sábado, agosto 04, 2012

Sem Gomes Júnior a Guiné-Bissau acaba?




O Comité África da Internacional Socialista exige o rápido regresso à normalidade constitucional na Guiné-Bissau.

Segundos os socialistas, normalidade só tem um sinónimo: recolocação de Carlos Gomes Júnior como primeiro-ministro e de Raimundo Pereira como Presidente interino.

Como se fossem (e julgam ser) donos da verdade única, dizem agora que a aposta é na tese (obviamente académica) da “tolerância zero às aventuras golpistas” em África. Fica, assim, a saber-se que a solução miraculosa para os graves, mas também muito antigos, problemas da Guiné-Bissau tem um nome: Carlos Gomes Júnior.

Os socialistas mantém intacta a esperança de que os guineenses acabem por morrer de fome por manifesta incapacidade de aprenderem a viver... sem comer.

Aliás, todos os males de que padece a Guiné-Bissau nasceram apenas com o golpe de 12 de Abril. Antes, segundo a Internacional Socialista,  tudo estava bem e na santa paz de Deus.

Para os socialistas, as Forças Armadas eram das melhores, os políticos eram dos mais nobres, o Ministério Público era um organismo impoluto, não havia narcotráfico, nem pesca clandestina e todo os guineenses viviam muito bem.

Terá sido por tudo estar tão bem que, em Junho de 2010, o secretário Internacional do PS português, José Lello dizia: “É por isso que peço à Internacional Socialista que esteja atenta ao desenrolar dos acontecimentos e para intervir caso seja necessário”?

Será que antes de 12 de Abril, no tempo em que Carlos Gomes Júnior comanda a política na Guiné-Bissau, não havia golpes sucessivos, assassinatos de altas figuras do país, narcotráfico, violação dos direitos humanos?

Terá sido por acaso que nesse ano, 2010, José Lello requereu a aprovação de uma “declaração de apoio” à Guiné-Bissau, “apelando ao regresso pleno à normalidade democrática” e para que o primeiro-ministro Carlos Gomes Júnior e o Presidente Malam Bacai Sanhá “possam exercer sem quaisquer constrangimentos os seus poderes constitucionais, bem como à libertação das personalidades do Estado que foram presas”?

“Devemos também apoiar a continuação do combate determinado ao narcotráfico, a reforma urgente do sector da defesa e da segurança e a continuação do apoio e do enquadramento da comunidade internacional à Guiné-Bissau”, disse José Lello. E disse-o, repita-se, antes de 12 Abril. Dois anos antes.

E, já agora, será que a comunidade internacional (ONU, CPLP e similares) não se lembra de em 2009 ter havido uma suposta tentativa de golpe que foi uma manobra de diversão para afastar os holofotes da apreensão de dois aviões estrangeiros atulhados de cocaína?

Será que a comunidade internacional (ONU, CPLP e similares) não sabia da ira de Nino Vieira quando soube que havia cães e polícias estrangeiros em Bissau a ajudar na luta contra o narcotráfico, tendo então comentado "Alá bô tissi catchuris ku brancus" (qualquer coisa como "já trouxeram cães e brancos")?

“Na verdade Nino é um estratega da vitimização e mesmo sabendo dos riscos de uma encenação (im)perfeita, concretamente em relação a perdas de vida, importa para ele recolher a solidariedade de ingénuos, mas poderosos amigos, que aliás, prontamente manifestaram total solidariedade, como que, se algo tivesse sido apurado com argumentação credível para se definir a situação como uma tentativa de golpe de Estado”, afirmou e reafirmou na altura, com a sua peculiar incisão, Fernando Casimiro (Didinho).

70% dos angolanos querem ser kopelipas




O ministro de Estado e chefe da Casa Militar da Presidência da República de Angola, general Manuel Hélder Vieira Dias Júnior “Kopelipa”, continua – tal como o regime - a mostrar o que vale.

Contra o que é estabelecido na Constituição, participa em manifestações de apoio ao MPLA e, agora, comandou a compra de 13 helicópteros do tipo Bell-112 e um Bell 222, de fabrico norte-americano, provenientes da África do Sul e do Canadá, bem como das respectivas tripulações… obviamente estrangeiras, e que se destinam a apoiar as eleições do dia 31.

Para provar a transparência das regras democráticas do país nada melhor do que, ao mesmo tempo, o MPLA ser jogador,  árbitro e dono do recinto.

Apesar das más línguas, creio que o general “Kopelipa” é um paradigma do regime onde, de facto, não há novidades, seja em relação aos generais do MPLA, ou aos que se venderam ao MPLA, seja quanto aos angolanos, 70 por cento dos quais continuam na miséria.

“Kopelipa”, recorde-se, foi um dos primeiros generais do regime angolano a chegar, juntamente com o ex-general da UNITA e actual Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas Angolanas, Geraldo Sachipengo Nunda, ao local onde Jonas Savimbi foi morto.

Recorde-se também que no dia 29 de Abril de 2010 era apresentado, em Luanda, com pompa e circunstância um plano de emergência para pagamento das dívidas do governo angolano às empresas nacionais e estrangeiras.

A apresentação foi feita por Carlos Feijó, ministro de Estado e Chefe da Casa Civil da Presidência – para além de amigo do primeiro-ministro português, ladeado por outros dois ministros de Estado, Hélder Vieira Dias “Kopelipa”, Chefe da Casa Militar, e Manuel Numes Júnior, Coordenador da Área Económica.

De acordo com a Global Witness, s registos da Sociedade de Hidrocarbonetos de Angola (SHA), publicados no Diário da República, nomeavam Manuel Domingos Vicente, então presidente da Sonangol, como um dos accionistas da SHA em Agosto de 2008, bem como Manuel Vieira Hélder Dias Júnior "Kopelipa", chefe da Casa Militar do Presidente José Eduardo dos Santos.

O general “Kopelipa”, como bom investidor e cidadão preocupado com o futuro dos angolanos, até pagou um milhão de euros por duas quintas no Douro português para produzir e exportar vinho.

Tirando o facto, irrelevante, de a maioria dos angolanos passar fome, tudo o resto é normal. Quintas, vivendas, bancos, empresas etc. fazem parte do cada vez maior leque de interesses dos poucos angolanos que têm milhões.

Tirando o facto de a maioria dos angolanos passar fome, é normal que os donos do poder (o MPLA) estendam as suas garras a outros países e ainda bem que consideram Portugal uma boa escolha. O reino luso a norte de Marrocos só tem a ganhar com estes investimentos. Depois de 500 anos de colonização já era tempo de ser o colonizador a ser colonizado.

Tirando o facto de a maioria dos angolanos passar fome, louvo a atitude do general “Kopelipa” que, para além de mostrar que ganha bem, não fez como outros que compram mas não dão a cara.

Tirando o facto de a maioria dos angolanos passar fome, acresce que a economia portuguesa está a ficar nas mãos de meia dúzia de donos do MPLA e, pelo andar do que é conhecido, um dia destes ainda vamos ter outras grandes surpresas.

Tirando o facto de a maioria dos angolanos passar fome, Portugal vai assistir ao nascimento de novas estruturas empresariais, em quase todos os sectores – incluindo os da comunicação social – de modo a que seja mais fácil aos donos do poder em Angola dizer aos escravos portugueses como devem fazer as coisas para agradar ao colono angolano. Não é assim senhor Pedro Passos Coelho?

Tirando o facto de a maioria dos angolanos passar fome, fico à espera de ver mais alguns (sim, que já há muitos) sipaios portugueses fazerem a vénia ao chefe do posto angolano porque se o não fizerem sujeitam-se a “fuba podre, peixe podre e porrada se refilarem”.

Tirando o facto de a maioria dos angolanos passar fome, até me parece normal que a ementa do almoço entre José Sócrates e Eduardo dos Santo, na altura da cimeira UE/África, se venha a repetir com mais assiduidade, sabendo-se que os protagonistas portugueses mudam, mas que os angolanos são e serão sempre os mesmos.

E digam lá que não vale a pena: ovos mexidos com alheira de caça, tamboril com amêijoas, legumes estufados e arroz selvagem e uma sobremesa com doce de chocolate e laranja tostada. Os vinhos servidos foram todos do Douro (ainda não das quintas de Kopelipa): Esteva branco 2005, Quinta de Lagoalva tinto 2007 e Porto.

Tirando o facto de a maioria dos angolanos passar fome, até me atrevo a sugerir uma outra ementa famosa para os encontros de Eduardo dos Santos e os seus servis sipaios portugueses: trufas pretas, caranguejos gigantes, cordeiro assado com cogumelos, bolbos de lírio de Inverno, supremos de galinha com espuma de raiz de beterraba e uma selecção de queijos acompanhados de mel e amêndoas caramelizadas, com cinco vinhos diferentes, entre os quais um Château-Grillet 2005.

sexta-feira, agosto 03, 2012

Cobardia é coisa que não falta ao MPLA




O Jornal de Angola (JA), estatal, órgão oficial do MPLA, correia de transmissão do regime ditatorial que (des)governa Angola desde 1975, ameaçou no dia 12 de Maio de 2008 divulgar "as listas dos nomes dos quadrilheiros portugueses capturadas no bunker de Jonas Savimbi no Andulo".

Então, camarada sipaio, director do JA, José Ribeiro, não será esta a melhor altura para divulgar essa lista? Quatro anos de silêncio é muito tempo. Então, com a coragem típica dos néscios, é altura de pôr tudo em pratos limpos.

Será que o dono do jornal, bem como do país, e agora também dono de grande parte de Portugal, incluindo alguns jornais, deu ordem ao chefe do posto para mandar calar os sipaios?

Continuo, mesmo assim, à espera das listas de quadrilheiros portugueses e, já agora, também da imensa listagem dos oficiais das FAPLA e depois das FAA que trabalhavam para Savimbi, assim como dos políticos do MPLA, alguns com altos cargos no Governo e que também eram assalariados do líder da UNITA, e ainda dos jornalistas (portugueses e angolanos), hoje rendidos aos encantos do MPLA, e que também eram amamentados por Savimbi.

"Basta de abusos e insultos", advertia então o Jornal de Angola na última linha de um Editorial, sem avançar quaisquer pormenores sobre as "listas de quadrilheiros portugueses", inferindo-se que se trata de aliados do ex-líder da UNITA, principal partido da oposição angolana, morto em combate em Fevereiro de 2002.

De baterias apontadas ao jornal Público e ao programa "Eixo do Mal", da SIC Notícias, o Jornal de Angola afirmava que os "idiotas úteis" que integram o programa e o diário português estão ao serviço de "quadrilhas" que se serviram de "diamantes de sangue" em Angola.

Continuando os “diamantes de sangue” angolano a circular pelos areópagos da alta finança mundial, embora com outro nome, assim como o “petróleo de sangue”, seria bom que se soubesse (santa ingenuidade a minha!) a que “quadrilhas” servem agora.

Por tudo isto, força camaradas do MPLA/regime. Se os tiverem no sítio (não têm, nunca tiveram e nunca terão, como é bom de ver) não devem esperar. Mandem cá para fora tudo o que têm. Tudo. Tudo. Tudo significa tudo. Percebem?

O Jornal de Angola retomava também – recordam-se? - as críticas ao músico e activista Bob Geldof, que em Lisboa disse que Angola era governada por "criminosos", afirmando que os "derrotados" da descolonização "soltam os Bob Geldof e os idiotas úteis do `Eixo do Mal´ e outros serventes menores", que não identifica.

Sob a batuta do MPLA, estes escribas escolarizados há bem pouco tempo servem-se do Jornal de Angola para publicarem o que nem eles sabem o quer dizer e, quem sabe, para esconderem "as listas dos nomes dos quadrilheiros capturadas no bunker de Jonas Savimbi no Andulo" onde se calhar figuram alguns deles.

Se acabarem com as fundações para onde vão os políticos, ex-políticos e futuros políticos?




Consta que, em Portugal, “cerca de 130 fundações deverão ser objecto de intervenção e poderão ser extintas ou perder parte ou a totalidade dos subsídios públicos”.

Se for verdade, o Governo (afirma o Público) estima poupar entre 150 a 200 milhões por ano em subsídios do Estado.

Pois é. Não acredito. Se assim for, para onde irão ex-ministros, deputados, secretários de Estado, assessores e restante comandita? Todos sabem que as fundações, empresas públicas, semi-públicas, institutos, etc. são o porto de abrigo para os desempregados da política.

Aliás. só quem não quer fazer coisas sérias é que não percebe que, afinal, não há mais vida para além do PSD/CDS. E se um emprego implicar coluna vertebral e tomates amovíveis… que mal tem? Sim. Que mal tem?

Vamos a isto rapaziada. Muitos de nós estamos a aprender a viver sem comer (desemprego). Antes que se descubra que é uma missão impossível (já faltou mais), o melhor é preencher a respectiva ficha… mesmo quando o ordenado não é grande coisa. Apenas um vencimento mensal (ainda por cima bruto) de 3.653,81 euros...

Essa peregrina ideia de que Portugal precisa é de uma estratégia (ou desígnio) que valorize quem tem ideias e não quem diz que as tem, que institua (e não que sugira que se institua) o primado da competência, independentemente da filiação partidária e das cunhas é há muito uma peça de museu.

É certo que a procissão ainda vai no adro da Rua de São Caetano. No entanto, o problema é bem mais extenso. Não se resume a pessoas. Assenta na mentalidade de quem dirige o país e esses não são, necessariamente, os ministros e os secretários de Estado.

São, sobretudo, aqueles que comandam a economia, que dão emprego aos políticos, e os poderes paralelos que ditam as regras do jogo e que, tantas vezes, as alteram quando mais convém. São as grandes empresas, as associações empresariais, as fundações e outros luxuosos albergues que proliferam na sociedade desta República.

O Governo português, este como quase todos os outros, está cheio de “sombras”. E quando saem os da Rua de São Caetano entram os do Largo do Rato. E para todos eles é preciso arranjar um tacho condigno. E é aí que entram as fundações, institutos e similares,  organismos criados para dar emprego a ex-políticos e candidatos a políticos.

Com um país assim, onde são (quase) sempre os mesmos a ter acesso ao poder, sendo todos os outros relegados para fora de jogo, só há duas possibilidades: ter ideias e ser marginalizado ou, agora, ser sombra e filiar-se no PSD e  excepcionalmente também no CSD/PP, se possível com uma carta de recomendação escrita em dólares pelo MPLA.

quinta-feira, agosto 02, 2012

Louvado seja o soba maior de Angola!




O primeiro-ministro do reino lusófono da Europa confirma que, em Novembro de 2011,  aproveitou uma ida a despacho junto do reino maior de Angola para rogar que o regime, via BIC, tomasse conta do BPN.

A confirmação consta das respostas que Passos Coelho enviou hoje aos deputados da Comissão Parlamentar de Inquérito ao BPN, a que a Lusa teve acesso, a propósito da compra do BPN (nacionalizado em 2008) pelo Banco BIC, o que viria a acontecer já este ano, na época de saldos, por 40 milhões de euros.

O sumo pontífice luso disse que teve duas reuniões com responsáveis do BIC, a 23 e 28 de Novembro de 2011 e que na reunião de 23 de Novembro com Mira Amaral, realizada a pedido do primeiro-ministro, o representante do BIC relatou o desinteresse dos accionistas do banco luso-angolano em comprarem o BPN.

Ora, mesmo que em saldo, era importante que o BPN tivesse novo dono, se possível saído do leque de velhos amigos. E foi então que, puxando dos galões de “africanista de Massamá”, Passos Coelho teve uma reunião com o presidente do BIC Angola, Fernando Teles.

Mesmo tendo o estatuto (por equivalência ou não) de primeiro-ministro, Passos Coelho socorreu-se de Carlos Feijó, ministro de Estado e Chefe da Casa Civil do soba maior para conseguir a anuência de Fernando Teles.

“O contacto com o senhor ministro Carlos Feijó ocorreu no quadro das boas relações existentes entre os dois Governos e pretendeu, face à delicadeza e urgência da matéria de Estado, recorrer aos bons ofícios do Executivo angolano para apurar, tão rapidamente quanto possível, a eventual disponibilidade do investidor angolano para concretizar a negociação ou, caso contrário, para assegurar a sua indisponibilidade para reatar as negociações”, disse Passos Coelho em resposta às questões do Partido Comunista Português.

Já em resposta ao Bloco de Esquerda, Passos Coelho concretizou que “pouco tempo depois” o ministro angolano informou da “disponibilidade do investidor para se deslocar com rapidez a Lisboa para conversar directamente com o Governo português”, o que aconteceu a 28 de Novembro.

Questionado, isto é como quem diz, pela maioria PSD e CDS sobre porque não contactou directamente Fernando Teles e preferiu a via do Governo angolano, Passos Coelho remete para a resposta anterior ao PCP, em que refere as “boas relações existentes entre os dois Governos”.

Nas respostas dadas aos partidos, Passos Coelho recusou ainda que a venda do BPN ao BIC tenha feito parte das conversas mantidas em Angola aquando da visita ao país a 17 de Novembro, referindo, em resposta ao PS, que nessa data “não tinha ainda conhecimento de que tivesse ocorrido uma ruptura das negociações”.

E assim vai, num único sentido, o reino lusitano. E vai a caminho do Norte de África, tendo como objectivo solidificar o estatuto de protectorado de um outro reino mais a Sul.

Mas que Mira Amaral tem a escola toda, isso tem. Recordam-se que, no dia 8 de Maio de 2008, ele considerou  que as afirmações do músico e activista irlandês Bob Geldof sobre os governantes angolanos eram "totalmente irresponsáveis" e "profundamente desconhecedoras" da realidade angolana?

"São afirmações que além de serem totalmente irresponsáveis, são profundamente desconhecedoras da realidade angolana", disse Mira Amaral, questionado sobre o assunto pelos jornalistas no dia em que o BIC se instalou em Lisboa com o objectivo de se tornar no "pivot" de operações de financiamento mais complexas para o mercado angolano.

Na altura, Mira Amaral sublinhou ainda que as afirmações "não mostravam a mínima sensibilidade para o esforço enorme que um país que viveu em guerra tantos anos estava a fazer para se reconstruir". "Há dois tipos de pessoas: os gestores que sabem do que falam e os artistas de rock e pop que serão competentes na sua área, mas se calhar noutras áreas não têm competência nem o conhecimento para falar" acrescentou o empregado de Isabel dos Santos.

Segundo o antigo ministro de Cavaco Silva, "qualquer pessoa que seja gestor executivo sabe o que custa fazer as coisas na prática e o tempo que levam a fazer. Quem canta músicas e depois tenta falar sobre coisas sérias, se calhar esta não é sua área específica de competência". E explicou que "são três transições que Angola está a fazer ao mesmo tempo. Portugal não as fez ao mesmo tempo e sabemos as dificuldades que tivemos e se calhar ainda temos".

Bob Geldof afirmou, recorde-se, que "Angola é gerida por criminosos" numa conferência sobre Desenvolvimento Sustentável, organizada pelo Banco Espírito Santo e semanário Expresso, dedicando uma intervenção de cerca de vinte minutos ao tema "Fazer a diferença".

"As casas mais ricas do mundo estão [a ser construídas] na baía de Luanda, são mais caras do que em Chelsea e Park Lane", apontou, estabelecendo como comparação os dois bairros mais caros de Londres, capital do Reino Unido.

Mira Amaral diz bem. Cada macaco deve estar no seu galho. Mas, ao que parece, tanto em Portugal como em Angola só os macacos do regime têm direito a um galho, sendo que quem os escolhe é “querido líder”, também conhecido como “o escolhido de Deus”, José Eduardo dos Santos.

Mas, verdade seja dita, a questão dos galhos não preocupa o actual governo português, tal como não preocupava o anterior. Para Passos Coelho e companhia e um diferente ter um galho ou andar a saltar pelas copas das árvores.

Ultimato dos ex-militares ao regime angolano




Enquanto os generais no activo, violando a própria Constituição de Angola, dão apoio público ao MPLA, o ex-militares dão um ultimato ao regime. E assim vai o reino de José Eduardo dos Santos.

Assim, o presidente não eleito e há 33 anos no poder, até ao próximo dia 15 para responder às reivindicações dos ex-militares que, durante uma vida, andaram a matar-se uns aos outros na defesa de causas diferentes.

O ultimato foi dado pelo coordenador da Comissão de Ex-Militares Angolanos (COEMA), general na reforma Silva Mateus: "Até hoje mantivemos uma atitude de espera. A partir deste momento, até ao dia 15 deste mês, nós aqui e agora acendemos um intermitente de luz laranja. Do dia 15 para cima entraremos na linha vermelha e não haverá mais conversa", frisou.

"Não haverá mais conversa e nós iremos decidir o que fazer depois do dia 15 de Agosto. Sairemos à rua a qualquer momento se o comandante-em-chefe, presidente da República e chefe do Executivo não for sensível em atender a nossa preocupação", acrescentou o general, mostrando que em tempo de paz a luta continua, embora a vitória não seja certa.

Em causa estão os pagamentos em atraso, nalguns casos desde 1992, a ex-militares. Por outras palavras, os ex-militares percebem agora que, ao contrário do que dizia Agostinha Neto, o importante não é resolver os problemas do Povo. Aliás, o regime nem sequer sabe que existe Povo.

Segundo Silva Mateus são cerca de 60 mil os ex-militares nestas condições, abarcando cinco mil soldados, sargentos e oficiais que desde 1992 deixaram de receber os vencimentos estabelecidos, e também os que foram desmobilizados depois daquele ano, e que receberam as guias da Caixa Social das Forças Armadas mas que, quando vão receber, são informados que não há dinheiro.

Mas há mais. Também lá estão os que não tendo sido desmobilizados continuam a ser militares e não recebem, mais os 250 efectivos do processo "27 de Maio", que aguardam o pagamento da pensão de reforma, os 402 do Batalhão Comando  Ex-Tigres, que lutaram na vizinha República Democrática do Congo, que têm direito a subsídios desde 2007 e que só receberam o correspondente a 2012.

Segundo Silva Mateus, fazem também parte daquele total de 60 mil, os 32.600 antigos militares dos antigos braços armados da UNITA (FALA) e da FNLA (ELNA), ainda 18 mil oficiais que passaram à reforma e os que integraram a chamada Defesa Civil, então tutelados pelo Ministério da Defesa Nacional e integrados nos governos provinciais na última guerra civil (1998/2002) e, finalmente, os que estavam integrados na Segurança do Estado, nas chamadas Tropas Territoriais, na Organização de Defesa popular e nas Brigadas Populares de Vigilância.

A exigência da COEMA consiste na criação por parte do Estado de uma comissão conjunta bilateral que avalie todas estas situações.

"Os actuais dirigentes, tanto a nível do Ministério da Defesa Nacional como da Chefia do Estado-Maior General das Forças Armadas Angolanas não conhecem, não têm perceção da dimensão deste dossiê", acusou Silva Mateus.

"Será que estas entidades não têm conhecimento da existência deste dossiê e desta demanda dos militares ao Estado, e, se têm, porque não reagem? Estão à espera de quê? Que os militares percam a paciência e saiam à rua para serem apelidados de arruaceiros", questionou.

Silva Mateus assegurou que "não serão meia dúzia de generais de barriga cheia" que impedirão os ex-militares de sair à rua, caso estes continuem sem receber um sinal de disponibilidade para o diálogo.

"Se nós não quisermos, não haverá eleições. Se os dirigentes, nomeadamente o presidente da República, continuarem a fingir que não nos ouvem, ele será o responsável de tudo o que vai acontecer", concluiu o general.

Ataques de Carlos Gomes Júnior não conseguem fazer esquecer a verdade




O ex-primeiro-ministro da Guiné-Bissau, Carlos Gomes Júnior, continua a alardear pelos areópagos da político lusófona a sua suposta qualidade de impoluto politico e, ao mesmo tempo, exclusivo dono da verdade.

Com o apoio (mal explicado e ainda menos racional) de Portugal e da Comunidade de Países de Língua Portuguesa, lá vai aproveitando o tempo de antena para, sem contraditório, se apresentar como o único capaz de fazer o que não foi capaz durante os muitos anos em que esteve na ribalta da politica guineense.

Disparando em todos os sentidos, Carlos Gomes Júnior resolveu também alvejar os "veteranos" do PAIGC, ou seja, todos aqueles que (ao contrário do ex-primeiro-ministro) ao longo de muitos e muitos anos deram e dão tudo pelo seu país, desde logo pela própria independência.

Apesar do apoio da CPLP, creio que de facto já há muitos políticos lusófonos que estão a ficar fartos. Não tardará muito, como aliás sempre aconteceu na história da Guiné-Bissau, para que  Carlos Gomes Júnior fique a falar sozinho ou, em alternativa, para o espelho.

Aliás, a ânsia revelada por Carlos Gomes Júnior para forçar o seu regresso a poder cheira, quanto a mim, a algo mais do que a defesa da democracia e do interesse do Povo guineense. Se calhar há por aí interesses empresariais pessoais pouco transparentes.

Pelo que tem dito, é fácil concluir que Carlos Gomes Júnior não quer apenas regressar ao seu país. O que ele quer, exclusivamente, é regressar ao poder no seu país. Não pretende, creio, regressar para servir o Povo mas, como muitos outros, para dele se servir.

Os ataques sistemáticos e quase irracionais à CEDEAO, organismo que obviamente não está incólume a críticas, revelam que para Carlos Gomes Júnior só são válidas as organizações que o apoiam. Essa é, aliás, uma inequívoca forma de demonstrar que há mesmo muitos interesses opacos que se movimentam tanto em Angola como em Portugal, visando uma espécie de neocolonização da Guiné-Bissau.

Como muito bem pergunta Fernando Casimiro (Didinho), meu amigo e um dos mais ilustres filhos da Guiné-Bissau, “que desenvolvimento e integração regional pode vir a ter a Guiné-Bissau, com um governante que insulta e despreza a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental, onde a Guiné-Bissau está inserida...?!”

Aliás, o Didinho faz uma série de perguntas que desmontam toda a estratégia do ex-primeiro-ministro guineense:

“Será que Carlos Gomes Júnior conheceu Amílcar Cabral, para insultar os veteranos do PAIGC que com ele viveram e conviveram durante a luta de libertação nacional? Quem é Carlos Gomes Júnior para explicar a essência de um combatente da liberdade da pátria aos veteranos do PAIGC?”

Num outra dúvida, Didinho põe o dedo na ferida, fazendo uma pergunta demolidora que, só por si, explica todo este imbróglio:

“Ou não será que Carlos Gomes Júnior tem tido o comportamento que tem para que brevemente tenha "razões" para argumentar que não pode regressar à Guiné-Bissau e obter o estatuto oficial de exilado em Portugal, passando a dedicar-se aos milhões que sugou da Guiné-Bissau e tornando-se num protegido de Portugal, tendo em conta os processos judiciais que estão em andamento contra ele na Guiné-Bissau?”

quarta-feira, agosto 01, 2012

A culpa não é dos sulistas e elitistas




Na sua ânsia de ser candidato à Câmara do Porto e de ajustar contas com Rui Rio, o presidente da Câmara de Gaia, Luís Filipe Menezes, criticou o "discurso doentio" de quem atribui culpas a Lisboa pelos actuais problemas do Norte e lembrou como tem defendido a região desde "há 20 anos".

Terá sido certamente por isso que em tempos Menezes afirmou que "o desejo de Lisboa é que o Norte nunca venha a ter líder. É um pouco essa lógica pitonisesca de que o Norte está condenado a não ter líder. Há quem trabalhe para, na secretaria, conseguir esse desiderato".

"Nós temos que ter sensibilidade em relação aos problemas do interior e do Norte, mas eu acho que o Norte precisa de quem pense no Norte" e acredite que a região "pode fazer muito por Portugal", afirmou o ex-líder do PSD, criticando "esse discurso um pouco doentio" de que "a culpa é de Lisboa".

Luís Filipe Menezes comentava assim a notícia de que a Junta Metropolitana do Porto vai escrever uma carta ao primeiro-ministro sobre as diferenças nos cortes entre Lisboa e o resto do país.

"Não é correto, nem justo, olhando para o panorama nacional, vermos serviços a encerrar no interior e não haver o mesmo tipo de notícias relativamente aos grandes serviços concentrados na capital, onde se encontra a maior fatia dos funcionários públicos", enfatizou então o autarca do Porto, Rui Rio.

Luís Filipe Menezes recordou que enquanto líder do PSD - altura em que o PS "fez uma grande investida para fechar serviços públicos no interior do país" - percorreu o país a "reivindicar" que não fechassem urgências, mas, "nessa altura, não havia solidariedade nenhuma com o presidente do PSD".

Por isso mesmo, o também conselheiro de Estado, ex-defensor de um Ministério da Lusofonia e putativo candidato à Câmara do Porto, frisou não ter apenas acordado "agora para a defesa do Norte e do interior" e que não é com "uma lógica de atitude piedosa de última hora que se resolve o que quer que seja em relação ao Norte".

"Há 20 anos que faço essa defesa. E não aproveito um Governo do meu próprio partido para me lembrar de criar problemas e de fazer baralhação. Sou um pouco mais solidário do ponto de vista partidário", disse.

Há bem pouco tempo (30 de Junho), afirmou que  "temos problemas sociais gravíssimos, temos que tratar do emprego, das creches, dos problemas que afligem os cidadãos e agora estamos a discutir nomes para a Junta Metropolitana e a arranjar 'jobs for the boys'",  quase parecendo um outro Menezes, por sinal deputado e vice-presidente parlamentar do PSD e seu filho, quando acusou o PS de fazer "chafurdice política".

Frisando sempre que está "completamente a leste" e "fora" do assunto, Menezes (o pai) assinalou que "não há um único amigo próximo do presidente da Câmara de Gaia" que "no último ano tenha sido nomeado para qualquer cargo público relevante na área metropolitana do Porto".

É verdade. E se calhar é mesmo aí que está o busílis da questão.

"Nenhum, e nem todos os agentes políticos da região podem dizer o mesmo. Porquê? Porque sou contra os 'jobs for the boys'", destacou o social-democrata que garantiu que "nunca abriria uma guerra para colocar um amigo onde quer que fosse".

Mais uma vez tem todo a razão. Aliás, todos sabem que a inclusão do seu filho não só como deputado e depois vice-presidente do grupo parlamentar se ficou a dever ao facto de, apesar de jovem, ser um experiente e catedrático político.

“Porreiro, pá!”, diz Durão a Gomes Júnior




Só depois de ser deposto do cargo de primeiro-ministro é que Carlos Gomes Júnior passou a defender, como voltou a dizer hoje, o envio para a Guiné-Bissau de uma força multinacional “sob o chapéu das Nações Unidas” para evitar as “barbaridades” cometidas pela Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO).

De acordo com a Lusa, Carlos Gomes Júnior falava aos jornalistas à saída de um encontro com o presidente da Comissão Europeia, em Lisboa, durante o qual agradeceu a posição de Durão Barroso e da União Europeia sobre a crise na Guiné-Bissau.

A reunião surge dias depois de Durão Barroso ter exigido (como se a sua exigência fosse além de um “porreiro, pá!”) o respeito pela ordem constitucional e afirmado, na abertura da IX conferência da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), a 20 de Julho em Maputo, que a União Europeia não tolerará mais golpes na Guiné-Bissau.

“A UE é um parceiro muito importante para a Guiné-Bissau. Temos de mantê-lo informado e trocar opiniões”, disse o primeiro-ministro deposto, que saiu da reunião acompanhado do ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo deposto no golpe de Estado de 12 de Abril, Mamadu Djaló Pires, e do embaixador da Guiné-Bissau em Portugal, Fali Embaló.

Questionado sobre qual a mensagem de Durão Barroso na reunião de hoje, Carlos Gomes Júnior disse que o presidente da Comissão Europeia “tem recomendado o diálogo das partes para tentar arranjar uma solução, mas condenando sempre o golpe”.

Para Carlos Gomes Júnior, a CEDEAO “não se pode arrogar sozinha a resolver o problema da Guiné-Bissau”, já que há outros organismos, como a União Africana e a CPLP que “têm uma palavra a dizer para, conjuntamente, tentar arranjar uma solução”.

A Guiné-Bissau tem um Governo e um Presidente de transição, mas a maioria da comunidade internacional não reconhece as actuais autoridades saídas do golpe. A CEDEAO é a única instância internacional que apoia as actuais autoridades de transição.

Será que Carlos Gomes Júnior  se recorda que em 19 de Dezembro de 2007, António Maria Costa afirmava, em Lisboa, que “a Guiné-Bissau está à beira do colapso, com o Estado incapaz de assegurar a soberania do território face ao narcotráfico e ao crime organizado”?

Dando mais um relevante exemplo de perspicácia, mesmo que eventualmente sustentado por informações dos serviços (pouco) secretos de Portugal, o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros português, Paulo Portas, disse recentemente que a questão do narcotráfico também é a chave do golpe de Estado de 12 de Abril na Guiné Bissau.

Foi uma conclusão brilhante. Aliás, quase desde que se tornou independente que todo o mundo (talvez com a excepção de Portugal) sabe que o narcotráfico é uma forma de vida de muitos  militares e políticos guineenses.

Creio que as informações que Paulo Portas recebeu quentinhas são, afinal, requentadas e não passam de uma cópia fiel do que se tem passado desde que, por exemplo, Nino Vieira chegou ao poder, também através de um golpe de Estado. Os relatórios são sempre os mesmos, apenas mudando a data e o nome dos protagonistas.

É pena que ninguém tenha dito a Paulo Portas e, já agora, a Carlos Gomes Júnior, que, já no dia 24 de Junho de 2009,  um relatório do director executivo do Escritório das Nações Unidas sobre a Droga e o Crime (UNODC), António Maria Costa, dizia com todas as letras que o narcotráfico era uma das causas da violência e da instabilidade políticas na Guiné-Bissau.

Já antes, em 19 de Dezembro de 2007, António Maria Costa afirmava, em Lisboa, que “a Guiné-Bissau está à beira do colapso, com o Estado incapaz de assegurar a soberania do território face ao narcotráfico e ao crime organizado”.

Tal como o poder político, entre outros, em Portugal é permeável à corrupção, o poder militar na Guiné-Bissau “é permeável ao narcotráfico”.

O grau de permeabilidade depende, obviamente, de se saber se os golpistas são ou não amigos do governo português. No tempo de Nino Vieira a situação era a mesma mas o então presidente era, digamos, visita de casa dos donos de Portugal. Por isso tinha carta branca para negociar a branquinha. Os de agora não agradam a Lisboa e, por isso, são os maus da fita.

“Eu não tenho nenhuma dúvida. Todas as informações de que Portugal dispõe apontam para que, claramente, na origem deste golpe de Estado também está o narcotráfico e, ou a Guiné-Bissau tem condições para ser um Estado de Direito, ou a Guiné-Bissau fica sequestrada a um certo poder militar que é permeável ao narcotráfico”, disse Paulo Portas.

Mas será que nenhum dos frequentadores dos areópagos da política do reino lusitano se lembra que Nino Vieira esteve metido até ao pescoço em crimes de sangue e de corrupção mais do que activa? Que Nino Vieira usou todo o género de truques, de golpes, para se perpetuar no poder, afastando política ou fisicamente quem lhe fez sombra, sejam eles Kumba Ialá ou Carlos Gomes Júnior, líder do PAIGC e primeiro-ministro deposto que em tempos disse que Nino teria sido o mentor do assassinato do Comodoro Lamine Sanha?

Mas há mais. Recorde-se que o mesmo Carlos Gomes Júnior  afirmou no dia 25 de Outubro de 2008 que "há dinheiro do narcotráfico na campanha eleitoral" para as legislativas de 16 de Novembro”.

"Só não vê quem não quer. Há dinheiro do narcotráfico nesta campanha eleitoral", acusou Carlos Gomes Júnior, no seu discurso de abertura da campanha do PAIGC em Bissau, dizendo que "nós não somos tolos, sabemos que há dinheiro da droga na campanha eleitoral. Se formos governo, vamos acabar com o banditismo e o crime organizado neste país, podem ter a certeza disso".

Carlos Gomes Júnior dizia nesse dia que se fosse eleito primeiro-ministro no dia 16 de Novembro, com foi, iria promover uma ampla reforma no país, dotando as forças de defesa e segurança de meios para combater "todos os crimes" na Guiné-Bissau.

Pois é. Agora é preciso repor a ordem. Quando o primeiro-presidente da Guiné-Bissau, Luís Cabral, foi deposto por um golpe de Estado liderado por “Nino” Vieira, em 1980, onde andavam todos estes arautos da legalidade e da reposição da ordem?

Um ano antes de morrer, em 9 de Julho de 2008, Luís de Almeida Cabral considerou que a existência de tráfico de droga no seu país natal constitui uma "vergonha", apelando às autoridades de Bissau para combaterem o fenómeno: "É uma situação muito má. Desejo que as autoridades e o povo guineenses possam combater esta vergonha que não traz nada de bom".

Pois é. Mas nessa altura, também nessa altura, tudo ficou na mesma. E ficou assim, calculo, porque ainda não existiam a ONU, a CPLP, Portugal, Angola ou Cavaco Silva.

Alguém ainda se lembra que, em 18 de Maio de 2009, o  Procurador-Geral da República da Guiné-Bissau, Luís Manuel Cabral, disse que a instituição estava sem dinheiro para continuar o processo de investigação aos assassínios do Presidente 'Nino' Vieira e do general Tagmé Na Waié?

Será que Kumba Ialá tinha razão quando, em 17 de Junho de 2009, acusou o PAIGC de ser responsável pela morte de Amílcar Cabral,  "Nino" Vieira, Tagmé Na Waié, Hélder Proença e Baciro Dabó?

"Carlos Gomes Júnior tem que responder no Tribunal Penal Internacional pelas atrocidades que está a cometer", no país, defendeu nesse dia Kumba Ialá, acrescentando que "há pessoas a quererem vender a Guiné-Bissau", mas esclarecendo que "serão responsáveis pelas turbulências que terão lugar no futuro".

Durão Barroso e  companhia estão preocupados com Carlos Gomes Júnior, exigindo o regresso à normalidade institucional. Quando os EUA, por exemplo, avisaram as autoridades da Guiné-Bissau que o novo chefe das Forças Armadas não poderia estar implicado nos acontecimentos de 1 de Abril (2010), como era o caso do major-general António Indjai, o que fez Gomes Júnior?

Escolheu (e o presidente Balam Bacai Sanhá aceitou) para chefiar as Forças Armadas, nem mais nem menos do que... António Indjai.

Recorde-se que Indjai foi o protagonista dos acontecimentos militares de 1 de Abril e que chegou (embora depois tenha pedido desculpa) a ameaçar de morte o primeiro-ministro, Carlos Gomes Júnior.

Vasta comunidade de invertebrados

Embora não seja novidade, estudos recentes revelam que há uma cada vez mais numerosa comunidade de invertebrados numa gruta, ou buraco, que dá pelo nome de… Portugal.

É, obviamente, uma comunidade que até tem um presidente. Sim, é aquele que tem uma reforma que não dá para as despesas, que se assume como “provedor do povo”.

No dia 21 de Janeiro deste ano, o Presidente dessa comunidade,  Aníbal Cavaco Silva, afirmou-se  como o "provedor do povo", garantindo que recebe mensalmente mais de três mil cartas em que os portugueses lhe dão conta das suas incertezas, angústias e ambições.
Ainda há muita gente que, para além de invertebrada, também é ingénua. Aliás, por alguma razão existe um provérbio português que diz: “quando mais me bates mais gosto de ti”.
"O Presidente da República é o provedor das incertezas, das angústias mas também das ambições do nosso povo. O Presidente é, de facto, o provedor do povo", sublinhou nesse dia Cavaco Silva em Vila Nova de Famalicão, acrescentando que tem sempre a preocupação de "dar a todos uma resposta", embora nem sempre seja possível "ajudar a resolver os problemas" que lhe são apresentados.
"Sou presidente do povo. Vim do povo e até ao fim do meu mandato serei Presidente do povo. Não distingo entre a grande cidade, a vila, a freguesia ou a aldeia", acrescentou Cavaco Silva.
Enquanto candidato presidencial, Cavaco Silva disse que se sentia “provedor dos portugueses” e que as críticas que então lhe foram feitas pelo líder parlamentar do PS, Francisco Assis, não mereciam “a mínima resposta”.
Francisco Assis considerou que Cavaco Silva estava a adoptar na sua campanha "uma linha de orientação que não privilegiava a manutenção de um clima de estabilidade institucional".
"O país não precisa de um Presidente da República transformado num provedor universal de todos os descontentamentos, nem tão pouco de um Presidente da República erigido no papel de contra-peso da acção do Governo legítimo do país", criticou Assis.
Não sei porquê, mas até estou tentado a pensar, a continuar a pensar (e esta coisa de pensar só complica), que se os políticos portugueses fossem sérios e honestos (eu sei que é uma utopia, aqui e ali tornada realidade por raras excepções) se calhar o país não teria mais de um milhão e duzentos mil desempregados, 20% de pobres e outros tantos com os pratos vazios.
Recordo-me, por exemplo, que o Presidente da República, o mesmo (ou aproximado) Cavaco Silva, admitiu no final de 2008 que 2009 "iria ser um ano muito difícil" e avisou o Governo que "a verdade é essencial", considerando que "as ilusões pagam-se caras".

Chegou-se a 2010 e a história, pela boca do “provedor do povo e dos portugueses” repetiu-se. Chegou-se a 2011 o disco tocou o mesmo, certamente na senda de uma estratégia de aproximação de Portugal aos países mais desenvolvidos e invertebrados do norte de... África.
Mas difícil para quem? Não é preciso dizer. Nós sabemos. Para os milhões que têm cada vez menos e não, é claro, para os poucos que têm cada vez mais milhões.
"A verdade é essencial". Qual verdade? A verdade do primeiro-ministro, a única possível já que ele é o dono dela, ou a dos portugueses de segunda, a franca e esmagadora maioria?
Na sua mensagem de Ano Novo (2009, recorde-se), Cavaco Silva afirmou não poder esconder a "verdade da situação difícil em que o país se encontrava" e que o caminho para "Portugal sair da quase estagnação económica" era "estreito, mas existia".
Que, a existir, a saída é estreita, que a saída nunca foi larga, todos sabemos. Não venham, contudo, atirar areia à nossa chipala, dizendo que a saída é ainda mais estreita do que realmente é,  ou quando a saída é apenas a porta de entrada para a tal gruta, ou buraco.
Aliás, se para a maioria dos portugueses de segunda é estreita, para os de primeira é uma monumental auto-estrada. Veja-se, por mero exemplo, que a Fundação EDP contratou, por decisão do seu administrador e mui ilustre ex-jornalista Sérgio Figueiredo,  uma funcionária que é sobrinha-neta de Eduardo Catroga, presidente do Conselho Geral e de Supervisão da EDP.
O antigo primeiro-ministro da gruta durante dez anos (o mesmo, ou aproximado, Cavaco Silva) fez nessa mesma altura outros alertas, caso da necessidade de "reduzir a ineficiência e a dependência do exterior em matéria de energia" ou de "rigor e eficiência na utilização dos dinheiros públicos”.
Rigor e eficiência num país que substituiu o primado da competência pelo da subserviência? Rigor e eficiência num país que não tem dúvidas em escolher um invertebrado só porque tem um cartão do partido que está no poder?
Na sua mensagem, Cavaco Silva confessou não dever esconder que 2009 iria “ser um ano muito difícil", e afirmou recear o "agravamento do desemprego e o aumento do risco de pobreza e exclusão social" e admitiu que "a crise financeira internacional apanhou a economia portuguesa com algumas vulnerabilidades sérias".
Pois é. Mas o provedor, seja lá do que for, aí continua. E se ele,  que em termos vitalícios  tem direito mensalmente a 4.152 euros do Banco de Portugal, a 2.328 euros da Universidade Nova de Lisboa e a 2.876 euros de primeiro-ministro, e só foi primeiro-ministro  de 6 de Novembro de 1985 a 28 de Outubro de 1995, e só é presidente desde 22 de Janeiro de 2006,  se queixa, o que dirão os súbditos de sua majestade o “provedor do povo e dos portugueses”?