«Confesso que para mim foi uma desilusão este seu post. Sempre me pareceu defensor das liberdades. E a comparação da interrupção da gravidez com o roubo de carros foi de cortar a respiração»; escreve num comentário (inserido no local próprio mas que agora repesco e comento) ao texto anterior, alguém que assina MN.
1 – Por ser defensor das liberdades é que assumo a defesa de quem não o pode fazer de modo próprio. Ou seja, o filho ou filha que começa a dar os primeiros sinais de vida dentro da Mãe. Por ser defensor das liberdades é que estou do lado dos que não têm voz.
2 – Ainda bem que o exemplo do roubo de carros foi de cortar a respiração. Talvez um dia se lembre dele quando for pai ou, talvez, avô.
«Numa sociedade livre não deveriam ser os pais, ou o casal progenitor, aqueles que gerem o orçamento familiar, que decide se naquela altura da vida de ambos têm ou não condições e estabilidade (económicas, psicológicas) para avançar com algo tão importante como gerar um ser?».
3 – Se o exemplo do roubo dos carros é de cortar a respiração, este de colocar no mesmo prato da balança do orçamento familiar, um filho e a compra de uma televisão (por exemplo) não deixa de ser curioso.
«Respeito a sua opinião mas discordo visceralmente. Sempre me pareceu que se batesse por valores de esquerda e liberais, afinal é tão defensor de uma Angola livre, onde os angolanos pudessem fazer as suas escolhas. Parece-me que neste caso defende uma lei bastante opressora, diria mesmo ditadora. Como se eu ou o Sr. Orlando Castro (de quem eu tenho em muita estima) tivéssemos o poder ou a competência para ditar leis de falsos moralismos que atiram casais para a criminalidade.»
4 – Essa coisa de se ter a ideia de que só a Esquerda defende valores da solidariedade e da dignidade não passa de um complexo. Veja-se que a Esquerda está de uma forma geral do lado dos mais fortes, dos que podem decidir. E quem defende os oprimidos, os que por circunstâncias diversas morrem à fome em Angola (enquanto a Esquerda governa) ou que morrem por causa de um aborto?
«Sabemos que existem métodos contraceptivos eficazes (99%) e também sabemos que existe muita informação, mas mesmo assim acontecem acidentes. Vejamos caso a seguir: Você tem 19 anos, vai para fora do seu pais estudar com grandes ambições e muitos planos, aluga um quarto perto da faculdade e divide a casa com uma rapariga que, mais tarde, se torna sua parceira. Um dia surge um frúnculo na axila da sua parceira, faz febre e tem dores, vai a uma urgência e é medicada com antibiótico, o médico que prescreve a receita não adverte que o antibiótico corta o efeito da pílula. Resultado??? Surge uma gravidez indesejada num casal que trabalha para pagar as propinas da faculdade e que vive com carências, numa casa alugada pelos pais que estão em Angola.»
5- Este exemplo é com certeza uma excepção e o que importa é a regra. Mas vamos ao exemplo. O médico que errou ao não alertar para os efeitos do antibiótico passa na história como se nada fosse. Ninguém o vai chatear. A gravidez dificulta a vida do casal que vive com carências. E porque a sociedade não tem, nem quer ter, responsabilidades de solidariedade para com o jovem casal, qual é a solução? Fazer a corda partir pela parte mais fraca. Como sempre. Ou seja, pela filho que, aliás, não tem direitos.
«Como este “acidente” não foi planeado, e como ambos não tinham a certeza de que a relação tinha futuro e porque não se trás um ser ao mundo por “acidente”, sem ter condições para oferecer um lar (pai, mãe, amor, um tecto e comida) decidem abortar, porque acham que eles têm esse direito. Procuram ajuda médica adequada em vários centros mas a resposta é sempre a mesma: É ILEGAL, DIRIJAM-SE A ESPANHA!!! Explicam como ocorreu a gravidez e a resposta é: TEMOS PENA, É ILEGAL DIRIJAM-SE A ESPANHA!!! Conclusão: Falta-se as aulas, fazem-se umas horas extras para ter dinheiro e ir a Espanha pagar 600,00€ por um aborto.»
6 – Quem falou de acidente, mesmo que entre aspas, foi o leitor. Eu sei que é um drama. Mas, como em qualquer acidente, há sempre responsáveis. Se não há, devia haver. Mas como é mais simples, reconheço, atirar o lixo para debaixo do tapete, opta-se pela forma mais simples e mais cobarde. Castigar quem não tem direito de defesa. Se a nossa sociedade só fosse constituída por filhos “programados”, por filhos “feitos” à luz das condições essenciais de vida, certamente teríamos muito poucos habitantes.
«Entramos em colisão com o sistema e com os nossos valores morais porque, acredite, não se toma essa decisão de ânimo leve. Não se faz por prazer como os do “NÃO” querem fazer crer.»
7 – Eu também não digo que o façam por prazer. Digo que o fazem por cobardia da sociedade e das partes (onde me incluo) envolvidas. Da sociedade que apenas quer dar o peixe porque é mais simples e cómodo do que ensinar a pescar.
«Pergunto: Sou criminoso??? Deveria um de nós (ou ambos) interromper os estudos e todos os planos, todas as esperanças dos pais que estão em Angola e que investem as poupanças nos filhos para trazer ao mundo e sustentar essa criança??? Deveria trazer essa criança ao Mundo e entregar aos cuidados do estado que não permite o aborto??? Deveria trazer essa criança ao Mundo e entregar ao cuidado do médico que receitou o antibiótico? Talvez devesse trazer essa criança ao Mundo e entrega-la ao cuidado de todos aqueles que são a favor do NÃO a interrupção da gravidez.»
8 – Se é ou não criminoso, nesta matéria, é uma questão de consciência que muitas vezes ao olhar para o espelho saberá a resposta. Uma coisa importa reter, você e todos os outros que pensam da mesma maneira estão a usar um direito que negam a alguns. O direito à vida. Se mesmo assim, quando olha para os seus pais ou quando olha para dentro de si entende que fez bem, não há nada a fazer. Quem já nasceu tem esse privilégio.
«Que faria se a sua filha de 15 anos aparecesse grávida do namorado de 16? Você cometia o crime de hipotecar o futuro desses 3 seres, dois jovens na puberdade e um bebe fruto de uma paixão de quem está a conhecer e a explorar o corpo humano agora? Por favor deixem-se de falsos moralismos e votem SIM!!!».
9 - O que chama de falsos moralismo é para mim uma questão de honra. Honra de um Pai de três filhos e de um Avô de uma neta. Honra por ser a favor da vida, honra por não querer para os outros o que não quero para mim. Um filho, mesmo que não programado, mesmo que fruto de uma paixão de dois jovens na puberdade, nunca hipoteca o futuro. Pelo contrário. Essa é a diferença entre o “sim” e o “não”.