quarta-feira, setembro 19, 2007

Razões para que o silêncio diga (quase) tudo

Sob o título «Há sempre uma razão para também dar voz a quem a não a tem!», o Notícias Lusófonas fez manchete com o artigo do meu amigo Eugénio Costa Almeida a seguir transcrito. No seu blog (http://pululu.blogspot.com/) o Eugénio volta à carga, acrescentando que a mensagem do texto do NL será mais perceptível se for feita, ao mesmo tempo, a leitura de dois artigos meus. Fica (quase) tudo dito.

O primeiro:
Fim das (minhas) opiniões sobre Angola

Sempre defendi que Angola não se define – sente-se. E o que sinto pelo meu país é, portanto, algo que não se define. Continuo a sentir o mesmo de sempre apesar de, a partir se agora, deixar de escrever sobre Angola. Os, admito que sejam ainda alguns, leitores deste espaço e dos temas angolanos mereciam uma explicação mais pormenorizada. Posso mas não devo dar essa explicação. Fico em dívida, assumo. Talvez um dia, a partir de um qualquer outro ponto do globo, quem sabe se mesmo de Angola, eu possa pagar essa dívida, eventualmente com juros…

O segundo:
Vale a pena dar voz a quem a não quer ter?

Nada melhor do que ter um problema para saber de que lado estão os que nos rodeiam. No meu caso, foi grato verificar que dois ou três, dos muitos mais amigos que eu pensava ter, me manifestaram solidariedade. Também foi bom, apesar de tudo, ver que dos que estão do outro lado da barricada há alguns que se preocupam.

Acredito que tenha dado especial gozo a alguns dizer-me: “eu bem te avisei” ou, ainda, “será que já viste que estás do lado errado?”. A mim não deu gozo mas, é claro, ajudou-me a pensar.

“Continuo a pensar que estou no lado certo da barricada”, disse a um deles. A resposta, incisiva e penetrante, não se fez esperar: “Se estás do lado certo, onde estão agora os que deviam estar ao teu lado, como estiveram noutras alturas?”.

Fiquei sem resposta. É que, de facto, os que eu contava estarem ao meu lado, ou não deram sinal de vida ou, por conveniência, estão com um pé já do outro lado da barricada.

Ponderado o assunto, ainda não é desta (certamente nunca será) que passo para o outro lado. Não deixo, contudo, de cada vez mais me questionar se vale a pena querer dar voz aos que voluntariamente a não querem ter.

Por tudo isto, em vez de escrever o que penso, penso no que (não) escrevo.

O terceiro:
Manchete do NL

Há quem não goste que se escreva, diga ou palestre sobre certos assuntos. E se os assuntos estão na génese da crítica aos pretensos ditadores e claros autocratas para quem as eleições são um devaneio de uns quantos nunca efectuado, então aí as ameaças mais que “fascinantes” são-no efectivas e claras. Tudo isto porque alguns angolanos não gostam de calar o que pensam, mesmo que isso os obrigue a pensar e sentir 24 horas da sua vida pela vida daqueles que mesmo querendo pensar – e pensam – não conseguem fazer-se ouvir nem conseguem chegar aos meios comunicacionais para apresentarem os seus pontos de vista.

E por isso alguns pretensos bajulo-ditadores – por certo ao arredio do interesse das cúpulas nacionais e mesmo partidárias – ameaçam a vida privada de quem se sente capaz de ser arauto da verdade – mesmo que seja a sua verdade, embora pense e produza como verdade de todos – sem se preocuparem com os efeitos que provocam.

Por isso, muitos desses bajulo-ditadores conseguem sobreviver, quais macacóides em árvores de ramos finos, porque habituaram-se em estar de bicos-de-pés e, com isso, estragarem os sapatos e endurecerem os dedos que lhes permite estarem pendurados quais ratos, quais múcuas.

Acham que levando as pessoas, os pensadores, ao silêncio que os calam e, por esse facto, amordaçam a verdade – mesmo que seja a sua verdade, embora pense e produza como verdade de todos – efectiva e clara: os autocratas não gostam que se pense e se pense o real.

Se pensam podem criar expectativas e tentações de escrita. Se lhes cortar a escrita, pensam que o povo não pensa e se remete ao silêncio.

Mas o silêncio não impede que se pense. E o silêncio do que se pensa e não se diz, ou escreve, é por vezes, e não poucas vezes, mais inciso e gritante do que o que se escreve.

Talvez por isso, e ainda assim, aqueles que só sabem fazer – e mal, felizmente, – o que lhes mandam, prefiram que se fale porque pensam que não se morde.

Caros leitores, pode-se morder – e muito, acreditem, se assim não fosse não perdiam tempo em se mostrarem nas vias públicas como se capangas fossem e mais não são – falando e pensando. E os autocratas e pretensos ditadores gostam muito mais que se fale para ameaçar do que se pense.

O que se pensa não se diz, mas obriga-os a pensar no que estamos a pensar.

E porque há aqueles que pensam que fazem favores aos “chefes” ameaçando, não têm qualquer pudor em sair dos embondeiros e mostrarem-se aos pensadores.

Podem pensar que não pensamos. Mas pensamos e enquanto os dedos da mão doerem escreveremos dando sempre voz aos que não a têm e parece não a querer ter. Somente estão calados em silêncio.

E lembrem-se que há muitas formas de falar. O silêncio é uma das mais gritantes.

2 comentários:

Feliciano J.R. Cangue disse...

Prezado Orlando Castro

Primeiro quero dizer que eu acompanho seus escritos há muito tempo. Eu frequento o seu blog, até, com certo fervor. O meu blog, desde os seus primórdios, recomenda aos leitores a consultar também o seu blog. O único problema é que estava escrito com H "Halto Hama" em vez, do certo, Alto Hama. Sucessos e espero que reveja a sua posição de se afastar de assuntos de Angola. Isso é mais uma vitória da classe dominante. Sucessos
Feliciano Cangue

Anónimo disse...

Caro amigo diga-me como está a ILHA
DOS AMORES NO QUIPEIO e aquele moinho branco na margem direita do rio quito ainda há jacares?