sábado, novembro 26, 2011

Mudam-se os tachos, mudam-se as verdades

O primeiro-ministro de Portugal afirmou hoje, em Coimbra, que o Orçamento de Estado para 2012 obedece a "critérios amplos e profundos de equidade na repartição dos sacrifícios".

Passos Coelho não disse, mas pensou certamente, que todos os que dizem o contrário são uma cambada de matumbos. E, se calhar, são mesmo. Isto porque ele é dono da verdade, e quando isso acontece todos os outros devem render-se.
  
Através do OE para 2012, "o governo pede sacrifícios aos portugueses, a todos os portugueses", sublinhou Pedro Passos Coelho. Pois. Até pode ser que ele peça a todos, mas o problema está em que uns têm força para não dar e outros, a grande maioria, nem força têm para manter a barriga com qualquer coisa dentro.

Segundo o sumo pontífice deste governo, tal como acontecia com o seu antecessor, o governo "teve a preocupação de proteger os mais vulneráveis", pedindo, por isso, "um esforço acrescido a quem mais pode" e, por outro lado, "ataca transversalmente a despesa supérflua das estruturas do próprio Estado, com a reestruturação dos seus organismo e dos seus procedimentos".

E quem são os mais vulneráveis? Não são com certeza os 800 mil desempregados, os 20 por cento de pobres e outros 20% que não dão uso aos pratos. Esses nem existem para o Governo.

Quando Passos Coelho se refere aos que mais podem, estará a pensar em quem? Não é certamente em Joaquim Pina Moura, Jorge Coelho, Armando Vara, Manuel Dias Loureiro, Fernando Faria de Oliveira, Fernando Gomes, António Vitorino, Luís Parreirão, José Penedos, Luís Mira Amaral, António Mexia, António Castro Guerra, Joaquim Ferreira do Amaral, Filipe Baptista, Ascenso Simões ou Duarte Lima.

Além disso, sustenta o “africanista de Massamá”, "as opções contidas no OE obedecem a critérios amplos e profundos de equidade na repartição dos sacrifícios".

Ou seja, todos vão ficar sem uma refeição por dia. Até nem está mal. Os que têm três ficam com duas, os que têm duas ficam com uma, os que tem uma ficam sem ela e os que já não têm nenhuma… não fazem falta.

Passos Coelho também disse (*): “Estas medidas põem o país a pão e água. Não se põe um país a pão e água por precaução. Estamos disponíveis para soluções positivas, não para penhorar futuro tapando com impostos o que não se corta na despesa. Aceitarei reduções nas deduções no dia em que o Governo anunciar que vai reduzir a carga fiscal às famílias”.

Passos Coelho também disse (*): “Sabemos hoje que o Governo fez de conta. Disse que ia cortar e não cortou. Nas despesas correntes do Estado, há 10% a 15% de despesas que podem ser reduzidas. O pior que pode acontecer a Portugal neste momento é que todas as situações financeiras não venham para cima da mesa. Aqueles que são responsáveis pelo resvalar da despesa têm de ser civil e criminalmente responsáveis pelos seus actos”.

Passos Coelho também disse (*): “Vamos ter de cortar em gorduras e de poupar. O Estado vai ter de fazer austeridade, basta de aplicá-la só aos cidadãos. Ninguém nos verá impor sacrifícios aos que mais precisam. Os que têm mais terão que ajudar os que têm menos.Queremos transferir parte dos sacrifícios que se exigem às famílias e às empresas para o Estado».

Passos Coelho também disse (*): “Já estamos fartos de um Governo que nunca sabe o que diz e nunca sabe o que assina em nome de Portugal. O Governo está-se a refugiar em desculpas para não dizer como é que tenciona concretizar a baixa da TSU com que se comprometeu no memorando. Para salvaguardar a coesão social prefiro onerar escalões mais elevados de IRS de modo a desonerar a classe média e baixa”.

Passos Coelho também disse (*): “Se vier a ser necessário algum ajustamento fiscal, será canalizado para o consumo e não para o rendimento das pessoas. Se formos Governo, posso garantir que não será necessário despedir pessoas nem cortar mais salários para sanear o sistema português. A ideia que se foi gerando de que o PSD vai aumentar o IVA não tem fundamento”.  pior coisa é ter um Governo fraco. Um Governo mais forte imporá menos sacrifícios aos contribuintes e aos cidadãos”.

Passos Coelho também disse (*): “Não aceitaremos chantagens de estabilidade, não aceitamos o clima emocional de que quem não está caladinho não é patriota. O PSD chumbou o PEC 4 porque tem de se dizer basta: a austeridade não pode incidir sempre no aumento de impostos e no corte de rendimento”.

Passos Coelho também disse (*): “Já ouvi o primeiro-ministro dizer que o PSD quer acabar com o 13º mês, mas nós nunca falámos disso e é um disparate. Como é possível manter um governo em que um primeiro-ministro mente?”

(*) O Passos Coelho é o mesmo. O tacho é que é diferente. Na altura destas declarações era candidato a primeiro-ministro…

Levou 7 tiros mas, felizmente, só 1 foi fatal!

Como se não bastasse Passos Coelho julgar-se dono da verdade, ainda gosta (terá tido, com certeza, bons professores) de fazer dos plebeus uns asnos.

E está de tal maneira imbuído dessa douta suposição, que vem agora dizer que o Governo está disposto a fazer "alguma modelação" na aplicação das medidas de austeridade com "impacto social mais pesado".

Lá que os portugueses aceitem ser, passivamente, escravos ao serviço de um governo que tem um primeiro-ministro que mente, ainda vá que não vá. Mas daí a acreditar que Passos Coelho abandonou a prática do “quero, posso e mando” vai, creio eu, uma grande distância.

O programa do Governo já há muito que abandonou a tese de que os portugueses iriam morrer da cura ou da doença. Fez as contas e achou por bem que morram apenas da doença, desde logo porque dessa forma não há necessidade de gastar dinheiro (que, por exemplo, faz falta no BPN) na tentativa de cura.

É claro que Passos Coelho sabe que o Orçamento de Estado vai atirar o país para uma terrível recessão económica, eventualmente irreversível. Mas isso não o preocupa. Quando acabar ele dá à sola e quem vier atrás que feche a porta e pendure a placa da falência.

Quando se vê que alguns políticos sofrem mesmo de nanismo, genético ou adquirido, não sobra margem de manobra para a esperança. Pelos vistos o Partido Socialista sentir-se-ia feliz se só fosse cortado um dos subsídios (de férias ou de Natal) aos trabalhadores da administração pública e aos pensionistas.

O PS faz lembrar a história da família de um militar morto durante a guerra colonial. Quando o Exército foi comunicar aos pais que o filho tinha morrido, disse: Ele foi atingido por sete tiros, mas felizmente só um foi fatal.

O Governo está convencido, e até agora não tem razões práticas para alterar a estratégia, que os escravos contentam-se com migalhas, farelo ou pão e água.

Da mesma opinião são também os ilustres membros da casta superior do reino lusitano, casos de Joaquim Pina Moura, Jorge Coelho, Armando Vara, Manuel Dias Loureiro, Fernando Faria de Oliveira, Fernando Gomes, António Vitorino, Luís Parreirão, José Penedos, Luís Mira Amaral, António Mexia, António Castro Guerra, Joaquim Ferreira do Amaral, Filipe Baptista, Ascenso Simões, Duarte Lima.

Ou, igualmente, Cavaco Silva que, em termos vitalícios, só tem direito a 4.152 euros do Banco de Portugal, a 2.328 euros da Universidade Nova de Lisboa e a 2.876 euros de primeiro-ministro.

Mas, reconheça-se, Portugal é um país (se é que é) muito original. Ao mesmo tempo que tem 800 mil desempregados, 20% de miseráveis e outros 20% de semi-miseráveis, tem uma Presidência da República que apenas representa uma pequena factura de 16 milhões de euros por ano.

Pouca coisa, é claro, para um reino de tanta qualidade. Dividindo esse montante por cada português, incluindo desempregados,  pobres e miseráveis, dá a módica quantia de 1,5 euros por cada um.

É claro que, no meio da plebe, aparecem sempre as vozes críticas que contestam a necessária e vital opulência de um organismo que dirige o destino de um país que recentemente readoptou o esclavagismo.

Dizem esses seres inferiores, e é por isso que são escravos, que os 16 milhões de euros anuais são um valor 163 vezes superior à presidência de Ramalho Eanes, gastando o chefe de Estado português  o dobro do rei de Espanha (8 milhões).

Esquecem, no entanto, de dizer que a casta superior fica, mesmo assim, longe dos 112 milhões de euros de Nicolas Sarkozy, ou dos 46,6 milhões da rainha de Inglaterra, Isabel II.

Importa também relevar a importância e imprescindibilidade do séquito que acompanha sua majestade D. Cavaco Silva. Ou  seja, 12 assessores e 24 consultores, além dos restantes especialistas que põem em funcionamento a máquina pessoal do presidente e toda a sua estrutura física.

Ao que parece,  Cavaco Silva faz-se rodear de um regimento de quase 500 pessoas, fazendo com que os 300 elementos a trabalhar no Palácio de Buckingham, e os 200 que servem o rei Juan Carlos de Espanha pareçam insignificantes.

Ainda bem que assim acontece. Em alguma coisa Portugal haveria de ser grande. Também o é noutras coisas, como seja o bacanal político, as orgias político-económicas e as festas da abundância em que as sobras alimentam os escravos.

Portugal não dá, aliás, a perceber que o seu povo passa fome. Como não tira os sapatos ninguém percebe que tem a meias rotas. Veja-se, por exemplo, que na 21ª Cimeira Ibero-Americana, recentemente realizada no Paraguai, o reino lusitano mostrou toda a sua pujança.

Mostrando mais uma vez a sua coerência e depois de ter dito que “ninguém está imune aos sacrifícios”,  Aníbal Cavaco Silva levou ao Paraguai uma comitiva de 23 super-especialistas, com destaque para o seu médico pessoal e, é claro, para o seu mordomo.

Escravatura no reino lusitano

A troika está a vender aos portugueses, não ao governo de Portugal, gato por lebre. Não é ela que ajuda o país, mas sim o país que sustenta a sua actividade  de agiotagem.

Ou seja, Portugal vai pagar à troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) um montante em juros que equivale a quase metade do dinheiro que o país pode receber ao abrigo dos empréstimos do programa de assistência financeira.

Mas essa é uma realidade que pouco importa aos donos do país, desde logo porque quem paga a crise são os escravos e nunca os seus proprietários.

Se o país prospera, os lucros são para uns. Se dá prejuízo, são outros que pagam a factura. Não foram os escravos que endividaram o país, mas são eles que têm de pagar a conta.

Os portugueses que já há muito estão a aprender a viver sem comer vão, de uma vez por todas, morrer (não terão comida nem assistência médica). Os que ainda dividiam uma sardinha por três vão começar a viver sem comer, substituindo os anteriores. O seu desaparecimento será daqui a alguns meses.

Quando atingir o desiderato, para além de poder culpar D. Afonso Henriques por ter corrido com os mouros e criado o reino lusitano,  os membros do governo sempre poderão colocar no túmulo dos portugueses desconhecidos uma lápide a dizer: Poucos continuam a ter milhões, milhões continuam a ter pouco… ou nada.

Verdade seja dita, contudo, que segundo o Orçamento de Estado para 2012 a eliminação dos subsídios de férias e de Natal não atinge todos os portugueses. Só atinge os que têm emprego e que, de acordo com o Governo, serão cada vez menos. Aliás, já hoje não atinge os 800 mil desempregados, os 20% de miseráveis e os outros 20% de semi-miseráveis.

"O Estado depende em absoluto da assistência externa" e estamos a viver um momento de "emergência nacional", declarou o primeiro-ministro, só faltando dizer – e só não o fez por manifesta benevolência e filantropia – que a culpa é dos portugueses que teimam, embora já não saibam se têm barriga, em viver.

Passos Coelho diz que a terapia proposta é necessária porque, bem vistas as coisas, se o doente vai morrer da cura ou doença, então que morra da doença porque dessa forma se evita gastar dinheiro em medicamentos.

"Temos agora de fazer mais, muito mais, do que estava previsto", acrescentou, negando a possibilidade de "abandonar" o caminho da austeridade, sob pena de sofreremos consequências que levariam o país ao colapso.

Importa realçar o optimismo do primeiro-ministro. Desde logo porque ele diz que acredita que este lugar tão mal frequentado é um país. Por outro porque ainda não descobriu que os portugueses estão, como os malucos, no meio da ponte. Com a diferença de que não há ponte.

"Para contrariar o risco da deterioração económica, incluindo uma contracção profunda e prolongada do nosso produto e do nosso tecido empresarial, o Governo decidiu permitir a expansão do horário de trabalho no sector privado em meia hora por dia durante os próximos dois anos, e ajustar o calendário dos feriados", afirmou o primeiro-ministro.

Ora aí está um coelho (de peluche) retirado da cartola. A pedra filosofal foi descoberta. Está visto (nem José Sócrates se lembraria de tal) que a solução para todos os males de Portugal está em trabalhar mais, ganhar menos, em ter pior assistência médica e transportes, em reformar-se mais tarde (ou nunca), em ser despedido ao preço da chuva.

Mais uma vez,  Pedro Passos Coelho exagerou nas palavras para dizer o que, afinal, poderia resumir numa só: escravatura.

sexta-feira, novembro 25, 2011

O chefe do posto, os sipaios e os escravos

Há já muitos anos, nas terras do fim do mundo, um chefe do posto virou-se para o sipaio e disse-lhe que precisava de uns tantos voluntários.

Tempos depois chegou o sipaio e disse: Estão lá fora os voluntários… devidamente amarrados.

Nos últimos tempos, sempre que leio alguma coisa dita pelo  presidente da República de Portugal fico com a noção de que ele não passa, como nos seus velhos tempos, de um chefe de posto.

Hoje, Cavaco Silva virou-se para os sipaios da corte e recomendou “uma atenção muito especial” à “agenda da coesão social”, que tem de incluir a repartição equitativa dos sacrifícios e um “diálogo frutuoso” entre Governo, maior partido da oposição e parceiros sociais.

Como até prova em contrário os escravos são culpados de tudo, os sipaios vão dizer ao chefe do posto que não se preocupe porque os voluntários, devidamente amarrados, comem (nem que seja farelo) e calam (nem que seja à base da porrada).

“Esta agenda da coesão social deve merecer uma atenção muito especial porque ela pode exercer uma influência muito decisiva sobre o crescimento económico”, afirmou o chefe (do posto) de Portugal, numa intervenção na abertura do Conselho para a Globalização, iniciativa organizada pela COTEC que decorre em Lisboa.

Apontando as três agendas que os decisores políticos portugueses têm neste momento de conduzir em simultâneo – a da consolidação orçamental, a da coesão social e a do crescimento económico – Cavaco Silva falou sobre cada uma delas, enfatizando a importância da coesão social.

Lembro-me, mais pelos relatos da época do que por uma vivência directa, de que os chefes de posto que levavam (voluntariamente amarrados) os contratados para as roças do café, também falavam de coesão social e crescimento económico do reino que, diziam, se estendia do Minho a Timor.

“A agenda da coesão social visa criar um ambiente social favorável à correcção dos desequilíbrios económicos do nosso país”, sustentou o chefe, pelo que ela não pode deixar de incluir e “de forma muito clara a repartição equitativa dos sacrifícios que são exigidos aos portugueses”, o apoio aos mais desfavorecidos, “em nome da dignidade da pessoa humana” e “um diálogo frutuoso entre Governo e o maior partido da oposição e entre o Governo e os parceiros sociais”.

Tal como noutros tempos, também os chefes do posto falavam da “repartição equitativa dos sacrifícios”, consubstanciada na tese de os escravos ficarem com 99% dos sacrifícios e os seus donos com o restante.

Também falavam, perante o aplauso dos sipaios,  “da dignidade da pessoa humana” dos contratados. E o resultado era peixe podre, fuba podre, panos ruins, 50 angolares e porrada se refilares.

E depois desses discursos, o chefe do posto e o seu clã iam jantar à grande e à francesa, os sipaios ficam com os restos e para o povo sobrava, quando sobrava, um prato de pirão.

Imagens chocantes nos maços de cigarros

Os maços de cigarros em Portugal podem vir a conter imagens chocantes, uma medida em estudo no âmbito da revisão da directiva do tabaco que deverá ser aprovada no próximo ano, anunciou o comissário europeu da Saúde.

Durante a apresentação, em Lisboa, do balanço de uma campanha europeia antitabagista, John Dali anunciou que vai entregar para o ano uma revisão da directiva do tabaco, na qual pretende introduzir regulamentação sobre cigarros electrónicos, alterações nas mensagens dissuasoras do consumo e reforço da proibição de venda a menores de 16 anos.

A legislação existente sobre a inclusão de imagens chocantes (como a que se reproduz) permite que os países possam voluntariamente adoptar, ou não, esta medida.

Actualmente são sete os países que usam este tipo de imagens nos maços de cigarros, tendo sido França e Espanha os últimos a aderir, explicou, acrescentando que o que se pondera nesta revisão é tornar a aplicação da lei obrigatória e não voluntária.

Outra preocupação do comissário europeu diz respeito ao acesso que os jovens têm à compra de tabaco, pelo que defende formas efectivas de limitar o acesso de menores de 16 anos às máquinas de venda de cigarros.

Uma das possibilidades em estudo é a introdução de máquinas que desbloqueiem através da leitura do cartão de identificação do comprador, à semelhança do que acontece na Alemanha.

Outro exemplo dado foi o da abolição das máquinas, como aconteceu em França, passando o tabaco a ser de venda exclusiva aos balcões.

Com estas medidas a Comissão Europeia "não está a banir o tabaco, mas a tentar empurrar os jovens para uma vida saudável, mostrando o seu lado mais atractivo", afirmou John Dali.

O comissário europeu lembrou que desde que começou a ser aplicada legislação sobre o consumo do tabaco, os números do consumo na Europa têm vindo a baixar, uma tendência que espera conseguir manter.

Alem disso, acrescentou, as estatísticas revelam que alguns negócios, como a restauração, aumentaram nos países com leis mais restritivas, como é o caso da Irlanda.

A explicação é simples, na opinião de John Dali, que aponta o exemplo: as famílias começaram a ir mais a restaurantes, onde antigamente não iam por estarem cheios de fumo dos cigarros.

Em estudo está a possibilidade de os fumadores poderem personalizar os maços de cigarros, escolhendo o tipo de imagens que querem. Com o avanço tecnológico até poderão colocar Passos Coelho a lamber as botas do “líder carismático” de Angola, José Eduardo dos Santos, de Durão Barroso a viver numa cubata da Guiné-Bissau, ou de Cavaco Silva a inaugurar uma avenida com o seu nome em Malabo, capital da Guiné-Equatorial.

Texto cinco mil

Ao publicar a mensagem, texto, post, cinco mil aqui no Alto Hama, relembro passagens do que escrevi na primeira.

É só mais uma das facetas desta aventura de acreditar que as palavras voam, mas os escritos são eternos. Tão eternos quanto o engenho e a arte de quem entende que dizer o que pensa ser a verdade é uma das qualidades mais sagradas.

Alto Hama é uma pequena localidade da minha amada Angola. Foi, igualmente, o nome da secção que assinei durante anos (por especial, e também eterna, amizade do António Ribeiro) no Notícias Lusófonas. Também foi o nome de um dos meus livros.

Alto Hama é, tal como a localidade, um cruzamento que dá acesso a todos os pontos de vista. No entanto, se a minha liberdade termina onde começa a dos outros, também a dos outros termina onde começa a minha.

Além de tudo, importa dizê-lo, é um desafio para quem faz da escrita uma forma de vida. Tarefa impossível? Não. Mas mesmo que o fosse eu estaria na primeira linha. É que o possível faço eu todos os dias.

Obrigado a todos.

Nacionalizar prejuízos, privatizar lucros

Portugal vai pagar à troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) um montante em juros que equivale a quase metade do dinheiro que o país pode receber ao abrigo dos empréstimos do programa de assistência financeira.

Digam lá que não é um bom negócio para os agiotas?

Revela a Lusa que, segundo dados do Governo, se Portugal utilizar a totalidade dos 78.000 milhões de euros disponibilizados pela troika, o Estado terá de desembolsar 34.400 milhões em juros, ou seja, cerca de 44% do montante do empréstimo. Este valor foi apresentado pelo Ministério das Finanças em resposta a uma questão de um deputado do PCP, Honório Novo

Durante o debate parlamentar do Orçamento Rectificativo para 2011, no final de Outubro, o deputado comunista, eleito pelo círculo do Porto, perguntou: “Quanto é que serão os juros globais desta ajuda? Quanto é que Portugal pagará só em juros para nos levarem pelo mesmo caminho que a Grécia, ao empobrecimento generalizado do país?”.

A resposta do Ministério das Finanças a essa questão refere 34.400 milhões de euros, montante que corresponde ao valor total a pagar ao longo do prazo dos empréstimos e presumindo que Portugal recorre integralmente ao crédito disponível. Ou seja, que “é utilizado na totalidade” o montante destinado às empresas do sector financeiro – os 12 mil milhões de euros reservados para a recapitalização da banca.

Como a preocupação do Governo não é trabalhar para os milhões que têm pouco… ou nada, mas antes para os poucos que têm milhões, pouco importa que os escravos pensem que se está delapidar brutalmente os dinheiros públicos.

Assim, enquanto os escravos pagam as dívidas feitas pelos outros, o BPN é só um exemplo, o Estado penhora o futuro das novas gerações, negando-lhes qualquer possibilidade de nos próximos anos conseguirem a carta de alforria.

Mas, do ponto de vista da casta superior que comanda o regime esclavagista, até nem está nada mal. O Estado, pela via dos seus escravos, assume assim as fraudes e crimes contíguos de banqueiros e outros políticos no caso BPN, e depois de uma vasta operação de branqueamento volta a vendê-lo aos privados amigos que, provavelmente, o compram com o dinheiro roubado ao… BPN.

Como diz o meu amigo Honório Novo (sim, também tenho amigos no PCP), “a ideia dos partidos da troika era e é, muito simples: nacionalizar os prejuízos e privatizar os lucros”.

De facto, o custo acumulado da nacionalização do BPN no défice orçamental será superior ao corte aplicado nos subsídios de férias e Natal dos funcionários públicos e pensionistas.

Calcula-se à luz dos dados conhecidos em 1,3% do Produto Interno Bruto (PIB) o impacto no défice do custo directo da nacionalização do BPN em 2010 e 2011, um valor que supera os 1,2% do PIB de impacto dos cortes nos subsídios de férias e Natal.

Para além do impacto no défice em 2010 e 2011,  os encargos com juros que terão de ser suportados com as sociedades veículo do BPN vão originar custos na ordem dos 323 milhões de euros por ano, o equivalente a 0,2% do PIB de 2012.  Só em 2010, o impacto na dívida pública do BPN foi de 2,2% do PIB em 2010.

E com este cenário só me vem à cabeça o que o impoluto governador do Banco de Portugal disse no dia 27 de Maio de 2009, quando insistiu que a supervisão ao sistema financeiro actuava com métodos e padrões próprios e usados internacionalmente e que não era uma espécie de KGB e FBI juntos.

Na altura, acusando um deputado do Bloco de Esquerda de “equívoco ou ignorância fundamental” sobre o que é a supervisão e o que foi a intervenção do Banco de Portugal no Banco Português de Negócios, Vítor Constâncio disse que a natureza de algumas perguntas formuladas são “com presunções de os supervisores serem uma espécie de KGB e FBI juntos”.

“O supervisor não é um super polícia” com acesso a tudo, disse o governador do Banco de Portugal, mas sim uma entidade que actua segundo métodos e padrões reconhecidos.

Ok. Percebi na altura e continuo a perceber hoje. Então, em vez de supervisor (visão superior à normal), o Banco de Portugal deveria reconhecer que não passou de um simples visor ou, neste caso, um grande retrovisor.

“Não pode ser cometido o erro, para não dizer outra coisa, de se avaliar a actuação por critérios e objectivos que sejam diferentes das práticas internacionais”, indignou-se Vítor Constâncio, recordando que uma análise do Fundo Monetário Internacional mostrara que as práticas do regulador português estavam no grupo das melhores.

É verdade. O melhor médico que conheci (e assim foi considerado por muitos) foi um que sempre tratou da saúde aos que estavam de boa… saúde. Quando alguém estava doente, mandava-os para o hospital.

Constâncio deixou ainda uma interrogação sobre o papel dos revisores oficiais de contas e auditores, dizendo que as situações detectadas no BPN, ainda antes desta situação que levou à nacionalização, “foram todas identificadas pelo Banco de Portugal e não pelos auditores”.

Ou seja. A culpa é dos outros e não é tão grande porque, embora não sendo uma espécie de KGB e FBI juntos, muito menos PIDE ou DGS, o Banco de Portugal conseguiu fazer o papel dos outros. Se calhar esqueceu-se do seu, e como não tinha ponto...

E por alguma razão já em  1802 Thomas Jefferson dizia: “Acredito que as instituições bancárias são mais perigosas para as nossas liberdades do que o levantamento de exércitos. Se o povo alguma vez permitir que bancos privados controlem a emissão da sua moeda, primeiro pela inflação, e depois pela deflação, os bancos e as empresas que crescerão à roda dos bancos despojarão o povo de toda a propriedade até os seus filhos acordarem sem abrigo...”

Era bom (santa ingenuidade a minha) saber quais são os partidos políticos beneficiados nas suas campanhas eleitorais não só em relação ao BPN como a todos os outros bancos e grandes empresas que, por norma, jogam em vários tabuleiros para terem a certeza de que – seja qual for o partido vencedor – ganham sempre.

De uma coisa os portugueses podem ter a certeza. A corrupção, o compadrio, o clientelismo e outras virtudes políticas vão desaparecer num qualquer buraco dos muitos em que se transformou Portugal.

Não sei porquê, mas até estou tentado a pensar que se os bancos fossem sérios e honestos (eu sei que é uma utopia) se calhar muitas das empresas que estão em dificuldade, bem como muitas das que já foram à vida, estariam hoje em boas condições.

Ou será que, para além de lucros milionários, os bancos ainda têm privilégios especiais que os tornam donos e senhores deste reino? Será que os bancos são de facto, de jure seria pedir muito, os donos do país?

quinta-feira, novembro 24, 2011

Da “insuficiência alimentar” do Aníbal
ao “Natal muito difícil” da Dona Maria

O que tem andado Cavaco Silva a fazer, pelo menos desde Março de 2002, para além de gozar com a miséria dos outros?

E, como se não bastasse aos portugueses estarem a aprender a viver sem comer, ainda têm de gramar com as teorias do actual presidente da República, Cavaco Silva, que o máximo que consegue dizer é que existe “insuficiência alimentar”.

Dizer a quem passa fome que apenas padece de "insuficiência alimentar" é, digamos, uma poética forma de juntar à barriga vazia dos portugueses um atestado, em papel timbrado da Presidência da República, de menoridade ou estupidez.

Consta, aliás, que Cavaco Silva (que em termos vitalícios só tem direito a 4.152 euros do Banco de Portugal, a 2.328 euros da Universidade Nova de Lisboa e a 2.876 euros de primeiro-ministro) terá até decidido que, por solidariedade com os que sofrem de “insuficiência alimentar”, vai passar a fazer greve de fome… entre as refeições.

Que fique igualmente claro que Cavaco Silva nada tem a ver com o estado a que Portugal chegou. E não tem, registe-se, porque só foi primeiro-ministro  de 6 de Novembro de 1985 a 28 de Outubro de 1995, só venceu as eleições presidenciais de 22 de Janeiro de 2006 e só foi reeleito a 23 de Janeiro de 2011.

Bem verdade é que o presidente da República continua a gozar com a chipala dos portugueses. Até parece que só agora chegou à política “made in Portugal”.

Sempre que fala ao país, directa ou indirectamente, Cavaco Silva sacode a água do capote e continua (como se, para além de presidente da República, não andasse há um monte de anos na política portuguesa e sempre nos areópagos do poder) a esquecer-se de que quem não vive para servir não serve para viver.

"Eu disse que se devia ter em conta o limite que se pode exigir ao cidadão comum" e é relativamente a esses "que nós temos que pensar como, neste tempo de dificuldades, assegurar uma vida digna", diz o presidente.

O presidente da República defendeu, também, um "debate aprofundado" e "com muito bom senso" na Assembleia da República (AR) em matéria fiscal e de justiça fiscal, para evitar "erros" prejudiciais ao país.

"A competência exclusiva em matéria fiscal cabe à AR e o que eu aconselharia é que, nesse domínio, se faça um debate aprofundado, com muito bom senso, tendo presente todas as consequências para o desenvolvimento futuro do nosso país", disse.

O chefe de Estado lembrou que, "às vezes" se cometem "erros", como "já aconteceu noutros países no domínio fiscal", os quais "têm consequências muito negativas para o futuro do país, prejudicando as possibilidades de aproximação aos níveis de desenvolvimento da União Europeia".

Será que os portugueses se recordam que o mesmo Cavaco Silva afirmou que o mal da economia portuguesa estava nas finanças públicas, mas que o "medo" dos políticos dificulta a sua correcção, malgrado defender um quase poder de veto para o ministro das Finanças?

Recordam-se que o também ex-líder do PSD e  ex-primeiro-ministro considerava, em Março… de 2002, que Portugal tinha no máximo um ano e meio para inverter a tendência de degradação da situação económica?

Para o também economista, professor universitário e presidente da República, seria, contudo, "muito complicado" para o Governo resolver "o problema mais grave" que afecta a economia portuguesa: a crise nas finanças públicas. Recordam-se?

Será que também se recordam de ele ter dito que “os políticos, como pessoas normais que são, têm medo, e será precisa muita coragem política para adoptar políticas necessárias, mas cuja viabilidade política é duvidosa"?

Ou que Cavaco Silva dizia que a solução passava, necessariamente, por "reforçar os poderes do ministro das Finanças", que devia contar com o apoio incondicional do primeiro-ministro e dispor "de um poder quase de veto sobre os restantes ministérios"?

Recordam-se que também foi ele quem afirmou que o objectivo era assegurar a concretização de medidas que se antevêem impopulares, como as reformas da saúde - apostando na gestão privada dos hospitais públicos - e educação, a extinção de alguns serviços públicos, a contenção nas transferências para as autarquias, o equilíbrio das contas externas e o assegurar de "disciplina" nas empresas públicas?

Ou que era necessário acompanhar "quase à semana o endividamento de determinadas empresas públicas, nomeadamente no sector dos transportes e do audiovisual”?

Recordam-se ainda que Cavaco Silva defendia, quanto à evasão e fraude fiscais, como única solução viável "um claro levantamento do sigilo bancário" sustentando que, mesmo face ao risco de fuga de capitais, "em situação de crise" esta medida se impõe?

E então, se Cavaco Silva afirmava tudo isto há mais de 9 anos, é  caso para perguntar, para voltar a perguntar, para nunca deixar de perguntar, o que tem andado Cavaco Silva a fazer pelo menos desde Março de 2002, para além de gozar com a miséria dos outros?

E assim foi, vai e irá o reino! Até um dia...

É tudo, ao que parece, uma questão de preço!