São boas notícias para as partes envolvidas. As coisas, apesar de tudo, não terão corrido tão bem como o inicialmente previsto, isto porque o presidente da Sonae, Paulo Azevedo, anunciou há um ano (dia 17 de Março de 2010) que a entrada da empresa no mercado angolano poderia acontecer já em 2010.
Angola é um dos países lusófonos com maior taxa de mortalidade infantil e materna e de gravidez na adolescência, segundo o mais recente relatório das Nações Unidas.
Mas o que é que isso importa no âmbito dos negócios entre Isabel dos Santos (filha, recorde-se, daquele que é o presidente do MPLA) e a Sonae?
Importante é saber de facto que a Sonae vai avançar com o lançamento, entre outras iniciativas, dos hipermercados Continente em Angola, mesmo sabendo-se que o regime é um dos mais corruptos do mundo. Ou será por isso mesmo?
E se Belmiro de Azevedo chamou ditador a Cavaco Silva não sei o que chamará a José Eduardo dos Santos. Mas isso é irrelevante porque, desde logo, quem manda na Sonae é Paulo Azevedo e o que importa é o "Hello tomorrow" (olá amanhã), rapidamente e em força para... Angola.
Em cada mil crianças nascidas em Angola, 131 morrem antes de atingir o primeiro ano de vida, a taxa mais elevada entre os países lusófonos e de toda a África Austral.
Mas o que é que isso importa no âmbito dos negócios entre Isabel dos Santos (filha, recorde-se, daquele que também é o chefe do Governo) e a Sonae?
De acordo com o relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), numa escala de 0 a 100, Angola apresenta um índice de desigualdade entre ricos e pobres de 58,6, os mais pobres (perto de 70% da população) têm uma taxa de consumo de 0,6 por cento enquanto a dos ricos é de 44,7 por cento.
45% das crianças angolanas sofrem de má nutrição crónica, uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos. Mas o que é que isso importa?
76% da população vive em 27% do território. Mais de 80% do Produto Interno Bruto é produzido por estrangeiros; mais de 90% da riqueza nacional privada foi subtraída do erário público e está concentrada em menos de 0,5% de uma população de cerca de 18 milhões de angolanos.
Mas o que é que isso importa? Sim! O que é que isso importa?
Aliás, muitos dos angolanos (70% da população vive na miséria) que raramente sabem o que é uma refeição, poderão certamente fazer incursões ao Continente, ou melhor, aos caixotes do lixo do Continente e lá encontrar restos quase novos de comida.
Portanto... não se queixem. A Sonae não é uma empresa filantrópica e, por isso, negoceia com os donos do poder e, no caso de Angola, do país. E, como sempre, é muito mais fácil negociar com dirigentes vitalícios do que com os que resultam de uma vida democrática.
Também é verdade que se a comunidade internacional não se preocupa com o facto de, em Angola, poucos terem cada vez mais milhões e cada vez mais milhões terem pouco ou nada, porque carga de chuva deveria ser a Sonae a preocupar-se?
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