quinta-feira, outubro 15, 2009

Lutar até aprender a viver sem comer

Comecei esta aventura há pouco mais de três anos. Passados 1 139 textos publicados e 314 mil visitas volta a ser oportundo dizer obrigado a todos os que por cá passam, mandando-lhes um forte kandandu.

Dizer o que penso ser a verdade é um dos melhores predicados que sigo, se bem que na maior parte das vezes apenas sirva para me criar dores de cabeça e tenha estado na origem do meu desemprego.

Por estes textos a minha liberdade é (quase) total. E é só quase total porque melhor do que pensar (e escrever) livremente é pensar (e escrever) com rectidão, é ter a noção de que a minha liberdade termina onde começa a dos outros. Não esquecendo, obviamente, que a liberdade dos outros (mesmo que sejam donos do país) termina onde começa a minha.

Em Angola, onde nasci, vive, amei e aprendi a sofrer (or muito que isso custe a acéfalos e inéptos desta e de outras praças), aprendi também que devo ser o que sou e não o que os outros querem que eu seja... mesmo quando vão subindo o preço da compra.

Tem sido uma tarefa complicada, tão forte é a pressão dos que nos querem acéfalos, autómatos e, como se isso não bastasse, invertebrados também. Vamos lá ver se me aguento.

É claro que entre as ruas do Bairro de Benfica (foi aí, junto à Escola Primária, que a parteira Maria de Lupes me deu uma mão) da então Nova Lisboa e a cidade Alta (a terceira rua à direita a seguir ao Colégio das Madres, a caminho do aeroporto, foi a última etapa de um sonho) fui aprendendo outras coisas.

Aprendi, por exemplo, que importantes são todos aqueles (e serão certamente alguns) que nos estendem a mão se um dia tropeçarmos numa pedra. Tenho tropeçado muitas vezes e são cada ves menos as mãos que se estendem para me ajudar.

Mas também aprendi que mais importantes são todos aqueles (e serão certamente poucos) que tiram a pedra antes de passarmos e que dificilmente saberemos quem são. Paralelamente sei quem são alguns dos que se não cansam de atirar calhaus, embora eles escondam a pata.

No então Liceu Nacional General Norton de Matos (que saudades Professora Dorinda Agualusa, que saudades!) aprendi coisas que estão arquivadas no disco duro da memória e outras que estão on line. Todas me ajudam a compreender que o possível se faz sem esforço, tal como me permitem entender que a obra-prima do Mestre não é a mesma coisa que a prima do mestre de obras. Infelizmente nem todos a distinguem.

E os que a não distinguem são, por enquanto, os que melhor se deram na vida. Porque será?

Infelizmente muitos de nós (já para não falar de muitos dos outros) continuam a pôr as ideias de poder acima do poder das ideias. Confundem sempre de acordo com a confusão do capataz. Deles será, creio, o reino dos Céus... para além do reino terreno dos tachos, dos bens empregos, do parasitismo pago a bom preço.

Foi também lá longe (lá longe onde a saudade castiga mais) que aprendi que não basta ter a faca e o queijo na mão... é preciso ainda tê-los no sítio. Coisa rara, convenhamos.

Entre dias sem pão e pão sem dias, lá fui e lá vou (assim dizia João Charulla de Azevedo) projectando o melhor, esperando o pior e aceitando de ânimo igual o que Deus quiser.

Mas o que mais conta é que, salvo retoques externos de embalagem, continuo no essencial a acreditar no (im)possível. É por isso que continuo a tentar dar voz a quem a não tem e que, reconheçamos, são cada vez mais. Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), mais de sete milhões de angolanos passam fome...

O Alto Hama acredita, muitas vezes com grande dificuldade, que só é derrotado quem desiste de lutar. E só desistirá de lutar quando aprender a viver sem comer...

4 comentários:

Fada do bosque disse...

Esse texto, mexe muito com o coração Orlando... estou completamente solidária, com essa sua maneira de ser, que hoje em dia já consideramos heroísmo puro, de uma alma pura. Precisace-me muito de força e convicção no Mundo e o Orlando transmite essa força a que chamo Fé... e a Fé move montanhas, quero eu acreditar também!...

Fada do bosque disse...

Eu nã lhe digo, que é GRANDE JORNALISTA, ORLANDO? pois É!

ELCAlmeida disse...

Ué!... Não te estás a fazer ao piso de abandonar este barco, pois não?
Espero que isto não seja mais que um devaneio a te recordares que ainda há muito por fazer.
Quanto mais não seja que a natural extensão da pena que anda, infelizmente, um pouco adormecida.
Kdd
EA

Carla Teixeira disse...

Bom dia, Orlando!

Quero aqui subscrever todas estas palavras, sentidas e verdadeiras, livres ainda que tomadas por muitos como idealistas ou demagógicas, e dizer-te que, na pequenez das minhas possibilidades, estou aqui para te ajudar no que puder, nem que seja apenas por te dizer que és um ídolo para mim. Pelo Jornalismo de causas, de entrega e de amor que fazes, mas sobretudo pela grandeza do homem que és. Obrigada por me ensinares, todos os dias, um pouco mais do que é viver com dignidade, mesmo que com o pé descalço.

Beijo grande.

Não sei se deixaste de me visitar no Mente Despenteada III, se houve motivo para isso que possa ser-me imputado, mas sinto falta dos teus comentários...