terça-feira, junho 05, 2007

Desculpas a Sérgio Neto e ao AngoNotícias

Em tempos escrevi uma crónica que desagradou ao preclaro e insigne Jornalista e responsável pelo AngoNotícias, Sérgio Neto. E ele tinha razão, pelo que aqui e agora lhe apresento as minhas desculpas, divulgando e (com o seu beneplácito) comentando o texto que teve a sublime gentileza de me enviar. Eu estava, de facto e de jure, enganado. Sérgio Neto mostrou-me como percebe tanto do exemplar Jornalismo angolano como do internacional, bem como dos meandros políticos da democracia angolana, para além das regras de um Estado de Direito Internacional que todos reconhecemos ser Angola.

«Apenas hoje tive oportunidade de ler a referencia que fez ao AngoNotícias num rabisco que assina para o NL. A boa moda do típico jornalismo português que redige sobre Angola, para o protagonismo e para o subsídio, acusa-se e difama-se sob a capa da liberdade de opinião, sempre que não há como provar o que se diz, por conseguinte, vindo de si, sinceramente não me espantou», afirma o douto Sérgio Neto.

Tem toda a razão. O que assino no NL (Notícias Lusófonas) não passa de um gatafunho, ainda por cima publicado num meio que só tem uma média de seis mil leitores por dia. Coisa pouca. Como catedrático do Jornalismo, Sérgio Neto diz – e bem – que no jornalismo português se escreve sobre Angola para procurar protagonismo e subsídio, acusando e difamando. Dou a mão à palmatória. É mesmo assim. Talvez, creio eu, por Portugal ainda não ter atingido o estádio democrático que Angola já atingiu.

«O surpreendente foi de facto o argumento (ou a falta de argumento) que utilizou. O senhor acusa-nos de estarmos ao serviço do MPLA alegando que publicamos e que vamos publicar até as eleições notícias de deserções de supostos simpatizantes afectos à Unita. Com certeza, abre o AngoNotícias errado, ou quem lê para si está a engana-lo no entanto, fico feliz em saber que a sua bola de cristal está com boas pilhas», salienta Sérgio Neto com rara capacidade cognitiva, apanágio aliás dos grandes mestres.

É bom de ver que o Angonotícias, como também o Jornal de Angola, a TPA ou a Angop não estão ao serviço do MPLA. Só quem vive numa democracia embrionária saída de um longo período de ditadura e partido único, como Portugal, é que se atreve a fazer um tal juízo de valor sobre Angola e sobre os seus insuspeitos órgãos de comunicação social.

«Fazendo fé num ditado vosso que diz que ‘quem não se sente não é filho de boa gente’ gostaria de frisar que nós publicamos o que faz notícia de momento em Angola, seja bom para o seu partido (ou para os seguidores de Jonas Savimbi) ou para o MPLA, e a nossa escolha recai para o que é destacado nas rádios públicas e privadas, nos jornais públicos e privados, bem como na televisão. Os visitantes mais atentos facilmente jáconstataram isso, e por outro lado, sabem que não editamos praticamente artigos porque esse não é o nosso objectivo. Portanto, qualquer possível tendência é muito natural dependendo de fonte para a fonte e é conhecida por todos, que tenham noção da actual realidade do país, como é óbvio», esclarece com raro sentido de oportunidade Sérgio Neto.

Este parágrafo, apesar da modéstia (típica dos grandes Jornalistas) de Sérgio Neto ao dizer que “não editamos praticamente artigos”, revela o altruísmo e o alto sentido de Estado de quem, embora apenas seleccionando notícias, o faz com a equidistância de quem há muito trabalha no Estado de Direito reconhecido como exemplar em todo o Mundo.

«O AngoNotícias deve ser visto como mais uma ferramenta que disponibilizainformação para ser consultada e comentada, portanto cabe ao visitante analisar, formar as suas ideias e expressar a sua opinião sobre o que está publicado. Como é óbvio não esperamos que seja o único elemento a ser consultado e por isso mesmo, nós próprios disponibilizamos na Internet o Semanário Angolense e o Jornal Angolense, e se tudo correr bem outros privados se seguiram, caso haja acordo, naturalmente», esclarece o responsável pelo AngoNotícias.

Devo, aliás, reconhecer que em nenhuma redacção da embrionária democracia portuguesa se passa sem ler e aprender com o Angonotícias, não só em matéria de informação como de isenção. É de facto uma ferramenta indispensável para todos os que, como eu, dão os primeiros passos no jornalismo.

«A desilusão foi de facto esperar de si, como suposto ilustre e conceituado jornalista, mesmo que critica, uma opinião, com alguma maturidade e seriedade, e em nada parecidas com as que estamos habituados a ler ou ouvir em típicas respostas desprovidas de conteúdo muito utilizadas por cá, mas pelo visto, engraxadores e críticos de aluguer deve haver em todo o lado, mudando apenas o endereço, o discurso e a entidade que paga o subsidio», comenta Sérgio neto.

Nem mais, caro Mestre. Desculpe as minhas falhas. Como já disse, a democracia portuguesa ainda é recente, o Estado de Direito ainda dá os primeiros passos e eu só ando nisto há 35 anos. Compreenderá, caro Sérgio Neto, que ainda temos muito a aprender com Angola.

«Por fim, aproveito para referir que o senhor na minha opinião é um bom exemplo de que mesmo com algum esforço, não basta nascer em Angola para conseguir fazer jornalismo a distancia sobre uma realidade que desconhece por completo. Não deslumbro nada de novo em nenhuma das suas intervenções, fico sempre com a ideia que o seu rádio parou no meio das notícias, e ainda por cima na melhor parte», diz Sérgio Neto.

Mais uma vez tem toda a razão. Como diz uma canção do Rui Veloso, o rádio de pilhas pifou e o quiosque estava fechado. É claro que não basta ter nascido em Angola para fazer Jornalismo. Tal como não basta ter dedos para saber contar, mesmo que seja só até dez.

«Com toda a sinceridade, nesse texto que tive a oportunidade de ler, a única ideia com que fiquei foi a de que gostaria de ver a comida do seu prato aumentada, mas nem isso conseguiu deixar claro. Aqui costumam ser mais efusivos, no entanto espero sinceramente que o seu esforço seja recompensado, cada qual como se costuma dizer aqui na terra usa o mataco para o que quer, desde que use o seu, é claro, portanto não tenho nada com isso», observa o responsável do AngoNotícias.

De facto, como mais uma vez muito bem diz, é tudo uma questão do que se tem no prato. Enquanto em Angola, por força de uma democracia consolidada e de um estado de Direito sólido, cada um come o que quer e onde quer, em Portugal ainda estamos na fase dos 30 angolares, fuba podre, peixe podre e porrada se refilares.

Por tudo isto, caro preclaro e insigne Jornalista e responsável pelo AngoNotícias, Sérgio Neto, peço-lhe que continue a ser benevolente para com os que ainda estão a aprender a viver em democracia e num estado de Direito. Nem todos, como compreende, podem ter a honra e o privilégio de trabalhar num oásis como Angola.

3 comentários:

Anónimo disse...

Ninguem tem o direito de insultar a Maria Eugénia Neto.
Muito menos deverão o fazer porque ela esteve sempre ao lado do esposo nos momentos fáceis e dificeis e ela não tem culpa de O presidente Neto se ter sacudido por razões de culpa, desconfiança ou luta pelo poder dos seus velhos companheiros de luta que na maior parte deles não estava nesta luta para ganhar dinheiro e muito menos ambicionar poder porque naquela altura com as suas formações e oriundos de familias alem de nacionalistas ,intelectualizados,cultos e não mendigos nem seventuarios não abraçaram a luta de libertação nem exigiram contrapartidas.
Contrariamente a muitos ditos genuinos que têm sido a vergonha pela sua conduta tanto ao longo das várias lutas de libertação até no exilio Europa ou África que se portem como autenticos primatas que não têm lucidez para avaliar o que é gênese de luta de libertação nacional.
O Agostinho Neto se cometeu erros não os cometeu sozinho.
Tambem muita gente quer sacudir a chuva da capota e muitos historiadores estão a aproveitar esse momento frágil para aniqilar uma tendencia política do mpla e emergir uma outra ou seja secar o passado da linha de Neto.

kim disse...

Olha se agora tive a magica ideia de ler esse artigo. Tanto tempo passado,mais resumo em uma unica palavra. (engraçados) nunca ri tanto na vida,como agora com essas paradas e respostas

Francis*PAC disse...

Bonita "parada".
Deambulando pela internet me deparei com esta "lição de democracia e jornalismo"...
Infelizmente é disprovida da segunda parte.

Serias deveras interessante um debate radio/televisivo entre vós. Afinal de contas se trata de dois jornalistas da praça cultural angolana.

"Sapere aude", nos vemos por aí.

Francis*PAC
www.angolaxyami.com