sábado, julho 05, 2008

De bestial a besta consoante a opinião
de gente que é bestial ou que é... besta

Anteontem, na FNAC do Chiado (Lisboa) ajudei - conjuntamente com o Eugénio Costa Almeida - a apresentar o livro “Sou Jornalista, Você é Árabe?”, de Ana Paula Castro. Pelos vistos (a fazer fé nas mensagens entretanto recebidas) o que eu disse sobre jornalistas e produtores de conteúdos teve o impacto que eu desejava. Ou seja, uns consideraram-me bestial e outros besta.

A designação besta chega de uma série de gente que, embora não tendo estado presente, resolveu (no pleno gozo dos seus direitos, reconheça-se) mostrar que a melhor forma de provar a sua alta intelectualidade é não perguntar o que se não sabe. Assim, como donos da verdade, disseram o que os capatazes mandaram dizer.

Acresce o importante contributo que o Eugénio deu à festa com o artigo “
Só não assomaram os jornalistas...”, publicado inicialmente no Notícias Lusófonas.

Na verdade, digo eu, quando faltam critérios editoriais de carácter jornalístico, vigoram nos media portugueses os critérios editoriais do estilo “self service” ao qual, por regra, têm acesso privilegiado todos aqueles que estão no poleiro, seja político, empresarial, cultural etc.. O que é notícia, o que é do interesse público, o que é válido é perfeitamente irrelevante numa sociedade de aparências, de favores, de corrupção, de compadrios, de manipulações.

Se o Jornalista não procura saber o que se passa é, foi assim que aprendi com os mestres, um imbecil. Se o Jornalista consegue saber o que se passa mas, eventualmente, se cala é um criminoso.Será por tudo isto que são cada vez mais os portugueses que não conseguem, ou não querem, comer gato por lebre e dizem que no jornalismo há cada vez mais imbecis e criminosos?

Também aprendi com os mestres que o “produto” jornalístico tinha obrigatoriamente de ser uma referência de credibilidade e não, como agora acontece, uma correia de transmissão de interesses cada vez menos claros.

Quem analisar hoje os media das ocidentais praias lusitanas (re)plantadas a norte de Marrocos, encontra na maioria dos casos pouca informação, rara formação e quase nula investigação.

Isto acontece ainda porque, dada a precariedade profissional, a grande maioria aceita fazer tudo o que o «chefe» manda (mesmo sabendo que este para contar até 12 tem de se descalçar), este aceita fazer tudo o que o director manda, este aceita fazer tudo o que a Administração manda, e esta aceita fazer tudo o que dê lucro.

Será por tudo isto que são cada vez mais osportugueses que não conseguem, ou não querem, comer gato por lebre e dizem que no jornalismo há cada vez mais imbecis e criminosos?

Não deixa, contudo, de ser curioso que – nesta matéria e neste contexto – quanto mais imbecis e criminosos forem os jornalistas, mais hipóteses têm de subir na carreira, seja esta nos media propriamente ditos ou nas assessorias políticas.

sexta-feira, julho 04, 2008

Só não assomaram os jornalistas...

Como previsto o novo livro de Ana Paula Castro, “Sou Jornalista, Você é Árabe?” teve ontem a sua aparição pública na FNAC-Chiado. Tal como previsto foram apresentadores do romance Orlando Castro, que abordou a vertente “jornalismo”, este vosso escriba que abordou a obra em questão (conforme podem ler no blogue Alto Hama – como se para o autor não houvesse nada de mais importante em África ou em Portugal para ele analisar, do que perder o seu precioso tempo em publicar rabiscos que só interessam ao ego do autor e à simpatia da autora –) e, como a inicial e oportuna – não prevista de início – intervenção do Sheikh Munir, Imã da Mesquita central de Lisboa, que também prefaciou o romance.

Se a minha intervenção foi claramente uma abordagem do romance, como já referi, se a intervenção curta e intimista do Sheikh se relacionou com os contactos preambulares entre ele e a autora que acabaram num simbólico e objectivo Prefácio, a intervenção de Orlando Castro centrou-se num axiomático queixume sobre o actual jornalismo e como o jornalismo parece desaproveitar a cultura.

Tal como Orlando Castro constatou – e como ele, também os restantes presentes – abrangendo a obra a vertente “Jornalismo” excepto ele, que estava na mesa como orador, só estavam presente na sala (totalmente cheia, diga-se) mais dois jornalistas que lá estava não como profissionais do sector, mas como amigos da autora.

Mau, muito mau, como fez questão de relembrar Orlando Castro.

É certo, e aqui abre-se um parêntese, que a Lusa procedeu à sua divulgação para o espaço jornalístico, tal como acabou referenciado no
Diário Digital. Que o Jornal de Notícias deu uma pequena informação na sua página cultural, mas, quanto ao resto, foi um deserto de quase muito nada! Naturalmente, também o Notícias Lusófonas deu o destaque que a autora merece.

É evidente que se Ana Paula Castro fosse uma pivot ou uma analista da televisão, a gula daqueles que querem tirar umas chapas ou imagens para a posteridade estariam presentes. Não estiveram e foram quanto perderam.

Na composta sala estavam lá gentes do meio político, intelectual e artísticos lusófonos, nomeadamente de Angola, Portugal e Moçambique, pelo menos que me recorde de imediato.

Por isso não surpreendeu as palavras sentidas de Orlando Castro na linha daquilo que ele vem combatendo há bastante tempo sobre a discrição do jornalismo face à forte emergência dos produtores de conteúdos, normalmente mais utilizados pela maioria dos órgãos de comunicação social.

Talvez seja mais rentável a compra do produto já feito, embora não creio que seja mais produtivo – pelo menos culturalmente –, quando se lê em alguns jornais que, por exemplo, a causa maior das mortes em Moçambique se deve à queda dos cocos, ou quando se afiança que a carta escrita pelos pais de Savimbi (infelizmente, na altura, já falecidos mas que talvez tenha emitida do além e recepcionada por uma reconhecida quiromante local, ou internacional) teve o condão de condoer os congressistas presentes num Congresso da UNITA, ou ainda que tivemos a comemoração do cinquentenário dos 40 anos dos Beatles, ou reportagens como “Os trabalhadores portugueses têm vindo a perder poder de compra face ao 30 países da OCDE”, ou o que foi dito numa televisão portuguesa ter havido “o abandono de uma criança, pela própria mãe, «quase à nascença»”, ou que “a viúva tinha o marido desempregado”, ou.. ou....

Enfim, ou seja e de uma forma livre, há quem ache ser mais interessante falar do cão mordido pelo homem que falar ou escrever sobre a sistemática violação de inúmeros direitos humanos!

Se isto é jornalismo, compreende-se o lamento daqueles que são mesmo Jornalistas que ainda se vão mantendo, estoicamente, como um dos dois convidados-presentes afirmou ontem, “estão alertas 24 horas como um médico ou um polícia”, ou aqueles que já não querendo ser meros “dactilógrafos” preferem bater com a porta e enveredar por outras profissões.

Felizmente ainda há quem vá tentando, por dentro, provar que o Jornalismo, pode ser – é – uma profissão com letra maiúscula.

Mas, até quando?

Ou será que para sobreviverem cerebralmente incólumes – reconheçamos que o corpo e a família não (sobre)vivem só do ar – terão de facto de mudar de profissão (como se isso fosse possível, dado que em alguns países ditos avançados, quem tem mais de 35 anos já é velho para mudar, ou recomeçar, e muito novo para se reformar) ou transvestirem-se de ensaístas e publicarem crónicas, artigos e entrevistas em livro porque sabem que nos principais órgãos informativos nem sempre podem-no fazer.

Ou porque colide com o poder instituído, seja a cor dele que for, ou porque as forças económicas que apoiam os ditos órgãos comunicacionais não gostam de ler notícias que não lhes seja bajuladoramente favoráveis, seja porque o país X ou Y veta determinado jornalista porque este se terá esquecido de aceitar uma qualquer, e meio choruda, lembrança para se calar ou só bem dizer dele, do país, e dos seus dirigentes.

Até quando?

Nota: Artigo de Eugénio Costa Almeida publicado no Notícias Lusófona

Livro: “Sou Jornalista, Você é Árabe?”
- O que disse Eugénio Costa Almeida

«Em primeiro lugar agradecer à autora o honroso convite que me endereçou para vos falar sobre o seu novo romance e os simpáticos agradecimentos que Ana Paula Castro colocou no “Sou Jornalista, você é Árabe?”.

Em segundo para rectificar uma pequena imprecisão da autora quanto a este vosso interlocutor: não sou jornalista!

Escrevo, rabisco, alguns artigos, comentários e/ou análises de opinião mais por causa da minha vertente académica e por razões associativas ligadas à Casa de Angola que por outros motivos quaisquer.

Felizmente que também tive a sorte de conhecer alguém que achou – para mal dos seus pecados e que por acaso está aqui ao meu lado – qualidades mínimas para falar, por escrito, daquilo que mais primordialmente gosto: de África, a minha, a nossa África, e da Lusofonia

Mas não é de e sobre mim que estamos aqui para ouvir falar.

Estamos aqui para falar de “Sou jornalista, Você é Árabe” o novo romance de Ana Paula Castro.

Um romance que não foge à linha habitual de escrita de Ana Paula Castro. Um romance crítico e discretamente acutilante, quanto baste, no que respeita às diferenças sociais, às mal-contidas intolerâncias religiosas e homofóbicas e, principalmente, quanto às diferenças entre povos e continentes. A mania da superioridade intelectual europeia e ocidental sobre os povos chamados de subdesenvolvidos mas que foram a génese da actual humanidade.

Talvez esteja aqui o grande problema. Os nossos avós e Mais Velhos não souberam educar os seus descendentes de modo a não serem tão intelectualmente empertigados e entediados mas que, pela sua ancestral natureza, nunca perderam os seus sentidos e espíritos animistas de “não acredito em bruxas, mas…” que elas andam por aí e que nos têm como clientes habituais, lá isso têm!

Recordo uma passagem do “Sou jornalista, Você é Árabe” quando uma das personagens do livro, rico, culto, possuidor de uma boa máquina e de uma quinta nos arredores da grande capital, principal accionista de uma cadeia de televisão onde as imagens choque são o pão-nosso de cada dia e que não lhe merecem mais que um olhar de desdém, não se coibiu de ir a uma das cidades-satélites da capital portuguesa, mais concretamente a um dos chamados bairros sociologicamente problemáticos dos arredores, solicitar os bons ofícios de uma macumbeira (ou uma chingange) para evocar os eternos kazumbiris de modo a provocar a desgraça social de uma das principais heroínas do romance ou um xamanismo amoroso a outra das personalidades deste romance de Ana Paula Castro.

Ou seja, se intelectualmente as personagens da obra – e da vida – são muito cultas, muito abertas às liberdades de pensamento, muito científicas, constata-se que quando o espírito acorda o misticismo, que encerramos há milénios, é este que acaba por prevalecer sobre toda a multicultura recolhida e travestidamente acumulada ao longo da nossa vida.

E este é um dos principais aspectos sociológicos que Ana Paula Castro, na extensão do seu romance, mostra e prova.

Outro, mais abrangente, e muito bem referenciado pelo Sheikh Munir, no seu Prefácio, prende-se com as diferenças culturais entre as duas famílias-base da obra, mais concretamente, com as vicissitudes, as dicotomias, o forte e já enunciado misticismo que ambas encerram, e os preconceitos entre o Ocidente e o Oriente e onde começa a de um e acaba o do outro.

Poder-vos-ia enunciar e ler algumas passagens interessantes deste romance de Ana Paula Castro, “Sou Jornalista, você é Árabe?”. Realmente poderia, e talvez o devesse fazer.

Mas prefiro que sejam os leitores a descobrir essas magníficas e descritivas passagens, a humanidade, franca e leal, que se encurrala em algumas das personagens, a beleza da descrição – por vezes crua e incisiva, muito crua e muito incisiva, – de certos lugares realçados pela autora, e a, chamemos assim, telepática transmissão entre uma mãe, perdida nos confins do Corno de África rodeada pela guerra e pelo desespero, e uma filha recém-jornalista, que desconhece a sua verdadeira e real ancestralidade genética.

O romance consegue-nos agarrar do princípio ao fim, mantendo uma das características habituais nas obras de Ana Paula Castro; ficarmos com a sensação que ainda não acabou, que ficou muito por dizer e explicar e que vai ter uma sequela o que, conhecendo-a, dificilmente acontecerá. Ou seja, serão os leitores que decidirão como continuará, no efémero éter e no vosso acervo cerebral, o romance “Sou Jornalista, você é Árabe?”

Parabéns Ana Paula Castro por esta nova obra certos de que ficaremos a aguardar pelas novas aventuras que sairão da sua magnífica pena, ou não fosse a escrita a melhor forma que um escritor tem para exprimir o que sente no fundo da sua alma.»

Nota: Livro apresentado ontem na FNAC do Chiado, em Lisboa

quarta-feira, julho 02, 2008

Ao contrário de Angola e Moçambique
Cabo Verde diz o que pensa de Mugabe

Ao contrário de outros governos lusófonos de África, nomeadamente de Angola e Moçambique, o de Cabo Verde não tem dúvidas quanto ao que se passa no Zimbabué. A comunidade internacional não pode pactuar com o regime de Robert Mugabe que está novamente no poder depois de eleições que não foram livres nem justas, afirmou hoje o primeiro-ministro cabo-verdiano.

Que grande exemplo. Que grande lição.

Recorde-se que embora a UNITA (
UNITA acusa organizações africanas de darem cobertura a Robert Mugabe) e a RENAMO (Dhlakama exige encerramentoda embaixada de Robert Mugabe) tenham dito a mesma coisa, não são partidos de Governo.

"É preciso que as eleições em todos os países africanos sejam livres e transparentes. Não considero que estas eleições no Zimbabué tenham sido livres e transparentes. Espero que haja bom senso e que a democracia possa vingar no Zimbabué", afirmou José Maria Neves em declarações à Lusa.

"É preciso liberdade de expressão e de criação de partidos políticos. É isso que tem que acontecer e portanto as eleições não podem ser nenhuma farsa, têm que ser livres e transparentes", disse.

Questionado sobre a posição de Cabo Verde face ao novo governo do Zimbabué, o chefe do governo declarou-se "solidário com a oposição zimbabueana", afirmando que apesar do executivo "não precisar do reconhecimento de Cabo Verde", a comunidade internacional "não pode pactuar com atitudes desta natureza".

Parabéns José Maria Neves
.

Terrorismo colombiano das FARC
sofre um (mais um) duro golpe

O exército colombiano libertou a antiga candidata presidencial Ingrid Betancourt, três norte-americanos e 11 militares sequestrados pelas FARC, anunciou hoje o ministro da Defesa, Juan Manuel Santos.

O ministro referiu em conferência de imprensa que a ex-candidata presidencial franco-colombiana, cativa desde Fevereiro de 2002, e os norte-americanos Marc Gonsalves (luso-descendente), Thomas Howes e Keith Stansell, sequestrados em 2003, foram libertados de um acampamento da guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).

"Esta operação foi baptizada de 'Jaque', não tem precedentes e deixa muito bem colocados a qualidade e o profissionalismo das forças armadas colombianas", adiantou o ministro.

"As minhas felicitações muito sinceras aos nossos homens das Informações do Exército", acrescentou, congratulando os generais Freddy Padilla, comandante das Forças Militares, e Mario Montoya, comandante do Exército.

Betancourt, os três norte-americanos e os 11 efectivos das forças armadas colombianas serão transferidos mais tarde para a base aérea de Tolemaida, na regão de Tolima, a cerca de 190 quilómetros de Bogotá.

Dívidas dos PALOP a Portugal
aumentaram 18% o ano passado

As dívidas oficiais dos países africanos lusófonos (PALOP) a Portugal aumentaram 18 por cento em 2007, face ao ano anterior, para 1,78 mil milhões de dólares (1,12 mil milhões de euros), revelam dados do Ministério das Finanças do Governo português.

A dívida de Moçambique (393 milhões de dólares, 248 milhões de euros), que será cancelada progressivamente até 2025, na sequência de um acordo bilateral assinado terça-feira, representa mais de um quinto (22 por cento) do "stock" da dívida oficial dos PALOP a Portugal, segundo os mesmos dados.

O montante total inclui créditos directos do Estado português (1.334 milhões de dólares, 841 milhões de euros) e créditos garantidos pelo país (450 milhões de dólares, 283,6 milhões de euros).

O último relatório do Banco de Portugal sobre as relações comerciais e económicas entre o país e os PALOP indicava que no final de 2006, a dívida dos cinco países africanos ascendia a 1.517 milhões de dólares, mais 18 por cento do que os dados mais recentes.

A tendência de escalada acentuou-se em relação ao registado de 2005 para 2006, quando a subida foi de 12,3 por cento.

O perdão da dívida, articulado com decisões da comunidade internacional de credores, será concedido a Moçambique "verificado que esteja o cumprimento dos compromissos assumidos por Moçambique perante o Clube de Paris", segundo o acordo assinado terça-feira entre os dois países.

Segundo referiu o ministro das Finanças, Fernando Teixeira dos Santos, "dentro de algumas semanas" terá lugar "uma cerimónia análoga" à de terça-feira em Maputo, mas em São Tomé e Príncipe, cuja dívida a Portugal ascende a 34,8 milhões de dólares (22 milhões de euros).

Tendo em conta as decisões da União Europeia no sentido de cancelar a totalidade da dívida do arquipélago, e ainda "as relações especiais de cooperação" entre Lisboa e São Tomé, "Portugal deverá dar agora seguimento à implementação de um acordo que concretize o referido cancelamento, tendo o Clube de Paris já confirmado o seu compromisso de perdão total", disse fonte oficial do Ministério das Finanças.

Quanto à Guiné-Bissau, adiantou a mesma fonte, "aguarda-se que possa atingir o ponto de conclusão [no âmbito da iniciativa internacional para apoio aos países altamente endividados], o que deverá acontecer até 2010, "após o que se deverá implementar um acordo conducente ao perdão da dívida".

A dívida de Bissau a Lisboa está avaliada em 131 milhões de dólares (82 milhões de euros), enquanto a de Cabo Verde ascende a 152 milhões de dólares (96 milhões de euros), repartidos de forma quase igual entre dívida directa e garantida.

A maior fatia da dívida dos PALOP a Portugal é a de Angola - 698 milhões de dólares (440 milhões de euros), que no âmbito de acordo bilateral assinado em 2004 serão pagos a partir de 2009 (cinco anos de carência), ao longo de 30 anos, com uma taxa de juro de um por cento.

"Esta operação permitiu um aumento excepcional da ajuda pública ao desenvolvimento portuguesa em 2004, que passou de 0,22 por cento [do rendimento nacional bruto] em 2003 para 0,63 por cento", salienta o Ministério das Finanças.

"À dívida directa ascendem 375 milhões de dólares (236 milhões de euros) em garantias do Estado português a operações de exportação de bens e serviços para Angola, através da COSEC, pelo que o total da dívida angolana supera os 1.073 milhões de dólares (676 milhões de euros).

Esta linha tem sido utilizada no financiamento de projectos na área da construção e reabilitação de infra-estruturas, construção naval e tecnologias de informação.

Amanhã na FNAC do Chiado em Lisboa

«A mulher negra, só pele e osso, desolada, encontrava‑se sentada no chão poeirento. Vestia um pano de chita estampado a cobrir o corpo. Num braço, trazia uma filha cujo olhar de medo expressava o espasmo da fome. No outro braço, trazia o filho esgazeado, a lamber com sofreguidão as lágrimas grossas que lhe caíam pela cara. As crianças embalavam a esperança no fim do conflito, com os trinta e quatro anos de guerra civil. Milhões de mortes. A inércia sem resoluções de entendimento. O Sudão.»

Apontamento retirado do livro "Sou Jornalista, Você é Árabe?" de Ana Paula Castro, cujo lançamento será em Lisboa, Livraria FNAC, ao Chiado, amanhã dia 3, às 18,15 horas, com apresentação de Eugénio Almeida e Orlando Castro.

UNITA acusa organizações africanas
de darem cobertura a Robert Mugabe

A UNITA acusou hoje a União Africana e a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral de pactuarem com a "ilegitimidade e o desrespeito das normas internacionais" ao aceitarem Robert Mugabe no seu seio como Presidente do Zimbabué. Não posso estar mais de acordo.

Em declarações à Lusa, em Luanda, o porta-voz do maior partido da oposição em Angola, Adalberto da Costa Júnior, defendeu que o Governo angolano e o Presidente da República, José Eduardo dos Santos, "não devem dar cobertura" à "eleição ilegítima" de Mugabe. Aqui, embora esteja de acordo, penso que a UNITA se esquece quer da falta de legitimidade democrática de Eduardo dos Santos, quer do tempo que ele (bem como o MPLA) estão no poder.

Adalberto da Costa Júnior considerou que "aqueles que dão cobertura à farsa que elegeu Robert Mugabe" estão a "incorrer na co-responsabilidade às violações dos direitos do povo zimbabueano". É verdade. Dura, como todas as verdades.

"Os líderes africanos não devem aceitar Robert Mugabe no seu seio sob pena de oficializarem este tipo de transições políticas", disse o secretário para a informação da UNITA e porta-voz do partido, adiantando como exemplos a não seguir os casos do Quénia e do Zimbabué.

A UNITA alertou ainda para a possibilidade de se estar a "criar condições para submeter Angola a um risco semelhante" nas eleições legislativas oficialmente marcadas para 5 de Setembro próximo.

Nem mais. Um tiro certeiro. É um risco plausível que, como é sabido, até agrada aos donos do poder enagolano.

A UNITA tem alertado para o risco de fraude nas eleições de 5 de Setembro, caso o MPLA, o partido no poder e com maioria absoluta na Assembleia Nacional, leve avante a sua pretensão de alterar a lei eleitoral para permitir uma votação em dois dias, em vez de um, como estabelece a lei.

Sobre a decisão da União Africana, adoptada na recente cimeira do Egipto, de aconselhar uma negociação entre Robert Mugabe e o líder da oposição, Morgan Tsvangirai, o porta-voz da UNITA considerou que "não foi a melhor posição" por a UA estar a aceitar e a dar cobertura a "uma farsa e a uma ilegitimidade" em sentido contrário ao "direito soberano do povo escolher".

Inquérito sobre a qualidade de vida
- Portugueses (pudera!) pessimistas

Mais de metade dos portugueses pensa que irá viver pior daqui a 20 anos, uma expectativa partilhada com os cidadãos dos países há mais tempo na União Europeia mas que contrasta com o optimismo dos novos Estados-membros.

A Comissão Europeia publicou hoje, em Bruxelas, um inquérito Eurobarómetro realizado em Abril último sobre a forma como os europeus imaginam a sua realidade social daqui a 20 anos.

Cerca de metade das pessoas interrogadas (49 por cento) está convencida que, daqui a duas décadas, a sua qualidade de vida irá deteriorar-se em relação a hoje, e menos de quatro em cada dez (38 por cento) prevê uma melhoria.

Os portugueses pensam maioritariamente (53 por cento) que terão condições de vida piores e menos de um em cada três (31 por cento) perspectiva uma melhoria.

As respostas nos novos Estados-membros foram significativamente mais optimistas que as dos 15 Estados-membros mais antigos, entre os quais se encontra Portugal.

O optimismo diminui com a idade mas aumenta com o nível de educação e o grau de urbanização. Os portugueses (56 por cento) estão entre os europeus (41 por cento) que mais convencidos estão em que daqui a 20 anos será maior a diferença entre ricos e pobres, só ultrapassados pelos cipriotas (62 por cento) e holandeses (60 por cento).

Por outro lado, os portugueses (86 por cento) são os europeus (70 por cento) mais convencidos em como daqui a duas décadas os homens irão partilhar de uma forma mais igualitária as tarefas domésticas com as mulheres.

O inquérito Eurobarómetro foi divulgado no quadro da apresentação também hoje em Bruxelas da "agenda social renovada", que segundo a Comissão Europeia "visa dotar os europeus, em especial os jovens, de meios e capacidades para dar resposta às realidades em rápida mutação e a evoluções como o recente aumento dos preços dos géneros alimentícios e do petróleo e as perturbações dos mercados financeiros".

Em Portugal foram feitas 104 entrevistas pela empresa Consulmark no período de 9 a 13 de Abril último.

Mais uma lição de Adriano Moreira
sobre o Zimbabué e, é claro, África

O silêncio da quase totalidade dos países da União Africana (UA) em relação à crise no Zimbabué é “altamente preocupante” para África e para o Ocidente, em geral, afirmou hoje à Agência Lusa o académico português Adriano Moreira. Académico e, diga-se em abono da verdade, uma verdadeira enciclopédia em questões africanas.

“O silêncio é inquietante e altamente preocupante, mostrando que a mobilização daqueles governos (africanos) em favor daquilo que foram os critérios e os sonhos da descolonização está numa crise tremenda”, considerou o também presidente da Academia das Ciências, à margem do I Simpósio das Marinhas dos Países de Língua Portuguesa, hoje iniciado em Lisboa.

Adriano Moreira recordou, a título de exemplo, que o regime de Robert Mugabe, após a independência do Zimbabué, em 1980, foi um “Estado exemplar” que, já na década de 1990, acabou por “descambar”.

“Ainda por cima, Mugabe é uma pessoa formada nas melhores escolas ocidentais. Agora há uma regressão. É preciso chamar a atenção para o caso dele, mas também para a situação de outros países da África”, defendeu.

“Tudo isto leva a uma crise de parâmetros dos valores que é inquietante e esse homem, Mugabe, representa actualmente a expressão mais esdrúxula da violação de tudo o que foram os sonhos da descolonização e das Nações Unidas", referiu.

A “atitude” de alguns responsáveis ocidentais, acrescentou Adriano Moreira, também não está a ajudar, uma vez que, para esses, que não especificou, “África passou a ser o lugar onde há petróleo, diamantes, matérias primas”. “Ah, e talvez gente. Gente que passou a ser secundária”, enfatizou, uma das razões que “ajudam a esta anarquia”.

“Além disso, há ainda uma das coisas que considero mais preocupantes e importantes: o comércio das armas. Não se vê uma fotografia de um desastre humano ou de genocídios em África em que não esteja um homem com as armas mais modernas, que o seu país não fabrica mas compra a potências ocidentais”, acentuou.

Adriano Moreira foi mais longe e referenciou o actual momento tenso existente na África do Sul, onde, ao contrário do Zimbabué, a violência parece obedecer a parâmetros ancestrais, “os critérios para a onda de tensão passam pelo ser-se nacional ou estrangeiro”.

Nesse sentido, para Adriano Moreira, a transferência de poderes em África criou “ilusões” ao pensar-se, na altura, que a descolonização se traduzia em implantar regimes democráticos.

“Nenhuma gestão colonial era um poder democrático. Todas tinham concentração de poderes. Quer com os nomes de governadores, quer com os cargos de alto comissário ou de vice-rei. Portanto, a luta foi para obter aquele poder unitário a que estavam submetidos”, sublinhou.

“Mas houve, também, valores importantes, com o da negritude, que foi um apelo a valores comuns. Isso foi importante mas também foi uma ilusão. Só (o antigo presidente senegalês, Leopold Sedar) Senghor conseguiu isso, mas acho que, até isso, já entrou no crepúsculo", concluiu.