sábado, maio 29, 2010

Ainda há quem dê voz a quem a não tem

Por muito que queiram os novos protagonistas, a História de Portugal (bem como o próprio país) não começa em 1974. E no que às ex-colónias de África respeita, começou antes dos Acordos do Alvor. Antes com honra, depois com uma aviltante subserviência perante os novos donos desses países.

Jornalistas lusos escrevem livro
para ajudar crianças guineenses

Quarenta jornalistas portugueses da televisão, rádio e jornais juntaram-se para dar vida a um livro que pretende ajudar crianças vítimas de tráfico humano na Guiné-Bissau.

Não sei quem são mas, fazendo fé no jornalista que, pela segunda vez, avança com a ideia – Luís Castro -, o sucesso deve estar garantido.

A minha “admiração” profissional por Luís Castro vem do tempo, recente (Setembro de 2008) , quando foi enviado da RTP (estação que, tal como a sua congénere angolana, tem de prestar serviço ao Estado) a Angola.

Nesses trabalhos, Luís Castro descobriu, o que só revela um aturado trabalho jornalístico, que – entre outras pérolas - “Há muito para contar”, que “Angola está em obras”, que “Maiores bancos portugueses estão em Angola e têm lucros significativos”, que “Milhares de portugueses procuram oportunidades em Angola” e que “Estas são as primeiras eleições em 16 anos”.

Certamente por deficiência minha, nunca o vi dizer ao mundo que mais de 68% da população angolana vivia (como ainda hoje vive) em pobreza extrema e que a taxa estimada de analfabetismo era, como ainda é, é de 58%.

Certamente por deficiência minha, nunca o vi dizer ao mundo que mais de 90% da riqueza nacional privada foi subtraída do erário público e está concentrada em menos de 0,5% da população.

Certamente por deficiência minha, nunca o vi dizer ao mundo que a dependência sócio-económica a favores, privilégios e bens, o cabritismo, é o método utilizado pelo MPLA para amordaçar os angolanos.

Certamente por deficiência minha, nunca o vi dizer ao mundo que o silêncio de muitos, ou omissão, se deve à coação e às ameaças do partido que está no poder há 35 anos.

Certamente por deficiência minha, nunca o vi dizer ao mundo que a corrupção política e económica era, como é e continuará a ser, utilizada contra todos os que querem ser livres.

Certamente por deficiência minha, nunca o vi dizer ao mundo nada de substancialmente diferente do que o apresentado pelo Jornal de Angola, pela TPA ou pela RNA, correias de transmissão do regime angolano liderado desde a independência pelo MPLA.

Mas, em síntese, quem é bom... é bom. Por alguma razão (foto) o Luís Castro foi condecorado pelo Estado Maior do Exército português com a medalha de D. Afonso Henriques. Creio, aliás, que as próprias Forças Armadas de... Angola poderiam fazer o mesmo.

Regressando ao assunto essencial, a Guiné-Bissau, espero que pelo menos tenham o decoro de ter conviado o Carlos Narciso. Convidado para escrever, já que medalhas não são com ele. As muitas que tem estão no coração. No dele, e foram lá colocadas pelos Jornalistas que - como ele - não têm coluna vertebral amovível...

Ministério do Poder Popular para a Saúde

José Sócrates, o português mais conhecido no mundo juntamente com Camões, Fernando Pessoa, Amália Rodrigues, Eusébio, Cristiano Ronaldo e José Mourinho, volta hoje a estar com o seu velho amigo Hugo Chávez.

Não sei se, desta vez, o primeiro-ministro do reino lusitano irá oferecer a Chávez uma nova versão do Magalhães (Canaima na versão bolivariana) ou, quem sabe, o título honorário atribuído pela J. P. Sá Couto. Mas isso é irrelevante.

Ainda pensei em mandar um SMS a indagar, mas como aconteceu com a mensagem enviada por Armando Vara (ver
E se Portugal fosse um Estado de Direito?), creio que ele terá o telemóvel desligado.

E porque Chávez e Sócrates têm uma opinião muito similar em relação a essa peste que dá pelo nome de jornalistas (reconheço, contudo, que em relação aos produtores de conteúdos entendem que são os melhores), recordo que o Colégio Nacional de Jornalistas da Venezuela revelou que entre o ano de 2000 e 2008 ocorreram no país mais de mil casos de agressões a jornalistas.

Atendendo de facto às fortes ligações (penso que se pode até falar de amizade eterna) entre Hugo Chávez e José Sócrates, não percebo como é que o presidente venezuelano não adoptou os mesmos métodos praticados nas ocidentais praias lusitanas. É que em Portugal já não se agridem fisicamente (em regra) os jornalistas.

Os métodos são outros, muito mais simples e eficazes como certamente constará de algum relatório eleborado pelos jornalistas portugueses que se tornaram em criados de luxo, bem pagos, do poder socialista, na circunstância.

Em Portugal, põem os jornalistas (e, é claro, a maioria dos portugueses) a pensar com a barriga, dando-lhes duas alternativas: ou comem e calam e podem pagar a conta ao merceeiro e o empréstimo da cubata, ou não comem nem calam e vão juntar-se aos 700 mil portugueses que estão no desemprego, aos 20 por cento que estão na miséria e a outros tantos que já olham para os pratos... vazios.

É assim que funciona. E como o reino, não o dos céus mas o das ocidentais praias lusitanas, está na mão de cobardes, a única solução apontada é mesmo comer e calar, apostar numa coluna vertebral amovível e numa cabeça que só funciona com a barriga.

Goste-se ou não, é um meio eficaz. Até agora, tanto quanto sei, todos os que tentaram viver sem comer acabaram por ser operados à coluna...

Mas, mais importante do que tudo são os acordos entre os dois reinos, um lusitano e outro bolivariana. Veja-se até que a Venezuela e Portugal estão a afinar um acordo de 27 milhões de dólares para a construção de uma fábrica de medicamentos e para a aquisição de antibióticos.

Segundo um comunicado, anotem, do Ministério do Poder Popular para a Saúde, da Venezuela, "o valor previsto em investimento de parte de Portugal é de 27 milhões de dólares (22,01 milhões de euros), que pode ser submetido a ampliações através do tempo".

Esta do Ministério do Poder Popular para a Saúde bem poderia ser adoptado em Portugal...

sexta-feira, maio 28, 2010

E se Portugal fosse um Estado de Direito?

Num Estado de Direito (que me dizem ser Portugal) um primeiro-ministro não mente, mesmo quando também é líder de um partido que até tem um deputado que rouba (ele chama-lhe “tomar posse”) gravadores aos jornalistas.

Assim sendo, José Sócrates voltou ho
je, contra ventos e marés, a dizer que soube pela comunicação social do afastamento de Manuela Moura Guedes do Jornal Nacional de 6ª da TVI. E se ele o diz, e se Portugal é um Estado de Direito...

Contactado pelos enviados da SIC que acompanham José Sócrates na visita ao Brasil, o primeiro-ministro reafirma tudo o que disse à Comissão de Inquérito ao Negócio PT-TVI. E não comenta (tem mais o que fazer) se terá recebido algum tipo de mensagem de telemóvel (SMS) de Armando Vara - porque, diz, não comenta notícias relacionadas com escutas.

E não comenta porque essa é uma questão que não lhe interessa. Isto porque, há quem diga, Portugal é um Estado de Direito...

O primeiro-ministro pode ter mentido à Comissão de Inquérito que investiga se José Sócrates (enquanto primeiro-ministro) mentiu ao Parlamento no negócio PT-TVI?

Não. Isto é, se for verdade (como há quem diga) que Portugal é um Estado de Direito...

Uma escuta revelada pelo jornal Sol mostra que o primeiro-ministro (ou terá sido o cidadão José Sócrates?) soube da saída de Manuela Moura Guedes da estação de Queluz através de SMS enviado por Armando Vara e antes da informação ser pública.

Recorde-se que, aos deputados, José Sócrates primeiro-ministro disse que soube pela comunicação social. Quanto ao que diria José Sócrates, o cidadão, não se sabe.

De qualquer maneira, por alguma razão em Portugal é possível a mesma pessoa ser primeiro-ministro às segundas, quartas e sextas, e cidadão às terças, quintas e sábados. Ao domingo, creio, não é nem uma coisa nem outra.

O SMS, de acordo com o jornal, terá sido enviado por Armando Vara a José Sócrates às 12h26 do dia 3 de Setembro de 2009. Na mensagem ao primeiro-ministro ou ao cidadão José Sócrates, armando Vara escrevia: "a Manuela não apresenta mais o jornal. Direcção demitiu-se. Mas não digas nada".

E se um amigo pede para não dizer nada, nada se diz... como é óbvio, seja-se primeiro-ministro, cidadão ou outra coisa qualquer.

De acordo com o Sol, era a informação que Vara tinha recebido um minuto antes, às 12h25, através do empresário Joaquim Oliveira, que lhe pediu sigilo por ainda não ser oficial.

Mas à pergunta 69 do questionário enviado pela Comissão de Inquérito ao primeiro-ministro – e, que diz: "Quando soube que Moura Guedes deixaria de apresentar o Jornal Nacional e da decisão de suspensão do Jornal Nacional?", José Sócrates respondeu: "Tomei conhecimento disso quando tais factos foram divulgados nos meios de comunicação social".

Segundo o jornal Sol, as primeiras notícias sobre o afastamento de Moura Guedes só começaram a surgir depois da 13h00. Na SIC, por exemplo, a notícia surgiu em última hora às 13h11, quase uma hora depois da mensagem que Armando Vara terá enviado a José Sócrates.

Os assessores do primeiro-ministro José Sócrates (presumo que o cidadão José Sócrates não tenha assessores) adiantam, no entanto, que à hora indicada em que terá sido enviado o SMS em causa, Sócrates estava incontactável (no avião oficial) depois de ter participado na inauguração da Base de Operações da Ryanair, no Porto.


E, como se calcula, José Sócrates primeiro-ministro só voltou a estar contactável depois da divulgação da notícia, razão pela qual não mentiu. Quem provavelmente terá tido sempre o telemóvel ligado foi José Sócrates, o cidadão...

Legenda: À esquerda o cidadão, à direito o primeiro-ministro

Portugal e a CPLP lá vão cantando e rindo
enquanto os guineenses choram e morrem

O representante especial do secretário-geral da ONU para a Guiné-Bissau, Joseph Mutaboba, apesar de dar uma no cravo e outra na ferradura, sempre vai dizendo uma verdade que, contudo, peca por tardia. Diz ele que "a paciência tem limites".

E, para bem dos guineenses – sendo que dois em cada três vivem na pobreza absoluta - , é mesmo necessário, diria mais do que urgente, que alguém dê um murro na mesa e obrigue os poucos que têm cada vez mais milhões a trabalhar para os “milhões” que têm cada vez menos.

A ONU diz, aliás, as verdade que deveriam ser ditas sobretudo pelo CPLP em geral e por Portugal em particular. Quando se sabe que a Guiné-Bissau regista a terceira taxa mais elevada de mortalidade infantil no mundo, fica a ideia de que afinal todos se estão nas tintas para os guineenses.

Pena é que o representante especial do secretário-geral da ONU para a Guiné-Bissau, Joseph Mutaboba, não diga uma outra verdade. Ou seja que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, com Portugal à cabeça, tarda em perceber a porcaria que anda a fazer em muitos países lusófonos.

De facto, sempre que alguém tem coragem de falar verdade (nunca é o caso de Portugal ou da CPLP), fica a saber-se que para além de envergonharem as autoridades guineenses – mostram a hipocrisia que reina nos areópagos das principais capitais da CPLP, a começar por Lisboa.

Será que a CPLP aceita calma e serenamente, como até agora, que a esperança de vida à nascença para um guineense é de "apenas" de 45 anos, atendendo à fragilidade humana, sobretudo por causa da fraca cobertura dos serviços sociais?

Será que a CPLP aceita calma e serenamente, como até agora, que apesar da miséria os líderes guineenses continuem a saborear várias refeições por dia, esquecendo que na mesma rua há gente que foi gerada com fome, nasceu com fome e morre com fome?

Será que a CPLP aceita calma e serenamente, como até agora, que é possível enganar toda a gente durante todo o tempo?

Sei que Portugal, tal como outros, continua a mandar toneladas de peixe para a Guiné-Bisau. No entanto, o que os guineenses precisam é tão só de quem os ensine a pescar.

Sei que Portugal continua, tal como outros, a mandar montes de antibióticos para a Guiné-Bissau. Esquece-se, sobretudo porque tem a barriga cheia, que esses medicamentos só devem ser tomados depois de uma coisa essencial que os guineenses não têm: refeições.

Os deputados portugueses bem podem exigir, como fez Ribeiro e Castro do CDS/PP, a "reposição completa da normalidade constitucional", porque "nenhum povo escolhe ser um Estado falhado”.

Pena é que não estejam interessados, nem os deputados nem o governo, em acabar com a tentativa também praticada em Portugal de ensinar os guineenses a viver sem comer. É que um dias destes vão constatar que quando eles estavam quase, quase mesmo, a saber viver sem comer... morreram.

Portugal, já que a CPLP é uma miragem flutuante nos luxuosos areópagos da política de língua portuguesa, deveria dar força à única tese viável e que há muito foi defendida por Francisco Fadul e que aponta, enquanto é tempo, para “o envio de uma força multinacional, de intervenção que garantisse aquilo que é protegido pela Carta da ONU, que é a democracia e os Direitos Humanos".

Ao que parece, tanto os políticos guineenses como os donos do poder na comunidade internacional (CPLP, Portugal e similares) continuam pouco ou nada preocupados com o facto de os pobres guineenses (a esmagadora maioria) só conhecerem uma forma de deixarem de o ser.

E essa forma é usar, não um enxada, uma colher de pedreiro ou um computador, mas antes uma AK-47. E enquanto assim for...

Mas o que é que isso importa? Nada, como é óbvio. Aliás, depois da aprovação por unanimidade dos dois votos de condenação do atentado à ordem constitucional na Guiné-Bissau em 1 de Abril, os deputados portugueses devem ter ido para um fausto repasto num qualquer bom restaurante de Lisboa. A bem da Nação, é claro!

quinta-feira, maio 27, 2010

Uma moeda contra a fome

Após um encontro com a responsável do Banco Alimentar contra a Fome em Portugal, o escultor João Duarte decidiu primeiro perceber e entender que instituição era o Banco Alimentar.

Depois de alguma pesquisa chegou à seguinte conclusão: os Bancos Contra a Fome são uma resposta necessária ao artigo 25º da Declaração do Direitos do Homem. Possuem uma ética que assenta na gratuidade, na dádiva, na partilha, no voluntariado e no mecenato.

Assim, criou uma moeda “onde estes valores éticos estivessem representados em relevo. Coloquei duas mãos, representando o ser humano (Homem) e dois pedaços de pão (Alimento), pois o homem pode viver sem um abrigo, mas não pode viver sem o alimento”.

Várias mãos com o alimento estão em círculo (Roda), a fim de se dirigirem para o Centro da moeda (a dinâmica da Entrega), simbolizando uma enorme cadeia de solidariedade. À medida que as mãos vão caminhando para o centro da moeda vão diminuindo o seu tamanho, até entrarem no Banco. As mãos são modeladas em relevo, assim como as duas peças de pão que irão ser o elemento mais alto na moeda.


O lançamento de Uma Moeda contra a Fome, resulta de um protocolo entre a Federação dos Bancos Alimentares Contra a Fome e a Imprensa Nacional - Casa da Moeda (INCM) e é hoje colocada à venda aos balcões dos bancos aderentes, nas lojas da INCM e em www.incm.pt

A moeda com o valor facial de 1,50€, vai ser vendida em três versões: Corrente, FDC (Flor de Cunho) e Prata com acabamento proof.
§ Corrente – são cunhadas 100 mil exemplares, que começam hoje a ser distribuídas pelo Banco de Portugal
§ FDC (marcador de livro) – são cunhadas 100 mil exemplares com o preço de venda ao público de 5€, revertendo 1€ para o Banco Alimentar Contra a Fome
§ Prata proof – são cunhadas cinco mil exemplares, com um preço de venda de 40€.

Saberá Timor-Leste o que é Cabinda?

O embaixador da República Árabe Saaraui Democrática (RASD) para Timor-Leste, Mohamad Slama Badi, salientou hoje a importância comum do 20 de Maio, a data da criação da Frente Polisario e da restauração da independência timorense.

Será que alguma vez as autoridades timorenses vão dizer alguma coisa sobre a causa de Cabinda? Vão. Um dias destes, quando a cobardia internacional, com Portugal à cabeça, deixar de ser moeda de troca com o petróleo, chegará a vez de Cabinda, território ocupado por Angola desde a descolonização portuguesa.

“Temos muitas coisas em comum, incluindo a importância da data de 20 de Maio. É importante para nós porque é a data em que celebramos o nascimento da Frente Polisario e para vocês porque comemoram a restauração da independência”, sublinhou o diplomata.

Recordam-se de o Grupo de Apoio ao Tibete ter manifestado o seu “profundo desagrado” por o presidente de Timor-Leste ter “endossado a legitimidade da soberania chinesa” sobre aquele território, acusando José Ramos-Horta de desconhecer a “mais elementar história tibetana”?

É natural que Ramos-Horta não saiba a história do Tibete. Se, por exemplo, os mais altos representantes políticos de Portugal nada conhecem, ou fingem não conhecer, da história do seu país, é natural que o presidente timorense também seja ignorante nesta, como noutras, matérias

Em comunicado, a organização não governamental manifestou em Fevereiro deste ano a o seu “profundo desagrado relativamente a várias afirmações proferidas” pelo actual Presidente de Timor-Leste, por ocasião dos 70 anos sobre a entronização do Dalai Lama.

Em declarações à Agência Lusa, Ramos-Horta disse então que a principal virtude do Dalai Lama é ser contra qualquer acto de violência no Tibete, mas que a admiração pelo líder tibetano “não retira legitimidade à soberania chinesa em relação ao Tibete”.

A política de manutenção de tachos é mesmo assim. Por alguma razão o homólogo português de Ramos-Horta, Aníbal Cavaco Silva, também afirma que Angola vai de Cabinda ao Cunene, apesar de saber bem que Cabinda não faz parte de Angola.

Ao dar cobertura e ao ser conivente, como acontece com a China em relação ao Tibete, com as violações que o regime angolano leva a efeito contra o povo de Cabinda, Cavaco Silva está a prestar um mau serviço, sobretudo a Portugal.

Para além do Tibete, não seria mau que Portugal olhasse para Espanha e Angola para Marrocos. Ou seja, para a questão do Saara Ocidental, antiga colónia espanhola anexada em 1975 após a saída dos espanhóis, como parte integrante do reino de Marrocos que, entretanto, propõe uma ampla autonomia sob a sua soberania, embora excluindo a independência. Pelo contrário, a Frente Polisário, apoiada sobretudo pela Argélia, apela à realização de um referendo, em que a independência seria uma opção.

Mas, um dia destes ainda vamos ver Cavaco Silva e Ramos-Horta, entre muitos outros, entre quase todos, a dizer que devido a uma mudança no contexto geopolítico, Cabinda não é Angola e o Tibete não é China.

Quando não há democracia, se calhar
é preferível ser imbecil e criminoso...

“E não há dúvida nenhuma de que, aconteça o que acontecer, a imprensa, uma imprensa livre, continuará a ser um dos grandes pilares da democracia”, afirmou María Teresa Fernández de la Vega, na abertura do Congresso Mundial de Jornalistas “La Pepa 2012”, que decorre até amanhã em Cádis, Espanha.

Por outro lado, diz (ou dizia) uma regra fundamental do Jornalismo que se o jornalistas não procura saber o que se passa é um imbecil, e que se sabe o que se passa e se cala é um criminoso.

Vem isto a propósito do facto de o Tribunal Cível de Lisboa ter decidido manter a proibição de o semanário Sol publicar "conversas ou comunicações telefónicas" em que Rui Pedro Soares tenha participado.

A decisão do Tribunal Cível de Lisboa surge como resultado da providência cautelar apresentada pelo ex-administrador da PT após a publicação, a 5 de Fevereiro, de resumos de escutas do processo "Face Oculta", que – cito o Diário de Notícias, “alegadamente referem um plano para controlo de órgãos de comunicação social com conhecimento do Governo”.

O despacho, a que o DN teve acesso, considera que, ao contrário do que pretendia o autor da providência cautelar, as transcrições das escutas publicadas pelo semanário, extraídas do processo "Face Oculta", "não respeitam à vida íntima e privada" de Rui Pedro Soares.

Ao que me parece, os jornalistas do Sol não podem – no mínimo – ser considerados nem imbecis nem criminosos. Procuraram saber o que se passava e não se calaram.

Creio, por isso, que neste âmbito mostraram que a imprensa livre é de facto um pilar da democracia. O problema está quando, como parece ser também um facto em Portugal, a democracia não existe, ou existe de forma coxa e apenas formal.

Basta, aliás, recordar que até existe um deputado que rouba gravadores aos jornalistas, no caso Ricardo Rodrigues, do Partido Socialista, vice-presidente do Grupo Parlamentar e membro do Conselho Superior de Segurança Interna de Portugal.

Continuemos todos a cantar e a rir

É por estas e por muitas outras que muitos, cada vez mais, fogem sem pensar, e alguns (cada vez menos) pensam sem fugir...

quarta-feira, maio 26, 2010

As utopias de Isaías Samakuva

Isaías Samakuva, líder da UNITA, disse hoje que o MPLA necessita de rever os seus ideais e princípios porque eles não se ajustam às aspirações dos angolanos.

"O Governo não tem vontade, nem capacidade de resolver os problemas de água, luz, lixo, saúde e da educação. A juventude não tem casa, não tem educação, emprego e não tem futuro. Os trabalhadores têm salários em atraso e não conseguem obter crédito bancário, devido às altas taxas de juro praticadas pelos bancos", afirmou Isaías Samakuva,

Mas desde quando é que os ideais dos ditadores levam em conta as aspirações do povo? Estar 31 anos no poder, com o poder absoluto que tem nas mãos (é além de presidente da República e também líder MPLA e chefe do Governo), faz de José Eduardo dos Santos um dos ditadores ou, na melhor das hipóteses, um presidente autocrático, há mais tempo em exercício.

O facto de não ser caso único, nomeadamente em África, em nada abona a seu favor. Sabe todo o mundo, mas sobretudo e mais uma vez África, que se o poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente. É o caso em Angola. Mas ninguém se preocupa com isso.

Só em ditadura, mesmo que legitimada pelos votos comprados a um povo que quase sempre pensa com a barriga (vazia) e não com a cabeça, é possível estar tantos anos no poder. Em qualquer estado de direito democrático tal não seria possível.

Aliás, e Angola não foge infelizmente à regra, África é um alfobre constante e habitual de conflitos armados porque a falta de democraticidade obriga a que a alternância política seja conquistada pela linguagem das armas. Há obviamente outras razões, mas quando se julga que eleições são só por si sinónimo de democracia está-se a caminhar para a ditadura.

Com Eduardo dos Santos passa-se exactamente isso. A guerra legitimou tudo o que se consegue imaginar de mau. Permitiu ao actual presidente perpetuar-se no poder, tal como como permitiu que a UNITA dissesse que essa era (e pelo que se vai vendo até parece que teve razão) a única via para mudar de dono do país.

É claro que, é sempre assim nas ditaduras, o povo foi sempre e continua a ser (as eleições não alteraram a génese da ditadura, apenas a maquilharam) carne para canhão.

Por outro lado, a típica hipocrisia das grandes potências ocidentais, nomeadamente EUA e União Euopeia, ajudou a dotar José Eduardo dos Santos com o rótulo de grande estadista. Rótulo que não corresponde ao produto. Essa opção estratégica de norte-americanos e europeus tem, reconheça-se, razão de ser sobretudo no âmbito económico.

É muito mais fácil negociar com um regime ditatorial do que com um que seja democrático. É muito mais fácil negociar com alguém que, à partida, se sabe que irá estar na cadeira do poder durante toda a vida, do que com alguém que pode ao fim de um par de anos ser substituído pela livre escolha popular.

É, como acontece com José Eduardo dos Santos, muito mais fácil negociar com o líder de um clã que representa quase 100 por cento do Produto Interno Bruto, do que com alguém que não seja dono do país mas apenas, como acontece nas democracias, representante temporário do povo soberano.

Bem visível na caso angolano é o facto de, como em qualquer outra ditadura, quanto mais se tem mais se quer ter, seja no país ou noutro qualquer sítio. Por muito pequeno que seja o ditador, o que não é o caso de José Eduardo dos Santos, a História mostra-nos que tem sempre apreciável fortuna espalhada pelo mundo, seja em bens imobiliários (como era tradição) ou mais modernamente nos paraísos fiscais.

Reconheça-se, entretanto, a estatura política de José Eduardo dos Santos, visível sobretudo a partir do momento em que deixou de poder contar com Jonas Savimbi como o bode expiatório para tudo o que de mal se passava em Angola.

Desde 2002, o presidente vitalício (ao que parece) de Angola tem conseguido fingir que democratiza o país e, mais do que isso, conseguiu (embora não por mérito seu mas, isso sim, por demérito da UNITA) domesticar completamente todos aqueles que lhe poderiam fazer frente.

Não creio que, até pelo facto de o país ter estado em guerra dezenas de anos, José Eduardo dos Santos tenha as mãos limpas de sangue. Aliás, nenhuma ditador com 31 anos de permanência seguida no poder, tem as mãos limpas.

Mas essa também não é uma preocupação. Quando se tem milhões, pouco importa como estão as mãos. Aliás, esses milhões servem também para branquear, para limpar, para transplantar, para comprar (quase) tudo e (quase) todos.

Tudo isto é possível com alguma facilidade quando se é dono de um país rico e, dessa forma, se consegue tudo o que se quer. E quando aparecem pessoas que não estão à venda mas incomodam e ameaçam o trono, há sempre forma de as fazer chocar com uma bala.

Acresce, e nisso os angolanos não são diferentes dos portugueses ou de qulquer outro povo, que continua válida a tese de que “se não consegues vencê-los junta-te a eles”. Não admira por isso que José Eduardo dos Santos tenha mais alguns fiéis seguidores, sejam militares, políticos, empresários e até supostos jornalistas.

É claro que, enquanto isso, o Povo continua a ser gerado com fome, a nascer com fome, e a morrer pouco depois... com fome. E a fome, a miséria, as doenças, as assimetrias sociais são chagas imputáveis ao Poder. E quem está no poder há 31 anos é sempre o mesmo, José Eduardo dos Santos.