quinta-feira, junho 02, 2011

Presidente angolano goza com as crianças

O Presidente da República de Angola, não eleito e há 32 anos no poder, José Eduardo dos Santos, teve a lata de endereçar uma mensagem de felicitações por ocasião do 1 de Junho, Dia Internacional da Criança.

“Hoje, Dia Internacional da Criança, queremos saudar as crianças do nosso país e do mundo, fazendo votos para que lhes seja prestada uma atenção cada vez mais activa e empenhada na resolução dos seus múltiplos problemas”, lê-se na mensagem do dono de Angola.

Eduardo dos Santos, tal como faz com os adultos que o não idolatram, exovalha desde logo 45% das crianças angolanas que sofrem de má nutrição crónica, gozando com a chipla faminta de 25% delas (uma em cada quatro) que morrem antes de atingir os cinco anos de idade, bem como com as que são geradas com fome, nascem com fome e morrem pouco depois... com fome.

Na mensagem, o dono do reino diz que “cabe nesta hora reiterar os compromissos em relação à criança já assumidos pelo nosso Governo, em colaboração com o Sistema das Nações Unidas e com outros parceiros sociais, no sentido de lhe garantir uma maior esperança de vida ao nascer”.

Como se não bastasse às crianças (às que não são da casta de Eduardo dos Santos) passarem pelo que passam, ainda têm de suportar um presidente que finge estar preocupado mas que, de facto, nada faz para resolver as suas carências.

Eduardo dos Santos tem, aliás, a lata de dizer que essa garantia, para além do registo de nascimento e da educação na primeira infância, envolve também a segurança alimentar nutricional, os cuidados médicos primários, a prevenção e o combate contra a violência, a criação de espaços lúdicos, a protecção social, o respeito pelos seus direitos e o reforço das competências familiares.

“Julgamos que deste modo estaremos a criar as condições para que as nossas crianças cresçam saudáveis e tenham desde muito cedo à sua disposição tudo o que merecem, pois são elas que constituem o futuro e que vão prosseguir os nossos actuais esforços para transformar Angola num país próspero, moderno e democrático, onde o bem-estar de cada um se reflicta no bem-estar geral”, realçou o dono do reino.

Na verdade, quem melhor reflecte a situação angolana é Kundi Paihama, quando diz: “durmo bem, como bem e o que restar no meu prato dou aos meus cães e não aos pobres”.

Esta é, aliás, a filosofia basilar do MPLA. O que sobra não vai para os pobres, vai para os coitados dos cães.

E por que não vai para os pobres?, perguntam vocês, eu também, tal como os milhões que todos os dias passam fome. Não vai porque não há pobres em Angola. E se não há pobres, mas há cães…

Kundi Paihama explica: “Eu semanalmente mando um avião para as minhas fazendas buscar duas cabeças de gado; uma para mim e filhos e outra para os cães”.

Quanto aos angolanos, aos outros angolanos, citando de novo Kundi Paihama, que comam farelo porque “os porcos também comem e não morrem”.

Embora seja um exercício suicida, importa aos vivos não se calarem, continuando a denunciar as injustiças, para que Angola possa um dia ser diferente, ser de todos os angolanos.

“O Povo sofre e passa fome. Os países valem pelas pessoas e não pelos diamantes, petróleo e outras riquezas”, disse Frei João Domingos, numa pregação certamente só ouvida pelos peixes ou pelas welwitschia mirabilis.

Mas, como diria o camarada Eduardo dos Santos, a luta continua. Tem de continuar.

Mais um (bom) campanheiro que parte

O jornalista Oliveira e Castro, antigo director adjunto do Diário de Notícias e chefe de redação do Jornal de Notícias, morreu hoje na sequência de um transplante renal.

Oliveira e Castro, 61 anos, natural e residente em Gaia, começou a carreira no diário O Comércio do Porto, em 1969, tendo passado depois pelos jornais JN, O Jogo e DN, onde foi director adjunto quando o jornal era dirigido por Fernando Lima.

Oliveira e Castro deixou de exercer jornalismo há cerca de quatro anos, quando passou à pré-reforma no JN, por se encontrar doente com problemas renais.

O jornalista foi internado quarta-feira num hospital do Porto para fazer um transplante de rim, mas acabou por falecer hoje de madrugada na fase pós-operatória.

Oliveira e Castro estudou Medicina na Universidade do Porto, curso que não chegou a completar, e esteve na tropa no início dos anos 1970.

Natural da freguesia de Canidelo, "chegou a ter um jornal local no início dos anos 80". A Câmara de Gaia atribuiu em 2010 a Oliveira e Castro a Medalha de Mérito Profissional Grau Prata.

O funeral de Oliveira e Castro está marcado para sexta-feira, às 11 horas, em Canidelo.

Convite a todos os que... pensam!

Afinal também cai neve em Luanda

O Ministério Público português está a investigar uma alegada burla gigantesca ao Estado angolano, supostamente cometida por empresários portugueses com ligações a elementos angolanos do Banco Nacional de Angola.

Segundo o DN, em causa estarão mais de 300 milhões de euros em pagamentos do BNA para produtos que nunca chegaram a Angola, alguns completamente fictícios, como limpa-neves.

A maioria dos pagamentos saiu de uma conta do Estado angolano no Banco Espírito Santo de Londres. O alarme soou quando o banco comunicou que a conta estava quase a zero.

Dizer que o regime angolano, liderado, recorde-se, por um presidente que está no poder há 32 anos sem nunca ter sido eleito, é contra todas as formas de luta que ponham em causa o seu reinado, é chover no molhado. Ninguém se preocupa com isso.

Afirmar que os níveis de corrupção existentes em Angola superam tudo o que se passa em África, conforme relatórios de organizações internacionais e nacionais credíveis, é uma verdade que a comunidade internacional reconhece mas sem a qual não sabe viver.

Aliás, basta ver como as grandes empresas, portuguesas e muitas outras, investem forte no clã Eduardo dos Santos como forma de fazerem chorudos negócios... até com limpa-neves.

Com este cenário, alguém se atreverá a dizer ao dono do poder angolano, José Eduardo dos Santos, que é preciso acabar com a corrupção?

Aliás, como demonstraram os empresários portugueses e angolanos, é muito mais fácil negociar com regimes corruptos de países ricos do que com regimes democráticos e sérios.

Sendo Angola o sexto maior fornecedor petrolífero dos Estados Unidos da América, alguém está a ver Hillary Clinton olhar para os caixotes do lixo de Luanda dos quais se alimentam muitos e muitos angolanos? Não.

EUA e China recebem actualmente 90 por cento das exportações petrolíferas angolanas, que por sua vez contribuem com mais de 80 por cento do PIB e 83 por cento das receitas do Estado (2008).

Por estas e por outras é que Hillary Clinton elogia os progressos feitos pelo regime angolano, assina mais uns acordos, garante mais alguns negócios (muitos dos quais não serão divulgados) e dá público conhecimento de que Angola está no caminho certo.

Sendo que o caminho certo se define não em função da corrupção e da violação dos direitos humanos mas, é claro, dos interesses económicos. Hillary Clinton está muito mais preocupada com o petróleo de Angola do que os angolanos.

E isso é crime? Não. Não é. Aliás, se até o próprio presidente Eduardo dos Santos está mais procupado com o petróleo do que com os angolanos...

Com ou sem limpa-neves, Angola e a sua opaca companhia petrolífera é exemplo chave de receitas petrolíferas desbaratadas e postas ao serviço de um Estado-sombra onde o único resultado real para a maioria da população é a pobreza, sendo os bancos cúmplices no esquema, parte da estrutura que permite que isso aconteça.

quarta-feira, junho 01, 2011

Razões para pensar antes de votar

Legado do PS, de José Sócrates e do socialismo:

1 - Pior dívida pública dos últimos 160 anos (mesmo não incluindo PPPs e empresas públicas).

2 - Pior taxa de desemprego dos últimos 90 anos (duplicou em 6 anos).

3 - Maior dívida externa dos últimos 120 anos.

4 - Dívida externa bruta em 1995 de 40% do PIB.

5 - Dívida externa bruta em 2010 de 230% do PIB.

6 - Dívida externa líquida em 1995 de 10% do PIB.

7 - Dívida externa líquida em 2010 de 110% do PIB.

8 – Dívida pública em 2005 = 82.000.000.000€.

9 - Dívida pública em 2010 = 170.000.000.000€.

10 - Últimos 10 anos: 3º país do mundo com o pior crescimento económico (atrás do Haiti e Itália).

11 - Últimos 10 anos: 4º país do mundo com maior contracção de dívida.

12 - Actualmente no 4º lugar do TOP dos países do mundo em risco de bancarrota.

13 - Em 2011 só Portugal, Grécia e Costa do Marfim estarão em recessão no mundo.

14 - Em 2012 só Portugal estará em recessão no mundo.

De Abdias a Miriam Makeba

A propósito do sentido e directo desabafo do meu amigo Alberto Castro (ver texto anterior) sobre o facto de, segundo ele, a imprensa portuguesa ter esquecido Abdias do Nascimento, recordo-me de Miriam Makeba, a “Mama África”.

E recordo-me, nesta altura, porque também um dos principais jornais diários de Portugal, na circunstância o Jornal de Notícias, se esqueceu de noticiar a sua morte.

Recorde-se, não que isso seja importante para os operários das linhas de enchimento de textos de linha branca, que a cantora sul-africana Miriam Makeba, conhecida no mundo como "Mama África", morreu no dia 10 de Novembro de 2008 após um show no sul da Itália. Aos 76 anos, a artista era um símbolo internacional contra a segregação racial e tinha entre os seus sucessos as músicas "Pata Pata" ou "Malaika".

Segundo a agência de notícias Ansa, "Mama África", sofreu um ataque cardíaco após encerrar um show em homenagem a um jornalista italiano ameaçado pela máfia napolitana.

Makeba, também chamada "A imperatriz da canção africana", saiu da África do Sul em 1959, quando ainda vigorava no país o regime segregacionista do apartheid.

Tentou voltar em 1960, para o funeral da mãe, porém o seu passaporte foi revogado e a sua entrada negada. Viveu no exílio durante 31 anos nos EUA, na França, na Guiné e na Bélgica, até ao seu emocionante regresso a Johannesburgo, em 1990.

Na época muitos sul-africanos exilados voltaram ao país, devido às reformas do então presidente F. W. De Klerk.

"Nunca compreendi por quê não podia vir ao meu país", disse a "Mama África", "Nunca cometi crime algum."

O convite para regressar foi feito por Nelson Mandela, que depois viria a ser presidente do país, entre 1994 e 1999. "Foi como renascer", relembrou Miriam.

"Uma das nossas maiores cantoras de todos os tempos parou de cantar", lamentou em nota o ministro da Cultura da África do Sul, Nkosazana Dlamini Zuma.

"Ao longo de sua vida, Mama Makeba comunicou uma mensagem positiva ao mundo sobre a luta das pessoas na África do Sul e a certeza das vitórias sobre as forças malignas do apartheid e do colonialismo através da arte de cantar", apontou Zuma.

Miriam começou sua carreira em Sophiatown, uma zona cosmopolita de Johannesburgo muito rica culturalmente na década de 1950. Porém os negros foram retirados à força pelo governo do apartheid (regime que vigorou entre 1948 e 1990).

A cantora recebeu um Grammy em 1966 pela melhor gravação folk, juntamente com Harry Belafonte, pelo disco "An Evening With Belafonte/Makeba". A obra tratava dos problemas enfrentados pelos negros sul-africanos durante o apartheid.

Abdias do Nascimento e a imprensa lusa

“Em Portugal, nem um jornal noticiou atá hoje o desaparecimento físico de Abdias do Nascimento, dramaturgo, académico, politico e figura maior da luta anti-racista no Brasil.

Mereceu destaque no The New York Times um dos maiores e mais prestigiados jornais do mundo. A SEMANA, um jornal de Cabo Verde, reconheceu o grande Pan-Africanista Abdias.

Toyin Falola, prestigiado Professor da Universidade do Texas enviou-me um e-mail informando que no seu campus vai criar uma preleção anual para memorizá-lo, à semelhança do que fez com Lumumba.

Molefi Asante, um dos mais profícuos académicos norte-americanos, disse num ensaio em memória de Abdias que não houve ninguém como ele no Brasil e nem mesmo nos EUA.

Fosse ele uma figura do samba, do futebol ou do crime organizado, certamente ganharia espaço na imprensa lusa. Afinal, Abdias era inimigo público número 1 do lusotropicalismo e do paraíso racial que em tempos eram tão orgulhosamente celebrados como sendo marca exclusiva portuguesa.”

Alberto Castro

Dia mundial de algumas crianças

Com fios feitos de lágrimas de dor
os meus meninos do Huambo choram
ainda marcados pelo muito horror
da miséria e da fome onde moram.

Com os lábios de muito dizer aiué
soletram pensamentos de esperança
como quem se alimenta de tanta fé
inebriada pelos sorrisos de criança.

Os meus meninos à volta da fogueira
já aprenderam que dizer a verdade
será talvez mais uma bonita bandeira
mas que o melhor é não falar de saudade.

Com os sorrisos mais lindos do planalto
- Essa é uma certeza para a eternidade,
fazem contas engraçadas de sobressalto
e subtraem a fome a sonhos de igualdade.

Dividem a chuva miudinha pelo milho
como se isso fosse o seu eterno destino,
saltam ao céu toda a dor feita andarilho
no seu estilhaçado mundo peregrino.

Os meus meninos à volta da fogueira
não vão aprender novas palavras
porque a dor da miséria é cegueira
que alimenta todos os dias as lavras.

Assim descontentes à voltinha da poesia
juntam palavras do tempo que passa
para ver se alimentam a barriga vazia
e se descobrem o fim de tanta desgraça.

Na minha terra, na terra dos meus meninos, 45% das crianças sofrem de má nutrição crónica, sendo que uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos. Continuam a ser geradas com fome, a nascer com fome, e a morrer pouco depois... com fome.

Futebol, política e (des)Norte

Rui Moreira, presidente da Associação Comercial do Porto (ACP), considera que o F. C. Porto tem hoje em dia maior reconhecimento internacional do que o Vinho do Porto e que é um exemplo da inspiração que falta ao País.

Tem, com certeza, toda a razão. Aliás, quem tem aspirações políticas locais ou regionais (será o caso?) não pode dizer outra coisa, mesmo que pense de forma diversa.

De acordo com as mais recentes estratégias eleitorais, nomeadamente em relação à Câmara Municipal do Porto, nenhum potencial candidato pode passar sem ser visto nos camarotes VIP do Estádio do Dragão, se possível ao lado, ou a abraçar, Jorge Nuno Pinto da Costa.

A tese de Rui Moreira foi apresentada na tertúlia mensal do Clube dos Pensadores, que decorreu em Vila Nova de Gaia, e onde esteve presente também Manuel Serrão.

O tema em debate diz, só por si, tudo o que se passa: "Futebol, Política e Norte".

Manuel Serrão estabeleceu comparações entre as temáticas da noite: "Na política, como antes se dizia do futebol, o jogo é sujo, está viciado e resolve-se nas secretarias, ainda por cima europeias".

Será por isso, permitam-me que ingenuamente pergunte, que nos tais camarotes VIP aparecem tantos políticos pigmeus?

Ainda segundo Manuel Serrão, "o F. C. Porto e o futebol em geral têm feito mais pelo País que os nossos políticos, afirmando-o em África, no Brasil, na Colômbia, numa série de sítios onde se fez festa com as últimas conquistas".

É verdade. Daí que, pergunto com nova dose de ingenuidade, seja tão relevante para os políticos, para alguns políticos, aparecerem juntos, juntinhos (não vá o operador de imagem cortá-los) ao presidente do FCP?

Quando em Portugal a televisão transmite jogos de futebol, o que mais gosto de ver é as imagens dos ilustres protagonistas que, nos camarotes só reservados a gente importante, mostram como é que se agrada aos donos.

Quando no dia 4 de Outubro do ano passado, o presidente do Futebol Clube do Porto disse em Olhão, Algarve, que “só os espíritos cretinos e obtusos pensam que receber um clube numa câmara é sinal de promiscuidade”, referia-se a um dos raros políticos lusos que nunca estiveram ao seu lado nesses camarotes: Rui Rio.

Pinto da Costa não perdeu nada com isso e Rui Rio também não. Aliás, os camarotes do Estádio do Dragão devem ser dos lugares onde se vêem mais socialistas por metro quadrado.

Tenho dúvidas que todos sejam adeptos portistas, mas o que importa é estar ao lado de um campeão.

Voltemos, entretanto à cidade do Porto. O presidente da Câmara Municipal está, de há muito, ou seja desde a sua primeira campanha eleitoral para a autarquia, em rota de colisão com todos os interesses instalados.

É claro que, para além da simpatia maioritária dos cidadãos, conseguiu arranjar sarna para se coçar. Não há socialista que se preze que não esteja solidário com Pinto da Costa sempre que este ataca Rui Rio.

Rui Rio não ganhou a guerra da moralização da vida pública. Sempre que olho (pela televisão) para os camarotes do Estádio do Dragão reforço a certeza de que Portugal é um país de aparências, de faz de conta.

Rui Rio quer (e bem, na minha opinião) que cada macaco esteja no seu galho. Futebol é futebol, política é política. Prioridades são prioridades. Cultura é cultura. Se assim não for, e há muito que não é assim, continuaremos a ter uma perigosa promiscuidade onde não se sabe quem é quem, quem representa o quê.

Aliás, como nos recorda a história, foi essa promiscuidade que fez com que o macaco acabasse por «comer» a mãe. Mas hoje nem isso é problema... desde que não se saiba.

De há muito que os portugueses se habituaram a ver os agentes da vida pública todos misturados numa orgia colectiva que, cada vez mais, mostra que a moralidade e a equidistância são valores pouco relevantes para um país que está acostumado a jogar no sistema de todos a monte e fé em Deus.

Para comprovar tudo isso nem é preciso apelar à memória (também ela um valor irrelevante na nossa sociedade), basta de facto – sobretudo em Lisboa e no Porto - olhar todas as semanas para as bancadas VIP dos estádios de futebol.

Políticos pigmeus e pigmeus políticos (entre outros) lá estão, a propósito de tudo e de nada, em bicos de pés para que todos os vejam.

Num país de aparências, que melhor montra poderá querer um qualquer político pigmeu ou um pigmeu político?

Dir-se-ia que, mais uma vez, não basta ser sério. Também é preciso parecê-lo. Mas, infelizmente, algumas das nossas figuras públicas nem são sérias nem parecem sê-lo. Nem estão, acrescente-se, preocupadas com isso.

O “jornalismo” em tempo eleitoral

É cada vez mais corrente (e então quando se está em períodos eleitorais...) a ideia de que os jornalistas portugueses têm, ou querem ter, o poder absoluto de informar.

Nada mais falso. Para começar, só têm o poder que o poder económico, empresarial e político lhes aceita dar. Depois, se informar é uma das prioridades dos jornalistas, não o é para os que na maioria dos casos fazem jornais, rádio ou televisão.

Hoje (salvo muito poucas excepções) não se fazem jornais, fazem-se linhas de enchimento de conteúdos de linha branca em forma de papel, rádio, televisão ou Internet. E fazem-se à medida e por medida do cliente. E o cliente não é o público. É quem paga, é quem manda.

A coisa está brava? Não, não está. Estaria se falássemos de Jornalismo. Resta, contudo, a certeza de que é mais a parra do que a uva. Desde logo porque, ao contrário do que seria de esperar, os «macacos» não estão nos galhos certos. E quando assim acontece (e acontece muitas vezes), os produtores de conteúdos procuram apenas sobrevalorizar as ideias de poder em detrimento do poder das ideias.

A convivência entre os diferentes poderes não tem sido fácil. O suposto Estado de Direito democrático em Portugal ainda é – na melhor das hipóteses - uma criança e, como tal, há muitos vícios, deformações e preconceitos herdados ou estimulados que a muitos dá jeito conservar.

É claro que o «quero, posso e mando» que hoje está instituído por essas Redacções fora, apenas serve quem entende que jornalismo é uma mera forma de propaganda. Propaganda sobretudo político-económica.

Mas esta discussão, que alimento como forma de salubridade mental, é uma forma de tapar o sol com uma peneira. Tenho a exacta noção de que os Jornalistas são comidos à grande e à francesa com a conivência activa de muitos que tendo a Carteira Profissional de Jornalista, que trabalhando nas Redacções, não passam de néscios a quem foi dado o poder de um capataz.

O problema principal reside no facto de que (basta ver as Redacções), médicos, advogados, arquitectos, engenheiros, treinadores de futebol, amigos, filhos e amantes serem “jornalistas”.

O jornalismo que vamos tendo, qual reles bordel, aceita tudo e todos. É um pouco semelhante à política

E, de facto, aos jornalistas falta-lhe cada vez mais autoridade moral para contestar o que quer que seja. Se todos podem ser jornalistas, porque carga de água não podem os jornalistas ser deputados, assessores de políticos, publicitários etc.?

Podem. Tal como podem, depois regressar às Redacções para serem fiéis acéfalos dos amos a quem antes serviram.