domingo, setembro 06, 2009

Bestial? Ditador vivo. Besta? Ditador morto

O (pelo menos aparante) optimismo político que se vive na Guiné-Bissau com a tomada de posse do novo Presidente, Malam Bacai Sanhá, na terça-feira, não pode – diz o secretário-executivo da Comunidade Países de Língua Portuguesa (CPLP), Domingos Simões Pereira, ser desperdiçado pelos actores internos envolvidos.

E diz bem. Aliás, se há coisa que desde sempre a CPLP fez bem foi dar palpites. O que se lhe pede não é exactamente isso mas, antes, fazer obra. Estar no terreno, actuar. Mas como isso parece uma missão impossível... fiquemos com as palavras.

O secretário executivo disse que "o fim da transição cria grandes expectativas. Há muito tempo que a Guiné-Bissau não tem um momento destes, em que todo o debate político está marcado para daqui a quatro anos".

Ao contrário do que diz Domingos Simões Pereira, penso que o problema da Guiné-Bissau nunca foi o debate político mas, antes, a subordinação do poder político aos militares quando, calculo, o inverso é que deveria estar correcto.

É claro que, em África de uma forma geral e na lusófona em particular, raramente se faz o que deveria ser correcto. Se calhar não é defeito, é virtude...

"O presidente Malam Bacai Sanhá, recém-eleito, está bem posicionado, é um senhor que tem um percurso político muito especial e, portanto, tem em suas mãos a obrigação de interpretar correctamente o momento e colocar-se, não só à disposição do Governo, mas também das outras forças e do próprio povo, criar consensos possíveis e assegurar a estabilidade", indicou Domingos Simões Pereira.


Conheço Malam Bacai Sanhá e sei que se depender dele o povo terá voz e o país começará a caminhar no sentido de ser, primeiro um efectivo estado e, depois, um estado direito. Tenho, contudo, dúvidas que essas diferentes etapas não vão colidir com os interesses instalados, sobretudo com aqueles que dialogam com a mão a segurar uma Kalashnikov.

Simões Pereira referiu que a CPLP investe no sentido de que todos os Estados-membros "participem do esforço comum de construção da comunidade" lusófona. Treta, como é óbvio.

Aliás, vai ser curiodo ver que a CPLP passará a partir de 2010 a ser presidida por Angola, e por inerência pelo seu Presidente que no contexto da organização é o único chefe de Estado não eleito e dos mais antigos (30 anos) no poder em todo o mundo.

Dando de barato que os Estados-membros da CPLP vão dizer que participam no esforço guineense, resta saber o que vai acontecer se a máquina descarrilar, hipótese que no caso guineenses é mais do que provável tal é o seu histórico.

Provavelmente vamos voltar a assistir ao carpir de lágrimas de jacaré e à reedição da velha teoria (também) lusófona de que ditador no poder é bestial, ditador morto é besta.

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