quarta-feira, junho 06, 2012

Respeitem o circo!


Correspondendo ao sentimento de muitos portugueses, o  treinador Manuel José criticou a forma como tem decorrido a preparação de Portugal para o Euro 2012, qualificando-a como "um circo autêntico".

No dia 10 de Fevereiro de 2008, o Presidente da República, Cavaco Silva, defendeu que Portugal tem "outras prioridades" e que já tinha levantado reticências à organização do Campeonato do Mundo de futebol quando era primeiro-ministro.

Mas que chatice. Portugal deveria organizar tudo e mais algumas coisa que respeite a essa transparente, impoluta e dignificante indústria do futebol. Quanto mais não fosse serviria para construir mais uns campos de futebol e para, dessa forma, compensar – por exemplo - o fecho das urgências.

Na altura, Cavaco Silva admitiu que "Portugal está agora mais desenvolvido", embora tenha "outras prioridades nacionais".

Outras prioridades? Que prioridades? Futebol é o que está a dar, mesmo que os estádios estejam às moscas, mesmo que os craques continuem a rematar com “o pé que têm mais à mão…”

"Quando era primeiro-ministro, já o problema da realização de um Mundial de futebol se tinha colocado ao Governo. Na altura, colocámos algumas reticências", explicou o Presidente da República, comentando a possibilidade de Portugal poder candidatar-se à organização do campeonato de 2018.

Creio que Cavaco Silva está (tal como faz no resto) a chutar a bola com o mão errada. Se é uma questão de se saber se Portugal tem recursos, é óbvio que tem. Basta ver o que se poupa com o fecho das urgência e dos serviços de atendimento permanente.

Além disso, num país que já tem a alma pouco sã e no prego, importa fazer tudo para que tenha o corpo inteirinho a chafurdar na merda. E se, a par do fado e de Fátima, é de futebol que o povo gosta, acho que não se pode perder a possibilidade de pôr Portugal no “Guiness Book” como o país com mais estádios de futebol por metro quadrado.

Há, com certeza, quem hoje volte a pensar, ou a dizer, que “só os espíritos cretinos e obtusos pensam que receber um clube numa câmara é sinal de promiscuidade”.

Cada vez mais os camarotes dos estádios dos grandes clubes de futebol são os lugares onde também se vêem mais políticos por metro quadrado.

Tenho dúvidas que todos esses políticos sejam adeptos do futebol e muito menos do desporto, mas o que importa é estar ao lado de um campeão. E consoante muda o campeão mudam-se os panegíricos. Portugal é mesmo assim.

Quando algum político resolve separar o trigo do joio, ou seja o futebol da política, o Carmo e a Trindade ameaçam cair. Não caem mas nasce, e de que maneira, a sarna que põe esses políticos com enorme coceira.

Mas será que, mesmo com os portugueses sem saberem se ainda têm pescoço, vale a pena tentar moralizar o que não é passível de ser moralizado, como é a política e o futebol?

Não, não vale a pena. Olhem para os tais camarotes e ficam a perceber que a promiscuidade é de tal ordem que não se sabe quem é quem, quem representa o quê.

Aliás, como nos recorda a história, foi essa promiscuidade que fez com que o macaco acabasse por “comer” a mãe. Mas hoje nem isso é problema... desde que não se saiba.

De há muito que os portugueses se habituaram a ver os agentes da vida pública todos misturados numa orgia colectiva que, cada vez mais, mostra que a moralidade e a equidistância são valores pouco relevantes para um país que está acostumado a jogar no sistema de todos a monte e fé em Deus.

Para comprovar tudo isso nem é preciso apelar à memória (também ela um valor irrelevante na sociedade), basta de facto – sobretudo em Lisboa e no Porto - olhar todas as semanas para as bancadas VIP dos estádios de futebol.

Políticos pigmeus e pigmeus políticos (entre outros) lá estão, a propósito de tudo e de nada, em bicos de pés para que todos os vejam.

Num país de aparências, que melhor montra poderá querer um qualquer político pigmeu ou um pigmeu político?

Dir-se-ia que, mais uma vez, não basta ser sério. Também é preciso parecê-lo. Mas, infelizmente, algumas das nossas figuras públicas nem são sérias nem parecem sê-lo. Nem estão, acrescente-se, preocupadas com isso.

Se, em matéria de futebol, Portugal tem o que merece, na política também não anda longe. O importante, ao que parece, não é o país real (doente, vilipendiado, maltratado, prostituído) mas, isso sim, tudo o que é marginal e que serve às mil maravilhas para enganar o povo.

Discutir o essencial? Para quê? Sim, para quê se, mais coisa menos coisa, todos ficamos saciados com a discussão do acessório?

É claro, digo eu e mais meia dúzia de cépticos, que os políticos deveriam analisar o essencial, ou sejam as pessoas. Então porque carga de água não o fazem? A minha teoria continua a ser a mesma: Enquanto este país não instituir o primado da competência em vez do da subserviência, não vai lá.

É por isso que os políticos se limitam a ver para que lado vai o fumo dos eléctricos, a idolatrar o futebol e a andar calçados para não se ver que têm as meias rotas. Por alguma coisa são bem coadjuvados por assessores (ou sei que alguns são supostamente jornalistas) que confundem o violino comprado na Feira da Ladra com um Stradivarius.

Entretanto, o Zé povinho continua a pagar as facturas. As facturas do futebol milionário, dos políticos palermas mas igualmente bem pagos, dos capatazes também analfabetos e também razoavelmente bem pagos, etc. etc..

E depois falam de crise. Em crise andam milhares e milhares de portugueses, há muitos, muitos anos. Até um dia, espero eu.

A saúde é um direito fundamental? Onde?


O Presidente da República disse hoje que seria "inaceitável" que os portugueses que não têm recursos económicos não pudessem ser tratados nos hospitais, frisando que "a saúde é um direito fundamental".

"A saúde é um direito fundamental dos cidadãos numa sociedade democrática e seria inaceitável que se verificasse aquilo que se verifica nalguns países do mundo em que se não tem um seguro ou se não tem recursos financeiros então fica à porta do hospital e não é tratado", afirmou o chefe de Estado.

Pois é. O rapazola até fala bem, mas sacode ainda melhor a água do capote. Seja porque a Constituição não o permite, seja porque é um assunto do governo, seja porque é uma imposição da troika, Cavaco Silva  continua a solidificar a sua postura de figura decorativa da sociedade portuguesa.

O presidente sabe que são cada vez mais os especialistas em saúde pública que associam o excesso de mortalidade à crise económica, se bem que a crise seja uma questão (muito) relativa.

É certo, contudo, que quatro em cada dez portugueses admitem fazer cortes no orçamento familiar para poderem comprar medicamentos. Nada mais salutar. Ou comem ou tomam medicamentos. As duas coisas juntas é que não pode ser, diriam com certeza Passos Coelho e Cavaco Silva.

O barómetro "Os portugueses e a saúde" nunca foi, nem será, lido pelos ministros deste governo, muito menos por Cavaco Silva. Está lá escrito que 1,2 milhões de portugueses afirmam que deixam na farmácia alguns dos medicamentos necessários.

E tudo se deve, lamentavelmente, ao facto de os portugueses ainda não terem percebido os nobres, altruístas e beneméritos intentos do Governo quando sugere (impõe, vá lá) que os cidadãos vivem sem comer e morram sem ficar doentes.

Nesta altura, se calhar os portugueses estão tentados a dizer que estão entregues à bicharada, seja referindo-se a Passos Coelho ou a Cavaco Silva. Mas não é assim. Desde logo porque essa bicharada não gosta de se alimentar de corpos esqueléticos, famintos e em estado terminal.

Desemprego e cortes salariais estão na origem do desmoronar do equilíbrio financeiro das famílias que, como se sabe, continuam a não seguir os conselhos do actual governo que – para mostrar à troika como é credível – não só quer que os portugueses vivam sem comer como, ainda, lhes exige que morram sem ficar doentes.

Mas não há mal que sempre dure. O governo sabe que os decibéis dos actuais gritos vão, lenta mas solidamente, diminuir de intensidade até emudecerem por completo. Com a barriga vazia os portugueses deixam de gritar. É tão simples quanto isso. Vão definhando, morrendo num silêncio indigno de um povo que já deu luz ao mundo. Mas também, é verdade, gerou figurões como Cavaco Silva, Passos Coelho e quejandos.

O sobreendividamento das famílias está a aumentar assustadoramente,  mas é nos grandes centros urbanos que se verificam maiores dificuldades. Lisboa representa mais de um terço.

Isso de ser em Lisboa já não agrada a Pedro Passos Coelho. Estão muito perto. Se ainda fosse lá para cascos de rolha, bem ia a coisa. Mesmo assim nada atemoriza os donos das ocidentais praias lusitanas cada vez mais próximas de Marrocos.

A razão do colapso está quase sempre relacionada com o desemprego, mas também se associa a novas realidades salariais, depois do corte nos salários, da passagem do IVA de 5% para 23% no gás e na electricidade.

Entretanto, para que não restem dúvidas, de que a política de Passos Coelho se resume a não comer e estar calado, o primeiro-ministro já avisou "aqueles que pensam que podem incendiar as ruas" e trazer "o tumulto" que o governo não permitirá esse caminho e saberá decidir quando necessário.

É uma nova versão de fuba podre, peixe podre, panos ruins, cinquenta angolares e porrada se refilares.

Coelho elogia paciência dos seus escravos


Como se não bastasse Passos Coelho julgar-se dono da verdade, ainda gosta (terá tido, com certeza, bons professores) de fazer dos plebeus uns asnos.

E está de tal maneira imbuído dessa douta suposição, que vem agora, depois de dizer estar disposto a fazer "alguma modelação" na aplicação das medidas de austeridade com "impacto social mais pesado", elogiar “extrema paciência” do povo português.

Lá que os portugueses aceitem ser, passivamente, escravos ao serviço de um governo que tem um primeiro-ministro que mente, ainda vá que não vá. Mas daí a acreditar que Passos Coelho abandonou a prática do “quero, posso e mando” vai, creio eu, uma grande distância.

“É uma grande admiração que sinto pelos portugueses, quer tenham votado em nós ou não, pela forma como estão a encarar o futuro”, diz o delegado  da Alemanha e de Angola em Portugal, passando uma esponja sobre o facto de o Governo já há muito ter abandonado a tese de que os portugueses iriam morrer da cura ou da doença. Isto é, fez as contas e achou por bem que morram apenas da doença, desde logo porque dessa forma não há necessidade de gastar dinheiro (que, por exemplo, faz falta no BPN) na tentativa de cura.

É claro que Passos Coelho sabe que a sua política atira o país para uma terrível recessão económica, eventualmente irreversível. Mas isso não o preocupa. Quando acabar ele dá à sola e quem vier atrás que feche a porta e pendure a placa da falência.

Quando se vê que alguns políticos sofrem mesmo de nanismo, genético ou adquirido, não sobra margem de manobra para a esperança. Pelos vistos os portugueses sentem-se felizes quando o soba substitui um prato cheio de farelo por dois… meio vazios.

Este cenário faz lembrar a história da família de um militar morto durante a guerra colonial. Quando o Exército foi comunicar aos pais que o filho tinha morrido, disse: Ele foi atingido por sete tiros, mas felizmente só um foi fatal.

O Governo está convencido, e até agora não tem razões práticas para alterar a estratégia, que os escravos contentam-se com migalhas, farelo ou pão e água.

Da mesma opinião são também os ilustres membros da casta superior do reino lusitano, casos de Joaquim Pina Moura, Jorge Coelho, Armando Vara, Manuel Dias Loureiro, Fernando Faria de Oliveira, Fernando Gomes, António Vitorino, Luís Parreirão, José Penedos, Luís Mira Amaral, António Mexia, António Castro Guerra, Joaquim Ferreira do Amaral, Filipe Baptista, Ascenso Simões, Eduardo Catroga.

Ou, igualmente, Cavaco Silva que, em termos vitalícios, só tem direito a 4.152 euros do Banco de Portugal, a 2.328 euros da Universidade Nova de Lisboa e a 2.876 euros de primeiro-ministro.

Mas, reconheça-se, Portugal é um país (se é que é) muito original. Ao mesmo tempo que tem (pelo menos) um milhão e duzentos mil desempregados, 20% de miseráveis e outros 20% de semi-miseráveis, tem uma Presidência da República que apenas representa uma pequena factura de 16 milhões de euros por ano e, sobretudo, um primeiro-ministro que elogia a “extrema paciência” dos seus escravos.

É claro que, no meio da plebe, aparecem sempre as vozes críticas que contestam a necessária e vital opulência de um organismo que dirige o destino de um país que recentemente readoptou o esclavagismo.

Dizem esses seres inferiores, e é por isso que são escravos, que os 16 milhões de euros anuais são um valor 163 vezes superior à presidência de Ramalho Eanes, gastando o chefe de Estado português  o dobro do rei de Espanha (8 milhões).

Esquecem, no entanto, de dizer que a casta superior fica, mesmo assim, longe dos 112 milhões de euros de Nicolas Sarkozy, ou dos 46,6 milhões da rainha de Inglaterra, Isabel II.

Importa também relevar a importância e imprescindibilidade do séquito que acompanha sua majestade D. Cavaco Silva. Ou  seja, 12 assessores e 24 consultores, além dos restantes especialistas que põem em funcionamento a máquina pessoal do presidente e toda a sua estrutura física.

Ao que parece,  Cavaco Silva faz-se rodear de um regimento de quase 500 pessoas, fazendo com que os 300 elementos a trabalhar no Palácio de Buckingham, e os 200 que servem o rei Juan Carlos de Espanha pareçam insignificantes.

Mas ainda bem que assim acontece. Em alguma coisa Portugal haveria de ser grande. Também o é noutras coisas, como seja o bacanal político, as orgias político-económicas e as festas da abundância em que as sobras alimentam os escravos.

Portugal não dá, aliás, a perceber que o seu povo passa fome. Como não tira os sapatos ninguém percebe que tem a meias rotas. Veja-se, por exemplo, que na 21ª Cimeira Ibero-Americana, realizada no Paraguai, o reino lusitano mostrou toda a sua pujança.

Mostrando mais uma vez a sua coerência e depois de ter dito que “ninguém está imune aos sacrifícios”,  Aníbal Cavaco Silva levou ao Paraguai uma comitiva de 23 super-especialistas, com destaque para o seu médico pessoal e, é claro, para o seu mordomo.

terça-feira, junho 05, 2012

É tudo uma questão de preço!


A propósito, ou não, de Nuno Simas e Maria José Oliveira. O primeiro porque fez algum estardalhaço com as ditas “secretas” e foi castigado com o cargo director-adjunto  da Lusa, empresa tutelada por Miguel Relvas, e a segunda porque ao bater com a porta do Público poderá ter aberto uma maior…

Uma trabalhadora independente com lugar marcado nas esquinas da cidade, que seja amiga (ou fornecedora de serviços) do dono, ou do filho do dono,  de um jornal, pode de um momento para o outro ser jornalista.

O presidente da República de Portugal, Cavaco Silva, lamentou no dia 26 de Março, diz ele que "profundamente", que dois fotojornalistas tenham sido atingidos (significará o mesmo do que agredidos?) durante os "distúrbios" que ocorreram no Chiado, sublinhando ser importante que se "saiba bem tudo aquilo que aconteceu".

No que tange aos fotojornalistas, a questão parece-me simples de explicar. Cá para mim, os polícias cumpriram com todo o rigor as instruções recebidas, mesmo que de forma informal.

Passo a explicar. Fernando Lima, o consultor político do Presidente da República, e seu ex-assessor de imprensa, considerou que "uma informação não domesticada constitui uma ameaça com a qual nem sempre se sabe lidar".

Ora, a Polícia existe para acabar com ameaças e, é claro, para domesticar todos aqueles que prevaricam. É discutível se a melhor forma de domesticação é o uso do cassetete. Mas cada um usa os meios que lhe parecem mais eficazes.

"Lamento profundamente que dois fotojornalistas tenham sido atingidos durante os distúrbios a que as forças de segurança tiveram que fazer face", afirmou o chefe de Estado.

Dizer que desculpas e lamentos não se pedem – evitam-se, é o mesmo que chover no molhado. Aliás, nada disto é novo em Portugal. O país tem evoluído também nas formas de domesticar os jornalistas e, talvez por isso, se estranha que seja preciso usar a violência física. Por regra a violência psicológica, ou  a simples OPC (oferta privada de compra), são mais do que suficientes.

O jornalismo em Portugal (que já não sei bem o que é) continua a sua corrida no sentido da perda total de credibilidade. Há, dizem-me, algumas excepções. Por serem poucas são difíceis de encontrar. O processo de domesticação está no bom caminho.

No bacanal colectivo em que se tornou Portugal, e ao contrário do que seria de esperar, os “macacos” (que são cada vez mais) não estão nos galhos certos (que são cada vez menos). E quando assim acontece (e acontece muitas vezes), os (supostos) jornalistas fazem contas à vida e lá vão para a vida.

O Estado de Direito... democrático continua a manter, sempre através do cassetete físico ou psicológico, muitos vícios, deformações e preconceitos herdados. Dá jeito, é barato e eficiente. O “quero, posso e mando” continua a fazer escola, sobretudo tendo como mestres os donos dos jornalistas e os donos dos donos.

A promiscuidade na sociedade portuguesa está de pedra e cal. Na Comunicação Social todos, de Cavaco Silva e Miguel Relvas, a querem independente mas, como é hábito, controlam essa independência pelos mais diferentes meios, sejam económicos, partidários ou outros.

O jornalismo que vamos tendo, qual reles bordel, aceita tudo e todos. No entanto, reconheça-se, os jornalistas sempre podem ser deputados, assessores de ministros, administradores de empresas, gestores e até – pasme-se – “jornalistas” nas empresas onde o Estado manda, seja na Lusa ou na RTP.

Se todos podem ser jornalistas, porque carga de água não podem os jornalistas ser deputados... da Nação, ou assessores de políticos, ou conselheiros do presidente, ou prostitutos da alma? Nem mais. É uma pequena vingança, mas mais vale pequena do que nenhuma. Não?

Aliás, a própria Comissão da Carteira Profissional de Jornalista entende que não é incompatível ser jornalista e deputado. O mesmo se passa com o Sindicato dos Jornalistas que viu o seu presidente ser candidato a deputado.

Nada importa. Os Jornalistas (até) não têm razão de queixa... São uma classe prestigiada, nobre e cada vez mais dignificada.

É muito mais vantajoso e lucrativo ser domesticado, criado de luxo do poder, como é bem exemplificado pelo próprio Fernando Lima. E depois das diferentes comissões de serviço sempre poderá ser administrador de uma qualquer empresa, pública ou privada.

Impulso Jovem. Impulso quê?

O Conselho de Ministros do protectorado alemão a norte de Marrocos deverá aprovar amanhã as medidas a propor à Comissão Europeia no âmbito do combate ao desemprego jovem, que poderão beneficiar entre 77 mil e 165 mil jovens.

Convictos da bondade do executivo de Pedro Miguel Passos Relvas Coelho, e de acordo com os registos do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), o número de licenciados desempregados que anulou a inscrição nos centros de emprego para emigrar subiu 49,5% entre 2009 e 2011.

O Governo português propõe a Bruxelas "a combinação de diferentes recursos financeiros com o intuito de proporcionar um volume global de financiamento que se estima poder atingir os mil milhões de euros" para a execução do plano intitulado "Impulso Jovem".

Este "esforço financeiro" poderá passar, segundo propõem os gestores do protectorado, pela realocação de fundos comunitários já existentes, pelo reforço destas verbas e também pelo investimento privado.

De acordo com os dados do IEFP, a maioria dos desempregados que optam por emigrar têm entre 35 e 54 anos (55,2%) e possuem habilitações escolares ao nível do ensino secundário (24,3%).

Entre os grupos de profissões com mais trabalhadores a emigrar, estão os operários, artífices e trabalhadores similares (20,4% do total), pessoal dos serviços de protecção e segurança (12,3%) e os trabalhadores não qualificados dos serviços e comércio (10,5%).

O plano do Governo prevê vários cenários sendo que o primeiro, menos ambicioso, passa pela reprogramação de fundos comunitário e que a ser aceite permitiria alocar 351,7 milhões de euros ao "Impulso Jovem". Neste cenário, seriam beneficiados 77 mil jovens.

No segundo cenário, mais ambicioso, o Governo propõe a Bruxelas um reforço das verbas comunitárias, o que, a ser aceite, permitiria a Portugal alocar para este programa mais de 651 milhões de euros e, assim, beneficiar quase 165 mil jovens.

A este propósito, recordo-me que o secretário-geral do PSD, Matos Rosa, considerou no dia 29 de Agosto de 2011 que o trabalho que os portugueses tinham pela frente para superar a crise era um "trabalho colossal", acreditando que o país vai "conseguir" superar esta dificuldade.

E se ao "trabalho colossal" para superar a crise juntarem o "trabalho colossal" para aturar os políticos, tanto os que estão no poder como os que já lá estiveram, para além dos que lá querem estar, bem podem ser considerados um nobre povo numa eventual nação que já foi valente.

"Os desafios que nos colocam não têm precedentes na democracia portuguesa. Sim, o trabalho que temos pela frente é um trabalho colossal, sim, absolutamente colossal", afirmou Matos Rosa em Castelo de Vide, Portalegre, durante a sessão de abertura da Universidade de Verão do PSD.

E se é um "trabalho colossal" para muitos, o que dirão ummilhão e duzentos mil desempregados, 20% de portugueses que já vivem sem comer e os outros 20% que vivem (isto é como quem diz) com o espectro da fome a bater à porta?

Na mesma sessão, o 'reitor' e director da Universidade de Verão, Carlos Coelho, sublinhou que os 100 'alunos' que compunham aquela iniciativa do PSD eram uma "verdadeira selecção nacional", sublinhando ainda que os escolhidos "são os melhores".

Pois. Eram e, claro, são os melhores, os mais capazes para um partido, para um sistema, em que os "jobs" são para os "boys", em que os génios são menos importantes do que os néscios desde que estes tenham cartão do partido.

E nessa selecção nacional não estão os licenciados que para sobreviver estão a guiar táxis, a fazer embrulhos em lojas de roupa ou a servir às mesas nos cafés do país.

Mais uma vez, com ou sem "Impulso Jovem",  o Governo simula que quer alterar o (mau) estado das coisas mas de facto é mais a parra do que a uva. Mais o acessório do que o essencial. Mais o oportunismo do que o realismo. Mais a embalagem do que o produto.

Seguindo “ipsis vervis” a metodologia que tanto criticou no PS, o PSD está a estacionar, com algumas raras excepções, as suas peças em sectores relevantes.

É claro (para mim - entenda-se) que este Governo (ao contrário dos leves e iniciais indícios e de alguns – embora poucos – competentes que o integram) está-se nas tintas para os portugueses que não têm coluna vertebral amovível, não havendo "Impulso Jovem" ou “Impulso Adulto” que safe os escravos.

Porquê? Porque, cada vez mais, os portugueses sabem que é sempre possível ter um cartão do partido no meio de tantos outros, mesmo que a validade seja curta.

Sabem que, sendo do partido, haverá sempre um lugar como assessor, como especialista ou como super qualquer coisa.

Tal como conheço pessoas de alto nível cultural que são motoristas de táxi, repositores de produtos em supermercado, fazedores de embrulhos em lojas e, é claro, desempregados, também conheço políticos e similares (ministros, deputados, autarcas, assessores, administradores de empresas públicas, institutos etc.) que deveriam ser motoristas de táxi, repositores de produtos em supermercado, fazedores de embrulhos em lojas e, é claro, desempregados.

A diferença entre eles não está na origem do “dr.” (quem diz doutor, diz engenheiro) mas nas ligações partidárias que, a par ou não da competência, são muito mais do que meio caminho andado para se ter um bom tacho.

A bem da nação do Aníbal


“Acompanho aquilo que foi dito sobre esta matéria (transferência de Cristiano Ronaldo para o Real Madrid). Pagar quase 100 milhões de euros pela transferência de um jogador, nunca me passou pela cabeça”, afirmou Cavaco Silva em Nápoles, Itália, à margem do encontro dos Chefes de Estado do Grupo de Arraiolos. E acrescentou: “Gostaria que Portugal fosse mais conhecido pela inovação, pela modernização e pela sua competitividade”.

Um chefe de posto modesto


O primeiro-ministro defendeu que, ao fim de um ano de Governo, “os portugueses já não estão perante o abismo” e que está em curso uma mudança económica que é “a mais importante dos últimos 50 anos”.

É verdade. De vez em quando o homem até diz umas coisas certas. Os portugueses já não estão, de facto, perante o abismo. Estão, isso sim, dentro do abismo. Não vivem, e a Passos Coelho devem tal façanha, o drama da incerteza. Estão dentro e pronto!

Durante uma daquelas coisas a que já muitos portugueses não têm acesso -  um jantar, promovido pela Câmara de Comércio e Indústria Luso-Alemã, no Convento do Beato, em Lisboa, Pedro Passos Coelho considerou que “a envolvente externa” oferece motivos de preocupação, mas que Portugal “está hoje mais forte, mais sólido e mais resistente a contágios adversos”.

Todos os portugueses de segunda estão a dar provas de que são fortes, sólidos e resistentes. Ao contrário das perspectivas do governo, ainda são muitos os que, apesar de estarem a viver sem comer, não entregaram a alma ao criador. Mas é tudo, como bem sabe o sumo pontífice do reino d’aquém e d’além Massamá, uma mera questão de tempo.

Na sua, como sempre pedagógica, intervenção, o primeiro-ministro corroborou que “os portugueses já não estão perante o abismo com que nos defrontámos há praticamente um ano atrás. Portugal está muito mais preparado para receber investidores e para iniciar um novo ciclo de investimento, ao mesmo tempo que, a prazo, poderá recuperar o dinamismo da sua procura interna, assim que tenha realizado o seu ajustamento interno também”.

Assim sendo, com mais um homem do PSD ao leme, Portugal vai emergir rapidamente. Provavelmente já com muito menos portugueses e ao largo da Guiné-Bissau ou, talvez, junto à baía de Luanda.

O primeiro-ministro afirmou que foi mandatado para “recuperar a credibilidade e resgatar as melhores condições de investimento para o país” e que, um ano depois, a economia portuguesa “está a beneficiar de uma mudança que é estrutural e que, em termos qualitativos e quantitativos, é, sem dúvida, a mais importante dos últimos 50 anos”.

Com apenas um milhão e duzentos mil desempregados, 20% de pobres e outro tanto de gente que apenas tem como supremo objectivo de vida pôr algo mais do que farelo nos pratos da família, não há dúvida que esta é mais radical mudança estrutural alguma vez registada.

Passos Coelho acrescentou que a mudança em curso é “talvez mesmo a mais relevante” desde que Portugal integrou a Associação Europeia de Livre Comércio, em 1960. Modéstia. Cá para mim, é a mais relevante desde 1 de Dezembro de 1640. Foi pena que para isso tenha anulado a decisão de D. José I que em  12 de Fevereiro de 1761 aboliu a escravatura. Mas também não se pode querer tudo.

segunda-feira, junho 04, 2012

Iniciativa pioneira no Facebook


A obra “Poemas Geométricos”, de Luís Bizarro Borges, vai ser apresentada online, em tempo real, na plataforma do Facebook, terça-feira, 5 de Junho, às 22 horas (em Portugal), 19 horas (no Brasil). A iniciativa pioneira tem o apoio do Mosteiro de Tibães (Braga), espaço a partir do qual será feita a emissão.

Qualquer pessoa, onde quer que se encontre, pode acompanhar a apresentação, desde que esteja registada no Facebook. Depois, só tem de entrar na página do Centro de Gravidade, espaço virtual onde se realizará o evento.

A apresentação dos “Poemas Geométricos” obedece ao formato usado no Facebook por qualquer utilizador. A abordagem da obra será feita através da colocação de sucessivos posts (incluindo um vídeo).

“Poemas Geométricos” é uma obra não convencional, bilingue (português/espanhol), interactiva, composta por quatro peças geométricas.

Link da página Centro de Gravidade:
http://www.facebook.com/pages/Centro-de-Gravidade/225499270818222

É suficiente enganar os portugueses


“De que fala Passos Coelho quando diz que a quarta avaliação da troika ao cumprimento do programa de assistência económica e financeira a Portugal decorreu "com bastante sucesso". Mas sucesso para quem? Se tudo afinal corre tão bem, porque é que os portugueses estão tão mal?”

Esta questão, levantada pelo meu amigo (e que amigo!) Hernâni Von Doellinger  com a sua habitual e crónica perspicácia, picou-me a memória.

Segundo o líder do CDS-PP, Paulo Portas, grande parte das medidas de austeridade foram, são, e continuarão a ser, impostas pelo memorando assinado com a troika e não são uma opção do Governo português.

Ora, o problema não é exactamente esse. Ou seja, a troika diz-me que para eu resolver a minha crise financeira só posso ter uma refeição, embora exígua, por dia.  No entanto, o Governo de Passos Coelho e Paulo Portas foi mais além e obriga-me (para ficar com o problema rápida e completamente resolvido) a estar seis meses sem comer.

E tem razão. Daqui a seis meses, cumprindo o memorando, eu estaria por cá, embora bem mais magro. Se calhar não teria resolvido o meu problema. Cumprindo o memorando imposto pelo Governo, daqui a seis meses não terei qualquer problema. Já há muito terei morrido.

"É preciso ter a noção que grande parte das medidas que são discutidas não constituem uma opção do Governo, nem sequer uma alternativa à disposição do país. Constituem uma obrigação do Estado português que assinou um contrato com aqueles a quem pediu dinheiro emprestado", afirma Paulo Portas, certamente no intervalo de várias e boas refeições.

O líder do CDS-PP lembra ainda que foi o anterior Governo PS, liderado por José Sócrates, que negociou este memorando. É verdade. Negociou um ano com uma refeição por dia e não, como impõe o Governo actual, meio ano sem nenhuma refeição.

Paulo Portas também deixa de quando em vez um aviso aos socialistas: "Não vale a pena tentar fazer política com matérias do IRS, ou do IRC, ou do IVA, da electricidade e do gás, quando o partido que tenta fazer essa política foi precisamente o partido que nos conduziu à situação em que nos encontramos".

Também é verdade. Mas não deixa de ser igualmente verdade que entre viver de pão e água, como era a estratégia do PS, e viver pura e simplesmente sem comer vai, sei por experiência própria, uma abissal distância.

Se calhar devido ao local da sessão em que o líder do CDS/PP fez estas declarações (Museu do Vinho, Anadia, 17 de Setembro de 2011 ), Portas deixou-se inebriar pelos etílicos e voluptuosos aromas da demagogia ou, talvez também pela sua cada vez mais íntima relação com o “líder carismático” de Angola, pela tentação de julgar que os portugueses são pura e simplesmente matumbos.

"Quando um País chega à situação a que Portugal chegou por causa da sua despesa e por causa da sua dívida, obviamente, se assina um contrato e um compromisso com as instituições internacionais não é para hesitar, nem para duvidar, nem para fazer de conta", sustentou Portas.

E, em matéria de sustentação, o líder do CDS e ministro de Passos Coelho sabe do que fala. Desde logo porque está pouco preocupado em saber se o doente morre da doença ou da cura. Isto porque o doente nem sequer é da sua família.

"Há três meses era habitual nas instituições internacionais e na imprensa mundial ver Portugal referido imediatamente a seguir à Grécia como se fossem um conjunto. Agora é mais frequente ver que o caso Português é diferente dos outros", referiu Paulo Portas, certamente convicto de que – por exemplo – a Madeira não faz parte do reino lusitano.

O líder do CDS-PP adiantou ainda que o que distingue Portugal da Grécia é "essa atitude de querer cumprir, de saber que temos de fazer reformas e não hesitar e não querer enganar as instituições internacionais".

Nesta particular, Portas tem toda a razão. Os dirigentes de Portugal não querem enganar as instituições internacionais. Para eles é suficiente enganar os portugueses.

Fátima, fado e futebol


Cristiano Ronaldo, Madonna, Lady Gaga, Beyoncé e Elton John são algumas das celebridades que se associaram a uma campanha de luta contra a fome no Corno de África.

Quando, no dia 11 de Junho de 2009, o Real Madrid ofereceu ao Manchester United 93 milhões de euros pela transferência de Cristiano Ronaldo, ficou a saber-se que mais de 200 milhões de crianças continuavam a ser forçadas a trabalhar diariamente no Mundo.

A  ONU estima em mais de 12 milhões o número de pessoas no Corno de África ameaçadas e aponta a necessidade de uma ajuda de 1600 milhões de euros.

De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), "três em cada quatro desses 200 milhões de menores estão expostos às piores formas de exploração laboral".

No entanto o mundo parou porque, isso sim, estavam em cima da mesa (não sei se algum passou por baixo) os 93 milhões de euros que o Real Madrid oferecera ao Manchester United.

Isso é que era relevante. O facto de três em cada quatro crianças e adolescentes que trabalham estarem expostas às piores formas de exploração laboral infantil (tráfico humano, conflitos armados, escravatura, exploração sexual e trabalhos de risco, entre outros), ficou fora de jogo.

Segundo a OIT (que, obviamente, não analisa a transferência de Cristiano Ronaldo), era (como é e será) de salientar os desafios no combate ao trabalho infantil, sobretudo aquele tipo de trabalho que envolve raparigas, discutir o impacto que a crise económica mundial pode ter no agravamento deste flagelo, bem como enfatizar o papel fundamental da educação na solução do problema.

No entender da OIT, a "abolição efectiva" da exploração laboral das crianças - que "são privadas de direitos básicos, como educação, saúde, lazer e liberdades individuais" - é um "dos maiores e mais urgentes desafios do nosso tempo".

Nada disso. Urgente é debater o Campeonato da Europa de Futebol ou algo semelhante.

A expansão do acesso ao ensino básico, com muitos países a eliminaram as propinas escolares, a implementação de programas de transferência social e uma maior participação dos Governos, que estão a ratificar as convenções da OIT sobre o trabalho infantil, são alguns dos progressos mundiais mencionados pela organização.

Entretanto nas ocidentais praias lusitanas, pela mesma altura, o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, subscreveu afirmações das “gentes do mundo do futebol” de que se ultrapassaram os “limites razoáveis” na transferência de Cristiano Ronaldo para o Real Madrid mas desejou felicidades ao jogador.

Mero exercício de hipocrisia. Isto porque, como sabe Cavaco Silva e Pedro Passos Coelho, a população portuguesa (sobretudo os cidadãos de segunda classe, todos os que, como nos velhos tempos) alimenta-se de Fátima, do Fado e do Futebol.

“Acompanho aquilo que foi dito sobre esta matéria. Pagar quase 100 milhões de euros pela transferência de um jogador, nunca me passou pela cabeça”, afirmou na altura Cavaco Silva em Nápoles, Itália, à margem do encontro dos Chefes de Estado do Grupo de Arraiolos.

É pena que não passe pela cabeça dos responsáveis, seja de Portugal ou de qualquer outro país. Depois não nos venham dizer que é crime a plebe sair à rua e fazer justiça pelas suas próprias mãos.

“Gostaria que Portugal fosse mais conhecido pela inovação, pela modernização e pela sua competitividade”, acrescentou Cavaco Silva.

Pois é. Também os desempregados (um milhão e duzentos mil)  que (sobre)vivem em Portugal gostariam. Mas como não é isso que acontece, um dias destes resolvem não mudar de país mas, isso sim, mudar de políticos... nem que para tal tenham de ressuscitar, ou apoiar, um qualquer António de Oliveira Salazar.