uma daqueles flores que só alguns vêem.
Uma flor que só alguns sentem.
Mas neste deserto, ninguém vê, ninguém sabe o que é sentir.

Quer emprego? Ainda está muito a tempo!
- É fácil e barato: só tem que filiar-se no PS!

De há muito (e por isso estou na fase de aprender a viver sem comer) que considero que qualquer um pode ser chefe, seja do que for. Tal como entendo que para ser líder o processo é diferente. Seja como for, o ideal em Portugal é ser do PS mas, sobretudo e ainda por enquanto, da ala de José Sócrates. Continua a ser fácil, é barato e pode dar emprego e até um... tacho.

É que pensar que se é bom chefe só porque se usa gravata ou porque alguém lhe deu o título, é, mais ou menos, como pensar que se é pintor só porque se conhecem as cores do arco-íris. Um chefe dá ordens, um líder dá o exemplo. É por isso que em Portugal abundam os chefes e faltam os líderes.

Em entrevista no dia 28 de Junho do ano passado ao Público, Narciso Miranda dizia que “o PS tem um chefe e não um líder”, acrescentando que “quando assumimos o poder, houve uma prática de muita arrogância e autismo”, e que foi “a partir desse momento que apareceram muitos cristãos-novos, que não conheciam bem, ou não tiveram o cuidado de conhecer, o projecto ideológico do PS e estamos agora a pagar uma factura pesada dessa arrogância...”

É por isso que para mim é, hoje como ontem, confrangedor o culto ao chefe por parte dos socialistas. Eu sei que já há muitos a dar sinais de que a todo o momento (basta o chefe deixar de o ser) podem mudar de barricada. Mas, mesmo assim, tenho alguma dificuldade em entender como é que socialistas inteligentes continuam de cócoras e, parafraseando Renato Sampaio, têm “falta de coragem para escreverem o que pensam”.

É bem verdade, no entanto, que mudam-se os tempos... mudam-se as vontades. Num artigo de opinião do jornal Público há para aí três anos, intitulado "Contra o medo", Manuel Alegre criticava "a confusão entre lealdade e subserviência" que, segundo o socialista, se verificam no Governo de José Sócrates. Recordam-se?

"Há um clima propício a comportamentos com raízes profundas na nossa História, desde os esbirros do Santo Ofício até aos bufos da PIDE", escreveu Manuel Alegre, acusando o Partido Socialista de "auto-amordaçar-se". Recordam-se?

Mas a vida é mesmo assim, sobretudo nas ocidentais praias lusitanas a norte, embora cada vez mais a sul, de Marrocos. O presente (e se calhar o futuro) está para os que sabem assinar apenas o que lhe mandam, para os que têm coluna vertebral amovível e que quase sempre a deixam em casa, para os que pensam com a cabeça do chefe.

Estas são, aliás, características que podem abrir a qualquer cidadão lugares bem remunerados na Assembleia da República portuguesa, nos partidos, no governo, nas empresas públicas etc..

Pelo contrário, os que são daquela espécie profissional que acha que dizer a verdade é a melhor qualidade, que pensa que deve dar voz a quem a não tem, o melhor é ir pregar para outra freguesia ou deixar-se estar no desemprego.

Se, pelo contrário, considera que a única verdade é a verdade do chefe, se para si o importante é ajudar os poucos que têm milhões a ter mais uns milhões, pouco importando os milhões que têm pouco ou nada, se não consegue assinar (porque não sabe assinar) a ficha de candidatura, mas consegue pôr o dedo, ou já é ou será um grande político, autarca, deputado, ministro, gestor, director e por aí fora.

Durante anos (muitos, é certo) Portugal parecia um país sério, mas não era. Agora não parece nem é. São cada vez mais os exemplos (políticos, empresariais etc.) dos que se julgam pianistas só porque compraram um piano. Aliás, continuam a ter em cima do piano a foto em que aparecem a cumprimentar José Sócrates (o cartão do partido, esse está na carteira).

Por outras palavras, se se medir o nível intelectual deste Portugal “made in Largo do Rato” pelo número de pianos, obras de arte etc. é certo que o país está bem colocado.

Numa sociedade onde o que importa é o que se aparenta, onde o relevante é o deslumbrante “play-back” de Luciano Pavaroti quando se tem voz de Zé Cabra, são cada vez mais os que estão na ribalta embrulhados em etiquetas sociais de renome, talvez até importadas de Paris. O presente é, ou parece, ser deles. Se o futuro também o for, então Portugal estará cada vez mais perto de Marrocos.

São como os frutos de plástico que ornamentam as exposições de mobiliário. Lindos, gostosos e sedutores quando vistos à distância… Pena é, contudo, que como a fome é negra, qualquer prato de lentilhas chega para comprar consciências.

Não deixa, contudo, de ser elucidativo ver como o acessório é mais relevante do que o essencial, como o embrulho é mais importante do que o produto, como a capa é mais vital do que o conteúdo, como o cargo é mais paradigmático do que tudo o resto.

É uma sociedade de faz de conta, onde o que importa é dizer-se que se tem um stradivarius por que se sabe que ninguém vai querer saber que o instrumento é, afinal, feito com latas de sardinha e foi comprado na Feira da Vandoma, no Porto.

E assim não vamos lá. Portugal precisa de uma estratégia (ou desígnio) que valorize quem tem ideias e não quem diz que as tem. Que institua o primado da competência independentemente da filiação partidária e das cunhas.

No entanto, para os especialiats em “play-back” de competência, e no caso de ainda o não terem feito, aconselho que garantam, antes que seja tarde, um tacho.

Cavaco não fez mas promete... fazer!

O candidato presidencial português, Cavaco Silva, apelou hoje aos jovens portugueses para que “levantem a voz” e não prescindam de contribuir para “uma vida política diferente”, sublinhando que “a forma de fazer política em Portugal vai mudar no bom sentido.”

Para quem anda nisto à uma porrada de tempo, como é o caso de Cavaco Silva, não está mal. Descobriu agora o que deveria ter descoberto há muitos anos. Vir agora atirar a pedra como se nada tivesse a ver com o que está para trás é, no mínimo, uma atitude hipócrita.

Que Cavaco Silva tenha dificuldade em imaginar os múltiplos dramas dos portugueses, ainda vá que não vá. Não pode, contudo, é escudar-se na ignorância de quem vive longe do país real para sacudir a água do capote e para fingir que não sabe que Portugal talvez gostasse de ser, mas (ainda) não é, um Estado de Direito.

Cavaco Silva e os seus assessores tiveram de esperar pela campanha elitoral para ver o diagnóstico que, há muito, foi feito por quem, mesmo desempregado, não penhorou a liberdade de opinião. E mesmo agora, não se sabe se depois da reeleição não vão fechar os olhos e dormir na santa paz de quem tem pelo menos três refeições por dia.

Um Estado de Direito conquista-se quando se não tem medo de dizer a verdade. E esta, quer o presidente/candidato queira ou não, não é pertença nem do queixoso, nem do réu, nem do juiz e muito menos daqueles que têm dinheiro para comprar o queixoso, o réu e o juiz.

Os políticos de uma forma geral, sejam o Presidente da República, os membros do Governo, os deputados ou autarcas, teimam em tapar o sol com uma peneira, mesmo quando o fazem a meio da noite. Estão a passar um atestado de menoridade aos portugueses, mesmo quando levantam a bandeira do “agora é que vai ser”.

De um presidente de um Estado de Direito (eu sei que não é o caso de Portugal) esperar-se-ia que tomasse medidas para castigar tanto o ladrão que entra em casa como o que fica à porta. Mas não. Cavaco Silva, na sua qualidade de mais alto magistrado da nação, parece querer castigar as vítimas e não os ladrões. Como candidato diz o contrário. Mas será que alguém acredita?

De um presidente de um Estado de Direito (eu sei que não é o caso de Portugal) esperar-se-ia que visse a quem beneficia a infracção, que argumentos usa para cilindrar a liberdade e sobretudo porque o faz de forma completamente impune.

De um presidente de um Estado de Direito (eu sei que não é o caso de Portugal) esperar-se-ia que procurasse - por exemplo - saber como é possível a uma empresa despedir dezenas de trabalhadores quando, poucos meses antes, os donos e ou administradores gastam milhões em proveito próprio.

De um presidente de um Estado de Direito (eu sei que não é o caso de Portugal) esperar-se-ia muita coisa. E não apenas o óbvio para tudo continuar na mesma, para uns relembrarem o António (de Oliveira Salazar) e outros a necessidade de uma nova revolução.

Pois! Mas ainda há uns (e não são poucos) para quem a coisa só se revolve a tiro. Parece-me uma boa opção. Temo, contudo, que ao escolher-se a política do olho por olho, dente por dente, fiquemos todos cegos e desdentados. E se calhar os responsáveis pela tragédia vão continuar a ter pelo menos um olho e dois dentes e muitas mamas à disposição.

De uma coisa os portugueses não podem esquecer-se: Como dizia Platão: "O castigo por não participares na política é acabares por ser governado por quem te é inferior."

José Sócrates nem... nem sai de cima

José Sócrates não fo... nem sai de cima. E graças a essa estratégia socialista, são os portuguese que se fo... A prova disso voltou a ser dada quando o ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira, veio dizer que o Portugal socialista “está a fazer o que deve” para enfrentar a crise das dívidas soberanas, sustentando que o problema tem dimensão “especulativa” transnacional. Descobriram a pólvora.

Tal como faz regularmente o primeiro-ministro (o mimetismo é atávico neste PS), também Silva Pereira volta a afastar a possibilidade de Portugal recorrer a uma intervenção do Fundo Monetário Internacional (FMI) para solucionar o seu problema com a dívida soberana.

Silva Pereira considerou que o relatório do Banco Mundial, intitulado “doing business 2011”, que avalia o ambiente de negócios foi “muito positivo para Portugal”.

“Este relatório foi muito positivo para Portugal, porque passa da posição 48 para a 31 no ranking, progredindo 17 lugares. Portugal surge agora numa posição claramente mais favorável do que outros países do sul da Europa, com os quais habitualmente se estabelecem comparações”, sublinhou o ministro, atirando os foguetes e apanhando as canas.

De acordo com o ministro da Presidência, a subida de Portugal deveu-se (está bom de ver) “à implementação de um conjunto de reformas na sua administração pública, em particular com o programa Simplex”.

“Este relatório corrigiu distorções de outros anteriores no que respeita à ponderação da situação no mercado de trabalho. O Banco Mundial reconheceu que a distorção favorecia Estados que não asseguram o cumprimento das convenções em matéria de protecção no mundo do trabalho e prejudicavam objectivamente os estados de Direito”, apontou Silva Pereira, certamente baseado nos 700 mil desempregados, nos despedimentos colectivos, nas falência etc.

Já em Julho, Pedro Silva Pereira considerava que Portugal “não pode estar sempre em eleições” e defendeu que “a instabilidade política é negativa para os interesses das famílias, das empresas e dos portugueses em geral”.

Mas entre a instabilidade e a eventualidade de uma mudança para melhor (para pior é difícil) a opção dos 700 mil desempregados, dos 20% de miseráveis e de outros 20% de pobres não é difícil de advinhar, por muito que isso custe ao sumo pontífice do PS e aos seus acólitos.

“Precisamos de trabalhar e executar os programas que foram aprovados para dar confiança à economia portuguesa. Mas o que não inspira qualquer confiança é que o país se entretenha a discutir a oportunidade de uma crise política agora ou daqui a mais um bocadinho”, disse Silva Pereira nessa altura

Como teoria para quem está agarrado ao tacho... até não está mal. O PS tem medo de eleições, por isso não sai de cima. Não tanto pelo cartão vermelho que os portugueses certamente lhe irão mostrar, mas sobretudo porque dentro do PS são cada vez mais os que pensam que Sócrates e companhia há muito deixaram de ser bestiais para serem... bestas.

Para o ministro da Presidência, a generalidade dos portugueses espera que “esta legislatura se cumpra, que o mandato que foi dado ao Governo para governar possa ser exercido e que o Governo, no âmbito dessas responsabilidades, possa enfrentar os problemas”.

Por alguma razão, desde que José Sócrates chegou a dono do país, Portugal está cada vez mais perto dos mais evoluídos paises do norte... de África.

Quem rouba o “Estado ladrão” deve ter, pelo menos, 100 anos de perdão. A bem da Nação!

Nem sempre vou à missa com o presidente do governo regional da Madeira, nem mesmo agora que está hospitalizado. Não deixo, contudo, de muitas vezes (descontado o populismo e alguma demagogia) estar de acordo com Alberto João Jardim.

Um exemplo, embora não tanto pela matéria de facto que apresenta (acumulação das reformas com salários no sector público) é quando ele diz que o Estado socialista português “é ladrão”.

Seja como for, não creio que o Estado socialista de José Sócrates seja ladrão. Isto porque, segundo o deputado, também e obviamente socialista, Ricardo Rodrigues, o Governo se limita a “tomar posse” daquilo que é dos outros, tal como ela fez em relação aos gravadores dos jornalistas da Sábado.

Tudo isto deve levar os portugueses a porem em prática o provérbio que diz: ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de perdão. E por muito que roubem, os portugueses vão sempre ficar a milhas do que faz o governo e do que o governo permite que se faça (Face Oculta, Operação Furacão, Free Port, BPN, BPP etc. etc.).

Num cenário de 700 mil desempregados, 20% da população já a viver sem comer e outros 20% a viver com o espectro da fome a bater à porta, creio que a solução é mesmo (seguindo, aliás, o exemplo do próprio sumo pontífice socialistas que lidera o governo) não olhar a meios para atingir o objectivo de não ter os pratos vazios.

O governo socialista, que dança o tango (perante uma assistência de tanga) com os sociais-democratas, diz às segundas, quartas e sextas que não haverá aumentos impostos. Às terças, quintas e sábados aumenta-os. Ao domingo estuda a forma de arranjar alternativas para cobrar mais algumas coisas.

Para além de tudo (impostos e mais impostos, desemprego e mais desemprego, miséria e mais miséria) o governo socialista, com a bênção do PSD, continua a tratar os cidadãos como uma casta menor, intelectualmente estúpia.

José Sócrates (que além de primeiro-ministro é o parceiro – mesmo que esporádico - de tango de Pedro Passos Coelho) disse na campanha eleitoral que não aumentaria a carga fiscal, reafirmando o mesmo no Programa de Governo.

Mudam-se os tempos, mudam-se as exigências, mantêm-se os burros de carga. Tão burros, segundo o Governo, que vão agora pagar tudo o que os cérebros socialistas entendam como necessário para que os amigos, os assessores, os amigos dos amigos, continuem a chular o país à grande e à Sócrates.

sábado, janeiro 08, 2011

Luanda manda e Lisboa, como é hábito, baixa as calcinhas e diz até que gosta...

A eleição de Portugal como membro do Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU) confere-lhe responsabilidade acrescida em questões como a situação no Saara Ocidental. Não, não sou eu que o diz. Quem o afirmou foi o representante da Frente Polisário, Adda Bhraim. E Lisboa não vai, com certeza, deixar os seus créditos por mãos alheias. Em mãos alheias vai, isso sim, continuar a situação de Cabinda. Luanda manda e Lisboa põe-se de cócoras.

Quando se assinalaram os 35 anos sobre a conhecida Marcha Verde, "a situação é cada vez mais complicada, com número crescente de refugiados, e Portugal tem agora, como membro do Conselho de Segurança da ONU, mais responsabilidade", afirmou o representante da Frente Polisário em Portugal.

Tem razão. E, mais uma vez, será mais fácil a Portugal ajudar a resolver a questão do Saara Ocidental do que, como é seu dever histórico, descalçar a bota em relação a Cabinda, seu protectorado, hoje ocupada pela força colonial de Angola.

É a aplicação das resoluções da ONU que pode trazer uma solução para o problema, considera a mesma fonte, lembrando que o Saara Ocidental "está no Magrebe, uma zona cuja estabilidade e segurança é importante para muitos países".

Sim. E como Portugal está cada vez mais perto em termos de evolução dos países do Norte de África, pouco importa os tratados assinados com os povos que ficaram mais a Sul.

A comunidade internacional, sublinhou Adda Bhraim, "deveria dar mais atenção a um problema que se arrasta há 35 anos e que só piora".

O alerta é igualmente válido para Cabinda. Mas como, nesta e em outras matérias, quem manda em Portugal é o petróleo (e não só) que Angola tem nas mãos, Lisboa limita-se a uma posição de subserviência em relação aos donos do poder em Luanda, país governado deste 11 de Novembro de 1975 pelo MPLA e que tem como presidente, há 31 anos, alguém que nunca foi eleito.

Também um representante da Associação Amizade Portugal-Saara, António Baptista da Silva, chamou a atenção para a situação das pessoas que reivindicam a soberania do território.

"Portugal, melhor do que outros países, conhece este tipo de situações, pela semelhança com o que aconteceu com Timor-Leste", que ocorreu sensivelmente na mesma altura e que "conseguiu resolver mesmo no final do processo", sublinhou ainda António Baptista da Silva.

António Baptista da Silva, como é obvio, está mais preocupado com a situação no Saara Ocidental do que com Cabinda. Aliás, nem lhe cabe estar preocupado. Se Portugal se está nas tintas, porque carga de chuva deveria haver cidadãos preocupados?

O rei de Marrocos, Mohammed VI, proferiu um discurso à nação por ocasião do 35º aniversário da "Marcha Verde" de 350 mil cidadãos e 25 mil militares marroquinos em direcção ao Saara ocidental, organizada em 1975 pelo rei Hassan II.

A Marcha Verde visou anexar o Saara Ocidental, então território espanhol, nos últimos momentos do franquismo.

O Saara Ocidental foi antiga colónia espanhola anexada em 1975 após a saída dos espanhóis, como parte integrante do reino de Marrocos. No mesmo ano, Angola anexou Cabinda, até então protectorado de Portugal.

Espanhóis sabem muito bem o que é o Sahara
mas os portugueses (des)conhecem Cabinda

Dezenas de milhar de pessoas integraram, em Madrid, a manifestação organizada pelo movimento de solidariedade espanhol com o Povo Saharaui para condenar o assalto das forças militares e de segurança marroquinas ao acampamento saharaui de Gdaim Izik, em El Aaiún, e exigir ao Governo de Zapatero uma atitude firme face a Marrocos.

Pois é. Sobre a repressão de Angola aos activistas dos direitos humanos na sua colónia de Cabinda, não há portugueses que se manifestem. Entre os milhares de manifestantes estavam muitos artistas - casos dos actores Javier Bardem e Eduardo Noriega, o realizador de cinema Fernando Colomo, a actriz Rosa María Sardá e muitos outros —, deputados, sindicalistas, e, naturalmente, muitos saharauis a residir em Espanha.

Os líderes da Esquerda Unida (IU) e do PCE, Cayo Lara e José Luis Centella; o dirigente do Partido Popular (PP) Esteban González Pons; a presidente do partido União, Progresso e Democracia (UPyD), Rosa Díez, e os secretários-gerais das Comissiones Obreras CCOO e da UGT, Ignacio Fernández Toxo e Cándido Méndez marcaram com a sua presença o repúdio sentido pelo povo espanhol.

Recorde-se que, hoje, cumprem-se 35 anos sobre o Acordo tripartido de Madrid, tratado ignominioso na história do colonialismo europeu em África, pelo qual Espanha cedeu a Marrocos e à Mauritânia - a troco de compensações económicas que se mantiveram secretas durante anos -, o território da sua colónia do Sahara Ocidental. O Acordo integrava uma declaração política e vários anexos secretos.

No caso de Cabinda, foi no dia 1 de Agosto de 1975, três meses antes da independência da então República Popular de Angola (país que ocupa desde então Cabinda), que os cabindas começaram a sua difícil, mas não impossível, caminhada em prol dos seus direitos.

Desde então enfrentam dois grandes inimigos. Portugal que ao não honrar os seus até então solenes e nobres compromissos, se transformou num inimigo político, e Angola que é um inimigo militar que transformou Cabinda numa colónia onde, um pouco à semelhança do que faz no resto de Angola, vigora o princípio de que até prova em contrário todos são culpados.

Muitos se recordam mas poucos têm a liberdade de consciência para o dizer. É por isso que, um pouco por todo o lado – até mesmo em Portugal – os que se atrevem a defender a causa de Cabinda são também culpados... até prova em contrário.

Recorde-se que, a partir da revolução portuguesa de 1974, Cabinda entrou por direito próprio na agenda internacional, especialmente na da então OUA (Organização de Unidade Africana, hoje União Africana), onde a FLEC (Frente de Libertação do Estado de Cabinda) contava com o apoio de alguns países africanos (Uganda, Zaire, Gabão, etc.).

Perante o cenário juridicamente correcto, em face dos tratados assinados, de uma descolonização separada dos dois territórios (Angola e Cabinda), o presidente do MPLA, Agostinho Neto, desencadeou em 1974 uma actividade diplomática intensa para persuadir os líderes africanos a retirarem da agenda da cimeira da OUA o debate previsto sobre o problema de Cabinda.

Agostinho Neto apresentava, aliás, todas as garantias de que as autoridades comunistas portuguesas que dominavam o país iriam entregar exclusivamente ao MPLA os destinos de Angola, apresentando mesmo documentos nesse sentido subscritos pelos dirigentes do Movimento das Forças Armadas (MFA).

Com o apoio do Presidente congolês, Marien Ngouabi, Agostinho Neto conseguiu que fosse arquivado o dossier Cabinda (Cf. Memorandum – 4/07/75 – conversação entre Agostinho Neto e o Embaixador soviético no Congo, Afanasenko).

O mesmo se passou em relação aos Acordos de Alvor (Portugal) onde, com cumplicidade activa do chamado “Almirante Vermelho”, Rosa Coutinho, Alto Comissário em Angola, bem como de outras figuras de destaque, caso de Almeida Santos, Agostinho Neto afastou a FLEC de qualquer discussão do caso de Cabinda, dando como adquirido que o protectorado português era parte de Angola.

E, como sempre disseram os cabindas, só é derrotado quem deixa de lutar. Não creio por isso que alguma vez os cabindas deixem de lutar. Desde logo porque – como disse o padre Casimiro Congo - só aceitam estar de joelhos perante Deus. Perante os homens, mesmo que armados até aos dentes, estarão sempre de pé.

Até os jornais sul-africanos obedecem ao soba angolano, José Eduardo dos Santos

A jornalista Louise Redvers, do jornal sul-africano Mail and Guardian, contactou-me – por escrito – solicitando respostas para as perguntas que entendeu fazer, tendo como motivo principal a situação na colónia angolana de Cabinda. As respostas não foram publicadas. Diz a jornalista que não se tratou de censura mas de falta de espaço. Não está mal.

Depois da portuguesa RDP/África, também os sul-africanos fazem o que o soba José Eduardo dos Santos manda.O curioso da questão, para além da inequívoca influência do regime angolano em muitos órgão de informação, é que antes da explicação de Louise Redvers já alguém do MPLA me tinha dito “que as respostas dadas ao Mail and Guardian nunca seriam publicadas”. E assim aconteceu.

Ficam contudo aqui as perguntas e as respostas às questões postas pelo jornalista Louise Redvers, do Mail and Guardian, ficando as conclusões ao critério dos leitores.

Escreveu sobre o facto que “Vários jornalistas que trabalham fora de Angola foram e estão a ser contactados por mandatários do regime angolano. Voce pessoalmente foi contactado?

- Sim, fui contactado (o que, aliás, já aconteceu outras vezes) por diversas pessoas e por variadas formas (telefone, mails e pessoalmente) no sentido de deixar de escrever - a bem ou a mal - sobre Cabinda. Ou melhor, no sentido de deixar de escrever que o povo de Cabinda, tal como os timorenses ou os do Sahara Ocidental têm direito a escolher o seu futuro.

Pode dar nomes de outras jornalistas em quais pais que foram contactos?

- Esses colegas de jornais de Lisboa preferem, por razões de segurança, não se manifestarem. Esperam, legitimamente, uma melhor oportunidade para contarem o que passaram e que, em síntese, foi algo muito semelhante ao que se passou comigo.

No sua opinão, será possível para silenciar as vozes sobre Cabinda?

- É possível silenciar, nomeadamente em Portugal, todos aqueles que não escrevem o que o regime angolano quer em relação ao que eu chamo de colónia de Cabinda. Veja, por exemplo, quantas notícias foram publicadas sobre a prisão de professores em Cabinda, sobre a prisão por algumas horas do Padre Congo, ou há mais tempo sobre o lançamento – em Lisboa e no Porto – do livro de Francisco Luemba, hoje detido em Cabinda. Poucas ou nenhumas. O silêncio é total.

Acha essa última repressão está ligado ao ataque da FLEC este mês?

- Está liga ao ataque da FLEC (também quase silenciado na Imprensa portuguesa), mas sobretudo a uma estratégia do regime angolano de querer acabar de uma vez por todas com a questão de Cabinda. E se o regime acredita (e talvez tenha razão) que do ponto de vista militar conseguirá acabar com a resistência, do ponto de vista político será mais difícil. Daí a estratégia de silenciar todos os que queiram falar do assunto.

E por fim, a causa da nova lei de seguranca (ainda ser promulgada) – você acha que poderá ser uma amnistia das presos em Cabinda?

- Não. Não acredito. O regime angolano que é liderado há 31 anos por um presidente não eleito (José Eduardo dos Santos), continua a entender que a razão da força é mais importante do que a força da razão. E por isso tudo fará, tudo está a fazer, para silenciar todos os que – mesmo em Angola – pensam de maneira diferente.

Sugestão de leitura e apelo à opinião

Cabinda e a RDP/África

No dia 22 de Novembro do ano passado publiquei aqui no Notícias Lusófonas um texto intituado «Regime de Angola aperta o cerco a todos os que falam de Cabinda». Nele dizia que «em vários países, nomeadamente em Portugal, os serviços do MPLA estavam a apertar o cerco aos jornalistas, seja por ameaças físicas ou pelas tentativas de suborno».

Três dias depois fui contactado por uma jornalista da RDP/África. Cristina Magalhães, jornalista da RDP/África, dizia-me que tinha lido o artigo sobre Cabinda e que queria falar comigo sobre o assunto.

Para além de lhe fornecer, no mesmo dia, todos os meus contactos, falei com ela ao telefone disponibilizando-me para conversar sobre o assunto. Nesse texto publicado no NL afirmei (o que mantenho) que segundo o regime angolano urgia não só calar os jornalistas que mais atentos estão à questão, como evitar que de Cabinda saiam informações sobre as acções militares e policias que já estavam agendadas e que poderia ser desencadeadas a todo o momento.

Acrescentava igualmente que vários jornalistas que trabalham fora de Angola foram e estão a ser contactados por mandatários do regime angolano, sendo-lhe transmitidas duas soluções: “Quanto querem para deixar de falar de Cabinda” e “Ou deixam de falar de Cabinda ou a vossa integridade física corre sérios riscos”.

Mandatários esses que acrescentavam que “dinheiro não é problema”, reforçando que “também o resto não é problema”.

Acontece que até agora nunca mais fui contactado. Não é, aliás, de estranhar. Os critérios editoriais de quem manda servem exactamente para isso. Confesso que estranhei o contacto, desde logo porque não estava, nem estou, a ver a RDP/África a fazer algum trabalho que possa desagradar aos donos do poder, estejam eles em Luanda ou em Lisboa.

Mas esta história, triste para o Jornalismo mas lucrativa para quem dele se serve em vez de o servir, não é nova e tem outros protagonistas. No dia 12 de Outubro de 2007, já lá vai um tempito mas o conteúdo é o mesmo, a jornalista Isabel Guerreiro, do semanário português “O Diabo”, resolveu fazer-me, por escrito, três perguntas a propósito da Imprensa angolana.

Na altura perguntei à jornalista se, como é habitual quando se escreve o que não é esperado por quem manda (os tais critérios editoriais), não haveria o risco de as respostas serem enviadas directamente para a reciclagem.

Garantiu-me que não. Também eu quis acreditar que não. Mas a verdade é que as respostas nunca foram publicadas. E assim, cantando e rindo, vão as ocidentais praias lusitanas. Sempre satisfazendo os donos dos jornalistas e os donos dos donos. A bem, é claro, da Nação.