sábado, dezembro 12, 2009

Como faziam os Khmer Vermelhos, é preciso educar os jornalistas angolanos... e não só!

Pelo menos três órgãos de comunicação independentes, O Semanário Angolense, Radio Despertar e Ecclesia não foram autorizados a fazer cobertura do VI congresso do MPLA ao contrários de outros órgãos privados conotados com figuras do regime (O País, Radio Mais, TV Zimbo, LAC).

A democracia do MPLA é isso mesmo. Só entram os que estão com eles, os que dão garantias de que vão dizer apenas a verdade oficial do partido no poder desde 1975, do presidente que comando o país há 30 anos.

Ainda há pouco tempo, em Outubro, o ministro da Comunicação Social de Angola, Manuel Rabelais (foto), reiterou na cidade do Uíge o apelo aos profissionais angolanos para praticarem um jornalismo objectivo, sério, isento, responsável e patriótico que respeite as disposições legais e os princípios deontológicos.

Cá para mim, o melhor era pôr um dos muitos generais das Forças Armadas a dar “Educação Patriótica” aos jornalistas. Não, não é brincadeira. Angola, trinta e tal anos depois da independência, tem uma estrutura militar, tal como em qualquer ditadura marxista ao estilo dos Khmer Vermelhos de Pol Pot, para a “Educação Patriótica”.

"Este conjunto de diplomas legais e outros ainda por elaborar irão conformar as balizas dentro das quais o exercício da actividade jornalística deverá efectuar-se de forma legal, respeitando as outras liberdades e os direitos de cada um", recordou então o ministro.

E recordou bem. É que alguns jornalistas angolanos teimam em julgar que exercem a profissão num Estado de Direito Democrático. Ora isso não é verdade. E é preciso recordar-lhes o dever patriótico que têm em relação aos donos do poder, o MPLA desde 1975, e não em relação ao Povo.

"Os órgãos de comunicação social e os jornalistas devem, no cumprimento da sua missão social, conformar a sua acção não só aos princípios ético-deontológicos, como também ao princípio da responsabilidade social e patriótico", frisou o ministro.

Portanto, caros companheiros, essa coisa dos princípios ético-deontológicos é muito bonita mas está subordinada ao “princípio da responsabilidade social e patriótico" o que, traduzindo, significa respeitinho pelos manuais do MPLA.

Recordam-se que o Jornalista Victor Silva foi impedido de comentar na Rádio Nacional de Angola por ter posto em causa a capacidade de alguns membros do Governo na gestão dos sectores a que são afectos?

Recordam-se do que se passou com o Zeca Martins, um comentador desportisvo que havia questionado a paralisação do girabola em favor das festividades do aniversário do Presidente da República?

O Ministro Manuel Rabelais cujos excessos não são relatados pelos órgãos de imprensa em Angola (pudera!) é descrito em “off” pela classe jornalística como uma individualidade que não aceita críticas até porque, como quase todo o MPLA, é dono da verdade.

E enquanto continua a educação patriótica dos jornalistas, deixem-me pedir uma resposta para as seguintes questões: Prender jornalistas de meios privados, ameaçar jornalistas de meios privados, comprar jornalistas de meios privados, significa o quê?

Apoiar o nascimento de meios supostamente privados mas sustentados pelo erário público, mandar os sipaios do MPLA no exterior chegar a roupa ao pelo aos jornalistas que não se deixam comprar, usar o poder económico e financeiro de gente do poder para que algumas empresas estrangeiras lembrem aos seus colaboradores que devem comer e calar, significa o quê?

Se calhar, digo eu, este é um bom assunto para ser analisado pela recém criada Federação dos Jornalistas de Língua Portuguesa.

Nota final: As semelhanças com o que se passa em Portugal (não) são mera coincidência...

1 comentário:

Fada do bosque disse...

Além de ter gostado muito do artigo, a nota final, supera tudo! :)