domingo, janeiro 31, 2010

Ela (ainda bem para alguns) come tudo

A empresária angolana Isabel dos Santos comprou 10% da Zon Multimédia, tornando-se assim accionista de referência da empresa. Gastou a módica quantia de 163,8 milhões de euros. Creio que o clã Eduardo dos Santos, para evitar negócios a retalho, lançará em breve uma Oferta Pública de Aquisição sobre Portugal.

Esta transacção reforça a parceria já existente entre a operadora portuguesa e o universo empresarial da filha daquele que é presidente, não eleito, de Angola há 31 anos, José Eduardo dos Santos.

Os investimentos angolanos no mercado de capitais português, que se restringem aos da Sonangol e de Isabel dos Santos, valiam 1813 milhões de euros no início de Setembro, o que representa três por cento do total da capitalização bolsista do principal índice, o PSI 20.

Enquanto isso, 68% (68 em cada 100) dos angolanos são gerados com fome, nascem com fome e morrem pouco depois com fome. 45% das crianças angolanas sofrem de má nutrição crónica, uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos. No “ranking” que analisa a corrupção em 180 países, Angola está na posição 158.

Em Angola, a dependência sócio-económica a favores, privilégios e bens, ou seja, o cabritismo, é o método utilizado pelo MPLA para amordaçar os angolanos, o silêncio de muitos, ou omissão, deve-se à coação e às ameaças do partido que está no poder desde 1975.

Angola disponibiliza apenas 3 a 6% do seu orçamento para a saúde dos seus cidadãos. Este dinheiro não chega sequer para atender 20% da população, o que torna o Serviço Nacional de Saúde inoperante e presa fácil de interesses particulares.

Em Angola, 76% da população vive em 27% do território. Mais de 80% do Produto Interno Bruto é produzido por estrangeiros; mais de 90% da riqueza nacional privada foi subtraída do erário público e está concentrada em menos de 0,5% de uma população de cerca de 18 milhões de angolanos.

Em Angola, o acesso à boa educação, aos condomínios, ao capital accionista dos bancos e das seguradoras, aos grandes negócios, às licitações dos blocos petrolíferos, está limitado a um grupo muito restrito de famílias ligadas ao regime no poder.

Segundo um estudo do insuspeito Ministério angolano da Família e Promoção da Mulher (MINFAMU) há muitas famílias angolanas a (sobre)viver de “restos de alimentos” que adquirem nos mercados de Luanda.

Mas tudo isto pouco importa. O relevante é a filha do presidente da República e do MPLA (partido que desgoverna Angola há 35 anos), ter gasto só nesta operação 163,8 milhões de euros.

Quantas pessoas poderiam ser alimentadas dignamente com, é apenas um dos muitos exemplos, os 163,8 milhões de euros? Mas o que é que isso interessa?

Eu sei que a maioria dos angolanos continua a passar fome, mas se José Eduardo dos Santos está mais preocupado em comprar, ou colonizar, Portugal do que em dar de comer ao povo, quem sou eu para contestar?

Tomo até a liberdade de sugerir a ementa para o repasto em que Portugal entregue as chaves do país ao clã Eduardo dos Santos:

Trufas pretas, caranguejos gigantes, cordeiro assado com cogumelos, bolbos de lírio de Inverno, supremos de galinha com espuma de raiz de beterraba e uma selecção de queijos acompanhados de mel e amêndoas caramelizadas, com cinco vinhos diferentes, entre os quais um Château-Grillet 2005.

1 comentário:

Fada do bosque disse...

Já faltou menos Orlando... já faltou menos. tenho a impressão de que se isso acontecesse, o povinho ficava... como está! impávido e sereno!
Pois então não é que para lá caminhamos a passos largos e só o Orlando e mais uns pouquitos, se queixam do assunto?! Tá tudo na maior! Não se passa nada, caro Amigo!