sexta-feira, agosto 12, 2011

Se o pior ainda está para vir,,,


A “troika” está satisfeita com a aplicação do programa de ajuda externa em Portugal. A caminho estão mais 3,7 milhões de euros.

Mas, é claro, Portugal precisa de fazer mais. Afinal, ainda há muitos, demasiados segundo a “troika”, portugueses que ainda não aprenderam a viver sem comer.

Com o beneplácito dos donos do reino (PSD, CDS e PS), ainda é preciso aumentar o número de desempregados (800 mil não é um número digno), a percentagem de miseráveis (20 por cento é coisa pouca) e também dos que já têm saudades de uma refeição.

“Os desafios mais difíceis ainda estão por vir”, afirmou hoje Poul Thomsen, em conferência de imprensa conjunta do FMI com os representantes da missão da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu.

Entretanto, antes do encontro com os jornalistas, a “troika” já reservara o almoço, cuja ementa deverá andar à volta de trufas pretas, caranguejos gigantes, cordeiro assado com cogumelos, bolbos de lírio de Inverno, supremos de galinha com espuma de raiz de beterraba e uma selecção de queijos acompanhados de mel e amêndoas caramelizadas, com cinco vinhos diferentes, entre os quais um Château-Grillet 2005.

 “Ou saímos daqui ficando mais pobres ou saindo mais produtivos”, disse Thomsen. Cá para mim, não há dúvidas de que mais pobres os portugueses vão mesmo ficar. Não todos, mas sempre os mesmos.

Mais produtivos? Também. Basta ver as imagens produtivas do primeiro-ministro em férias, ou ver a sua capacidade para nomear super-portugueses para os cargos em que vão trabalhar no sentido de, tão rapidamente quanto possível, transformar Portugal no mais evoluído país do norte de… África.

E, para concretizar esse desiderato, Portugal apresenta os seus trunfos:

A taxa de pobreza infantil em Portugal é de 16,6 por cento, um valor superior à média dos países da OCDE (12,7 por cento) e a oitava maior do grupo.

Uma em cada quatro crianças (23 por cento) está inserida em famílias com rendimentos abaixo do limiar de pobreza; 27 por cento vivem uma situação de privação. Em 11,2 por cento dos casos (uma em cada dez crianças) a privação é acumulada com a ausência de rendimentos do seu agregado familiar, abaixo do limiar de pobreza.

Tem mais de 800 mil desempregados, 20% dos cidadãos a viver na miséria e outros tantos que começam a ter saudades de uma... refeição.

Tem hoje a pior dívida pública dos últimos 160 anos (mesmo não incluindo PPPs e empresas públicas), a pior taxa de desemprego dos últimos 90 anos (duplicou em 6 anos), a maior dívida externa dos últimos 120 anos, a dívida externa bruta em 1995 era de 40% do PIB e o ano passado era de 230% do PIB.

A dívida externa líquida era em 1995 de 10% do PIB, em 2010 chegou aos 110% do PIB, a dívida pública em 2005 era de 82.000.000.000€ e cinco anos depois chegava aos 170.000.000.000€.

Nos últimos dez anos, Portugal foi o terceiro país do mundo com o pior crescimento económico (atrás do Haiti e Itália). Actualmente está no quarto lugar do TOP dos países do mundo em risco de bancarrota. Em 2011 só Portugal, Grécia e Costa do Marfim estarão em recessão no mundo. Em 2012 só Portugal estará em recessão no mundo.

quinta-feira, agosto 11, 2011

Os Joaquins e os seus súbditos


Portugal vive saturado de (des)informação e não há nada que lhe valha. O Pedro substituiu o José, mas o reino continua a ser dos joaquins…

E não há nada a fazer. E não há porque aos fazedores de informação, outrora chamavam-se jornalistas, (sejam, ou não, amigos do José, do Pedro ou do Joaquim) restam duas opções: serem domados e manter o emprego, ou o inverso.

É claro que, no meio desta enorme teia de corrupção, há lugares para todos, mas sobretudo para os invertebrados, quase todos amigos do José, do Pedro e do Joaquim. Dos primeiros para agradar aos sobas, do segundo para não perderem o emprego.

Com a hipocrisia típica e atávica que caracteriza os donos da verdade em Portugal, até vemos os Josés, os Pedros e os Joaquins do reino a recordar, comovidos, os jornalistas assassinados, mutilados, detidos, despedidos e por aí fora por exercerem, em consciência, a liberdade de expressão à qual, em teoria, têm direito.

Aliás, já se começaram a ver muitos dos Josés, dos Pedros  e dos Joaquins que amordaçam os jornalistas, a ir para a ribalta com a bandeira da liberdade de expressão, forma mais ou menos eficaz de ninguém reparar na sua face oculta e na sua apologia pelo calor da noite.

Durante muitos anos o principal barómetro da liberdade de Imprensa era o número de jornalistas mortos no cumprimento do dever, hoje junta-se-lhe uma outra variante para a qual Portugal deu, dá e dará, um notório e inédito contributo: os despedimentos. Isto, é claro, para além de haver um outro instrumento de medição que se chama corrupção.

Até já estamos a ver alguns dos algozes da liberdade de expressão (desde os donos dos jornalistas aos donos dos donos dos jornalistas) citar o artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos:

“Toda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras”.

Há cinco anos, o então secretário-geral da ONU defendeu uma tese que se tornou suicida no caso português. Kofi Annan disse que os jornalistas “deveriam ser agentes da mudança”.

Eles tentaram, o que aliás sempre fizerem, mudar a sociedade para melhor. Acontece que o seu conceito de sociedade melhor não é igual ao dos donos dos jornalistas nem ao dos donos dos donos dos jornalistas.

E a resposta não se fez esperar: Jornalista só é bom se hoje for amigo do José, do Pedro e do Joaquim. Amanhã – talvez – deixe de ser o Pedro, já que o José foi à vida. O Joaquim mantém-se.

Nos últimos seis anos, por exemplo, pelo menos 181 jornalistas que não eram amigos do José nem do Joaquim e que trabalhavam nas redacções do Porto de vários órgãos de comunicação social perderam o emprego, 54 dos quais no despedimento colectivo, inédito na Imprensa portuguesa, levado a cabo pelo grupo Controlinveste (JN, DN, 24 Horas e “O Jogo”).

Pois é. Mas quem os mandou ser Jornalistas? Os que quiseram ser tapetes do poder continuam, por enquanto, a ter emprego...

Nota: Não é a primeira vez que este texto é aqui publicado. Reedito-o em homenagem a um camarada, companheiro e amigo que hoje partiu (o Jornalista José Dias Gomes), bem como a alguns dos Jornalistas que dele se despediram.

Aurélio Cunha, António Graça, Artur Miranda, Carlos de Sousa, Costa Carvalho, Fernando Martins, Frederico Martins Mendes, Gomes de Almeida, Jorge Monteiro Alves, Luís Alberto Ferreira foram alguns dos que estiveram presentes.

Por razões, para mim óbvias, não são referidos alguns colegas que ainda estão no Jornal de Notícias.

Os donos e os donos dos donos

Foi com a publicação, aqui no Alto Hama, em 31 de Agosto de 2006, do texto («(Re)flexões (+ ou -) sobre Jornalismo (I)»), que os donos do poder em Portugal traçaram o meu destino profissional.

Uns porque se julgam (e têm sido) os donos da verdade, outros porque da verdade se julgam (e têm sido) os donos.
Nesses tempos, e já em 2001 na minha página pessoal, bem como ainda hoje, era um acto de suicídio escrever que “se não for possível deixar às gerações vindouras algum património, ao menos lutemos, nós os Jornalistas, para lhes deixar algo mais do que a expressão exacta da nossa incompetência e cobardia, visível quando a subserviência substitui a competência”.
Alguns anos depois, a incompetência, a cobardia e a subserviência continuam a florescer e a ser uma mais-valia decisiva para quem quiser singrar numa relevante parte da comunicação social portuguesa.
“Porque não há (digo eu na minha santa ingenuidade) comparação entre o que se perde por fracassar e o que se perde por não tentar, cá estou mais uma vez (já lhes perdi a conta) a tentar o impossível já que - reconheçamos - o possível fazemos nós todos os dias”, escrevia eu num exercício de pregação para uma classe profissional surda, muda e cega.
Já nessa altura eu interrogava: “Não será este texto um (mais um) exercício de mero suicídio?”
Em 2001 era uma dúvida, em 2006 uma interrogação, em 2009 uma certeza e hoje uma confirmação.
Mesmo “suicidado”, continuo a pensar que se o Jornalista não procura saber o que se passa no cerne dos problemas que o rodeiam é, com certeza, um imbecil. Também penso que se o Jornalista consegue saber o que se passa mas, eventualmente, se cala é um criminoso.
Por não querer ser criminoso fui, com muitos outros, abatido. A bem, acrescente-se, de uma nação cujos dirigentes actuais, tais como os do antigamente, quando ouvem falar de liberdade de expressão puxam logo da pistola.
Acresce, para mal dos nossos pecados (digo eu), que a precariedade profissional de muitos os obriga a aceitar fazer tudo o que o «chefe» manda (mesmo sabendo que este para contar até 12 tem de se descalçar). E mesmo assim...
Também escrevi aqui que não há restrições directas à Internet, acrescentando que as indirectas, essas existem e aumentam de volume e são do tipo, “enquanto escreveres no teu blogue o que escreves está fodido”.
Nem de propósito. Não esqueço, por exemplo, que recebi mais um “não” (já perdi a conta aos “nãos”) a uma tentativa de emprego numa entidade onde, aliás, sou conhecido por durante os 18 anos de jornalismo ter ajudado (modestamente, é certo) a fazer do Jornal de Notícias o primeiro dos primeiros.
Começa, aliás, a ser aborrecido ouvir sempre o mesmo tipo de explicação: “Seria a pessoa indicada para o lugar... mas essa mania de dizer o que pensa ser a verdade em nada ajuda. Veja se modera as críticas”.
Como não as moderei, nem tenciono mudar, estou há mais de dois anos a tentar aprender a viver sem comer (desemprego). Está a ser uma missão impossível, desde logo porque sei que quando estiver bem perto de saber viver sem comer... morro.
Bem dizia em Maio... de 2009, o bispo de Viseu, D. Ilídio Leandro, a propósito do Dia Mundial das Comunicações Sociais, que “há muitos jornalistas que estão ao serviço do director e não da verdade”. E esses têm o emprego seguro, bem seguro.
Embora as declarações do bispo de Viseu fossem  graves, tudo ficou na santa paz de Deus. Ou não fosse Portugal um país onde os Jornalistas são dos que mais brandos costumes têm. O “jornalismo” em Portugal atingiu em alguns casos um tal estado de descrédito que já ninguém se preocupa. Num sistema de vale tudo, pouco importa se o jornalismo virou propaganda e apenas é mais uma linha de enchimento comercial.
A situação descrita pelo bispo não era, não é, nem será  nova, mas tenderá a agravar-se enquanto existir um Jornalista que não se submeta à cirurgia de remoção da coluna vertebral, imposta de forma camuflada pelos donos dos jornalistas e pelos donos dos donos dor jornalistas.
É claro que os órgãos de soberania, nomeadamente o governo, os partidos e os deputados poderiam alterar a situação. Mas nada fazem porque este é o modelo de “informação” que querem. É o modelo que em vez de dar voz a quem a não tem, amplia a voz dos que têm acesso a tudo. É o modelo que em vez de lutar pelos milhões que têm pouco ou nada, luta pelos poucos que têm milhões. É, portanto, um modelo feito à medida e por medida.

quarta-feira, agosto 10, 2011

Até logo, Camarada!


Morreste ontem, mas o jornal que ajudaste a ser o primeiro dos primeiros só hoje, às  21h28, deu a notícia. Calculei,  e não sei se foi o caso, que estariam à espera de ser a Lusa a escrever a notícia. Eu sei que nesse jornal serão poucos os que, com responsabilidades na hierarquia editorial, assumem que te conheceram. Talvez isso justifique a demora. Mas nada disto seria novidade para ti. Por alguma razão o jornal que foi o primeiro dos primeiros é hoje, talvez, o primeiro dos últimos. Um abração.

Morreu o Jornalista Dias Gomes

Fomos colegas, camaradas, companheiros e amigos durante muitos anos. Partiu agora.  Fica um dos últimos textos que, há mais de um ano, o Dias Gomes publicou no Matosinhos Hoje.

«Sou jornalista há 38 anos e sou possuidor do título profissional n.º 529. Principiei no Jornal de Notícias e fui dois anos “exilado” para o Primeiro de Janeiro. Posteriormente, voltei ao JN.
No JN atingi uma posição de hierarquia que exerci com dedicação e empenho. Sempre fui avaliado com notas de bom, muito bom. Até que surgiu a actual direcção, que quando entrou, não se sabe bem como nem como e com que fins. O que se sabe é que todos os jornalistas mais antigos foram para a prateleira sem qualquer tipo de explicações. O background profissional não interessou para nada e um subdirector entrou mesmo sem carteira profissional, à revelia do código deontológico dos jornalistas e do SJ que aceitou a ilegalidade surpreendentemente e passivamente.

Mais tarde por meios pouco éticos, “arranjou”, por baixo da mesa, a carteira profissional.
Isto vem a propósito das audiências que se estão a efectuar na AR sobre se há ou não censura e que se estão a tornar fastidiosas por culpa dos deputados e dos directores de jornais e jornalistas. Os primeiros porque não sabem formular perguntas, antes optando por catadupas delas que se perdem e não interessam a ninguém e os segundos porque mentem descaradamente.

Da maneira como estão a ser conduzidos os trabalhos pelo senhor deputado do PSD Marques Guedes aposto que ninguém vai ser esclarecido, ainda que o deputado social-democrata seja a pessoa mais esclarecida.

Por exemplo, no que diz respeito à audição do director do JN, o seu papel foi deprimente. Como é que se presta aquela posição, sabendo que está a mentir descarada e atrapalhadamente? É que eu desminto-o categoricamente e digo àquele senhor que houve, enquanto lá trabalhei, até 2004, censura e penalizações.

E porque digo eu isso? Porque fui uma das vítimas. Sim, eu e muitas mais. Quando ele diz que desde que entrou no JN não se lembra de um acto censório eu rio-me! A quem é que pensa que está a enganar? Mas eu avivo-lhe a memória. Censura e auto-censura por medo de represálias! Desminto-o, até porque fui roubado de um prémio de desempenho. Fui classificado com uma nota de bom pelo meu editor e esse senhor, posteriormente, tirou-me o prémio a que um ano insano de trabalho me deu direito. E porquê? Eu conto. Fui designado pelo editor respectivo para cobrir um fórum na câmara de Valongo. No final, em amena cavaqueira com o presidente Fernando Melo, dirigi-me, informal e educadamente, a Marco António Costa e disse-lhe qualquer coisa sobre política que ele discordou visivelmente incomodado. De imediato lhe pedi desculpa pois não era minna intenção melindrá-lo.
Mal cheguei ao jornal o meu editor disse-me logo que eu iria ter problemas só por discordar do “senhor” Marco António Costa que entretanto já tinha telefonado para o director a queixar-se da minha interpelação aquele social democrata. Resultado: o meu texto nunca mais saiu e eu não recebi nesse ano o prémio que rondava os 1900 euros.
Aí está senhores leitores como os directores falam verdade nas audições da AR!!!
Por aqui os portugueses podem aquilatar da validade destas comissões de inquérito que se formatam por nada e para nada.»

Olho por olho, dente por dente?

Os confrontos em Londres podem estender-se a outros países europeus, incluindo Portugal? Há quem diga que sim. Não acredito.

E não acredito porque, por deficiência congénita e ancestral, os portugueses são um povo de brandos costumes que, quase sempre, defendem a tese de que “quanto mais me bates mais gosto de ti”.
Mas, quem sabe?, talvez um dia acordem e mostrem que estão farto de quem em vez de os servir… só se serve deles.
"Estão criadas as condições para que as contestações se alastrem", porque a "base da pirâmide demográfica é dominada por jovens, entre os 16 e os 25 anos, logo a propensão para haverem problemas é muito grande", explicou à agência Lusa o investigador na área da segurança e professor universitário, José Vegar.
É certo que em Portugal aumenta o número dos que pensam que a crise (da maioria, de quase sempre os mesmo) só se revolve a tiro. Parece-me uma boa opção. Temo, contudo, que ao escolher-se a política do olho por olho, dente por dente, fiquem  todos cegos e desdentados.
E, se calhar, os responsáveis pela tragédia (como é o caso, entre outros, de Cavaco Silva, José Sócrates, Passos Coelho e Paulo Portas) vão continuar a ter pelo menos um olho e dois dentes e muitas mamas à disposição.
De uma coisa os portugueses não podem esquecer-se: Como dizia Platão: "O castigo por não participares na política é acabares por ser governado por quem te é inferior."
E, convenhamos, se o valor dos portugueses se medisse pelo nível dos seus actuais, anteriores e anteriores aos anteriores  políticos, estariam certamente abaixo do último do lugar do “ranking” mundial.
Segundo um estudo da Aon Risk Solutions, Portugal apresenta, pela primeira vez em dez anos, um risco político com ameaças de greves, de motins e de comoção civil.
"Embora tenha mantido o mesmo 'rating' - aquele que indicia o mais baixo patamar de risco - pela primeira vez foram especificados dois riscos específicos, nomeadamente, o de incumprimento da dívida soberana e o de ocorrência de fenómenos de violência pública", disse já há algum tempo à Lusa o director geral da Aon, Pedro Penalva.
De acordo com o responsável pelo estudo da Aon Risk Solutions, a empresa global de gestão de risco da Aon Corporation, "Portugal é um dos países que surge pela primeira vez na história do 18º Mapa de Risco Político, dada a conjuntura actual em comparação com outros anos".
O legado da recessão mundial, a recente crise da dívida soberana, os desenvolvimentos ocorridos na Grécia neste domínio e o consequente risco de contágio são factores que contribuíram para atirar Portugal para a lista dos países em risco, num universo composto por mais de 211 a nível mundial.
As conclusões do estudo referem-se ao ano de 2010, e resulta de uma avaliação da AON em conjunto com diversas entidades, como universidades, agências de 'rating', seguradoras e bancos de investimento. E se em 2010 era assim…
A Aon mediu o risco político de 211 países e territórios, baseado em inúmeros indicadores, designadamente impossibilidade de conversão de moeda e transferência de dinheiro, greves, motins e comoção civil, guerra, guerra civil, não pagamento da dívida soberana, interferência política, quebra na cadeia de abastecimentos e riscos legais e regulatórios.
Para já e por enquanto, na primeira linha dos que podem e devem sair à rua para dizer “basta” estão os 800 mil desempregados, os 20% que vivem na miséria e outros tantos que começam a ter saudades de uma... refeição.
Convenhamos que é muita gente a pensar com a barriga vazia.
Em certas áreas urbanas das grandes cidades, nomeadamente "as periferias das cidades de Lisboa, Setúbal, Porto as probabilidades [protestos] são grandes", e não é só por uma "questão de austeridade, dificuldade do mercado de trabalho e do emprego", porque "já não é possível o estado social cobrir todas as funções que antes cobria", diz por sua vez José Vegar.
O investigador lembrou que uma das "principais reivindicações é que querem emprego, querem protecção, [mas] isso acabou e já não há", tendo as "pessoas de se qualificar, para terem mais acesso”.
E quanto mais qualificados são, digo eu, menos acesso têm. Isto porque, cada vez mais, os empregos não são para os que sabem mais, para os mais qualificados, mas para os que demonstram ter coluna vertebral amovível.
"Por muitas qualificações que as pessoas tenham hoje em dia, o acesso ao emprego não é automático, só os melhores vão ter acesso", diz José Vegar, certamente por nunca ter necessitado de enviar candidaturas a empregos.

Com a barriga (muito bem) cheia
na luta contra a fome em África!!

Cristiano Ronaldo, Madonna, Lady Gaga, Beyoncé e Elton John são algumas das celebridades que se associaram a uma campanha de luta contra a fome no Corno de África.

Quando, no dia 11 de Junho de 2009, o Real Madrid ofereceu ao Manchester United 93 milhões de euros pela transferência de Cristiano Ronaldo, ficou a saber-se que mais de 200 milhões de crianças continuavam a ser forçadas a trabalhar diariamente no Mundo.
Hoje, a  ONU estima em mais de 12 milhões o número de pessoas no Corno de África ameaçadas e aponta a necessidade de uma ajuda de 1600 milhões de euros.
De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), "três em cada quatro desses 200 milhões de menores estão expostos às piores formas de exploração laboral".
No entanto o mundo parou porque, isso sim, estavam em cima da mesa (não sei se algum passou por baixo) os 93 milhões de euros que o Real Madrid oferecera ao Manchester United.
Isso é que era relevante. O facto de três em cada quatro crianças e adolescentes que trabalham estarem expostas às piores formas de exploração laboral infantil (tráfico humano, conflitos armados, escravatura, exploração sexual e trabalhos de risco, entre outros), ficou fora de jogo.
Segundo a OIT (que, obviamente, não analisa a transferência de Cristiano Ronaldo), era (como é e será) de salientar os desafios no combate ao trabalho infantil, sobretudo aquele tipo de trabalho que envolve raparigas, discutir o impacto que a crise económica mundial pode ter no agravamento deste flagelo, bem como enfatizar o papel fundamental da educação na solução do problema.
No entender da OIT, a "abolição efectiva" da exploração laboral das crianças - que "são privadas de direitos básicos, como educação, saúde, lazer e liberdades individuais" - é um "dos maiores e mais urgentes desafios do nosso tempo".
Nada disso. Urgente é debater o Campeonato do Mundo de Futebol ou algo semelhante.
A expansão do acesso ao ensino básico, com muitos países a eliminaram as propinas escolares, a implementação de programas de transferência social e uma maior participação dos Governos, que estão a ratificar as convenções da OIT sobre o trabalho infantil, são alguns dos progressos mundiais mencionados pela organização.
Entretanto nas ocidentais praias lusitanas, pela mesma altura, o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, subscreveu afirmações das “gentes do mundo do futebol” de que se ultrapassaram os “limites razoáveis” na transferência de Cristiano Ronaldo para o Real Madrid mas desejou felicidades ao jogador.
Mero exercício de hipocrisia. Isto porque, como sabe Cavaco Silva e Pedro Passos Coelho, a população portuguesa (sobretudo os cidadãos de segunda classe, todos os que, como nos velhos tempos) alimenta-se de Fátima, do Fado e do Futebol.
“Acompanho aquilo que foi dito sobre esta matéria. Pagar quase 100 milhões de euros pela transferência de um jogador, nunca me passou pela cabeça”, afirmou na altura Cavaco Silva em Nápoles, Itália, à margem do encontro dos Chefes de Estado do Grupo de Arraiolos.
É pena que não passe pela cabeça dos responsáveis, seja de Portugal ou de qualquer outro país. Depois não nos venham dizer que é crime a plebe sair à rua e fazer justiça pelas suas próprias mãos.
“Gostaria que Portugal fosse mais conhecido pela inovação, pela modernização e pela sua competitividade”, acrescentou Cavaco Silva.
Pois é. Também os 800 mil desempregados que (sobre)vivem em Portugal gostariam. Mas como não é isso que acontece, um dias destes resolvem não mudar de país mas, isso sim, mudar de políticos... nem que para tal tenham de ressuscitar, ou apoiar, um qualquer António de Oliveira Salazar.

terça-feira, agosto 09, 2011

Serviço público de quê?

O Sindicato dos Jornalistas (SJ) portugueses considera inaceitável o que, como todos sabem, é inevitável: privatizar, privatizar, privatizar, a bem da nação.

Assim o SJ está contra a privatização de serviços de programas de rádio e de televisão, bem como a alienação do capital do Estado na Agência Lusa, pelo que insta os trabalhadores das empresas em causa (como se eles tivessem algum poder) e todos os democratas (como se estes ainda pensassem com a própria cabeça) a mobilizar-se em defesa do Serviço Público de comunicação social.

Considerando que a criação de um grupo de trabalho liderado pelo economista João Duque para definição do conceito de serviço público na área da comunicação social configura a formação de uma “comissão liquidatária dos serviços públicos de rádio, televisão e de agência de notícias”, o SJ - em comunicado hoje divulgado - faz notar que a “discussão sobre tão importante tema deveria ter como sede a própria Assembleia da República, designadamente através da Comissão para a Ética, a Cidadania e a Comunicação”.

João Duque, creio, é a pessoa mais indicada para analisar este serviço que já não é público e muito menos do público, desde logo porque, como muito bem sabe o SJ, é um especialista na matéria. Seja na matéria do serviço propriamente dito ou, ainda, na liquidação do que for necessário.

Para o SJ, dada a “importância estruturante para a democracia do serviço público de comunicação social”, e tendo em conta que a “definição e obrigações dos serviços públicos de rádio e de televisão estão estabelecidas em leis aprovadas pelo Parlamento”, é “importante que a Assembleia da República  chame a si a discussão do futuro destes serviços e é indispensável que o debate envolva toda a sociedade”.

Bem. Entre João Duque e o Parlamento, venha o Diabo e escolha. Todos são especialistas em tudo, é certo. Mas, mesmo assim, creio que não seria despiciendo colocar o futuro do sector nas mãos dos que, um pouco por todo o lado, mandaram a liberdade de Imprensa para o esgoto, transformando as Redacções em meros locais de enchimento de (des)informação de linha branca.

É o seguinte o texto, na íntegra, do comunicado do SJ:

«1. O Sindicato dos Jornalistas encara com enorme preocupação a criação, pelo Governo, de um grupo de trabalho anunciado como de definição do conceito – ou do modelo – de serviço público na área da Comunicação Social.

2. Tal grupo terá como objectivo a preparação da inaceitável privatização de serviços de programas de rádio e de televisão, bem como a alienação do capital do Estado na Agência Lusa, constituindo realmente uma comissão liquidatária dos serviços públicos de rádio, televisão e de agência de notícias.

3. O facto de a presidência de tal grupo ter sido atribuída a um economista – o Prof. Doutor João Duque – cujo currículo académico, profissional e até cívico em matéria de comunicação social se ignora por completo, não augura senão uma visão economicista e redutora do serviço público.

4. A circunstância de o indigitado ser uma personalidade da área ideológica do Governo e o facto de defender que, além da privatização de serviços de programas, a própria concessão de serviço público pode ser atribuída a operadores privados deixam desde já muito a desejar sobre a promessa do ministro dos Assuntos Parlamentares de que tal grupo seria constituído por personalidades independentes.

5. O SJ aguarda com expectativa não só a informação oficial sobre a composição do referido grupo de trabalho mas também a clarificação do objecto da sua missão, através de diploma legal adequado, mas considera que a discussão sobre tão importante tema deveria ter como sede a própria Assembleia da República, designadamente através da Comissão para a Ética, a Cidadania e a Comunicação.

6. Com efeito, considerando a importância estruturante para a democracia do serviço público de comunicação social, tendo em conta que a sua existência e funcionamento resultam de garantias constitucionais, e sendo claro que a definição e obrigações dos serviços públicos de rádio e de televisão estão estabelecidas em leis aprovadas pelo Parlamento, é importante que a AR chame a si a discussão do futuro destes serviços e é indispensável que o debate envolva toda a sociedade.

7. O SJ reafirma a sua posição de intransigente defesa dos serviços públicos de rádio e de televisão prestados por empresas de capitais exclusivamente públicos, assim como considera que a Agência Lusa não pode ser privatizada, apelando a todos os grupos parlamentares para que se oponham ao seu desmantelamento.

8. O SJ apela a todos os trabalhadores dos serviços públicos de rádio e de televisão e da Agência Lusa, bem como a todos os democratas, para que se mobilizem em defesa do Serviço Público de comunicação social.»

segunda-feira, agosto 08, 2011

As perguntas dos putos de Angola


A doutora Francisca, governadora provincial em Angola, foi a uma escola conversar com as criancinhas, acompanhada de uma comitiva de alto nível patriótico.

Depois de apresentar todas as maravilhosas propostas para seu governo (MPLA), disse às criancinhas que iria responder a perguntas.

Uma das crianças levantou a mão e a doutora Francisca perguntou:
- Qual é o teu nome, meu filho?
- Paulinho.
- E qual é a tua pergunta?
- Eu tenho três perguntas. A primeira é "Onde estão os milhões de empregos prometidos na campanha eleitoral pelo MPLA?"
- A segunda é "Quem matou o Mfulupinga Landu Victor?"
- E a terceira é "A senhora sabia dos escândalos dos milhões do BNA?".

A doutora Francisca fica desnorteada, mas nesse momento a campainha para o recreio toca e ela aproveita e diz que continuará a responder depois do recreio.

Após o recreio, a doutora Francisca diz:

- OK, onde estávamos? Acho que eu ia responder perguntas. Quem tem perguntas?

Um outro garotinho levanta a mão e a doutora  Francisca aponta para ele.

- Podes perguntar, meu filho. Como é teu nome?
- Joãozinho, e tenho cinco perguntas:
- A primeira é "Onde estão os milhões de empregos prometidos na campanha eleitoral pelo MPLA?"
- A segunda é "Quem matou o Mfulupinga Landu Victor?"
- A terceira é "a senhora sabia dos escândalos dos milhões do BNA ou não?"
- A quarta é "porque é que a campainha do recreio tocou meia hora mais cedo?".
-A quinta é "Cadê o Paulinho??”

Campo de tortura no Zimbabué?
- É apenas para chatear Mugabe


Os inimigos do democrata e, também, defensor dos direitos humanos Robert Mugabe passam a vida a denegrir  a imagem do grande líder (a seguir ao seu homólogo angolano) africano.

Dizem agora, como se alguém acreditasse, que foi descoberto um campo de tortura situado numa zona mineira de Marange, no Zimbabué, gerido pelas forças de segurança do país.

A descoberta deste "centro de tortura", vejam só,  coincide com a intenção desse baluarte dos direitos humanos a nível mundial, a União Europeia, de intensificar o comércio de diamantes (que obviamente nada têm de sangue) de duas importantes minas, localizadas na região.

De acordo com a BBC, testemunhas afirmam que os campos de tortura estão em actividade há pelo menos três anos. Em Marange, as forças governamentais "recrutam civis para procurar diamantes de forma ilegal e encaminham os que oferecem resistência para os campos de tortura", assim como os que "procuram diamantes por conta própria".

"Recebemos 40 chibatadas pela manhã, 40 à noite e mais 40 durante a madrugada", afirmou à BBC uma das vítimas libertadas em Fevereiro.

"Usaram pedaços de madeira para bater nos pés, enquanto eu estava no chão e acertavam com pedras nos tornozelos", referiu.

Um ex-oficial, que trabalhou no campo principal, em 2008, afirmou, segundo a BBC, que torturou prisioneiros, algumas vezes com a ajuda de cães. "Os prisioneiros eram algemados e soltávamos os cães para os morder".

Bem vistas as coisas, apenas se trata de métodos copiados dos mais evoluídos sistemas ocidentais, de que são exemplos Guantánamo (Cuba) ou Abu Ghraib (Iraque).

Um dos campos, localizado na cidade de Zengeni, (a pouca distância da mina Mbada, uma das explorações a que a UE espera dar "luz verde") conhecido como a "Base Diamante", é composto por tendas militares, numa área delimitada por arame farpado, com o objectivo de não deixar fugir eventuais prisioneiros.

É claro que a UE diz que as duas minas na área passaram a obedecer aos padrões internacionais e quer que os diamantes destas áreas sejam aprovados imediatamente para exportação, o que suspenderia parcialmente um embargo imposto em 2009.

O embargo passou a vigorar por determinação do chamado Kimberley Process (KP), organização internacional que fiscaliza o comércio de diamantes, o órgão que denunciou os assassinatos e os abusos por parte das forças de segurança nos campos de diamantes de Marange.

O KP foi criado pela indústria de diamantes, por governos de vários países e organizações não-governamentais para evitar a entrada no mercado de diamantes vindos de áreas de conflito.

Nick Westcott, um porta-voz do grupo de trabalho do KP, disse que a descoberta dos campos "é algo que não foi relatado ao Processo Kimberley".

Em Junho, o presidente do KP, Matieu Yamba, anunciou formalmente que a proibição da exportação de diamantes de duas das minas de Marange tinha sido suspensa.

Mas, é claro, nada disto é um obstáculo para a UE. Basta recordar, por exemplo, que Margaret Thatcher, que em Maio de 1979 se tornou a primeira mulher a dirigir um governo britânico, proibiu nesse ano o seu enviado especial à Rodésia de se encontrar com Robert Mugabe.

O argumento, repare-se, era o de que "não se discute com terroristas antes de serem primeiros-ministros", segundo arquivos oficiais britânicos desclassificados no dia 30 de Dezembro de 2009.

"Não. Por favor, não se reúna com os dirigentes da 'Frente Patriótica'. Nunca falei com terroristas antes deles se tornarem primeiros-ministros", escreveu - e sublinhou várias vezes - numa carta do Foreign Office de 25 de Maio de 1979 em que o então ministro dos Negócios Estrangeiros, Lord Peter Carrington, sugeria um tal encontro.

Ou seja, quando se chega a primeiro-ministro, ou presidente da República, deixa-se de ser automaticamente terrorista. Não está mal. É verdade que sempre assim foi e que sempre assim será.