
Um manifesto que, apesar de lançado só no passado dia 2, conseguiu até agora mais de 33.000 assinaturas, não pode ser qualificado de relativo sucesso. Se fosse correcta a qualificação de Renato Epifânio, o que se deveria dizer da petição do MIL que, em dois meses, conseguiu 900 assinaturas?
Renato Epifânio alega, legitimamente, que “a maior parte das pessoas é pouco sensível a essa "visão estratégica", preocupando-se apenas com a "língua portuguesa" em particular – não com a Lusofonia como um todo”.
Será? Não creio. Há, pelo menos uma dúzia de anos, que muito boa gente que pugna pela Lusofonia e que tem dela uma “visão estratégica” e que, nesta matéria, está contra o Acordo Ortográfico. Gente que, reforce-se em abono da verdade, não chegou agora à Lusofonia e que por ela tem dado o que tem e o que não tem.
Renato Epifânio argumenta que os que são contra o Acordo «são indiferentes ao facto, totalmente absurdo, de, actualmente, nos fóruns internacionais, como na ONU, os documentos terem que ser traduzidos para "duas línguas": "a portuguesa" e "a brasileira"».
Creio que o director da Nova Águia está a confundir a estrada de Beira com a beira de estrada. É que, mesmo que o assunto se passe em importantes areópagos da política internacional como a ONU, o erro está no facto de se aceitar que há duas línguas e não, como seria correcto, apenas uma – o português.
Se assim não for, um dia destes (até pela força, também estratégica, do petróleo) ainda vamos ver os documentos da ONU a ser traduzidos em três línguas: “a portuguesa”, “a brasileira” e “a angolana”.
Querer, nesta como em qualquer outra questão, dizer que uma ditadura passa a democracia só porque tem do seu lado a maioria dos falantes, não me convence. Poderá ser uma batalha perdida, tal é a desproporção das forças. Que seja. Mas com luta. Até porque, nesta ou em qualquer outra matéria, só é derrotado quem deixa de lutar.
Renato Epifânio também argumenta que “há uma razão ainda mais prosaica para a maior parte das pessoas estar relutante em relação ao Acordo: quando este for finalmente implementado, as pessoas vão ter que "reciclar" o seu modo de escrever. Ora, isso dá trabalho. É muito mais "convincente" defender que tudo deve ficar na mesma…”.
Pela minha parte, se acaso estivesse na dúvida, teria neste último argumento uma forte razão para estar contra o Acordo Ortográfico. Essa de os que são contra serem uns parasitas, é de bradar aos céus e reveladora de que quando se perde a força da razão opta-se, como está nos manuais de quaquer ditadura, pela razão da força.
Renato Epifânio alega, legitimamente, que “a maior parte das pessoas é pouco sensível a essa "visão estratégica", preocupando-se apenas com a "língua portuguesa" em particular – não com a Lusofonia como um todo”.
Será? Não creio. Há, pelo menos uma dúzia de anos, que muito boa gente que pugna pela Lusofonia e que tem dela uma “visão estratégica” e que, nesta matéria, está contra o Acordo Ortográfico. Gente que, reforce-se em abono da verdade, não chegou agora à Lusofonia e que por ela tem dado o que tem e o que não tem.
Renato Epifânio argumenta que os que são contra o Acordo «são indiferentes ao facto, totalmente absurdo, de, actualmente, nos fóruns internacionais, como na ONU, os documentos terem que ser traduzidos para "duas línguas": "a portuguesa" e "a brasileira"».
Creio que o director da Nova Águia está a confundir a estrada de Beira com a beira de estrada. É que, mesmo que o assunto se passe em importantes areópagos da política internacional como a ONU, o erro está no facto de se aceitar que há duas línguas e não, como seria correcto, apenas uma – o português.
Se assim não for, um dia destes (até pela força, também estratégica, do petróleo) ainda vamos ver os documentos da ONU a ser traduzidos em três línguas: “a portuguesa”, “a brasileira” e “a angolana”.
Querer, nesta como em qualquer outra questão, dizer que uma ditadura passa a democracia só porque tem do seu lado a maioria dos falantes, não me convence. Poderá ser uma batalha perdida, tal é a desproporção das forças. Que seja. Mas com luta. Até porque, nesta ou em qualquer outra matéria, só é derrotado quem deixa de lutar.
Renato Epifânio também argumenta que “há uma razão ainda mais prosaica para a maior parte das pessoas estar relutante em relação ao Acordo: quando este for finalmente implementado, as pessoas vão ter que "reciclar" o seu modo de escrever. Ora, isso dá trabalho. É muito mais "convincente" defender que tudo deve ficar na mesma…”.
Pela minha parte, se acaso estivesse na dúvida, teria neste último argumento uma forte razão para estar contra o Acordo Ortográfico. Essa de os que são contra serem uns parasitas, é de bradar aos céus e reveladora de que quando se perde a força da razão opta-se, como está nos manuais de quaquer ditadura, pela razão da força.
2 comentários:
O mais caricato é que a ONU tem os dias contados.
Os senhores brasileiros que não tenham muitas ilusões.
Sacrificar a Língua pela ONU! A que propósito??
ONU é cada vez mais decoração pseudo-filantrópica à bolina dos caprichos dos EU. E cada vez mais é relativo o seu papel na resolução de conflitos. E cada vez mais é aquilo que é fachada. Será para isso que iremos ter uma Língua de Fachada também.
PS.: Esses senhores pró-acordo são uma espécie de Fammes-fateis desesperados pela fama e visibilidade que pelo seu mérito nunca se proporcionou dado os seus erros de escolher o "amiguinho certo".
A Língua portuguesa está a passar por um período de implantação, quer nos países Africanos de Língua Portuguesa, quer em Timor Leste. Na Guiné-Bissau esteve até para ser adoptado o Francês como língua oficial e em Timor-Leste o Inglês. Daí será fácil concluir que a língua portuguesa nas nossas ex-colónias não ficou muito bem cimentada. Esses países já não são colónias portuguesas, são livres e tanto poderão seguir o português falado em Portugal, por 10 milhões de habitantes, como o português falado no Brasil, por 220 milhões.
Se Portugal teimar em não se aproximar da versão de português do Brasil sujeita-se a ficar só e, mesmo assim, não vai conseguir manter a pureza da língua porque ela evolui todos os dias, independentemente da questão que agora se nos põe: todos os dias há termos que caem em desuso e outros novos que são adoptados pela nossa língua, em especial termos ingleses que são adoptados sem quaisquer modificações.
Se não houver aproximações sucessivas ambas as versões do português continuarão a divergir e daqui a algumas gerações serão línguas completamente distintas. Será então a altura de Portugal confirmar que saiu a perder porque ficou agarrado a um tabu que não conseguiu ultrapassar.
O Brasil tem um impacto muito maior no mundo do que Portugal, dada a sua dimensão, população e poderio económico que em breve irá ter. O nosso português tem hoje algum peso muito em função dos novos países africanos PALOPs ) e de Timor Leste, mas ninguém garante que esses países não venham um dia a aproximar o seu português da versão brasileira e há até já alguns sinais nesse sentido. A população do Brasil permite altas tiragens das publicações que ficarão mais baratas e, se houver maior harmonização, as editoras portuguesas (e amanhã dos PALOPs ) poderão vender mais no Brasil.
Se Portugal permanecer imutável um dia poderá ficar só: a língua portuguesa de Portugal será então considerada uma respeitável língua antiga (o Grego é ainda mais), da qual derivou uma outra falada e escrita por centenas de milhões de habitantes neste planeta. O nosso orgulho ficar-se-á por aí e pronto!
Ambas as versões de português têm uma raiz comum e divergem há cerca de duzentos anos. Outros duzentos e já não nos entenderemos: terão que ser consideradas duas línguas distintas.
O acordo ortográfico é uma decisão apenas política e quanto aos linguistas, apenas terão que assimilar as alterações e segui-las. Não se poderá alterar por decreto que uma molécula de água passa a ter dois átomos de oxigénio e outros dois de hidrogénio; ou que 5 vezes 5 passa a ser 28. Mas poderá alterar-se por decreto a grafia de "acção" para "ação" e quem não aceitar a alteração passa a cometer um erro. Com todo o respeito, mas também não são os Juizes que legislam, apenas têm que interpretar e aplicar as leis.
Portugal nada ganhará de imediato com a alteração mas tem muito a perder no futuro se rejeitar agora o acordo que o Brasil está disposto a aceitar.
Ah! já agora, poderá e muito bem continuar a escrever "de facto" porque soletramos o "c". Apenas se eliminam as letras mudas. Neste caso passam a ser permitidas duas formas, pois no Brasil não pronunciam o "c" e por isso não o irão escrever.
Zé da Burra o Alentejano
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