sábado, março 26, 2011

Porque razão terão de ser os angolanos a decidir o que é bom para os cabindas?

O meu amigo Eugénio Costa Almeida, em entrevista ao Semanário Angolense, diz que “é altura de o MPLA perceber que, pela sua descontinuidade territorial, Cabinda deveria ter um estatuto especial que se coadunasse com os desejos dos povos desta região”.

E acrescenta: “Para isso é necessário que a Constituição vigente na República de Angola seja revista, de modo a que se preveja a instituição de regimes autonómicos. Cabinda é um caso paradigmático. Nesta altura, e finalmente, Angola será uma nação em paz, e social e politicamente seremos muito ricos. E assim, África não terá uma mas sim duas «nações arco-íris», a África do Sul e Angola”.

À pergunta: “Para além de se atribuir um estatuto especial à Cabinda, como se pode, ultrapassar a instabilidade política e militar que se vive naquela região do país?”, responde:

“Uma alteração da Constituição e uma plena e efectiva abertura que leve os diferentes interlocutores a falarem clara e abertamente sem condições prévias como, de certa forma, aconteceu no Luena, Moxico, em finais de Março de 2002. Esta será, talvez, a condição mais vantajosa para acabar, de vez, com toda a instabilidade política, militar e social na província”.

A resposta termina dizendo “como referi antes não podemos tratar Cabinda como se fossem angolanos menores. Até porque recordemos que de Cabinda vem um fluxo importante de petróleo e madeiras preciosas que alimenta fortemente o nosso erário público. Ora, os cabindenses acham, e muito bem, que a redistribuição desses dividendos não devem ser só para construir um estádio de futebol bonito, diga-se, e uma via rápida de acesso ao mesmo”.

“Os cabindas precisam que lhes dêem - leia-se devolvem - fundos para melhorar a vida socioeconómica da província, como por exemplo, novas redes viárias, melhor saneamento básico, bairros sociais com boas condições de habitabilidade, mercados mais próximos dos consumidores e melhores portos”, conclui Eugénio Costa Almeida.

Para quem é defensor acérrimo, com toda a legitimidade – acrescente-se, da tese de que Cabinda faz parte de Angola, Eugénio Costa Almeida faz considerações válidas e oportunas mas que, na minha opinião, pecam por defeito.

Para mim, Cabinda nunca fez parte de Angola e a sua integração como província angolana só aconteceu em 11 de Novembro de 1975, à revelia de todos os acordos que Portugal assumira. Numa outra escala, mas com o mesmo substrato, foi o que a Indonésia fez ao declarar Timor-Leste como sua província.

De facto, a criação de um “estatuto especial que se coadunasse com os desejos dos povos desta região”, poderia ser meio caminho andado.

Mas, segundo esta tese, um tal estatuto seria definido pelos angolanos e não, como seria lógico, pelos cabindas através de, por exemplo, um referendo. Aliás, nunca o regime angolano aceitará de livre vontade esse referendo, similar – por exemplo- ao de Timor-Leste, porque sabe que a opção “independência” também teria de ser colocada e que, nesse caso, certamente seria a opção escolhida.

Ao contrário da tese de Eugénio Costa Almeira, a questão de Cabinda não se resume, pelo contrário, a “fundos para melhorar a vida socioeconómica da província, como por exemplo, novas redes viárias, melhor saneamento básico, bairros sociais com boas condições de habitabilidade, mercados mais próximos dos consumidores e melhores portos”.

É bem mais vasta. E a haver uma síntese, dir-se-ia que os cabindas querem ser eles apenas a decidir o seu futuro. Se assim não for, por muito que se mascare a situação, Cabinda continuará a ser uma colónia de Angola.

sexta-feira, março 25, 2011

Os sipaios vão sempre atrás do chefe do posto

D. Januário Torgal Ferreira, bispo das Forças Armadas portugueses, dizia em Julho de 2010 que não entendia bem as medidas de austeridade impostas pelo Governo, avisando que poderiam ter elevados os custos sociais.

E eu a julgar que estava isolado nesta dificuldade de comprender as teses do sumo pontífice do PS, José Sócrates, agora (mui) bem acompanhado pelo líder do PSD, Pedro Passos Coelho.

“É preciso ter muito cuidado. Porque é nestas horas que se fazem grandes fortunas. E, sobretudo, é nestas horas em que os mais pobres ficam mais pobres e alguns ricos ficam muitíssimo mais ricos”, disse o prelado no Funchal, à margem da comemoração dos 58 anos da Força Aérea Portuguesa.

Pois é. Agora que José Sócrates poderá ter de deixar a cadeira do poder verifica-se, apesar de ele ainda lá estar sentado, que o seu mais do que provável sucessor (Pedro Passos Coelho) deverá adoptar o mesmo receituário, variando apenas a cor do papel da receita.

Cá na casa tem-se dito ao longo dos últimos anos que o governo socialista tudo tem feito para que os poucos que têm milhões passem a ter mais milhões, ao mesmo tempo que os milhões que têm pouco ou nada passem a ter ainda menos.

Isso não impede (pelo contrário) que, como é basilar no Jornalismo - não no (jorna)lismo -, aqui se continue a dizer o que se pensa ser a verdade, mesmo que isso desagrade aos futuros donos do reino, sejam eles quais forem.

Para já, o ainda reino lusitano e socialista regista 700 mil desempregados, 20% da população a viver na miséria e mais 20% a viver na pobreza. Ver-se-á o que vai acontecer se o governo mudar. Mas, a fazer fé no que se vai conhecendo, estes números vão continuar a subir.

“Nós temos de lutar e dizer em voz alta, com respeito, respeitando a liberdade, respeitando as pessoas, mas respeitando antes de mais a verdade”, apontou D. Januário Torgal Ferreira.

Porque D. Januário Torgal Ferreira teve o que no seu tempo não era raro, mas que hoje é raríssimo, privilégio de nascer com coluna vertebral, certamente que daqui a alguns meses o vamos ver a repetir estas afirmações.

É claro que ao bispo das Forças Armadas foi mais fácil dizer estas verdades. Desde logo porque, ao que julgo, o ministro da Defesa, Augusto Santos Silva, não o despediu ou – como fez o governo noutras situações – deu cobertura a despedimentos colectivos nas Forças Armadas.

Eu sei que caberia aos jornalistas (ainda há por aí alguns que teimam em dar voz a quem a não tem) estar na primeira linha dos que, “com respeito, respeitando a liberdade, respeitando as pessoas”, devem sobretudo “respeitar antes de mais a verdade”.

No entanto, por experiência própria, os jornalistas sabem que, neste reino socialista lusitano, dizer a verdade é mais de meio caminho andado para o desemprego. E tanto sabem disso que, hoje, estão a dar a volta e a trocar as amizades do Largo do Rato pelas da Rua de São Caetano.

A luta continua. Tem mesmo de continuar!

Em Angola, para além dos milhões que legitimamente só se preocupam em encontar alguma coisa para matar a fome, uma minoria privilegiada só se preocupa em ter mais e mais, custe o que custar.

Quando alguém diz isto, e são cada vez menos, corre o sério risco de que os donos do poder o mandem calar, se possível definitivamente. Como dizia Frei João Domingos, "não nos podemos calar mesmo que nos custe a vida".

Muitos já pagaram com a vida. Outros estão na linha de fogo, mesmo que não vivam no reino de José Eduardo dos Santos. O presidente que há 32 anos domina, sem nunca ter sido eleito, Angola, continua, mesmo fora do seu país, a dar ordens para calar os que teimam em dizer a verdade ou, pelo menos, o que pensam ser a verdade.

Citando de novo, e tantas vezes quantas forem preciso, Frei João Domingos, em Angola "muitos governantes têm grandes carros, numerosas amantes, muita riqueza roubada ao povo, são aparentemente reluzentes mas estão podres por dentro".

Mas esses, apesar de podres por dentro, continuam a viver à grande e à MPLA, enquanto o Povo morre de fome.

Convém não esquecer que, por exemplo, o dirigente e ex-ministro do MPLA, Kundi Paihama, afirmou em tempos recentes: “Durmo bem, como bem e o que restar no meu prato dou aos meus cães e não aos pobres”. Esta é, aliás, a filosofia basilar do MPLA. O que sobra não vai para os pobres, vai para os coitados dos cães.

E por que não vai para os pobres?, perguntam vocês, eu também, tal como os milhões que todos os dias passam fome. Não vai porque não há pobres em Angola. E se não há pobres, mas há cães…

Continuemos com a tese de Kundi Paihama: “Eu semanalmente mando um avião para as minhas fazendas buscar duas cabeças de gado; uma para mim e filhos e outra para os cães”.

Quanto aos angolanos, aos outros angolanos, citando de novo Kundi Paihama, que comam farelo porque “os porcos também comem e não morrem”.

Embora seja um exercício suicida, importa aos vivos não se calarem, continuando a denunciar as injustiças, para que Angola possa um dia ser diferente, ser de todos os angolanos.

“O Povo sofre e passa fome. Os países valem pelas pessoas e não pelos diamantes, petróleo e outras riquezas”, disse Frei João Domingos, numa pregação certamente só ouvida pelos peixes ou pelas welwitschia mirabilis.

Mas, como diria o camarada Eduardo dos Santos, a luta continua. Tem de continuar.

Uns dizem que fazem, outros fazem!

quinta-feira, março 24, 2011

Esponja nos velhos PECados e na PECaminosa actuação dos politiqueiros “made in Portugal”?

O ex-Presidente da República de Portugal, Jorge Sampaio, dizia-se "nada satisfeito com a qualidade da democracia" no seu país, onde a sociedade civil é "pouco actuante" e os poderes políticos são influenciados por "sectores corporativos", como o da justiça.

O que Jorge Sampaio dizia, não sei se ainda dirá devido à PECaminosa actuação do secretário-geral do seu partido, José Sócrates, não é novo. Mas como o país, a sociedade, os produtores de conteúdos dão mais valor ao mensageiro do que à mensagem...

De facto, na política “made in Portugal”, os seus actores (a grande maioria medíocre) estão para se servir e não para servir. É pena, mas é a verdade. É, aliás, meio caminho – entre outras coisas – para o fim da própria democracia. Mas como eles sabem que mesmo sem democracia, ou com ela coxa, os “mexiânicos” tachos vão continuar...

"Não estou nada satisfeito com a qualidade da democracia, temos que a requalificar, revitalizar. A começar pela renovação das dinâmicas e das estruturas partidárias. E há uma remobilização dos cidadãos que é necessária", sustentava Jorge Sampaio, em entrevista à Antena 1 em 21 de Abril do ano passado.

Em consciência nenhum português deve estar satisfeito com a qualidade dessa coisa que, em Portugal, se chama democracia. Por alguma razão há cada vez mais portugueses de segunda e até de terceira. Apesar disso, os políticos jogam com o que consideram ser uma certeza imutável: os portugueses são um povo de brandos costumes.

Questionado sobre de quem é a culpa pelo estado da democracia em Portugal, Jorge Sampaio respondeu: "Somos todos naturalmente responsáveis."

Para Jorge Sampaio, é (ou era) necessário que "os poderes políticos saibam resistir, pela seriedade das suas propostas, àquilo que são as profundas influências de sectores corporativos da sociedade portuguesa". E nomeava médicos, juízes, magistrados do Ministério Público, enfermeiros e funcionários públicos.

Em função desta realidade, mais negra a cada dia que passa, provavelmente os portugueses deveriam estar nas ruas a manifestar a sua indignação (creio, embora não tenha a certeza, que ainda têm esse direito) pelo aumento da pobreza, pelo custo de vida, pelo desemprego, pela crise, pela forma como são tratados.

Talvez pudessem até adoptar uma metodologia mais expressiva, saindo à rua, incendiando coisas, partindo outras e por aí fora. É claro que, em democracia (dir-me-ão sobretudo os que não têm os problemas financeiros que atingem a esmagadora maioria dos portugueses) a indignação não se manifesta com violência física.

E se não se manifesta com violência física, fica-se confinado a protestos limitados à urbanidade típica dos que, por força das circunstâncias, comem e calam. Até um dia. Sim, que a paciência dos brandos costumes lusos também tem limites. Aliás, por alguma razão se diz que quanto mais as pessoas se baixam, mais se lhes vê o mataco.

É claro que o ainda primeiro-ministro, José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa, arranja sempre maneiras, prenhes de urbanidade, de desviar as atenções dos aumentos constantes do custo de vida que "roubam" o direito a uma sobrevivência digna, e continua a ter estrategemas para atirar fumo para a chipala.

Estando o país, ou pelo menos parte dele, de tanga, que importa que existam em Portugal pelo menos dois milhões de pobres e que mais de 20% (vinte por cento, vinte em cada cem, uma em cada cinco) de crianças estejam expostas ao risco de pobreza?

Estando o país, ou pelo menos parte dele, de tanga, que importa o facto de, a seguir à Hungria e à República Checa, Portugal ser o país europeu onde as pensões são mais baixas e seriam precisos em média mais de 110 euros por pessoa para fazer face às despesas domésticas básicas, uma realidade que mais uma vez tem maior incidência nas classes sociais mais baixas?

Ao fim e ao cabo, os portugueses são um povo solitário (mais de meio milhão vive sozinho), ingénuo (ainda acreditam em José Sócrates e Passos coelho), lixado e mal e pago (bem mais do que 700 mil desempregados).

São e, pelos vistos, assim vão continuar... para pagar os seus PECados, que pelos vistos são mesmo muitos!

Entre os dois, se calhar nem o Diabo escolhe!

O PSD acusa o primeiro-ministro de Portugal de viver na fantasia e de fazer discursos sobre a situação do país que insultam os portugueses.

Acho piada a esta discussão de políticos que são fuba do mesmo saco, que são pares no tango que há muito, muito tempo, põe o país de tanga, que gostam – com tonalidades muito similares – de gozar com a chipala dos portugueses, julgando que todos eles são matumbos.

"O que temos hoje no país é impostos a mais, endividamento a mais, despesa pública a mais, riqueza a menos, poder de compra a menos, dificuldades a mais para as famílias e para as empresas", declarou o líder parlamentar do PSD, Miguel Macedo, durante o debate do (mau) “Estado da Nação”, no Parlamento. Isto, repare-se, em Julho de 2010.

Tudo isto é verdade. Mas o que o país precisa não é de diagnósticos do PSD ou placebos do PS. Precisa de tratamento eficaz e, pelo andar da carruagem, não parece existir no reino lusitano quem seja capaz de passar das palavras à acção.

Miguel Macedo apontou então os "mais de cem mil portugueses que abandonam por ano o país porque não encontram em Portugal um presente e, sobretudo, não vislumbram em Portugal um futuro", e criticou os resultados invocados e o tom utilizado pelo primeiro-ministro, José Sócrates, no seu discurso.

E então? Nada. O PSD tem garganta suficientemente funda para ir dizendo algumas verdades mas, até agora, apresenta-se como um partido castrado ou, pelo menos, detentor de tomates amovíveis. Sendo que a maior parte das vezes os deixa na gaveta.

"Desculpe que lhe diga, senhor primeiro-ministro, está a insultar a dificuldade de 600 mil portugueses que estão no desemprego", disse na altura o líder parlamentar do PSD, acusando José Sócrates de ter demonstrado "insensibilidade social, autismo político" e de ter feito uma intervenção de quem vive no "país da fantasia".

Mais uma vez o PSD esquece-se que ladrão tanto é o que entra em casa como o que fica à porta. E em Portugal, nesta fase, é o PS quem entra na casa dos portugueses, mas quem fica à porta é o PSD.

Segundo o líder parlamentar do PSD, "os portugueses hoje não vivem melhor depois de cinco anos de Governo socialista" e Portugal é "um país com mais pobres, mais excluídos e mais desigualdades", ao contrário do que alegou o primeiro-ministro.

Só faltou dizer que os portugueses que estão a aprender a viver sem comer são cidadãos de terceira. De primeira, e sem esses problemas, são os do PS, de segunda e também sem grandes problemas são os do PSD, e os de terceira são todos aqueles que trabalham, todos os que pensam pela sua própria cabeça e que não têm nem coluna vertebral nem tomates amovíveis.

Também Miguel Relvas considerou em 7 de Julho de 2010, reagindo a criticas do PS, que a política não pode “baixar de nível” insistindo que os políticos portugueses devem dar uma melhor imagem, mesmo em situações de “desespero”.

Quem dá o que tem a mais não é obrigado. E os políticos portugueses, sobretudo os do PS...D, não podem dar o que não têm. E se não têm nem imagem, nem conteúdo, nem honorabilidade... o bacanal vai continuar.

“A política não pode baixar a um nível mesmo que o desespero o justifique. É altura do PS regressar à tranquilidade e naturalidade que a vida pública exige a um partido que alinda tem responsabilidades de governo”, afirmou Miguel Relvas.

“A vida pública tem que manter um certo nível de educação e de equilíbrio em que os responsáveis públicos devem medir as palavras”, acrescentou o dirigente do PSD.

Zangaram-se as comadres? Ficou desfeita a dupla lusitana condidata ao campeonato do mundo de tango? Não. Nada disso.

Miguel Relvas reagia assim a declarações de Vitalino Canas, do PS, que acusara o líder do PSD de ter feito declarações de elevada gravidade em Madrid, ajoelhando-se aos interesses de uma empresa espanhola, a Telefónica, contra o interesse nacional através da PT.

De joelhos, de cócoras, com a mão, com a boca, de pé ou na horizontal... é o reino lusitano no seu melhor.

"É grave que o presidente do PSD, em vez de ter procurado em Madrid coordenar respostas contra a crise, tenha antes procurado salvaguardar os interesses de uma empresa espanhola contra os interesses de Portugal", afirmou Vitalino Canas, acrescentando que Pedro Passos Coelho, em Madrid, "ajoelhou-se aos interesses de uma empresa espanhola contra o interesse nacional".

Ao contrário do que diz o PS, também nesta questão prostibular o mercado é global e cada um ajoelha-se perante quem quer.

“Não é bom para a democracia nem para a imagem dos políticos, que têm a responsabilidade de ser um exemplo. Não são bons exemplos que estamos a dar à sociedade portuguesa”, afirmou.

É claro que são bons exemplos. São, aliás, o que de mais puro a democracia portuguesa pariu nos últimos anos.

Por alguma razão um deputado socialista (Ricardo Rodrigues) rouba gravadores aos jornalistas; o primeiro-ministro (José Sócrates) diz a um deputado: "Manso é a tua tia, pá!"; um ministro (Manuel Pinho) faz uns cornos para outro deputado ou, no Parlamento, se fala de “espionagem política”, “sujeira”, “coscuvilhice” e “política de fechadura”...

Bispo de Cabinda de vez em quando lá se vai lembrando (mas a muito custo) de... Cabinda

O bispo de Cabinda, Filomeno Vieira Dias, diz que a situação social da colónia angolana registou um "retrocesso" desde 2008, com a falta de serviços básicos para a população, especificando que falta água, luz, assistência médica e medicamentosa e a construção de infraestruturas.

Se, para o regime angolano, os cabindas são uma sub-espécie de gente, se mesmo em Angola existe um mundo de miséria, porque razão haveria de Cabinda ter aquilo que é basilar em qualquer país?

De vez em quando, Filomeno Vieira Dias lembra-se que deve dar voz a quem a não tem. Recordo-me, por exemplo, que o bispo levou muito tempo a descobrir os excessos do regime colonial em relação aos cidadãos – supostamente envolvidos nos ataques de Janeiro do ano passado - e que foram detidos logo no início do ano.

De facto, só em Junho (2010) Filomeno Vieira Dias enviou uma carta ao Procurador-Geral da República, João Maria de Sousa, para mostrar preocupação em relação ao excesso de prisão preventiva de activistas e deplorar o adiamento indefinido do julgamento dos acusados.

Antes, a 3 de Maio de 2010, Filomeno Vieira Dias disse que a liberdade de informar e de ser informado é um direito fundamental que não deve ser subalternizado.

Ser o Bispo de Cabinda a falar de liberdade de informar quando, exactamente em Cabinda (colónia de Angola) se é detido por ter ideias diferentes, sendo que em muitos casos se é preso só porque as autoridades coloniais angolanas pensam que alguém tem ideias diferentes, é algo macabro.

Dom Filomeno Vieira Dias disse então que a informação joga um papel fundamental na vida da sociedade, por isso os comunicadores devem fazê-lo com responsabilidade.

Será a responsabilidade a que alude Filomeno Vieira Dias dizer apenas a verdade oficial do regime? Será ser-se livre para ter apenas a liberdade de concordar com as arbitrariedades do regime colonial? Será não se poder em Cabinda consultar, por exemplo e entre muitos outros, o Notícias Lusófonas ou o Alto Hama?

“A liberdade de imprensa é um direito ligado às liberdades fundamentais do homem”, sublinhou na altura o prelado, falando a propósito do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, proclamado pela UNESCO em 1993.

É um direito mas, note-se, apenas nos Estados de Direito, coisa que Angola não é de facto, embora de jure o queira parecer. Aliás, nenhum Estado de Direito viola os direitos humanos de forma tão soez e execrável como faz o regime angolano na sua colónia de Cabinda.

“Quando celebramos esse dia, devemos olhar para o seguinte: que é uma grande responsabilidade informar e informar sempre com verdade,” destacou Dom Filomeno Vieira Dias, certamente pedindo de imediato perdão a Deus por ele próprio não contar a verdade toda.

Dom Filomeno Vieira Dias deverá, creio, também pedir perdão por se pôr de joelhos perante os donos do poder em Angola, contrariando os ensinamentos, como recordou em Bruxelas o Padre Jorge Casimiro Congo, de que perante os homens deve estar sempre de pé, e de joelhos apenas perante Deus.

“Devemos fazer um percurso para uma comunicação social cada vez mais plural, cada vez mais isenta, mais global e mais equilibrada,” defendeu o Bispo de Cabinda , acrescentando que “os diversos actores da vida política, económica e social possam ter vez, ter voz, visibilidade na nossa comunicação social”.

Pois é. E se uma das principais tarefas dos Jornalistas é dar voz a quem a não tem, também a Igreja Católica tem a mesma missão devendo, aliás, ser ela a dar o exemplo. O que não acontece.

Frei João Domingos afirmou numa homilia em Setembro de 2009, em Angola, que Jesus viveu ao lado do seu povo, encarnando todo o seu sofrimento e dor. E acrescentou que os nossos políticos e governantes só estão preocupados com os seus interesses, das suas famílias e dos seus mais próximos.

Como os angolanos e os cabindas gostariam que tivesse sido Dom Filomeno Vieira Dias a dizer estas verdades.

"Não nos podemos calar mesmo que nos custe a vida", disse Frei João Domingos, acrescentando "que muitos governantes que têm grandes carros, numerosas amantes, muita riqueza roubada ao povo, são aparentemente reluzentes mas estão podres por dentro".

Como os angolanos e os cabindas gostariam que tivesse sido Dom Filomeno Vieira Dias a dizer estas verdades.

Por tudo isso, Josão Domingos chamou atenção dos angolanos para não se calarem, para "que continuem a falar e a denunciar as injustiças, para que este país seja diferente".

Como os angolanos e os cabindas gostariam que tivesse sido Dom Filomeno Vieira Dias a dizer estas verdades.

É que a verdade pode doer muito, mas que cura... isso cura.

quarta-feira, março 23, 2011

Na hora da despedida, a minha humilde e (bem) sincera homenagem a José Sócrates

Em Portugal, importa ir relembrando, seja, ou não, a propósito das ditas “coligações negativas” ou das “campanhas negras” contra José Sócrates, do P(R)EC ou do tango, o Estatuto do Jornalista aprovado pelo PS de José Sócrates, foi, é e será por muitos anos a página mais negra na história do Jornalismo português do pós-25 de Abril.

Apesar dos sucessivos apelos, incansáveis iniciativas e documentos de esclarecimento e de aviso para os graves erros e riscos, o governo de José Sócrates & Companhia foi insensível aos argumentos e posições dos Jornalistas.

Dos Jornalistas. Não dos mercenários contratados para dirigir alguns órgãos de comunicação social, mesmo que tenham carteira profissional.

O PS de José Sócrates foi incapaz de gerar um Estatuto consensual (até no Parlamento), no qual os jornalistas portugueses se revissem e reconhecessem como instrumento legal fundador de um jornalismo mais livre e mais responsável.

Aliás, liberdade e responsabilidade não se enquadram neste PS de José Sócrates.

O Estatuto aprovado não garante mais a protecção do sigilo profissional dos jornalistas. Pelo contrário, diminui tais garantias, ao elencar um conjunto de circunstâncias em que esse direito-dever pode ceder, bastando aos tribunais invocar dificuldade em obter por outro meio informações relevantes para a investigação de certos crimes.

Assim (e o PS lá sabe as suas razões…), os poucos jornalistas que restam – são mesmo poucos - enfrentarão maior resistência de fontes confidenciais que poderiam auxiliar a sua investigação de fenómenos como o tráfico de droga e até, como se insinuou nos debates, de corrupção, entre outros crimes que os profissionais da informação têm o direito e o dever de investigar e denunciar.

A falta de garantias de autonomia editorial e de independência e os riscos deontológicos criados pelo Estatuto socialista comprometem a aceitação, pelos jornalistas, de um regime disciplinar que é injusto porque aplicável num contexto de fragilidade, no qual não estão em plenas condições de assumir livremente as suas responsabilidades.

O Estatuto socialista não cria condições para uma efectiva autonomia editorial e independência dos jornalistas (e o PS lá sabe as suas razões…), antes as agrava, fragilizando ainda mais a posição destes profissionais face ao poder das empresas, grande parte delas nas mãos dos amigos do PS.

Também neste matéria, o PS de José Sócrates quis e certamente continuará a querer, acabar com todos os jornalistas de segunda, ou seja, todos aqueles que não eram do... PS. E a partir de agora são cada vez mais os que, na perspectiva de irem comer a outra gamela, vão guardar o cartão do Partido Socialista.

E são estes mesmos que já afiam as navalhas para apunhalar, pelas costas, o “líder carismático” do PS. É vê-los agora a pontapear a imagem de José Sócrates, negando a pés juntos e pela alma da santa mãe que sempre foram contra ele.

Como o sumo pontífice corre agora o risco de passar de bestial a besta, a carneirada do costume já diz que se fez alguma coisa de errado foi por ter sido obrigada e, é claro, já aparece a dizer que Pedro Passos Coelho é que é bom.

É mesmo assim. Mudam-se os donos, mudam-se as vontades. Tarefa, aliás, fácil para quem já nasceu sem coluna vertebral. Muitos estão já hoje a cuspir no prato que lhes deu tanta comida. Mas o que seria de esperar de tantos analfabetos funcionais (sabem ler e escrever mas não lêem nem escrevem)?

Angola – país inteiro à rasca!

“A par da mais profunda miséria, está a nascer em Angola uma classe alta desbragadamente rica e é essa radical diferença na distribuição dos rendimentos que dará a prazo origem a uma enorme revolta. Que hoje é ainda somente larvar. Mas o curioso é que, tirando, uns tantos, bem poucos, jornalistas, como Orlando Castro, a generalidade da comunicação social portuguesa, que se preocupa com a “geração à rasca”, censura desavergonhadamente o seu paralelo - o país inteiro à rasca que é Angola!”

As lapidares e eternas verdades de Mia Couto

Brilhante como é habitual, Mia Couto diz que “a maior desgraça de uma nação pobre é que em vez de produzir riqueza, produz ricos”.

E acrescenta, em texto publicado no CanalMoz, que são “ricos sem riqueza”, pelo que seria melhor “chamá-los não de ricos mas de endinheirados”.

Rico, diz Mia Couto, “é quem possui meios de produção. Rico é quem gera dinheiro e dá emprego”, sendo que endinheirado “é quem simplesmente tem dinheiro,ou que pensa que tem”. Isto porque, acrescenta, “na realidade, o dinheiro é que o tem a ele”.

Num lapidar retrato da Lusofonia, Mia Couto considera que “são demasiados pobres os nossos "ricos". E expica, “aquilo que têm, não detêm. Pior: aquilo que exibem como seu, é propriedade de outros. É produto de roubo e de negociatas.”

Mia Couto acredita que “não podem, porém, estes nossos endinheirados usufruir em tranquilidade de tudo quanto roubaram. Vivem na obsessão de poderem ser roubados”.

Ou seja, “necessitavam de forças policiais à altura. Mas forças policiais à altura acabariam por lançá-los a eles próprios na cadeia.”

Ou ainda, “necessitavam de uma ordem social em que houvesse poucas razões para a criminalidade. Mas se eles enriqueceram foi graças a essa mesma desordem (....)”